COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA QUARESMA – A LEI E OS PROFETAS – 01.03.2026
Caros Confrades,
Neste 2º
domingo da quaresma, a liturgia nos traz a narração da
transfiguração de Cristo perante três dos seus apóstolos. Após
abordar a temática das “tentações” de Cristo, no domingo
passado, a liturgia agora faz uma antecipada demonstração da sua
futura glória. A promessa de Javeh a Abrão, dizendo que a sua
descendência seria abençoada e preencheria toda a terra, está na
origem de toda a tradição judaico-cristã, que tem seu ponto
culminante na pessoa de Jesus Cristo. E nesse tempo de penitência,
recordamos a recomendação de Paulo a Timóteo, para que cada um
suporte os sofrimentos decorrentes da pregação do evangelho, tal
como ele (Paulo) também está sofrendo como prisioneiro dos romanos.
Na primeira leitura de hoje, lemos o desafio que Javeh lança a Abrão: sai de tua terra e vai para o lugar que eu vou te indicar; farei de ti um grande povo e em ti abençoarei todas as famílias da terra. (Gn 12, 2) De acordo com os estudos de hebraico bíblico, que fiz no Instituto Bíblico de Israel, o nome do livro, que nós chamamos Gênesis, no idioma original se diz Bereshit e significa “no início”, ou “no princípio”. O nome Gênesis foi atribuído na tradução grega deste livro e lembra logo a ideia de criação do mundo. No entanto, verificamos que a narração da criação ocupa apenas os dois primeiros capítulos. A partir do cap. 3, inicia-se a história de Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, os primeiros povos até chegar ao personagem Abraão, no cap. 11. A leitura deste domingo, do cap. 12, narra os primórdios da aliança de Javeh com o povo hebreu, através do patriarca Abrão. Conclui-se que o título 'gênesis' não tem muita relação com o conteúdo da maior parte dos 50 capítulos deste livro, sendo o nome Princípio ou Início muito mais adequado. O objetivo do autor sagrado, neste escrito, foi mostrar o início do povo de Deus, a origem da aliança de Javeh com os patriarcas, não propriamente a criação do mundo. Daí a importância de se conhecer as línguas antigas, a fim de compreender melhor os textos da escritura, o que não se percebe quando se depende apenas de traduções. Diz o autor de Bereshit que Abrão partiu para uma terra distante e fez conforme o Senhor havia dito.
O autor sagrado quer destacar, nesse contexto, duas coisas: em primeiro lugar, a fé inabalável do seu patriarca Abrão, cujo nome foi depois mudado para Abraão. Ele não sabia para onde iria, porque Javeh deveria indicar isso quando já estivesse a caminho, mas assim mesmo, com toda a confiança, ele deixou o seu lugar natal (Ur, na Caldeia) e foi, com toda a sua família, seus escravos, seus rebanhos e seus bens, pois era um homem rico, seguindo as ordens de Javeh. Em segundo lugar, essas narrativas também serviam para explicar ao povo hebreu, descendente dos patriarcas, o motivo de serem eles um povo nômade. Ainda hoje, no território que atravessa o deserto do Saara, há os povos nômades. O hagiógrafo do Bereshit quer justificar para o povo que o nomadismo faz parte de uma missão, de uma promessa, de um trato realizado por seus ancestrais, por isso eles não se fixam em nenhum território. A ligação desse texto com o evangelho do dia (narrativa da transfiguração de Jesus) está na referência de ser Cristo o ponto culminante daquela primitiva aliança, o cumprimento perfeito da promessa feita por Javeh aos primeiros patriarcas.
Na segunda leitura, Paulo exorta seu discípulo Timóteo e lhe recomenda sofrer com paciência as agruras decorrentes da pregação do Evangelho. Timóteo fora colocado por Paulo como dirigente da comunidade que ele (Paulo) criou em Éfeso e, por extensão, dirigente das comunidades de toda a Ásia Menor, região que hoje corresponde à Turquia. Paulo estava preso e era levado para Roma, a fim de ser julgado pelo imperador, tendo deixado com Timóteo a árdua missão de ser o continuador do trabalho dele, pois Paulo sabia que não mais retornaria ali. Naquela ocasião, Timóteo enfrentava um sério problema com os judeus adversários de Paulo, que haviam sido responsáveis pela sua prisão. E não eram apenas perseguições ideológicas, mas incluía também ameaças físicas. Paulo tomou conhecimento desses fatos e, através de carta dirigida a Timóteo, exorta-o a perseverar na fé assim como ele, Paulo, também estava preso por causa do evangelho, mas confiava na promessa de Cristo que, ao vencer a morte, trouxe a imortalidade para os seus seguidores. “A graça de Deus nos foi dada por Jesus Cristo para toda a eternidade.” A tenacidade de Paulo, de Timóteo, de Tito e dos primeiros líderes cristãos daquelas comunidades foi altamente importante para a continuidade do cristianismo, o que possibilitou seu avanço até os dias de hoje.
Na leitura do evangelho de Mateus (17, 1-9), temos a narração da transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João. Primeiramente, podemos refletir sobre a escolha desses três, isto é, por que Jesus não se transfigurou diante de todos os apóstolos? Certamente, eram esses três os que mereciam sua maior confiança. Pedro já estava escolhido para ser o líder do grupo e Jesus o preparava para essa missão. João era o discípulo mais jovem, aquele em que Jesus depositava total confiança. Quanto a Tiago, havia dois discípulos com esse nome. O evangelista Mateus diz que quem estava no trio era o Tiago (maior) filho de Zebedeu, irmão de João, porém os outros dois evangelhos sinóticos (Marcos 9, 2 e Lucas 9, 28) não afirmam se era este mesmo ou o outro Tiago (menor) filho de Alfeu. Este último é considerado, por algumas tradições, como 'irmão” de Jesus, deixando assim uma dúvida sobre a identidade do terceiro discípulo a presenciar aquele extraordinário fenômeno. Se levarmos em consideração o grau de parentesco, podemos supor que o Tiago referido na narração da transfiguração seja o outro, o irmão de Jesus, não o irmão de João.
Importa explicar aqui nesse contexto o significado de “irmão”, pois isso é motivo de polêmicas entre algumas igrejas cristãs. Com efeito, a palavra grega “adelphos”, que se traduz geralmente por irmão, também significava primo, meio-irmão, irmão de criação, ou seja, um parentesco bastante próximo, não necessariamente irmão consanguíneo, filho do mesmo pai e da mesma mãe. Sou levado a crer que o Tiago do trio que presenciou a configuração poderia ser este Tiago Adelphos, o menor, e não o filho de Zebedeu, irmão de João. Isso entra em choque com o texto de Mateus, mas os motivos que acima destaquei me levam a sustentar a segunda hipótese, com todo o respeito. Trata-se de uma questão polêmica, sem dúvida, mas não se deve interpretar o texto bíblico de forma puramente literal, e sim buscando elementos circunstanciais que auxiliem a uma compreensão mais ampla. Devemos considerar que, durante séculos, esses textos passaram pelas mãos de vários copistas e não se descarta a eventual possibilidade de ter havido pequenas alterações ou adaptações do texto primitivo, involuntárias ou voluntárias.
Um outro ponto a se destacar no texto da narração da transfiguração é a metamorfose de Jesus ante a presença de dois personagens da tradição hebraica: Moisés e Elias. Eles representam, respectivamente, a Lei e os Profetas. Diz o narrador que a face de Jesus ficou resplendente igual ao sol e as suas roupas brancas brilhantes como a luz. Os biblistas também comentam que a aparição de Moisés e Elias junto de Jesus tem uma particularidade: esses dois personagens “não morreram”, sinalizando de modo indireto para a ressurreição de Jesus. Sobre Elias, a Bíblia relata que ele foi arrebatado num carro de fogo (vide 2Rs 2, 10). Sobre Moisés, o fato de nunca haver sido localizado o seu túmulo, fez surgir uma tradição afirmando que ele não foi sepultado, porque não morreu, mas Javeh o levou diretamente para o céu. Quando Jesus exorta dos apóstolos a não contarem a ninguém o que tinham presenciado, deixando para revelar somente após a sua ressurreição, fica muito sugestiva a presença desses dois líderes naquele contexto, porque eles não teriam experimentado a morte.
Na sua transfiguração, Jesus quis provar aos seus discípulos duas verdades que ele vinha pregando há muito tempo: primeiro, a sua origem divina, a sua verdadeira feição gloriosa; segundo, que os seus ensinamentos não são contrários à lei mosaica, como muitas vezes os fariseus o acusavam, mas ao contrário, o fato de Ele se apresentar ao lado de Moisés e de Elias, dialogando com eles, queria significar que havia pleno entendimento entre os respectivos ensinamentos. Os discípulos eram judeus e, certamente, também podiam ter ainda dúvidas dessas duas verdades. Afinal, o judaísmo farisaico interpretava a lei de uma forma tão própria e exclusiva que, à primeira vista, dava a impressão que o ensinamento de Jesus estava contrariando a sua tradição. Com aquela visão futurista, Jesus estava dando provas de que a sua doutrina era mesmo a continuidade daquilo que a tradição guardava como ensinamentos de Moisés e dos Profetas.
Para nós, a figura do Cristo transfigurado é um constante e eloquente apelo a que tenhamos sempre na mente o nosso destino glorioso, cuja antecipação Ele demonstrou naquele memorável cenário. Nossa missão é fazer com que Cristo se apresente através de nós, transfigurando-nos.
Com um cordial abraço a todos.
Antonio Carlos