domingo, 30 de março de 2025

COMENTARIO LITÚRGICO - 4 DOMINGO DA QUARESMA - 30.03.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA QUARESMA – RECONCILIAR-SE COM DEUS – 30.03.2025


Caros Confrades,


Nas leituras deste 4º domingo da quaresma, destaca-se o tema da reconciliação, presente nos vários textos lidos, dentre eles aquela conhecida história do “filho pródigo”, que a liturgia agora prefere chamar de “pai misericordioso”. Vivenciando essa temática, o Papa Francisco, ao realizar no Vaticano cerimônia pascal da penitência, alguns anos atrás, ele mesmo se apresentou como penitente, passando depois a confessar alguns fiéis presentes. O Papa tem insistido nessa temática com frequência. Para haver reconciliação, é necessário que haja perdão, sem o que aquela não será possível. E o perdão é a atitude mais louvável e digna que uma pessoa humana pode ter, pois o ato de perdoar tem a dupla função de salvar tanto o perdoado quanto quem perdoa.


Na primeira leitura, do livro de Josué (5, 9-12), temos a narração da primeira Páscoa que os israelitas comemoraram após adentrar na terra prometida. Javeh diz a Josué: 'Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito', isto é, agora vocês estão livres novamente, habitando a terra dos vossos pais, não precisam mais temer o dominador egípcio. Após uma passagem de quarenta anos em peregrinação pelo deserto, durante a qual a velha geração dos israelitas sucumbiu, a reconciliação de Javeh com o seu povo se deu, finalmente, pelas mãos de Josué, sucessor de Moisés no comando da nova geração de israelitas, que adentraram a terra prometida. Moisés não viveu tempo suficiente para celebrar essa ocasião. A primeira Páscoa celebrada em Canaã significa o cumprimento da promessa de Javeh e a renovação da aliança. A oferenda dos primeiros frutos da terra prometida vem selar a fidelidade de Javeh com o seu povo, que nunca deixou faltar-lhes o alimento, nem mesmo nos dias mais árduos da vida no deserto.


Na segunda leitura, da carta de Paulo a Coríntios (2Cor 5, 17-21), o apóstolo lembra que, por Cristo, Deus reconciliou o mundo com ele próprio e nos deu o ministério da reconciliação. Esta carta foi escrita num momento difícil para a comunidade de Corinto, envolta com a polêmica dos judaizantes (judeus x gentios convertidos) e atormentada por adversários de Paulo, que teimavam em manter os velhos costumes judeus, mesmo depois da conversão dos coríntios. Por isso, Paulo adverte: “Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo. ” (2Cor 5,7) Os velhos costumes judaicos não deviam mais ser invocados diante da nova geração de cristãos, porque em Cristo tudo foi reconfigurado. E de uma forma bastante contundente, ele conclama toda a comunidade a deixar-se reconciliar com Deus. “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20) para que não recebais em vão a Sua graça. A exortação de Paulo acerca da reconciliação e do perdão se fazia necessária porque a comunidade de Corinto havia afastado os cristãos dissidentes e não aceitava mais a participação destes nas atividades eclesiais. Por isso, Paulo insistia na exigência do perdão e da reconciliação com os dissidentes ao dizer que Deus nos deu, através de Cristo, o ministério da reconciliação. E até evitou fazer uma viagem a Corinto naquela ocasião, a fim de não exaltar ainda mais os ânimos, preferindo só mandar a carta.


Na leitura do evangelho de Lucas (Lc 15, 11-32), temos a narração de uma das parábolas de Cristo mais conhecidas, ao lado da parábola do Bom Samaritano, que é a história do filho pródigo. Durante muito tempo, a liturgia focalizava esse episódio reportando-se à figura do filho que esbanjou frivolamente todos os seus bens de herança e depois voltou, arrependido, para a casa paterna. Reformulando o tema, a liturgia agora mudou o foco do episódio para a figura do pai misericordioso, que acolhe o filho irresponsável e arrependido, e se esforça buscando a reconciliação com o irmão mais velho, que não aceitava aquela situação.


Essa historinha contada por Jesus foi mais um “cascudo” na cabeça dura dos fariseus, que se consideravam (assim como o irmão mais velho da parábola) os únicos merecedores da amizade de Javeh, porque eram os herdeiros legítimos da tradição veterotestamentária, os cumpridores da lei. Como sempre, os fariseus não entenderam a mensagem, porque estavam seguros demais dos seus méritos e, na sua estreiteza de pensamento, não podiam admitir que os convertidos (simbolizados na figura do irmão mais novo), povos estranhos à aliança antiga, passassem a ter assento junto com eles na mesa da refeição divina.


O contexto da narração se dá num momento em que Jesus conversava com publicanos e pecadores. Para começar, é importante lembrar que os fariseus se consideravam puros e sem pecado, ao contrário dos publicanos, que eram pecadores públicos. Os fariseus cumpriam rigorosamente a lei, jejuavam, davam esmolas, iam à sinagoga nos sábados, isto é, faziam tudo como mandava a lei de Moisés, tal como o irmão mais velho da parábola. Embora essas práticas fossem, muitas vezes, hipócritas e exteriorizadas, eles se consideravam pessoas exemplares e quem não fazia isso era considerado pecador. Dentro da mentalidade judaica, os publicanos viviam permanentemente no pecado e não tinham jeito, ou seja, não havia como eles deixarem essa vida marginal e passarem à condição de pessoas justas. Por isso, o simples contato com essas pessoas, ainda que fosse para um mero aperto de mão, era suficiente para deixar impuro quem assim fizesse, havendo a necessidade de fazer depois um ritual de purificação. No caso, Jesus estava todo contaminado, porque conversava com eles.


O fato de Jesus ter comunicação com essas pessoas pecadoras públicas era fortemente censurado pelos fariseus e era mais um dos motivos para que estes duvidassem da divindade de Jesus, porque um enviado de Javeh saberia da proibição legal de ter contato com essa gente 'imunda'. Daí que, conforme diz Lucas (15, 1), os publicanos e pecadores se aproximavam de Jesus para escutá-los e Jesus os recebia, e isso gerava revolta nos fariseus. Por isso, Jesus contou-lhes a história onde o filho mais velho ficou se roendo de ciúmes porque o irmão pecador retornou a casa depois de uma temporada de aventuras e o pai, além de não repreendê-lo, ainda fez uma grande festa. Neste mesmo trecho (15, 7), que foi omitido na leitura litúrgica, Jesus justificou isso, quando disse que haverá grande alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de perdão. Por não compreenderem e nem aceitarem essa verdade, os fariseus terminaram perdendo a oportunidade de participar da festa pascal promovida pelo Pai.


Vê-se, meus amigos, nessa narração uma atitude acima de tudo preconceituosa por parte dos fariseus. Naquela época, tanto quanto hoje, existia a praxe de rotular as pessoas por critérios nem sempre justificáveis, mas que tinham aprovação social tácita. Naquela época, eram os publicanos e prostitutas. Nos dias de hoje, são as pessoas humildes, as de pouca instrução, alguns grupos que sofrem segregação por causa da cor ou pela opção sexual, sem falar também na discriminação que, muitas vezes, sofrem as pessoas de outras crenças religiosas, que são logo tachadas de hereges ou infiéis. Dentro do catolicismo atual, existe um ranço entre os adeptos da tradição tridentina e aqueles que simpatizam com a teologia da libertação, classificada como heresia. Esses preconceitos, que nos são repassados pelo processo de aculturação, se alojam no nosso inconsciente e, de repente, nos surpreendemos tendo atitudes que nós mesmos reprovamos nos outros. O comportamento de Cristo, acolhendo a todos indistintamente, aliás, acolhendo com mais atenção aqueles que eram os mais excluídos na sociedade farisaica, deve servir-nos de exemplo para a nossa vida cotidiana, a fim de nos vigiarmos para não cairmos no mesmo falso moralismo e na mesma falsa fé dos fariseus.


Vemos também, na pedagogia paulina, uma atitude de respeito que serve de modelo para nós, educadores de nossos filhos ou de alunos, que é a prática da humildade. Paulo tinha conhecimento da rebeldia de seus críticos, que viviam na comunidade de Corinto, todavia, não se prevaleceu da sua autoridade de apóstolo e enviado por Cristo para impor o seu pensamento. Ao contrário, ele muito humildemente “suplicou” aos coríntios para que se deixassem reconciliar com Deus, não ameaçou, não intimidou, não impôs condições. Ao apelar para o ministério da reconciliação, ele ensinou que, mesmo quando o irmão está numa posição errônea, não se deve expor os seus defeitos nem apelar para ameaças e castigos, como estratégia de convencimento porque, diz ele, “em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas”, mas ao contrário, “aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus.” (2Cor 5, 21).


Que o Divino Mestre nos ensine sempre a humildade no trato com os irmãos, exercitando cada vez mais e melhor o ministério da reconciliação e do perdão.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 22 de março de 2025

COMENTARIO LITURGICO - 3 DOMINGO DA QUARESMA - 23.03.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOMINGO DA QUARESMA – CONVERSÃO DO CORAÇÃO – 23.03.2025


Caros Confrades,


Neste 3º domingo da quaresma, as leituras litúrgicas fazem referência à automanifestação de Javeh a Moisés, no monte Horeb, na leitura do Êxodo, fato retomado por Paulo na carta aos Coríntios, fazendo relação com o ministério de Jesus: num caso e noutro, muitos não acreditaram. No texto do evangelho de Lucas (13, 1-9), Jesus menciona a necessidade da conversão, tomando exemplos de fatos ocorridos e do conhecimento de todos, sintetizando-os na parábola da figueira que não dava frutos.


Na primeira leitura, do livro do Êxodo (3, 1-8), vemos a vocação de Moisés, quando Javeh o escolheu para falar diante do Faraó. Isso aconteceu no monte Horeb, que é o mesmo monte Sinai. A respeito deste monte, apesar de ser um local de fatos grandiosos da história do povo hebreu, curiosamente, não se sabe com certeza a sua localização. Os rabinos atuais divergem entre si acerca de três montes daquela região, sem saber qual deles teria sido o cenário da narrativa do Êxodo, sobre a sarça que pegava fogo sem se queimar. São os seguintes: 1. o monte Jebel Mussa ("a Montanha de Moisés") localizada entre as Montanhas de Granito ao sul da Península do Sinai; 2. o Monte Karkom, localizado ao sul de Israel, muito próximo da fronteira egípcia; 3. o monte Jebel el-Lawz, na Arábia Saudita, localizado numa região chamada de Midian, na época bíblica. Chega a ser incompreensível o fato de uma montanha tão importante para a história de Israel não ter sua localização geográfica estabelecida com precisão. O texto do Êxodo (3, 1) diz que Moisés apascentava o rebanho do seu sogro, que era sacerdote de Madiã. Pela correspondência da nomenclatura, parece que a terceira opção é a mais provável, no entanto, as peregrinações são mais constantes no monte Jebel Mussa, o que torna muito confusa a definição. Outra curiosidade é a palavra “sarça”, que em hebraico se diz “seneh” e que serve como etimologia para o nome “sinai”. Esta é uma planta comum na região, um arbusto espinhoso, da mesma família das acácias, que existem no Brasil mas não são espinhosas. Então, o que chamou a atenção de Moisés não foi a planta, porque havia muitas, e sim o fato de que estava “pegando fogo”, mas não se queimava, levando-o a perceber ali algo miraculoso.


Ao aproximar-se, uma voz vinda do fogo mandou que ele ficasse longe e tirasse as sandálias, porque aquela terra era sagrada. No diálogo entre Moisés e Javeh, Moisés perguntou-lhe o nome, foi quando Javeh emitiu uma autodefinição enigmática: “eu sou”, sem quaisquer complementos. O nome de Javeh é apenas “eu sou”, pois de fato, Deus não tem complementos, ele é todo e integralmente um, tornando-se desnecessária qualquer outra explicação. De acordo com o Monsenhor Manfredo Ramos, num sermão dominical, o verbo hebraico que é traduzido em português por “eu sou” (Ehyeh) tem um significado muito mais amplo do que a expressão correspondente em português, pois inclui não apenas o significado de “ser”, também o sentido de 'fazer ser', ou seja, além de SER absolutamente, Ele também faz as coisas serem. Seria uma autodefinição de Javeh como o criador do universo. “Eu sou” tem assim um significado ativo e dinâmico de ser, não o aspecto estático que a expressão em português sugere. “Eu sou”, este é o nome de Deus para sempre e assim ele será lembrado de geração em geração. Do nosso ponto de vista, para Deus, o nome não é o mais importante, mas sim a fé que temos nele e com base nesta fé, nós somos todos irmãos e sob a luz dessa mesma fé orientamos todas as ações da nossa vida.


Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 10, 1-6), encontramos a menção aos patriarcas e aos hebreus que atravessaram o deserto, conduzidos por Moisés, fugindo da escravidão em que viviam no Egito. Apesar de serem constantemente favorecidos por Javeh comendo o maná e bebendo a água do rochedo, no entanto, blasfemaram e desagradaram a Deus e muitos morreram antes de chegar na terra prometida. O próprio Moisés também teria recebido esse castigo, por haver duvidado do poder de Javeh, no episódio da água saindo da pedra. Na carta aos Coríntios, Paulo reproduz uma figura que era muito conhecido dos judeus daquele tempo, que era a imagem do Deus furioso e vingativo, que amava o povo, mas não os poupava, quando cometiam infidelidades. Então, diz Paulo, estes fatos devem servir de advertência a vocês, para que não repitam as mesmas atitudes reprováveis cometidas pelos seus antepassados, que foram alvo do anjo exterminador. Vejam bem: “anjo exterminador” é uma figura cultural do povo hebreu que parece indicar algo que, nos dias de hoje, chamamos de “castigos de Deus”. É interessante como, na cultura religiosa do nosso povo, ainda permanecem essas figuras fantásticas e aterrorizantes encontradas na tradição bíblica mais antiga, de um Deus que exerce a vingança. Muito diferente é a figura que Jesus vem nos trazer sobre o Pai: Deus é amor.


Então, podemos perguntar: por que Paulo usaria essas imagens do tempo antigo já na era cristã, numa época em que Jesus Cristo já havia dito que tinha vindo abolir aqueles costumes com o seu novo mandamento? Na verdade, Paulo faz referência ao rochedo donde brotava a água no deserto, vendo neste rochedo uma prefigura de Cristo, a fonte da água viva. Verifica-se, na verdade, um esforço de Paulo para integrar a antiga aliança com a nova aliança, através de uma catequese que aproveitasse os conhecimentos da tradição hebraica, pois os cristãos da cidade de Corinto eram, em grande parte, judeus convertidos, que conheciam bem essas histórias dos patriarcas. Ficava, portanto, mais fácil para Paulo lançar mão dos conceitos da tradição conhecida por eles para fazer a relação com a mensagem de Cristo. Havia, entre estes judeus, um conceito que nós ainda encontramos na mentalidade religiosa do nosso povo: de que, quando acontece algo de ruim com alguém, aquilo foi um castigo de Deus. Isso era também entendido pelo raciocínio inverso, ou seja, que quando alguém havia sido beneficiado com algo de bom, isso seria um prêmio de Deus, uma espécie de reconhecimento de Deus pelos méritos desta pessoa.


Essa referência aos Patriarcas termina com a advertência de Paulo: quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair. (1Cor 10, 12). Esse cuidado diz respeito à conversão do coração, todos nós necessitamos constantemente de conversão. Converter-se quer dizer estar sempre voltado para Deus, não apenas quando passamos por alguma dificuldade, enfrentamos uma adversidade. Alguns cristãos só se lembram de rezar, de voltar-se para Deus quando as coisas não vão bem. Então, diz Paulo, quem pensa que está de bem com Deus porque não foi castigado e, ao contrário, pensa que o irmão que sofre é porque não está de bem com Deus, deve mudar essa mentalidade. Se não houver “conversão” contínua, isto é, se não houver mudança de mentalidade, pode acontecer o mesmo que aconteceu no deserto: virá o “anjo exterminador”, representado sob a forma de presunção da salvação. Ninguém tem a salvação garantida, pois essa depende de esforço constante. Com isso, ele quer significar que a conversão não é uma atitude que acontece uma vez na vida e pronto, mas ela deve ser renovada a cada dia, na nossa consciência e nas nossas atitudes. O batismo não é garantia de salvação por si só, se não for complementado com um trabalho contínuo de renovação interior, pela leitura e meditação da escritura, pela inserção dos ensinamentos de Cristo no nosso dia a dia. Por isso ele adverte: quem pensa que está em pé (de bem com Deus, com a salvação assegurada), tenha cuidado para não cair (não deixar a presunção e o orgulho embotarem a sua visão de fé).


Este é também o ensinamento que retiramos da passagem do evangelho de Lucas (13, 1-9), quando os judeus falaram a Jesus sobre alguns do povo que haviam sido mortos por ordem de Herodes, que confundiu o ritual de sacrifícios de animais deles com alguma ação de rebeldia, de modo que eles foram assassinados sendo inocentes. Por isso, Jesus pergunta aos próprios portadores da notícia: por acaso, vocês pensam que estes que morreram eram mais pecadores do que os outros? Dentro daquela mentalidade judaica, essa desgraça acontecida com cidadãos inocentes era entendida como um 'castigo divino' por alguma coisa imprópria feita por eles. Então, Jesus aproveita a ocasião para ensinar que não é nada disso, que não se deve associar o sofrimento de alguém com uma espécie de 'vingança' de Javeh, porque isso pode acontecer a qualquer um. Não se trata de vingança de Javeh, mas trata-se de um fato da vida, que não está relacionado com o poder divino, mas com a negligência ou ignorância dos seres humanos. Trazendo para os dias de hoje, Jesus diria que os tsunamis, as inundações, o desequilíbrio ecológico do planeta, a pandemia disseminada por toda a parte, a violência generalizada não são castigos divinos, mas são produtos da ação egoísta e desastrosa comandada pelo próprio homem.

Meus amigos, ouçamos com nossos ouvidos de hoje o que diz Paulo e não deixemos que o mesmo venha a acontecer conosco. Quem pensa estar de pé, tenha cuidado para não cair.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos.

sábado, 15 de março de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 2º DOMINGO DA QUARESMA - 16.03.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA QUARESMA – CORPO GLORIOSO – 16.03.2025


Caros Confrades,

Neste domingo, 2º da quaresma, a liturgia nos traz a narração da transfiguração de Jesus Cristo perante os apóstolos Pedro, Tiago e João, exibindo diante deles o seu corpo glorioso, tal qual se manifestaria mais tarde aos doze, após a ressurreição. Transfigurando-se, Jesus dá demonstração do seu poder e da sua origem divina. Nas outras leituras, lemos sobre a glória de Javeh manifestando-se a Abrão, dando início à aliança com o povo eleito, e ainda sobre a advertência de Paulo aos Filipenses, dizendo que nós seremos transfigurados um dia, tal como aconteceu com Cristo.


Na primeira leitura, lemos o início das tratativas entre Abrão e Javeh, com vistas à formação da aliança, que deu origem ao povo de Israel. Abrão pede um sinal e Javeh mandou que ele trouxesse animais e aves para sacrificar em sua homenagem, ocasião em que Javeh mandou o fogo do céu para a consumação do sacrifício, prometendo a Abrão uma descendência mais numerosa do que as estrelas. Esta passagem do Gênesis (Gn 15, 17), assim como outras similares, formam aquele conjunto de conteúdos legendários da memória hebraica, legados de geração em geração durante séculos por uma tradição oral, com imensas probabilidades de alterações ao longo do tempo, pois nenhuma tradição oral se mantém incólume por muito tempo. E reflete também a cosmologia da época, naquilo que se refere à contagem das estrelas, pois estas eram entendidas como se estivessem penduradas na abóbada celeste. De fato, Abrão ficou com certo temor de acreditar nessa promessa de ter uma geração numerosa, por isso, pediu a Javeh um sinal, para que pudesse acreditar. Com efeito, Abrão era já idoso, assim como sua mulher Sarah, e não tinham conseguido gerar filhos até então, quanto mais a idade de ambos avançava, mais isso ficaria impossível. E como se cumpriria a promessa? Essa era a dúvida dele. O sinal dado por Javeh reacendeu-lhe a esperança.


É no contexto dessa dúvida de Abrão que, com o consentimento de Sarah, ele gerou um filho na sua escrava egípcia Agar (ao qual chamou de Ismael), antes que Sarah gerasse Isaac. Essas narrações legendárias incluídas no Pentateuco têm por finalidade explicar que todos os povos daquela região seriam descendentes de Abrão, porém enquanto os israelitas eram descendentes pelo lado legítimo da filiação de Isaac, filho da esposa, os outros povos eram descendentes de Abrão pelo lado ilegítimo de Ismael, filho da concubina dele. Essas histórias explicavam também porque aqueles povos habitavam naquela região “entre o rio do Egito (Nilo) e o rio Eufrates” (Gn 15, 18), no entanto, os verdadeiros “donos da terra” eram os israelitas, por serem filhos da esposa legítima de Abrão, os herdeiros da promessa de Javeh a Abrão. Essa “briga de família” continua nos dias de hoje, sem perspectiva de conciliação.


Na segunda leitura, da carta de Paulo à comunidade de Filipos, uma das primeiras comunidades cristãs fundada por ele, pela qual ele tinha grande estima, constata-se a angústia de Paulo (Fl 3, 18) quando ele escreve: muitos de vocês estão se comportando como inimigos da cruz de Cristo..., sede meus imitadores, vivam de acordo com o evangelho que eu vos dei. Não deem maus exemplos, pensando só nas coisas terrenas, porque nós somos cidadãos do céu. Então, Paulo faz o seu discurso futurológico, ao afirmar que (Fl 3, 21), se vivermos de acordo com o evangelho, teremos no céu um corpo glorioso, semelhante ao corpo de Cristo. Os povos gregos eram os grandes comerciantes daquela região do Mediterrâneo. Os filipenses ouviram e aceitaram a pregação de Paulo, convertendo-se ao cristianismo. Mas quando Paulo viajou para fundar outras comunidades, os filipenses se voltaram aos seus afazeres materiais, diversões, comes e bebes, deixando de lado a vivência da fé cristã. Daí a chamada de atenção de Paulo: ouvi dizer que alguns de vocês se comportam como inimigos da cruz de Cristo… não façam isso, o fim destes é a perdição, o deus deles é o estômago e a sua glória está na vergonha. Esta advertência de Paulo cabe bem nos nossos dias, quando percebemos fiéis que esquecem os compromissos de cristãos sufocados pelas urgentes e inadiáveis necessidades do dia a dia. Não podemos deixar que o nosso deus seja a gula nem que a nossa glória esteja nos bens materiais. A vivência da fé deve iluminar nossas atividades profissionais e nossos compromissos cotidianos e não pode ser um empecilho para o exercício destes. Da mesma forma que essas atividades não podem se antepor aos nossos compromissos de fé, mas ambas devem conciliar-se mutuamente.


Na leitura do evangelho de Lucas (9, 29-36), o tema é a narração da transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João. Pela narração do evangelista, deduz-se que eles não entenderam nada daquilo, agarraram no sono e quando acordaram, Jesus já estava se despedindo. O completo entendimento desse episódio somente chegou para eles muito tempo depois, quando Jesus já havia ressuscitado. Chega-se a essa conclusão pelo contexto da narrativa. Primeiro, aquela visão espiritualizada de Cristo conversando com dois personagens também espirituais; segundo, o assunto da conversa (de acordo com Lucas, Jesus conversava com Moisés e Elias sobre a sua futura paixão e morte, coisa que ele já tinha explicado diversas vezes para os apóstolos, mas eles não conseguiam entender); terceiro, os discípulos devem ter ficado hipnotizados com aquela visão fantástica e quedaram-se em profunda letargia, êxtase, talvez. Diz Lucas (9, 36) que aqueles discípulos não falaram nada daquilo pra ninguém e nem conversavam entre eles sobre o assunto. Cada um deve ter pensado que tivera um sonho (ou um pesadelo) e até um teve receio de comentar com o outro, pois não sabia se o outro também tinha visto aquilo.


Uma observação textual merece ser aqui destacada. O evangelista Lucas diz que uma nuvem os encobriu a todos, os discípulos também ficaram cobertos pela nuvem, de onde saiu uma voz, que dizia: este é o meu filho dileto, escutai-o. O texto oficial da CNBB escreve “meu filho escolhido”, mas essa não me parece a melhor tradução. A palavra grega escrita por Lucas é “eklelegménos”, conjugação do verbo “legow”, que São Jerônimo traduziu por 'dilectus'. Conforme o dicionário de grego bíblico, o verbo “legow” tem o significado de escolher, mas tem também o sentido de anunciar, declarar, então no contexto da história da salvação, parece-me que este último sentido estaria mais apropriado. Daí eu preferiria traduzir a expressão por “meu filho prometido”, porque assim fica mais coerente com a leitura do Gênesis (primeira leitura), onde se rememora a aliança com Abrão, o futuro desta promessa era a vinda do Salvador. Jesus é, portanto, aquele que fora prometido desde o início. “Escolhido”, como traduziu a CNBB, dá a impressão que Javeh teria vários filhos e escolheu Jesus, por isso não me parece uma tradução apropriada.


Os dois personagens com os quais Jesus dialogava (Moisés e Elias), de acordo com a explicação tradicional da exegese, representam a Lei e os Profetas. Esse entendimento também se encontra na fé judaica, como se pode ver na palavra “tanach”, com a qual os judeus resumem toda a sua Bíblia. A palavra “tanach” é formada de um acróstico com as sílabas iniciais de “torah” (lei de Moisés), “neviim” (profetas representados por Elias) e “chetuvim” (os escritos sapienciais). Ao transfigurar-se e aparecer junto com Moisés e Elias, Jesus estava referendando a Lei e os Profetas e acrescentando a elas os seus próprios ensinamentos. Assim é que se faz o entendimento cristão da presença dos três personagens no episódio da transfiguração.


Agora, ponho outra questão: por que Jesus não chamou todos os doze apóstolos para testemunharem aquela demonstração de sua divindade, mas apenas aqueles três? Fica difícil saber com certeza, mas podemos fazer conjeturas. Talvez, um reconhecimento da liderança de Pedro, fato que seria posteriormente tomado como argumento para justificar o primado do Papa. Talvez o fato de João e Tiago terem parentesco com Jesus (lembremo-nos que, na hora da morte, Jesus confiou Maria, sua mãe, aos cuidados de João), ambos apontados como filhos de Salomé (mulher de Zebedeu), que talvez seria irmã de Maria, mãe de Jesus. Essas genealogias são repletas de controvérsias, no entanto, o fato de terem sido eles dois escolhidos para testemunhar o fato miraculoso reforça essa tese, por serem pessoas de sua maior confiança.


À margem dessa polêmica, exsurge o fato de que nós, cristãos, somos todos escolhidos por Jesus para conhecer sua doutrina e chamados a participar da construção do céu na terra. Aos apóstolos, Jesus não se mostrou a todos, mas a nós, Ele se revelou sem restrição. Daí o conselho de Paulo, que pediu chorando aos Filipenses para que eles não se deixassem levar pela atração das coisas terrenas, porque assim estavam se desviando do foco da missão que ele, Paulo, lhe havia deixado. E quanto a nós, Paulo nos adverte que tenhamos sempre na mente o nosso destino glorioso, nunca perdendo o foco nas promessas do nosso batismo.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos


sábado, 8 de março de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 1º DOMINGO DA QUARESMA - 09.03.2025

 

COMENTÁRIO LITURGICO – 1º DOMINGO DA QUARESMA – A METÁFORA DAS TENTAÇÕES – 09.03.2025


Caros Confrades,


A liturgia deste 1º domingo da quaresma põe para nossa reflexão o tema das tentações suportadas por Jesus Cristo, após o seu o batismo e antes de iniciar sua atividade missionária. Esse tema traz de imediato a pergunta: Jesus podia ser tentado? Teria Satanás um poder tão extraordinário, a ponto de perturbar a paz de espírito de Jesus? Ou será que o evangelista exagerou na narrativa, com figuras de linguagem exacerbadas para chamar a atenção dos leitores? Nas duas primeiras leituras, o tema em destaque é a fé na dimensão da universalidade: no texto de Deuteronômio, a fé do povo hebreu em Javeh; no texto de Paulo a Romanos, a fé em Cristo, que congrega todos os crentes.


De início, convém observar a simbologia bíblica do número 40, visto que estamos no início da quaresma, cuja palavra, em latim, se diz “quadragesima” (=40) e o número 40 está em destaque tanto na leitura de Deuteronônio e quanto no evangelho de Lucas. Dentro do contexto bíblico, o número 40 aparece com frequência e sempre antecedendo a ocorrência de um fato muito importante. Quando o narrador inclui uma situação em que desponta o símbolo 40, isso não significa matematicamente a passagem de 40 dias ou meses ou anos contados numericamente num calendário, mas o tempo oportuno para o poder de Deus se manifestar através de alguma obra grandiosa. Na liturgia moderna, a simbologia dos 40 dias é observada no período que antecede a Páscoa (quaresma) e no período que vai da Ressurreição até a Ascensão de Jesus. Os devocionistas inventaram outras quaresmas, mas são devoções particulares, não articuladas com a liturgia oficial.


Na primeira leitura (Deuteronômio, 26, 4-10), o texto traz as instruções de Moisés aos seus auxiliares, porque ele já sabia que não chegaria até a terra prometida, apenas a veria de longe. Possivelmente, a instrução seria para Josué, que foi o sucessor de Moisés no comando do povo, na reta final. Por isso, Moisés disse que, quando chegassem à terra prometida, deviam levar ao altar do Senhor em oferenda os primeiros frutos produzidos naquela terra e ali professar o agradecimento de todo o povo pela libertação da escravidão e pela condução que tiveram durante a peregrinação pelo deserto, tempo em que tiveram de enfrentar um sem número de desafios físicos e espirituais, tendo o Senhor conduzido-os sempre e constantemente perdoado as infidelidades deles. O livro bíblico que contém essas instruções tem o título de Deuteronômio (deuteros+nomos=segunda lei) porque se trata de um compêndio de normas encontradas posteriormente numa escavação no templo e que repete, em parte, as normas já contidas em outros escritos da Torah. Este livro é um verdadeiro “código de legislação” hebraica, tantas e tão pormenorizadas são as prescrições e os rituais descritos. É uma verdadeira compilação do direito hebreu, o qual não fazia distinção entre normas religiosas e normas civis, porque a sua organização era um estado teocrático, situação que ainda hoje persiste em Israel e nos países da religião islâmica.


Temos na segunda leitura (Paulo a Romanos, 10, 8-13), a lição paulina sobre a universalidade da fé em Cristo: é irrelevante se alguém é judeu ou grego, nascido na fé ou pagão convertido – e nós podemos incluir nesse conceito de “gregos” também os europeus ou americanos, africanos ou indianos – o que importa é crer em Jesus com o coração e confessar essa fé com a boca, pois todo que nEle crer não ficará confundido. Quando Paulo fez essa afirmação, pensava apenas no mundo do seu tempo, dividido entre judeus e não-judeus, mas por extensão, alcança todos nós hoje. Especificamente, Paulo tencionava solucionar aquela polêmica que surgiu em Roma com os cristãos judaizantes em relação aos novos cristãos convertidos do paganismo. Os judeus cristãos achavam que só podia ser cristão quem aderisse primeiro à lei de Moisés e fizesse a circuncisão, querendo que essa regra fosse observada pelos cristãos convertidos de origem estrangeira. Então, Paulo ensinou que o batismo cristão supre e substitui todos os rituais da antiga lei judaica. Roma, a grande metrópole na qual o cristianismo se universalizou, era uma grande babel daquele tempo, abrigando pessoas das mais diversas origens e nacionalidades, consequentemente, dos mais diversos idiomas e costumes. Foi o primeiro grande desafio do cristianismo enfrentado na pregação do evangelho para os pagãos ou gentios, resolvido graças à intervenção oportuna e sábia de Paulo, que fez prevalecer a sua autoridade de apóstolo para convencer os mais reticentes.


A leitura do evangelho de Lucas (4, 1-13) repete a narração contida nos outros dois sinóticos: após ter sido batizado por João Batista, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, onde ele jejuou durante 40 dias e foi tentado por Satanás. Ora, pergunta-se: Qual o poder que Satanás teria sobre o Filho de Deus, a ponto de desafiá-lo? Em que medida Satanás teria controle sobre as riquezas da terra, de modo a colocar isso como um atrativo para Jesus? Qual o conhecimento que Satanás tem da Sagrada Escritura, de modo a utilizar citações bíblicas para tentar convencer Jesus? Ora, com certeza temos aí figuras literárias, simbolismos linguísticos, certo exagero de descrição com caráter pedagógico para ilustração dos leitores. As tentações de Jesus representam, na verdade, os 'perigos' que, para a sua natureza divino-humana, poderiam significar as situações de extrema pressão psicológica que ele teria de enfrentar. Ele estava prestes a iniciar a sua missão de pregador e devia saber controlar adequadamente o exercício do poder divino, que ele sabia possuir. Para cumprir os desígnios do Pai e para cumprir o plano salvífico, Jesus precisava passar por todas aquelas provações, enquanto pessoa humana. De fato, nós sabemos que Jesus enfrentou diversos desafios, que para Ele seriam facilmente resolvidos se usasse o poder divino, mas ele sabia que não podia fazer assim. As tentações representam, na verdade, as grandes ambições que mais seduzem os seres humanos: vaidade, poder, riqueza. Foi uma espécie de “treinamento” psicológico que ele realizou para comportar-se plenamente conforme a natureza humana elevada ao seu mais alto grau de perfeição.


Então, quais foram mesmo as grandes 'tentações' de Jesus? 1. Transforma essas pedras em pão... tentação do poder; 2. Eu te darei todos os reinos... tentação da riqueza; 3. Joga-te daqui para baixo... tentação do orgulho/vaidade. Quantas vezes, os fariseus tentaram contra Jesus para que Ele realizasse um milagrezinho na presença deles, porque eles só ouviam falar pela boca dos outros e queriam presenciar. Jesus nunca os atendeu. Herodes foi um que disse na cara de Jesus: “você é uma piada”, porque insistiu para Jesus fazer uma demonstração na presença dele (cf Lucas 9, 7 e 23, 6), e Jesus nada disse. Portanto, o “retiro espiritual” que Jesus fez antes de começar a pregar foi também uma preparação psicológica para as dificuldades práticas que ele teria de enfrentar. Assim, se quisermos encontrar a figura de satanás tentando Jesus, não busquemos essa no deserto, onde ele jejuou, mas nos diversos fariseus que o tentaram em vão. O próprio Judas, que certamente vira Jesus fazer vários milagres, não conseguia acreditar que Ele fosse suportar todas aquelas humilhações impostas pelos chefes dos sacerdotes e iria 'dar a volta por cima' numa situação de extremo perigo, até pagou pra ver, mas perdeu a aposta. Desculpem-me, meus amigos, porque talvez alguns não concordem com o que vou escrever, mas muitas vezes, as pessoas se servem da figura de satanás para encobrir suas próprias fraquezas e sua personalidade imperfeita. As grandes tentações que nos afetam não nos vêm de um agente exterior tentador, um “demônio” externo, mas da nossa “trindade” interior, que habita no nosso subconsciente mais recôndito: id, ego e superego (tomando emprestada a terminologia de Freud).


Meus amigos, o filósofo austríaco Edmund Husserl, criador da filosofia fenomenológica, tinha uma frase que usava insistentemente: “voltemos às coisas mesmas”. Trago esta frase para este contexto pela mensagem que ela contém. Em vez de atribuirmos a satanás as coisas más que fazemos, vamos olhar no espelho, encaremos de frente o nosso próprio ser, sem ocultações ou subterfúgios. Voltemo-nos para nós mesmos e tenhamos coragem de assumir nossas fraquezas, pois somente assim criaremos condições de superá-las. Foi o que Jesus fez no deserto: refletir sobre si mesmo, sobre sua condição divina e humana, sobre a sua missão espinhosa e dolorosa da qual ele não podia se esquivar. A literatura transformou essa autoanálise em tentação e os subterfúgios inconscientes dele na figura do tentador. Mas nós devemos ir além dessa metáfora tradicional. Quando fazemos algo do qual depois ficamos arrependidos, não foi um satanás exterior que nos tentou, foi ação daquele demônio que reside num canto obscuro do nosso ser mais íntimo e nós fazemos tudo para ocultá-lo, ignorá-lo através de processos de racionalizações das nossas próprias decisões equivocadas. Se sairmos disso, seremos capazes de reciclar também a nossa noção de pecado.


Que o Mestre nos ensine sempre e nos dê sempre força para superarmos as nossas imperfeições e frustrações.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 1 de março de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 8 DOMINGO COMUM - 02.03.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 8º DOMINGO COMUM – A BOCA E O CORAÇÃO – 02.03.2025


Caros Confrades,


Neste 8º domingo comum, a liturgia traz para nossa reflexão a relação existente entre o interior e o exterior da pessoa: a boca fala daquilo que o coração está cheio. E nós podemos entender com o conceito de “boca” o ser humano inteiro, porque nós nos comunicamos também com gestos e atitudes, não apenas com as palavras. Este domingo, que antecede o período quaresmal, põe em destaque uma vivência comum a todos nós, pois o nosso falar e o nosso agir estão sempre associados e, já diz o jargão popular, é mais fácil apanhar um mentiroso do que um aleijado. Sim, porque uma pessoa, cujas ações e atitudes não condizem com o seu linguajar, é de fato um mentiroso.


Na primeira leitura, retirada do Livro do Eclesiastico (Eclo 27, 5-8), temos o conselho dos antigos sábios de Israel: não elogies a ninguém antes de ouvi-lo falar. O título desse livro na Bíblia Septuaginta diz-se Sirácida (Ben Sirac) e faz parte do grupo dos livros denominados “escritos” (ketuvim), a terceira seção daquela Bíblia, ao lado dos livros poéticos e dos sapienciais (a primeira seção é a Torá – a lei; a segunda seção é Naviim – os profetas). Esse livro não faz parte da Bíblia hebraica primitiva, não tendo sido encontrado o seu texto original em hebraico. Ben Sirac foi o sábio judeu que escreveu esse livro na língua grega, em Alexandria, onde passaram a viver muitos judeus vindos do cativeiro da Babilônia. Neste livro, o autor reuniu diversos ensinamentos teóricos e práticos transmitidos ao longo de muitos séculos pelos sábios do Povo de Israel, com o intuito de mostrar sobretudo aos jovens como deve ser conduzida a vida com sabedoria. O sábio não precisa ser aquele asceta, o anacoreta, figura que surgiu na Idade Média e referia-se a pessoas que haviam abandonado todas as coisas materiais e se refugiavam nos mosteiros ou mesmo em locais desertos, dedicando-se exclusivamente à oração e à meditação, e eram tidos como respeitáveis pelo seu ato de renúncia extrema. Ben Sirac é mais modesto, procura ensinar aos jovens que não é necessário adotar condutas extremas para alcançar a sabedoria, mas que esta também pode ser encontrada nas labutas cotidianas. O sábio deve exercer a própria vida com sabedoria, servir-se dos bens materiais e do conforto que o trabalho proporciona com duas condições básicas: primeira, compreender que tudo isso é dom de Deus e sempre agradecer por isso; segundo, não ser apegado a esses bens, de modo que a posse deles não seja motivo de soberba nem de desprezo dos irmãos. Em outras palavras, a sabedoria seria a expressão da fé autêntica, aquela fé que não fica presa nas palavras, mas se estende e se entrelaça com as atitudes. Por isso, diz o texto de hoje, assim como o fruto revela a qualidade da árvore de onde proveio, assim a palavra revela o coração do homem. Antes de formar sua opinião acerca de alguém, ouça-o falar. Se a sua palavra for coerente com as ações que ele realiza, então trata-se de uma pessoa confiável e sábia. Os conselhos dos sábios de Israel, escritos na literatura sapiencial bíblica, revelam-se como perenes e sempre atuais corolários de um saber existencial, que não está atrelado nem a uma determinada religião nem a uma determinada sociedade, mas à própria natureza da humanidade.


Coloca-se nessa mesma linha de raciocínio o ensinamento de Jesus, transmitido pelo evangelista Lucas (Lc 6, 39-45): a boca fala daquilo que o coração está cheio. Jesus repercute, nos seus sermões, a figura do pregador e do doutrinador por excelência. E diz: todo discípulo bem formado se igualará ao mestre. Se o mestre for um sábio, o discípulo assim será também. Se o mestre for um néscio, o discípulo terá o mesmo destino, porque um cego não pode guiar outro, ambos cairão no buraco. Jesus usava essa imagem do cego referindo-se aos fariseus daquele tempo. Eles eram os mestres do povo, mas eram néscios, soberbos, insensatos, por isso não conseguiam guiar o povo para a religião verdadeira. Em outra ocasião, Jesus disse (Mt 23, 4): “Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens. No entanto, eles próprios não se dispõem a levantar um só dedo para movê-los.” Eles estavam teoricamente sentados na cadeira de Moisés, ou seja, eles tinham a autoridade, no entanto, não davam o exemplo, o agir deles não era coerente com o seu discurso. Por isso, disse Jesus, façam o que eles dizem, mas não imitem o que eles fazem. Esta mesma lição se repete no texto do evangelho de Lucas da liturgia de hoje, através da imagem do cego. O farisaísmo havia transformado a Lei de Moisés num repertório de regras de conduta, com mais de 600 enunciados, quase todos proibitivos (não pode isso, não pode aquilo…), no entanto, os próprios fariseus não cumpriam esses preceitos, porém exigiam que o povo judeu os cumprisse. Daí o recado grosseiro de Jesus: Hipócrita, como é que consegues perceber o cisco no olho do teu irmão, mas não percebes a catarata no teu olho? Limpa primeiro o teu olho, para poderes enxergar bem, depois vai tirar o cisco do olho do irmão. E o evangelista relembra outros discursos de Jesus com o mesmo teor: a árvore boa produz bons frutos, a árvore má produz frutos ruins; não se colhem uvas de espinheiros nem figos de abrolhos. Da mesma forma, uma pessoa de coração má não poderá dar bons exemplos. Só a pessoa boa retira bons frutos do bom tesouro do seu coração.


Meus amigos, precisamos ter muito cuidado para que esse puxão de orelhas de Jesus não venha a ser aplicado a nós. Sobretudo aquelas pessoas que possuem algum tipo de liderança, essas mais do que as outras têm a obrigação de dar bons exemplos. Assim, os pais em relação aos filhos, os professores em relação aos alunos, os idosos em relação aos jovens, os líderes de qualquer natureza em relação aos seus liderados. Os sábios romanos antigos possuíam uma máxima que bem se enquadra nesse contexto e que dizia assim: Verba movent, exempla trahunt. (As palavras comovem, os exemplos arrastam). Dizer e não fazer é uma incoerência interna imperdoável. Ninguém pode arrogar em seu favor a repreensão que Jesus fez aos fariseus do seu tempo: façam o que eu digo, mas não o que eu faço. Qualquer líder que assim fizer será indigno de exercer a liderança. Será um cego guiando outro cego para caírem ambos no buraco. Ao contrário, deve aplicar-se o sempre atual ensinamento do Sirácida: a sabedoria consiste na coerência que deve existir entre o interior e o exterior da pessoa. Essa é a sabedoria milenar recolhida pelo escritor bíblico e que tem se mostrado eficaz em todos os tempos.


O apóstolo Paulo, na epístola aos Coríntios (1Cor 15, 54-48) ensina que a total coerência entre o ser humano interior e o seu exterior é uma tarefa constante e desafiadora, que só estará completa quando este corpo mortal se revestir da imortalidade e este ser corruptível se revestir da incorruptibilidade. Aí, então, se cumprirá a palavra da Escritura: a morte foi vencida pela vitória. Onde está, na Escritura, essa referência feita por Paulo aos Coríntios? Está no livro de Isaías, o profeta do exílio e da esperança, cap. 25, 6-8, confortando os cativos na Babilônia: “O Senhor dos Exércitos dará nesse monte uma grande festa a todos os povos… e destruirá nesse monte os vínculos que oprimem todos os povos… e destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos...” A profecia de Isaías é messiânica e Paulo sabia que essa profecia já havia se cumprido com Jesus Cristo, através de sua ressurreição, restando agora a cada um seguidor de Cristo fazer a sua parte, para também ter acesso aos mesmos benefícios conquistados pela redenção de Jesus. E assim ele aconselha aos cristãos corintianos: sede firmes e empenhai-vos cada vez mais na obra do Senhor, cientes de que os vossos esforços não serão em vão. Esse ensinamento de Paulo pode ser conectado com outra passagem dele, na carta aos Romanos (7, 12), onde ele confessa a dificuldade que ele próprio tem de colocar em prática o mandamento de Cristo: “a lei é espiritual, mas eu sou carnal, sufocado pelo pecado. O querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Por isso, não faço o bem que quero, mas o mal, que não quero”. Jesus sabia que não é fácil integrar o interior com o exterior do homem, mas para isso é que Deus dá a cada um a sua graça. Paulo, na sua humildade de discípulo de Cristo, não tem vergonha de confessar que ele também erra. Porém, a questão não é errar ou acertar, mas ter consciência do erro, para não repeti-lo, para aprender com ele, para perceber que somente com o auxílio da graça divina cada um pode evoluir na direção da sabedoria e da santidade.


Examinemos, portanto, atentamente como está a coerência entre a nossa boca e o nosso coração e tenhamos a humildade de admitir que estamos sempre sujeitos a falhas, mas isso não é de todo ruim, desde que saibamos aprender com elas.


Um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 22 de fevereiro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 7º DOMINGO COMUM - 23.02.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 7º DOMINGO COMUM – O AMOR COMO DESAFIO – 23.02.2025


Caros Confrades,

Neste 7º domingo comum, as leituras litúrgicas dão sequência ao tema do domingo anterior, acerca das bem-aventuranças, o famoso “sermão da montanha”, que resume em grandes linhas todo o ensinamento de Jesus Cristo. No domingo de hoje, é como se ele concluísse: vocês ouviram o que eu disse? Eu ouçam mais: é preciso amar o próximo e também os inimigos. Amar os amigos e fazer o bem a quem lhe faz bem, isso não é grande coisa, os pagãos também fazem assim. Para fazer diferente, o cristão deve amar os inimigos e fazer o bem aos que lhe fazem o mal. É este o grande desafio do amor cristão.


Na primeira leitura, do livro do Samuel (1Sam 26, 2-22), é narrada a atitude respeitosa e temente a Deus de Davi, que poupou a vida de Saul, na ocasião inimigo dele, quando poderia tê-lo executado. Para entendermos a situação, vejamos a história. Saul era rei de Israel mas, por sua soberba e arrogância, desrespeito a lei de Moisés e, por isso, Javeh o rejeitou, determinando ao sacerdote Samuel que ungisse a Davi como novo rei. De início, Saul tinha um comportamento amistoso com Davi, apesar de não haver gostado nada de ter sido rejeitado, chegou até a entregar a filha como esposa de Davi. Porém, os sucessos de Davi nos combates contra os inimigos de Israel causaram inveja em Saul, que passou a perseguir Davi, procurando matá-lo. Por causa disso, Davi precisou refugiar-se no deserto com seus soldados, enquanto Saul o perseguia. Certa noite (aqui entra o trecho da leitura de hoje), Davi conseguiu entrar sorrateiramente no acampamento e encontrou Saul dormindo na sua tenda e poderia tê-lo matado com a própria lança real. O guerreiro companheiro de Davi (vers. 8) chegou a dizer: vou dar só um golpe, nem será preciso repetir. Mas Davi o deteve, dizendo: “ninguém pode lançar a mão contra o ungido do Senhor”. E foram embora sem molestá-lo, levando a lança e o cantil, para comprovar o que poderiam ter feito. Ora, numa situação inversa, com certeza Saul teria liquidado Davi. Mas este respeitou o inimigo, vendo nele o “ungido”. Mil anos antes de Cristo, época de Davi, ele já estava realizando aquilo que Jesus futuramente iria ensinar.


Na sequência também da primeira carta aos Coríntios, lida no domingo passado (1Cor 15, 45-49), o apóstolo Paulo continua o paralelo entre Adão e Jesus, dizendo que Adão era um homem material, ou seja, proveniente do limo da terra, enquanto Jesus é um homem espiritual, ou seja, proveniente diretamente do céu. Assim ele diz no versículo 48: “Como foi o homem terrestre, assim também são as pessoas terrestres; e como é o homem celeste, assim também vão ser as pessoas celestes.” A figura de Adão representa o homem velho, aquele que ainda não conheceu a mensagem cristã. Paulo lembra aos cristãos de Corinto que, antes da adesão ao cristianismo, eles também estavam prefigurados na pessoa de Adão, com todas as imperfeições e ambiguidades dos “homens terrestres”, seduzidos pelos bens materiais, pela riqueza, pelos prazeres da carne. Mas, depois de convertidos e depois da adesão à mensagem cristã, esse homem terrestre deve ser transmudado no “homem celeste”, cujo protótipo é a figura de Jesus Cristo. E o que vai se tornar a marca característica desse novo homem, fiel ao ensinamento de Cristo, é a colocação na prática das bem-aventuranças, de acordo com o catálogo de ações de beatitudes ensinadas no sermão da montanha. Essa mesma advertência Paulo faz também na carta aos Efésios (5, 8), nos seguintes termos: “Pois, no passado éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Assim, andai como filhos da luz.”


A leitura do evangelho é também uma continuação da temática do domingo passado, em que Lucas resumiu o sermão das bem-aventuranças (Lc 6, 27-38). Depois de dizer “ai de vós, que agora estás rindo, porque ireis chorar”, Jesus arremata: e a vocês que ouviram o que eu disse, vou dizer mais: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam.” Eu fico imaginando a expressão nos rostos daqueles ouvintes, depois que Jesus fez esse arremate, como se dissessem: tu estás achando pouco, ainda vais exigir mais? E Jesus, percebendo a cara de espanto deles, complementa: é isso mesmo, se alguém te der um tapa num lado do rosto, oferece também o outro lado; e se alguém te tomar o chapéu, dá também o teu sapato. Se fazes o bem somente a quem também te faz o bem, que novidade há nisso? Os pecadores também fazem assim. Os cristãos devem fazer o bem a quem não lhes faz e dar um objeto sem esperar nada em troca, aqui está a diferença, aqui está o que eu denominei no início de “amor como desafio”.


Esse tipo de atitude parece, para as pessoas do mundo, como algo incoerente, ingênuo, contraditório. Alguém pode pensar: como é que Jesus exige isso dos seus seguidores? Aqui podemos inserir a lição de Paulo aos Coríntios, mencionada acima, com o paralelo entre o homem terrestre e o homem celeste. Se não somos capazes de entender esse pedido de Cristo, é porque ainda estamos impregnados com o pensamento do homem terrestre, a graça de Deus ainda não operou em nós o suficiente para superarmos essa atitude mundana de sempre esperar a retribuição por aquilo que fazemos. Para fazer isso, será necessário antes entender o conteúdo metafísico do ensinamento de Jesus, isto é, a questão não se refere a fazer-se de otário diante dos outros, tornar-se motivo de chacota e padecer humilhações. Jesus seria extremamente malvado se esperasse mesmo essa atitude, por isso, é preciso apreender a sua simbologia. E aqui, para exemplificar, podemos lembrar das atitudes de Mahatma Gandhi, lider indiano, que não era cristão, no entanto, cumpria esse ensinamento de Cristo. Enquanto todos protestavam com armas, ele protestava com uma conduta não-violenta, pregando a cultura da paz. Podemos lembrar também uma famosa frase do britânico John Lennon, conhecido guitarrista da banda Beatles, que escreveu, certa vez: “Não importam os motivos para a guerra, pois a paz será sempre superior a todos eles”. E ele não era cristão. Lamentavelmente, ele morreu assassinado por um fanático (assim como, sem querer comparar, também Gandhi e também Jesus morreram assassinados, porque o bem incomoda demais a maldade), mas os ensinamentos deles continuam a ecoar nos nossos ouvidos. Esses dois exemplos de “pessoas celestes” (usando a terminologia de Paulo), mesmo sem serem cristãos, devem nos incentivar a por em prática o ensinamento de Jesus, até porque, no nosso caso, ainda temos a vantagem de ter conosco a graça de Deus, que nos apóia e fortalece.


Em resumo, portanto, o ensinamento de Jesus sobre o amor como desafio não pode ser entendido como uma ideia de fraqueza, de acovardamento, como se o cristão devesse ter medo dos maus, não reagir aos maus, não enfrentar o malvado. Penso que, quando Cristo aconselhou “oferecer a outra face” para quem te bate no rosto, ele quis dizer: os maus agem de forma agressiva, vocês, porém, não devem tomar esse comportamento como exemplo, façam diferente deles, não por medo, mas por convicção, isto é, não se equiparem aos maus, não repitam suas ações, não se comportem como eles. Esse deve ser, segundo penso, o significado metafórico da recomendação de Cristo sobre “oferecer a outra face”. Se você revidar a um bofete, você estará repetindo o mau exemplo dado por quem lhe ofendeu. Então, não retribua a violência com violência, mas com o amor, isto é amar sem medida, esse é o amor como desafio: amar os amigos e os inimigos, fazer o bem a quem faz o mal. O escritor James C. Hunter, no conhecido livro “O monge e o executivo”, faz uma interpretação interessante desse ensinamento de Cristo. Diz ele que na frase “amar os inimigos”, o significado do verbo “amar” é diferente da frase “amar os amigos”. Explicando melhor, seria assim: em relação aos amigos, amar tem o sentido de sentimento, afeto; em relação aos inimigos, amar tem um sentido puramente comportamental, ético. Então, a frase “amar os inimigos” quer dizer comportar-se de um modo ético mesmo com aquelas pessoas que fizeram algum mal a você, isto é, não exercitar a vingança, não ficar esperando uma ocasião futura para ir à desforra. Amar os inimigos significaria, dessarte, ser ético com todos, tratar as pessoas más da mesma forma como se deve tratar qualquer pessoa, com ética e dignidade, mesmo que intimamente a sua vontade seja de esganar o adversário.


Se passarmos para uma análise do texto grego de Lucas, veremos que o J. Hunter tem certa razão. No texto grego, o verbo que está traduzido por “amai” é “agapate”, verbo com o mesmo radical da palavra “ágape”. Quando eu estudei antropologia teológica, aprendi que os gregos conheciam três significados para o verbo “amar”: 1 – amor erótico (eros); 2 – amor amizade (filia); 3 – amor fraternidade (agape). Esse terceiro sentido se refere à convivência humana, ao modo respeitoso como as pessoas devem tratar umas às outras, independente de quem seja. Então, seguindo o raciocínio de J. Hunter, podemos concluir que a ordem de amar os amigos tem o sentido 2 (amizade), enquanto amar os inimigos tem o sentido 3 (fraternidade, caridade). Eu continuo pensando que a doutrina de Cristo não faz essa distinção, no entanto, pode ser uma forma de atenuar o rigor do desafio que Cristo nos deixou e, assim fazendo, quem sabe, aos poucos chegaremos a encarar o desafio de forma completa. Que o divino Mestre nos socorra com engenho e arte, para conseguirmos colocar em prática os seus ensinamentos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos



sábado, 15 de fevereiro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 6 DOMINGO COMUM - 16.02.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 6º DOMINGO COMUM – BEM-AVENTURADOS – 16.02.2025


Caros Confrades,


Neste sexto domingo do tempo comum, as leituras litúrgicas nos convidam a refletir sobre os efeitos valorativos da confiança que sempre devemos ter no Senhor, os quais se resumem numa palavra: a verdadeira felicidade. O profeta Jeremias compara a atitude de quem confia em Deus a uma planta cujas raízes mantêm-se em contato com a água e, por isso, não teme a chegada do calor. No evangelho, Jesus chama seus fiéis seguidores de bem-aventurados, no seu famoso e carismático “sermão da montanha”, no qual ele inverte a ordem daquilo que o “mundo” considera felicidade e mostra que ser feliz, isto é, ser bem-aventurado é ser santo. Ser fiel nas coisas simples, ser solidário em todas as ocasiões, ser amável e respeitoso só contribui para a melhora geral da vida na sociedade. Sem dúvida, é disso que todos nós mais precisamos, na vida urbana dos nossos dias.


Na primeira leitura, retirada do livro do profeta Jeremias (17, 5-8), vemos uma comparação entre a atitude de quem confia nos homens, de um lado, e quem confia no Senhor, de outro. Confiar “na força da carne humana”, como fiz o Profeta, quer dizer encantar-se com as aparências da sociedade e com as suas pompas ilusórias, representadas no poder, na riqueza, no prestígio, na dissimulação dos bajuladores, esquecendo que a verdadeira fortaleza vem da fé e das garantias proporcionadas a todos pelo cumprimento da lei de Deus. Na época do Profeta, ele se referia especificamente às atitudes levianas do rei de Judá, Ezequias, que fez acordos maliciosos e irresponsáveis com outros reinos vizinhos, com receio das ameaças de povos inimigos, em detrimento da obediência à lei de Moisés e expondo o povo às influências do paganismo e dos deuses estrangeiros e, consequentemente, à idolatria. Em vez de buscar a confiança no Senhor dos exércitos, o rei preferiu abrigar-se à sombra dos soberanos humanos e a consequência para ele próprio e para o povo foi desastrosa. Pouco tempo depois, o reino foi invadido e derrotado pelos assírios, sendo os seus habitantes arrastados cativos para Babilônia. O profeta Jeremias, por muito pouco, escapou dessa mesma sorte, tendo sido protegido por amigos, que o levaram para o Egito, onde refugiou-se. Contra a sua vontade, é bom que se diga, porque o desejo dele era acompanhar os cativos.


Na segunda leitura, retirada da primeira carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 12-20), o apóstolo recorda aos cristãos daquela cidade que a verdadeira salvação está na fé no evangelho de Jesus Cristo, conforme a pregação que ele fizera ali. ‘Lembro a vocês’, diz ele no início deste capítulo 15, ‘que o evangelho que eu preguei e no qual vocês acreditaram, nele se encontra a verdadeira salvação, e não em outras doutrinas que falsos pregadores trouxeram até vocês’. Paulo encontrava-se em Éfeso, na ocasião, e soube através de outros cristãos que em Corinto voltavam a circular doutrinas gregas antigas, pondo em dúvida a fé na eucaristia e na ressurreição dos mortos, por isso o Apóstolo escreveu-lhes esta carta, rememorando os ensinamentos que ele havia ali partilhado, a fim de conduzir a comunidade à verdadeira fé cristã. O trecho da leitura deste domingo aborda apenas o tema da ressurreição dos mortos, mas nos capítulos anteriores Paulo trata também dos outros temas, inclusive o conhecido “hino à caridade” (cap 13), no qual ele tematiza, de modo muito inspirado, as características fundamentais do amor cristão. A inclusão desse trecho no cenário litúrgico deste domingo se coloca na advertência feita pelo Apóstolo para que os cristãos de Corinto não se deixem enganar pelos falsos pregadores e não busquem a felicidade nos bens terrenos, esquecendo as verdades cristãs, dentre estas, a crença na ressurreição. Daí dizer ele, no versículo 19: ‘Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, então nós somos os humanos mais dignos de compaixão’, ou seja, quem pensa assim está totalmente equivocado. Se os mortos não ressuscitam, então, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, coitados de nós que acreditamos nele. Mas não, completa ele, Cristo ressuscitou, pois assim como entrou a morte no mundo por um homem, também por um homem veio para nós a ressurreição. Então, a fé na mensagem cristã é a fonte da verdadeira felicidade, e não as promessas ilusórias dos embusteiros. Por ser uma realidade de difícil compreensão, sobretudo naquele contexto da sociedade grega, marcada pelo materialismo e pelo imanentismo próprios daquela cultura, Paulo fez um raciocínio bastante didático, no capítulo 13, 12 dessa mesma carta, quando diz que, apesar dessa dificuldade, não é impossível crer, porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas depois veremos face a face: “Videmus enim nunc per speculum in aenigmate, tunc autem facie ad faciem”.


A temática sobre a felicidade que acompanha aqueles que acreditam e colocam em suas vidas a mensagem cristã está representada em sua melhor forma no famoso sermão da montanha, no qual Cristo chama a todos de bem-aventurados. Dizer que somos bem-aventurados é o mesmo que dizer que somos felizes. Em latim, a palavra bem-aventurados se diz 'beati' (plural de beatus) e esta é a mesma palavra que em português se traduz por 'felizes', tanto assim que algumas traduções do evangelho usam esta palavra nos textos: felizes os pobres no espírito, felizes os mansos, felizes os pacíficos, etc. Curiosamente, Cristo chama de bem-aventurados todos aqueles que, pelo status social, seriam pessoas desventuradas. O cap. 3 do Livro da Sabedoria, identifica os conceitos de “justo”, “feliz” e “santo”, quando diz: “Depois de terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, pois Deus os provou e achou dignos de si.” (Sb 3, 5). Aqui se encaixa o conceito de “felizes os que sofrem, porque serão consolados”. A felicidade, a santidade, a bem-aventurança e a justiça estão sempre de mãos dadas. Ser santo não é isolar-se de todos e viver nos desertos, passar o dia rezando e meditando, longe da comunidade. Talvez vivendo sozinho fosse até mais fácil para o ser humano alcançar a santidade. Mas o grande desafio da santidade é ser capaz de aturar as maledicências, as incompreensões, a má vontade de algumas pessoas com quem convivemos e ainda assim mantermos a serenidade, a alegria e o bom humor. Fazendo assim, nem é necessário desfiar as contas do rosário seguidas vezes nem castigar os joelhos no chão em preces contínuas, para alcançar o patamar da autêntica santidade.


O texto do evangelista Lucas sobre as bem-aventuranças é mais sintético do que o de Mateus, isso se explica porque um e outro se dirigiam a leitores de culturas diferentes. Lucas dirigia-se à comunidade grega e enfatiza os aspectos da pobreza, da fome, da perseguição, das injustiças sociais que fazem chorar as pessoas humildes. Em seguida, ironiza com os ricos, que possuem muitos bens, vivem na fartura, têm legiões de bajuladores, porque depois a situação irá inverter-se. Se observarmos bem, o contexto social sugerido pela leitura de Lucas referindo-se à sociedade grega daquele tempo não é muito diferente do mundo de hoje, no qual a enorme dicotomia entre ricos e pobres conduz àquela mesma estratificação: de um lado, pessoas muito ricas, que vivem na abundância e até zombam da miséria alheia, aproveitando-se dela em seu benefício. De outro lado, pessoas extremamente carentes, as quais, em grande número, se desviam para a criminalidade e a violência, como uma medida imediatista e ilusória de tentar superar a sua condição de inferioridade. Mas aqui pode ser colocada a advertência do profeta Jeremias: confiar na força da carne humana é igual a plantar sementes no deserto.


O sermão da montanha, como é popularmente conhecido esse trecho do evangelho, é uma síntese de diferentes ensinamentos e propostas, que Jesus fazia aos seus seguidores. Não necessariamente ele teria dito todas essas “bem-aventuranças” de uma vez só, num local específico, sendo mais provável que os escritores sagrados tenham coletado e reunido num mesmo texto esses, que podem ser considerados como o resumo geral e grandioso de toda a pregação de Jesus em forma de aforismos, concentrando em poucas palavras os temas principais de sua mensagem da salvação. Também podemos imaginar que esses ensinamentos eram transmitidos por Jesus para um grupo de seguidores mais próximos, incluindo os doze, aqueles que lhe eram mais fiéis. Muito embora a expressão “sermão da montanha” sugira que havia uma grande multidão de ouvintes, sabe-se que, nessas ocasiões, Jesus preferia proferir sua mensagem de forma de parábolas, utilizando-se de temas e situações comuns na vida daquelas pessoas. Essa forma mais refinada e concentrada de transmitir sua doutrina em temas deve ter sido adotada para um grupo menor, de pessoas mais comprometidas e fiéis, aos quais ele podia falar de um modo mais direto e contendo uma maior quantidade de exigências. Trazendo para o nosso contexto, o “sermão da montanha” se dirige exatamente a nós, cristãos do mundo de hoje, lembrando-nos dos nossos compromissos decorrentes de nossa adesão à fé cristã pelo batismo. Podemos dizer que hoje nós temos melhor condição de entender as “exigências” da fé cristã do que os doze apóstolos, que ouviram diretamente de Jesus essas palavras. Aqui está o nosso perene desafio: pô-las em prática.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos