domingo, 16 de setembro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 24º DOMINGO COMUM - 16.09.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 24º DOMINGO COMUM – CRISTO SOFREDOR – 16.09.2018

Caros Leitores,

Na liturgia deste 24º domingo comum, o evangelista Marcos destaca uma ríspida resposta de Cristo a Pedro, que foi falar-lhe coisas inconvenientes: vade retro, satanas (afasta-te, vai-te embora, satanás), uma das poucas demonstrações de atitudes de Cristo em que se vislumbra o quanto o seu lado humano, por vezes, conflitava com a fidelidade à missão que ele viera realizar. Outra vez, foi no Jardim das Oliveiras, quando ele suou sangue. Esses episódios representam de forma bem eloquente a presença em Cristo das naturezas divina e humana e mostram que, enquanto humano, ele sofria mesmo, não apenas fingia sofrimento, como afirmaram os seguidores do docetismo, nos primeiros tempos do cristianismo. Vale também uma explicação sobre o termo “satanás”, palavra hebraica transliterada para o grego, que significa literalmente “adversário”, “opositor”.

A primeira leitura, extraída do profeta (deutero)Isaías (50, 5-9), apresenta os versos clássicos do servo sofredor, fazendo eco com a narrativa do evangelista Marcos (8, 27-35), quando Jesus falava para os discípulos dos sofrimentos pelos quais deveria passar, como parte integrante da sua tarefa messiânica, antecipando os acontecimentos que estavam por vir. Essa parte do livro de Isaías, chamada de deutero-Isaías, foi escrita durante o cativeiro da Babilônia, depois da morte do profeta, daí as referências ao sofrimento do povo, junto com as exortações de penitência e de confiança em Javeh, que na hora certa virá libertá-los. O servo sofredor do exílio babilônico é a prefiguração do futuro Messias, que irá personificar de forma plena esta figura, através da sua paixão e morte, para nossa redenção. A profecia de Isaías impressiona pela riqueza de detalhes com que seu autor descreve o futuro sofrimento do Messias, através de citações verdadeiramente inspiradas, que se confirmaram com elevada precisão.

Acerca desse tema do sofrimento de Cristo, é valioso recordar uma temática que foi objeto de múltiplas polêmicas, nos primeiros séculos do cristianismo, acerca da natureza humana e também divina de Cristo. Enquanto Ario (fundador do arianismo) afirmava que Cristo não era igual a Deus, pois era filho e, portanto, subordinado a ele e hierarquicamente inferior, de outro lado havia os cristãos gnósticos, que afirmavam que Jesus tinha apenas uma aparência humana, quando na verdade, ele era Deus e o seu corpo humano era só uma ilusão de ótica. Essa doutrina era chamada de docetismo e afirmava que Cristo de fato não sofreu nada, a paixão foi toda uma grande encenação de sofrimento, pois sendo Deus, ele não poderia sofrer. Desnecessário dizer que ambas as doutrinas foram rejeitadas como heresias, pois a doutrina que se consolidou nas discussões acerca da pessoa de Jesus foi a de que ele possuía duas naturezas (divina e humana) sendo assim, verdadeiramente, Deus e homem, ou seja, ele sofreu de verdade como qualquer ser humano sofreria todas aquelas torturas, feridas, dores, enfim, tudo o que é tipicamente humano.

Pois bem, esse prólogo tem como finalidade esclarecer o diálogo de Pedro com Jesus, conforme está narrado no evangelho de Marcos (8, 27-35), sobre os episódios da vida de Cristo que antecedem sua ida a Jerusalém, onde viria a ser sacrificado. Após três anos de catequese diária com os discípulos, Jesus vendo aproximarem-se os seus dias finais, foi fazer uma espécie de pré-teste, como se diz no vocabulário moderno, um exame simulado, para saber como estava o entendimento do seu grupo acerca da sua pessoa. Ele começa perguntando por longe: quem as pessoas dizem que eu sou? Jesus não queria saber o que o povo pensava dele, mas o que os discípulos pensavam, porém pedagogicamente começou com uma pergunta bem genérica. Eles responderam: uns dizem que é João Batista, outros que é Elias ou algum dos profetas que ressuscitou. Então, Jesus vai direto ao ponto: e vocês, o que dizem? Antes que alguém respondesse, Pedro saiu na frente: Tu és o Messias. Eu não gosto dessa tradução da CNBB, porque na tradução de São Jerônimo, o texto está coerente com o termo original do grego: tu és o Cristo, então acho que assim devia ser mantida essa tradução. Embora se trate de conceitos sinônimos, penso que é mais correto conservar o original, por uma questão de fidelidade ao texto, já que não dificulta a compreensão.

Ao ouvir a confissão de Pedro, diz o evangelista Marcos que “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a respeito.” Em seguida, passou a dizer-lhes que “devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias.” Pedro, que era sempre muito falastrão, se meteu de novo na conversa, chamou Jesus um pouco ao lado e foi pedir-lhe para não falar essas coisas, porque nada disso iria lhe acontecer. Parece que Pedro tinha receio que as pessoas, ouvindo aquilo, começassem a se desiludir de segui-lo, porque muitos dos que o ouviam tinham a esperança de que Jesus fosse liderar uma rebelião contra os romanos, para expulsá-los do território da Judeia. Inclusive dentro do grupo dos apóstolos, a missão de Cristo não era bem entendida, aliás foi percebendo isso mesmo que Jesus começou esse diálogo incômodo e desgastante, mas necessário. Imaginemos que, para Jesus, era também muito constrangedor ficar falando nessas coisas, porque ele sabia da extensão dos acontecimentos, sabia das agruras pelas quais ia passar e a sua natureza humana entrava em conflito com a sua vontade divina, não devia ser nada confortável para Jesus ficar tocando nesse assunto tão delicado. Daí porque ele não gostou nada quando Pedro foi insinuar que ele não devia falar aquilo. Ora, ele já falava com grande esforço e superando enormes dificuldades, e ainda tendo de escutar alguém tentando desvanecê-lo daquela ideia, aquilo passou dos limites. A reação de Jesus foi bastante ríspida, até mesmo com certa violência verbal: ýpage opíso mou, satana, diz o texto grego, que São Jerônimo traduziu por vade retro me, satanas. Essa expressão equivale a uma daquelas que nós dizemos quando estamos com raiva de alguém: vai pro raio que o parta... ou algo assemelhado. E Jesus ainda chamou Pedro de 'satanás', por isso convém explicar também isso. Essa palavra satanás, no nosso idioma, adquiriu o sentido de demônio, porém, o seu sentido original é bem mais brando. Na verdade, trata-se de uma palavra original do hebraico (satan), transliterada em grego, isto é, não é uma palavra da língua grega, e o seu significado próprio é adversário, inimigo, opositor. Então, é como se Jesus estivesse chamando Pedro de inimigo dele, porque estava dificultando o cumprimento da sua missão, não chamou de demônio. A irritação de Jesus também pode ser entendida se imaginarmos que ele sabia que um dos componentes do grupo estava ali com outros objetivos, então aquele puxão de orelhas que Pedro levou tinha também o objetivo de atingir, mesmo que indiretamente, Judas Iscariotes. Ademais disso, conforme já referi antes, essa atitude encolerizada de Jesus ressalta o seu lado humano, o lado emotivo, o sangue que esquenta diante de uma situação desagradável, enfim, a natureza humana de Jesus.

Podemos fazer aqui um link com a segunda leitura, do apóstolo Tiago (2, 14-18), onde ele fala que a fé autêntica não é válida sozinha, mas deve estar sempre acompanhada pelas obras: “a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta.” Encontramos atitude similar nos ensinamentos e nos exemplos que Jesus deixou. Nas várias parábolas que utilizou, ele sempre ressaltou a importância da ação, como fato exterior que acompanha o ato interior do cumprimento dos mandamentos. É isso que confirma o apóstolo João na sua carta: Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu.” (1Jo 4, 20) Em relação aos sofrimentos associados à sua missão redentora, ele poderia muito bem ter operado um grande milagre, não se submeter a tantos padecimentos. Se observarmos bem, esse era o tema das “tentações” que Jesus sofreu quando se preparava para começar a sua vida de pregador e foi fazer um retiro no deserto. “Pra que isso?”, dizia-lhe o tentador? Por que não chamas teus anjos para te levarem nos braços... por que não ordenas a essas pedras que se transformem em pão para saciar a tua fome... por que... era o conflito interno que se passava na mente dele. Era muito mais simples e rápido obrar um milagre, como um passe de mágica, e tudo estaria resolvido. Mas assim ele não estaria sendo fiel ao mandato do Pai. Aquilo tudo era doloroso ao extremo, mas precisava ser enfrentado. Por isso, aquela insinuação de Pedro ecoou tão forte e perfurou tão fundo, como um grande espinho de mandacaru. “Sai pra lá”, foi mais uma tentação que ele precisou superar, para o correto exercício da sua messianidade.

Meus amigos, às vezes, precisamos dizer também “vade retro” para diversas pessoas e situações, a fim de nos mantermos fiéis à nossa missão Que o divino Mestre nos ilumine nas nossas tarefas de cada dia, para sabermos sempre discernir e seguir fielmente a missão que Deus nos deu.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 23º DOMINGO COMUM - 09.09.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 23º DOMINGO COMUM – AOS DESANIMADOS – 09.09.2018

Caros Leitores,

Neste 23º domingo comum, a mensagem do profeta Isaías se dirige aos desanimados: criai ânimo, não tenhais medo. Esta exortação do Profeta aos judeus exilados, que aguardavam a sua libertação do cativeiro da Babilônia, bem se aplica aos nossos conturbados tempos. O panorama geopolítico, tanto no nível nacional quanto no internacional, causa-nos grande apreensão e medo. Quem será o portador da recompensa, que vem de Deus, prometida pelo Profeta? As ondas migratórias, na Europa e na América Latina, deixam-nos em dúvida quanto à eficiência dos modelos políticos e administrativos aplicados nos países subdesenvolvidos, desafiam a nossa crença na recuperação da humanidade. O período político eleitoral gera conturbação na mente dos cidadãos sem esperança e sem confiança nos candidatos que se apresentam. Nós nos encontramos hoje tao desanimados quanto os judeus na Babilônia.

O profeta Isaías, na primeira leitura (35, 4-7), procura animar os desiludidos judeus, vencidos pelo cansaço de um cativeiro que já demorava vários anos, e se entregavam às lamentações e aos impropérios contra Javeh, que os tinha abandonado: até quando teremos de suportar tal castigo? por onde anda o Messias prometido? E o Profeta os consolava: “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar”. De fato, pouco tempo depois, o messias político esperado para libertá-los chegou: foi o rei Ciro, da Pérsia, que derrotou o rei da Babilônia, Nabucodonosor, e libertou os judeus, que assim puderam retornar à sua terra. E diz mais o profeta Isaías:“Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos …  brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo.” Assim aconteceu, quando eles retornaram para a terra de Israel. Só que este messias-Ciro apenas de muito longe lembrava a figura do futuro Messias, que iria libertar não só o povo judeu, mas todo o gênero humano da escravidão do pecado e da morte. Por isso, naquela ocasião, dizia o Profeta: 'criai ânimo' porque logo logo virá a recompensa de Deus, que nos vem salvar. A Bíblia tem sempre um sentido histórico e outro transistórico, e assim, no primeiro momento, a profecia se referia ao messias-Ciro da Pérsia, mas no sentido do futuro, ao Messias-Cristo. Ciro não tinha o poder de devolver a visão aos cegos nem a deambulação aos coxos nem de soltar a língua dos mudos, mas o Profeta previu que isso aconteceria quando viesse o Messias verdadeiro. E sucedeu realmente como ele previra.

Na leitura do evangelho de Marcos (7, 31), temos a concretização da profecia de Isaías na ação histórica do verdadeiro Messias, através da narração do episódio da cura de uma pessoa surda e gaga. Ele colocou os dedos nos ouvidos moucos dele e com Sua saliva, molhou a língua trôpega do felizardo, e depois pronunciou a palavra forte “ephatá”, a qual o próprio evangelista explica que significa 'abre-te'. E logo aquele que era surdo e gago transformou-se num incontrolável falante-ouvinte. E quanto mais Cristo pedia para que ele se calasse, mais ele falava e proclamava as maravilhas realizadas nele. Esta palavra foi escrita por São Jerônimo, no texto latino, como 'ephphetha', enquanto no texto grego está escrito “effathá”, certamente por isso a tradução da CNBB utiliza o termo 'efatá' e eu estou usando com o símbolo antigo do F=PH, para distinguir com um sentido especial.

Meus amigos, este ephatá pode ser entendido de múltiplos modos. No sentido próprio utilizado por Jesus na ocasião do milagre, significou para o surdo-gago o abrir-se fisiológico dos seus ouvidos e da sua glote, para que ele pudesse articular sons e ouvi-los. Mas no sentido figurado, que se refere a nós, o ephatá se dirige à nossa mente, ao nosso coração, à nossa vontade, ao nosso intelecto. Cristo está nos dizendo 'abre-te' para que possamos compreender melhor a nossa missão e assim podermos melhor testemunhar a nossa fé. Esse seria o significado intelectual do ephatá. Saber interpretar com maior clareza a palavra de Cristo dentro dos desafios que a vida social nos coloca a cada dia, em meio a tantas e tão variadas dissensões, alternativas, exigências, falsas promessas e diversas quimeras que nos rodeiam. Abrir a nossa mente para compreendermos de que modo o nosso viver pode dar testemunho de que somos a Igreja de Cristo no meio do mundo, com a maior naturalidade e sem afetação. Nesse contexto, vale aqui uma referência ao grande problema mundial das migrações, causando pânico tanto na Europa quanto na América Latina. Pessoas que deixam tudo por motivos de guerra ou por motivos políticos e econômicos e partem em busca de novos horizontes. Uma parte deles tem sorte e consegue chegar ao seu destino; outros terminam suas vidas nessa rota de travessia, ao enfrentarem os mais variados desafios. O Papa Francisco, numa demonstração de profetismo contemporâneo e de inigualável solidariedade cristã, tem manifestado irrestrito apoio a esses irmãos sem rumo e tem incentivado as famílias e as autoridades para darem atenção aos que sofrem com esse infortúnio. No Brasil, especificamente, tem ocorrido a entrada de inúmeros cidadãos venezuelanos, nas últimas semanas, através dos Estados da região norte. O ephatá do evangelho de Marcos vem nos alertar para, ao menos no plano espiritual, abrirmos o nosso entendimento e o nosso coração em prol desses irmãos desafortunados.

Um outro sentido que podemos descobrir no comando ephatá, associado ao anterior, é o volitivo, quando a mensagem cristã nos convida a ser solidários com os que nos estão mais próximos. E aqui eu trago à colação a segunda leitura, retirada da carta de São Tiago (2, 1), que vai direto ao assunto, sem rodeios, dando um exemplo que até parece estar se referindo aos dias de hoje: “ imaginai que na vossa reunião entra uma pessoa com anel de ouro no dedo e bem vestida, e também um pobre, com sua roupa surrada, e vós dedicais atenção ao que está bem vestido, dizendo-lhe: 'Vem sentar-te aqui, à vontade', enquanto dizeis ao pobre: 'Fica aí, de pé', ou então: 'Senta-te aqui no chão, aos meus pés'.” Mais direto, impossível. Quantas vezes, isso pode ter acontecido conosco, por não estarmos com a mente aberta para perceber além das aparências, além das etiquetas sociais. Um pobre que bate à nossa porta pedindo um pouco de alimento tem a mesma dignidade como pessoa do q ue um profissional liberal que nós recebemos na nossa casa de portas abertas. Não estou dizendo que se deva deixar entrar em sua casa qualquer pessoa desconhecida, pois a cautela também faz parte da vida do cristão. Refiro-me à atitude de falta de respeito humano com que, muitas vezes, vemos as pessoas mais humildes serem tratadas por outros e até por nós mesmos. Infelizmente, há cristãos que se orgulham de ser católicos de carteirinha (até mesmo sacerdotes) e tratam mal as pessoas de vestes maltrapilhas ou surradas, usando a expressão do apóstolo Tiago. Daí a exortação dele: “a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas”, isto é, não deve permitir que sejamos injustos com pessoas menos favorecidas, exatamente aquelas mais precisadas.

Num terceiro sentido, que eu chamaria de afetivo, o conceito de ephatá nos leva a refletir sobre a nossa abertura interior para compreender a nossa missão, o que Deus quer de nós. Estar aberto à graça divina é condição indispensável para que esta graça opere em nós. Deus não nos obriga, não nos impõe, não vem a nós em qualquer condição, mas apenas quando encontra a porta da nossa alma aberta para recebê-lo. Os teólogos, desde S. Tomás de Aquino, sempre foram acordes em reconhecer que Deus dá a sua graça a todas as pessoas, no entanto, para que esta graça seja eficaz, é necessário que estejamos abertos, disponíveis, atentos, desejosos de recebê-la. Deus nos dá a graça da salvação, porém, sem a nossa colaboração, sem a nossa disponibilidade, sem que façamos a nossa parte, esta graça não operará seus efeitos em nós. Estar aberto à graça divina é condição indispensável para que ela penetre em nós e nos faça verdadeiros filhos d'Ele.

No sábado passado, dia 8 de setembro, a liturgia comemora a Natividade de Nossa Senhora e esse título está associado ao de Nossa Senhora do Brasil, festividade comemorada no Seminário Seráfico onde ela é padroeira. Era também a data onomástica do nosso querido confrade Mariano. Que a Nossa Mãe do Brasil fortaleça na fé todos os que por lá passaram e nos ajude a manter sempre a nossa mente e o nosso espírito disponíveis à graça divina, assim como Ela fez e que tornou possível a nossa redenção.

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domingo, 2 de setembro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 22º DOMINGO COMUM - 02.09.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 22º DOMINGO COMUM – RELIGIÃO DE FACHADA – 02.09.2018

Caros Leitores,

Neste 22º domingo comum, o cântico da comunhão sintetiza a mensagem do evangelho: o mal que sai de nós e vem do coração impuros, sim, nos faz. A liturgia nos convida a refletir sobre a qualidade da nossa prática religiosa. Temos atitudes coerentes com o que afirmamos ou praticamos uma religião de fachada? A nossa fé está integrada na nossa vida ou praticamos a vida dupla: na igreja somos orantes, fora dela somos maledicentes? O espírito farisaico, criticado por Jesus naquele tempo, ronda sempre os templos e as vidas dos crentes, hoje como no passado.

A primeira leitura litúrgica é retirada do livro do Deuteronômio (4, 1). Só uma breve informação histórica sobre esse livro do Deuteronômio. Literalmente, significa “segunda lei”, mas não é outra lei diferente daquela de Moisés, apenas uma nova “versão”, a lei com outras palavras. Por isso, o nome hebraico deste livro é Devarim e significa “palavras”. O papiro com esse manuscrito foi encontrado casualmente por pedreiros que faziam uma reforma no altar do templo de Jerusalém. Era um rolo muito antigo, que estava enterrado sob a pedra do altar. Ao lê-lo, os escribas verificaram que se tratava de uma espécie de “repetição” ou adaptação dos discursos de Moisés, contendo muitas orientações práticas sobre a vida do povo, tendo sido escrito, provavelmente, quando os israelitas já estavam bem próximo de adentrarem a terra prometida, ou seja, no final da vida de Moisés. Assim se entende porque carrega esses dois nomes: deuteronômio (segunda lei, repetição da lei) e devarim (palavras, costumes da sociedade hebraica). Sempre devemos ter em mente que, naquela época em que não havia separação entre estado e religião e que as autoridades religiosas e estatais eram as mesmas, era perfeitamente comum que as normas sociais e estatais se confundem com preceitos religiosos. Isto era assim não apenas entre os hebreus, mas entre todas as sociedades primitivas. Quem tiver interesse em ler mais aprofundadamente sobre esse assunto, sugiro o livro “A Cidade Antiga”, da autoria de Fustel de Coulanges.

Pois bem, passando ao texto, Moisés fala ao povo sobre as leis e decretos dados por Javeh aos seus ancestrais, lembrando a eles a exigência da fidelidade a essas normas, como uma maneira de demonstrar sabedoria diante dos povos vizinhos, porque nenhum dos deuses dos outros povos tinha este mesmo cuidado com os seus devotos do que o Deus de Abraão. Diz o vers. 6: “Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: 'Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação! ” Os fariseus gostavam muito do Deuteronômio, porque havia nele uma grande diversidade de preceitos, dos quais eles faziam uma espécie de tabela e com elas ensinavam o povo. Além disso, servia também para fiscalizar se os demais hebreus os estavam observando.

Segundo os estudiosos, os fariseus fizeram um resumo de cerca de 600 preceitos, em geral, proibitivos, fazendo uma exposição didática dessas leis antigas. Eram esses preceitos que determinavam assuntos básicos de saúde pública, como, por exemplo, lavar as mãos antes das refeições, tomar banho quando chegavam da praça pública, jejuar nos dias estabelecidos, dar esmolas, etc. Para facilitar a memorização, havia uma espécie de tabela com especificações bem detalhadas. Pois bem, A questão que Jesus lançou contra eles, desafiando-os, era porque dentro do excessivo formalismo deles, quem cumprisse aquilo rigorosamente era um bom crente, quem não os cumpria estava desobedecendo a lei. Desse modo, se a norma mandava que, no dia de jejum, o máximo que alguém podia ingerir era, por exemplo, 300g de alimento, então era preciso pesar na balança as refeições para não passar dessa cota, sob pena de descumprir o preceito. Ou seja, a sua preocupação era exageradamente formal em relação aos detalhes exteriores, no entanto, intimamente eles podiam ser desonestos, maledicentes, exploradores, caluniadores, injustos, porque essas atitudes interiores não contavam, mas somente o que eles faziam externamente. Na verdade, a concepçao religiosa deles era uma religião de fachada, de exterioridades.

Esta leitura do Deuteronômio tem, pois, conexão direta com o evangelho de Marcos, que narra mais uma das altercações entre Jesus e os fariseus, estes sempre tentando apanhá-lo em algum deslize. Viram que os discípulos de Jesus não lavaram as mãos antes de iniciarem a refeição e então eles foram interpelar Jesus perguntando 'por que os discípulos dele não cumpriam a lei de Moisés' ? Jesus lançou-lhes em rosto o texto de Isaías: “Bem que Isaías falou a respeito de vocês: este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos'. Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens' ” (Mc 7, 6). Os fariseus argumentavam que aquela era uma tradição dos antigos, fazendo referência não exatamente à lei de Moisés, mas aos costumes dos ancestrais, por isso Jesus os censurou porque deixaram de lado a verdadeira Lei divina e ampararam-se nas tradições humanas. Daí que Jesus disse: vocês não entenderam nada, não é nada disso, porque se importam muito com o exterior, mas no seu íntimo os seus pensamentos não são coerentes com as suas atitudes. Trazendo para os dias atuais, meus amigos, essa atitude hipócrita dos fariseus ainda pode ser encontrada nos cristãos que se benzem quando passam diante do templo, mas viram o rosto para não oferecerem ajuda a um irmão necessitado, que está sentado na porta. De que adianta apresentar exteriormente um comportamento quando o interior é vazio? De que adianta andar com o terço na mão, o escapulário pendurado no pescoço, a Bíblia embaixo do braço e ter a mente ocupada com frivolidades, o coração cheio de más intenções? Daí o veredito de Cristo, invocando a lamentação de Isaías: esse povo me honra só com os lábios, mas o coração deles tem outro dono. E completou: o que torna impura a pessoa não é o que entra nela vindo de fora, mas o que sai dela vindo do seu interior. O alimento ingerido sem lavar as mãos pode até, eventualmente, causar algum dano à saúde, mas pior do que isso é a maldade que sai distilada em palavras e atitudes, que causam danos mais desastrosos à felicidade das outras pessoas. E isso é o que realmente importa.

Portanto, Cristo está nos ensinando que a verdadeira religião é a que se pratica ao nível do coração, do entendimento, da intencionalidade e que se expressa em atos de caridade. Ter um comportamento contrito e piedoso quando está dentro do templo não é suficiente, se ao sair de lá essa contrição e essa piedade não se revelarem no relacionamento com os irmãos. Não se quer dizer que a oração, a piedade não são boas coisas, de modo nenhum, são ótimas atitudes. O erro está no descompasso, na incoerência entre o interior e o exterior. O nosso agir deve ser uma expressão concreta do nosso pensar, bem como a recíproca atitude. Por diversas vezes, Jesus brandiu contra os fariseus por causa disso. Por exemplo: quando jejuardes, não precisa por cinzas na cabeça e andar com roupa esfarrapada para que os outros vejam, porque o Pai do céu sabe do que se passa no vosso coração; quando derdes esmolas, fazei-o de forma reservada e não alardeando publicamente, de modo que não saiba a tua mão direita o que faz a tua esquerda. A verdadeira religião, a verdadeira fé é a que começa no pensamento, no coração e se traduz em atitudes relacionadas.

E agora uma breve mensagem sobre a segunda leitura, retirada da carta de São Tiago (1, 17), que reforça essa mensagem com seu conselho aos judeus da diáspora: “sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Com efeito, a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai, é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações. ” Quem não pratica a religião que ensina aos outros está se enganando a si próprio, como se diz na linguagem de hoje, é uma 'empresa fantasma', tem só a aparência, armadilha com o intuito de ludibriar os incautos. A verdadeira religião é a que se revela nas obras de caridade, como fruto do amor ao próximo. A referência aos órfãos e viúvas reflete uma realidade daquele tempo e hoje deve ser entendida como “os irmãos necessitados”, começando com aqueles que estão mais próximos de nós. De forma direta ou indireta, através de entidades e associações que prestam esse tipo de serviço, a sociedade de hoje, talvez mais do que no tempo do apóstolo Tiago, necessita desse nosso exemplo de solidariedade. Foi com esse espírito também que o grupo do Ensese apoiou o compromisso de ajudar financeiramente o Colégio Seráfico, onde todos nós recebemos a nossa formação, sendo isso entendido como uma forma de sermos praticantes da palavra de Deus, e não apenas ouvintes.

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sábado, 25 de agosto de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 21º DOMINGO COMUM - PALAVRA DA VIDA

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 21º DOMINGO COMUM – PALAVRA DA VIDA – 26.08.2018

Caros Leitores,

As leituras litúrgicas deste 21º domingo comum nos convidam a refletir sobre a nossa vivência de fidelidade ao evangelho. Josué, ainda no deserto, reuniu o povo, que teimava em adorar as divindades pagãs, e lhes dá um ultimato: escolham a qual Deus ireis servir, pois somente os adoradores de Javeh terão acesso à terra da promessa. E Jesus, tempos depois, coloca também para os discípulos o mesmo desafio, quando eles reclamam que a palavra dele é muito dura: o que foi? isso vos escandaliza? Pois procurem outro rumo, só quero comigo, quem tiver coragem de ser assim. E foi então que Pedro respondeu pelos demais: calma, Mestre, só tu tens palavra da vida.

Na primeira leitura, do livro de Josué (cap. 24), ele, como sucessor de Moisés na condução do povo hebreu à terra prometida, verificando a contínua presença da idolatria entre os israelitas, convoca todos para uma grande assembléia e lhes põe a questão: a qual Deus ou deuses vocês irão adorar? “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais.” Os amorreus eram o povo que habitava a terra de Canaã, quando o povo de Israel ali chegou, depois da marcha de quarenta anos pelo deserto. Essas tribos eram descendentes de Caim e, portanto, tinham parentesco de sangue, embora longínquo, com o povo de Israel, mas já não tinham fidelidade a Javeh e adoravam seus próprios ídolos. Por isso, Josué fez a pergunta e completou: “Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor”. Em resposta, o povo jurou mais uma vez fidelidade a Javeh: “nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus.” A convocação de Josué tinha então o caráter de opção definitiva, isto é, estavam chegando ao destino final de sua peregrinação, ali iriam se estabelecer e assim quem permanecesse fiel à promessa receberia a recompensa, quem desistisse, arcaria com as consequências da sua opção pelos ídolos. O povo então renovou a promessa a Javeh.

Uma situação análoga é vivenciada por Cristo diante dos seus discípulos, logo após o milagre da multiplicação dos pães, nas proximidades de Cafarnaum. Para melhor compreensão do discurso de Cristo na leitura de hoje, precisamos ler as frases anteriores, no evangelho de João. No dia anterior, Jesus havia feito aquele extraordinário milagre da multiplicação dos pães. No dia seguinte, uma multidão se apresentou para ouvir Jesus. Notando aquele invulgar incremento dos seus ouvintes, Jesus ficou curioso e perguntou: “viestes à minha procura para me ouvir ou para comer novamente aquele pãozinho? Porque eu sou o verdadeiro pão do céu.” Então, eles pediram a Jesus um sinal, para que acreditassem n'Ele, assim como Moisés havia dado aos seus ancestrais o maná do deserto. Foi quando Jesus explicou: não foi Moisés quem deu a eles aquele pão, mas o meu Pai. E agora, ele me mandou, eu sou o pão vivo que ele mandou para vós. Os vossos pais comeram o maná no deserto e morreram, mas quem comer deste Pão não morrerá. O pão que Eu vos darei é a minha carne para a vida do mundo. O povo não entendeu, pois muitos achavam que Jesus estava ali para liderar uma revolta, para expulsar os romanos da Palestina, e ficaram balançando a cabeça, murmurando que Jesus devia estar louco. Como é que alguém pode dar a sua carne para outros comerem? Sabendo o que eles pensavam, Jesus completou: Em verdade vos digo, quem não comer a minha carne e beber o meu sangue não terá a vida. Isso agora foi demais. Muitos dos que o ouviram isso ficaram decepcionados, balançaram a cabeça, deram meia volta e começaram a se retirar.

Nesta situação embaraçosa, os discípulos ficaram preocupados se Jesus estava mesmo certo do que falava e disseram: este teu discurso é muito “duro”, quem será capaz de ouvi-lo? A palavra grega que foi traduzida por “duro” é “sklirós”, que tem o sentido de algo áspero, rígido, inflexível. É como se dissessem: a tua palavra causa um choque na gente, como é que alguém pode dar seu corpo para os outros comerem? Isso é impossível. Ao que Jesus respondeu: ah, isso vos escandaliza? Pois outras coisas mais duras haverão de acontecer. E vendo que alguns dos ouvintes começaram a dispersar-se, Jesus intimidou os seus doze escolhidos: vocês também querem ir embora? Eu sei que alguns dentre vocês não acreditam nisso. Foi quando Pedro, inspirado, acalmou a situação: calma, Senhor, não é isso, a quem iremos? Só tu tens palavra da vida eterna. Nesse diálogo, João evangelista deixa transparecer duas situações ocultas. Primeiro, Jesus sabia que muitos o procuravam com a esperança de que ele fosse um Messias político, guerreiro, e Ele quis deixar claro que sua missão era outra, o seu reino era de outra natureza. Segundo, ele sabia que mesmo entre os doze havia alguns inseguros e até reticentes.

Observamos uma clara analogia nesse diálogo de Jesus e seus discípulos com a situação vivenciada por Josué e o povo hebreu: resolvam agora, pegar ou largar. Jesus colocou para os discípulos a mesma opção que Josué colocou para o povo de Israel. E tal como no caso dos israelitas, que optaram por Javeh, também os doze renovaram sua opção pela missão de Cristo, cumpridor da vontade do Pai. Inclusive Judas, que resolveu ficar até a última hora, para ver o rumo que as coisas tomariam posteriormente. João diz textualmente no versículo 71 deste capítulo 6, que Jesus fez essa pergunta assim bem direta referindo-se a Judas. Mas não apenas ele. Além de Judas, Jesus sabia que havia outros discípulos fracos na fé, Ele sabia os que criam de fato e os que tinham dúvidas. Foi por isso que, após a ressurreição, Jesus passou ainda 'quarenta dias' na sua catequese final com os discípulos, preparando a vinda do Paráclito. Mesmo depois de ter concluído sua missão encarnada e ter-se imolado na cruz, Jesus continuou a preparar os discípulos para a sua missão futura, pois Ele sabia o material humano de que dispunha e sabia que, sem essa catequese residual, havia grande risco de dispersão, tal como acontecera com aqueles que, no relato de João, debandaram diante do seu duro discurso.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Efésios (5, 21-32), o Apóstolo aconselha os casais cristãos a se comportarem com dignidade, respeitando-se mutuamente, amando-se reciprocamente, assim como Cristo ama a sua Igreja. Daqui Paulo evolui para a sua doutrina do corpo místico de Cristo. A linguagem paulina não é mais aplicável aos tempos atuais, na relação entre maridos e esposas, porque reflete a situação social da época em que ele viveu, por isso não pode ser interpretada em sentido literal. Paulo diz que as mulheres devem “ser submissas” aos maridos, porque o marido é a cabeça da mulher. Assim era a compreensão da união conjugal na cultura grego-romana, que se transferiu para o direito civil e perdurou até as últimas décadas. Porém, pelo menos dos anos oitenta para cá, no Brasil, deixou de ser aceita tanto no campo social quanto no campo jurídico essa ideia da submissão. Esse ponto de vista ainda se observa residualmente na cultura machista que marca a nossa tradição e é defendida pelos tradicionalistas. Por essa razão é que muitas pessoas não cristãs dizem que a Bíblia está cheia de erros e, por não terem interesse de compreender o verdadeiro significado do livro sagrado, preferem desdenhar dele. Mas é também por isso que nós, crentes em Cristo, não podemos ler e aplicar os textos bíblicos de modo fundamentalista, literal, mas precisamos dar a interpretação adequada à mensagem ali contida. No caso, a mensagem é a do amor conjugal, como se encontra sintetizada na conclusão de Paulo: “Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja. ” (Ef 5, 31-32) Na época em que Paulo viveu, o amor entre os cônjuges era entendido como a submissão da esposa ao marido, porque as mulheres daquele tempo não estudavam, viviam apenas para o lar, não tinham conhecimentos outros do mundo social e profissional, eram como crianças grandes. Por isso, elas precisavam ser tuteladas pelos maridos. Assim era na Grécia e em Roma, as mulheres nunca alcançavam a plena maioridade, elas deviam estar sempre sob a tutela de um homem, mesmo que elas fossem mais idosas do que este (por exemplo, um filho, um sobrinho, até um neto). As mulheres não tinham condições de governar-se, de administrar a própria vida de modo independente. Então, na mensagem de Paulo que deve ser trazida para os tempos atuais, em que as mulheres se encontram em posição de igualdade com os homens, deve prevalecer a idéia do amor mútuo, do respeito recíproco, da solicitude, da tolerância, da ajuda, da caridade plena, que se encontra simbolizada no conceito do amor-ágape, o amor-comunhão. Ao ler o texto paulino, devemos mentalmente fazer a transposição adequada dos conceitos, para que possamos compreender o recado que ele quer nos transmitir.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 20º DOMINGO COMUM - ASSUNÇÃO DE MARIA

COMENTÁRIO LITÚRGICO 20º DOMINGO COMUM – FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA – 19.08.2018

Caros Leitores,

Neste 20º domingo comum, a memória litúrgica celebra, no Brasil, a festa da Assunção de Maria, uma verdade de fé proclamada pelo Papa Pio XII, em 1950, a última proclamação dogmática feita por um Papa. De lá para cá, observa-se uma grande cautela dos Pontífices em relação a tais proclamações de caráter universal e perpétuo, muito ao gosto da cultura medieval, quando prevalecia aquela visão triunfalista da Igreja. O Papa Pio XII, segundo ouvi de um sacerdote que estudava em Roma naquela época, ficou muito relutante se devia ou não fazer essa declaração dogmática da Assunção de Maria, porque não tem base na Bíblia, mas apenas na tradição.

É uma tradição muito forte. Não apenas na Igreja Católica Romana, mas também no catolicismo ortodoxo das Igrejas Orientais, a assunção de Maria é celebrada, embora no oriente não tenha sido definida como dogma de fé. Foi nessas Igrejas que se iniciou, por volta dos séculos III e IV, a celebração da “dormição” de Maria, baseada em escritos antigos que circulavam naquelas comunidades, nos quais se afirmava que Maria não havia morrido, mas apenas adormecera e então foi levada ao céu pelos anjos. Narra a tradição da igreja siríaca que o apóstolo Tomé viu o momento em que Maria ascendia com os anjos e pediu a ela uma relíquia, para guardar como lembrança e, ao mesmo tempo, comprovar aquele fato. E, então, Maria deixou cair o seu cinto, que atualmente repousa em uma catedral dedicada a ele. A Igreja Católica romana não guardou essa tradição, porém interpreta a narração apocalíptica do capítulo 12, que descreve o aparecimento de um grande sinal no céu, com uma mulher vestida do sol, pisando sobre a lua e coroada com doze estrelas como sendo a figura de Maria. Há também escritos muito antigos, como o “Liber Requei Mariae” (livro do descanso de Maria), do século III, que afirma que Maria não morreu, apenas descansou. E um outro escrito, este do século V, intitulado “De transitu Mariae” (sobre o trânsito de Maria), que reforça a mesma afirmação. Estes dois são escritos anônimos, ou pelo menos sua autoria não tem comprovação. Mas no século VI, o teólogo São João Damasceno defendeu essa doutrina, numa demonstração da força desse pensamento teológico. Foi com base nesses textos que o Papa Pio XII decidiu fazer a proclamação. A teologia ensina que a morte é consequência do pecado. Se Maria foi concebida sem pecado, então a morte não sobreveio a ela.

A proclamação papal acerca do dogma da assunção não fez afirmação taxativa sobre a morte ou não morte de Maria, isto é, proclamou a assunção de Maria em corpo e alma ao céu, sem se pronunciar sobre o detalhe se ela havia morrido ou apenas dormido ou descansado, conforme consta nos escritos anônimos dos primeiros séculos. Essa omissão proposital é uma atitude de prudência, para que os eventuais adversários da proclamação não viessem a contraditá-la por haver-se baseado em escritos apócritos. Por isso, além da referência ao capítulo 12 do Apocalipse, a doutrina também referencia a carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 22-23): “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.” A Igreja entende que, logo depois da entrada gloriosa no céu de Cristo ressuscitado, foi a vez de Maria, pela sua condição de imaculada mãe de Deus. Na verdade, a definição dogmática da assunção de Maria é uma consequência lógica de outra definição dogmática conciliar, publicada no Concílio de Éfeso, em 431, que proclamou Maria como Mãe de Deus, desfazendo uma antiga heresia, segundo a qual Maria era mãe apenas de Jesus homem, mas não de Cristo Deus, porque Deus não pode ter mãe.

Sobre as leituras litúrgicas da festa de hoje, já nos referimos acima à primeira, retirada do Apocalipse (12, 1), que fala do grande sinal (signum magnum) visto por João no céu. Era uma mulher grávida e, ao seu lado, um enorme dragão esperando que ela despachasse a criança, a fim de devorá-la. Essa imagem é emblemática nos arquétipos teológicos de todos os tempos, como uma referência clara e explícita aos embustes demoníacos contra a Igreja. Mesmo sem termos em mente qualquer anjo do mal, como criatura espiritual, podemos enxergar esses “agentes demoníacos” no interior de alguns setores burocráticos da própria Igreja. Quem não se recorda dos asquerosos “corvos do Vaticano”, que tanto atormentaram o Papa Bento XVI, forçando a sua renúncia, em 2003. Foram eles mesmos que dominaram o Papa João Paulo II, nos últimos anos de sua vida, período em que ele esteve muito debilitado e senil em consequência da doença de Alzheimer, produzindo documentos em nome do Papa e com a sua autoridade, com fortes evidências de que o Papa não sabia mesmo do que estava acontecendo. Dizem que, quando Napoleão Bonaparte assumiu o trono da França, logo depois da Revolução Francesa, teria colocado como um dos objetivos do seu governo a destruição da Igreja Católica. Sabendo disso, o arcebispo de Paris esteve conversando com o Imperador francês e teria revidado assim: desista do seu projeto de destruição da Igreja, porque os próprios padres já tentaram e não conseguiram. E olhando para os tempos atuais, observando o enorme carisma do Papa Francisco, admirado e exaltado até pelos ateus e fiéis de outras religiões, podemos concluir que as “portas do inferno” realmente não prevalecerão contra ela.

A segunda leitura litúrgica é a carta de Paulo aos Coríntios, à qual já me referi acima, cuja lição sobre a derrota da morte pela ressurreição de Cristo é o fundamento teológico mais forte para a afirmação da assunção de Maria, sobretudo levando-se em consideração que, sobre Maria, a serpente do pecado foi imobilizada, conforme se vê nas imagens dos artistas que retratam a figura da Imaculada Conceição. Aliás, esse título de “imaculada”, de acordo com a revelação particular a Bernardete Soubirous, aceita e admitida pela Igreja, foi Maria mesma quem afirmou: “je suis l'immaculée conception”, assim está estampado na gruta de Lourdes, na França. Não é afirmação bíblica, mas a tradição é fortíssima e antiquíssima, devendo ser prestigiada a sua credibilidade.

A leitura do evangelho relata a visita de Maria a sua prima Isabel, que engravidou já com a idade avançada, e cuja notícia lhe foi dada pelo anjo, quando trouxe a ela, Maria, a notícia de que tinha sido escolhida para ser a mãe do Redentor. Nesse contexto, Isabel pronunciou a parte inicial da oração da Ave Maria, prece antiga e tradicional do catolicismo. E nessa mesma ocasião, Maria pronunciou o seu belo cântico de louvor ao Altíssimo, o conhecido Magnificat, que não é tão divulgado no meio popular como a Ave Maria, mas é teologicamente mais importante. Maria estava no início da gravidez, enquanto Isabel estava na etapa final, então Maria ficou com ela durante três meses, ajudando nos preparativos e na chegada do bebê João, como é praxe ainda hoje as mulheres se ajudarem mutuamente nessas ocasiões. Esses relatos nós viemos a saber por intermédio de Lucas, o grande repórter da vida particular de Maria.

Uma curiosidade, porém, que Lucas não revela é onde Maria terminou seus dias. As crenças tradicionais são divergentes acerca do fato. Segundo algumas tradições, ela teria permanecido em Jerusalém, até o seu “passamento” - digamos assim, para não afirmarmos nem que ela morreu nem que descansou. Segundo outras tradições, ela teria terminado seus dias em Éfeso, onde existe uma casa, que é visitada pelos peregrinos e venerada como sendo a “casa de Maria” e de onde ela teria sido trasladada para o céu. Sabemos que João, o evangelista, era bispo de Éfeso e foi a ele que Jesus confiou os cuidados com Maria, ainda no Calvário. Talvez por isso a tradição se incline a aceitar que Maria teria terminado a vida em Éfeso. Mas pode ser também que João tenha se mudado para Éfeso somente depois da “passagem” de Maria, pois também não se sabe em que ano isso aconteceu. João teria se transferido para Éfeso, conforme a tradição, por volta do ano 50. Supondo que Maria teria engravidado com cerca de 15 anos, como era o padrão da sua época, no ano 55 ela teria cerca de 70 anos de idade. Por isso, tanto uma tradição quanto outra (Jerusalém ou Éfeso) são compatíveis com os fatos e assim não tem como solucionar a controvérsia.

Meus amigos, penso que é crença incontroversa o fato de que Maria ocupa um lugar central e incomparável em toda a economia da salvação (para usar um termo clássico da teologia). Não é por acaso que ela é reverenciada com tantos títulos. Que ela sempre nos vigie a todos com a sua ternura maternal.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 19º DOMINGO COMUM - O MILAGRE DO PÃO

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 19º DOMINGO COMUM – O MILAGRE DO PÃO – 12.08.2018

Caros Leitores,

Pelo terceiro domingo seguido, a liturgia coloca em perspectiva o tema do pão, seja como alimento do corpo, seja como alimento do espírito: o pão de cada dia, o pão vivo, o pão que dá vida, o pão da palavra, o pão da eucaristia, aquele que é penhor da vida eterna. Desta vez, Jesus vai responder aos comentários maldosos dos judeus, que se admiraram ao ouvirem-no falar que ele é o pão descido do céu. Eles conheciam o pai, a mãe, os familiares de Jesus e sabiam a sua origem, como podia ter ele vindo do céu? Difícil de entender, sob a ótica linear e fundamentalista traçada pelos judeus daquele tempo e, com todo respeito, também os judeus de hoje, para os quais Jesus não passa de judeu famoso, nada mais do que isso.

Na primeira leitura litúrgica, retirada do primeiro Livro dos Reis (1Rs 19, 4), temos o episódio em que o profeta Elias foi alimentado com um pão especial, trazido pelo anjo de Deus, quando estava exausto e com fome no deserto. A ingestão daquele pão milagroso lhe deu sustança para caminhar durante quarenta dias e quarenta noites. Embora fosse de um tipo especial e prefigurasse, com muita antecedência, a eucaristia, este pão do deserto saciava a fome corporal apenas, mas não tinha o condão de preservar para a vida eterna quem o comesse. E, como é bastante comum ocorrer nos textos do Antigo Testamento, faz-se aqui mais uma referência à mística do número 40, que deve ser entendida no sentido alegórico, não no sentido literal da contagem matemática, mas dentro de sua simbologia, que indica que algo extraordinário e grandioso está por acontecer. O pão trazido a Elias pelo anjo deu-lhe alento para caminhar durante quarenta dias e quarenta noites, sem sentir fome, até chegar ao monte Horeb (Sinai), para onde ele se dirigia, obedecendo a ordem de Javeh. Esse é o sinal do poder daquele pão miraculoso.

É importante salientar que o nome Elias significa “Javeh é meu Deus” e este profeta teve um papel importantíssimo na defesa do monoteísmo hebraico, na época em que o povo hebreu passava por um período de vacilação na sua fé religiosa. A missão do Profeta era trabalhar junto às comunidades da região do Sinai, para que abandonassem os deuses pagãos e retornassem ao seu único Deus, Javeh. Ocorre que Elias não conseguia sensibilizar aquele povo para ouvir suas palavras e retornar ao seguimento da aliança e estava assim por demais desgastado com a dureza dos seus corações. Passando de aldeia em aldeia, anunciando a ordem de Javeh, ele não recebia a esperada adesão por parte dos seus coirmãos de fé. Elias então entrou numa verdadeira crise existencial. Parecia que Javeh tinha dado a ele uma missão impossível. Além da incredulidade do povo, sobressaía o cansaço físico e a dificuldade de se alimentar, porque ele não era bem recebido por onde andava.

Naquele dia, em meio a essa crise, atravessando uma região desértica, padecendo em consequência da fome e da descrença dos hebreus, Elias surtou. Deitou-se no chão, na sombra do junípero e disse a Javeh: agora basta, Senhor, podeis tirar a minha vida, eu não tenho forças para cumprir a missão que me destes. E adormeceu. Foi despertado por um anjo, que lhe trouxe para refeição um pão assado sob as cinzas, que ele comeu e dormiu novamente. Daí a pouco, o anjo o acordou de novo e deu-lhe outra porção do pão, que ele comeu outra vez e pronto. Com este alimento, Elias não teve mais fome nem cansaço e pôde terminar sua tarefa, percorrendo toda a região do deserto, até chegar ao Sinai.

A região atravessada por Elias é aquela grande península do Sinai, pertencente hoje ao Estado de Israel, que ao longo da história tem sido objeto de intermináveis contendas e a paz ainda não se fixou por ali, desde os tempos bíblicos. Vejamos que Elias, que viveu no século IX antes de Cristo, já não conseguia atravessar aquela região em paz, do mesmo modo que os seus atuais habitantes.

Na leitura do evangelho de João (6, 41-51), Jesus falara ao povo de sua cidade natal que Ele é o pão descido dos céus. Pra que ele disse isso! ... Os conhecidos ficaram logo a cochichar entre si: nós o conhecemos, não é Ele o filho de José e Maria? Por que ele diz que desceu do céu? Foi por isso que Jesus, depois, se lamentou: É isso mesmo, ninguém consegue ser profeta na sua própria terra. (Lucas, 4, 24). Era difícil explicar aos conterrâneos que ele é o pão vivo descido do céu e quem comer deste pão não morrerá eternamente. Teve de justificar que somente aqueles a quem o Pai atraiu poderá reconhecê-lo como pão do céu. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai.” (Jo 6, 44) Ou seja, numa perspectiva puramente humanística, não havia condição de alguém reconhecer em Jesus o Filho de Deus, era necessário que os seus conterrâneos primeiramente aceitassem o Pai, através dos ensinamentos de Jesus, para que então pudessem entender a que tipo de pão Ele estava se referindo.

E Jesus aproveitou para dizer que os antepassados deles haviam comido outro pão descido do céu, o maná solicitado por Moisés, quando estavam no deserto, todavia não era aquele tipo de pão o que Jesus trazia, porque o pão do deserto não livrava da morte eterna. Já o pão vivo, que era ele próprio, traz a recompensa da vida eterna a quem com ele se alimenta. Lembrando-nos dos domingos anteriores, em que comentei aqui outras passagens evangélicas com essa mesma temática do pão, fiz referência a que o pão vivo, que é Cristo, não alimenta apenas o corpo material, mas também a alma espiritual, daí porque Ele produz como resultado a vida eterna. Aquela multidão que buscou Jesus após o milagre da multiplicação dos pães buscava tão somente, outra vez, o pão material e Jesus fê-los ver que o pão que alimenta o corpo não pode estar separado do pão que alimenta o espírito.

Desse modo, o pão vivo, que é Cristo, não é apenas a sua carne por ele entregue para a vida do mundo. É necessário que o pão = carne seja consumido juntamente com o pão = palavra, com a mensagem de sua doutrina. A catequese que se desenvolveu no Brasil ao longo do tempo não foi capaz de demonstrar ao nosso povo a necessidade de unir essas duas dimensões do pão do céu (corpo de Cristo): a palavra e a eucaristia. Sempre foi mais enfatizada a obrigação de comungar, porque com a comunhão, nós nos unimos ao próprio Cristo, Ele ingressa no nosso ser. Sem dúvida, isso é verdade. No entanto, aqui temos apenas a metade do seu ensinamento. Para que este pão eucarístico produza o efeito que Cristo prometeu (“quem come deste pão viverá eternamente”) é necessário unir a comunhão eucarística com o cumprimento dos mandamentos de Cristo (“amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”), ou seja, com a ingestão do pão da palavra e do pão eucarístico, pelos quais tanto o corpo quanto o espírito se alimentam e fortalecem.

A participação no sacramento da eucaristia, quando não é acompanhada da prática dos ensinamentos de Cristo, equivale àquela advertência de Paulo de que não se deve comer e beber indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo (1Cor 11,27). Tradicionalmente, sempre se ensinou que isso ocorre com quem vai comungar sem ter-se confessado antes. Ao meu ver, come e bebe indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo quem dissocia o pão da eucaristia do pão da palavra, porque o pão vivo, que é Cristo, só está completo com essas duas funções. Foi isso que Ele ensinou, nas diversas passagens que lemos nos últimos domingos, em que a temática do pão vem sendo repetida e reforçada. Jesus somente deu o pão da sua carne aos Apóstolos na última ceia, depois de passar três anos instruindo-os com o pão da palavra. Ele afirmou, por várias vezes, que quem comesse da sua carne teria a vida eterna, todavia, ele só demonstrou como seria isso após todo o período de catequese dos Apóstolos, quando eles já haviam absorvido suficiente quantidade dos seus ensinamentos.

Só uma breve palavra sobre do conceito de “carne”, que aparece diversas vezes nesse discurso acerca do pão. A palavra grega em referência é 'sarx', que se traduz por carne, porém, o seu significado vai além da carne = músculo, como costumamos entender em português. De fato, sarx significa qualidade de ser humano, ser vivo e pensante, é como se Jesus tivesse dito “quem come a minha humanidade”, isso é bem mais amplo e profundo do que a carne meramente muscular. Lembremo-nos, a propósito, de outra passagem do evangelho, onde diz que “o Verbo se fez carne”, o que significa: o Verbo tornou-se gente, transformou-se em ser humano. Tenhamos em mente esses conceitos, ao participar da eucaristia.

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sábado, 4 de agosto de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 18º DOMINGO COMUM - 05.08.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 18º DOMINGO COMUM – O PÃO DA VIDA ETERNA – 05.08.2018

Caros Confrades,

A liturgia deste 18º domingo do tempo comum dá prosseguimento à reflexão sobre o tema do pão, convidando-nos a refletir sobre o pão do céu, o pão da vida eterna. Do Antigo Testamento, na leitura de Exodo (16, 2), traz a lembrança do maná, que caía do céu e o povo recolhia no deserto todos os dias, precedendo simbolicamente o verdadeiro Pão da vida, deixado a nós por Jesus. O pão nosso de cada dia é importante e necessário, porém se aplica apenas ao corpo material, por isso, é necessário que se busque também o alimento do espírito. E o pão do espírito é fazer a vontade de Deus. Vivemos num mundo onde predominam pessoas famintas do verdadeiro pão, daí a assustadora onda de violência que nos ameaça constantemente. Só o pão do céu traz consigo a benquerença, a tranquilidade e a paz.

Conforme lê-se em Ex 16, um comportamento característico do povo de Deus em marcha pelo deserto era a infidelidade a Javeh, demonstrada na simpatia para com os ídolos dos pagãos. Por causa disso, Javeh os castigava deixando-os com fome. Quando eles foram se queixar a Moisés, dizendo que era melhor que tivessem ficado como escravos no Egito tendo o que comer, do que passar fome no deserto. Tiraste-nos do Egito para nos matar de fome no deserto, diziam. Ouvindo as queixas do povo, Javeh respondeu, através de Moisés, que eles iriam comer carne ao anoitecer e pão ao amanhecer. Diz o texto bíblico que, ao entardecer, um banco de codornas chegou ao acampamento, de modo que eles puderam capturá-las com facilidade e comer carne em abundância; e ao amanhecer, um denso orvalho foi aos poucos se transformando em grãos sólidos, os quais foram usados para fazer pão. Javeh cumprira sua promessa.

Sabemos que, alguns dias depois, o povo foi novamente se queixar a Moisés, porque estavam enjoados de comer aquilo todos os dias, ou seja, o povo estava sempre insatisfeito, sempre a provocar a ira de Javeh, sempre buscando uma desculpa para justificar as suas infidelidades e o seu descumprimento da lei. Se observarmos bem, nos dias de hoje, essa mesma situação ainda se repete, muitos cristãos têm esse mesmo comportamento inconstante e interesseiro, só se lembrando dos seus compromissos religiosos quando enfrentam alguma dificuldade. E a misericórdia divina continua a agir sempre perdoando, como foi no passado. Muitas pessoas confundem a vivência religiosa como uma espécie de “comércio” com Deus: oferecem a Deus esmolas e jejuns objetivando receber em troca aquilo a que almejam. Esse modelo religioso baseado na barganha foi o que Jesus reprovou no comportamento daqueles que o seguiam somente porque Ele lhes dava o que comer. (Jo 6, 26)

Na leitura do evangelho de hoje (João 6, 24), temos a sequência do milagre da multiplicação dos pães. Após haverem sido saciados com o alimento miraculoso, os seguidores de Jesus saíram em massa a procurar por ele até encontrá-lo do outro lado do mar da Galileia. Ao ver aquela multidão se aproximando, Jesus demonstrou insatisfação: “estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos” (Jo, 6, 26). Parecia que o povo estava mais interessado na comida do que nos ensinamentos dele. Então, ele fez referência ao fenômeno miraculoso do maná no deserto, cuja descrição era de todos conhecida: “não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu.” (Jo, 6, 32) Jesus faz aí um jogo de palavras, porque o maná também vinha do céu, para depois concluir que Ele é o verdadeiro Pão vindo do céu, antecipando o que iria fazer na última ceia.

Naturalmente, os ouvintes de Jesus não atinaram para o alcance do que Ele estava a anunciar, nem os próprios apóstolos entenderam naquele momento, vindo a compreender somente quando Jesus celebrou a ceia com eles. Os judeus pediram: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”, mas o que eles imaginavam mesmo era um pão material, daqueles que se come mastigando e enche o estômago, Porém, Jesus falava-lhes metaforicamente do 'pão da palavra', que Ele estava a distribuir através do seu ensinamento, e do Pão do céu, que era Ele próprio. No entanto, para termos acesso ao verdadeiro Pão do céu, é necessário antes aceitar o pão da palavra e pô-la em prática na nossa vida. É neste sentido que Paulo exorta a comunidade de Éfeso: (Ef 4, 22) Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. O homem velho é aquele que se lembra apenas do pão material, semelhante ao maná caído no deserto, que alimenta o corpo; o homem renovado é o que busca o pão da palavra e, através deste, o Pão do céu, que é Jesus Cristo, alimento para a alma. Buscar o Pão do céu sem ter-se alimentado antes com o pão da palavra equivale a uma aproximação indigna daquele. E alimentar-se com o pão da palavra não requer simplesmente ler a Bíblia, porque uma simples leitura não surte efeito. Para compreender e poder retirar da leitura bíblica o seu conteúdo próprio é necessário estudá-la teologicamente, seja um estudo individual, seja um estudo acadêmico num curso próprio. Ler a Bíblia como quem lê um livro literário qualquer, visando apenas conhecer as narrações e os personagens, por certo não resultará em alimento do espírito, além de ensejar entendimentos desvirtuados e absurdos.

Ao comentar isso, eu não estou querendo dizer que não se deve ler a Bíblia, mas que uma leitura sem a devida preparação terá um resultado inócuo ou duvidoso. O pão da palavra deve preparar o espírito para ser alimentado com o pão do céu. É por isso que a liturgia da missa é dividida em duas partes: liturgia da palavra e liturgia eucarística. É lamentável observar que alguns católicos escolhem o comparecimento à missa pelo celebrante ou pela “animação” dos cânticos. Evitam as celebrações cujo padre faz um sermão demorado e preferem aquelas celebrações com profusão de instrumentos musicais, porque são mais animadas. Com isso, o verdadeiro objetivo da missa, que é o alimento do espírito com o pão da palavra e o pão do céu, fica totalmente esquecido, fazendo-se a frequência por uma questão de obrigação. E é mais lamentável ainda que os nossos Pastores não se dediquem a instruir os fiéis acerca dessas verdades doutrinárias, contentando-se com uma liturgia burocrática e repetitiva.

Refletindo na mesma linha de raciocínio abordada no domingo passado, acerca da simbologia do pão, lembremo-nos da insatisfação de Cristo com aqueles que o seguiam muito mais por causa dos milagres que ele fazia, do que por causa dos ensinamentos que ele transmitia; mais por causa da merenda que ele dava, do que por adesão à sua mensagem. Por isso, o evangelista João faz questão de colocar, logo após a narração da multiplicação dos pães, o ensinamento de Cristo sobre o pão do céu. Alimentar o corpo é importante e necessário, mas não é bastante. É nesse ponto que muitas pessoas confundem o modelo teológico da opção preferencial pelos pobres com o engajamento político partidário. No passado, viveu-se o tempo em que havia uma supervalorização da religião espiritualista, devocionista, afirmando que tudo o que é corporal deve ser evitado e/ou eliminado, para dar vida ao espírito. Então, passou-se ao outro extremo, isto é, à supervalorização da religião política, inclusive com a inscrição em partidos e defesa pública destes. Não vou citar nomes, porque esses são bem conhecidos. No entanto, o que Jesus Cristo ensinou, ao multiplicar os pães e distribuir aos seus ouvintes, foi que o alimento material é indispensável, mas nós devemos nos esforçar sempre pelo alimento que permanece até a vida eterna. E quando aquelas pessoas pediram: dá-nos desse alimento, ele declarou: Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”. E este pão da vida tem dois ingredientes básicos: palavra e eucaristia. A comunhão eucarística só servirá como verdadeiro alimento do espírito se for acompanhada da degustação também espiritual da sua mensagem.

Que o divino Mestre nos ensine e nos ajude a buscar o verdadeiro Pão trazido diretamente por Ele, a mando do Pai, e nos faça sempre mais integrar esses ensinamentos na nossa vida cotidiana.

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sábado, 28 de julho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 17º DOMINGO COMUM - 29.07.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 17º DOMINGO COMUM – PÃO PARA TODOS – 29.07.2018

Caros Leitores,

As leituras litúrgicas deste 17º domingo comum preconizam o milagre eucarístico, que seria depois realizado por Jesus, perpetuando-se na história e chegando até nós. O alimento que chamamos pão está presente desde os tempos mais remotos da humanidade, em todas as culturas. O tipo mais comum é o pão de trigo e sua presença na Bíblia se encontra em diversos momentos, aquele cuja fartura saciou a fome de milhares de fiéis, tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. Por isso, ao despedir-se, Jesus quis deixar o pão como o símbolo de sua permanência entre nós e instituiu-se a si próprio em pão da vida, não somente para saciar a fome natural, mas sobretudo para locupletar o espírito com o pão vivo e imortal.

Na primeira leitura de hoje, retirada do Livro dos Reis (2Rs 4,42), narra-se um fato miraculoso operado pelo profeta Eliseu vários séculos antes de Cristo, sendo um fato antecipatório do futuro milagre da multiplicação dos pães, que seria realizado pelo Messias. Num tempo de grande seca e, portanto, de fome para o povo, Eliseu ganhou de presente 20 pães, trazidos por um estrangeiro, mas não os recebeu, porque seria egoísmo de sua parte saciar a própria fome, enquanto o povo padecia faminto. Então, ele mandou que os pães fossem distribuídos para o povo. O seu assistente ficou preocupado: como vou distribuir tão poucos pães para tantas pessoas famintas? Ele, prudentemente, deve ter logo imaginado o tumulto que isso iria ocasionar e as brigas entre as pessoas disputando os pedaços, podendo até ocorrer agressões e ferimentos e ele mesmo poderia ser vítima do episódio. Mas o Profeta o tranquilizou: O Senhor disse – comerão e ainda sobrará. E assim foi a primeira vez da repartição do pão para todos.

A imagem do pão, encontrada em todas as culturas, desde as mais remotas, com o passar dos séculos, não perde a sua primazia, porque o pão continua sendo o alimento básico do ser humano. Além daquele padrão, feito de trigo, há as variantes, de acordo com as produções agrícolas locais, com uso de milho, de mandioca, de batata, daquela massa que for mais abundante numa região. O pão é um símbolo da própria vida que ele alimenta. Por causa da sua importância cultural, o pão ultrapassa a pura matéria física para significar os diversos dons que acompanham a vida humana, além da simples satisfação da fome corporal. O saciamento da fome induz ao bem-estar, à alegria, à boa convivência, faz elevar o espírito para as realidades sobrenaturais, então o pão é muito mais do que um alimento material, é um verdadeiro mantenedor vital do ser humano. Foi por esse motivo que Jesus, quando quis deixar um sinal perpétuo da sua presença no meio da humanidade, adotou o símbolo do pão, transformando a Si mesmo em pão da vida.

No relato do evangelista João (6, 1-15), Jesus revive a cena histórica do profeta Eliseu, diante da multidão que o acompanhara de longe, na sua travessia do Lago de Tiberíades, encontrando-o na margem oposta. Ele próprio fez uma provocação aos apóstolos, indagando-lhes pedagogicamente, mesmo já sabendo da solução que iria adotar: onde arranjaremos pão pra esse povo todo comer? E Felipe avaliou: nem duzentas moedas seriam suficientes para comprar um pedaço pra cada um. Foi quando André trouxe a informação: tem ali um rapaz com cinco pães e dois peixes, mas de que adianta isso para tanta gente? Jesus só não repetiu o refrão de Eliseu (“comerão e ainda sobrará”), mas fez que o povo sentasse e mandou distribuir os pães e os peixes, depois de abençoá-los. E o milagre da fartura se repetiu, todos comeram até ficarem saciados e ainda sobraram doze cestos com os pedaços deixados. Juntem tudo, para que nada se perca. Aquelas sobras, provavelmente, poderiam saciar novamente outros famintos, pois como vimos no evangelho do domingo passado, as pessoas estavam sempre onde Jesus e os apóstolos estavam, de modo que eles não tinham uma folga nem para comer. E o número de cestas que sobraram (doze cestas) contém uma alusão implícita às doze tribos de Israel. Simbolicamente, aquela recolha do excedente representava a totalidade do povo judeu.

Pois bem, nesse relato do evangelista João, podemos destacar alguns detalhes interessantes. Primeiro, a preocupação de Jesus com a fome daquelas pessoas. As pessoas não foram se queixar de fome para Ele, ao contrário, estavam ali para ouvi-Lo. Mas Jesus sabia que, sem a alimentação corporal adequada, a mente não funciona, a concentração não ocorre, o aprendizado é nulo. Então, antes de alimentar o espírito, é necessário alimentar o corpo. Isso significa que a Igreja não pode se descuidar dos aspectos materiais da vida social, da melhoria das condições de vida e de trabalho dos fiéis, ou seja, não compete às autoridades religiosas apenas celebrar missas e oficiar os sacramentos, mas junto com isso, deve ter a preocupação com a vida material justa. Junto com o pão da palavra, os pastores devem também preocupar-se com a assistência material das pessoas mais carentes da comunidade, enquanto os fiéis melhormente aquinhoados devem colaborar para a efetivação desse serviço. Viver a religião não deve se resumir a frequentar o templo nos dias celebrativos, fazer as novenas e rezar o terço. Isso é importante, sem dúvida. Mas ficam faltando as “obras” de caridade, que devem ser inseparáveis da fé.

Outro detalhe que importa destacar é que o milagre de Jesus foi possibilitado pela presença de um rapaz trazendo cinco pães e dois peixes. Ele poderia ter feito o milagre independentemente disso, podia ter transformado até pedras em pão ou ter feito cair pão das nuvens, mas, não, Ele quis a colaboração de alguém da comunidade. Isso significa que Deus prefere agir por nosso intermédio, com a nossa colaboração, mesmo para fazer as coisas mais extraordinárias. Santo Tomás de Aquino ensinava, utilizando a terminologia filosófica de Aristóteles, que Deus age por causas segundas. Essas “causas segundas” são as ações indiretas. Ele pode atuar de forma direta e imediata, mas muitas vezes, Deus se serve de nós, de um coirmão ou coirmã nosso(a) para operar prodígios e, nesse caso, Deus nos honra grandemente agindo por nosso intermédio. Quando Ele nos dá fartura de bens materiais, Ele também espera que nós contribuamos com maior generosidade para o serviço dos irmãos. É bem verdade que, nas sociedades modernas, tais obras assistenciais devem ser acionadas pelas autoridades públicas, porém, mesmo que isso aconteça (o que nem sempre ocorre), não ficamos dispensados de colaborar com a nossa parte. Portanto, nós precisamos estar sempre disponíveis para Deus agir por nosso intermédio, através da nossa fé operante, através do nosso exemplo e do nosso testemunho. Muitas vezes, nós nem atentamos para isso, mas as nossas atitudes estão sendo percebidas por outras pessoas e o nosso bom exemplo pode estar sendo decisivo para que um irmão, momentaneamente fraco na fé, ganhe força e supere um obstáculo na sua vida. Se deixarmos Deus agir por meio de nós, nós também poderemos ser esses agentes transformadores, sem que isso necessariamente cause em nós canseira ou preocupação. Na nossa vida cristã cotidiana, as nossas atitudes normais de cada dia podem se transformar em importantes instrumentos divinos para a realização de obras valiosas na sociedade.

Quando Jesus, na última ceia, serviu-se do pão para tornar-se presente permanentemente no nosso meio, ele quis associar a Si próprio a este alimento, que desde os primórdios da raça humana tem sido indispensável. Assim como o pão da massa material é um artigo universalmente inerente às sociedades humanas, Jesus quis que o seu corpo em forma de pão tivesse a mesma presença e mesma participação na nossa vida. Eu, particularmente, sinto um certo desconforto quando vejo a celebração eucarística sendo realizada com aquela composição do trigo, que chamamos de hóstia, porque me dá a impressão que assim nos afastamos da verdadeira intenção de Cristo, quando fez-se pão, visto que a aparência física da hóstia, embora saibamos que é produzida com a mesma massa do pão, não tem nenhuma semelhança visual com este. E eu fico pensando que Cristo quis que o Seu corpo fosse associado ao visual do pão comum, aquele alimento básico e essencial. Nós não tomamos café com hóstia, leite com hóstia, e eu acho que Cristo queria que fizéssemos uma associação visual entre o pão eucarístico e Ele, que se elevasse à dimensão da fé. O pão que alimenta o corpo também, e ao mesmo tempo, alimenta o espírito. Nas Igrejas Católicas Ortodoxas, o pão eucarístico é o pão comum mesmo, não tem esse formato de hóstia, que estamos acostumados a ver. A mim, parece que lá a vontade de Jesus esteja sendo cumprida mais fielmente.

Com a devida vênia dos Leitores que não concordam.
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quarta-feira, 25 de julho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 16º DOMINGO COMUM - 22.07.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 16º DOMINGO COMUM – MISSÃO DO PASTOR – 22.07.2018

Caros Leitores,

A temática das leituras litúrgicas deste 16º domingo comum aborda a figura do pastor. No contexto do povo hebreu na região onde viveu o Jesus histórico, os dois estereótipos mais marcantes, em função das profissões mais comuns da época, eram o pescador e o pastor. Jesus Cristo faz uso, com frequência, desses dois modelos profissionais para reforçar a sua pedagogia catequética direcionada para o povo simples, de modo a facilitar para eles a compreensão da sua mensagem. Naquela época, assim como hoje, há os bons e os maus pastores e, dependendo disso, o cuidado do rebanho será bem ou mal exercido.

Na primeira leitura, o profeta Jeremias (23, 1-6), que viveu num tempo de muita infidelidade a Javeh, praticada pelo rei Josias, levando assim o povo de Deus à idolatria, lamenta pelos maus pastores: “ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho, diz o Senhor”. Por falta de compromisso do rei, o povo relegou a segundo plano a aliança com Javeh e dedicou-se ao culto dos ídolos, culminando com o cativeiro da Babilônia. Então Jeremias complementa: “virão dias em que farei nascer um descendente de Davi, que reinará com sabedoria e fará valer a justiça e a retidão na terra”. As palavras do Profeta fazem o prenúncio de Jesus Cristo, descendente de Davi, que viria a ser “o pastor” exemplar, que não deixará as ovelhas se perderem. Infelizmente, as palavras do Profeta, proferidas mais de 600 anos antes de Cristo, fazem eco nos dias de hoje, quando vemos maus exemplos de pastores, que levam à desagregação dos fiéis, em vez de promoverem a união do rebanho. O Papa Francisco vem fazendo gigantesco esforço de união das religiões, cristãs e não-cristãs, dando exemplos concretos de solidariedade e de ecumenismo, mas nem todos os prelados, infelizmente, seguem-lhe o exemplo. E no âmbito das comunidades, continuamos a ver lamentáveis atitudes de discórdias entre grupos, cada qual se autoproclamando verdadeiros discípulos de Cristo e desagregando o rebanho, em vez de agregar.

No evangelho de Marcos (6, 30-34), temos a narração de uma das poucas cenas em que transparece o lado humanitário de Cristo preocupado com o bem estar dos discípulos e, ao mesmo tempo, vendo a multidão que estava sempre ao seu redor. “Havia tanta gente chegando e saindo, que não tinham tempo nem para comer”, diz o evangelista referindo-se a Jesus e aos seus discípulos. Eles então se retiram de barco para um lugar deserto, a fim de descansarem um pouco. Ocorre que a multidão os acompanha ao longe, pelas margens do lago de Tiberíades, e observava para onde eles se dirigiam, de modo que chegou ao local rapidamente e assim, ao desembarcar, Jesus e os apóstolos já os encontram aguardando. Ou seja, nada de descanso para Jesus e os discípulos.

Diz o evangelista que o Mestre, vendo-os assim, longe de censurá-los ou de mandá-los embora, ao contrário, teve compaixão deles porque eram como ovelhas sem pastor. Cumprindo-se a profecia de Jeremias, acerca do descendente de Davi, que viria reinar com sabedoria e com justiça, Jesus percebe que o povo está mal pastoreado, isto é, os sacerdotes e mestres da lei não cumprem com a sua missão, por isso, mesmo estando fisicamente cansado, se compadece daquele povo e passa a ensiná-los muitas coisas. Na sequência desta leitura do evangelho de Marcos, temos o episódio da multiplicação dos pães, que não é lido neste domingo, para que o tema litúrgico se concentre na figura do Bom Pastor.

Conforme Jesus demonstrou com seu comportamento, a missão de evangelizar tem prioridade total e não deve ser adiada nem mesmo quando algumas condições não são muito favoráveis. Analisando certas atitudes dos nossos pastores atuais, vemos quantas vezes o comodismo e a intolerância levam a um desserviço do pastoreio. Esse pensamento me fez lembrar agora as histórias que nos eram contadas, em Messejana, pelo Frei Higino, pelo Frei Abel, pelo Frei Sabino, Frei Anastácio, que realizaram aquele serviço religioso, que na época era chamado de “desobriga”, acho que todos se recordam disso. O missionário passava cerca de três meses distante da comunicade, fazendo um roteiro de viagem do interior do Nordeste, montado em um cavalo, passando de cidade em cidade para celebrar missas, fazer batizados e assistir a casamentos, naquelas localidades aonde o padre só chegava uma vez ao ano. Eles contavam as precárias condições em que se hospedavam, se alimentavam, cuidavam da própria saúde, tudo em nome da fé e na fidelidade ao ideal franciscano, uma atitude de heroísmo exemplar, que muito nos entusiasmava. Sem deixar de mencionar os fatos pitorescos e as histórias engraçadas que, muitas vezes, estavam associadas às suas narrações.

Esses missionários capuchinhos seguiam literalmente o exemplo de Cristo. Mesmo cansado e com fome, ele teve compaixão do povo e passou a ensinar muitas coisas. Façamos uma breve reflexão sobre essa expressão “teve compaixão do povo”, porque a linguagem comum não alcança o seu verdadeiro sentido. Ter compaixão não significa ter pena ou ter dó de alguém. O texto latino original diz que Jesus “misertus est super eos”, isto é, foi misericordioso com eles. A diferença entre ter pena e ter misericórdia é que ter pena indica um comportamento passivo, de lamentação, enquanto ter misericórdia leva a uma ação concreta no sentido de aliviar aquela situação. Uma coisa é ficar lamentando a situação de alguém e nada fazer (ter pena), outra coisa é verificar a carência de alguém e partir para uma efetiva ação em benefício daquela pessoa (ter misericórdia). Compaixão vem do verbo compadecer, isto é, com+padecer, padecer junto, colocar-se na situação do irmão que sofre não para fazer-lhe companhia no sofrimento, mas para retirá-lo daquele estado. Foi isso o que Cristo fez: vendo a multidão igual a um rebanho sem pastor, não ficou apenas lamentando a situação, mas acolheu a todos e passou a ensiná-los. E na sequência do texto, parte não lida neste domingo, multiplicou os pães para alimentá-los. Jesus não apenas distribuia o pão da palavra, que alimenta o espírito, mas também distribuia os pães e os peixes, que alimentam o corpo. Essa é a atitude exemplar de Cristo, no sentido de ter misericórdia do povo.

Analisando essa atitude de Cristo, meus amigos, podemos observar o quanto as lideranças religiosas, ao longo da história, se afastaram desse exemplo de cuidado não apenas com a dimensão espiritual do povo, mas também com as condições concretas da existência na sociedade. A religião verdadeira não é apenas participar da missa e rezar o terço, mas é também contribuir materialmente para a promoção social das pessoas mais carentes da comunidade. Após o Concílio Vaticano II, a doutrina social da Igreja reforçou a necessidade de conscientizar os fiéis de que a dimensão vertical da religião (homem-Deus) tem um componente necessário e complementar, que é a dimensão horizontal (homem-homem), sendo que as duas dimensões devem ser igualmente realizadas. Foi por isso que o magistério da Igreja, na conferência de Puebla (1978), assumiu oficialmente o compromisso da opção preferencial pelos pobres, tendência que foi reforçada em outros documentos oficiais, como o documento de Aparecida (2007), que assim sintetizou essa mesma preocupação: “Como um olhar teologal e pastoral, considera, com acuidade, as grandes mudanças que estão sucedendo em nosso continente e no mundo, e que interpelam a evangelização. Analisam-se vários processos históricos complexos e em curso nos níveis sócio-cultural, econômico, sócio-político, étnico e ecológico, e se discernem grandes desafios como a globalização, a injustiça estrutural, a crise na transmissão da fé e outros”. O exemplo de Cristo, narrado no evangelho deste domingo, nos mostra claramente que a religião não pode se dissociar das condições concretas da vida social, sob pena de nos afastarmos do que Cristo ensinou.

No evangelho deste domingo, portanto, Cristo vem nos chamar a atenção de que não basta cantar halleluyas e bater palmas durante as celebrações, pois isso alimenta só o espírito, mas é preciso também, com o mesmo zelo, promover ações efetivas no sentido de distribuir os pães e peixes, que alimentam também o corpo. Alguns dos nossos Pastores precisam urgentemente acordar dessa letargia ilusória do espiritualismo e do devocionismo, que tantos malefícios históricos já ocasionaram, abrindo os ouvidos para o clamor sempre atual do profeta Jeremias.

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