sábado, 7 de fevereiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 5º DOMINGO COMUM - 08.02.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO COMUM – A LUZ E O SAL – 08.02.2026


Caros Confrades,


Neste 5º domingo comum, a liturgia coloca para nossa reflexão a figura da luz, exemplificando com o brilho da autora, que ilumina a terra. A luz que brilha sobre nós, semelhante à aurora, é exatamente a luz da graça divina, que recebemos de Deus no nosso batismo e que deve permanecer viva e brilhante, de modo a iluminar os atos da nossa vida e, ao mesmo tempo, deve funcionar como guia para clarear sobre os irmãos, especialmente aqueles mais fracos na fé. O evangelho associa a figura da luz com outro elemento essencial para a nossa vida, que é o sal. Um e outro são metáforas dos compromissos que nós, batizados, assumimos como autênticos discípulos de Cristo e que somos convidados a proclamar e executar.


A teologia da revelação ensina que nós nascemos com a sombra do pecado original, uma falha da natureza humana, que não devemos atribuir ao Criador, que é perfeito, mas à nossa própria condição de incompletude, inerente à natureza humana, herdeiros que somos de Adão e Eva. Para extirpar essa sombra, que carregamos como uma consequência da fragilidade humana, Deus nos concede o remédio eficaz, que é a sua graça divina. Através da aspersão com a água batismal, nós somos purificados dessa mácula, todavia, essa purificação não funciona de modo automático, mas precisa ser renovada e reforçada com as nossas boas ações, o que só é possível quando nós abrimos nosso coração para, livremente, receber a graça e, em consequência, orientamos nossa vontade para que a graça atue em nós e produza seus divinos efeitos. A referência a Adão e Eva é uma linguagem simbólica, pela qual o escritor sagrado personifica de um modo genérico as duas figuras humanas típicas de homem e mulher, imperfeitos pela natureza, mas aperfeiçoados pela graça recebida do Criador. E o pecado original não deve ser identificado com aquela vetusta história da maçã, mas com a vulnerabilidade inerente à natureza humana, que nos impede de conseguirmos alcançar, sozinhos, a salvação. Para isso, todos nós dependemos essencialmente da graça e da misericórdia de Deus.


Na primeira leitura, o profeta Isaías exemplifica, de um modo bem didático, algumas ações humanas que representam aquilo que a teologia chama de “pecado original”: “Se destruíres teus instrumentos de opressão e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, … a tua vida obscura será como o meio-dia.” (Is 58, 9) Esses “instrumentos de opressão” são aquelas forças instintivas que nos impelem para o egoísmo, o autoritarismo e a inveja, ou seja, uma tendência inata para agir de forma injusta com os irmãos. Aquele que consegue superar essas imperfeições decorrentes da nossa natureza desviada, esse andará na luz, a sua vida será clara como o meio-dia. Diz ainda Isaías em 58, 7: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos, quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne [teu semelhante]. Então, brilhará tua luz como a aurora.” Lembremo-nos de que, na época do profeta, ainda não havia sido instituído o batismo da conversão, que somente surgiu com a pregação de João Batista séculos após. No entanto, Isaías já preconizava aquelas ações que seriam propostas pelo Batista para os que se preparavam para a chegada o Messias, aplainando os caminhos e capinando as veredas. E quando, tempos depois, Cristo instituiu o batismo sacramental, o batismo da salvação, os benefícios da graça batismal atuaram de modo pleno no tempo, incluindo presente, passado e futuro, de modo que os que viveram nos tempos antigos segundo a orientação do Profeta foram também alcançados pela graça da salvação. O sacrifício redentor de Cristo foi realizado num tempo histórico determinado, no entanto, os seus efeitos se estendem em plenitude para um tempo indeterminado (anterior e posterior), referendando todas as práticas de justiça que as pessoas efetivaram, como consequência de sua fé. Com sua morte e sua ressurreição, Cristo aspergiu seu sangue sobre todos, independentemente da época em que viverem ou viverão, alcançando a todos estes os benefícios decorrentes da consumação da antiga aliança de Javeh com o povo hebreu. A única condição para isso é a adesão que cada um deve fazer a esse “contrato” patriarcal, renovado e consolidado pela intervenção do Messias, cujo conteúdo é o compromisso batismal, e cuja assinatura é traçada pela água derramada em nossas cabeças.


Na segunda leitura, de Paulo aos Coríntios (1Cor 2, 1-5), o Apóstolo diz que foi àquela cidade para anunciar ao povo o “mistério de Deus”. Que mistério seria esse? O próprio Paulo responde: Jesus Cristo crucificado. E para esse anúncio, Paulo não usou discursos bonitos nem oratória erudita, mas apenas a linguagem comum, para que o conteúdo de sua pregação se destacasse, e não a sonoridade das palavras bonitas. Meus amigos, a palavra “mistério” nem sempre é bem compreendida. Ela significa aquilo que estava escondido e foi revelado. Paulo utiliza o termo para referir-se àquilo que antes era obscuro e incompreensível aos homens, mas que tornou-se claro e iluminado, pela força da luz de Cristo. Ele é a própria luz e é através dele que nós, seus discípulos, podemos iluminar o mundo. Pelos sacramentos, que Ele instituiu e nos deixou, sob a coordenação da comunidade eclesial, nós participamos da claridade que essa luz transmite. A partir do recebimento do batismo, abre-se para nós a porta de acesso aos demais sacramentos, isto é, aos diversos canais pelos quais Ele distribui a sua graça. Paulo fez isso na comunidade de Corinto e noutras cidades daquela região. Nos dias de hoje, a Igreja dá continuidade a essa tarefa de acolher os fiéis e conduzi-los ao ambiente onde essa graça continua a ser distribuída. Dentro da comunidade eclesial, a graça que recebemos deve ser potencializada para que, em nossa vida cotidiana fora do ambiente típico da sacralidade, as demais pessoas possam perceber a luminosidade do nosso ser através do nosso comportamento, do nosso modo de agir.


O evangelho de Mateus (Mt 5, 13-16) associa duas metáforas muito poderosas: a luz e o sal. Desde os tempos mais remotos, as pessoas compreenderam a importância do sal para a vida humana. Chegou ao ponto de que, em eras primitivas, o pagamento de trabalhos realizados pelos operários era feito não com dinheiro, mas com sal (donde vem o termo “salarium”). Os minerais trazidos pelo sal são essenciais para o nosso organismo, de modo que a vida humana se tornaria inviável sem o consumo de porções (moderadas) de sal. Do mesmo modo como a vida humana seria inviável sem a luz, assim também seria sem o sal. Atuando de modos diferentes, mas sempre em caráter indispensável, a luz e o sal são insumos que tornam possível a vida humana, seja individual, seja social. Daí porque Cristo utilizou muitas vezes essas figuras como recursos pedagógicos para a sua catequese.


Ora, diz Jesus, imaginem se o sal viesse a perder a sua funcionalidade básica, com o que iríamos salgar os alimentos? Nos dias de hoje, a indústria química já consegue produzir materiais alternativos que geram efeito similar ao sal para o preparo dos alimentos a pessoas que possuem certas doenças agravadas com a ingestão do sódio, componente principal do sal. Mas na época de Cristo, isso não existia e ele falava para o povo daquela época, do modo que fosse mais compreensível para eles. Um sal que não produzisse seus efeitos não serviria para mais nada. Quando muito, seria usado como pedrisco para pavimentar os caminhos. Com isso Jesus vem nos dizer que um cristão que não desenvolver em si a graça que recebeu com o batismo, é como se a graça recebida não produzisse os efeitos que deveria gerar, portanto, haverá um desperdício da graça, pois um tal cristão não seria capaz de “salgar” a sociedade com o seu exemplo e o seu testemunho. Meus amigos, essa é uma séria advertência para que cada um de nós avalie de que modo a graça que recebemos está ou não produzindo seus frutos na nossa vida, para que não estejamos nos arriscando a ser esbanjadores da graça divina. No caso, essa graça inócua em nós, além de não contribuir para que superemos as vicissitudes próprias da nossa natureza imperfeita, ainda nos tornará réus de uma acusação muito grave, qual seja, de sermos desperdiçadores desse valioso dom.


Numa consideração analógica com a luz, a graça divina deverá nos tornar iguais a grandes lamparinas em noite de apagão. Ninguém acende uma lucerna e a coloca debaixo de uma vasilha, pois assim ela não cumprirá a sua finalidade. A graça divina que recebemos não deve ficar restrita ao nosso ser, à nossa subjetividade, mas deve ser compartilhada com os irmãos. Colocar a luz escondida significa agir egoisticamente, usar a lamparina para clarear apenas o nosso próprio caminho. Não foi para isso que Jesus veio abrir para nós a porta da salvação. Ninguém se salva sozinho, a salvação se realiza na comunidade. Houve uma época em que a catequese pregava: “salva a tua alma”... hoje em dia esse discurso mudou completamente para “salva o teu irmão e assim tu também serás salvo”. Por isso é que a luz deve ser colocada num local elevado, a fim de clarear o caminho para muitos, a fim de chamar a atenção dos incautos, daqueles que se encontram envolvidos com as coisas mundanas, daqueles onde a graça está dormitando, a fim de incentivá-los a também se tornarem luminares eficazes e generosos. Manter a luz escondida é uma contradição com ela própria, cuja existência só se justifica se for um ponto de orientação para todos, assim como o farol orienta os que viajam pelo mar.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 31 de janeiro de 2026

COMENTARIO LITURGICO - 4º DOMINGO COMUM - 01.02.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO COMUM – HUMILDADE E MODÉSTIA – 01.02.2026


Caros Confrades,


Neste 4º domingo comum, a liturgia coloca para nossa reflexão a força extraordinária da humildade diante de Deus e diante dos semelhantes. Importa, porém, não confundir humildade com submissão, subserviência. Ser humilde não significa ser saco de pancadas para todos, não significa perder o amor próprio nem destituir-se da sua personalidade. Ser humilde é, antes de tudo, ser humano no mais autêntico sentido da expressão. A soberba, o orgulho, a arrogância são defeitos que não combinam com a autêntica imagem dos discípulos de Cristo. A humildade verdadeira tem tudo a ver com a modéstia no modo de ser e de agir. Vale aqui lembrar uma canção popular que proclama: homem que diz sou, não é. As qualidades da pessoa não precisam ser autopublicadas, pois todos os que com ela convivem aos poucos descobrirão.


Na primeira leitura, temos um trecho do profeta Sofonias (Sf 3, 12-13). Este profeta, pouco conhecido e classificado na Bíblia como um dos profetas menores, pois o seu livro possui apenas três capítulos, é descendente do rei Ezequias, portanto, um profeta de linhagem nobre. Seu nome significa “Deus se escondeu” e ele profetizou num tempo em que as lideranças dos hebreus buscavam alianças com os povos mais ricos da região, dividindo-se quanto à preferência pelos assírios ou pelos egípcios. Então, o profeta chama a atenção para o perigo dessas alianças, porque elas não contribuem para a aliança com Javé, que está “se escondendo” do povo e aplicará um grande castigo, se não houver mudança nessa confabulação com os povos pagãos. Por isso o profeta tem esse nome e também por isso ele adverte a todos que somente os humildes terão um refúgio no dia da cólera do Senhor. E define como é o comportamento dos humildes: “Eles não cometerão iniqüidades nem falarão mentiras; não se encontrará em sua boca uma língua enganadora; serão apascentados e repousarão, e ninguém os molestará.” (Sf 3, 13) Os líderes do povo hebreu não lhe deram ouvidos e a aliança com a Assíria converteu-se, algum tempo depois, no cativeiro da Babilônia, de onde só retornaram aqueles que compunham “o resto de Israel”. Esse é um tema importante nos escritos de Isaías e foi antecipado pelo profeta Sofonias nas suas advertências. Só o “resto de Israel”, isto é, só os humildes do povo da promessa obterão o refúgio no dia da cólera do Senhor. Somente estes retornaram do cativeiro, quando a cólera divina se manifestou.


Na segunda leitura, de Paulo dos Coríntios (1Cor 1, 26-31), o Apóstolo chama a atenção dos cristãos para a humildade como sendo a marca registrada do comportamento destes. Não são os ricos e nobres os preferidos de Deus, mas aqueles de quem, aparentemente, nada se espera. “Na verdade, Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante.” (1, 27-28) Deus não nos escolhe por nossa sabedoria humana, nem por nossa nobreza e riqueza, ao contrário, ele observa a nossa humildade. O hino de Maria diante da sua prima Isabel repete essa temática noutro contexto: “Ele pôs os olhos na humildade de sua serva” (Lc 1, 48) e por ser humilde e modesta, Maria foi escolhida para ser a mãe de Deus. O Seráfico Patriarca São Francisco foi um desses mestres da humildade. Começou quando ele deixou todas as riquezas e todo bem-estar que a riqueza da sua família lhe proporcionava e passou a viver como mendigo. Todos se recordam daquele episódio em que, diante do Bispo de Assis, ele argumentava com o pai dele e, por fim, não o convencendo, entregou a ele até a própria roupa do corpo, tendo sido acolhido pelo Bispo ali no meio da rua. São Francisco era praticante daquela humildade radical e esse ensinamento ele deixou nos seus escritos. Todos conhecem uma frase famosa dele: “Ninguém é suficientemente perfeito que não possa aprender com o outro; e ninguém é totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão.” Nos Fioretti de São Francisco (cap 2), é contada a história de Frei Bernardo de Quintavale, um rico comerciante de Assis que, tocado pela humildade e santidade de Francisco, passou a admirá-lo e segui-lo, tendo depois vendido todos os bens que possuía e adotou o mesmo modo de vida franciscano de humildade e pobreza. E o apóstolo Paulo arremata a sua admoestação aos Coríntios sintetizando o conceito de humildade, repetindo uma passagem antiga do profeta Jeremias (Jr 9, 24): “como está escrito, aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”. Nenhum cristão terá acumulado mérito suficiente para gloriar-se, a não ser que tenha recebido isso de Deus. E diz mais, no vers. 30: “É graças a ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus: sabedoria, justiça, santificação e libertação”. Em resumo, tudo do que podemos nos gloriar é recebido do alto e assim deve ser demonstrado e reconhecido.


Na leitura do evangelho, o evangelista Mateus (Mt 5, 1-12) traz a grande apologia da humildade, feita pelo próprio Cristo, naquele memorável pronunciamento conhecido como “sermão da montanha”. A humildade se manifesta na pobreza, não exatamente na carência de bens, mas na pobreza no espírito, porque há pessoas carentes material e socialmente, mas que possuem espírito opulento e avaro, onde moram a ganância e o egoísmo. Ser destituído de bens materiais não significa necessariamente ser pobre, no sentido cristão. E o contrário, possuir bens materiais também não significa falta de pobreza no espírito. O evangelista diz, em outra passagem (Mt 6, 21), que o coração da pessoa está junto com o tesouro que ela guarda. A humildade, diz Cristo, está na mansidão, pois os mansos possuirão a terra. Não são os arrogantes que prevalecerão. Estes podem até dominar por certo tempo, mas sua glória é efêmera. A mansidão do coração tem uma força invencível. A humildade está também na vivência e na busca da justiça, na prática da misericórdia, na pureza de coração, na promoção da paz, na paciência diante das tribulações, na confiança inabalável de que o Reino dos Céus depende da contribuição de cada um de nós, por menor que ela seja. A frase final desse pedagógico sermão já foi, muitas vezes, mal entendida quando Jesus diz que os humildes terão sua recompensa no céu, frase que era interpretada “ad litteram” (como o próprio São Francisco fez), levando a crer que as pessoas deveriam desfazer-se de tudo o que possuíam para viver na extrema carência, pois somente assim obteriam a recompensa eterna. Durante séculos, essa frase foi repetida com esse significado e muitas vezes os religiosos e a própria Igreja Católica foram criticados, por possuírem bens e assim estarem em desacordo com o ensinamento de Cristo. A questão deve ser vista, conforme abordei acima, sob o aspecto da pobreza no espírito, mais do que sobre a pobreza material. Se a pessoa vive feliz no meio da extrema necessidade (como vivia São Francisco e assim ensinava aos irmãos) e assim demonstra o seu verdadeiro espírito cristão, levando até outros a se converterem, é óbvio que o objetivo de Cristo está sendo alcançado. No entanto, não existe apenas essa forma de viver a humildade cristã e seguir o ensinamento de Cristo, pois sabemos que a correta administração dos bens materiais, em vista da prática da caridade e do bem do próximo, atinge igualmente a finalidade da mensagem cristã.


O Papa Francisco, com a sua linguagem característica e com suas atitudes surpreendentes, certa vez, comparou o sermão da montanha com o GPS. Todos sabem o que é um GPS (sigla para Global Positioning System, em inglês – sistema de posicionamento global, aquele sinal eletrônico indica com grande exatidão as localidades num mapa). Pois bem, diz o Papa, na vida cristã, as bem-aventuranças são o nosso guia, a nossa orientação: “São o guia da rota, do itinerário, são a bússola da vida cristã. Neste caminho, segundo as indicações deste ‘GPS’, podemos prosseguir na nossa vida cristã”. Dizia mais que as riquezas não são necessariamente más, as riquezas são boas, o que faz mal é o apego às riquezas, quando isso se torna “uma idolatria”. Nesses casos, complementava ele, nos desviamos da rota. “É o GPS errado. É curioso! Estes são os três degraus que levam à perdição, assim como estas Bem-aventuranças são os degraus que levam adiante na vida. Os três degraus que levam à perdição são: o apego às riquezas, porque eu não preciso de nada. O segundo é a vaidade. Quero que todos falem bem de mim. Se todos falam bem me sinto importante, muito incenso e eu acredito ser justo, não como aquele ou como aquele outro. Pensemos na parábola do fariseu e do publicano: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens…’. ‘Obrigado, Senhor, porque sou um bom católico, não como o meu vizinho ou a minha vizinha’. Todos os dias isso acontece! O terceiro degrau: o orgulho, que é a saciedade, as risadas que fecham o coração. (Sermão proferido na capela de Santa Marta). Sem nenhuma dúvida, podemos afirmar que o Papa Francisco foi um grande profeta do nosso tempo. O Papa Leão XIV, apesar de não parecer, tem tomado atitudes que nos mostram que ele segue esse mesmo caminho.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 24 de janeiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO COMUM - 25.01.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO COMUM – 25.01.2026 – GALILEIA DAS NAÇÕES


Caros Confrades,


A liturgia deste 3º domingo comum põe em destaque um tema interessante, ao refletir sobre a vocação de cada um, demonstrando que os pagãos também são chamados (vocacionados) por Jesus, pois o seu projeto de salvação é universal, e não apenas para alguns escolhidos. A ênfase está no termo “galileia das nações”, que aparece em duas das leituras: a primeira vez, na profecia de Isaías, como prenúncio, e a segunda vez, no evangelho de Mateus, como realização. Quando Jesus Cristo compreendeu que era chegada a hora de iniciar a sua atividade de pregador, após a prisão de João Batista, foi morar em Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia, na região conhecida como galileia das nações, justamente porque naquele local estavam estabelecidos os povos pagãos, que não eram de descendência judaica, portanto, não faziam parte do povo da promessa. O início de suas pregações nessa localidade simboliza que a sua mensagem de salvação devia ser levada também aos pagãos, não apenas aos judeus. Esse foi só mais um dos motivos pelos quais os judeus não reconheceram Jesus como Messias, porque achavam que a salvação era exclusiva para eles.


Logo no início da primeira leitura (Is 8, 23-9,3), o profeta Isaías faz a seguinte referência histórica: “No tempo passado, o Senhor humilhou a terra de Zabulon e a terra de Neftali; mas recentemente cobriu de glória o caminho do mar, do além-Jordão e da Galiléia das nações. ” (Is 8, 23) Esse “tempo passado” a que o profeta se refere foi o tempo do domínio assírio, por volta do ano 730 a.C., bem antes do cativeiro da Babilônia. A fim de prevenir futuras rebeliões, os dominadores assírios resolveram misturar naquela região comunidades de diversas raças e línguas, vindas de lugares diferentes, mesclando as culturas e dificultando as comunicações entre eles. Foi assim que vieram pagãos de diversas nacionalidades conviver nas terras das tribos de Zabulon e Neftali, nas margens do Mar da Galileia, trazendo tumulto e dificuldades para os hebreus ali residentes, ficando essa região conhecida como “galileia das pagãos”. Etimologicamente, a palavra “galileia” (hagalil, em hebraico, transliterada para o grego como galilaia) significa “distrito”, “província”, assim a galileia das nações significava um território onde moravam populações de diversas origens, era uma região onde o povo não tinha uma identidade étnica ou cultural e, naturalmente, era também uma região de muita pobreza. Tempos depois, o império assírio havia sido dominado pelos persas e já não exercia poder na região, no entanto, aqueles povos não mais retornaram para os seus locais de origem e formavam um conglomerado altamente disperso, um amontoado de línguas, costumes, religiões, culturas, uma população pobre e marginalizada, daí porque isso era considerado uma humilhação para alguém habitar naquela região. A maior cidade dessa região era Cafarnaum. Pois foi exatamente o que Jesus fez: saiu da sua cidade de Nazaré e foi morar em Cafarnaum, para dali começar a sua missão.


Então, diz o profeta Isaías: no passado, o Senhor humilhou aquela região, através da ação dominadora dos assírios. Mas depois cobriu o lugar de glória e uma luz resplandeceu para aquele povo que vivia na escuridão (Is 9, 1). Isaías estava prevendo que a atividade missionária de Cristo iria iniciar-se naquele local. E o evangelista Mateus vai repetir literalmente essa passagem de Isaías, quando diz: (Mt 4, 12-14) Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías”. Vê-se claramente a preocupação de Mateus em mostrar que Jesus é o Messias previsto pelos antigos profetas, ao dizer que Ele começou o seu ministério por Cafarnaum, logo após o encerramento da missão de João, o batista. Ele foi a luz que resplandeceu para aquele povo. Aquele território que, antes tinha sido causa de humilhação, passou a ser motivo de glorificação. Aquela terra onde habitavam pessoas de diversos povos e línguas foi a escolhida por Jesus para recrutar os seus primeiros discípulos e para ali lançar as primeiras sementes da sua palavra. Por isso, Mateus refere que Jesus começou sua missão em Cafarnaum exatamente continuando a mesma temática iniciada por João Batista: “Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: 'Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo. ” (Mt 4, 17). Dizia o Batista: arrependei-vos porque é chegado o reino dos céus (Mt 3,2). Mateus faz, desse modo, a intercalação da profecia de Isaías com a missão de João Batista e com a pregação de Jesus.


Sobre o recrutamento dos discípulos, Mateus diz: “Jesus andava à beira do mar da Galiléia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles: 'Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens'.” (Mt 4, 18-19). No entanto, o evangelho de João traz uma versão diferente. Segundo este, João Batista tinha vários discípulos e a estes ele mostrou Jesus, dizendo: “eis o Cordeiro de Deus, a ele é que vocês devem seguir”. (Jo 1, 36) Os evangelhos não mencionam os nomes desses discípulos de João Batista, exceto um deles, André, que era irmão de Simão Pedro. (Jo 1, 40). Portanto, de acordo com João, não foi bem assim como Mateus descreveu. André era discípulo de João Batista e foi aconselhado por este a seguir o Cordeiro, tendo André convencido também seu irmão Simão a fazer o mesmo. Idêntico raciocínio se pode fazer em relação ao chamado de Tiago e João, que Mateus narra assim: Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou. (Mt 4, 21) João devia ser também seguidor do Batista e já devia conhecer Jesus, tendo convencido seu irmão Tiago a também segui-lo. Deduz-se isso pelo modo como João narra esses fatos, dos quais ele participou. Especulam os biblistas que, quando Jesus deixou a casa dos seus pais, em Nazaré, e mudou-se para Cafarnaum, foi morar provavelmente na casa de Pedro, ocasião em que curou a sogra dele que estava enferma (Mt 8, 14). Bem, como quer que tenham ocorrido os fatos, o certo é que esses foram os primeiros discípulos de Jesus, que os convidou a transformarem-se em pescadores de homens. Aos poucos, em circunstâncias próprias, Jesus foi chamando os demais.


Para uma pessoa que lê a Bíblia com olhos puramente formalistas, literalistas, especialmente aqueles que leem a Bíblia com a mente fechada, fica difícil compreender essas divergências textuais. Mas para os estudiosos do assunto, essas diferenças são perfeitamente compreensíveis e explicáveis, não ocasionando uma ruptura doutrinária, mas tão somente formas estilísticas e modelos de composição literária. Para uma melhor análise, observemos que: 1. o evangelho de Mateus, assim como os de Marcos e Lucas, são bem mais antigos do que o de João, escritos por volta dos anos 60, enquanto João escreveu por volta do ano 100; 2. os evangelhos sinóticos são compilações de textos mais antigos, que circulavam nas comunidades e tinham diferentes origens, sendo cópias de tradições orais, histórias que passavam de boca em boca, narrando os ensinamentos de Cristo; 3. na época em que João escreveu, muitas dessas divergências provavelmente já haviam sido observadas e corrigidas, de modo que o texto de João é mais elaborado, mais pesquisado, mais coerente; 4. João fora testemunha ocular dos fatos, enquanto os outros evangelistas apenas souberam por terceiros. Mas nem por isso devemos considerar que os primeiros estejam errados e com isso colocar em dúvida o que ali está escrito. O que verdadeiramente importa é a escolha que Jesus fez dos seus discípulos e o início de sua pregação naquele local, onde habitavam pessoas de diferentes línguas e culturas, sinalizando de modo claro que não apenas os judeus eram os destinatários da sua obra de salvação, mas também aqueles pagãos e, por extensão, toda a humanidade.


Na carta aos Coríntios (1Cor 1, 10-13), Paulo se refere a uma situação vivida naquela comunidade que muito se assemelha aos grupos do cristianismo contemporâneo. Paulo havia sido informado de que criaram-se “grupos” na comunidade de Corinto, de acordo com as preferências de cada um, chegando até a haver contendas entre eles. E lhes pergunta: será que Cristo está dividido? em nome de quem fostes batizados? Meus amigos, naquele tempo assim como hoje, essa divisão em grupos internos de interesses variados é tão prejudicial para a vivência da comunidade hoje, como se fossem pequenas seitas dentro do mesmo rebanho. Tradicionalistas, carismáticos, progressistas, vanguardistas, fundamentalistas, arautos do evangelho, cançãonovistas, shalomitas, tridentinos, ecumênicos... Até pelos canais de televisão variados de cada grupo expõem-se essas divergências. Cabe aqui a pergunta de Paulo: acaso Cristo está dividido? Acaso a mensagem cristã não é uma só? Os vários grupos agem como se quisessem desmerecer a tendência dos outros irmãos e cada um deles querendo impor aos demais o seu próprio ponto de vista, arvorando-se em detentor da verdade e condenando os que pensam de modo diferente. A verdadeira compreensão da mensagem de Cristo deveria levar os divergentes ao exercício da tolerância e do mútuo respeito, como as atitudes mais compatíveis com a conduta do autêntico cristão. Cada qual, na diversidade da sua vocação e na peculiaridade da sua missão, compõe o grande mosaico de formas e expressões de uma mesma ideologia: o seguimento de Jesus Cristo.

Que o Divino Mestre nos una e nos fortaleça nessa desafiante caminhada.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 17 de janeiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 2ª DOMINGO COMUM - 18.01.2026

 

COMENTARIO LITURGICO – 2º DOMINGO COMUM – CORDEIRO DE DEUS – 18.01.2026


Caros Confrades,

Na liturgia deste domingo, 2º do tempo comum, Jesus é apresentado como o Cordeiro de Deus, no evangelho de João. Essa figura do cordeiro já estava preconizada na profecia de Isaías, com o título Servo de Javé. Os quatro cânticos sobre o Servo de Javé, que se encontram no livro do Profeta Isaias entre os cap 42 e 53, foram muito lembrados pelos primeiros cristãos, nas suas orações e pregações, logo após a ressurreição de Jesus. De acordo com o Profeta, o Servo de Javé viria para reunir novamente o povo de Deus, que estava cativo, e conduzi-lo à salvação e, por intermédio desse povo, estender a salvação a todos os confins de terra. De modo especial o quarto cântico (cap 52-53), sobre o Servo sofredor, encaixou-se perfeitamente no contexto da paixão de Jesus. João evangelista reescreve a narração do batismo de Jesus, afirmando que, pela manifestação do Espírito em forma de pomba, João Batista reconheceu Jesus como o Cordeiro de Deus, isto é, o Servo de Javé prefigurado em Isaías.


De início, lembremo-nos que o livro de Isaías era o preferido por Jesus Cristo para fazer referências a respeito de si próprio, sempre que isso era necessário. Na leitura de hoje (Is 49, 6), destaco o seguinte trecho: “'Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra'.” Vejam só o trocadilho dos nomes: Jacó e Israel eram a mesma pessoa, o terceiro Patriarca, neto de Abraão. Jacó foi aquele que “tomou” do seu irmão gêmeo Esaú (que embora sendo gêmeo, havia nascido em primeiro lugar) os direitos de primogenitura, naquele estratagema armado pela mãe deles, Rebeca, que preferia Jacó a Esaú. Este ficou iradíssimo com o irmão, com toda razão, pois teve o seu direito usurpado, e passou a ameaçar Jacó. Para evitar uma carnificina entre os irmãos, Rebeca mandou Jacó para passar uns tempos bem longe, com um tio chamado Labão (que não era o que se chamaria de cidadão exemplar), na esperança de que, com isso, a ira de Esaú se acalmasse. Lá nos confins da Mesopotâmia, onde morava com o tio, Jacó casou com as duas primas (Lia e Raquel), porque o tio também trapaceou com ele e entregou primeiro a filha “errada”, na hora das núpcias. Em vez de devolver, Jacó ficou com as duas. Meus amigos, esses fatos narrados na Bíblia não são, de forma alguma, modelos de comportamento compatíveis com a aliança entre aquele povo e Javé, quantas tramoias estão aqui envolvidas de parte a parte. Mas a história do povo de Deus é assim mesmo, cheia de contradições.


Fiz aqui esse breve retrospecto para contextualizar com a leitura do profeta Isaías, deste domingo, quando ele diz que o Servo de Javé virá restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel. Para compreendermos isso, devemos também lembrar que Jacó teve seu nome mudado para Israel após uma luta misteriosa que travou com um anjo, cuja personalidade a Bíblia não explica, mas que os intérpretes entendem que tenha sido o próprio anjo protetor de Esaú, que veio batalhar com Jacó, a fim de evitar que os dois irmãos se matassem num encontro que se aproximava. Essa é uma passagem nebulosa da Bíblia, pois o fato é que, quando os irmãos raivosos finalmente se encontraram, abraçaram-se e choraram mutuamente, celebrando a paz. Porém, isso só foi possível por causa de uma mudança radical que aconteceu com Jacó, após a luta deste com o anjo, que mudou o seu nome para Israel, porque ele havia vencido alguém mais poderoso do que ele. Hoje, se poderia explicar essa “luta” misteriosa e simbólica como se Jacó estivesse duelando consigo mesmo em espírito, levando-o a uma mudança completa no seu comportamento, após o que ele ter-se-ia tornado uma pessoa com um outro perfil psicológico, operado pela interveniência de Javé. A troca do nome significaria isso, assim como Javé mandou que Abrão mudasse o nome para Abraão, que significava pai de uma multidão. Essa questão do nome no Antigo Testamento tem um simbolismo muito forte e curioso e um sentido especial, que não se encontra nas demais culturas.


Pois bem, retomando o trecho de Isaias (49, 6), o Profeta diz: restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel. Isso significa a reunião do passado com o presente, do antes com o depois, dos descendentes de Jacó com os descendentes de Esaú, que agora não são mais rivais, mas fizeram as pazes, enfim, a união de todo o povo de Deus. No sentido trans histórico dessa imagem, podemos vislumbrar aí a união de todos os povos dos diferentes continentes, raças e costumes sob a mesma liderança do Servo de Javé, aquele que foi preparado desde o nascimento para ser a luz das nações e o portador da salvação a toda a humanidade.


Na segunda leitura, do início da carta de Paulo aos Coríntios, o apóstolo repete esse mesmo mote de Isaías, já citando o nome de Cristo, quando coloca como destinatários da carta assim: “à Igreja de Deus que está em Corinto: aos que foram santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos junto com todos que, em qualquer lugar, invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso.” (1Cor 1, 2). Firme na fé de que Cristo é o Servo de Javé, aquele que veio para unir todas as nações, povos e culturas, Paulo destina sua carta a todos que, em qualquer lugar, invocam o nome de Jesus, isto é, a nós e a todos os cristãos. Isaías referiu-se àquilo que ainda iria acontecer no futuro, enquanto Paulo se refere a algo que já havia se tornado realidade, com o novo mandamento de Cristo. O discurso de Paulo dá sequência e complementa o discurso de Isaías. As tribos de Jacó, infelizmente, não reconheceram em Jesus o Messias prometido, mas os remanescentes de Israel, isto é, nós, os povos de boa vontade, gentios e habitantes de terras distantes, ouvimos a sua palavra e a ela aderimos. Algum tempo atrás, eu estava vendo na internet uma videoconferência com uma professora de Bíblia de Jerusalém e, na ocasião, um dos assistentes perguntou a ela o que significava Jesus para os judeus. Ela respondeu assim: ele foi um judeu famoso, não mais do que isso. Cabe lembrar aqui a frase de Cristo a Tomé: felizes os que creram mesmo sem ter visto... ou seja, felizes somos nós, cristãos.


Agora, uma referência ao evangelho de João (1, 29-34). Na semana passada, lemos o texto de Mateus (3, 13-17), no qual o evangelista diz que, após Jesus ter sido batizado, o Espírito Santo apareceu sobre ele em forma de pomba. A narração do evangelista João inverte a ordem desses fatos. Diz que, quando Jesus ia se aproximando para ser batizado, o outro João, o Batista, disse logo: este é o Cordeiro de Deus (Jo 1, 29). É uma afirmação curiosa, porque o próprio Batista disse que não conhecia Jesus: “Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel'.” (Jo 1, 31). Então, se o Batista não conhecia Jesus, como foi que o identificou de imediato? O próprio evangelista explica como o Batista o reconheceu: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele. Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: `Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo'.” (Jo 1, 32-33) Com essa leitura, faz sentido aquela outra exclamação do Batista ao ver Jesus, conforme narra Mateus (3, 14): “'Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?'” Ora, se o Batista não conhecia Jesus, por que teria dito isso antes de batizá-lo? Assim, a narrativa do evangelista João é mais coerente: quando o Batista avistou Jesus, mesmo antes que ele se aproximasse para ser batizado, viu já o Espírito sobre ele e desse modo o reconheceu. Provavelmente, os demais presentes nem tenham participado dessa visão após o batismo de Jesus, porém, com certeza, o Batista já o havia vislumbrado bem antes. Foi por isso que o Batista pôde afirmar: “'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim.” (Jo 1, 29).


Alguém poderia admirar-se com certas discrepâncias observadas no texto bíblico e, de fato, isso faz com que pessoas não crentes se utilizem desses pormenores para justificarem sua falta de fé. No entanto, devemos sempre contextualizar para melhor entender. O evangelho de João foi escrito cerca de 40 a 50 anos após os primeiros. Estima-se que os evangelhos sinóticos datem dos anos 50 ou 60, enquanto o evangelho de João teria sido escrito por volta dos anos 95 a 100. Além do mais, João deu seu testemunho pessoal dos ensinamentos de Cristo, enquanto os outros três escreveram baseando-se em fontes escritas por terceiros. Isso não significa que os outros estejam errados e só João esteja certo, não devemos concluir assim. Cada um deles representa um traço comunitário da fé cristã dos tempos primitivos e pequenas divergências são perfeitamente justificadas com as diferenças espácio temporais. Apesar delas, contudo, a fé no Cristo Cordeiro de Deus é a mesma e não fica comprometida. Que a nossa vida brilhe sempre mais com a felicidade que brota desta fé.


Com um cordial abraço a todos.
Antonio Carlos

sábado, 10 de janeiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - BATISMO DO SENHOR - 11.01.2026

 

COMENTARIO LITURGICO – SOLENIDADE DO BATISMO DO SENHOR – 11.01.2026


Caros Confrades,

O calendário litúrgico celebra neste domingo a festa do Batismo do Senhor. Dentro do calendário litúrgico, esta festa encerra o tempo do Natal. Sob o aspecto cristológico, esta cerimônia, realizada no rio Jordão, representa o início da vida missionária de Jesus. Igual a todos os bons judeus, Jesus sempre cumpriu os rituais próprios do judaísmo: comparecimento regular à sinagoga no sábado, jejuns, festa da páscoa, festa dos tabernáculos, a observância da lei mosaica. O batismo não fazia parte, propriamente, da Lei, mas passou a ser um ritual de transição entre a antiga lei e a lei nova, motivado pela pregação de João, o último profeta do Antigo Testamento. João conclamava todos os judeus à metanóia (mudança de pensamento – conversão) e ao arrependimento, de modo que o símbolo da adesão a este movimento era o fato de alguém apresentar-se para receber o batismo. Sabemos que, na verdade, Jesus não precisava ser batizado, pois o batismo se destinava ao perdão dos pecados, mas Ele quis cumprir todo o protocolo e foi nessa ocasião que, pela primeira vez, ocorreu a manifestação da Trindade divina.


O tema do batismo sempre despertou severas polêmicas entre a Igreja Católica e as demais igrejas cristãs, por diversas razões históricas, que todos conhecemos. Penso que as querelas mais significativas se concentram em dois pontos: 1. o batismo de crianças recém-nascidas, fato que não ocorria no início do cristianismo, tendo sido introduzida como prática muito tempo depois; 2. o ritual do batismo por mera aspersão (derramamento de pouca água na cabeça do batizando) e não por imersão (mergulho na água).


É fato que o batismo operado por João Batista era feito por imersão no rio Jordão. Porém a questão a ser debatida é saber se essa é a única forma de realizar o batismo. Para melhor esclarecimento do tema, iniciemos com uma análise gramatical do verbo “batizar”, que é derivado do verbo grego BAPTIZÔ, que significa mergulhar, submergir, mas também significa lavar. Havia uma forma cruel desse rito na antiguidade, pois batizar era uma espécie de suplício, que consistia em mergulhar na água um condenado até ele morrer sem fôlego. Tinha, portanto, o sentido de imersão. Mas em Lucas (11, 38), no episódio em que os fariseus se admiraram porque os discípulos de Jesus não lavavam as mãos antes de comer, a frase latina é “quare non baptizatus esset” e a frase grega é “ou proton ebaptiste”, uso gramatical que indica o sentido do verbo “baptizô” como “lavar”. Para lavar as mãos, às vezes, que as mergulhemos na água, mas muitas vezes apenas derramamos água sobre elas e assim o verbo “baptizô” não tem como significado único o de imergir. E podemos ainda levar em consideração o aspecto da praticidade. Como batizar por imersão uma pessoa que esteja enferma, sem correr o risco de piorar sua condição de saúde? E mesmo no caso de pessoas sadias, o ritual seria extremamente incômodo pela necessidade de ter de realizar o batismo nos rios, lagoas, açudes, etc., ou em tanques de água preparados dentro dos templos, o que (ao meu ver) desvirtua o sentido da imersão de acordo com o batismo de Jesus, que ocorreu numa fonte de água natural. Se é para seguir o ritual, então, que se o siga por completo.


Em relação ao aspecto doutrinário, o batismo por imersão era a prática dominante no Antigo Testamento e o próprio Jesus se submeteu a ela. Contudo, no Novo Testamento, há diversos relatos sobre o batismo que sugerem uma forma diferente da imersão, como por exemplo, em Atos 16, 33, quando Paulo batizou pessoas na prisão. Certamente ali não havia um local com água para imersão. O próprio batismo de Paulo por Ananias (Atos 9, 18), realizado na casa de Judas, não deve ter sido por imersão. Do mesmo modo, o episódio ocorrido após Pentecostes (Atos 2, 37-41), quando cerca de 3.000 pessoas foram batizadas após a pregação de Pedro, não deve ter sido por imersão. De qualquer modo, as duas formas (imersão e aspersão) eram conhecidas desde os tempos cristãos primitivos e ambas eram utilizadas circunstancialmente. Mas a oficialização do batismo infantil e por aspersão ocorreu após as disputas com Lutero (que não o aceitava), no século XVI. A Igreja adotou a forma de aspersão e as razões teológicas para justificar isso são duas fundamentais: 1. o fato de que a pessoa deve ser purificada do pecado (no caso da criança, o pecado original) o quanto antes possível, ou seja, logo após nascer, sem esperar a idade adulta; 2. embora a criança de pouca idade não saiba o que está ocorrendo, a Igreja age como mãe amorosa e faz isso por ser o melhor para o pequeno fiel, assim como toda mãe só quer o bem dos filhos, ficando com os pais e padrinhos a responsabilidade de ensinar a criança e conscientizá-la, quando tiver entendimento.


Devemos ainda considerar a hipótese da carência da água em quantidade suficiente para a imersão, como ocorre, por exemplo, em certas localidades nordestinas e em outros locais do mundo, onde a água é um bem escasso. Além disso, se as duas formas de realizar o ritual foram sempre aceitas na antiguidade (imersão ou aspersão), o simples fato de que o batismo de Jesus foi por imersão não deve ser adotado como padrão, de modo que a outra forma deva ser considerada inválida. Além do mais, eu diria que o modo de realizar o batismo, se por imersão ou por aspersão, não é isso que realmente importa, e sim a fé que deve motivar o fiel a receber o batismo. No caso de crianças pequenas, a fé é dos adultos que as levam a batizar e que se comprometem a catequizar o batizado na mesma fé que professam.


Atendo-nos agora às leituras litúrgicas de hoje, o evangelho de Mateus (3, 13-17) relata o batismo de Jesus por João, no rio Jordão. Evidentemente, Jesus não precisava ser batizado e o próprio João se recusou, conforme relata Mateus (13, 14): 'Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?' Porém, Jesus o persuadiu a fazer igual como fazia aos outros, e assim ele fez. Na verdade, Jesus pediu para ser batizado por João, diante da relutância deste. Com este ato, Jesus estava ensinando o valor do batismo e consagrando a sua importância para o cristão. Podemos concluir que Jesus batizou-se não para converter-se e purificar-se, porque já era totalmente puro, mas para purificar as águas do Jordão, e nestas, simbolicamente, abençoar todas as águas da terra, para conferir a elas o poder de nos purificar pelo batismo na fé da sua doutrina.


Além disso, o batismo de Jesus foi o primeiro momento em que se manifestou publicamente a Trindade divina, quando “o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz... ” (Mt 13, 16), isto é, o início da missão pública de Jesus foi oficialmente homologado pelas três pessoas divinas. Obviamente, naquele momento, as pessoas que presenciaram o fato não compreenderam o que havia acontecido, mas posteriormente, após a ressurreição de Jesus, quando as comunidades dos primeiros fiéis fizeram a rememoração dos acontecimentos da Sua vida, de onde provêm os textos primitivos que deram origem aos evangelhos, puderam compreender o alcance dessa sublime manifestação trinitária.


Uma curiosidade que releva tratar aqui é que, do ponto de vista da fé, a data do batismo do cristão deveria ser comemorada assim como se comemoram as datas natalícias, porque essa data representa o nascimento para a comunidade eclesial. Com certeza, todos se recordam de que, desde quando recebíamos a batina no seminário, nós não comemorávamos mais o dia do aniversário, mas o dia do onomástico, isto é, o dia do santo padroeiro do seu nome, numa clara referência a um novo nascimento, que ocorria com a vestição religiosa. Essa mesma ideia bem que poderia ser adotada em relação à data do batismo. Porém, o que mais comumente ocorre é que a maioria dos cristãos não sabe ou não se recorda o dia do seu batismo, como se não atribuísse importância a essa data. As Paróquias mesmo não estimulam os fiéis a essa lembrança, no que fariam muito bem se assim procedessem.


Para finalizar, gostaria de ponderar que o batismo não deve ser um fato longínquo e esquecido na nossa caminhada existencial, mas um fato a ser testemunhado diuturnamente, na nossa vivência de cristãos, seja na família, seja no trabalho, nas relações familiares, nas amizades, na vida social em geral, através do nosso comportamento de pessoas engajadas e comprometidas com a fé assumida no batismo. Que o divino Espírito nos assista constantemente no exercício dessa missão.


Com um cordial abraço a todos.
Antonio Carlos

sábado, 27 de dezembro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA - 28.12.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – 28.12.2025


Caros amigos,


No domingo do que medeia entre o Natal e o Ano Novo, a liturgia celebra a festa da Sagrada Família de Nazaré, apresentando-a para as famílias cristãs como o modelo e o exemplo a ser seguido, encerrando assim o ano civil com um incentivo à reflexão sobre a situação das nossas famílias, local onde a humanidade se perpetua, não apenas no aspecto biológico, mas e principalmente, no aspecto cultural, social, valorativo, religioso, ético, atingindo a personalidade inteira das pessoas. Não é por outro motivo que vivemos em num mundo repleto de desajustes em todos os sentidos, ou seja, a falta de estrutura e segurança no ambiente familiar produz adultos insatisfeitos, imaturos, violentos, egoístas e despreparados para a vida, contribuindo para a desigualdade e para a insegurança da sociedade.


Desde o final do século XX, a organização familiar vem passando por um período de turbulência conceitual nunca antes verificado. Com efeito, o modelo familiar tradicional, constituído por um homem, uma mulher e seus filhos, está agora competindo com outras modalidades familiares que não existiam no passado, quais sejam, as famílias “de fato”, nas quais não há vínculo formal entre pai e mãe, as famílias resultantes de uniões homoafetivas, com filhos adotados, e ainda as famílias monoparentais: pai e filhos de diferentes mães, mãe e filhos de diferentes pais. A religião católica tem bravamente resistido a essas mudanças, que são consequências diretas da maior assimilação dos comportamentos sexuais alternativos na nossa sociedade, os quais se tornam cada vez mais frequentes e gozam de reconhecimento jurídico pelo Estado. Não pretendo fazer aqui um juízo de valor sobre o tema, deixo isso para a consideração de cada um. A análise que faço é apenas para destacar que a instituição social mais antiga que se conhece, que é a família tradicional, vem passando por uma transformação substancial, com reflexos dentro e fora da religião, como consequência de adaptações legislativas realizadas pelos órgãos governamentais, com o objetivo de amparar situações novas no âmbito dos relacionamentos humanos.


Voltando ao tema inicial, a liturgia deste domingo coloca a família de Nazaré como o modelo a ser seguido da família perfeita, até mesmo com as eventuais vicissitudes que ocorrem em todos os grupos familiares: por exemplo, o 'pito' que Maria deu no menino Jesus, depois da estressante procura por Ele, na ocasião do retorno de Jerusalém, depois da Páscoa. Um puxão de orelhas educativo (agora proibido pela lei dos castigos corporais) nunca fez mal a ninguém, desde os tempos bíblicos.


Na primeira leitura, temos um trecho do livro do Eclesiástico (Eclo, 3, 3-17), livro este também conhecido como Ben Sirac ou Sirácide, em alusão ao seu escritor. Este era um judeu chamado Jesus Ben Sirac, que escreveu uma meditação sobre a felicidade, partindo da sabedoria tradicional do povo hebreu, numa época em que a cultura grega se espalhava entre os judeus. O autor quis reforçar os valores hebraicos tradicionais, que não devem ser substituídos pela cultura alienígena, detalhando-os para ensinamento dos mais jovens. Este livro não fazia parte da antiga bíblia judaica, sendo por isso considerado deuterocanônico. Ele foi incluído no cânon da Bíblia Católica após muitas discussões sobre a pertinência disso, porque nem todos os Padres da Igreja antiga assim o consideravam. Foi um dos motivos do protesto de Lutero, que não concordava com a sua inclusão na Bíblia, por isso, esse livro não consta na bíblia protestante..


Dentro do tema geral do livro, que trata da felicidade, a leitura escolhida pela liturgia traz conselhos aos filhos sobre o respeito aos pais, que tem a aprovação e a bênção de Javé. O cuidado dos filhos com os pais idosos, mesmo quando já estão sem lucidez, além de ser uma obrigação moral deles, torna-se também motivo de santificação, para perdão dos pecados, cuja recompensa será devolvida por Javé. O conteúdo do texto se aplica perfeitamente na nossa sociedade, como aliás se aplicou em todas as épocas, porque a relação pais e filhos foi sempre um dos pontos fundamentais de sustentação da sociedade e as admoestações da sabedoria antiga são, podemos dizer, perenes e supra culturais.


A segunda leitura, de Paulo aos Colossenses (Cl 3, 12-21), exorta os membros daquela comunidade ao exercício da caridade, da tolerância e do amor fraterno, como regra básica para a harmonia que deve marcar a vivência dos cristãos. Paulo escreveu esta carta quando estava na prisão em Roma e soube de algumas desavenças que ocorriam entre os cristãos de Colossos. Conclama as esposas a serem solícitas com os maridos e estes a amarem as esposas e não ser grosseiros com elas. Depois, admoesta os filhos para obedecerem aos pais, até parece que Paulo procura complementar ou atualizar a leitura do Sirácide, texto que ele devia muito bem conhecer.


No evangelho de Mateus (Mt 2, 13-23), temos a narrativa do episódio da fuga da Sagrada Família de Nazaré para o Egito, a fim de escapar da perseguição pelo perverso rei Herodes. Diz o evangelista que, logo após a visita dos Magos, que tinham vindo do Oriente, o anjo do Senhor apareceu a José em sonho, exortando-o a sair da Judeia e ir refugiar-se no Egito, porque o Menino corria perigo. Com efeito, Herodes havia ficado intrigado com a informação recebida da parte dos Magos, dando conta do nascimento do novo rei dos judeus. Ora, o rei ali era ele, Herodes, e a mulher dele não estava grávida, o que signficava aquela mensagem trazida por sábios estrangeiros? Herodes era o representante do imperador romano na região da Judeia e a sua missão política era zelar pelo bem do império na região, impedindo e coibindo movimentos de rebeldia e de libertação, que ocorriam vez por outra no meio dos judeus. Era como se os Magos tivessem revelado um “segredo”, que ninguém na sua corte sabia. E mais indignado ainda ele ficou quando compreendeu que havia sigo enganado pelos Magos, que não retornaram para confirmar a notícia, assim como ele havia recomendado a eles. Deu, então, ordem aos soldados para que eliminassem todos os recém-nascidos na região de Belém, já que não tinha condições de identificar o provável “novo rei”. Este foi só mais um de seus comportamentos insanos e paranoicos.


Convém destacar, nesse contexto, um fato que não consta nos evangelhos canônicos, encontrando-se apenas os evangelhos apócrifos. Todos se recordam da visita de Maria a sua prima Isabel, que estava grávida no mesmo período e Maria foi auxiliá-la nas tarefas de amparo ao recém-nascido João. Fazendo as contas, João era mais velho do que Jesus aproximadamente três meses, portanto, ele era uma das crianças incluídas na chacina determinada por Herodes. Ocorre que Isabel, tomando conhecimento do fato, fugiu para as montanhas indo refugiar-se em casa de parentes, resguardando assim a vida de João. No entanto, Zacarias, marido dela, que era sacerdote no templo e estava na sua escala de serviço, não acompanhou Isabel na fuga. Os soldados foram, então, abordá-lo no templo, perguntando pelos “meninos”, pois sabiam que a esposa dele havia tido um filho em data recente e sabiam também do parentesco de Isabel com Maria. Zacarias respondeu que não sabia onde estavam, porque ele realmente não sabia o destino de ambos, contudo os soldados não acreditaram nele e pensaram que ele os estava enganando. Por isso, mataram Zacarias. Foi mais um inocente na relação dos santos inocentes vítimas de Herodes.


Os evangelhos apócrifos também relatam detalhes inusitados da fuga da Sagrada Família de Nazaré para o Egito. Citarei apenas dois fatos. Durante a viagem, eles se hospedaram numa casinha à margem da estrada, onde havia uma mulher com uma doença incurável. Sabendo disso, Maria deu à dona da casa uma das fraldas usadas pelo Menino Jesus, para que ela pusesse sobre a cabeça da doente. Ao fazer isso, ela ficou imediatamente curada. Em outro trecho do caminho, estavam todos com fome e ainda estava longe o próximo povoado. Na região desértica, eles se sentaram para descansar na sombra de uma tamareira. A árvore era alta e estava carregada de frutos, porém eles não alcançavam para retirá-los. Então, o Menino Jesus fez um gesto com a mão e a tamareira se inclinou, permitindo que eles colhessem os frutos e assim saciassem a fome. Há diversas outras ocorrências curiosas.


Meus amigos, os episódios da infância de Jesus, narrados pelos evangelhos, revelam a intimidade da Família de Nazaré e demonstram que a rotina de José, Maria e Jesus era similar à de todas as famílias, com as vicissitudes próprias da vida cotidiana, porque Jesus quis ter uma família igual a todos nós, sem se prevalecer de sua condição e natureza divinas. O exemplo de fidelidade ao projeto de Deus e de harmonia familiar é o grande legado que devemos aprender da Sagrada Família de Nazaré, não apenas para as famílias tradicionais, mas também pelos modelos familiares alternativos, para que sempre se orientem no sentido dos verdadeiros ensinamentos cristãos.


Cordial abraço a todos. Efusivos votos de Feliz Ano Novo.

Antonio Carlos

sábado, 20 de dezembro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4 DOMINGO DO ADVENTO - 21.12.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DO ADVENTO – O JUSTO JOSÉ – 21.12.2025


Caros Confrades,


Neste quarto domingo do Advento, a liturgia destaca a figura de São José, chamando-o de “o justo”, aquele que compreendeu e aceitou a maternidade de Maria. De início, ficou embaraçado com a gravidez inexplicável, mas sem querer denunciá-la, porque sabia das consequências severas que recairiam sobre ela, planejou deixá-la em segredo. Porém, o mensageiro celeste o tranquilizou e José assumiu com zelo e serenidade a sua missão de cuidador do Messias. São dois momentos críticos e opostos em que a virtude da justiça se revelou nas atitudes de José: a primeira vez, quando, na dúvida da gravidez misteriosa, decidiu não denunciá-la, porque não tinha motivos para duvidar dela; a segunda vez, quando, na certeza advinda com o aviso celeste, transmudou a dúvida em confiança. O Papa Francisco disse, em um de seus sermões, que essa atitude de São José nos ensina a confiar em Deus, quando ele se aproxima de nós.


Na primeira leitura, do profeta Isaias (Is 7, 10-14), lemos aquela famosa previsão sobre a futura vinda do Messias: uma virgem conceberá e parirá um filho, que terá o nome de Emanuel (Is 7, 14). Sob o prisma da história, o Emanuel previsto por Isaías foi o rei Ezequias, filho de Acaz, e a “virgem” (jovem mulher) era a rainha, esposa dele. Ezequias um rei justo e santo, que restaurou a dignidade do povo de Israel. No plano trans-histórico, o evangelista Mateus associa a figura do Emanuel a Jesus, o salvador não só de Israel mas de todos os povos. Se o reinado do rei Ezequias, que seguiu o padrão do seu ancestral rei Davi, foi marcado pela prática da justiça e pela obediência à lei de Deus, o “reinado” do Messias será a plenificação dessa prática. O profeta Isaias é a leitura preferida para a liturgia do advento, por causa da sua precisão de detalhes sobre o futuro Messias, destacando-se, neste domingo, a virtude da justiça como aquela atitude que bem possibilitará o seu reconhecimento. E o próprio Jesus, posteriormente, tomou o livro de Isaías como a sua leitura preferida, sempre que era convidado a fazer a leitura na sinagoga.


Na tradição religiosa, a figura de José é também frequentemente associada à virtude da justiça: o justo José. Tentemos imaginar a situação em que ele se encontrava. José ainda não era casado com Maria e, estavam noivos e ainda não coabitavam, de acordo com o costume daquela época, bem diverso da prática contemporânea. Maria ainda estava passando por um “treinamento” para assumir as funções próprias do matrimônio. O texto bíblico oficial não esclarece como foi que José tomou conhecimento da gravidez de Maria, mas nos evangelhos apócrifos, isso está descrito em detalhes. José tinha viajado para um serviço e passou alguns meses ausente. Ao retornar, percebeu a gravidez de Maria e não entendeu aquilo. Ele sabia não ser o pai, então, pela norma vigente, cabia-lhe denunciar a noiva por mau comportamento perante os sacerdotes. Mas José sabia que isso implicaria o apedrejamento de Maria por adultério, de acordo com a Lei de Moisés. José era justo e não queria fazer mau juízo sobre Maria nem desconfiar das virtudes dela, porém não entendia como aquela gravidez tinha ocorrido. Então, resolveu simplesmente abandoná-la, viajar para outras terras e seguir sua vida por lá. Só que isso era muito trabalhoso, afinal, mudar de domicílio não é fácil nos dias de hoje, devia ser mais complexo ainda naquela época. José se encontrava nesse dilema sobre o que fazer. Foi quando ele teve o sonho com o anjo, fato que é narrado por Mateus no evangelho deste domingo (Mt 1, 18-24). É interessante observar que a Bíblia relata diversos episódios em que Javeh fala com as pessoas em sonho, seja diretamente, seja através de um mensageiro. Esta palavra mensageiro em grego, diz-se “angelos”, derivada do verbo “angelô” (anunciar, proclamar), que se transformou no latim em “angelus” e, em português, passou para “anjo”.


A bíblia relata sobre muitos personagens bíblicos que foram visitados por esses mensageiros divinos (angelos), sem descrever como é a aparência deles, porém, os artistas medievais se encarregaram de compor a sua figura como um ser masculino, jovem, de grande beleza, tendo as omoplatas desenvolvidas em forma de asas como os pássaros. E assim ficou criada a figura estereotipada do anjo que todos conhecemos. No entanto, não podemos nos esquecer que Lúcifer era também um anjo da corte celeste, apesar disso, a figura deste é retratada pelos mesmos artistas de uma forma totalmente diversa. Digo isso para que retiremos da nossa cabeça as imagens medievais, quando nos referimos aos mensageiros divinos. Por que razão não existem figuras femininas como anjos (ou anjas), apenas figuras masculinas? Evidentemente, entra aí toda a carga cultural do machismo, típico da cultura greco-romana. Apesar da sua feição marcadamente andrógina, no entanto, eles são apresentados sempre como seres masculinos, em coerência com a mesma cultura, a qual afirma que somente os homens podem exercer os ministérios eclesiais. É o paradigma da masculinidade, ainda presente na Santa Madre Igreja, excluindo as mulheres das funções ordenadas. E ainda demandará bastante tempo para que seja superada essa prática milenar.


Pois bem, mas voltando à história sobre o sonho de José, vemos uma diferença curiosa na forma como o mensageiro (anjo) apareceu a José e a Maria. No caso de Maria, ela estava desperta e dialogou com ele. No caso de José, ele estava dormindo e não participou da conversa, apenas recebeu a mensagem. É o caso de indagarmos se, efetivamente, um mensageiro lhe apareceu ou se ele apenas sonhou, foi apenas um sonho simples, da mesma forma como nós, muitas vezes, estamos com uma dúvida nos atormentando e, num sonho, vislumbramos uma solução. Aliás, se formos observar bem, nas diversas vezes em que um texto bíblico se refere a um mensageiro (anjo), em geral, a presença de um ser angelical não é de fato necessária, mas a situação se esclarece com uma explicação psicológica. O caso do sonho de José é um desses exemplos. Outro caso também relacionado com José é aquele episódio em que ele recebeu uma “ordem” de fugir com Maria e o menino para o Egito, até passar a perseguição de Herodes, através de outro sonho. A referência ao mensageiro fica mais por conta da tradição hebraica, ainda muito presente no cristianismo primitivo. E também devido ao estado de desenvolvimento científico da época, em que esses fenômenos psicológicos eram sempre considerados como manifestações divinas (se fossem boas) ou demoníacas (se fossem más). Disso podemos concluir, com alguma segurança, que a doutrina tradicional acerca dos anjos precisa ser repensada e redimensionada, dando-lhe uma compreensão mais realista e menos fantasiosa.


O caso da anunciação a Maria já foge a essa regra, por causa do diálogo que ela travou com o anjo até ser convencida e dar o seu aceite. Há uma intervenção divina na história, trata-se de algo realmente miraculoso na sua essência, algo para o qual apenas uma explicação da psicologia não seria suficiente. Isso é que torna diferente a atuação do “mensageiro” divino em certas situações em que há uma justificativa para a sua presença. Temos um exemplo bem típico no Antigo Testamento (Gn 32, 24), que narra a luta que Jacó teve com um anjo, pouco antes de sua reconciliação com Esaú. Porém, nem sempre o fato narrado justifica a presença física do “anjo”, mas pode ser resolvido de um modo mais prosaico, como quando estamos sonhando ou quando simplesmente temos um “estalo” na mente, aquilo que os psicólogos chamam de “insight”, uma descoberta inesperada e instantânea que a nossa mente produz, em situações emergenciais. Digo isso para reforçar o que escrevi antes, acerca da necessidade de um estudo mais crítico e menos fanático sobre a angeologia.


E por último, uma breve referência à segunda leitura, da carta de Paulo aos Romanos (Rm 1, 1-7), na qual Paulo destaca a descendência de Jesus da raça de David (em grego: ek spérmatos David) segundo a natureza humana, e predestinado como Filho de Deus em poder, segundo o Espírito. Curiosamente, o texto da CNBB traduz a palavra latina “praedestinatus” (predestinado) como “autenticado”. Por certo, essa tradução visa evitar o uso da palavra “predestinado” por causa da doutrina da predestinação, que não é acolhida pela teologia católica, substituindo-a por uma palavra mais amena: autenticado, isto é, reconhecido, como quem faz reconhecimento de firma no Cartório.. No entanto, eu considero essa palavra perigosa na sua interpretação, porque traz subjacente também a ideia de algo que não é original, mas uma cópia... sinceramente, tem certas traduções que aparecem nos textos oficiais da CNBB que complicam aquilo que deveriam explicar. Dizer que Jesus é autenticado como Filho de Deus com o poder do Espírito, a meu ver, deturpa o significado do texto paulino e dá a impressão de uma coisa subalterna, uma segunda via que se autentica para ter validade oficial. Com certeza, Jesus não precisa dessa autenticação.


Ao ensejo, envio antecipados votos de Feliz Natal.

Antonio Carlos