sábado, 26 de setembro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 26º DOMINGO COMUM - 27.09.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 26º DOMINGO COMUM – OBEDIÊNCIA E HUMILDADE– 27.09.2026


Caros Confrades,


A liturgia deste domingo deste 26º domingo comum põe no foco a parábola narrada por Jesus acerca dos dois filhos, simbolizando os fariseus e os pecadores, destacando que obedecer a Lei de Deus não significa cumprir literalmente a lei, isto é, praticá-la por formalidade social, mas vivê-la no seu coração. O próprio Cristo nos deu o mais perfeito exemplo da obediência, conforme nos lembra o apóstolo Paulo, quando Ele deixou de lado sua condição divina e assumiu a nossa humanidade, humilhando-se até a morte, tudo para cumprir com fidelidade o plano do Pai.


A primeira leitura é retirada do Profeta Ezequiel, que chama a atenção para a conduta de acordo com a justiça, como garantia de uma vida longa. É importante lembrar que Ezequiel profetizou no tempo do exílio da Babilônia, junto aos exilados. Ele era também um deles. Javeh permitiu que o povo hebreu sofresse essa imensa humilhação de ser levado cativo para uma terra estrangeira, por causa da desobediência de seus líderes às promessas da aliança. Abandonaram a promessa dos Patriarcas, trocaram Javeh pelos ídolos e violaram a lei mosaica com uma vida luxuosa, enfim, esqueceram-se da sua própria origem. O Profeta adverte: “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre.” (Ez 18, 26) Era isso que havia acontecido ao povo hebreu: desviara-se da justiça, por isso estava no cativeiro. Todos tinham fé em que Javeh não iria deixar o seu povo para sempre cativo. No entanto, o Profeta foi enviado para anunciar que a libertação só ocorrerá quando eles se converterem e se humilharem, isto é, abandonarem a vida de desobediência e retornarem para o projeto de Javeh. O estilo de Ezequel é cheio de imagens fortes, pelas quais ele busca sensibilizar o povo. É muito conhecida a profecia dele no cap. 36, 26: “tirarei do vosso peito o coração de pedra, e vos darei um coração de carne ” O coração do povo estava petrificado e essa era a missão do profeta: amolecer-lhes o coração. Não é certeza que Ezequiel tenha retornado do exílio, pois não são conhecidos os detalhes da sua morte. No entanto, a sua missão profética foi decisiva e seu trabalho foi completado pelos seus discípulos.


Na segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Filipenses, lemos aquela conhecida e nem sempre bem compreendida passagem em que o apóstolo diz que Cristo não se prevaleceu do fato de ser igual a Deus, isto é, não quis ter nenhum privilégio. A tradução da CNBB, já tive oportunidade de comentar isso alhures, é infeliz porque fala em “usurpação”, abrindo espaço para entendimentos fora do contexto, no meu modesto modo de pensar. Não se trata de usurpação, mas de prevalência. Usurpar ocorre quando alguém não tem algo e se apropria indevidamente, o que não é o caso de Jesus. Com efeito, Paulo está enfatizando a fidelidade de Cristo ao projeto do Pai, fazendo-se obediente em tudo e, por isso, o Pai O exaltou e O colocou acima de tudo e Lhe deu um Nome que está acima de todo nome. (Fl 2, 9) Convém sempre lembrar que a comunidade de Filipos foi a primeira fundada por Paulo e pela qual ele tinha uma afeição especial, como se quisesse tornar esta a comunidade modelo para as outras. Daí ele dizer: “Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. ” Vê-se o cuidado que Paulo tinha em manter a comunidade fiel na observância do evangelho, evitando conflitos, praticando o amor mútuo e a comunhão fraterna. A fidelidade ao evangelho era a melhor maneira de conservar a obediência a Deus.


Temos no evangelho de Mateus (21, 28-32) outra daquelas parábolas de Cristo dirigidas aos fariseus, no caso, aos sacerdotes e anciãos. Estes se consideravam fiéis a Deus porque cumpriam rigorosamente os preceitos da Lei, e por causa disso, desprezavam os pecadores (cobradores de impostos e prostitutas) porque não observavam os preceitos tanto quanto eles. No domingo passado, tivemos a parábola dos trabalhadores que chegaram em horários diferentes e todos receberam o mesmo salário, outra indireta contra os fariseus que se julgavam mais merecidos do que os pecadores. Aqui, Jesus traz para a consideração dos líderes farisaicos uma comparação. Um pai tinha dois filhos e mandou a ambos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse: “não vou” mas, depois, pensou melhor e foi; o segundo disse “vou já”, mas não foi. E aí faz a pergunta retórica e de resposta óbvia: qual dos dois realmente obedeceu ao pai? Os próprios sumos sacerdotes (fariseus) responderam corretamente, porém não compreenderam que, novamente, Jesus os estava contrapondo aos pecadores, representados pelo filho que, a princípio, desobedeceu ao pai, mas depois arrependeu-se e foi fazer o que o pai mandara. Oposta foi a conduta dos fariseus, representados pelo filho que aceitou o compromisso, porém não o cumpriu. Os fariseus, além de se considerarem automaticamente salvos porque obedeciam fielmente os preceitos da Lei, ainda desdenhavam dos pecadores (cobradores de impostos, prostitutas) que estariam assim condenados a priori. Por isso, Jesus usa um linguajar mais do que direto: “João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.” (Mt 21, 32) Ora, os fariseus achavam que não tinham do que se arrepender, pois afinal eles não tinham pecados, consideravam-se puros e fiéis, eles eram os cumpridores da lei, não os outros. O que mais causava espanto aos fariseus nas atitudes de Jesus é que Ele, em vez de ficar na sinagoga, no meio deles, andava nas praças, nas montanhas, nas beiras dos lagos junto com os pecadores. Ora, se eles, fariseus, eram os herdeiros da promessa, então por que a prioridade de Jesus não fora dada a eles? Essa foi a questão que eles nunca entenderam e por isso não entenderam que Jesus era o Messias.


Meus amigos, é muito comum observarmos essa atitude dos fariseus na conduta de muitos cristãos de hoje. Nos ambientes internos dos diversos serviços paroquiais encontramos cristãos que estão engajados em pastorais, mas que estão longe de praticar o conselho de Paulo aos Filipenses (2, 3): “Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro.” Existe mesmo uma competição indisfarçada, uma busca insensata pelo “poder” dentro da comunidade, prática de bajulação como forma de conquistar a confiança do Pároco, domínio de espaços e locais (por ex: essa é a “minha” missa, essa é a “minha” pastoral), e o que é pior, chegam ao ponto de travarem discussões e agressões, gerando um clima de rivalidade e desconfiança. Provavelmente cada um dos leitores já se deparou com situações dessa espécie. Quanto maior visibilidade tem a função em referência na Paróquia, maior é a disputa por ela no ambiente paroquial. Muitas vezes, a situação se torna tão instável, a ponto de comprometer até a permanência do próprio Pároco, porque as “conversas” chegam até o Bispo em forma distorcida. Fico a imaginar que essas pessoas, se tivessem vivido no tempo de Cristo, estariam ali gritando: solta Barrabás.


Oportuno destacar, nesse contexto, que estamos em tempo de novena preparatória para a festa de São Francisco em muitas comunidades. Ele foi o modelo da obediência, legado que deixou para todos os seus seguidores. São Francisco ensinava aos frades o que ele chamava “obediência de cadáver”, algo como se a pessoa obediente não devesse ter vontade própria, mas comportar-se exatamente como lhe ordena o superior. Obviamente, esse conceito de obediência deve ser contextualizado para seu melhor entendimento e, se considerado no sistema de vida de São Francisco, podemos considerá-lo compatível com o mundo do seu tempo. Essa era a pedagogia da época mas esse ensinamento, com essa mesma perspectiva radical, não se coaduna com a sociedade contemporânea, na qual a norma oficial proíbe até castigos educativos que os pais antes aplicavam aos filhos. Nos dias atuais, ninguém repetiria mais a tese da “obediência do cadáver”, no entanto, devemos sempre lembrar que a obediência é sinônimo de humildade, não de mero cumprimento de uma ordem. O exemplo de Cristo na parábola já ensinava isso: obediente não é aquele que diz “sim” e não pratica, ou seja, aquele que cumpre sua obrigação só da boca para fora. Obediência não é fazer somente porque estão todos observando ou “para não dar o que falar”. Obediência é agir com o coração, mesmo que às vezes ocorram imperfeições nesse agir. O profeta Ezequiel já advertia aos cativos da Babilônia: “Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida.” (Ez 18, 27) Eventuais falhas na ação fazem parte da condição humana de seres pecadores, que somos nós. Foi para que tenhamos forças de superar as fraquezas da nossa natureza imperfeita que Cristo nos deixou os seus ensinamentos e os seus sacramentos, por meio dos quais permanece conosco. A humildade para reconhecer os próprios pecados e arrepender-se deles é o caminho que leva o cristão à perfeição. Os fariseus nunca entenderam isso, nem antes, nem agora.


Cordial abraço.

Antonio Carlos


sábado, 19 de setembro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 25º DOMINGO COMUM - 20.09.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 25º DOMINGO COMUM – O PENSAR DIVINO – 20.09.2026


Caros Confrades:


Neste 25º domingo comum, a liturgia aborda um tema bem interessante, acerca da diferença entre os modos de pensar divino e humano, os pensamentos de Deus contrastam com os nossos pensamentos, é o que diz o profeta Isaías. A justiça divina não segue a lógica linear do pensamento humano, o que faz com que, muitas vezes, encontremos pessoas se queixando de que Deus não as ouve, não as atende, que Deus seria injusto porque concede coisas pra quem não precisa delas e não distribui os bens de forma igualitária. Na verdade, o que nós precisamos mesmo é tentar compreender os fatos de acordo com a lógica divina, bem diferente da nossa.


Na primeira leitura, retirada do livro do Profeta Isaías (55, 6-9), lemos aquela conhecida advertência divina, através do profeta, no sentido de que “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos.” Há um ditado popular que afirma que Deus escreve reto por linhas tortas, o que tem um sentido equivalente ao ensinamento de Isaías. E a única maneira de chegarmos a compreender essas linhas tortas é através da fé, porque devemos ter a certeza de que Deus nunca nos desampara e, mesmo quando as coisas parecem sair do trilho correto, surpreendendo o nosso modo de pensar, por ali passa a mão divina conduzindo os fatos e direcionando os acontecimentos. Sem a ajuda da fé, nós jamais alcançaremos as diretrizes divinas, como nos consola o Profeta no vers. 9: “Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra.” Para vencer uma barreira dessa magnitude, por certo que as nossas forças não são suficientes. A solução é, na maioria das vezes, crer, orar e esperar.


Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Filipenses, vemos o Apóstolo se debater entre essas duas dimensões da existência: viver segundo o corpo e viver segundo Cristo. Diz ele, nos vers. 23-24: “Sinto-me atraído para os dois lados: tenho o desejo de partir, para estar com Cristo - o que para mim seria de longe o melhor - mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo.” É nesse contexto que ele diz aquela famosa frase: para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Pensando sob uma ótica humana, tal afirmação é totalmente absurda. Nenhum ser humano encara com essa tranquilidade a expectativa da morte, sendo esta sempre um motivo de preocupação e de desespero. O cientista britânico Bertrand Russell escreveu, certa vez, um livro com o título “Porque não sou cristão” e uma das críticas que ele faz aos cristãos está relacionada com esse discurso paulino. Os cristãos vivem dizendo que a vida no outro mundo é infinitamente superior à vida terrena, no entanto, no seu comportamento, demonstram um medo inexplicável de morrer. Ora,, isso é incompreensível, já que a morte é condição necessária para alguém chegar ao outro mundo. Uma coisa está em contradição com a outra. Essa é a grande dificuldade que se coloca para nós, na vida corpórea, qual seja, a de pensar de acordo com os pensamentos divinos. Mas nos consola o fato de que isso não ocorre apenas conosco, simples seres humanos, pois Cristo também, na sua trajetória terrestre, revestido da natureza humana, expressou sentimento de apreensão e medo diante dos sofrimentos e da paixão que se avizinhava. Com efeito, nós somente teremos a possibilidade de compreender plenamente o modo de pensar divino quando estivermos completamente inseridos na esfera da imortalidade. Antes disso, o que nos sustenta é a fé e o que nos anima é a misericórdia divina.


No evangelho de Mateus (20, 1-16), lemos hoje mais uma das inúmeras parábolas que Jesus contou dirigindo-se aos fariseus, mas que também se aplicam àqueles que, por frequentarem a igreja e praticarem os mandamentos, se julgam superiores às outras pessoas, que não vivenciam as práticas exteriores da religião. Os fariseus se autodenominavam justos e menosprezavam os demais, isto é, os pagãos, os pecadores públicos, considerando-se superiores. Essa mesma conduta, lamentavelmente, se observa ainda hoje também em alguns cristãos. A história da parábola tem como personagens um patrão e os trabalhadores contratados por ele. Examinemos primeiro a questão sob a ótica da justiça humana. O patrão acertou com os trabalhadores o pagamento de uma moeda de prata pela diária e eles iniciaram o trabalho logo no começo do expediente. No meio da manhã, ele contratou outros operários também nas mesmas condições: o pagamento de uma moeda de prata. Outro grupo foi contratado ao meio dia, mais um grupo às três da tarde e outro grupo já ao anoitecer, todos com base na diária de uma moeda de prata. De início, vejamos aqui Jesus adotar a sequência das horas do calendário romano da época: hora prima (amanhecer), hora terça (cerca de 9 horas), hora sexta (meio dia), hora noa (3 da tarde), vésperas (entardecer). Essa era a sequência das horas canônicas em que se distribuíam as orações do breviário romano. Essa divisão do dia era comum na Idade Média e quem fez noviciado se lembra disso.


Pois bem. Na hora do pagamento, começaram a receber a sua moeda os últimos contratados: uma moeda de prata para cada um. Aqueles que haviam trabalhado desde o início do dia, ao verem aquilo, ficaram animados esperando que o pagamento deles seria maior, pois enquanto eles trabalharam o dia inteiro, os últimos trabalharam apenas uma hora. Isso não aconteceu, então resmungaram e reclamaram do patrão, cuja atitude acharam injusta. Se trabalharam mais, mereciam receber mais. Dentro de um parâmetro de justiça humana, um tal patrão teria sido totalmente injusto, porém o exemplo dado por Cristo não se enquadra no conceito da justiça humana. O patrão é o Pai do Céu e o pagamento pelo trabalho na vinha é a salvação eterna. Não existe uma salvação maior do que outra, para todos os redimidos, o prêmio da redenção é um só: o reino do céu. Essa conquista tanto é alcançada por aqueles que praticam os mandamentos desde a infância, quando foram admitidos na Igreja de Cristo pelo batismo, quanto se aplica também a quem foi iniciado na vida cristã já na juventude ou na maturidade. Alguns de nós chegamos na “vinha” ainda na madrugada, quando fomos introduzidos na casa de Deus por nossos pais. Outros foram catequizados na adolescência, ainda outros na idade adulta. Mas aqueles que “chegaram primeiro” não podem arvorar-se de mais merecedores, porque seguem a lei de Deus há mais tempo. E aqueles que se convertem na hora da morte também terão o mesmo “prêmio” como os que se dedicaram ao trabalho do reino durante toda a vida. Assim é a justiça divina. Recordemos o profeta Isaías: os meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, diz o Senhor.


A parábola de Jesus se dirigia, na época, aos fariseus, que se julgavam “justos”, porque desde o princípio cumpriam rigorosamente a lei, e desprezavam os publicanos e pecadores, porque não cumpriam a lei e, portanto, não teriam os mesmos “direitos” que os primeiros e mais merecedores. Quando viam Jesus se dedicando aos pecadores e outros “excluídos”, logo diziam: Ele não pode ter sido mandado por Deus, porque se fosse, se dirigiria a nós, os escolhidos. Os fariseus, assim como os judeus em geral, que se originaram do “povo da aliança” feita por Javeh com os Patriarcas, estavam na “vinha” desde a madrugada, trabalharam durante muito tempo, achavam que apenas a eles estava destinado o Reino de Deus, não àqueles que desprezavam a lei e estavam sendo conquistados por Jesus. Em vez de se alegrarem com a ampliação do número de crentes, eles tinham “ciúmes” destes, como que se recusassem a “repartir o tesouro” com esses preguiçosos, que chegaram só “no final do dia”. Aqui entra a resposta do patrão, de acordo com o texto da parábola: eu não fui injusto contigo, paguei-te o que tínhamos combinado. (20, 13). A promessa que fora feita aos antigos patriarcas, milênios antes de Cristo, era a mesma que Cristo, como enviado direto do Pai, veio trazer também aos gentios e a todos os povos pagãos, não apenas àqueles que caminharam pelo deserto. Isso os fariseus nunca entenderam.


Por isso, meus amigos, essa advertência de Cristo aos fariseus deve nos motivar a não fazermos críticas nem tratarmos com indiferença as pessoas que “não fazem como nós”. É bastante comum os cristãos serem criticados assim: “fulano é de dentro da igreja, no entanto, ...”. Um fato concreto aconteceu aqui na Paróquia, quando duas senhoras, que haviam acabado de sair da missa, estavam a discutir no estacionamento, na hora de retirarem os veículos, uma não queria ceder espaço para a outra passar. Casualmente, o Pároco ia passando pelo local e, ao ver aquilo, disse assim: de que adianta vir à igreja, participar da missa e comungar? Logo, as duas caíram em si e se comportaram como cristãs. Precisamos estar atentos para que uma tal incoerência não nos surpreenda.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos.

sábado, 5 de setembro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 23º DOMINGO COMUM - 06.09.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 23º DOMINGO COMUM – CORREÇÃO FRATERNA – 06.09.2026


Caros Confrades,


Neste 23º domingo comum, as leituras litúrgicas nos lembram o dever do cristão de chamar a atenção daqueles irmãos que, de algum modo, caíram em falta com a caridade ou se desviaram da fidelidade aos mandamentos divinos. No nosso tempo do Noviciado, exercitávamos diariamente a prática da correção fraterna e o “corrigido” ainda tinha que dizer “seja pelo amor de Deus a sua santa caridade.” Esse dever decorre da responsabilidade que cada um de nós tem de reconduzir de volta ao caminho a ovelha desgarrada. Os nossos coirmãos não católicos assumem isso como uma obrigação rotineira. Se um membro de uma congregação evangélica não comparece ao culto, no dia seguinte, alguém vai à casa do faltante a indagar-lhe os motivos da sua ausência. Entre os católicos, essa tradição não se manteve, mas Jesus Cristo recomenda isso expressamente no evangelho deste domingo.


Na primeira leitura, retirada do livro do profeta Ezequiel (33, 7-9), o Senhor adverte o fiel sobre a sua obrigação de mostrar ao ímpio a sua impiedade e de chamá-lo ao caminho da retidão, sob pena de que, não o repreendendo e vindo ele a morrer em pecado, o fiel se torna responsável pela perdição daquele pecador. Ao contrário, se o pecador for advertido pelo fiel e não quiser se converter, este não será responsabilizado pela perdição daquele. Esta responsabilidade que o cristão tem perante os irmãos da religião e mesmo perante os não crentes está expressa na frase de Javeh dita através do Profeta: “Eu te estabeleci como vigia da casa de Israel.” Cada cristão é responsável, ao mesmo tempo, pela fidelidade na própria fé e ainda pela perseverança na fé dos irmãos. Vemos aqui as duas dimensões da fé (horizontal e vertical), isto é, a religião direcionada, ao mesmo tempo, para Deus e para a comunidade, dimensão esta que foi durante muito tempo menosprezada, quando a catequese católica se concentrava no lema individualista “salva a tua alma”, como se o fiel fosse responsável apenas por si e os pastores devessem se preocupar com a qualidade da fé dos crentes em geral. A palavra de Javeh através do Profeta Ezequiel não está dirigida aos Sacerdotes do seu tempo, mas a cada um dos integrantes do povo de Deus. Cada fiel é estabelecido como vigia na casa de Israel, cada um de nós tem o dever não apenas de dar o exemplo, mas também de manter-se alerta com o procedimento dos membros da comunidade, a fim de que nenhum deles se desvie da fidelidade aos mandamentos. Cada cristão é responsável diretamente pela própria fé e indiretamente também pela fé dos irmãos. A fé assume, nesse contexto, uma característica proativa, no sentido de que o verdadeiro cristão não está preocupado apenas consigo próprio, apenas em salvar a própria alma, como se dizia na linguagem tradicional, mas deve preocupar-se também com a salvação dos irmãos. A salvação é comunitária, a fé é comunitária, a religião é comunitária. A religião vivida apenas para si, internamente, é estéril e vazia.


Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Romanos (13, 8-10), o Apóstolo ensina essa mesma lição com outras palavras, quando diz: “Os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “não matarás”, “não roubarás”, “não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.” Isso quer dizer que as ordens divinas contidas nos mandamentos da lei não devem consistir em normas negativas (não faça isso, não faça aquilo) nem preceitos de abstenção, mas no sentido da assunção de uma atitude positiva de amor generoso. Ou melhor dizendo: aquelas ordens de cunho negativo (não isso, não aquilo) que constavam na lei antiga, pelo novo mandamento de Cristo se transformaram em ações positivas e concretas de amar os irmãos. “O amor é o cumprimento perfeito da lei”, completa o apóstolo Paulo. E Paulo não está inventando isso, porque o próprio Cristo dissera, certa vez, ao criticar os fariseus, que haviam formulado centenas de prescrições restritivas interpretando a lei de Moisés, uma frase similar, quando um doutor da lei o interrogou: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas. (Mateus 22, 36-40).” Os doutores da lei eram exatamente aqueles fariseus mestres, que haviam transformado a lei de Moisés em um conjunto de regras minuciosas e burocráticas, que tornavam insuportável a vida dos judeus. A grande catequese de Jesus contra esse tipo de religião farisaica, que infelizmente ainda hoje se mantém na cabeça de alguns cristãos (clérigos e leigos), foi a de mostrar que a lei de Deus é a lei do amor, não a do castigo e da repreensão. Infelizmente, apesar do ensinamento tão claro da parte de Jesus, desenvolveu-se ao longo do tempo uma vertente doutrinária do cristianismo nesses mesmos moldes de fanatismo. Isso decorre, sobretudo, do fato de que alguns cristãos colocam o Direito Canônico acima do Evangelho. O Direito Canônico deve ser compreendido como norma de organização e de manutenção da unidade eclesial, não como doutrina que se sobrepõe sobre a Palavra de Cristo transmitida pelos escritores sagrados. Por exemplo: o católico que vai à missa dominical apenas porque o Direito Canônico afirma cometer um pecado quem não for, esse cristão não está praticando a religião verdadeira de Cristo, que é a religião do amor. Lembro demais de ter ouvido na catequese tradicional que todos devem cumprir o “preceito dominical”. Ora, cumprir o preceito não é o mesmo que praticar o mandamento de Cristo. Cumprir o preceito é um ato burocrático exterior estéril, se não estiver acompanhado da motivação interior que decorre do amor a Cristo e aos irmãos. A falta desse componente interno essencial transforma a ida ao templo uma simples obrigação e assim estamos adotando aquele mesmo comportamento que Jesus Cristo, por diversas vezes, criticou nos fariseus, que praticavam uma religião de exterioridades. Vista desse modo, a missa passa a ser um ritual enfadonho, o sermão do celebrante vira um discurso interminável e o fiel fica escolhendo aquele padre que celebra a missa mais depressa, a fim de “se livrar” logo da obrigação. Com toda certeza, não é isso que Jesus Cristo quer de nós.


Qual seria, então, a motivação para ir à missa aos domingos, se não for o do cumprimento do preceito? A resposta está na leitura do evangelho, retirada de Mateus (18, 15-20), ou seja, “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles.” A verdadeira motivação da participação na celebração litúrgica está no encontro com os irmãos, porque é na comunidade que Cristo está presente, de acordo com a promessa dele. É porque a nossa religião é comunitária e deve ser exercida na comunidade. Por mais que eu reze individualmente (e aqui eu não estou negando o valor dessa oração individual), isso não é suficiente, a fé não está completa. É no encontro da comunidade orante que o cristão tem a certeza de que está na presença de Cristo.


É nesse contexto que devemos compreender a exortação de Cristo, no sentido de que “se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus.” Na comunidade, a nossa oração é muito mais forte, aliás, ela tem todo o poder, assegurado pelo próprio Cristo. Daí que o ato de corrigir o irmão não deve ser com aquele tom ameaçador de censura, de mostrar seus pecados, de advertir sobre os castigos, etc., mas de reconduzi-lo ao amor de Deus. Por exemplo, se o irmão não vai à missa e você vai conversar com ele sobre isso, o tom da conversa não deve dar ênfase no aspecto do “pecado” ou do “descumprimento do preceito”, mas deve destacar a dimensão comunitária da religião, da superioridade da oração coletiva sobre a prece particular, da promessa de Cristo de estar presente quando os irmãos se reúnem para rezar, não quando alguém reza individualmente. Daí porque a missa, mesmo quando é transmitida pela televisão ou pela internet, deve ter participação de outras pessoas (familiares ou membros da comunidade), porque a celebração eucarística deve ser sempre comunitária.


É interessante também destacar a metodologia da abordagem ensinada por Jesus. Primeiro, o irmão deve ser procurado em particular, para não expô-lo na comunidade. Se essa conversa não tiver resultado, vem o segundo passo: repete a conversa na presença de outros dois irmãos, atribuindo assim uma força persuasiva maior. Se também isso não funcionar, então será a vez de apelar para que toda a comunidade se empenhe nessa tentativa. Essa sequência de ações deverá ser suficiente para chamar o irmão faltoso à reconciliação. Se nem assim der certo, então vai incidir aquilo que lemos na primeira leitura, do profeta Ezequiel: o ímpio morrerá na sua impiedade, mas tu não serás responsabilizado pela perdição dele. Aqui se entrelaça a primeira leitura com o texto do evangelho, mostrando a harmonia e a coerência da palavra de Deus no antigo e no novo testamentos.


Meus amigos, obviamente não é tarefa fácil chamar a atenção de um irmão sobre o seu comportamento, ao contrário, é extremamente delicada e deve ser tratada com o máximo tato e sensibilidade. Mas Jesus nos ensina que, apesar disso, a nossa fé nos traz essa responsabilidade e não devemos ignorá-la.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 22 de agosto de 2026

COMENTARIO LITURGICO - 21 DOMINGO COMUM - 23.08.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 21º DOMINGO COMUM – PODER E LIDERANÇA – 23.08.2026


Caros Confrades,


Neste 21º domingo comum, a liturgia coloca para nossa reflexão um tema importante e ao mesmo tempo polêmico, qual seja o da liderança do apóstolo Pedro na Igreja. Afinal, Jesus quis mesmo instituir Pedro como “chefe” da Igreja? Esse trecho de Mateus (16, 17-19) foi utilizado historicamente para fundamentar a teoria do primado de Pedro e, por via de consequência, a autoridade do Papa como “chefe” da Igreja universal. Mas será que Cristo, de fato, pretendeu isso? Ele que sempre ensinou e deu exemplo da liderança pelo serviço? Ele que sempre se recusou a ser considerado como chefe do seu grupo de discipulos? Ele sempre ensinou e insistiu: o que se julgar ser maior do que os outros seja aquele que serve mais, ou quem se julgar o maior, que seja o menor. A clareza na solução das discussões em torno desse tema é a chave para a re-união das Igrejas católicas no ocidente e no oriente.


Temos na primeira leitura, retirada do livro de Isaías (22, 19-23), uma repreensão do Profeta contra Sobna, o administrador do palácio real no tempo do rei Ezequias. O reinado deste trouxe desastrosas consequências para Israel, em virtude de seus erros administrativos, colocando em risco a segurança do povo, ao fazer alianças políticas duvidosas, além de não valorizar o poder do Javeh, preferindo confiar nos reis vizinhos. Sobna era um estrangeiro administrador do palácio real e, diante da ameaça de invasão de Israel pelo exército da Assiria, em vez de estimular o povo a rezar, fazer penitência e pedir a proteção de Javeh, duvidou do poder divino, mandando oferecer banquetes para todos, dizendo: vamos comer hoje, porque amanhã iremos todos morrer. Ou seja, tanto Ezequias quanto Sobna foram infiéis a Javeh e duvidaram do seu poder contra os inimigos do povo, por isso o profeta Isaías foi avisá-lo de que aquele lugar de administrador seria agora assumido por Eliakim, filho de Helcias. O castigo para Ezequias viria depois. Podemos associar a figura de Sobna à do administrador infiel da parábola. Ele desconheceu totalmente a autoridade em nome de quem exercia o poder e, com seu mau exemplo, transmitiu a desconfiança ao povo. Em vez de exercer a liderança a serviço do povo, Sobna fazia na verdade um desserviço, por isso, Javeh irá substitui-lo por um outro administrador, como disse o Profeta: “eu o vestirei com a tua túnica e colocarei nele a tua faixa, porei em suas mãos a tua autoridade; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá.” (Is 22, 21) A liturgia utiliza esse episódio de Sobna para fazer o contraponto com o trecho do evangelho de Mateus, no conhecido episódio em que Cristo institui Pedro como a “pedra” fundamental da Igreja.


Na segunda leitura, temos um trecho da Carta aos Romanos, a qual já vem sendo lida há vários domingos, onde o Apóstolo louva a riqueza, a sabedoria e a ciência divinas. Esse hino de louvor, da forma como está apresentado na liturgia, fica melhor entendido se for contextualizado. Nas linhas anteriores, Paulo está explicando aos Romanos que nós, pessoas humanas, estávamos iguais a ramos que foram cortados de uma oliveira e Cristo, com o seu sacrifício, nos reinseriu na árvore, dando-nos de novo a vida. Paulo lembra aos Romanos que os judeus se recusaram a ser reinseridos na oliveira, por causa da incredulidade deles, mas ele (Paulo) está convocando os gentios para assumirem aquele lugar recusado pelos judeus. Por isso, ele proclama: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!” (11, 33) Paulo utiliza um argumento bem simples e convincente, de modo a conseguir a adesão dos romanos intelectuais à doutrina cristã. Os romanos daquele tempo estavam muito influenciados pela filosofia grega, sobretudo pelo moralismo dos pós-socráticos e Paulo servia-se dessa situação para mostrar que o cristianismo era superior ao moralismo grego. E com isso ele conquistou numerosos adeptos entre os romanos, aqueles que se reuniam nas catacumbas para ouvir a pregação dele e receber o batismo.


Na leitura do evangelho de Mateus (16, 13-20), Jesus interroga seus discípulos sobre o que as pessoas falam a respeito d'Ele. “O que dizem os homens sobre o Filho do Homem?” As respostas são várias: uns dizem que é João Batista ou Elias ou Jeremias, ou algum profeta que ressuscitou. Foi quando Pedro sintetizou: Tu és o Cristo de Deus. E Jesus advertiu os discípulos para que não espalhassem essa informação por enquanto. Até aqui, o trecho do evangelho de Mateus (16, 13-17) é semelhante aos outros dois evangelhos sinóticos: Marcos (8, 27-30) e Lucas (9, 18-21). O problema começa no versículo seguinte, que dá continuidade à fala de Jesus: “… por isso, eu te digo que tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha igreja e as forças do mal não prevalecerão contra ela”. Ou seja, considerando que os outros dois evangelhos sinóticos não contém tal acréscimo, há fortes suspeitas de que, durante a Idade Média, antes que fosse definido o cânon dos livros da Bíblia, certos trechos das escrituras podem ter sido propositalmente “editados”, de modo a servir de fundamento a algumas doutrinas que começaram a ser divulgadas. O fato de que os outros dois evangelhos terminam o seu relato na parte em que Pedro diz: Tu és o Cristo de Deus e somente o evangelho de Mateus contém aquela parte restante levanta sérias dúvidas de que esse trecho final teria sido, possivelmente, uma inserção posterior, que não constava no manuscrito original, com o objetivo específico de dar um fundamento bíblico à autoridade de Pedro como “chefe” da Igreja. Tal suspeita é reforçada pelo fato de que os Patriarcas das igrejas orientais não concordaram quando o Bispo de Roma se arvorou na autoridade suprema de todos os cristãos, acima da autoridade deles, levando ao cisma, que ainda hoje persiste. De fato, sabe-se que os evangelhos denominados de sinóticos são compilações de documentos mais antigos, manuscritos que circulavam nas primeiras comunidades cristãs formadas logo após a ressurreição de Cristo, por isso suas passagens guardam grande semelhança. Qual seria a explicação para esse trecho dos versículos 18 e 19 se encontrarem apenas na compilação de Mateus? Por que os outros dois evangelistas não citam isso? Não há resposta uniforme e clara para essas perguntas.


Não obstante isso, é importante deixar claro que essas são dúvidas acadêmicas e que há de ser prestigiado o texto oficial, que é reconhecido como autêntico. Mesmo assim, a situação está longe de ser pacificada, porque surge outra questão igualmente importante. Ainda que Pedro tenha sido formalmente indicado por Cristo para liderar o grupo dos apóstolos após a sua paixão, que ocorreria logo depois desses eventos, vem a outra dúvida séria: a autoridade dada a ele por Cristo era para ser o chefe mesmo, isto é, para ele ter um nível hierárquico superior aos demais?


A propósito dessa questão, trago aqui um trecho de um artigo do Cardeal Orani Tempesta: “O Papa Emérito Bento XVI ensinou que: "A Cátedra de Pedro evoca outra recordação: a conhecida expressão de Santo Inácio de Antioquia que, na sua Carta aos Romanos, designa a Igreja de Roma como «aquela que preside à caridade» (Inscr.: PG 5, 801). Com efeito, o fato de presidir na fé está inseparavelmente ligado à presidência no amor. Uma fé sem amor deixaria de ser uma fé cristã autêntica. Mas as palavras de Santo Inácio contêm ainda outro aspecto, muito mais concreto: de fato, o termo «caridade» era usado pela Igreja primitiva para indicar também a Eucaristia. Efetivamente, a Eucaristia é Sacramentum caritatis Christi, por meio do qual Ele continua a atrair a Si todos nós, como fez do alto da cruz (cf. Jo 12, 32). Portanto, «presidir à caridade» significa atrair os homens num abraço eucarístico – o abraço de Cristo – que supera toda a barreira e estranheza, criando a comunhão entre as múltiplas diferenças."1 Ora, meus amigos, presidir na caridade significa estar a serviço. Foi justamente o que Cristo fez na última ceia, quando amarrou uma toalha na cintura e passou a lavar os pés dos apóstolos. E ainda disse: eu vos dei o exemplo para que façais o mesmo. “O maior de vocês deve ser aquele que serve.” (Mt 25,11) Infelizmente, a doutrina do primado de Pedro e dos seus sucessores no bispado de Roma não foi sempre tomada nesse sentido. Ao contrário, a autoridade romana equiparou-se às autoridades políticas europeias, tornando-se símbolo da monarquia, do autoritarismo, do poder político mesmo. Assim foi durante muitos séculos e assim persiste no inconsciente católico dos dias de hoje, expressando-se nos diversos grupos conservadores. Pelo que eu conheço da história dos Papas, eu destacaria somente dois, os quais eu posso dizer que presidiram realmente na caridade: o Papa João XXIII e o Papa Francisco. O Papa Leão vem seguindo os passos de Francisco. Todos os demais foram sempre supremas majestades, que exerciam autoridade política acima até dos governantes estatais, que usavam a tríplice coroa como símbolo dos poderes religioso, material e político. Certamente, não foi isso que Cristo transmitiu a Pedro e esse foi o grande motivo para a cisão das igrejas orientais, que não aceitaram a submissão ao Bispo de Roma. Este fato é um real e difícil obstáculo para que se alcance a unidade dos cristãos.


Que o Divino Mestre inspire o Papa Francisco a presidir realmente na caridade e assim possamos ter novamente a união de todos os cristãos dentro da mesma comunidade.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

1http://www.cnbb.org.br/eventos-1/muticom/13641-a-catedra-de-pedro

sábado, 15 de agosto de 2026

COMENTARIO LITURGICO - FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA - 16.08.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO 20º DOMINGO COMUM – FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA – 16.08.2026


Caros Confrades,


Neste 20º domingo comum, a memória litúrgica celebra, no Brasil, a festa da Assunção de Maria, uma verdade de fé proclamada pelo Papa Pio XII, em 1950, a última proclamação dogmática feita por um Papa. O Papa Pio XII, segundo ouvi de um sacerdote que estudava em Roma naquela época, ficou muito relutante se devia ou não fazer essa declaração dogmática da Assunção de Maria, porque não tem base na Bíblia, mas apenas na tradição. Ele pediu a Deus um “sinal” que lhe desse a certeza na sua convicção, pois estava cônscio da sua responsabilidade e da grande repercussão que a sua decisão teria. Logo abaixo, falarei sobre o sinal que ele recebeu.


As histórias acerca da “morte” de Maria são antigas e suportadas por uma tradição muito forte, de modo especial no catolicismo oriental. Consta que Maria “morreu” aos 70 anos, no ano 56, e a sua despedida movimentou toda a cidade de Jerusalém. O apóstolo João era o seu guardião e o evangelista Lucas era o seu médico particular. Consta que ela recebeu, pela segunda vez, a visita do anjo Gabriel, anunciando a sua breve “morte” e ela, novamente, teria dito “eis aqui a serva do Senhor, faça-se segundo a tua palavra”. A história pessoal de Maria é ímpar e admirável.


Não apenas na Igreja Católica Romana, mas também no catolicismo ortodoxo das Igrejas Orientais, a assunção de Maria é celebrada desde a antiguidade, embora no oriente não tenha sido definida como dogma de fé. Mas foi nessas Igrejas orientais que se iniciou, por volta dos séculos III e IV, a celebração da “dormição” de Maria, baseada em escritos antigos que circulavam naquelas comunidades, nos quais se afirmava que Maria não havia morrido, mas apenas adormecera e então foi levada ao céu pelos anjos. Narra uma tradição da igreja siríaca que o apóstolo Tomé viu o momento em que Maria estava sendo levada pelos anjos e então pediu a ela uma relíquia, para guardar como lembrança e, ao mesmo tempo, comprovar aquele fato. E, então, Maria desatou o cinco que levava na cintura e o deixou cair nas mãos de Tomé. Atualmente este cinto repousa em uma catedral dedicada a ela e esta é a única relíquia material que existe dos objetos de Maria.


A Igreja Católica Romana não guardou essa tradição, porém interpreta a narração apocalíptica do capítulo 12, que descreve o aparecimento de um grande sinal no céu, com uma mulher vestida do sol, pisando sobre a lua e coroada com doze estrelas como sendo a figura de Maria. Há também escritos muito antigos, como o “Liber Requei Mariae” (livro do descanso de Maria), do século III, que afirma que Maria não morreu, apenas descansou. E também um outro escrito, este do século V, intitulado “De transitu Mariae” (sobre o trânsito de Maria), que reforça a mesma afirmação. Estes dois são escritos anônimos, ou, pelo menos, sua autoria não tem comprovação. E no século VI, o teólogo São João Damasceno defendeu essa doutrina, numa demonstração da força desse pensamento teológico já naquela época. Foi com base nesses textos e no testemunho, do qual falarei a seguir, que o Papa Pio XII decidiu fazer a proclamação do dogma. A teologia ensina que a morte é consequência do pecado. Se Maria foi concebida sem pecado, então a morte não sobreveio a ela.


Antes de se decidir pela oficialização do dogma, o Papa Pio XII estava com sérias relutâncias e pediu a Deus um “sinal” inequívoco. Este veio de uma maneira bem prosaica, através de um garoto francês. Quando criança, este menino fora milagrosamente curado de uma doença considerada incurável, graças às orações de seus pais à Virgem Maria. Certo dia, o menino falou ao pai dele que havia recebido um recado de Maria, que ele deveria transmitir ao Papa. O pai não levou a sério, até porque era pobre e não tinha condições financeiras de ir a Roma, mas, durante meses, o garoto insistiu que precisava falar com o Papa. A história se espalhou e os parentes e amigos ajudaram para as despesas da viagem. Chegando a Roma, o pai do menino ficou embaraçado, sem saber como chegar até o Vaticano e pedir uma audiência com o Papa, achando que ninguém acreditaria naquilo. Para surpresa dele, no dia seguinte, uma pessoa que ele não conhecia chegou na hospedaria onde estavam e perguntou se ali estava hospedado um garoto francês e que o Papa o esperava para falar com ele. Essa pessoa era um assessor do Papa e levou o garoto para conversar com ele. Bem, não precisa contar o resto da história. O que ele o Papa conversaram nunca foi revelado, mas depois desta conversa, o Papa se convenceu de que deveria oficializar o dogma da Assunção de Maria.


A proclamação papal acerca do dogma da Assunção não afirma de forma taxativa se houve ou não a morte de Maria, isto é, proclamou a assunção de Maria em corpo e alma ao céu, sem se pronunciar sobre o detalhe se ela havia morrido ou apenas dormido ou descansado, conforme consta nos escritos anônimos dos primeiros séculos. Essa omissão proposital é uma atitude de prudência, para que os eventuais adversários da proclamação não viessem a contraditá-la por haver-se baseado em escritos apócritos. Por isso, além da referência ao capítulo 12 do Apocalipse, a doutrina também referencia a carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 22-23): “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.” A Igreja entende que, logo depois da entrada gloriosa no céu de Cristo ressuscitado, foi a vez de Maria, pela sua condição de imaculada mãe de Deus. Na verdade, a definição dogmática da assunção de Maria é uma consequência lógica de outra definição dogmática conciliar, publicada no Concílio de Éfeso, em 431, que proclamou Maria como Mãe de Deus, desfazendo uma antiga heresia, segundo a qual Maria era mãe apenas de Jesus homem, mas não de Cristo Deus, porque Deus não pode ter mãe.


Sobre as leituras litúrgicas da festa de hoje, já nos referimos acima à primeira, retirada do Apocalipse (12, 1), que fala do grande sinal (signum magnum) visto por João no céu. Era uma mulher grávida e, ao seu lado, um enorme dragão esperando que ela despachasse a criança, a fim de devorá-la. Essa imagem é emblemática nos arquétipos teológicos de todos os tempos, como uma referência clara e explícita aos embustes demoníacos contra a Igreja. Mesmo sem termos em mente qualquer anjo do mal, como criatura espiritual, podemos enxergar esses “agentes demoníacos” no interior de alguns setores burocráticos da própria Igreja. Quem não se recorda dos asquerosos “corvos do Vaticano”, que tanto atormentaram o Papa Bento XVI, forçando a sua renúncia, em 2003. Foram eles mesmos que dominaram o Papa João Paulo II, nos últimos anos de sua vida, período em que ele esteve muito debilitado e senil em consequência da doença de Alzheimer, produzindo documentos em nome do Papa e da sua autoridade, com fortes evidências de que o Papa não sabia mesmo do que estava acontecendo. Dizem que, quando Napoleão Bonaparte assumiu o trono da França, logo depois da Revolução Francesa, teria colocado como um dos objetivos do seu governo a destruição da Igreja Católica. Sabendo disso, o arcebispo de Paris esteve conversando com o Imperador francês e teria revidado assim: desista do seu projeto de destruição da Igreja, porque os próprios padres já tentaram e não conseguiram. E olhando para os tempos atuais, observando os enormes problemas enfrentados pelo Papa e as perseguições violentas contra os cristãos na Áfreica, podemos concluir que os demônios podem até estar dentro dos muros do Vaticano, mas as “portas do inferno” realmente não prevalecerão.


A segunda leitura litúrgica é a carta de Paulo aos Coríntios, à qual já me referi acima, cuja lição sobre a derrota da morte pela ressurreição de Cristo é o fundamento teológico mais forte para a afirmação da assunção de Maria, sobretudo levando-se em consideração que, sobre Maria, a serpente do pecado foi imobilizada, conforme se vê nas imagens dos artistas que retratam a figura da Imaculada Conceição. Aliás, esse título de “imaculada”, de acordo com a revelação particular a Bernardete Soubirous, aceita e admitida pela Igreja, foi Maria mesma quem afirmou: “je suis l'immaculée conception”, assim está estampado na gruta de Lourdes, na França. Não é afirmação bíblica, mas a tradição é fortíssima e antiquíssima, devendo ser prestigiada na sua credibilidade.


Uma curiosidade, que o evangelista Lucas não revela é onde Maria terminou seus dias. As crenças tradicionais são divergentes acerca do fato. Segundo algumas tradições, ela teria permanecido em Jerusalém, até o seu “passamento” - digamos assim, para não afirmarmos nem que ela morreu nem que descansou. Segundo outras tradições, ela teria terminado seus dias em Éfeso, onde existe uma casa, que é visitada pelos peregrinos e venerada como sendo a “casa de Maria” e de onde ela teria sido trasladada para o céu. Sabemos que João, o evangelista, era bispo de Éfeso e foi a ele que Jesus confiou os cuidados com Maria, ainda no Calvário. Talvez por isso a tradição se incline a aceitar que Maria teria terminado a vida em Éfeso. Mas pode ser também que João tenha se mudado para Éfeso somente depois da “passagem” de Maria, esse fato também não foi documentado. João teria se transferido para Éfeso, conforme a tradição, por volta do ano 50. Supondo que Maria teria engravidado com cerca de 15 anos, como era o padrão da sua época, no ano 55 ela teria cerca de 70 anos de idade. Por isso, tanto uma tradição quanto outra (Jerusalém ou Éfeso) são compatíveis com os fatos e assim não tem como solucionar a controvérsia.


Meus amigos, penso que é crença incontroversa o fato de que Maria ocupa um lugar central e incomparável em toda a economia da salvação (para usar um termo clássico da teologia). Não é por acaso que ela é reverenciada com tantos títulos. Que ela sempre nos vigie a todos com a sua ternura maternal.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos