quinta-feira, 4 de junho de 2026

COMENTARIO LITÚRGIC0 - SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI - 04.06.2026

 

FESTA DO CORPO DE CRISTO – O PÃO VIVO – 04.06.2026


Caros Confrades,


A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, celebrada nesta quinta feira, nos convida a refletir sobre o pão vivo descido do céu, aquele que é penhor da vida eterna.


O pão vivo do Novo Testamento (Jesus Cristo) está prefigurado naquele pão especial com que o anjo alimentou Elias, no deserto, conforme consta no 1.o Livro dos Reis, pão este que lhe deu sustança para caminhar durante quarenta dias e quarenta noites. Contudo, embora fosse especial e contivesse uma substância divina, este pão do deserto não tinha o condão de preservar quem o come para a vida eterna. É curioso ver, neste contexto, a referência à simbologia do número 40, muito recorrente na Sagrada Escritura. Convém, o entanto, observar que os quarenta dias e quarenta noites referidos no texto do Livro dos Reis (1Rs 19,4) não significa literalmente, 40 dias matematicamente contados, mas é uma descrição simbólica, para significar que, tendo ingerido aquele pão especial, Elias não sentiu mais fome durante toda a travessia do deserto, até chegar ao monte Horeb (Sinai), para onde se dirigia. Sempre que a simbologia do número 40 está presente na Escritura indica que algo extraordinário e grandioso está por acontecer. Assim foi com a miraculosa travessia de Elias pelo deserto.


Pois bem, a região atravessada por Elias naquele tempo forma hoje a grande península do Sinai, pertencente ao Estado de Israel, arrebatado ao Egito naquela que é chamada a 'guerra dos sete dias', ocorrida em 1967. Com a anexação desse território, o Estado de Israel ganhou uma saída para o Mar Mediterrâneo, e portanto, para o Oceano Atlântico, sem ter de circular todo o Mediterrâneo em busca da passagem única do Estreito de Gibraltar. Esses territórios bíblicos, desde sempre, foram objeto de intermináveis contendas e ainda hoje a paz não se fixa por ali. Vejamos que Elias, tendo vivido no século IX antes de Cristo, já não conseguia ter paz ao atravessar aquela região naquele tempo.


É importante salientar também que o nome Elias significa “Javeh é meu Deus” e este profeta teve um papel importantíssimo na defesa do monoteísmo hebraico, na época em que o povo hebreu passava por um período de marcante sincretismo religioso. A missão do Profeta, ordenada por Javeh, era trabalhar junto às comunidades, para que abandonassem os deuses pagãos e retornassem ao seu único Deus, Javeh. Ocorre que Elias estava por demais desgastado com a dureza do coração dos hebreus. Passando de aldeia em aldeia anunciando a ordem de Javeh, não notava adesão por parte dos seus coirmãos de fé. Elias entrou numa verdadeira crise existencial. Parecia que Javeh estava passando para ele uma missão impossível. Além da incredulidade do povo, havia o cansaço físico e a dificuldade de se alimentar, porque ele não era bem recebido por onde andava.


No meio dessa crise, atravessando uma região deserta, padecendo em consequência da fome e da descrença dos hebreus, Elias surtou. Deitou-se no chão na sombra do junípero e disse a Javeh: agora basta, Senhor, podeis tirar a minha vida, eu não tenho forças para cumprir a missão que me destes. Foi quando o anjo lhe trouxe uma refeição de pão assado sob as cinzas, que ele comeu, e depois trouxe outra porção e ele comeu de novo. Elias até tentou recusar, mas o anjo advertiu: come, que o caminho é longo. Pronto. Com este alimento, Elias não teve mais fome nem cansaço e pôde terminar sua tarefa, percorrendo toda a região do Sinai.


Nas linhas acima, eu escrevi que o pão deu a Elias a sustança necessária para caminhar no deserto. Eu acho curiosa essa palavra 'sustança' criada pelo nosso povo simples, uma corruptela da palavra erudita substância. Feijão é comida que dá sustança, cuscuz é comida que dá sustança, carne é comida que dá sustança... o nosso povo sabe o valor dos alimentos. Tão interessante seria se os nossos pastores soubessem melhor aproveitar o linguajar do nosso povo para transmitir a doutrina cristã nas homilias, em vez de ficarem a repetir slogans e chavões, geralmente de cunho moralista. A observação cuidadosa e diuturna do modo de falar do nosso povo simples é sempre uma escola de vida, que pode ser aproveitada para a evangelização. Foi assim que José de Anchieta e os primeiros Jesuitas conseguiram evangelizar os nossos índios, aprendendo o idioma deles e doutrinando-os em sua própria língua. Quanto esforço isso custou ao jovem religioso, que chegou ao Brasil ainda como diácono e tão bem soube se integrar na cultura dos nossos índios.


Pois bem, no evangelho de João, Jesus fala em sua cidade natal que Ele é o pão descido dos céus. Pra que ele disse isso... os conhecidos ficaram logo a cochichar entre si: não é Ele o filho de José e Maria? Como ele diz que desceu do céu? É isso mesmo, ninguém consegue ser profeta na sua própria terra, nem Cristo conseguiu isso. Foi difícil pra ele explicar aos conterrâneos que ele é o pão vivo descido do céu e quem comer deste pão não morrerá eternamente. Teve de justificar que somente aqueles a quem o Pai atraiu poderá reconhecê-lo como pão do céu. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai.” (Jo 6, 44) Ou seja, era necessário que os seus conterrâneos conhecessem o Pai através dos ensinamentos de Jesus, para que então pudessem entender a que tipo de pão Ele estava se referindo.


E Jesus aproveitou para dizer que os antepassados deles haviam comido outro pão descido do céu, quando estavam no deserto, o maná, todavia não era aquele tipo de pão o que ele trazia, porque o pão do deserto não livrava da morte eterna. Já o pão vivo, que era ele próprio, este recompensa com a vida eterna quem com ele se alimenta. Lembrando nesse contexto que o pão vivo, que é Cristo, não alimenta apenas o corpo material, mas também a alma espiritual, daí porque Ele produz como resultado a vida eterna. Aquela multidão que buscou Jesus após o milagre da multiplicação dos pães buscava tão somente, outra vez, o pão material e Jesus fê-los ver que o pão que alimenta o corpo não pode estar separado do pão que alimenta o espírito.


Desse modo, o pão vivo, que é Cristo, não é apenas a sua carne por ele entregue para a vida do mundo. É necessário que o pão=carne seja consumido juntamente com o pão=palavra, com a mensagem de sua doutrina. A catequese que se desenvolveu no Brasil ao longo do tempo não foi capaz de demonstrar ao nosso povo a necessidade de unir essas duas dimensões do pão do céu (corpo de Cristo): a palavra e a eucaristia. Sempre foi mais enfatizada a devoção e a obrigação de comungar, porque com a comunhão, nós nos unimos ao próprio Cristo, Ele ingressa no nosso ser. Sem dúvida, isso é verdade. No entanto, aqui temos apenas a metade do seu ensinamento. Para que este pão eucarístico produza o efeito que Cristo prometeu (“quem come deste pão viverá eternamente”) é necessário unir a comunhão com o cumprimento dos mandamentos de Deus (“amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”), ou seja, com a ingestão do pão da palavra, pelo qual o espírito se alimenta e fortalece.


A participação no sacramento da eucaristia, quando não é acompanhada da prática dos ensinamentos de Cristo, equivale àquela advertência de Paulo de que não se deve comer e beber indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo (1Cor 11,27). Tradicionalmente, sempre se ensinou que isso ocorre com quem vai comungar sem ter-se confessado antes. Ao meu ver, come e bebe indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo quem dissocia o pão da eucaristia do pão da palavra, porque o pão vivo, que é Cristo, se completa com essas duas funções. Foi isso que Ele ensinou, em diversas passagens descritas nos evangelhos, em que a temática do pão vem sempre repetida e reforçada. Jesus somente deu o pão da sua carne aos Apóstolos na última ceia, depois de passar três anos instruindo-os com o pão da palavra. Ele afirmou, por várias vezes, que quem comesse da sua carne teria a vida eterna, todavia, ele só demonstrou como seria isso após todo o período de catequese dos Apóstolos, quando eles já haviam absorvido suficiente quantidade dos seus ensinamentos.


Que o Divino Mestre nos ensine a reconhecer a nossa missão, assim como aconteceu com Elias, e nos abasteça para ela com o pão vivo descido do céu.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 30 de maio de 2026

COMENTARIO LITURGICO - FESTA DA SANTISSIMA TRINDADE - 31.05.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE - 31.05.2026


Caros Confrades,


Neste domingo após Pentecostes, a liturgia celebra a festa da Santíssima Trindade, a comunidade imensa e una, como diz o cântico litúrgico. A imagem do Deus Uno e Trino é o maior mistério que Jesus revelou na sua pregação, algo que os apóstolos só entenderam após o Pentecostes, e essa verdade é o centro da fé cristã. Nenhuma outra religião tem a fé fundamentada em um Deus que é uno e se conforma em três pessoas. Alguns historiadores das religiões quiseram relacionar a Trindade cristã com as tríades de divindades egípcias ou indianas, mas a comparação não se aplica, porque a Trindade cristã é trina e também una e as demais tríades não são. No Antigo Testamento, o povo hebreu conhecia apenas o Deus da aliança, Javeh, o todo poderoso mas também o terrível. A revelação divina no Antigo Testamento a Moisés foi, então, apenas parcial. Somente a encarnação de Jesus Cristo trouxe a imagem completa do Deus da aliança, de modo que, por Ele, foi celebrada uma Nova Aliança, agora com o Deus Unidade e Trindade. Esse é o grande significado do Novo Testamento.


Na primeira leitura, retirada do livro do Êxodo (Ex 34, 4-9), lemos o diálogo de Moisés com Javé, logo após haver recebido as tábuas da lei. Moisés descia do monte com as tábuas na mão e pediu clemência a Javé por aquele povo, pois ele já sabia que seria difícil a missão dele como líder, que devia levar todos ao cumprimento daquela lei. Conhecendo as suas tribos, Moisés ficou preocupado e foi logo pedindo a Javé: tem paciência com esse povo, que é um povo de cabeça dura, e perdoa-lhes os pecados, acolhe-os como Teu povo. É exatamente essa a imagem de Javé que predomina no Antigo Testamento: um Deus exigente, irascível, que aplica grandes castigos por causa das atitudes contrárias à lei, mas, ao mesmo tempo, misericordioso e sempre pronto a perdoar. Era essa a figura de Deus desenhada na mente do povo hebreu e que Jesus veio desfazer, quando ensinou que Deus é amor. Era muito difícil para aqueles hebreus moldarem mentalmente uma nova compreensão do Deus da aliança, esse foi o grande esforço pedagógico de Jesus, tanto no grupo dos apóstolos quanto nas discussões com os fariseus e mestres da lei. Além de ser a mais verdadeira expressão da bondade e da misericórdia, esse Deus ainda é múltiplo, sem deixar de ser um. Convenhamos, foi exigida dos hebreus uma mudança tão radical na compreensão que tinham acerca de Javé, que eles não conseguiram processar e aceitar. E na confusão dessa dúvida, terminaram por condenar à morte Aquele que veio trazer a notícia.


A figura de Deus como personalidade una e trina foi, de fato, a grande novidade trazida pela revelação de Cristo. São João, no prólogo do seu evangelho, foi quem melhor sintetizou a doutrina da Trindade: no princípio, o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Depois, o Verbo se fez gente e todos nós o vimos. João Batista viu o Espírito descer do céu e repousar sobre ele. E por ele recebemos a plenitude da graça. Esse é o grande mistério. Quando nós falamos em mistério da nossa fé, no sentido etimológico grego, estamos dizendo algumas verdades desconhecidas, algumas informações que antes estavam escondidas, mas que nos foram trazidas por Cristo; isto é o que também chamamos de revelação. Portanto, mistério e revelação são conceitos equivalentes.


As discussões e as tentativas de compreensão sobre a informação trazida por Cristo acerca da Trindade causaram muita celeuma nas primeiras comunidades cristãs, tendo sido objeto de diversas explicações doutrinárias, algumas delas consideradas heréticas, porque não admitiam a mesma natureza do Pai ao Filho e ao Espírito Santo. Dessas doutrinas, as mais famosas e que tiveram mais adeptos foram o arianismo e o monofisismo. O arianismo, defendida por um bispo de nome Ario, ensinava que Jesus é filho de Deus, mas não é igual a ele, seria uma espécie de semideus. O monofisismo ensinava que Jesus tinha apenas uma natureza, a divina, e a sua humanidade era apenas aparente. Algo como se fosse um fantasma divino visível. Essas doutrinas contraditórias foram discutidas e rejeitadas. Por fim, a questão foi definida nos Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381), quando foi composto o “symbolo”, isto é, o resumo doutrinário que nós chamamos de “credo” e o rezamos na missa. Tanto o arianismo quanto o monofisismo foram recusados e foi confirmada a doutrina das duas naturezas (divina e humana) em Jesus Cristo e também foi confirmada a doutrina de Maria como mãe de Deus e não apenas mãe do filho humano de Deus. O Concilio de Niceia completou 1.700 anos em 2025 e a sua doutrina continua sendo rezada e ensinada.


A segunda leitura, extraída da carta de Paulo aos Coríntios (2Cor 13, 11-13), traz apenas três curtos versículos, cuja finalidade é muito mais demonstrar como o apóstolo Paulo, logo nos primeiros tempos do cristianismo, ensinava a doutrina da Trindade. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós ” (2Cor 13, 13) Esta antífona é rezada no início das missas. Em todas as suas cartas, Paulo faz questão de sempre aludir às três pessoas divinas, pois estas são o ponto central da nossa fé. A partir das lições de Paulo, as orações e invocações litúrgicas passaram a adotar sempre a referência à Trindade e sempre terminam com a invocação clássica: por Jesus Cristo, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina para sempre. A demonstração de que a Trindade está no centro da vida cristã se verifica pela frequência com que a invocamos em todas as orações e ações. É comum as pessoas sempre iniciarem ou concluírem uma atividade com o sinal da cruz, que não é outra coisa senão uma invocação da Trindade.


É interessante examinar o cuidado linguístico que os teólogos redatores do Credo tiveram ao compor o resumo simbólico das verdades da fé: o Filho é gerado, não é criado. Gramaticalmente, as duas palavras até são sinônimas, mas no linguajar teológico, faz-se a diferença para explicar que o mundo, as pessoas, as coisas finitas em geral foram criadas por Deus, mas o Filho foi gerado. Esta diferença conceitual significa que o Filho tem a mesma natureza do Pai, porque foi por ele gerado, enquanto as coisas do mundo não têm a mesma natureza do Criador. Em relação ao Espírito Santo, o Concílio de Constantinopla definiu que o Espírito procede do Pai e do Filho. Não utiliza nem o verbo gerar nem criar. O Espírito Santo origina-se de uma relação de amor entre o Pai e o Filho. Teologicamente, afirma-se que o Filho é o Verbo (a palavra) do Pai que, de tão poderosa, torna-se outra pessoa divina. Assim se explica teologicamente este grande mistério, que a nossa racionalidade não consegue entender. Na Idade Média, Santo Tomás de Aquino foi socorrer-se das categorias de Aristóteles não para explicar a verdade trinitária, porque esta não comporta nas cavidades do intelecto humano, mas para justificar, perante os adversários do cristianismo que, embora não sendo racional esse conceito, por outro lado, não encerra uma contradição e, por isso, não é contrário à razão. O fato de ser incompreensível não é porque contenha algo impossível de existir, mas apenas porque as limitações da nossa capacidade racional nos impedem de entender. Daí ser necessária a fé, que complementa a razão. Todos se lembram daquele famoso poema de Sto Tomás, do qual se cantam duas estrofes quando tem a bênção do Santíssimo Sacramento. Sto Tomás escreveu exatamente isso que eu repeti acima: a fé vem em socorro da racionalidade. Vou escrever em latim, para ficar mais original: Tantum ergo sacramentum veneremur cernui. Et antiquum documentum novo cedat ritui, praestet fides suplementum sensuum defectui. Traduzindo a última frase: que a fé forneça um suplemento para a falha dos sentidos, isto é, que a fé ajude a completar aquilo que os sentidos sozinhos não conseguem perceber.


O trecho do evangelho de hoje (Jo 3, 16-68) não me pareceu bem escolhido para a festa da Santíssima Trindade, porque fala apenas do Pai e do Filho, não faz uma referência ao Espírito Santo. Há outros trechos mais significativos, que fazem referência às três pessoas divinas. Neste, apenas de forma indireta, quando João alude ao Espírito, ao afirmar que “Deus amou tanto o mundo que mandou seu Filho unigênito...” (Jo 3, 16). Podemos entender que esse Amor sem medida é a pessoa do Espírito divino, como concluiu o Concílio de Constantinopla ao compor a redação final do Credo: o Espírito é fruto de uma relação de amor entre o Pai e o Filho, então, o amor do Pai para com o mundo, ao ponto de enviar o seu próprio Filho, é também uma afirmação indireta da pessoa do Espírito Santo.


Meditemos sobre essa verdade imensa e una, que é de fato o elemento central da nossa fé cristã. Se tivermos sempre presente na mente essa verdade, as nossas atitudes cristãs terão muito mais sentido.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 23 de maio de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - DOMINGO DE PENTECOSTES - 24.05.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DE PENTECOSTES – 24.05.2026 – SETE SEMANAS


Caros Confrades,


Celebramos, no domingo de Pentecostes, uma festa que há existia no tempo de Cristo e era celebrada pelos judeus com grande júbilo, comemorando o recebimento da Lei (Torá), dada por Javé a Moisés. É a “festa das semanas” (shavuot) dos judeus, assim chamada porque acontecia sete semanas após a Páscoa, conforme está prescrito no livro do Levítico (23, 15). Na língua grega, foi traduzida com o nome de Pentecostes. A comunidade cristã primitiva associou essa festa com a vinda do Paráclito, que confirmou as promessas de Cristo aos apóstolos, e isso marca o início oficial da Igreja, a comunidade eclesial formada pelas pessoas de boa vontade, que acreditam em Jesus e se responsabilizam por levar adiante os seus ensinamentos. A celebração de Pentecostes marca assim o evento inaugural oficial da Igreja de Cristo. Aproveitando a presença de muitos peregrinos em Jerusalém, para essa festa judaica tradicional, Pedro fez aquela memorável alocução, narrada por Lucas nos Atos dos Apóstolos (2, 2), em que a ação miraculosa do Espírito se manifestou, através do dom das línguas. Pedro, que era um pescador semianalfabeto, proferiu uma espécie de aula magna para numerosos ouvintes representando os povos de diversas nações, que se encontravam em Jerusalém, e eles ouviram aquela pregação, cada um, no seu próprio idioma, funcionando a eloquência do Espírito como um tradutor instantâneo. O escritor de Atos, o evangelista Lucas, com o detalhismo que lhe é peculiar, teve o cuidado de enumerar as nacionalidades dos presentes, conforme consta em Atos 2,9: “partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia,da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; judeus e prosélitos, cretenses e árabes”, em resumo, habitantes de todos as nações que tinham algum contato com os romanos, as quais eram, na época. quase todas as regiões conhecidas. Excetuando o extremo oriente (China, Índia, Japão, Mongólia, que eram conhecidas mas não negociavam com os romanos) e as américas (que não eram ainda conhecidas), Lucas faz questão de declarar que todas as nações do mundo estavam presentes naquela ocasião e ouviram a pregação de Pedro.


A vinda do Espírito cumpriu a principal promessa de Jesus, quando enviou os discípulos a pregarem pelo mundo o seu evangelho, qual seja: estarei convosco até o fim do mundo. Desse modo, embora a liturgia celebre a festa de Pentecostes apenas em um domingo do ano, devemos estar cientes de que a vinda do Espírito não foi um fenômeno que aconteceu naquele dia, mas que continua a ocorrer todos os dias, em todas as comunidades cristãs (falando coletivamente), e em cada cristão (falando subjetivamente). Pelo sacramento da crisma, cada cristão celebra o seu Pentecostes particular, recebendo o Espírito já não mais em forma de língua de fogo, mas nem por isso de um modo menos abrasador. Pelo batismo, nós ingressamos na comunidade dos cristãos, mas é pela crisma que nos habilitamos verdadeiramente para o exercício do envio à missão, da mesma forma como aconteceu com os apóstolos, naquele dia de Pentecostes. São Paulo, na epístola aos Coríntios (1Cor 12, 4) diz que há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Então, a missão de cada um dentro da Igreja pode ser diferente, mas nos anima e nos une o mesmo Espírito. Os cristãos ordenados, os clérigos, têm a missão de testemunhar Cristo e de anunciá-lo a todos, pregando a palavra e presidindo os trabalhos, seguindo na frente (esse é o sentido original do verbo latino praesum=presidir=estar na frente). Os cristãos não ordenados, os leigos, têm a missão de testemunhar Cristo e anunciá-lo a todos com o seu exemplo, com as suas obras e atitudes.


Ainda na carta aos Coríntios acima citada (1Cor 12,12), Paulo explica e exemplifica essa diversidade de dons, de carismas, de tarefas, através do pedagógico exemplo do corpo: “Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo.” É a conhecida doutrina teológica do “corpo místico de Cristo”, da qual já ouvimos falar tantas vezes, mas é sempre necessário recordá-la, para que nos conscientizemos da função que cada um de nós deve assumir nesse contexto. Não é necessário fazer nenhum esforço extremo, basta deixar agir o Espírito que está em cada um de nós, basta ouvir a voz da nossa consciência, que nos transmite a mensagem vinda do Espírito. Todos sabemos que o exemplo vale mais do que as palavras. Então, o nosso maior testemunho será viver o dia a dia como autênticos cristãos. Há certas pessoas, sobretudo entre algumas denominações cristãs não católicas, que interpretam de forma literal o mandato de Cristo (ide e pregai a todas as criaturas) e nós os vemos, às vezes, em praças e locais públicos com a Bíblia na mão e um equipamento de amplificação de som a fazerem pregações, que em vez de atrair as pessoas, causam o efeito oposto nelas. Houve um desses pregadores que chegava numa praça de Fortaleza todos os domingos bem cedo da manhã, instalava sua caixa de som e começava a sua leitura e pregação ali sozinho, sem ninguém a ouvi-lo em presença, num momento em que a praça estava vazia. O seu discurso, ainda que bem intencionado, incomodava os moradores das residências próximas, os quais chamaram a polícia acusando-o de perturbar o silêncio. Ou seja, as suas palavras tiveram nenhum resultado. Por isso, repito que mais do que falar, discursar ou discutir religião com as pessoas, o nosso maior testemunho será com o bom exemplo silencioso, coerente, convicto, esse produz muito mais efeito do que palavras bíblicas ao vento, levadas por aparelhos sonoros.


A festa de Pentecostes deve ser também a festa da unidade dos cristãos ou, mais do que isso, a unidade de todos os povos. Foi o grande desafio lançado por Cristo aos apóstolos: ide e pregai a todos os povos, para que se tornem um só rebanho. Esta profecia de Cristo continua sendo o maior desafio a ser enfrentado e vencido por todos os lideres religiosos, principalmente aqueles que comandam as religiões monoteistas. Nesta semana, a Igreja Católica promove a semana de orações pela unidade dos cristãos, uma ação orquestrada com os líderes das grandes religiões monoteístas mundiais. Diversas outras ações já foram realizadas em outros momentos, com essa mesma finalidade. Esse movimento de aproximação em busca da unidade dos cristãos lembra o papa São Paulo VI, o Papa do Concílio Vaticano II, o primeiro Papa, que, após quase mil anos, teve um primeiro diálogo com o Patriarca de Constantinopla, igreja ortodoxa separada, fato ocorrido em 1964. O Papa Leão, assim como também fazia o Papa Francisco, não se cansa de pedir que os cristãos vivam “unidos pelo Espírito Santo” na oração e na ajuda “aos mais pobres”, ou seja, sem distinção de rótulos ou designações de grupos religiosos. Lamentavelmente, nem todos os cristãos (católicos e não católicos) conseguem compreender a importância desse apelo, desdobrando-se em grupos radicais que, além de não atenderem aos pedidos do Papa, ainda menosprezam esses esforços. Há grupos que se auto consideram tão autênticos na fé dentro da Igreja Católica, que se colocam acima da autoridade do próprio Papa. Vemos bispos tradicionalistas enfrentando e contradizendo os discursos do Papa, como se não reconhecessem a sua autoridade. Muito triste isso.


Meus amigos, nesta festa de Pentecostes, devemos pedir ao Espírito que ilumine e fortaleça o Papa, nessa sua busca tenaz e obstinada por construir uma nova Igreja, que reúna todos os seguidores de Jesus Cristo. É disso que nós cristãos mais precisamos, nesses tempos conturbados e temerários. O Papa está empenhado em conduzir de volta a Igreja de Cristo para o seu verdadeiro objetivo, que é transformar todos povos no único rebanho de Cristo, contudo algumas pessoas que ocupam elevados cargos na hierarquia estão mais preocupados com as tradições e com os protocolos, estão mais receosos de perderem seus gordos salários e seus exclusivos privilégios, por isso não querem que o Papa mexa em nada, deixe tudo como está e apenas se mantenha seguindo a burocracia, de olho no Direito Canônico e se autoproclamando como único dono da verdade. Que o Espírito ilumine esses corações empedernidos.


Para mim, não resta dúvida de que o Papa é visivelmente sendo conduzido pelo Espírito Santo, nessa sua tarefa de redesenhar a identidade da Igreja Católica e é realmente dele, mais do que de todos os outros Bispos e Sacerdotes, a responsabilidade por bem conduzir essa missão, exercendo o seu carisma. Apenas para lembrar que kharisma, em grego, é um substantivo derivado do verbo khairôw, que significa estar alegre, ter motivo de alegria; kharisma é, portanto, obséquio, dom, marca de felicidade. Penso que a palavra carisma, no seu significado original, traduz perfeitamente a personalidade do Papa e o credencia para a realização dessa árdua e difícil tarefa a que ele se propôs. Com toda certeza, ele não está sozinho nessa empreitada, mas o Espírito está com ele e as orações de todos nós, verdadeiros cristãos, são essenciais para o bom êxito das suas ações.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 16 de maio de 2026

Comentário Litúrgico - Domingo da Ascensão - 17.05.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA ASCENSÃO - A PROMESSA – 17.05.2026


Caros Confrades,


Neste domingo, a liturgia comemora a Ascensão do Senhor, preparando os nossos espíritos para a festa de Pentecostes, no domingo próximo. Ao se despedir dos apóstolos, naquela sua última aparição na Galileia, Jesus deu-lhes uma ordem e fez uma importante promessa. A ordem foi: ide pelo mundo e batizai a todos, repassando tudo o que eu vos ensinei. A promessa foi: eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo. O decorrer dos séculos confirma que a promessa de Jesus continua a vigorar no meio de nós. A presença do Espírito Santo na Igreja que se difunde e se renova a cada dia, apesar dos variados percalços tramados pelas circunstâncias históricas, é a maior prova da certeza de que Jesus cumpre a sua promessa até o final dos tempos.


Na primeira leitura, temos a introdução de Lucas, nos Atos dos Apóstolos, narrando como a tradição cristã dos primeiros tempos rememorava a promessa de Cristo (At 1, 1-11), no ato da sua despedida com seus apóstolos. Jesus os orienta a não se afastarem de Jerusalém e promete enviar, dentro de poucos dias, o Paráclito. Depois, sobe ao céu perante eles, maravilhados. Curioso é observar que, após três anos de catequese diuturna com o grupo e, após um período de “recuperação” nos quarenta dias que sucederam a sua ressurreição, ainda havia alguém que não entendera a lição. O escritor sagrado evita o constrangimento de citar os nomes, dizendo apenas que alguns perguntaram: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino em Israel?” Eu fico aqui imaginando a expressão facial de Jesus e o que se passou no seu pensamento naquela ocasião. Ele preferiu fazer-se de desentendido e dar uma resposta bem genérica: “não vos cabe saber o dia nem a hora que o Pai determinou...” Percebe-se, nas entrelinhas desse contexto, que Judas Iscariotes não era o único zelote do grupo, apenas ele foi o mais afoito e presunçoso. Os zelotes eram uma espécie de partido político-religioso, que fazia oposição à ocupação dos romanos, então dominando a região, e achavam que Jesus seria o lider (o Messias) que iria comandar a expulsão dos dominadores e restabelecer a liberdade política do povo. Portanto, na hora da despedida de Jesus, ainda havia entre os discípulos alguém que não havia compreendido o que estava fazendo ali.


Um fato que merece destaque na leitura dos Atos é o trecho conclusivo do escritor sagrado Lucas, quando ele escreveu (At 1, 11): “Apareceram então dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: 'Homens da Galiléia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu.” Lucas era um escritor que apreciava contar os detalhes dos fatos que narrava: dois homens vestidos de branco. Ele não diz que eram dois anjos, mas a tradição sempre entendeu assim. Os pintores medievais, que exploraram muito os temas bíblicos, fizeram imagens de anjos nas pinturas da ascensão de Jesus, contribuindo para reforçar essa ideia. Mas também merece destaque o trecho em que o escritor diz: “Ele virá do mesmo modo como o vistes subir.” Por causa disso, os primeiros cristãos acreditavam que, a qualquer momento, Jesus desceria do céu, interpretando essa passagem ao pé da letra e como uma promessa de cumprimento imediato. Por muitos séculos, a arte sacra representou essa passagem dos Atos relacionando com o fim do mundo, gerando na mente dos cristãos um quadro hipotético de grande esplendor e, ao mesmo tempo, de muito medo e insegurança. Ao que se pode supor, o próprio Lucas, escritor dos Atos, pensava assim. Porém, com o decurso dos tempos, os biblistas passaram a compreender esse texto como uma descrição metafórica. A interpretação atual já não aposta na ocorrência de “um dia” específico em que Jesus descerá, do modo como está escrito em diversas passagens do Novo Testamento. Na verdade, ao passar para o plano da eternidade, Jesus não se subordina ao tempo, e assim, esse encontro com Jesus se faz no tempo de cada fiel, quando este encerrar a sua missão terrena e for encontrar-se com o Julgador. Da forma como está escrito na Bíblia, esse texto se presta mais a justificar algumas teorias da doutrina espírita acerca da reencarnação e da comunicação com os espíritos. Diversas igrejas protestantes também continuam proclamando “vem, Senhor Jesus” ou “o Senhor está voltando”, como se a vinda dele fosse um evento temporal, mantendo aquela interpretação que era corriqueira nos primeiros tempos do cristianismo. Seguramente, não essa a melhor compreensão da promessa de Jesus. Se ele disse que estaria presente até o final dos tempos, como é que podemos esperar pelo retorno dele num dia determinado?


A segunda leitura, da carta aos Efésios, traz um trecho da doutrina paulina acerca da divindade de Cristo, em consonância com o texto lido no evangelho escrito por Mateus, ambos dizendo que Jesus recebeu do Pai toda autoridade neste mundo e no outro. Paulo diz assim (Ef 1, 20-21): “Ele [o Pai] manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania, ou qualquer título que se possa mencionar, não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro.” E em seguida, Paulo faz a sua conhecida definição da Igreja como o corpo místico de Cristo, sendo Ele a cabeça e nós os seus membros. Essa doutrina paulina se constitui num dos ensinamentos teológicos mais antigos e mais conhecidos no mundo cristão. De fato, Paulo foi muito feliz no acerto dessa comparação, transmitindo uma ideia complexa através de um exemplo bastante simples. E, por saber que se tratava de um assunto tão importante quanto difícil, Paulo ora ao Pai para que faça aqueles cristãos de Éfeso compreenderem verdadeiramente essa doutrina. A comunidade de Éfeso foi sempre uma igreja local muito próspera e exemplar. Basta lembrar que João evangelista terminou seus dias como bispo de lá, assinalando a importância daquela comunidade para o mundo cristão antigo.


No evangelho, lemos a parte final do texto de Mateus, no qual ele narra a despedida de Jesus, em termos bem parecidos com o texto de Atos, escrito por Lucas. Até a referência acerca da dúvida de alguns, que Lucas menciona com mais detalhes, Mateus amenisa isso quando diz que “alguns ainda assim duvidaram” (Mt 28, 17). E o texto de Mateus também está em sintonia com a carta aos Efésios, quando afirma que Jesus falou: “todo o poder me foi dado no céu e sobre a terra”. Trata-se de uma autoafirmação de Jesus acerca da sua divindade. Ele provou isso logo em seguida, quando começou a subir na presença deles. Mas antes disso, Jesus renovou aos discípulos a sua ordem mais significativa: fazei discípulos meus todos os povos. Essa a missão que Jesus deu diretamente aos seus discípulos, indiretamente, é o que ele espera que todos nós façamos. No texto dos Atos (1, 8), essa mesma missão é dita com outras palavras: “recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra”. A missão de batizar, isto é, transformar um fiel em discípulo de Cristo, é própria dos cristãos ordenados; mas a missão de testemunhar é comum a todos os cristãos. E esse testemunho não tem limites: vai até os confins da terra. No modo de pensar atual, podemos completar: até os confins do universo.


Em seguida, vem a grande promessa de Jesus: eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo. Essa é a garantia do cumprimento da missão. Eu não vos deixarei órfãos, disse Ele em outro momento. Ele se referia à vinda do Espírito, o “outro” Paráclito, conforme comentamos aqui no domingo passado. Na verdade, é o Espírito que está conosco, o nosso corpo é o templo d'Ele, o Espírito é aquele que procede do Pai e do Filho, portanto, onde está o Espírito, encontram-se aí também o Pai e o Filho. O Espírito é também aquele que confere a unidade da Igreja.


Na verdade, o Espírito Santo é o elo de unidade de todos os cristãos e homens de boa vontade. O Papa Leão, assim como fez também o Papa Francisco, sempre em sintonia com os líderes religiosos mundiais, convoca as grandes religiões monoteístas universais (judaísmo, islamismo) para, junto com os cristãos, assumirem o compromisso de realizar um dia mundial de orações pela saúde do planeta, cada religião de acordo com o seu entendimento e com o seu credo. Faz poucas semanas, o Papa recebeu no Vaticano a Arcebispa Geral da Igreja Anglicana, reforçando esse projeto da unidade de todos os cristãos. Apesar de ter enfrentado diversas críticas, mas o Papa nem deu atenção, porque a ordem de Jesus é que todos sejam um só rebanho. Antes, a Igreja Católica buscava isso forçando em direção a uma ortodoxia rígida, mas atualmente segue a trilha do ecumenismo. Alguém duvida que essa atitude de exemplar ecumenismo não é dirigida e assistida pelo Divino Espírito? É mais uma comprovação do cumprimento da promessa de Jesus, de que permaneceria conosco até o final dos tempos. É na firmeza desta fé que devemos vivenciar a cada dia o nosso compromisso de cristãos.


Meus amigos, que nós nunca esqueçamos nem descuidemos do nosso compromisso testemunhar Cristo com nossa vida e nosso exemplo, conforme Ele nos recomendou. E que o Espírito Santo nos mantenha fiéis e esperançosos no exercício dessa missão.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 9 de maio de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 6º DOMINGO DA PÁSCOA – 10.05.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 6º DOMINGO DA PÁSCOA – O NOVO DEFENSOR – 10.05.2026


Caros Confrades,


Neste 6º domingo da Páscoa, o evangelho de João (14, 15-21) destaca a promessa de Cristo aos apóstolos: não vos deixarei órfãos, mandarei sobre vós o Paráclito, o Espírito da verdade. O Espírito é também o sinal da unidade da Igreja. A liturgia apresenta os atos finais da despedida de Cristo, que prepara o seu grupo de apóstolos para a missão, que se iniciará quando ele se elevar definitivamente para o céu. No próximo domingo, celebraremos a festa da Ascensão. Jesus ao mesmo tempo que se despede, também consola os seus, afirmando que continuará presente no meio deles (e de nós) através do “outro defensor”, que assistirá e revigorará constantemente a atividade da Igreja. Ao longo da história, a presença do Espírito paráclito/defensor/consolador tem sido a fonte de vivificação da fé para todos os cristãos.


Temos na primeira leitura litúrgica, do livro dos Atos (8, 5-17), o testemunho da pregação de Filipe na Samaria, convertendo os samaritanos ao cristianismo. Recordemos que os judeus e os samaritanos eram intrigados e, com o episódio do diálogo entre Jesus e a Samaritana, na beira do poço de Jacó, Ele foi convidado a ir até ao povoado e ali passou alguns dias pregando e os samaritanos daquela cidade acreditaram nele. O texto da leitura de hoje diz que Filipe foi a uma cidade da Samaria (não diz qual) e lá anunciou o evangelho e fez milagres, conseguindo a adesão da fé cristã daqueles cidadãos. Seguindo o exemplo de Cristo, Filipe superou aquele sentimento separatista, que há muito tempo dividia os judeus e os samaritanos, e com coragem se dirigiu para o meio dos “inimigos”. Certamente, a notícia da presença e da pregação de Jesus, no momento anterior, já havia se espalhado por toda a região da Samaria, de modo que a pregação de Filipe não foi exatamente uma “novidade” para aquelas pessoas, mas uma oportunidade a mais para tomarem conhecimento da mensagem cristã e confirmarem sua fé. Quando a boa notícia chegou a Jerusalém, Pedro e João se dirigiram para lá e, concluindo o trabalho iniciado por Filipe, impuseram as mãos sobre esses novos crentes, para que recebessem o Espírito Santo, pois antes somente haviam recebido o batismo. O domingo de Pentecostes ainda está por vir, mas a liturgia já está preparando o terreno para a festa do Divino Espírito.


Na segunda leitura (1Ped 3, 15-18), o apóstolo Pedro continua exortando os judeus convertidos ao cristianismo, animando-os a prosseguirem na fé e na unidade e a não se deixarem esmorecer pelas adversidades. “Pois será melhor sofrer praticando o bem, se esta for a vontade de Deus, do que praticando o mal”. (3, 17) Essa admoestação de Pedro se aplica muito bem a todos os cristãos que, nos dias atuais, estão sofrendo atrozes perseguições pelos governos islâmicos e ateus, que condenam judicialmente os seus cidadãos só porque professam a fé cristã, chegando até a hostilidades físicas. No Oriente Médio, assim como em diversos países do norte da África, a perseguição religiosa individual e grupal (ataques a templos) tem sido um fato constante. Sequestros de padres e freiras são frequentes. Verifica-se que, naquela época com os judeus e hoje com os muçulmanos, os cristãos daquela região do planeta continuam a padecer agruras por causa da sua fé. O discurso de Pedro, portanto, é bastante oportuno nesse contexto do povo cristão da África e do Oriente Médio, onde professar a fé em Cristo é um ato de bravura e de grande coragem. Quando refletimos sobre isso, vemos o quanto nós somos, muitas vezes, frouxos e pusilânimes ao deixamos de demonstrar publicamente a nossa fé num país onde não sofremos nenhuma represália por causa disso. Professar a fé cristã em alguns países é um ato de grande bravura. A todos eles, a nossa mais eloquente homenagem.


No evangelho de João (14, 15-21), Jesus faz a promessa de mandar um “outro Defensor”. Essa expressão joanina tem um significado interessante e merece uma análise vocabular. Vejamos o que dizem os textos originais. No original grego, consta a expressão “allon parakleton”, que no texto latino da Vulgata foi traduzido “alium paraclitum” (tradução literal). Em um comentário anterior, já tive oportunidade de explicar que o vocábulo grego “parákleton” significa defensor, advogado, consolador e deriva do verbo grego “parakeleuô”, que significa dar instruções, aconselhar, instruir, animar. Portanto, devemos compreender o significado de “defensor”, como tradução do termo grego parakleton, no sentido daquela pessoa que dá instruções, que orienta, que aconselha, que anima um grupo. No contexto dessa leitura, o termo defensor guarda mais semelhança com a palavra advogado, aquele que instrui, orienta, dá instruções ao cliente sobre como deve portar-se perante o juiz. Deixemos em segundo plano o sentido de defensor como o que defende, protege, dá segurança (essa é a função do soldado). O Paráclito que Jesus prometeu aos apóstolos é o que vem orientar, dar instruções, animar, vivificar. É importante atentar para o significado da raiz verbal de “parakaleuô”, a fim de entendermos de forma mais plena o sentido de Paráclito. No evangelho (vers. 16), Jesus diz que “o Paráclito vai permanecer sempre convosco”. Ele (Jesus) irá desaparecer dentro de pouco tempo, mas o Paráclito virá e permanecerá com a sua comunidade de fiéis para sempre. De fato, o Paráclito é o Espírito da Verdade e da Unidade, é Ele quem está constantemente assistindo, animando, instruindo, orientando, defendendo, consolando a Igreja de Cristo através dos tempos. É nele que devemos encontrar a confiança de que a mensagem de Cristo seguirá pelo mundo afora, no decorrer dos tempos e que, apesar de eventuais tropeços de seus pregadores, essa mensagem continuará sempre viva e atraente. É o Espírito quem move a Igreja. É o Espírito quem anima o Papa. É o Espírito quem nos impele a vivenciar a nossa fé na vida cotidiana e nos mostra constantemente a melhor forma de agir, basta que estejamos com os “ouvidos” atentos às suas manifestações.


Mas antes de mencionar o Paráclito, o texto do evangelho de João usa o vocábulo “outro” (allon, em grego, alium; em latim, no mesmo sentido). Por que Jesus fala em “outro” Paráclito? A resposta é fácil. Porque Jesus é também o Paráclito. Diz o versículo 18 de João: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós.” Ora, meus amigos, vejam bem: “eu virei a vós, naquele dia, sabereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós”. Que lição interessante o evangelista João está nos dando sobre a Santíssima Trindade: eu virei a vós, eu estou no Pai, vós estais em mim, ele estará dentro de vós. Juntando as frases, temos aí a afirmação de que a Santíssima Trindade habita em nós e que a presença do Espírito é permanente em nós. Jesus diz bem claramente: eu pedirei e o Pai mandará outro paráclito, que permanecerá sempre convosco. O primeiro paráclito (defensor, instrutor) que o Pai enviou foi Jesus Cristo, que veio cumprir a sua missão redentora. Cumprida esta, ele retorna ao encontro do Pai e este mandará o outro Paráclito, que permanecerá conosco para sempre. Ou seja, o Pai, o Cristo, o Paráclito são um só, a Trindade Santa, e eles habitam em nós. O evangelista João era um exímio teólogo e sabia expressar as verdades da fé em palavras simples, diferentes dos teólogos posteriores que transformaram a teologia num tratado lógico científico, nos moldes da ciência aristotélica. Nem precisava isso. Basta ler com atenção e meditar sobre as palavras colocadas por João, de forma simples e direta, para compreendermos o significado do Paráclito e da Trindade. E para sabermos que nós somos o templo onde essa Trindade habita.


O Espírito da verdade, o Espírito da Unidade é também o Espírito da fidelidade. Já faz alguns anos, que os Papas têm se preocupado com a questão da unidade dos cristãos (romanos com os ortodoxos) e do cristianismo com as demais religiões monoteístas (judaísmo e islamismo). Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco desenvolveu diversas, em conjunto com os demais líderes das grandes religiões mundiais (judaísmo, budismo, islamismo), por exemplo, um dia de orações e jejum pelo livramento do planeta das terríveis ameaças que vêm nos assolando, pandemia, guerras, perseguições, causando tensão em toda a humanidade. O Papa Leão ainda não se manifestou a respeito disso, mas certamente dará sequência. Cada religião à sua maneira, compromete-se a realizar uma jornada espiritual em prol do planeta. É o ecumenismo comandado pelo Espírito Santo que se faz efetivo nessa aliança de paz.


Que este mesmo Espírito inspire todos os nossos dirigentes hierárquicos no caminho da unidade de todos os fiéis cristãos e estimule em nosso íntimo o sentimento da fraternidade, que é a característica fundamental também do franciscanismo.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 2 de maio de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO DA PÁSCOA - 03.04.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO DA PÁSCOA – DIÁCONOS E PRESBÍTEROS – 03.05.2026


Caros Confrades,


Neste 5º domingo da Páscoa, a liturgia nos traz uma leitura dos Atos dos Apóstolos, que relata a criação do Diaconato na Igreja de Cristo. A função destes era cuidar dos trabalhos assistenciais e sociais, enquanto os Apóstolos (presbíteros) se dedicavam à pregação da palavra e às funções sagradas. Por muitos anos, a figura do Diácono casado ficou esquecida no ambiente eclesial, sendo reativada pelo Concílio Vaticano II e tornava efetiva nas últimas décadas. Os nossos confrades Ribamar e Batista Rios fazem parte desse grupo dos novos diáconos do nosso tempo. Vale lembrar que, nos primeiros tempos do cristianismo, havia também as diaconisas, função que desapareceu com o tempo e bem podia ser restaurada, tantas são as santas mulheres que servem junto às Paróquias e Dioceses. Faz poucos anos, um Sínodo dos Bispos da Alemanha elegeu, entre uma de suas conclusões, a reabilitação do diaconato feminino, decisão não bem recepcionada no Vaticano, tendo o Papa Francisco, na época, recomendado maior reflexão sobre o tema. O Papa Leão ainda não se manifestou.


Nos Atos dos Apóstolos, consta o nome dos primeiros sete diáconos (At 6,5): Estêvão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau de Antioquia. De acordo com o texto lucano, a tarefa deles era “servir às mesas”, o que eu entendo como as obras de caridade material e assistencial. No texto de Lucas, eram todos homens. No entanto, Paulo, na carta a Romanos (16,1), refere-se a “Phoebe, nossa irmã, diaconisa da igreja de Cencréia”, o que implica entender que havia mulheres também exercendo a diaconia. O site “prebiteros.com.br” explica que “eram mulheres de conduta irrepreensível chamadas a participar dos serviços que a Igreja prestava a pessoas do sexo feminino, principalmente por ocasião do Batismo (ministrado por imersão). Recebiam o seu ministério pela imposição das mãos do Bispo, que não conferia caráter sacramental. – Com a rarefação do Batismo de adultos, foi-se extinguindo a figura da diaconisa na Igreja a partir do século VI.” Não apenas o diaconato feminino, mas também o masculino tornou-se esquecido por muito tempo, até ser restaurado pelo Concílio Vaticano II, porém somente o diaconato masculino, deixando de lado a figura feminina, evidenciando este fato um injustificável preconceito por parte dos padres conciliares. Se na antiguidade cristã, havia as diaconisas, por que não reabrir essa possibilidade nos dias atuais? Aqui em Fortaleza, lembro que nos anos 90, Dom Aloísio nomeou uma freira (Irmã Elizabeth) para oficiar em caráter extraordinário casamentos, batizados e celebrações da palavra na Paróquia do Conjunto Ceará, por causa da escassez de ministros ordenados, e ela oficiou nessa função por bastante tempo, causando espécie até mesmo no Vaticano. Uma pessoa admirável a Irmã Elizabeth Stumpfler, quem a conheceu certamente concordará comigo. Uma jovem alemã que fugiu da Alemanha Oriental para Berlim, na época da segunda guerra mundial (ela contava emocionada essa história, quase foi apanhada pelos nazistas) e veio trabalhar, até o fim dos seus dias, entre as comunidades carentes de Fortaleza. Minha homenagem a ela neste domingo que antecede o Dia das Mães, porque ela foi mãe adotiva de inúmeros jovens e adultos, que buscavam seu apoio e seus conselhos. Que ela, lá do céu, interceda por todos nós.


Na segunda leitura, temos um trecho da carta de Pedro aos judeus dispersos e perseguidos (1Ped 2, 4-9). Conforme já comentei antes, as cartas de Pedro eram dirigidas aos novéis convertidos judeus, da região da Ásia Menor, que eram ofendidos e perseguidos pelos judeus legalistas, por causa da sua conversão ao cristianismo. Isso não deixa de ser um fato curioso, porque no texto dos Atos, lido hoje, Lucas se refere a “numerosos sacerdotes judeus convertidos” (Atos 6, 7), o que talvez explicasse a perseguição por parte dos judeus ortodoxos. Pedro procura levantar-lhes o moral, dizendo que eles são as pedras com as quais Cristo constrói o seu edifício, que é a Igreja, e que essas mesmas pedras, para os que não creem, são tropeço e ignomínia. “Vós, como pedras vivas, formais um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo.” (2, 5) Enquanto Paulo dirigia suas cartas às comunidades gentias (estrangeiras) do território grego, Pedro atendia aos fiéis da Ásia Menor, região que corresponde hoje à Turquia.


Na leitura do Evangelho de João (Jo 14, 1-12), continuamos a observar as dificuldades pedagógicas de Jesus com os seus rudes discípulos. Depois de passar três anos, convivendo diuturnamente com eles e ensinando-lhes a sua Boa Nova, para que eles a espalhassem pelo mundo, Jesus ainda passou cinquenta dias após a sua ressurreição, dando aulas de reforço. Quem já atuou como professor, sobretudo em classes de reforço, já deve ter sentido na pele aquela desanimadora atitude do(a) aluno(a) que, depois de você explicar um assunto já em repescagem, faz uma pergunta que demonstra que ele não entendeu nada e você tem de começar a explicar tudo do começo. Dá vontade de sair correndo da sala. Pois é, Jesus passou por isso também. Estando a se aproximar o dia em que Ele, definitivamente, iria deixar o grupo e encerrar a sua missão, Ele está passando as últimas informações, recordando as lições antigas e fazendo a reciclagem. O apóstolo João faz questão de mostrar a cabeça dura daqueles antigos pescadores de peixes, que Jesus pretendia transformar em pescadores de homens e não economiza as palavras: “Vou preparar um lugar para vós e, quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. E, para onde eu vou, vós conheceis o caminho”. (14, 3-4) Então, vem Tomé com aquela desconcertante pergunta: Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Até parece que a gente escuta Jesus responder: “pelamordedeus”, Tomé, o caminho sou eu, ninguém vai ao Pai senão por mim. Aí chega o Felipe com uma ainda mais desanimadora pergunta: Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta! E Jesus, em vez de sair correndo de desespero com tamanho despreparo, vai pacientemente explicar de novo. Como é que tu dizes: mostra-nos o Pai... Felipe, quanto tempo eu estou com vocês e ainda não me conhecem? Quem Me vê, vê o Pai, porque Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Se não acreditam no que digo, acreditem ao menos nas obras que fiz. Meus amigos, ao refletir sobre essas situações, temos a certeza da origem divina da Igreja. Só mesmo o poder divino pôde conseguir que uma dezena de pessoas incultas e de limitado entendimento construíssem todo esse arcabouço de fé e doutrina, que nos legaram através dos tempos. Alguém poderia até argumentar: mas depois eles receberam o Espírito Santo e ficaram inteligentes... não é bem assim. O Espírito ilumina e vivifica, mas não acrescenta recursos intelectuais a quem não os possui pela natureza. A difusão da Igreja de Cristo só se explica mesmo pela promessa que Ele fez: ide pelo mundo e Eu estarei convosco até o fim do mundo.


Nesse trecho do evangelho, João também coloca na boca de Jesus uma frase que é muito conhecida e interpretada das mais diversas maneiras: Na casa do meu Pai há muitas moradas. (Jo 14, 2) Eu enxergo nessa afirmação a raiz do ecumenismo. Até aprece que Jesus já sabia das divisões que o cristianismo teria de enfrentar no futuro. Era como se ele dissesse: haverá divisões entre vós, com entendimentos diferenciados, criando múltiplas crenças religiosas, no entanto, todas elas, quando exercidas com consciência e fidelidade, são caminhos válidos para o encontro com Deus. Durante séculos, os teólogos ensinaram (e os Papas tornaram isso quase um dogma) que fora da Igreja Católica não há salvação, porque esta é a única e verdadeira Igreja de Cristo. Muitos católicos ainda defendem esse ponto de vista, sobretudo os grupos tradicionalistas, fundamentalistas e carismáticos. É muito triste perceber que, nos dias de hoje, existam pessoas que vivem mentalmente em época anterior ao Concílio Vaticano II. E como são muitos, inclusive sacerdotes e bispos. Logo no início do seu pontificado, o Papa Francisco fez uma afirmação chocante, que causou grande alarde na imprensa e imensa dor de cabeça nos grupos católicos tradicionalistas: ele disse, respondendo a um jornalista, que também as pessoas de outras crenças, que têm atitudes compatíveis com o evangelho, mesmo sem serem cristãs, merecem a salvação. Pois é. Jesus já sabia que, no decorrer dos tempos, haveria grandes dissensões de ideias e graves divergências doutrinárias dentro da sua Igreja e, nem por isso, deixaria de haver um só rebanho. As atitudes dos últimos Papas, fazendo visitas às comunidades judaicas e muçulmanas, além de visitas às Igrejas ortodoxas orientais e, bem recentemente, a visita da Arcebispa Angligana ao Papa Leão, em Roma, vêm abrindo caminho para a formação dessa unidade de todos os crentes. Patriarcas orientais, rabinos judaicos, autoridades árabes, todos estão ansiosos com essa aproximação da Igreja de Roma, porque isso demonstra uma extraordinária quebra de preconceitos e tabus seculares, coisa que os Papas anteriores não ousaram enfrentar. E assim estamos caminhando verdadeiramente, pela via do diálogo e da mútua compreensão, para realizar o desejo de Cristo: que haja um só rebanho e um só Pastor, que é Ele próprio.


Que nós saibamos superar vetustos preconceitos e possamos trabalhar pela unidade de todos os povos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 25 de abril de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4 DOMINGO DA PÁSCOA - 26.04.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA PÁSCOA – O PASTOR E O IMPOSTOR – 26.04.2026



Caros Confrades,


No 4º domingo da Páscoa, a liturgia nos apresenta a clássica imagem do Bom Pastor, talvez uma das imagens mais conhecidas e mais reproduzidas pela arte sacra. A exposição detalhada e consistente do evangelista João reforça essa figura, que era tradicional nas culturas antigas e muito familiar naquele ambiente oriental do cristianismo primitivo. Neste domingo, tanto quanto no domingo anterior, destaca-se a figura de Pedro, na leitura de Atos e também na leitura da sua primeira carta. O oposto do bom pastor será o impostor, o que não entra pela porta, mas escorrega furtivamente pela janela e engana ostensivamente. Olhando para a nossa sociedade contemporânea, parece que estamos com grande deficiência de bons pastores. A todo momento, temos notícias de lobos travestidos de ovelhas, enganando o povo que, por sua vez, parece gostar de se deixar enganar.


A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos (2, 14ss), relata mais um trecho do discurso de Pedro feito no dia de Pentecostes para a multidão, que acorreu ao Cenáculo com o barulho da ventania. O mesmo povo que, dias antes, havia pedido a morte de Jesus e a soltura de Barrabás, diante do discurso inspirado de Pedro, pergunta, arrependido: o que devemos fazer? E Pedro responde: convertei-vos e recebei o batismo para o perdão dos pecados. (At 2, 38) Diz o texto que, naquele dia, cerca de três mil pessoas foram batizadas. Esta leitura, embora sem mencionar diretamente, retrata a figura do Bom Pastor, enquanto porta da salvação para as “ovelhas” arrependidas. Esses fenômenos de conversões em massa, que se sucederam logo após o dia de Pentecostes, causavam grande irritação aos fariseus e sumos sacerdotes, porque haviam manobrado o povo contra Jesus, pedindo a Pilatos a sua condenação e agora viam o mesmo povo mudando de lado, arrependido. Grande parte dos visitantes e da população de Jerusalém, muitos que estavam ali para os festejos da Páscoa e haviam acompanhado os acontecimentos da paixão de Jesus, também souberam dos eventos miraculosos que sucederam a sua morte, causando-lhes grande comoção. E, ouvindo a pregação simples dos apóstolos, passaram a acreditar em Jesus e entraram a fazer parte do rebanho do Bom Pastor.


Na segunda leitura, extraída da primeira carta de Pedro (1Pd 2, 20), lemos a sequência do texto do domingo anterior, daquela carta dirigida aos judeus convertidos, que sofriam perseguições por causa de sua opção religiosa pelo cristianismo. Daí que Pedro os exorta a suportarem com paciência o sofrimento, seguindo o exemplo de Jesus que, mesmo sem culpa, não se maldisse nem se vingou dos que o maltrataram. E embora sem fazer alusão direta, o texto de Pedro também guarda relação com a figura do Bom Pastor, quando diz: “andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas.” (1Pd 2, 25) O Bom Pastor, portanto, está presente na pregação dos apóstolos desde os primeiros tempos, porque a metáfora do pastor e do rebanho estava bastante ligada à realidade do povo judeu, que tinha na ovinocultura uma importante fonte de renda, sendo uma profissão tradicional e muito integrada na vida econômica de suas comunidades. Ora, se ainda hoje, quando vivemos numa época de maciça produção tecnológica, a ideia de um pastor ainda tem forte apelo emocional e devocional, quanto mais naquele tempo em que essa atividade era costumeira e rendosa. Os nossos Bispos ainda são chamados de pastores e os ministros das igrejas cristãs não católicas adotaram esse epíteto como referência para a sua liderança religiosa. No Ceará, a figura humana que corresponderia ao pastor seria a do vaqueiro, tradicional e romântico personagem da nossa zona rural, que antes aparecia com chapéu de couro e gibão, montado em brilhosos cavalos, e hoje transita montado em outros “cavalos”, estes mecânicos, de pés redondos e emborrachados, movidos a gasolina. Nas cidades do interior, com certeza há mais motocicletas do que automóveis e, se duvidar, do que as tradicionais montarias. Tanger rebanhos montado numa moto é a nova imagem do nosso sertão tecnológico.


A leitura do evangelho de João (Jo 10, 1-10) narra o início da parábola do Bom Pastor, um dos símbolos muitas vezes repetidos na catequese de Jesus, sendo uma narrativa que consta apenas no evangelho escrito por João. É compreensível que João, tendo escrito seu texto depois dos outros evangelistas e ainda tendo tido o privilégio de conviver com Jesus, pôde fazer uma espécie de complementação, relatando fatos e circunstâncias que os demais não haviam escrito. Por isso, é comum encontrarem-se certas passagens que constam apenas no evangelho joanino e é também por isso que este evangelho não leva o título de sinótico, como os três primeiros. Enquanto os outros fizeram uma espécie de sinopse de textos esparsos que circulavam nas comunidades, guardando assim diversas passagens em comum, o evangelho de João é mais reflexivo e específico, legando-nos o entendimento das primeiras comunidades localizadas na região da Ásia Menor, onde ele atuava. Apenas para recordar, João, assim como Paulo, são os primeiros teólogos do cristianismo e João escreveu seu evangelho em Éfeso, onde era bispo daquela comunidade.


Acerca da figura do Bom Pastor, ele começa descrevendo o seu oposto, isto é, o mau pastor, aquele que não entra pela porta, mas furtivamente e às escondidas. A tradução oficial da CNBB usa dois substantivos para exemplificar o mau pastor: ladrão e assaltante. (Jo 10, 1) Mas vejamos os vocábulos originais, para fazermos uma comparação. No texto da vulgata, São Jerônimo chama o mau pastor de “fur et latro”, que em português correspondem à tradução oficial da CNBB. FUR é o que rouba às escondidas e LATRO é o que rouba com violência. A lei penal brasileira faz essa mesma distinção entre os tipos penais. Porém, no texto grego original, os vocábulos são “kléptes” e “lestes”. KLEPTES significa embusteiro, enganador, o que age com dissimulação, não necessariamente o ladrão. Na língua portuguesa, existe a palavra “cleptomania”, aplicada às pessoas que têm um desvio de conduta, anomalia que as leva a se apoderarem de bens alheios furtivamente, até sem ter necessidade, apenas pela emoção de surrupiar. E a palavra grega “LESTES” deriva do verbo “lesteuô”, que significa fazer pirataria, portanto, “lestes” é o pirata, o usurpador. No grego como no latim, ambas as palavras têm a ver com o furto e podem ser traduzidas, genericamente, por ladrão. Mas me parece que essas explicações dos vocábulos gregos ajudam a compreender um sentido mais profundo por trás do conceito do mau pastor. O ladrão e o assaltante põem as ovelhas para correr e assim não podem ser comparadas com um pastor. Já o enganador, o impostor, o usurpador tentam se passar pelo autêntico pastor e podem, sim, enganar as ovelhas. São os lobos travestidos de cordeiros, outra figura também emblemática nesse contexto. Por isso, penso que esses estereótipos são mais compatíveis com a figura do mau pastor do que os conceitos comuns de ladrão e assaltante. Mais adiante, no versículo 12 (que não faz parte da leitura de hoje), João compara o mau pastor com o mercenário, que está mais relacionado com a figura do usurpador, do enganador, o que reforça a minha conclusão de que os termos “ladrão e assaltante” não são os mais adequados para a tradução.


Então, o bom pastor é o que entra pela porta e as ovelhas conhecem sua voz e o seguem. Logo em seguida, ao fazer uma explicação mais direta, porque pareceu que seus interlocutores não haviam entendido, Jesus diz claramente: digo-lhes uma coisa – eu sou a porta, (Jo 10, 7) quem entrar por mim será salvo (Jo 10, 9). Observemos a transmutação dos conceitos: o bom pastor torna-se a própria porta por onde as ovelhas devem entrar, ele entra pela porta e se transforma na própria porta do aprisco. Mais do que o simples condutor do rebanho, como são todos os pastores convencionais, Jesus se identifica como a porta por onde as ovelhas devem entrar para encontrarem pastagens abundantes. Aí está a grande novidade. Transcendendo o conceito de bom pastor para a porta da verdade, Jesus está se autoafirmando como Deus. Ele não apenas conduz os seus seguidores para Deus, mas quem crê nele e, portanto, passa através dele, já chegou a Deus. Concretamente, no âmbito de nossas vidas, a porta por onde passamos para chegar até Jesus é o nosso batismo, pelo qual passamos a fazer parte do seu “rebanho”. Assim, voltamos ao trecho da leitura de Atos, citado acima, quando Pedro responde aos que o interrogaram sobre o que deviam fazer: convertam-se e aceitem o batismo de Jesus. (At 2, 38) Aceitar o batismo significa escolher a porta certa, a porta da verdade, que conduz à salvação.


Meus amigos, o batismo não é um fato do nosso passado, de quando ainda éramos infantes e nossos pais nos levaram a receber esse divino dom. Esse evento foi apenas o momento da entrada, mas nós continuamos a caminhar na estrada da salvação. Por isso, o batismo deve se renovar a cada dia, na nossa missão junto à família, à sociedade, à profissão, através do nosso testemunho de pertença ao rebanho de Cristo, pelo qual as pessoas com quem convivemos possam perceber em nós a marca que identifica os verdadeiros cristãos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos