sábado, 15 de agosto de 2026

COMENTARIO LITURGICO - FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA - 16.08.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO 20º DOMINGO COMUM – FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA – 16.08.2026


Caros Confrades,


Neste 20º domingo comum, a memória litúrgica celebra, no Brasil, a festa da Assunção de Maria, uma verdade de fé proclamada pelo Papa Pio XII, em 1950, a última proclamação dogmática feita por um Papa. O Papa Pio XII, segundo ouvi de um sacerdote que estudava em Roma naquela época, ficou muito relutante se devia ou não fazer essa declaração dogmática da Assunção de Maria, porque não tem base na Bíblia, mas apenas na tradição. Ele pediu a Deus um “sinal” que lhe desse a certeza na sua convicção, pois estava cônscio da sua responsabilidade e da grande repercussão que a sua decisão teria. Logo abaixo, falarei sobre o sinal que ele recebeu.


As histórias acerca da “morte” de Maria são antigas e suportadas por uma tradição muito forte, de modo especial no catolicismo oriental. Consta que Maria “morreu” aos 70 anos, no ano 56, e a sua despedida movimentou toda a cidade de Jerusalém. O apóstolo João era o seu guardião e o evangelista Lucas era o seu médico particular. Consta que ela recebeu, pela segunda vez, a visita do anjo Gabriel, anunciando a sua breve “morte” e ela, novamente, teria dito “eis aqui a serva do Senhor, faça-se segundo a tua palavra”. A história pessoal de Maria é ímpar e admirável.


Não apenas na Igreja Católica Romana, mas também no catolicismo ortodoxo das Igrejas Orientais, a assunção de Maria é celebrada desde a antiguidade, embora no oriente não tenha sido definida como dogma de fé. Mas foi nessas Igrejas orientais que se iniciou, por volta dos séculos III e IV, a celebração da “dormição” de Maria, baseada em escritos antigos que circulavam naquelas comunidades, nos quais se afirmava que Maria não havia morrido, mas apenas adormecera e então foi levada ao céu pelos anjos. Narra uma tradição da igreja siríaca que o apóstolo Tomé viu o momento em que Maria estava sendo levada pelos anjos e então pediu a ela uma relíquia, para guardar como lembrança e, ao mesmo tempo, comprovar aquele fato. E, então, Maria desatou o cinco que levava na cintura e o deixou cair nas mãos de Tomé. Atualmente este cinto repousa em uma catedral dedicada a ela e esta é a única relíquia material que existe dos objetos de Maria.


A Igreja Católica Romana não guardou essa tradição, porém interpreta a narração apocalíptica do capítulo 12, que descreve o aparecimento de um grande sinal no céu, com uma mulher vestida do sol, pisando sobre a lua e coroada com doze estrelas como sendo a figura de Maria. Há também escritos muito antigos, como o “Liber Requei Mariae” (livro do descanso de Maria), do século III, que afirma que Maria não morreu, apenas descansou. E também um outro escrito, este do século V, intitulado “De transitu Mariae” (sobre o trânsito de Maria), que reforça a mesma afirmação. Estes dois são escritos anônimos, ou, pelo menos, sua autoria não tem comprovação. E no século VI, o teólogo São João Damasceno defendeu essa doutrina, numa demonstração da força desse pensamento teológico já naquela época. Foi com base nesses textos e no testemunho, do qual falarei a seguir, que o Papa Pio XII decidiu fazer a proclamação do dogma. A teologia ensina que a morte é consequência do pecado. Se Maria foi concebida sem pecado, então a morte não sobreveio a ela.


Antes de se decidir pela oficialização do dogma, o Papa Pio XII estava com sérias relutâncias e pediu a Deus um “sinal” inequívoco. Este veio de uma maneira bem prosaica, através de um garoto francês. Quando criança, este menino fora milagrosamente curado de uma doença considerada incurável, graças às orações de seus pais à Virgem Maria. Certo dia, o menino falou ao pai dele que havia recebido um recado de Maria, que ele deveria transmitir ao Papa. O pai não levou a sério, até porque era pobre e não tinha condições financeiras de ir a Roma, mas, durante meses, o garoto insistiu que precisava falar com o Papa. A história se espalhou e os parentes e amigos ajudaram para as despesas da viagem. Chegando a Roma, o pai do menino ficou embaraçado, sem saber como chegar até o Vaticano e pedir uma audiência com o Papa, achando que ninguém acreditaria naquilo. Para surpresa dele, no dia seguinte, uma pessoa que ele não conhecia chegou na hospedaria onde estavam e perguntou se ali estava hospedado um garoto francês e que o Papa o esperava para falar com ele. Essa pessoa era um assessor do Papa e levou o garoto para conversar com ele. Bem, não precisa contar o resto da história. O que ele o Papa conversaram nunca foi revelado, mas depois desta conversa, o Papa se convenceu de que deveria oficializar o dogma da Assunção de Maria.


A proclamação papal acerca do dogma da Assunção não afirma de forma taxativa se houve ou não a morte de Maria, isto é, proclamou a assunção de Maria em corpo e alma ao céu, sem se pronunciar sobre o detalhe se ela havia morrido ou apenas dormido ou descansado, conforme consta nos escritos anônimos dos primeiros séculos. Essa omissão proposital é uma atitude de prudência, para que os eventuais adversários da proclamação não viessem a contraditá-la por haver-se baseado em escritos apócritos. Por isso, além da referência ao capítulo 12 do Apocalipse, a doutrina também referencia a carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 22-23): “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.” A Igreja entende que, logo depois da entrada gloriosa no céu de Cristo ressuscitado, foi a vez de Maria, pela sua condição de imaculada mãe de Deus. Na verdade, a definição dogmática da assunção de Maria é uma consequência lógica de outra definição dogmática conciliar, publicada no Concílio de Éfeso, em 431, que proclamou Maria como Mãe de Deus, desfazendo uma antiga heresia, segundo a qual Maria era mãe apenas de Jesus homem, mas não de Cristo Deus, porque Deus não pode ter mãe.


Sobre as leituras litúrgicas da festa de hoje, já nos referimos acima à primeira, retirada do Apocalipse (12, 1), que fala do grande sinal (signum magnum) visto por João no céu. Era uma mulher grávida e, ao seu lado, um enorme dragão esperando que ela despachasse a criança, a fim de devorá-la. Essa imagem é emblemática nos arquétipos teológicos de todos os tempos, como uma referência clara e explícita aos embustes demoníacos contra a Igreja. Mesmo sem termos em mente qualquer anjo do mal, como criatura espiritual, podemos enxergar esses “agentes demoníacos” no interior de alguns setores burocráticos da própria Igreja. Quem não se recorda dos asquerosos “corvos do Vaticano”, que tanto atormentaram o Papa Bento XVI, forçando a sua renúncia, em 2003. Foram eles mesmos que dominaram o Papa João Paulo II, nos últimos anos de sua vida, período em que ele esteve muito debilitado e senil em consequência da doença de Alzheimer, produzindo documentos em nome do Papa e da sua autoridade, com fortes evidências de que o Papa não sabia mesmo do que estava acontecendo. Dizem que, quando Napoleão Bonaparte assumiu o trono da França, logo depois da Revolução Francesa, teria colocado como um dos objetivos do seu governo a destruição da Igreja Católica. Sabendo disso, o arcebispo de Paris esteve conversando com o Imperador francês e teria revidado assim: desista do seu projeto de destruição da Igreja, porque os próprios padres já tentaram e não conseguiram. E olhando para os tempos atuais, observando os enormes problemas enfrentados pelo Papa e as perseguições violentas contra os cristãos na Áfreica, podemos concluir que os demônios podem até estar dentro dos muros do Vaticano, mas as “portas do inferno” realmente não prevalecerão.


A segunda leitura litúrgica é a carta de Paulo aos Coríntios, à qual já me referi acima, cuja lição sobre a derrota da morte pela ressurreição de Cristo é o fundamento teológico mais forte para a afirmação da assunção de Maria, sobretudo levando-se em consideração que, sobre Maria, a serpente do pecado foi imobilizada, conforme se vê nas imagens dos artistas que retratam a figura da Imaculada Conceição. Aliás, esse título de “imaculada”, de acordo com a revelação particular a Bernardete Soubirous, aceita e admitida pela Igreja, foi Maria mesma quem afirmou: “je suis l'immaculée conception”, assim está estampado na gruta de Lourdes, na França. Não é afirmação bíblica, mas a tradição é fortíssima e antiquíssima, devendo ser prestigiada na sua credibilidade.


Uma curiosidade, que o evangelista Lucas não revela é onde Maria terminou seus dias. As crenças tradicionais são divergentes acerca do fato. Segundo algumas tradições, ela teria permanecido em Jerusalém, até o seu “passamento” - digamos assim, para não afirmarmos nem que ela morreu nem que descansou. Segundo outras tradições, ela teria terminado seus dias em Éfeso, onde existe uma casa, que é visitada pelos peregrinos e venerada como sendo a “casa de Maria” e de onde ela teria sido trasladada para o céu. Sabemos que João, o evangelista, era bispo de Éfeso e foi a ele que Jesus confiou os cuidados com Maria, ainda no Calvário. Talvez por isso a tradição se incline a aceitar que Maria teria terminado a vida em Éfeso. Mas pode ser também que João tenha se mudado para Éfeso somente depois da “passagem” de Maria, esse fato também não foi documentado. João teria se transferido para Éfeso, conforme a tradição, por volta do ano 50. Supondo que Maria teria engravidado com cerca de 15 anos, como era o padrão da sua época, no ano 55 ela teria cerca de 70 anos de idade. Por isso, tanto uma tradição quanto outra (Jerusalém ou Éfeso) são compatíveis com os fatos e assim não tem como solucionar a controvérsia.


Meus amigos, penso que é crença incontroversa o fato de que Maria ocupa um lugar central e incomparável em toda a economia da salvação (para usar um termo clássico da teologia). Não é por acaso que ela é reverenciada com tantos títulos. Que ela sempre nos vigie a todos com a sua ternura maternal.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 8 de agosto de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO -19º DOMINGO COMUM - 09.08.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 19º DOMINGO COMUM – FIRMEZA NA FÉ – 09.08.2026


Caros Confrades,


A liturgia deste 19º domingo comum nos exorta a sermos firmes na nossa postura de fé. Esta não pode padecer nem do apego à tradição, de um lado, nem da fragilidade da dúvida, de outro. A primeira figura está no desabafo de Paulo, na carta aos Romanos, onde ele lamenta pela atitude rígida dos judeus, os legítimos herdeiros da promessa, que não reconheceram o Filho de Deus. A segunda figura está na fraqueza de Pedro diante do perigo, duvidando de si próprio e sucumbindo na sua vacilação. São duas situações perante as quais precisamos estar atentos, porque facilmente elas podem nos iludir. A nossa fé não pode ficar estagnada no tempo e nem ameaçada por dúvidas, mas deve seguir um constante processo de crescimento e amadurecimento, superando todas as ameaças que a afligem.


Na primeira leitura, retirada do livro dos Reis (1Rs 19, 9-13), o autor sagrado nos ensina a reconhecer Deus nos acontecimentos, mostrando o exemplo do profeta Elias. Ele subiu o monte Horeb (que é o mesmo monte Sinai), a fim de ter um encontro com Javeh, e pernoitava numa caverna, quando recebeu o aviso: espera lá fora, que o Senhor vai passar. Então, o profeta viu chegar um grande vendaval, mas não se abalou porque não viu o Senhor naquele vento; depois, veio um terremoto medonho, mas também ele não se impressionou, porque não viu o Senhor no terremoto; depois, viu um fogo devastando as árvores, mas o Senhor também não estava no fogo; por fim, veio uma leve brisa, então, ele saiu para esperar a chegada de Javeh. O que devemos entender com isso? Que a ação de Deus acontece de forma suave, natural, sem alarde, mansamente. Deus não precisa fazer grande barulho para mostrar-se a nós. Ele não necessita de ser anunciado com toque de tambores ou som de cornetas, como faziam as autoridades dos tempos antigos, nem ainda através de ruidosos alto-falantes, como alguns pregadores hodiernos, a fim de serem notados pela população. Deus age na nossa vida de forma quase imperceptível, nós só precisamos estar atentos e saber perceber a sua presença na mais simples rotina, na mais costumeira tarefa diária. Não nos devem impressionar atitudes espalhafatosas de alguns pregadores, que aparecem nas igrejas eletrônicas, cujos canais enchem a lista das transmissões na TV, caprichando nas mímicas e nos trejeitos, utilizando-se até de encenações teatralizadas e pagas (isso já foi comprovado), com o intuito de auferirem maior credibilidade. A lição do Profeta está ali: Deus não está nesses eventos teatralizados, nesses terremotos psicológicos, no fogo dos anúncios fantasiosos. Deus está presente na simplicidade, na leveza do contato, na naturalidade do encontro pessoal. Quão proveitoso seria se todos os que buscam a Deus aprendessem a lição ensinada pelo profeta Elias nessa leitura. Rapidamente, os ilusionistas da religião seriam desmascarados e os verdadeiros pregadores da Palavra seriam identificados.


A segunda leitura, dando continuidade à carta aos Romanos (Rm 9, 1-5), traz a queixa e o desabafo de Paulo em relação aos seus “irmãos de raça”, os judeus e mais ainda os fariseus, aquele grupo de judeus mais radicais e mais apegados às filigranas do texto da lei do que ao seu espírito de sabedoria. Diz ele: “Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça.” Paulo oferece a sua própria vida pela conversão dos judeus, para libertá-los daquele fechamento mental, que os impede de reconhecerem a verdade da Palavra de Deus humanizada em Jesus Cristo. “ A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas e também os patriarcas,” ou seja, eles são os chamados em primeiro lugar, os que deveriam estar na frente da fila, eles é que deveriam estar no trabalho de conversão dos gentios, no entanto, ao contrário, os gentios estão servindo de exemplo para eles, pela sua adesão à fé em Cristo, que eles renegam. E Paulo lamenta porque é um deles, foi educado como eles, sabe o que eles pensam, sabe o que eles esperam. Paulo pensava como eles e despertou para uma nova visão, daí a profunda dor que o Apóstolo sente pelo fato de seus irmãos de raça não serem também irmãos na fé cristã. O extremismo da sua compreensão das escrituras impede que eles aceitem o evangelho. Eles são tão aferrados à sua tradição, tão cuidadosos cumpridores de suas obrigações religiosas, no entanto, fecham-se num casulo intransponível, criado por eles próprios, e ficam impossibilitados de ver os novos rumos para onde a religião caminha.


Meus amigos, esta fé enclausurada em si própria, nos dias de hoje, é muito mais frequente do que se possa imaginar. Diversos grupos se apegam ao tradicionalismo religioso e rejeitam sumariamente qualquer nova abordagem da fé. O medo da heresia, mais ainda, o medo de uma possível infidelidade e de um castigo por causa disso levam muitos católicos a refugiarem-se nas velhas práticas e nas antigas doutrinas, criando uma clausura mental de pseudo segurança, tal como os judeus ainda hoje fazem, em relação ao segundo mandamento. O receio de chamar o nome de Deus em vão é tão grave e patológico que, no lugar da palavra Javeh eles pronunciam Elohim, Adonai, o Eterno, o Nome, mas não dizem Javeh, por causa da eventualidade de transgressão do segundo mandamento. Não devemos assimilar tal atitude. O nosso Deus é Amor, sua benevolência e compaixão são ilimitadas, não devemos criar obstáculos onde eles não existem. Lamentavelmente, existem em nossa Igreja clérigos e leigos submissos a essa ideia anacrônica de um Deus terrível, ameaçador, com o chicote permanentemente na mão pronto para castigar o fiel ao menor deslize. No meu modo de entender, esses comportamentos podem ser identificados com a estreiteza religiosa dos antigos fariseus, que transformaram a lei de Moisés num conjunto de torturas físicas e mentais, que lhes obstruía o entendimento e a sensibilidade. Basta uma leitura mais atenta dos evangelhos para percebermos que não foi isso que Cristo ensinou.


No evangelho de Mateus (14, 22-33), vemos na imagem de Pedro a atitude oposta da fé petrificada em rígidos preceitos, isto é, Pedro é a fé vacilante. Ao menor desafio, diante do menor obstáculo alguns cristãos sucumbem vítimas de suas próprias dúvidas. Se prestarmos atenção, podemos descobrir, na nossa própria vida, situações em que agimos iguais a Pedro, vencidos pela insegurança e a incerteza daquilo em que cremos. Quando Jesus se identificou para os discípulos, andando sobre as águas em direção ao barco como se estivesse em terra firme, Pedro, na sua costumeira impetuosidade, disse logo: também quero fazer isso. E Jesus disse: vem. Mas logo o vento forte se agitou contra o corpo dele e ele duvidou de si próprio. Sim, ele não duvidou de Jesus que lhe havia dito: vem! Ele duvidou da sua própria capacidade de realizar aquela tarefa extraordinária, que era pisar na água sem afundar. Era a sua fé que o mantinha flutuando. Quando ele pensou mais nos seus defeitos do que na força que Cristo havia lhe dado, então começou a afundar. Não foi a falta de fé em Cristo que se abateu sobre Pedro, mas ele duvidou de si mesmo, ele pensou que não seria capaz de fazer algo tão difícil, mesmo tendo recebido a ordem de Cristo: vem!


Meus amigos, esse comportamento de Pedro nos toca muito de perto, porque é muito possível que nós venhamos a padecer dessa mesma fraqueza, nos momentos em que somos desafiados. A fé cristã exige de nós certos compromissos que, às vezes, nós temos dúvida se poderemos levá-los adiante. O maior deles, talvez, seja o nosso compromisso de ser sal da terra e luz do mundo, isto é, de sermos exemplos para as outras pessoas. Não se acende uma luz para pô-la dentro do armário, nem se toma o sal para jogá-lo fora. Penso que nenhum de nós discorda disso e cada um se diz disposto a colocar em prática. Porém, quando somos desafiados numa situação concreta, muitas vezes agimos em desacordo com esse compromisso. Se eu critico os políticos corruptos (o que é muito comum, tanto uma coisa quanto outra, ou seja, a crítica e a corrupção), porém, eu cometo pequenos desvios de conduta social (por exemplo, avançar um sinal de trânsito, jogar papel no chão, sonegar um tributo, tirar vantagem de uma situação em detrimento de alguém), fatos considerados banais para algumas pessoas, então eu estou fazendo igualmente a Pedro, isto é, estou fraquejando na minha fé, estou sendo incoerente na minha crítica aos que agem desonestamente. A nossa fé deve se manifestar não somente quando vamos à missa, quando rezamos o terço, quando pagamos o dízimo, quando ensinamos a reza aos nossos filhos, isso tudo é muito importante, sem dúvida. Contudo, mesmo nas ações mais corriqueiras do dia a dia, somos constantemente desafiados para darmos o exemplo da nossa fé e, nessas ocasiões, não podemos agir deste ou daquele modo justificando porque “todo mundo faz assim”, porque o nosso compromisso de cristão é ser luz, e não sombra. Não é raro ouvirmos comentário do tipo: “fulano vive na igreja, no entanto, quando sai de lá...” Precisamos vigiar sempre, para não sucumbirmos a tal incoerência.


Deus quer de nós fidelidade sempre, não apenas no comparecimento da missa aos domingos e na participação dos sacramentos, não apenas em determinadas horas do dia ou em determinados dias da semana, mas a cada minuto de vida que Ele nos dá. Que o mergulho de Pedro nos sirva de alerta para nos mantermos firmes na nossa caminhada acima das águas turbulentas da sociedade.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 1 de agosto de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 18º DOMINGO COMUM - 02.08.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 18º DOMINGO COMUM – SOLIDARIEDADE – 02.08.2026


Caros Confrades,


A liturgia do 18º domingo do tempo comum nos traz um eloquente exemplo de Jesus aos seus discípulos ensinando-lhes a solidariedade e a partilha, as quais devem estar à frente do egoismo, realizando o milagre da abundância, através da multiplicação dos pães. Nesses tempos de muita comunicação social mas pouca empatia com o sofrimento dos mais necessitados, a fé cristã exige ainda mais de nós o exercício dessa virtude, através do ato de repartir o que temos com aqueles que têm menos do que nós. Ao comentar esse trecho do evangelho, o Papa Francisco durante o seu pontificado fez um sermão bem interessante aos fiéis presentes na Praça de São Pedro, cujo tema merece ser reproduzido.


Temos, na primeira leitura, um trecho do livro do profeta Isaías (DeuteroIsaías – 55, 1-3), pelo qual o autor exorta os hebreus que estão no exílio, para que não percam a esperança de que eles terão dias de fartura e prosperidade, nos quais mesmo aqueles que não tiverem dinheiro poderão ter comida e bebida em abundância sem pagar. Sempre com muita precisão de detalhes, a profecia de Isaías antecipa ações que serão realizadas futuramente pelo Messias. Podemos ver, nessa imagem simbólica delineada pelo Profeta aos hebreus cativos na Babilônia: “vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga” uma previsão dos diversos milagres de Jesus, através dos quais Ele propiciou alimento miraculoso aos que O seguiam e ouviam seus ensinamentos. O alimento abundante e gratuito objeto da descrição do profeta Isaías, é ainda uma prefiguração da Eucarista, o pão da vida, que é muito mais vigoroso do que qualquer alimento, que traz deleite e revigoramento para o corpo. O Profeta animava os cativos sem esperança, exostando-os de que a libertação estava próxima e uma nova vida os esperava, o que de fato aconteceu pouco tempo depois. Sob a dimensão social, o cativeiro dos hebreus pode ser comparado aos sombrios tempos atuais, em que muitas pessoas se veem sem o necessário para manter-se e isso deve inspirar em nós o dever da solidariedade cristã e da partilha.


Apenas para lembrar aos leitores que os capítulos do livro de Isaías, a partir do cap 45, não foram escrito pelo próprio Profeta, mas por seus discípulos, após a morte daquele. Por isso, chama-se essa parte de DeuteroIsaías (o segundo Isaías). Chegou-se a essa conclusão porque nesses capítulos o texto se refere a acontecimentos sucedidos após a morte de Isaías e, portanto, não podem ter sido comentados por ele. Mesmo assim, a Igreja Católica e as demais instituições cristãs reconhecem a autenticidade desses capítulos como se fossem do próprio profeta Isaías, sem fazer diferença de conteúdo em relação aos capítulos anteriores.


Prosseguindo, na segunda leitura, da carta aos Romanos (35, 37-39), o apóstolo Paulo exalta o amor de Cristo, que está acima e além de qualquer força terrena, por mais vigorosa que esta seja. Nem mesmo a morte ou os poderes celestiais podem afastar a intensidade com que Cristo nos amou. São Paulo pregou o evangelho em Roma numa época de grande academicismo, isto é, num tempo em que a influência da cultura grega era forte entre os romanos e o Apóstolo se dirigia à classe culta romana, na qual ele tinha muitos amigos e seguidores do cristianismo. Esses romanos ricos e poderosos muitas vezes ocultavam sua simpatia pela fé cristã, com receio de represálias por parte da sociedade pagã, sobretudo nos períodos de perseguição. Por isso, o apóstolo Paulo os exorta dizendo que nenhuma força, por mais poderosa que seja, poderá nos afastar do amor de Deus, que se manifestou para nós em Jesus Cristo. Nem a perseguição, nem o perigo, nem a espada, nem as tribulações, o amor de Cristo se coloca acima de tudo isso, perpassa todas as dificuldades.


Podemos encontrar um eco dessas palavras de Paulo no evangelho de Mateus (14, 13-21), quando o evangelista diz que Jesus teve compaixão daquela multidão que estivera com ele o dia inteiro a escutá-Lo: Jesus “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes.” (v. 14) É importante fazer um esclarecimento da palavra “compaixão” nesse contexto, para não misturarmos com o sentido vulgar dessa palavra no nosso idioma, que significa ter pena, ter dó de alguém. No texto latino da vulgata, S. Jerônimo escreveu que Jesus “misertus est”, isto é, teve misericórdia, e no texto grego, o verbo é “eleeô”, que tem a mesma raiz da palavra “esmola” e significa ser solidário, ajudar. Pois bem, a palavra “compaixão” vem do verbo “compadecer”, que pode ser desdobrado em “padecer+com”, ou seja, sofrer junto com alguém. Portanto, a palavra “compaixão” tem aqui o sentido de solidariedade, não é apenas ficar lastimando “oh, coitadinho”, sem nada fazer, mas é partilhar de verdade o sentimento com alguém, através de ações concretas. Num sermão memorável, o Papa Francisco explicou assim o sentido dessa palavra: “compaixão - o que sente Jesus - não é simplesmente sentir pena; é mais! Significa com-patire, ou seja, identificar-se com o sofrimento dos outros, a ponto de sofrê-los também. Assim é Jesus: sofre conosco, sofre junto conosco, sofre por nós. E o sinal dessa compaixão são as muitas curas realizadas por ele. Jesus nos ensina a colocar as necessidades dos pobres antes das nossas. As nossas necessidades, embora legítimas, não serão nunca urgentes como aquelas dos pobres, que não têm o necessário para viver. ” Na verdade, o significado de compaixão é o oposto do egoísmo, do querer tudo para si. Ao contrário, é querer partilhar, não buscar a própria satisfação em primeiro lugar, mas buscar satisfazer-se em conjunto com o irmão necessitado.


A propósito da partilha, disse ainda o Papa: “É útil confrontar a reação dos discípulos diante das pessoas cansadas e famintas, com aquela de Jesus. São diferentes. Os discípulos pensaram que era melhor mandá-los embora, para que pudessem procurar alimento. Jesus, em vez disso, disse: dai-lhes vós mesmos de comer. Duas reações diferentes, que refletem duas lógicas opostas: os discípulos pensam de acordo com o mundo, onde cada um deve pensar em si mesmo; pensam como se dissessem: “Se arranjem sozinhos”. Jesus pensa com a lógica de Deus, que é aquela da partilha. Quantas vezes olhamos para o outro lado com o olhar de não ver os irmãos necessitados! E esse olhar para outro lado é um modo educado de dizer, com luvas brancas, “Se virem sozinhos”. E isso não é de Jesus: isso é egoísmo. Se tivesse mandado embora as multidões, muitas pessoas teriam ficado sem comer. Pelo contrário, aqueles poucos pães e peixes, compartilhados e abençoados por Deus, foram suficientes para todos. E atenção! Não é uma magia, é um “sinal”: um sinal que convida a ter fé em Deus, Pai providente, que não nos deixa faltar o “nosso pão de cada dia”, se nós o sabemos compartilhar como irmãos.” Achei simplesmente notável essa catequese papal e resolvi reproduzir, porque está muito bem explicada a doutrina e nem sempre temos oportunidade de ler as homilias do Papa. Os discípulos de Jesus, mesmo bem-intencionados, pensam com a lógica do mundo: se virem para arranjar comida pra vocês. Jesus pensa com a lógica de Deus: deem a vossa comida para essas pessoas. Como fazer isso? Ora, partilhando. É óbvio que um de nós isoladamente não pode fazer o milagre da partilha, isso vai depender da ação conjunta de todos. Cada cristão fazendo a sua parte, então teremos o milagre da partilha se tornando realidade no dia a dia da nossa sociedade.


Não precisa grande esforço mental para compreender que a figura dos pães e dos peixes partilhados com a multidão é uma prefiguração da eucaristia, o pão que alimenta toda a humanidade. A respeito da Eucaristia, o Papa Francisco assim se referiu: “o milagre dos pães anuncia a Eucaristia. Isto pode ser visto no gesto de Jesus que "recitou a bênção" (v. 19), antes de partir os pães e distribuí-los ao povo. É o mesmo gesto que fará Jesus na Última Ceia, quando vai instituir o memorial perpétuo do seu Sacrifício redentor. Na Eucaristia, Jesus não dá um pedaço de pão, mas o pão da vida eterna, dá a Si mesmo, oferecendo-se ao Pai por amor a nós. Mas nós temos que ir à Eucaristia com aqueles sentimentos de Jesus, ou seja, a compaixão e aquela vontade de compartilhar. Quem vai à Eucaristia sem ter compaixão dos necessitados e sem compartilhar, não se encontra bem com Jesus.” Diz o evangelista que eram cerca de cinco mil homens, afora mulheres e crianças, todos comeram e ficaram saciados e os pedaços que sobraram encheram ainda doze cestos. Vemos nesta cena uma concretização da profecia de Isaías (vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga) referida acima. O Profeta estava prognosticando os tempos messiânicos, vividos por aquela multidão de seguidores de Cristo na Galileia e, por extensão, vividos por nós seguidores de Cristo nos dias atuais. A todos nós é dado o pão que alimenta e sacia de forma livre e gratuita, aliás, não é totalmente gratuito, o seu pagamento é o amor de Cristo para conosco, que custou muito caro, tem um preço inestimável, mas para nós é totalmente entregue, desde que nós tenhamos no coração essa mesma moeda: o amor.


E concluo tomando emprestadas novamente as palavras do Papa: “Compaixão, partilha, Eucaristia. Este é o caminho que Jesus nos mostra neste Evangelho. Um caminho que nos leva a encarar com fraternidade as necessidades deste mundo, mas que nos leva para além deste mundo”.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 25 de julho de 2026

COMENTARIO LITURGICO - 17 DOMINGO COMUM - 26.07.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 17º DOMINGO COMUM – PARÁBOLAS DO REINO – 26.07.2026


Caros Confrades:


A liturgia deste domingo nos põe para reflexão três parábolas pronunciadas por Jesus Cristo para exemplificar, em linguagem popular, o objetivo primordial da sua missão, que era anunciar o reino de Deus e convidar todos a dele participar. São metáforas bastante curtas, mas de importantes significados, bem ao nível da compreensão das pessoas de poucas letras, por fazerem comparações com fatos do dia a dia daquele povo. O tesouro escondido, a pérola de grande valor e a rede lançada ao mar eram, sem dúvida, imagens bastante familiares aos galileus e assim ficava mais fácil transmitir para os ouvintes uma noção sublime e complexa, que somente vários anos mais tarde foi-se esclarecendo, através das doutrinas dos Padres da Igreja primitiva e formando os princípios teológicos hoje conhecidos.


Na primeira leitura, do primeiro livro dos Reis (1Rs 3, 5-12), lemos um episódio de grande simbolismo relativo ao reino de Israel, protagonizado por Salomão, o mais famoso dos antigos reis. De acordo com a tradição israelita, Salomão foi escolhido especialmente por Davi, seu pai, para ser o rei por ordem de Javeh, pois ele não era o primogênito. Agiu politicamente a mãe, Bethsabé, que convenceu o profeta Natan a obter a concordância do rei Davi, já bastante idoso na ocasião, e assim ele foi coroado. O herdeiro por direito era seu irmão Adonias, o primogênito, que fez veementes protestos por haver sido preterido. Salomão era muito jovem, quando começou a governar, e sentia-se muito inseguro. Porém, ele tinha sido uma escolha divina e foi assim que Salomão teve uma visão em sonho de Javeh, perguntando-lhe o que ele queria. A oração de Salomão pode ser vista como a oração da humildade e da confiança. Ele poderia ter “aproveitado” para pedir riquezas, poder, longo reinado ou outros bens sócio materiais, mas o que ele pediu e Javeh lhe concedeu foi a antológica sabedoria, que sempre o distinguiu e, com essa característica, ele reinou durante 40 anos. (Observemos aqui a presença da simbologia do número 40, não significando que o seu período de governo tenha sido matematicamente de 40 anos.) No contexto da liturgia deste domingo, a referência a Salomão é para mostrar que o seu reinado, de muita riqueza e prosperidade para o povo de Israel, era uma prefiguração do reino de Deus, que Jesus Cristo viria anunciar futuramente. Se o reino de Salomão, que era puramente terrestre, trouxe tantos bens e glórias para os israelitas, muito mais bênçãos e riquezas trará o novo Reino de Jesus Cristo.


Na segunda leitura, sequência da carta de Paulo aos Romanos (8, 28-30), o Apóstolo se refere ao “reino” com outro conceito - o projeto de Deus: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus.” (Rm 8, 28) Este “projeto” não deve ser outro senão o plano de salvação, a redenção da humanidade trazida por Cristo, do qual a Igreja é o agente continuador. É nesse sentido que a Igreja configura o “reino” de Deus em preparação, o “reino” no meio de nós que já está presente, mas ainda não está na sua forma definitiva, a teoria teológica do “já e ainda não”. Através da atitude de pertença à comunidade eclesial, nós, membros da Igreja, fomos predestinados, somos chamados e justificados para, depois, sermos glorificados. O “projeto” de Deus, o plano de salvação são sinônimos do “reino”, daí porque insisto em que devemos entender o reinado de Cristo como um serviço aos irmãos, como Ele por diversas vezes ensinou aos seus discípulos. Lamentavelmente, ao longo do tempo, esse conceito de reino foi-se transformando no sentido literal e humano, levando ao extremo de se atribuir ao Papa uma coroa papal composta pela tríplice coroa real, que simbolizava o tríplice poder da figura de Cristo como Sacerdote, Profeta e Rei. Essa fusão de conceitos do “reino de Deus” com os reinos territoriais europeus, a partir da Idade Média, trouxe sequelas prejudiciais e indesejáveis, ainda hoje observadas, que são motivos de recusa de muitos intelectuais para aceitarem a doutrina cristã. E, lamentavelmente, há ainda muitos católicos saudosistas, tradicionalistas, que insistem nessa visão triunfalista da Igreja, incompatível com o autêntico projeto de Deus, a que se refere o apóstolo Paulo.


No evangelho de Mateus (Mt 13, 44-52), Jesus nos dá três exemplos bem simples e compreensíveis do que seja o “reino de Deus”, que Ele veio revelar para nós. São conhecidos como “parábolas do reino”. Antes de prosseguir, é importante fazer uma observação: Jesus não pronunciou essas parábolas num mesmo dia, assim em sequência conforme estão escritas no texto de Mateus. Trata-se de uma compilação de discursos proferidos e repetidos por Jesus ao longo dos seus anos de pregação, em diversas ocasiões, que os escritores dos evangelhos, por razões didáticas, preferiram assim organizar em seus textos. Obviamente, Jesus utilizava imagens que, na sua percepção, fossem mais condizentes com o dia-a-dia de cada grupo de ouvintes.


Na primeira metáfora, Ele diz: “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo.” A pessoa que o encontra, vende tudo o que possui para comprar aquele campo e ser possuidor daquele tesouro. Naquela época, as pessoas tentavam guardar escondidas as suas fortunas e, em caso de ameaça de invasões de povos inimigos, enterravam seus pertences de valor, para não serem saqueados. Isso era também comum nos sertões do nordeste anos atrás, antes de existirem os bancos, eram as famosas botijas. Hoje, não existem mais, porém, em outras eras, faziam todo sentido. Na segunda metáfora, diz: “O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas.” Ao encontrar uma pérola de grande valor, o comprador vende tudo para investir naquela encontrada. Ou seja, uma única pérola (o reino) vale mais do que o conjunto patrimonial de alguém. As imagens do tesouro e da pérola, comparadas ao “reino” indicam que todos os bens materiais de alguém têm valor insignificante, daí porque Jesus, em diversas ocasiões, sugeriu aos seus ouvintes que se desfizessem de tudo, para assim ganhar um prêmio na vida eterna. Dito de outro modo, quem descobre o “reino” de Deus logo percebe que tudo o mais é irrelevante, aderindo completamente àquele. Diante da grandeza do “reino”, todos os bens materiais ficam sem valor. Mas como toda comparação é imperfeita, o encontrador do tesouro e o comprador da pérola manifestam também uma ideia egoísta, assim como se o “reino” pudesse ser possuído totalmente por uma pessoa só, o que levou os teólogos do passado a ensinarem que cada um devia buscar a própria salvação individualmente. O conceito da salvação como algo realizado no meio da comunidade cristã só veio a se desenvolver após o Concílio Vaticano II.


Terceira metáfora: “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo.” Levada a rede para a terra, os pescadores recolhem os peixes bons para os cestos e jogam fora os peixes corrompidos. A imagem da rede cheia de peixes tem uma conotação diferente das anteriores, por referir-se a uma situação de seletividade, dando a entender que nem todos estão aptos a pertencerem ao “reino”. Estes seriam talvez aqueles que pretendem obter o tesouro ou a pérola sem, contudo, se desfazerem dos seus bens terrenos, por isso ficam corrompidos e divididos e precisam ser excluídos do grupo dos eleitos. A parábola da rede de pesca guarda muita semelhança com aquela comentada no domingo anterior, no confronto entre o trigo e o joio: o primeiro será aproveitado, enquanto o segundo será lançado ao fogo. Essas imagens representativas de algo descartável a ser queimado eram “indiretas” que Jesus lançava contra os fariseus, que se misturavam com os autênticos seguidores dele, mas apenas com o objetivo de observá-lo, buscando um motivo para o acusarem. Durante muito tempo, essa imagem foi aplicada na teologia às pessoas que não fazem parte da Igreja Católica, como sendo aquelas destinadas ao castigo eterno. Felizmente, essa percepção exclusivista do “reino de Deus” foi superada pela teologia contemporânea, a doutrina atual tem insistido nisso em diversos temas, sobretudo quando trata do tema do ecumenismo: todas as pessoas que vivem a sua religião de acordo com a sã consciência, com convicção e seriedade, são aptas à salvação. Ainda há, contudo, muitas dissensões dentre os membros da hierarquia sobre o tema, porque a noção solipsista da salvação continua muito forte na mente dos católicos tradicionalistas.


A parte mais interessante vem agora, quando Jesus pergunta se todos entenderam. Eles respondem que sim, então Jesus completa: “todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.” O evangelista não explica essa conclusão, que aparentemente está dissociada das parábolas apresentadas, porque os ouvintes de Jesus não eram mestres da Lei. Mas sabe-se que havia fariseus infiltrados. Então, Jesus, sabendo disso, lançava mão do discurso indireto: ainda há tempo para que os mestres da Lei se convertam para o novo “reino”, sendo capazes de conciliar os ensinamentos da Torah mosaica com a Boa Nova cristã. Através de outras passagens dos evangelhos, sabe-se que nem todos os fariseus se opuseram a Jesus, mas alguns se converteram e se tornaram seus discípulos, embora secretamente. Estes foram os que souberam retirar do seu tesouro familiar as coisas novas e velhas.


Que o divino Mestre nos conceda a sabedoria salomônica para não ficarmos apegados ao passado e sempre sabermos transformar velhas doutrinas em novas ideias, acompanhando a evolução da sociedade.


Com um cordial abraço.

Antonio Carlos

sábado, 18 de julho de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 16 DOMINGO COMUM - 19.07.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 16º DOMINGO COMUM – PARÁBOLAS DO REINO – 19.07.2026


Caros Confrades:


Neste 16º domingo comum, as leituras escolhidas abordam a ação do Espírito Santo na nossa vida, seja através da forma de Sabedoria, como era no Antigo Testamento, seja na forma de sopro divino, como explica São Paulo, na epístola aos Romanos, quando diz que, na nossa fraqueza, não sabemos o que pedir a Deus nem como pedir, mas nesse momento, o Espírito intercede em nosso favor. Na leitura do evangelho de Mateus, a temática deste domingo se concentra nas parábolas do reino, os exemplos pedagógicos utilizados por Jesus Cristo, para simbolizar a nossa realidade definitiva, que já iniciamos nesta vida terrena, ou seja, o “Reino” que nos está assegurado pela sua ação redentora. Embora seja uma realidade futura, o reino já pode ser vivido na nossa condição atual, foi exatamente isso que Jesus veio nos ensinar.


Na primeira leitura, do livro da Sabedoria (12, 13-19), o autor sagrado faz o contraponto entre a força e a justiça. Dentro da mentalidade judaica antiga, ainda não se falava no Espírito Santo. Então, a Sabedoria é a figura que antecipa o Espírito, que foi revelado por Jesus tempos depois. A Sabedoria antiga se identifica com o próprio Javeh e este era visto como uma autoridade poderosa e ciumenta, que aplicava castigos aos que não acreditavam nele, mas julgava com clemência os crentes. Dentro dessa visão de justiça, Javeh era também complacente com os arrependidos, sempre disposto a perdoar os pecadores. Com isso, o hagiógrafo afirma que Javeh está ensinando como deve ser a aplicação da justiça pelas autoridades da sociedade: “Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano” (12, 19). Ou seja, a autoridade social deve sempre tomar como medida da justiça a regra da humanidade. Quanto a Javeh, contudo, o escritor sagrado afirma que “quando quiseres, está ao teu alcance o uso do teu poder” (12, 18), essa, porém, não é a regra a ser utilizada pelo governante da sociedade. No contexto do povo de Israel, a figura de Salomão é o exemplo mais acabado dessa forma sapiente de governar, ele que teve um reinado de muita riqueza e prosperidade, o qual foi tomado como uma prefiguração do reino de Deus, que Cristo viria anunciar futuramente. Se o reino de Salomão, que era puramente terrestre, trouxe tantos bens e glórias para os israelitas, muito mais bênçãos e riquezas trará o novo Reino anunciado por Jesus.


Na atual sociedade, soa impróprio o uso teológico do conceito de “reino”, porque é um estereótipo que transmite uma ideia de riqueza, de segregação, de ostentação e triunfalismo, não compatível com a imagem que a Igreja de Cristo deve demonstrar. É óbvio que essa terminologia se encontra no evangelho porque essa era a realidade social do tempo de Cristo, mas Ele próprio explicou diversas vezes que o reino d'Ele “não é deste mundo”, detalhe que ficou durante muito tempo esquecido pelas autoridades eclesiásticas e algumas delas, ainda hoje, mantêm essa visão triunfalista. Por essa razão, é sempre necessário referir-se ao “reino” de Deus entre aspas, a fim de caracterizar a autêntica figura que a Igreja deve apresentar. O Papa Francisco sempre agiu dessa forma e o Papa Leão também tem dado exemplos marcantes dessa nova forma de compreender o “reino”, com suas vestes simples, sua atenção com os mais pobres, andando de ônibus em vez de andar em carro oficial, fazendo refeições com os seus auxiliares de Roma, dando dessa forma o melhor exemplo de que o “reino” de Deus é de todas as pessoas, das pessoas comuns, retirando aquela barreira e aquele distanciamento que sempre houve entre as autoridades eclesiásticas e os demais cristãos.


A segunda leitura, de Paulo aos Romanos (8, 26-27), enfatiza a ação do Espírito Santo, que realiza, no Novo Testamento, aquelas ações que a cultura judaica apresentava com o título de Sabedoria, que se identificava com o próprio Javé. Os cristãos romanos eram os mais intelectuais das diversas comunidades gentias doutrinadas por Paulo. Bem versados na filosofia grega, Paulo explica aos cristãos romanos a ação própria do Espírito Santo, que intercede em nosso favor “com gemidos inefáveis”, ou seja, os romanos deveriam perceber o significado cristão do termo “espírito”, diferente da noção grega, que eles tinham. O “espírito grego” é sinônimo da racionalidade, da clareza lógica, da argumentação silogística; Paulo diz então que, ao contrário, o Espírito Santo se expressa com gemidos inefáveis, ou seja, com “palavras” que a razão não compreende, mas Deus, que penetra no íntimo dos nossos corações, sabe qual é a “intenção” do Espírito e, mesmo que nós não sejamos capazes de alcançar esse entendimento, o Espírito intercede por nós segundo o entendimento de Deus, e isso é o que importa. Paulo usa (vers. 27) o termo “santos” para significar os cristãos. Convém lembrar que o termo “cristãos” não era ainda de uso comum nessa época, pois fora criado na Igreja de Antioquia e ainda não havia se espalhado como conceito geral para indicar os discípulos de Cristo. Por isso, em suas cartas, Paulo usava o termo “santos”, ou seja, os que foram salvos por Jesus.


No evangelho de Mateus (Mt 13, 24-43), Jesus nos dá três exemplos bem simples e compreensíveis do que seja o “reino de Deus”, através de parábolas. Na primeira metáfora, Ele diz: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora.” A dicotomia trigo-joio tem sido muito invocada na tradição para indicar a distinção entre cristãos e não cristãos. Observemos que, no texto da parábola, quem semeou o joio no meio do trigo foi o “inimigo”. Mais adiante no texto (13, 36), os discípulos pedem a Jesus que explique a parábola para eles, então Jesus diz que o “inimigo” é o “diabo”. Mas, vamos com calma aqui. O diabo não é o demônio, o capeta, o satanás dos infernos. Na literatura ocidental, essas palavras carregam um significado terrível e são consideradas sinônimas. Mas, como disse, vamos com calma aqui, façamos antes uma análise etimológica. No texto grego, temos “ó speíras autá estin ó diábolos”, frase que São Jerônimo traduziu por “inimicus autem est diabolus” (o inimigo é o diabo). Porém, o vocábulo grego “diabolos” tem um significado bem diferente do diabo português. A palavra vem do verbo grego “diaballô”, que significa, espalhar (sementes e também espalhar boatos), caluniar, difamar. Então, o “diábolos” grego é o invejoso, o caluniador, o maledicente, o fofoqueiro. Não nos deixemos levar pelo símbolo cultural medieval que a figura diabólica representa, porque assim nos desviaremos do autêntico significado da mensagem de Cristo. E, com isso, devemos também vigiarmo-nos continuamente, para não sermos “diabólicos” nas nossas relações humanas.


Na segunda metáfora, Jesus diz: “O Reino dos Céus é também como uma semente de mostarda, que um homem pega e semeia no seu campo ” Embora se trate de uma semente bem pequenina, porém, ao germinar, tornar-se-á uma árvore frondosa, onde os pássaros virão pousar. O “reino” tem essa característica da transformação. Por menor que seja a nossa ação em favor do “reino”, o resultado será de grandes proporções, porque nós apenas plantamos, mas quem produz os frutos é o Espírito.


Terceira metáfora: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.” A imagem do fermento é também muito significativa, porque ao se misturar com a massa, o fermento, que é usado em pequena quantidade, não mais se distingue dela, no entanto, os resultados são logo percebidos através do efeito da levedura, que faz multiplicar o seu volume. E completa o evangelista, dizendo que Jesus sempre falava ao povo usando parábolas, o seu modelo pedagógico preferido. De fato, os termos de comparação do “reino” com uma semente, uma planta, uma massa levedada, eram todas imagens familiares ao público ouvinte. Dizia o Padre Luiz Uchoa, meu professor de Bíblia no Seminário da Prainha, que essas parábolas não foram pronunciadas por Cristo numa mesma ocasião, assim em sequência conforme está escrito no evangelho de Mateus, mas foram proferidas e repetidas ao longo de diversas alocuções, de modo que ficaram guardadas na memória do povo. Só muito posteriormente, essas metáforas usadas por Cristo em ocasiões diversas foram recolhidas e colecionadas num mesmo escrito. Isso explica o motivo pelo qual os objetos de comparação muitas vezes não são similares. Por certo, de acordo com o momento e conforme a qualidade dos ouvintes, Jesus utilizava uns ou outros modelos, de maneira a causar sempre o melhor impacto. Foi isso que o tornou um pregador famoso, a quem todas as pessoas acorriam para ouvir.


Posteriormente. de forma reservada, embora nem sempre o evangelista relate isso, Jesus explicava detalhadamente as parábolas para os discípulos, pois sabe-se que eles não eram pessoas de grande cultura e, assim como os ouvintes em geral, muitas vezes não alcançavam o significado daqueles discursos. No evangelho em comento, Jesus explica apenas a parábola do trigo-joio, levando-nos a supor que o evangelista colocou esta explicação ali só como um exemplo. Num sentido trans-histórico, em cada época os leitores podem servir-se da pedagogia de Cristo para referenciar seus ensinamentos aos fatos cotidianos e é isso que faz com que o texto do evangelho seja sempre atual.


Que o divino Mestre nos conceda a sabedoria salomônica para sempre sabermos praticar a justiça com humanidade.


Com um cordial abraço.

Antonio Carlos

domingo, 12 de julho de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 15º DOMINGO COMUM - 12.07.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO 15º DOMINGO COMUM - O SEMEADOR12.07.2026


Caros Confrades,


A liturgia deste domingo se concentra na eficácia da Palavra de Deus, que sempre se realiza entre os homens e não deixa de produzir seus efeitos. Assim diz o profeta Isaías, na primeira leitura, fazendo comparação com a chuva que cai do céu e para lá não volta, mas fecunda a terra. E o evangelista Mateus nos recorda a parábola do semeador, uma das mais conhecidas e uma das poucas que foi explicada pelo próprio Jesus aos apóstolos. Diz o texto latino: “Ecce exiit qui seminat seminare.” (Eis que saiu aquele que semeia para semear). Esta parábola traz à tona alguns assuntos bastante intrigantes para nós, dentre os imensos desafios colocados ali por Jesus.


Primeiramente, gostaria de lembrar que nós todos um dia fomos 'seminados'. Isto é, fomos lançados como sementes. A instituição do Seminário foi criada no Concílio de Trento para semear novas sementes do sacerdócio ministerial. Nós continuamos a ser essas sementes, mesmo não tendo permanecido na vida religiosa, porque a semente da Palavra de Deus, uma vez lançada em nós, continua frutificando. É como se a semente que foi lançada em todos nós, saindo do Seminário, tivesse sido transplantada para outros campos, pois as nossas raízes continuam lá, essa é uma constatação que se reforça a cada novo encontro, a cada conversa do grupo.


A primeira leitura, do profeta Isaías (55, 10, 11), atesta que a Palavra de Deus é sempre eficaz. Na leitura litúrgica de ontem, sábado (Is 6, 6), o Profeta relatava de que modo a “semente” foi lançada em sua pessoa: estando em oração diante do altar em oração, um querubim retirou uma brasa do turíbulo e tocou com ela em seus lábios. Aquele foi o sinal e aquela foi a unção que o transformou em profeta. As palavras proferidas pela sua boca, dali em diante, se revestiam da mesma autoridade da palavra divina. E as profecias de Isaías são conhecidas pela sua precisão e seu detalhamento.


Na segunda leitura, de Paulo aos Romanos, o Apóstolo anseia pela manifestação dos filhos de Deus. “Toda a criação [diz ele] está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus…” pois “ela espera ser libertada da escravidão da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus.” (Rm 8, 21) Ora, como será essa manifestação ou essa revelação dos filhos de Deus? Será através do testemunho que os seguidores de Cristo farão, pondo em prática os seus mandamentos diante da sociedade, que está gemendo como a mulher diante das dores do parto, aguardando os frutos do Espírito. Estes se manifestarão através de nossas palavras e ações e isso acontecerá quando os cristãos, cumprindo os mandamentos de Jesus, se tornarem iguais ao fermento na massa, fazendo germinar os frutos da Palavra de Deus. Diz o apóstolo Paulo que, na verdade, “toda a criação” está ansiando por este momento, porque através da mensagem de Jesus, também a natureza ficará libertada da corrupção e da morte. Paulo reforça, desse modo, a profecia de Isaías a respeito da eficácia da Palavra de Deus, segundo a qual, assim como a chuva que cai, a Palavra de Deus fará fecundar a terra e germinar as sementes plantadas. As duas primeiras leituras, portanto, desembocam na imagem da semeadura e na atividade do semeador.


Passando ao tema do evangelho de Mateus (13, 1-23), abordando ao assunto da semeadura na conhecida parábola de Jesus, podemos nos concentrar em dois pontos importantes.


Primeiro, é o fato incomum de trazer o evangelista a explicação da parábola, feita aos apóstolos pelo próprio Jesus. É de se supor que essa fosse uma prática comum, quando o grupo dos apóstolos retornava, com Jesus, das atividades do dia e se recolhiam para a refeição noturna e o descanso, momento em que Jesus conversava em particular com eles. Embora os evangelhos não tragam essas explicações em relação às demais parábolas, tal prática devia fazer parte da estratégia pedagógica de Jesus.


Deduz-se isso do seguinte detalhe: quando os discípulos perguntam a Jesus “por que você fala às pessoas em parábolas?”, isto é, por que você não fala logo claramente para todos? E Jesus responde: “porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado," para que olhando, não vejam, e ouvindo, não entendam. E aqui, Jesus retoma uma queixa do profeta Isaías: “Porque o coração deste povo se tornou insensível e ouviram de má vontade e fecharam seus olhos..." minha gente, isso é muito duro. Então, Jesus já estaria previamente condenando os judeus, porque não quiseram aceitá-lo e reconhecê-lo como o Messias? Não creio que fosse isso, mas sim que Jesus já sabia dos acontecimentos futuros e via que já não mais adiantava tentar dialogar com os judeus, eram um caso perdido.


Essas palavras duras de Jesus, certamente, não se dirigiam àquele povo judeu que o acompanhava, o povo simples, mas aos seus chefes, aos seus sacerdotes e doutores, pois no meio daquelas pessoas simples que o ouviam, havia os infiltrados, os olheiros. Quanto ao povo de boa fé, Jesus estava preparando os apóstolos para, depois, continuarem a disseminar os seus ensinamentos, tanto àqueles que o ouviam e também aos outros, que não tiveram oportunidade de ouvi-lo. Ele estava literalmente lançando a semente. Essa semente ainda precisava medrar e desabrochar, mas já ficou lançada. Podemos dizer que os judeus seriam aquele terreno pedregoso ou espinhoso, onde ele já sabia que a semente não iria germinar. Mas lançou também por ali, porque no meio de todo terreno pedregoso sempre há alguma porção de terra, no meio dos espinhos há sempre algum espaço livre e assim a semente poderia germinar. Ou seja, Jesus não estava de antemão condenando os judeus, mas não queria desperdiçar seu tempo (que ele sabia ser curto) com um auditório que teimava em não compreender. Deixaria esse trabalho de reforço para os seus apóstolos. Trazendo isso para a nossa realidade, precisamos cuidar para que o nosso coração também não se torne rígido e insensível, para que o nosso orgulho e a nossa arrogância não nos transformem nesses terrenos pedregosos e espinhosos, inadequados para a semeadura, tal como outrora se apresentaram os judeus.


O segundo ponto importante a destacar é aquele em que Jesus nos deixa ainda mais intrigados, quando diz: "Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem será tirado até o pouco que tem." Minha gente, isso é muito cruel. Então, ao que tem alguma coisa, será dado mais; ao que não tem, até o pouco que tem será tirado. Onde ficou a misericórdia do coração de Jesus na hora de dizer isso? Parece uma atitude incoerente com os seus ensinamentos.


Pois bem, eu entendo isso como um grande desafio que Jesus colocou para os seus discípulos daquele tempo e coloca para nós hoje também. Os dons recebidos por cada um de nós, quando bem administrados, se multiplicam; quando não se tornam produtivos, são retirados. A misericórdia de Deus não alcança aos que deixam de corresponder aos dons recebidos. Ele diz: alguns produzem 100:1, outros 60:1, outros ainda 30:1, mas tem de produzir algo. Nós cristãos temos essa grande responsabilidade de demonstrar 'produção' dos dons recebidos.


Essa forma de falar até lembra um jargão do universo capitalista, obcecado pela ideia da produção, mas obviamente Jesus jamais se referia a isso nesse sentido. Produzir é frutificar, frutificar é ser exemplo, então a produção aqui significa ser sal e ser luz, como Ele disse em outra passagem. Por outras palavras, produzir significa fazer a diferença. Então, não basta ser cristão 'da boca pra fora' declarando isso a todo instante, pois o ser cristão tem de se manifestar em ações e atitudes. Não basta dizer: Senhor, Senhor... não é suficiente orar no recôndito do seu ser, jejuar, fazer penitência em sigilo, cantar louvores bonitos, rezar o terço da misericórdia... Tudo isso é importante, sem dúvida, mas será vão se não frutificar, se não se transformar em sal e luz, se não fizer aquela diferença que faça alguém reconhecer no seu agir o comportamento de um discípulo de Cristo.


Este é o nosso desafio cotidiano. Que Deus faça todos os nossos esforços convergirem para uma competente superação desse desafio.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

domingo, 5 de julho de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 14 DOMINGO COMUM - 05.07.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A EXALTAÇÃO DA HUMILDADE – 05.07.2026


Caros Confrades:


Na liturgia deste 14º domingo do tempo comum, o tema das leituras se concentra na exaltação da humildade. Jesus diz no evangelho: eu te louvo, ó Pai, porque ocultaste essas coisas aos sábios e poderosos e as revelaste aos pequeninos. Na carta aos Romanos, o apóstolo Paulo faz o contraponto entre a vida segundo a carne e a vida segundo o espírito, dizendo que viver segundo a carne conduz à morte, enquanto viver segundo o espírito produz a vida eterna. A vida segundo o espírito é a vida na humildade. É importante destacar o contexto histórico da sociedade romana da época de Paulo, quando o apogeu do domínio político dos romanos havia construído uma vida social próspera e luxuosa, levando as pessoas a valorizarem as pompas, as honrarias, os banquetes, a ostentação, os prazeres carnais. Paulo divulgava o cristianismo entre a alta sociedade romana, não entre os plebeus e os operários, por isso ele recomenda a eles a vivência sóbria, a austeridade, a renúncia aos bens materiais. No evangelho de Mateus, Jesus explica isso que Paulo chama de viver segundo o espírito, recomendando aprender com Ele a mansidão e a humildade, que Ele garante terem um peso leve e suave, que não onera quem as pratica.


Na primeira leitura, colhida do profeta Zacarias (Zc 9, 9-10), o Profeta faz uma referência ao futuro Messias como o rei da humildade. Este profeta viveu na época pós-exílica, quando os judeus haviam retornado da Babilônia e estavam reconstruindo Jerusalém e o seu templo. Por isso, ele adverte o povo dizendo: “Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém! Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta.” É impressionante como o Profeta, tendo vivido mais de 500 anos antes de Cristo, conseguiu traçar um perfil do Messias com características tão próximas da realidade. A entrada de Cristo em Jerusalém, que é comemorada no Domingo de Ramos, foi a concretização dessa profecia de Zacarias. E a outra descrição realista do Messias que ele faz diz respeito à sua humildade. Em contraposição com os reis daquele tempo, que viviam na pompa e na ostentação e andavam em montarias vistosas, Zacarias afirma que o verdadeiro rei de Jerusalém praticará a humildade e andará em um jumento, que era a montaria das pessoas pobres. Uma outra descrição profética muito realista de Zacarias está no versículo 10, quando ele diz “Seu domínio se estenderá de um mar a outro mar, e desde o rio até os confins da terra”, uma clara referência à universalidade do reino de Deus, que seria pregado por Cristo vários séculos depois. Observa-se neste pequeno trecho do profeta o mesmo tema do evangelho, onde Cristo vai anunciar a mansidão e a humildade como sendo as características do comportamento d'Ele e a sua proposta de vida para todos os cristãos.


Na segunda leitura, de Paulo aos Romanos, o Apóstolo não fala diretamente no tema da humildade, mas faz a contraposição das duas formas de viver: segundo a carne e segundo o espírito. Destas duas, a opção de viver segundo o espírito é o seguimento do evangelho de Cristo, que é o tema da catequese paulina para as novas comunidades de convertidos. Convém lembrar que Paulo tinha estudos da cultura grega e entre os gregos naquela época histórica estavam em grande voga as filosofias éticas do autocontrole, da renúncia às coisas materiais, seguindo a doutrina dos discípulos de Sócrates, em especial a tese do estoicismo, que pregava a moderação e a ataraxia (imperturbabilidade). Essas doutrinas tinham muita aceitação entre os romanos e, de certo modo, ajudaram na catequese de Paulo porque havia muitas semelhanças entre a doutrina estoica grega e a doutrina cristã. A diferença entre ambas é que o objetivo do estoicismo era apenas a felicidade terrena, enquanto o cristianismo ensinava a felicidade espiritual, aquela que continua depois da morte. Apenas para explicar melhor o termo “ataraxia”, isso significava a supressão do desejo, não se deixar seduzir pelas coisas materiais. Segundo os seguidores de Sócrates, o desejo é sempre fonte de sofrimento e angústia, porque as pessoas alimentam desejos de coisas muito além daquilo que de verdade podem conseguir, então isso traz angústia e sofrimento. Desse modo, se a pessoa conseguir controlar os seus desejos, limitando-os com moderação às suas possibilidades reais, então grande parte dos sofrimentos poderão ser evitados. Daí o ensinamento de Paulo para não viver segundo a carne, nem no que diz respeito à ostentação, ao luxo e aos prazeres materiais como muitos romanos faziam, nem tampouco a prática da moderação apenas por razões filosóficas ou sensoriais, mas em lugar disso, os romanos devem viver segundo o espírito, ou seja, segundo o evangelho de Cristo. Paulo foi beneficiado por essa vantagem, quando pregou o evangelho para a classe culta romana, porque a doutrina estoica era bastante conhecida e aceita entre os intelectuais. A sua tarefa consistiu em ensinar aos Romanos a prática da humildade segundo o modelo proposto por Cristo, diferente do modelo socrático. Nesse sentido, o ensinamento de Paulo “se viverdes segundo a carne, morrereis”, isto é, se praticardes a humildade e a moderação apenas buscando a felicidade material, isso não vos livrará da morte; contudo, se viverdes segundo o espírito, isto é, se fizerdes isso pelo espírito de Deus que habita em vós, então ganhareis a vida eterna. Esse dualismo corpo-espírito foi muito importante na cultura grega e influenciou de modo muito forte também a cultura romana, nos inícios da era cristã, encontrando-se ainda hoje enraizado no cerne da cultura ocidental.


Na leitura do evangelho de Mateus (Mt 11, 25-30), temos diversas referências de Cristo à humildade e em contraposição ao orgulho e à soberba. “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” Diferentemente da pregação de Paulo, que se dirigia à classe culta romana, a pregação de Cristo era dirigida aos pobres, ao povo das periferias. Os “sábios e entendidos” referidos por Cristo são exatamente os fariseus, os escribas, os judeus cultos, doutores da lei, que não quiseram ouvir a Sua palavra e, por isso, não conheceram a Sua verdade. Ao contrário, os pequeninos que lhe davam atenção foram os grandes beneficiados, diante do orgulho dos sábios daquela sociedade, os que tiveram acesso à revelação das verdades divinas. Jesus está mostrando aí a superioridade da humildade sobre a soberba. Aos humildes, a verdade se apresenta; aos soberbos, aos que se consideram donos da verdade, ela se oculta. É interessante observarmos como esse ensinamento de Cristo é sempre atual, não se aplicava somente aos fariseus do seu tempo. Em todas as épocas, os entendidos sempre tiveram dificuldade de compreender e aceitar as verdades cristãs. Mais do que isso, muitas vezes os intelectuais tentaram manipular os ensinamentos de Cristo ajustando-os aos seus interesses. Isso aconteceu, inclusive, dentro do ambiente eclesiástico, onde surgiram diversas doutrinas divergentes, que foram consideradas heréticas. E hoje esse fenômeno está presente quando as pessoas se aproveitam da ignorância e da boa fé do povo mais simples e os conquistam para suas “igrejas” particulares, que são, na verdade, instrumentos de dominação das pessoas através da fé. O que estes pregam não é a verdade de Cristo, mas a verdades deles mesmos.


A última parte da leitura contém uma referência bem direta aos fariseus daquele tempo, quando Jesus diz “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos”. Sabemos que os fariseus e os sacerdotes judeus interpretavam a lei de Moisés de um modo extraordinariamente rígido e a transformavam numa série de preceitos, que continham mais de 600 proibições. Diversas ações eram catalogadas como contrárias à lei e deixavam impuro que as praticasse. Então, para os fariseus, o cumprimento da lei era algo pesado, tedioso, difícil. Por isso, Jesus vem dizer que não é preciso fazer assim, os fariseus não conhecem a verdade, somente Ele está autorizado a revelar os verdadeiros preceitos da lei, porque “somente o Filho conhece o Pai e aquele a quem o Filho quiser revelar”, e Ele revela isso aos simples e aos pequeninos. Daí ele dizer aos seus ouvintes para que não se impressionassem com aqueles exageros dos fariseus e viessem segui-lo, porque “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” E Jesus se coloca como exemplo a ser seguido: “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”, isto é, o cristão deve ser manso e humilde. Este é o ponto em que a leitura do evangelho cruza com a carta de Paulo aos Romanos, quando ele exorta aquele povo a “viver pelo espírito de Cristo que habita em vós”. Viver segundo o espírito de Cristo é viver com mansidão e com humildade.


Então, meus amigos, Jesus nos ensina que a lei de Deus é uma coisa simples, nós é que a complicamos com certas interpretações tendenciosas. Isso se refere especialmente aos teólogos, que perdem a noção da humildade e retiram da palavra de Deus interpretações desviadas. Isso se aplica também aos leitores da Bíblia sem o devido preparo, sem o necessário estudo. Podem ter certeza de uma coisa: quanto mais complicada for uma pregação, mais está afastada do verdadeiro sentido do evangelho, porque este é dirigido aos pobres e aos humildes e a sua compreensão deve sempre está próxima da simplicidade.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos.