segunda-feira, 16 de julho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM - 15.07.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O ENVIO – 15.07.2018

Caros Leitores,

Neste 15º domingo do tempo comum, o tema litúrgico em destaque é o envio dos apóstolos para pregarem o Evangelho nas cidades da região da Galileia. Esse foi um tipo de estágio, que Jesus deu aos apóstolos, após um período de ensinamento, para que eles colocassem em prática o que haviam aprendido. Tempos depois, por ocasião de sua ascensão, Jesus os mandou novamente, mas dessa vez, para evangelizarem todos os povos. Numa visão hermenêutica transistórica, o mandado do envio se direciona também a nós, seus discípulos dos dias atuais e a todos os discípulos de Cristo, em todos os tempos. Com nossa vida e com nosso testemunho, continuamos a evangelizar, seguindo o mandado de Jesus.

A temática do envio encontra-se presente também na primeira leitura, retirada do profeta Amós (7, 12). Este era um profeta de poucas letras, pastor de rebanhos, homem simples e humilde, sua profecia causava incômodo às elites israelitas. Então, o sacerdote do templo de Betel, de nome Amasias, o chamou e mandou que fosse profetizar em Judá e lá trabalhar, para ganhar a vida, advertindo-o a não profetizar ali em Betel, porque neste local estavam localizados a corte do rei e o templo oficial, onde Amasias era o 'profeta' oficial. Em outras palavras, Amasias estava querendo se livrar de Amós, porque este, a mando de Javé, denunciava a tibieza e a exterioridade da religião oficial de Israel, cujos cultos não agradavam a Javé por causa da ausência de devoção e do excesso de formalismo. A resposta de Amós foi bem desaforada, como o sacerdote não esperava: eu não sou profeta nem filho de profeta, sou pastor de gado, mas o Senhor me chamou quando eu estava pastoreando o rebanho e me mandou profetizar em Israel, é aqui que eu vou ficar. Com risco da própria vida, Amós prosseguiu no seu trabalho, seguindo o mandado de Javé.

Isso aconteceu setecentos anos antes de Cristo. A vocação de Amós, um homem simples e de poucos estudos, antecipava o chamado que Jesus fez aos discípulos, num contexto bastante similar, pois eram também pessoas do povo, pescadores, de poucas letras, e deveriam enfrentar também perseguições e às dificuldades inerentes ao cumprimento da sua missão, junto às elites do povo judeu. Jesus disse aos discípulos que eles deviam pregar em todos os lugares, sem levar nenhum dinheiro, nem alforje, nem muda de roupa, nada, devendo receber o seu sustento pelas pessoas da comunidade. E onde não fossem bem recebidos, deviam sacudir a poeira das sandálias contra eles em protesto. E deu a eles o poder de expulsar demônios e curar doenças.

O profeta Amós, e em geral todos os profetas do Antigo Testamento, são personificações antecipadas dos discípulos que Cristo iria preparar para a pregação do seu Evangelho. Desse modo, os discípulos de Cristo em todas as épocas passaram a ser os profetas do seu tempo. Como resultado do cumprimento desta missão de envio, nós temos hoje a doutrina cristã presente em todos os recantos do mundo e nós somos os continuadores desta missão, espalhados em todas as camadas da sociedade. Isto é, os profetas dos nossos dias somos nós, seguidores de Cristo e comprometidos com a nossa vocação de enviados. O Papa Francisco é o nosso profeta-mor, com seu carisma, seu zelo, seu exemplo que encanta até mesmo os ateus.

Provavelmente, um seguidor de Cristo que pode ser apresentado como modelo mais perfeito do cumprimento desta missão talvez seja o nosso Seráfico Patriarca Francisco de Assis, sem dúvida, um grande profeta do seu tempo. Num momento em que a Igreja de Cristo passava por uma grande influência do secularismo e as suas autoridades estavam sucumbindo às ambições do ter e do poder, bem como às seduções dos pecados capitais, o Senhor tocou o coração de Francisco e o enviou para 'reconstruir' a sua Igreja. Tão ingênuo, ele imaginou, a princípio, que seria apenas um pequeno serviço de reparos, pinturas, limpeza, só depois entendeu o verdadeiro sentido do seu chamado. Mas, por sua humildade, soube ser totalmente fiel à sua missão. Enquanto outros reformadores históricos (como, por exemplo, Lutero), com arrogância e orgulho, entraram em rota de colisão com as autoridades cujos desmandos eles denunciavam, Francisco, ao contrário, fez todas as suas ações de forma tranquila e obediente às mesmas autoridades, cujo comportamento atípico ele reprovava com seu exemplo de seguidor do evangelho. E o que Francisco fez? Exatamente aquilo que Cristo mandou, quando enviou os seus discípulos: sem preocupações com a aquisição e acúmulo de bens, sem necessidade de provisões de alimentos nem vestimentas, recebendo da própria comunidade o seu sustento, como fruto do seu trabalho. Todos nós nos recordamos que é isso o que está contido na 'regra de vida' que Francisco deixou como herança para os seus frades. Por isso, podemos dizer que, se houve alguém que cumpriu fielmente o mandado de Cristo na pregação do Evangelho, este foi Francisco de Assis. Deste modo, o nosso compromisso com o engajamento na missão tem uma dupla fonte. De um lado, o envio de Cristo aos seus discípulos, conforme relatado por Marcos no evangelho; de outro lado, o exemplo modelar de Francisco, de cuja herança nós participamos, através da formação que recebemos no tirocínio da vida franciscana. Seguir a Francisco se equipara a seguir a Cristo, só que com maior entusiasmo e alegria, pois, juntamente com o envio, temos o exemplo mais efetivo do seu cumprimento.

Na segunda leitura, retirada da carta aos Efésios (1, 3), Paulo elabora um inspirado hino de louvor ao Pai, que em Cristo nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis, sob o seu olhar, no amor. Naquela época, dos primeiros tempos do cristianismo, a palavra “santo” era usada para referir-se aos cristãos, pois esse nome ainda não era usual nas comunidades. Por diversas vezes, Paulo retoma esta palavra para se referir aos seguidores de Cristo, não tinha portanto, o sentido específico que o termo hoje possui. Nessa carta aos Efésios, ele exalta o dom da vocação que envolve todos os santos (cristãos) para serem profetas e evangelizadores, continuadores da missão salvadora de Cristo, através do envio que todos recebemos, como tributo do nosso batismo e da nossa adesão pela fé. Por Ele, nós fomos confirmados no Espírito, segundo o projeto do Pai, que assim nos predestinou para colocar a nossa esperança em Cristo e no seu evangelho da salvação.

Conforme a promessa de Cristo, são inerentes ao envio os poderes de expulsar espíritos malignos e curar os doentes. Estes poderes, que são transmitidos aos sacerdotes na cerimônia da ordenação, sintetizam o cerne da missão do evangelizador, isto é, curar os males corporais e espirituais, e não devem ser interpretados literalmente, e sim no sentido daquilo que Jesus disse, como resumo de sua missão: que todos se convertam e vivam. Quem interpreta estas palavras no sentido fundamentalista passa a praticar rituais de exorcismo, muito característicos de algumas entidades religiosas não católicas contemporâneas, que até fazem demonstrações teatralizadas disso através da televisão. Dentro da Igreja Católica, temos também essa forma interpretativa no entendimento dos grupos carismáticos, que também simpatizam com as práticas exorcistas. No meu modo de entender, o poder de expulsar demônios deve ser entendido como o poder de vencer o mal, em todas as suas formas de manifestações, principalmente aquelas mais presentes na sociedade contemporânea, materializadas na discriminação de pessoas, na exclusão social, na exploração do próximo através das nefastas práticas capitalistas, que tanta indignação causam às pessoas de boa fé. E o poder de curar doenças pode ser entendido como a aceitação e a promoção das pessoas mais necessitadas física e psicologicamente, levando apoio e auxílio aos irmãos mais frágeis e vulneráveis. Não existe uma receita ou um padrão de comportamento a ser indicado, mas isso será percebido pela sensibilidade de cada um, perante a sua consciência iluminada pela fé. Os sacerdotes recebem essa missão de forma plena, mas pelo batismo, também nós leigos a recebemos em grau genérico, conforme a promessa de Cristo, e compete a cada um de nós encontrar a melhor forma de pô-los em prática na nossa vida, com nossas ações e nosso testemunho.

Que o divino Mestre e o nosso Seráfico Patriarca nos ajudem no fiel cumprimento da missão que Cristo reservou e espera de cada um de nós.

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domingo, 8 de julho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 14º DOMINGO COMUM - A FORÇA DA GRAÇA - 08.07.2018


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A FORÇA DA GRAÇA – 08.07.2018

Caros Leitores:

A liturgia deste 14º domingo do tempo comum traz, nas suas leituras, um tema muito importante que é a doutrina da graça, a graça suficiente, a graça que basta. Deus dá a todos a sua graça, mas ele respeita a nossa liberdade, não fica nos puxando pela mão o tempo todo, espera que nós saibamos construir conscientemente o nosso caminho. A cada um é dada a força da graça em tamanho suficiente, porém, se cada pessoa não fizer também a sua parte, a graça por ele recebida restará ineficaz. A maior graça divina que nos foi dada é a redenção, trazida por Cristo. Mas ela só tera efeito naqueles que acreditarem. Pela fé nele, inicia-se o processo de abertura do nosso ser para a graça, mas a salvação de cada um deve ser conquistada com o testemunho dessa fé através das obras. Se fosse de outro modo, a graça não nos ajudaria, mas nos anularia como pessoas, porque se poria acima da nossa liberdade. Desse modo, Deus dá a sua graça mas espera que nós a aceitemos livremente e ajamos de acordo com ela, para sermos merecedores dessa distinção.

Na leitura da carta de Paulo a Coríntios (2Cor 12, 7), esse tema está bem explicado, quando ele declara que foi espetado na carne por um espinho que é como um anjo de Satanás a esbofeteá-lo. No texto original grego, a expressão paulina é 'skólops tês sarxi'', que significa ‘estaca na carne’ (faz lembrar as histórias de Drácula isso), e no texto latino, a tradução usada por São Jerônimo é 'stimulus carnis', que nas traduções portuguesas mais antigas era vertido como ‘aguilhão na carne’. A tradução atual substituiu o aguilhão por espinho, porém espinho é algo muito brando para simbolizar a imagem proposta por Paulo. Espinho lembra algo pontiagudo, mas delgado e frágil. Já a palavra grega 'skólops' tem um peso muito maior do que simples espinho, simbolizando algo mais poderoso e difícil de evitar.

Pois bem, Paulo diz que esse 'skólops' foi enfiado na sua carne para que ele não se ensoberbecesse com a maravilhosa revelação que ele teve, após a sua conversão, quando foi tocado por Jesus e se transformou em fervoroso discípulo. Por três vezes, diz ele, pedi ao Senhor que me livrasse disso, mas Ele respondeu: ‘basta-te a minha graça’ (2Cor 12, 9). Então, Paulo reflete acerca da suficiência da graça divina para a nossa salvação, ensinando-nos a não nos deixarmos sucumbir diante das dificuldades da vida, das nossas fraquezas, do desânimo e da falta de compreensão, muitas vezes, daqueles que nos são mais próximos. Quer ele dizer, com isso, que a graça de Deus que nos é dada não afeta a nossa condição humana, no sentido de que nós continuamos a possuir as mesmas imperfeições e ambiguidades da nossa natureza. O fato de acreditar em Cristo não torna o cristão, humanamente falando, melhor do que o não crente. Porém, o cristão passa a ter um recurso extra para superar as suas fraquezas humanas. Diz Paulo que é na fraqueza que a força se manifesta. E arremata: ‘porque quando me sinto fraco, então é que sou forte’. Isto é: quando as adversidades me atacam, quanto mais elas me perseguem, mais eu conto com a graça divina. Por outras palavras, a graça divina não retira de nós o pecado, mas nos proporciona condições para vencer o mal e trilhar o caminho do bem. Aqui é que o resultado vai depender de cada um de nós.

Essa doutrina desenvolvida pela teologia da graça ensina que Deus dá a todos os homens a graça suficiente para a salvação, porém, cada um deve fazer a sua parte para que ela frutifique. Desse modo, ela contrasta com a doutrina da graça de outras religiões, aquela que se denomina de predestinação. Segundo esta, algumas pessoas estão marcadas para a condenação, independente do que venham a fazer. De outro lado, outras pessoas estão escolhidas para a salvação, não importa o que fizerem na vida. Essa doutrina, se verdadeira, tornaria inútil qualquer esforço nosso para escolher o bem e praticar a virtude, além de levar à conclusão de que Deus seria sumamente injusto conosco, zombando da nossa condição e desrespeitando a nossa liberdade, o que seria incompatível com a natureza perfeita da divindade. Por isso, a teologia cristã católica ensina que a graça nos é dada, sim, sem que a peçamos, porém ela não opera de forma automática, mas vai depender da forma como cada qual corresponde aos dons divinos. Ou seja, a graça divina é suficiente, mas não surtirá efeito sozinha e, portanto, a salvação é um dom de Deus, mas é também uma conquista de cada um através da sua fé e das suas obras de misericórdia, não bastando apenas a fé. Agir em desacordo com a graça é o que se constitui em pecado e isso, às vezes, termina sendo inevitável, dadas as imperfeições da nossa natureza. Observa-se que, quando Paulo pediu a Deus: livra-me do “skólops”, ele estava querendo dizer “livra-me dessa condição de pecador”. Mas a resposta divina foi: não, a graça que te dou pode superar o pecado, isso só depende de ti. Eis o nosso cotidiano desafio.

Esse tema da “graça que basta” está representado também no evangelho de Marcos (6, 1-6), onde lemos que Jesus voltou a Nazaré, sua terra, acompanhado dos discípulos e lá se apresentou na sinagoga, no sábado, para fazer a leitura da Torah e depois explicá-la para os ouvintes. Foi quando os fariseus e os doutores da lei se ‘escandalizaram’ e ficaram se questionando: quem deu a Ele essa sabedoria? Com que autoridade Ele vem nos ensinar? Os doutores da lei não admitiam que alguém, que não pertencesse ao grupo deles, fosse ler na sinagoga e explicar a palavra de Deus para o povo. Jesus tinha vivido muito tempo em Nazaré e era conhecido, assim como os seus familiares. Diziam eles: não é este o filho do carpinteiro José? Nós conhecemos sua mãe, seus irmãos e irmãs, que ainda moram na cidade. Ora, meus amigos, aqueles fariseus tiveram diante de si, em pessoa, a própria Graça divina e não a reconheceram, e a recusaram. É interessante observar que o verbo ‘escandalizar’, nesse contexto, nada tem a ver com o sentido comum dessa palavra na nossa língua, mas significa descrença, não aceitação, incredulidade. Os fariseus se escandalizaram com Jesus quer dizer que não o aceitaram como Messias, não reconheceram nele o prometido por Deus. Portanto, aqueles fariseus tiveram a graça suficiente, mas pela sua incredulidade, pela rebeldia de sua vontade, a graça não operou efeito neles. Talvez se Jesus tivesse se “exibido” diante deles com algum milagre, tivessem acreditado. Mas, diz o evangelista, Jesus não fez milagre algum, apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. Essas curas eram sempre feitas de forma privada, sem presença de público. Mas os fariseus tinham conhecimento de outros milagres, porque a fama de Jesus, nessa ocasião, circulava em toda a região. Portanto, embora tivessem a própria Graça entre eles, os seus efeitos não ocorreram, porque Deus respeita a liberdade humana e pela falta de fé deles, a salvação trazida por Jesus não se realizou ali.

Essa atitude de incredulidade dos fariseus já estava prevista pelo profeta Ezequiel, conforme lemos na primeira leitura deste domingo. Javeh disse a Ezequiel: vai lá, apresenta-te ao povo e fala em meu nome, eu sei que não vão acreditar em ti, porque são (Ez 2, 3): nação de rebeldes, que se afastaram de mim. Eles e seus pais se revoltaram contra mim  até ao dia de hoje. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou te enviar …” E depois acrescenta: “Quer te escutem, quer não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta.” Foi assim que Jesus retornou a Nazaré, para que se cumprisse a profecia pois, crendo ou não, os líderes religiosos do povo ficariam sabendo que o Messias passou entre eles. A mesma atitude de recusa relatada pelo profeta Ezequiel em tempos passados se repetiu em relação àquele que, no dizer de João Batista, é mais do que um Profeta, pois o profeta fala em nome de Deus, mas Jesus falava em nome próprio. Isso torna a atitude rebelde dos fariseus mais grave e ofensiva do que a dos seus antepassados, porque estes rejeitaram a pessoa de um representante de Deus, enquanto os fariseus rejeitaram o próprio Deus.

Meus amigos, a pedagogia catequética tradicional promovia uma satanização do pecado, como se este fosse obra do demônio. Mas podemos concluir, pela leitura da carta de Paulo, que o pecado é fruto da condição humana e que ele não deve nos afastar de Deus, mas devemos nos amparar na graça que Deus nos concede, para superá-lo. Uma antiga oração penitencial dizia assim: ‘prometo nunca mais pecar...’ ora, sabemos que isso é impossível, porque para isso acontecer, teríamos de deixar de ser humanos. O pecado faz parte da natureza humana e assim é uma realidade sempre possível na nossa vida. Porém, sabendo que Deus nos concede a sua graça, temos a confiança de que é sempre possível também evitá-lo e, em qualquer caso, temos o remédio para sanar as suas consequências.

Que o Senhor nos ajude sempre a descobrir em nós a graça que recebemos e nos dê coragem para agir de acordo com ela.

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domingo, 1 de julho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - 01.07.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – SS PEDRO E PAULO – PROTAGONISTAS DA FÉ – 01.07.2018

Caros Leitores:

Neste domingo, a memória litúrgica é dedicada aos Santos Pedro e Paulo, dois baluartes do cristianismo ocidental. O cristianismo teve início em Jerusalém, onde Jesus fora crucificado, onde ele concluiu suas pregações, a cidade símbolo para os judeus e também a grande metrópole daquela região geográfica. Todos os apóstolos eram de cultura judaica, então o território onde por primeiro o cristianismo foi difundido ficava nos arredores de Jerusalém, tanto aquelas localidades que Jesus havia visitado quanto as demais, por onde os apóstolos saíram na sua pregação missionária. A difusão do cristianismo pelo mundo greco-romano se deu por obra de Paulo, pois foi este quem levou Pedro para Roma, então a capital do mundo ocidental. Convinha que a comunidade cristã da metrópole fosse confiada a Pedro, a quem Jesus havia concedido a primazia entre os apóstolos. Paulo não quis assumir para si esse ônus e essa honraria, embora tenha sido o seu fundador.

Os demais apóstolos ficaram nas terras do oriente: Jerusalém, Alexandria, Antioquia e Constantinopla, onde atualmente estão localizadas as igrejas católicas ortodoxas. Paulo exerceu um papel fundamental para a difusão do cristianismo no ocidente porque, se dependesse apenas dos apóstolos treinados por Cristo, a religião cristã não teria ido além dos limites do mundo judaico. Eles não tinham condições intelectuais de penetrarem na cultura greco-romana, nada conheciam disso, não falavam a língua grega, não tinham o talento necessário para pregar o cristianismo no mundo helenizado. Mas Jesus queria que a sua doutrina fosse espalhada por todos os povos e então ele fez o milagre que eu considero o mais complexo e grandioso de todos: cooptar o seu maior perseguidor e torná-lo o seu maior arauto. Meus amigos, para mim, a maior prova da divindade de Cristo e ao mesmo tempo prova da origem divina da igreja cristã está neste fato. Ele precisava de um pregador com formação intelectual destacada e com grande fervor missionário e foi encontrar essas qualidades na pessoa de Paulo. Ocorre que Paulo era ardoroso combatedor da doutrina cristã, tal era a sua fidelidade à tradição judaica. Então, como para Deus nada é impossível, o aparentemente impossível aconteceu, quando Paulo foi abordado no caminho de Damasco, jogado ao chão e logo transtornado e transformado no mais ardente e vigoroso defensor do cristianismo. Foi ele mesmo quem escreveu isso, na carta aos Gálatas (1, 14-16): “No judaísmo, eu superava a maioria dos judeus da minha idade, e era extremamente zeloso das tradições dos meus antepassados. Mas Deus me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça. Quando lhe agradou revelar o seu Filho em mim para que eu o anunciasse entre os gentios, não consultei pessoa alguma ” E ele completa, dizendo: eu não recebi o conhecimento da doutrina cristã por meio de homem nenhum, mas diretamente de Cristo, por revelação. Os apóstolos judeus não tinham conhecimentos profundos nem discurso elegante, eles eram pescadores, pessoas de poucas letras, não podiam ser instrutores de Paulo. Então, todo o conhecimento que Paulo extraordinariamente compôs e explicitou nas suas pregações e nas cartas que escreveu, tudo lhe foi revelado diretamente por Cristo, no ato de sua conversão. Conforme disse antes, essa é uma prova indiscutível, a mais eloquente da divindade de Jesus. Sem Paulo, nós hoje não seríamos cristãos.

Pois bem. Por que Paulo não assumiu o comando da comunidade cristã de Roma, por ele fundada? Uma explicação para isso podemos encontrar na carta aos Gálatas (1, 18-19), onde Paulo diz: “Depois de três anos, subi a Jerusalém para conhecer Pedro pessoalmente e estive com ele quinze dias Não vi nenhum dos outros apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor.” Deixando de lado a polêmica sobre “o irmão do Senhor”, concluímos que, dos onze, Paulo só conheceu Pedro e Tiago. Paulo foi a Jerusalém conhecer Pedro, porque certamente estava informado de que Jesus havia deixado com ele a liderança do grupo. E Tiago era o dirigente da igreja cristã em Jerusalém. No início de sua atividade, Paulo foi convidado por Barnabé, para trabalharem juntos na igreja cristã de Antioquia, importante cidade da Ásia Menor. Quando Barnabé e Paulo saíram de lá para novas missões em outras terras, deixaram Pedro como dirigente da igreja de Antioquia. Ali, Pedro ficou durante vários anos, enquanto Paulo pregava o cristianismo e convertia os gentios de língua grega, sempre deixando um líder em cada cidade e partindo para outra. A igreja de Roma foi a mais tardia de todas, Paulo chegou lá quando já havia pregado o cristianismo em todas as outras localidades do mundo greco-romano, isto é, todas as outras comunidades são mais antigas do que a de Roma. Mas Roma era a capital do mundo e Paulo foi buscar Pedro em Antioquia e o trouxe para Roma.

Um pouco acima, mencionei as igrejas centrais do mundo oriental: Jerusalém, Alexandria, Antioquia e Constantinopla. A igreja de Roma centralizava o cristianismo no território europeu e todas tinham a mesma hierarquia. Nos primeiros séculos, a relação entre a igreja romana e as igrejas orientais era pacífica, mas, lamentavelmente, por ingerências políticas e divergências doutrinárias, essas igrejas irmãs entraram em um processo de desgaste, que culminou com o grande cisma do ocidente. Fator decisivo para isso foi a doutrina da “chefia” do líder da igreja de Roma sobre os líderes das demais igrejas. Cada igreja oriental tinha seu patriarca e estes não aceitaram ficar submissos ao dirigente da igreja de Roma. Essa doutrina resultou de influência dos imperadores romanos nos negócios eclesiásticos, primeiro Constantino e Teodósio, mais tarde, Carlos Magno. Por interferência deles, seguindo o modelo político vigente, o bispo de Roma foi transformado em autoridade universal sobre todas as demais igrejas. Os orientais nunca concordaram (nem concordam hoje ainda) com isso e, a meu ver, com toda razão. E esse é o grande entrave que o Papa Francisco tenta, com paciência e habilidade, superar, mas encontra fortes resistências de ambos os lados. O Papa Bento XVI chegou a nomear dois Patriarcas orientais como Cardeais, o que já foi um grande avanço. Mas ainda há muitas objeções para serem negociadas.

Bem, a igreja romana adota como fundamento bíblico deste 'primado de Pedro' o trecho do evangelho de Mateus, lido na missa de hoje (Mt 13, 19), o conhecido episódio das chaves dadas por Jesus a ele. Sobre isso, eu faço outras considerações. Apenas no evangelho de Mateus existe essa passagem que fala em “construir a igreja sobre essa pedra” e 'dar as chaves' da igreja a Pedro. Eu tenho uma séria desconfiança de que esse trecho não seja original de Mateus, pode ter sido manipulado, em época muito antiga, a fim de justificar essa doutrina. E digo isso com base em três constatações ou indícios. Em primeiro lugar, penso que o texto original devia assemelhar-se ao que está no evangelho de João (1, 42), onde é narrado o primeiro encontro de Jesus com Simão e Jesus lhe disse: “tu te chamarás Kefas – que significa Petrus”. E pára por aqui. Possivelmente alguém fez os acréscimos que constam no evangelho de Mateus, como forma de justificar biblicamente a doutrina da “chefia”, na época da polêmica. Em segundo lugar, vejo outro claro indício na expressão “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Ora, todos sabemos que Jesus nunca mandou criar uma igreja, o que ele mandou foi que os apóstolos ensinassem a todos os povos a sua doutrina e os batizassem. O conceito de igreja foi-se desenvolvendo aos poucos, com as comunidades (ekklesias) organizadas pelos apóstolos. Esse linguajar “edificarei a minha igreja” não me parece coerente com os demais discursos de Cristo, gerando forte suposição de adaptação textual, numa época em que esta doutrina estava iniciando e necessitava de fundamentação. Em terceiro lugar, façamos um breve retrospecto histórico. A polêmica do “primado de Pedro” teve início lá pelo século IV, tendo sido objeto de inúmeras disputas durante mais de 500 anos, até explodir no cisma, em 1054. Por outro lado, os textos bíblicos hoje conhecidos somente foram tornados oficiais no Concílio de Trento (1545-1563). Ora, nesses 500 anos de discussões, digamos que tudo era válido para justificar uma posição política. Daí que eventual manipulação do texto não pode ser descartada. É a minha opinião, respeitando os que discordarem.

Bem, meus amigos, essas reflexões que faço não têm intuito de contestar ou desmerecer a autoridade do sucessor de Pedro, mas são como uma espécie de autocrítica, pois as igrejas orientais possuem uma riquíssima tradição e são mais antigas do que a igreja romana, merecem todo o nosso respeito. Que o Espírito Santo e o espírito de Pedro iluminem sempre mais o nosso Papa, para levar adiante a sua difícil empreitada em busca da união de todos os cristãos.
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domingo, 24 de junho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - NATIVIDADE DE JOÃO BATISTA - 24.06.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA) – ÚLTIMO PROFETA – 24.06.2018

Caros Leitores,

Neste 12º domingo do tempo comum, a liturgia dominical abre espaço para a celebração do nascimento de João Batista, o precursor do Messias. A importância de João Batista, na história da salvação é ímpar, já que ele se posiciona no meio termo entre o Antigo e o Novo Testamentos. Ele foi, ao mesmo tempo, o último dos profetas (dentre estes, o único que leva o agnome de São) e o primeiro dos discípulos de Jesus, conforme confessou na ocasião de fazer o seu batismo, no Jordão.. Isso está também confirmado com as palavras do próprio Cristo: dentre os nascidos de mulher, foi o maior de todos. (Mt 11, 11)

Coube a João Batista a tarefa de preparar o caminho para a chegada do Messias. O seu nascimento está relacionado a fenômenos extraordinários. Conforme o evangelho de Lucas (1, 5), Zacarias era sacerdote do templo. Ele e sua mulher Isabel não tinham filhos e já tinham idade avançada. Num certo dia, quando estava na sua escala da vez para entrar na parte reservada do tabernáculo, a fim de incensar a Arca da Aliança, enquanto estava lá dentro recebeu a visita do anjo do Senhor, o qual informou que a mulher dele iria ter um filho. Ele duvidou e por causa disso ficou mudo durante toda a gestação, vindo a soltar-se sua língua somente depois do nascimento do filho (Lc 1, 64). Quando esse fato miraculoso ocorreu, toda a Judeia tomou conhecimento e o povo ficou adivinhando qual seria a missão daquela criança, que nascia cercada de tão grande sinal. Outro fato singular ligado a João Batista foi o de que ele estremeceu no ventre de Isabel, quando Maria foi visitar a prima, a ponto de a mãe sentir a vibração estranha. Segundo uma antiga tradição, João Batista teria sido instruído na comunidade dos essênios, no mesmo local onde se diz também que Jesus esteve, no seu período de formação. Lá ele teria estudado as escrituras. Ainda hoje, há ruínas dessa “escola”, nas proximidades do Mar Morto. Mas mesmo que não tenha sido assim, o pai dele era sacerdote, portanto, poderia tê-lo instruído. O fato é que, quando ele começou a pregar, ele citava Isaías: a voz do que clama no deserto – aplainai os caminhos do Senhor, endireitai suas veredas, o reino de Deus chegou. Isso denota que ele tinha conhecimento das Escrituras.

Todos os profetas, principalmente Isaías, lançaram previsões acerca do futuro Messias, mas foi João Batista o único que pôde apontar com o dedo para Ele e dizer: aí está o Cordeiro de Deus. E dizia ao povo: vocês vêm atrás de mim, mas no meio de vós está um que é maior do que eu e do qual eu não sou digno nem de desamarrar a correia das sandálias... é preciso que Ele cresça e eu diminua. João está-se declarando discípulo de Jesus. E foi ele que mandou seus seguidores (um dos quais era André, irmão de Pedro) perguntar a Jesus se era Ele o Messias esperado ou se deviam esperar por outro. (Lc 7, 19) João estava, desse modo, encaminhando os seus próprios seguidores para que passassem a seguir Jesus.

Mas o fato mais notável protagonizado por João Batista foi o batismo de Jesus. Quando Ele se apresentou para ser batizado, João disse: eu que devia ir a ti, e tu vens a mim... e Jesus respondeu: deixa que as coisas aconteçam assim. (Mt 3, 14) Foi então que, após Jesus ser batizado, houve a primeira manifestação da Trindade, quando o Pai se fez ouvir e o Espírito Santo apareceu em forma de pombo. Acreditam os teólogos que essa aparição da Trindade não foi percebida por todos os presentes, mas apenas por João, foi um sinal de que a missão dele estava concluída. Este foi o início da vida pública de Jesus e por isso João Batista se situa no limiar que separa o Antigo Testamento do Novo Testamento.

Conforme os Atos dos Apóstolos (13, 24), João pregava ao povo o batismo da conversão. Ele não inventou o batismo, este já existia e era praticado regularmente pelos judeus, fazia parte dos seus rituais de ablução, pelos quais eles buscavam a purificação. Mas o batismo tradicional e comum entre eles era o auto batismo, ou seja, o penitente entrava na água do Jordão e ele mesmo mergulhava, cobrindo todo o corpo com a água do rio, para assim se purificar. Ainda hoje, algumas igrejas cristãs não católicas fazem este batismo de imersão, para acolherem seus fiéis. Porém, o batismo pregado por João era oficiado por ele, o fiel recebia o batismo de suas mãos, em sinal da conversão. A palavra conversão, todos sabemos, diz-se em grego 'metanoia', cuja etimologia significa mudança de vida, mudança de mentalidade, mudança no modo de pensar. Não era um simples ritual de limpeza, como faziam os judeus, porque saíam dali e voltavam a fazer as mesmas infidelidades de antes. Para ministrar o batismo, João exigia a conversão, a mudança de modo de pensar, isto é, a pessoa devia antes aplainar os caminhos do pensamento e endireitar as veredas da mente. Essa atitude significava a necessidade de abrir o entendimento para compreender as graves e contundentes verdades que estavam por se manifestar na pessoa e na pregação de Cristo.

Sim, porque os judeus esperavam um Messias guerreiro, tal como fora Davi, alguém que viria com a espada afiada para derrotar e expulsar os inimigos. Está lá na primeira leitura, em Isaías (49, 2), na verdade, no deutero-Isaías: fez da minha palavra uma espada afiada, fez de mim uma flecha aguçada. Isso era interpretado literalmente em relação ao Messias esperado. Ele viria de espada em punho para libertar Israel. Daí se entende o diálogo de Jesus com os discípulos de João, quando eles perguntaram se Ele era o que havia de vir ou deviam esperar por outro. (Lc 7, 19) Foi quando Jesus respondeu: ide dizer a João o que tendes visto – cegos veem, coxos andam, surdos ouvem... e feliz daquele que não se escandalizar por minha causa. Com isso, Jesus estava já antecipando a dificuldade que os judeus, principalmente os chefes dos sacerdotes e os fariseus, iriam ter em reconhecê-lo e aceitá-lo. Eles iriam se “escandalizar”, o que significa, iriam desacreditar dele, iriam lançar desconfiança em Jesus, porque o Messias que eles esperavam era de outro tipo, lutador e guerreiro, não um Messias fraco e sofredor. Daí também porque João dizia que era necessária a conversão (mudança de mentalidade), era necessário endireitar as veredas (do pensamento), aplainar os caminhos (do entendimento), a fim de conhecer e aceitar o Cordeiro de Deus.

Essa figura do cordeiro era bem familiar para os judeus, por causa do símbolo da Páscoa, o cordeiro que era imolado e que servia de alimento, lembrando a libertação da escravidão do Egito. Quando João diz que Jesus é o Cordeiro de Deus, estava ali também se referindo à sua paixão e já antecipadamente à eucaristia, o cordeiro imolado que é dado em alimento. Para compreender isso, ou seja, para entender a nova figura do Messias-Cordeiro era imprescindível mudar o modo de pensar acerca dele. João fazia referência expressa à figura do cordeiro também presente na profecia de Isaías, o cordeiro que era levado ao matadouro e não abria a boca (Is 55, 3), sinal de que João Batista conhecia bem as escrituras.

Na primeira leitura da missa da vigília, a liturgia nos oferece o trecho do profeta Jeremias, que tanto se refere a João Batista quando a Jesus Cristo (Jr 1, 5): antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio da tua mãe eu te consagrei e fiz de ti profeta das nações. E mais adiante, no versículo 10, completa: eu te constituí hoje sobre povos e reinos com poder para extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar. E na primeira leitura do domingo, a mesma imagem se encontra em Isaías (49, 6): eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra.

Meus amigos, nós aqui e agora somos fruto dessa promessa. Deus falou pela boca de Isaías: Não basta restaurar Jacó e reconduzir o resto de Israel, isso é pouco, tu vais unir todas as nações e levar a todas elas a minha salvação. Nós somos a prova concreta de que a palavra de Deus, pronunciada pelo Profeta, foi cumprida. E nos dias de hoje, nós somos os sucessores do Profeta, para continuarmos anunciando a salvação ao mundo inteiro. E para quem acha que não tem condições de fazer isso, vale lembrar a advertência de Jeremias (1, 8): o Senhor disse - não tenhas medo, pois estou contigo para defender-te... eis que ponho minhas palavras na tua boca. Este é o nosso desafio e a nossa missão de cristãos na sociedade.

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domingo, 17 de junho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 11º DOMINGO COMUM

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 11º DOMINGO COMUM – PEDAGOGIA DE JESUS – 17.06.2018

Caros Leitores,

Neste 11º domingo comum, a liturgia nos propõe para reflexão a metodologia adotada por Jesus Cristo para ensinamento a respeito do reino de Deus, explicando-o através de parábolas, nas quais se serve de figuras e situações bem conhecidas por seus ouvintes. As teorias pedagógicas mais modernas explicam que, para haver uma melhor aprendizagem por parte dos alunos, o professor deve buscar inserir novos conceitos aproveitando os conhecimentos prévios dos estudantes. Grande novidade! Há mais de dois mil anos, Jesus Cristo já inaugurara essa pegagogia, quando utilizava parábolas para explicar sua doutrina, e os pedagogos de hoje pensam que estão descobrindo o mapa da mina. Para nós, cristãos, essa metodologia foi, desde o início, a preferida tanto por Cristo quanto pelos seus apóstolos.

Na primeira leitura litúrgica, temos um trecho do livro de Ezequiel. Ele profetizou na época do cativeiro da Babilônia, tendo falecido nessa cidade. Ele teve curiosas “visões” sobre as ações de Javeh em forma de castigo para o seu povo infiel, falando sempre em linguagem muito dura, para despertar no povo o reconhecimento da própria culpa e o arrependimento. Na leitura de hoje, ele faz uma imagem simbólica muito interessante sobre o “novo reino” que haveria de vir, depois que aquele período do cativeiro terminasse, o novo reino que Javeh estava preparando para o seu povo. Diz isso usando também uma espécie de parábola: “Assim diz o Senhor Deus: 'Eu mesmo tirarei um galho da copa do cedro, do mais alto de seus ramos arrancarei um broto e o plantarei sobre um monte alto e elevado. Vou plantá-lo sobre o alto monte de Israel. ” Podemos ver nessa imagem descritiva do “broto arrancado do mais alto dos seus ramos” e plantado sobre o monte de Israel como a prefiguração de Cristo, numa simbologia análoga à que Jesus usaria depois, com a imagem da videira. Logo adiante, diz o Profeta: “Ele produzirá folhagem, dará frutos e se tornará um cedro majestoso. Debaixo dele pousarão todos os pássaros, à sombra de sua ramagem as aves farão ninhos. ” Tempos depois, Jesus repetirá essa mesma parábola, ao dizer que “eu sou a videira e vós sois os ramos” (Jo 15, 5), quem permanece em mim e eu nele, esse dará muito fruto. Os profetas, de um modo geral, utilizaram de recursos simbólicos, aproveitando os conhecimentos e vivências do povo para lhes repassarem a mensagem de Javeh.

No evangelho de Marcos, lido neste domingo (Mc 4, 26-34), Jesus lança mão de duas parábolas semelhantes, ambas relacionadas com árvores e sementes, materiais que eram comuns e amplamente conhecidos daquelas pessoas a quem ele se dirigia. A imagem da semente tem uma forte simbologia relacionada com o fenômeno da multiplicação que está a ela associada e que encerra no seu conteúdo o próprio milagre da vida. A semente é pequena, inerte, simples, mas quando plantada, cresce, se torna dinâmica, fecunda e se multiplica em incontáveis partes, que configurarão um novo ser. É interessante como ele explica que a semente possui uma capacidade autopoiética extraordinária, ou seja, ela se reproduz com suas próprias forças, não é necessário que o plantador faça nada especial, além do simples plantio, bastando inseri-la no solo fértil. “A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. ” (Mc 4, 28) A energia presente na semente é tão intensa que basta ser lançada no local adequado para desencadear o seu processo produtivo. Além disso, tem ainda o aspecto da multiplicação da forma. A semente tem uma pequenina dimensão, mas se transforma em uma árvore grandiosa e com enormes potencialidades de sustentação da vida de outros seres, que dela dependem. É o autêntico milagre reprodutor da vida, que continua a ocorrer incessantemente e está acessível a todos que se dispuserem a cumprir esse ritual de semear.

Assim também acontece com a Palavra de Deus, semente da vida no espírito, que ao ser semeada, começa o seu processo de produção de energias espirituais no coração de quem a acolhe, de modo que transforma não apenas a vida daquela pessoa diretamente, mas tem repercussão também sobre as demais pessoas que com esta convivem. O nosso comportamento de cristãos, a colocação em prática dos mandamentos de Cristo nos atos da nossa vida cotidiana, o nosso testemunho diante da pessoas do nosso convívio na família, no trabalho, na sociedade, são os atos e atitudes pelos quais nos tornamos lançadores da semente da Palavra. E Jesus ainda nos anima querendo dizer que não precisa fazer grandes pregações, nem grandes sacrifícios, nem enfrentar grandes desafios, mas mesmo nas pequenas coisas isso acontece. É o que Ele pedagogicamente ensina quando fala da semente de mostarda, ao dizer que é a menor semente das hortaliças, no entanto, é aquela que produz a leguminosa mais corpulenta, que serve até de pouso e arcabouço de ninho para os pássaros. Pequenas sementes que produzem grandes árvores, assim acontece também conosco, mesmo que a semente lançada seja de tamanho apoucado.

Em diversas outras ocasiões, Jesus utilizou a parábola da semente, para tornar compreensíveis os fatos relacionados com a sua missão. Por exemplo, no evangelho de João (Jo 12, 24), Jesus faz outra alusão à semente, em outro contexto, referindo-se à sua ressurreição, quando diz: se o grão de trigo não morrer, fica só; mas se morre, produz muito fruto. A imagem da semente associa-se tanto à paixão e morte de Jesus, como também à morte do homem pecador e à sua ressurreição através da graça, tanto no sentido da nova vida trazida pelo batismo, quanto no sentido da outra vida, que virá depois que deixarmos esta morada. E aqui o tema do evangelho se interliga com o texto da segunda leitura, retirada da carta de Paulo a Coríntios 2: “ enquanto moramos no corpo, somos peregrinos longe do Senhor; pois caminhamos na fé e não na visão clara ” (2Cor 5,6) Ao deixar a morada do corpo, iremos morar junto do Senhor. Portanto, neste primeiro momento, a imagem da semente se refere a nós, cristãos, que temos a oportunidade de, pelo batismo, fazer morrer em nós o ser pecador, para fazer viver o ser humano da graça. E através dos demais sacramentos, vamos passando por um processo de contínuo aperfeiçoamento do nosso ser para, depois, com a morte corporal, termos a ressurreição prometida por Cristo, da qual Ele já deu o exemplo.

A propósito dessa passagem da 2ª Carta a Coríntios, quando Paulo diz: “enquanto moramos no corpo, somos peregrinos longe do Senhor”... e depois diz “preferimos deixar a moradia do nosso corpo para ir morar junto do Senhor”, eu gostaria de destacar aqui uma demonstração da cultura grega que Paulo possuía. Está muito evidente, nesses trechos, a visão dualista dos filósofos gregos Platão e Aristóteles, esse confronto entre o mundo material e o mundo espiritual, que encontramos em Sócrates e em seus discípulos na Grécia antiga, e que Paulo absorveu, e depois essas mesmas idéias foram retomadas pela Patrística (século IV), sobretudo por Santo Agostinho, e mais adiante, por Santo Tomás de Aquino. Aliás, era impossível que o cristianismo se disseminasse no território grego sem ser influenciado pela cultura deste povo, que era predominante e bem mais elaborada do que as demais culturas contemporâneas.

Esse fato teve um aspecto positivo e historicamente inevitável, mas também gerou consequências indesejáveis de longo prazo, como as que nós observamos hoje na religião tradicional, individualista e devocionista. As primeiras comunidades, onde ainda havia grande influência da cultura judaica, tinham mais a idéia da coletividade, da comunhão, da solidariedade, que foram aos poucos sendo substituídas pelos conceitos gregos, os quais se tornaram hegemônicos. Junto com a cultura grega e sua inserção no cristianismo, portanto, desenvolveu-se esse modelo individualista da religião, que não existia nas primeiras comunidades cristãs, onde todos tinham tudo em comum (Atos 4, 32). O “tudo” em comum não deve ser entendido apenas como os bens materiais, mas sobretudo a partilha dos bens espirituais da amizade, do amor mútuo, da solidariedade em todos os sentidos. Nos dias atuais, a teologia tenta resgatar o verdadeiro sentido da palavra comunidade (comum+unidade), que não pode ficar restrita à reunião de uma multidão no templo durante a celebração, onde as pessoas nem se conhecem entre si e muitas vezes nem se cumprimentam. Devemos nosvigiar para que, involuntariamente, não venhamos a contribuir com esse modelo religioso individualista, que ainda predomina na nossa religião.

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sábado, 9 de junho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 10ª DOMINGO COMUM - 10.06.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 10º DOMINGO COMUM – O PECADO ETERNO – 10.06.2018

Caros Leitores,

Neste décimo domingo comum, a liturgia traz uma leitura da carta de Paulo aos Coríntios (2Cor 4, 13-5,1), na qual ele faz uma comparação, utilizando uma imagem que bem representa a doutrina grega da cisão corpo-espírito, que se tornou uma marca da teologia cristã. Diz ele: “se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”. A doutrina judaica sobre a relação corpo-espírito vai muito mais pelo lado da unidade e integração entre ambos, no entanto, a doutrina grega prevaleceu na teologia. As outras leituras também trazem temas interessantes, dos quais destacarei dois para comentar, tomando como referência o evangelho de Marcos (Mc 3, 20): o pecado eterno e os irmãos de Jesus.

A narrativa de Marcos tem início com o evangelista dizendo que Jesus voltou para casa com seus discípulos (3, 20). É o caso de perguntarmos: que casa? Desde que Jesus iniciou sua vida de pregador, ele saíra da casa de José e Maria e não tinha um local onde morar. Provavelmente, seria a casa de algum dos discípulos ou de algum admirador dele, o narrador não se preocupa com esse detalhe. E continua dizendo que lá juntou tanta gente que eles (Jesus e os discípulos) nem sequer podiam comer. A fama de Jesus atraía a atenção de todos, em qualquer lugar onde ele chegasse, de modo que causava grande importunação, mas ele não podia simplesmente mandar o povo embora, pois isso fazia parte da sua missão. É também interessante observar que se trata de uma das raras vezes em que o evangelho se refere a uma refeição feita por Jesus, o que devia ser bastante natural, porque ele como pessoa humana precisava se alimentar. No entanto, quase sempre essa particularidade é omitida nas narrativas evangélicas.

Pois bem, os fariseus e Mestres da Lei, que estavam constantemente vigiando Jesus, o viram expulsando demônios e, por não acreditarem no seu poder divino, não encontraram outra forma de justificar, a não ser dizendo que ele estava possuído por Belzebu e era por isso que Ele conseguia expulsar os demônios. Esse boato preocupou os parentes de Jesus, que o procuraram para oferecer-lhe ajuda. Encontraram-no, então, rodeado pela multidão, enquanto ele argumentava contra os fariseus: como é que satanás vai expulsar satanás? Como é que o demônio estaria agindo contra si próprio? A acusação dos Mestres da Lei era totalmente incoerente, porque se um grupo passa a se digladiar internamente, será o seu fim. Se numa família, levantar-se irmão contra irmão, será a desagregação daquela família. Sob o aspecto humano, social, o boato espalhado pelos fariseus não tinha qualquer sustentação. Porém, sob o aspecto da fé, a situação era muito mais grave. Atribuir os milagres de Jesus ao poder do mal significava ver em Jesus o próprio demônio e isso ele fez questão de esclarecer, além de reprovar.

Foi nesse contexto que Jesus fez uma ameaça terrível àqueles incrédulos: (Mc 3, 28) “tudo será perdoado aos homens, todo pecado e toda blasfêmia, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, será culpado de um pecado eterno”. Meus amigos, o que significa blasfemar contra o Espírito Santo? Por que isso é tão grave e nunca será perdoado? Ora, Jesus sempre afirmou que não agia sozinho, ele agia sempre como Trindade, em união com o Pai e o Espírito Santo. Então, dizer que ele estava possuído por um espírito do mal equivalia a não acreditar no Espírito Santo e, portanto, não acreditar na Trindade divina. Não acreditar que Jesus é filho de Deus e age em união com o Espírito Santo, portanto, negar a Trindade é excluir-se da obra redentora que Jesus veio realizar. Mais grave do que afirmar que Jesus expulsa os demônios por obra de Belzebu é a motivação interior de quem faz essa afirmação, é a recusa de receber a graça divina, é voltar as costas para o amor de Deus, por isso, é uma atitude imperdoável. E se a pessoa que assim age não reconsidera seu ponto de vista e mantém-se na rejeição do perdão, então o seu delito se tornará eterno, ou seja, eternamente imperdoável. Ora, sendo o mistério da Trindade o centro da fé cristã, a recusa de aceitar qualquer uma das pessoas divinas será um daqueles pecados retidos, sem perdão.

Diz ainda Marcos (3, 21) que os parentes de Jesus saíram em sua defesa para agarrá-lo, porque ele parecia estar fora de si. Certamente, o discurso de Jesus nessa ocasião não foi nada tranquilo e sereno, como era de costume, mas ele deve ter-se exaltado com o maldoso boato espalhado pelos fariseus. Isso faz lembrar aquele outro memorável acontecimento em que Ele tomou um chicote e saiu dando surra nos vendedores que estavam ocupando os espaços do templo, dizendo que a casa do Pai é casa de oração, não um covil de ladrões. São as duas vezes em que o evangelho fala de atitudes ríspidas e violentas de Jesus, exatamente quando a descrença dos judeus se voltava contra a Trindade. No caso do templo, em relação ao Pai; no caso da expulsão dos demônios, em relação ao Espírito Santo. Nesses casos, Ele foi tomado por uma 'santa ira', a ponto de ficar fora de si.

Quando os parentes de Jesus chegaram onde ele estava, havia tanta gente reunida que eles não conseguiram se aproximar. Então, mandaram recado pra Ele informando que estavam ali. É quando o evangelho cita aquela famosa frase que é motivo de divergência entre católicos e não-católicos há séculos: (Mc 3, 32) “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura.” O texto latino de S. Jerônimo assim diz: “mater tua e fratres tui foris quaerunt te”. Todos nós sabemos que 'mater' é mãe e 'fratres' é irmãos, mas comparemos com o texto grego original, escrito em letras latinas: ê mater auton kai oi adelphoi auton = a tua mãe e os teus irmãos. Vemos que a tradução latina é literal do grego. A discussão aqui está no significado do vocábulo 'adelphoi', plural de 'adelphos' que na língua grega significa “irmão”, tanto no sentido de filho dos mesmos pais, quanto no sentido de um familiar com parentesco próximo. Esta palavra vem do radical grego 'adelph', que é comum às palavras relacionadas com irmandade, fraternidade. Naquela época, era comum que as famílias congregassem sob o mesmo teto pessoas até o sétimo grau de parentesco. Comparando com os dias de hoje, seria como se juntassem as diversas gerações desde o tataravô até o tataraneto, com respectivos cônjuges e agregados, todos eram tidos como uma família no sentido mais extenso. Genericamente falando, eram irmãos entre si. Este é o argumento teológico do catolicismo para justificar que Jesus é filho unigênito de Deus. Porém, não resolve a questão de que Maria pode ter tido outros filhos, que não foram concebidos pelo Espírito Santo, e neste caso, seriam irmãos de Jesus somente pela 'carne', não pelo Espírito. A Igreja Católica Ortodoxa da Síria, uma das mais antigas do mundo, tem outra explicação para este fato. Afirma que, ao casar-se com Maria, José era viúvo e tinha seis filhos de sua esposa anterior, de nome Débora. Os filhos eram: Thiago, José, Judas, Simão, Sofia e Myrian. Com Maria, porém, José teve apenas um filho, Jesus. A Igreja Católica Romana não reverencia essa tradição oriental e não menciona um casamento anterior de José e, desde os primeiros tempos, sempre afirmou que Jesus é único filho de Maria. Por outro lado, não há evidências, nem na história nem na tradição, de que Maria tenha tido outros filhos, além de Jesus.

Pois bem. A resposta que Jesus deu aos seus interlocutores, nesse momento, não poderia ser mais desconcertante: minha mãe? meus irmãos? Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E diz Marcos (3, 34): olhando para os que estavam sentados ao seu redor disse: aqui estão minha mãe e meus irmãos... quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Esta afirmação de Jesus, colocada no contexto do seu ensinamento, não deve ser entendida no sentido negativo, como se Jesus estivesse rejeitando os seus familiares, ao contrário. A frase deve ser vista no sentido positivo, ou seja, Jesus estava afirmando que aquelas pessoas que o ouviam e aceitavam faziam parte da sua familia, tanto quanto os seus parentes pelo ramo familiar. Ele estava colocando no mesmo nível de importância os irmãos da família humana e os irmãos na fé em sua doutrina. Além de não estar desprezando seus familiares, Jesus estava elevando os seus seguidores ao mesmo nível de irmandade que eles. Fazendo um contraponto dialético com a afirmação anterior de que quem não crê no Espírito é réu de um pecado eterno, esta nova afirmação de que 'quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe', é como se Ele estivesse afirmando: quem crê na Trindade está comigo, transforma-se em meu irmão, minha irmã, minha mãe, meu familiar, meu parente, é a grande família humana que se reúne em torno dele.

Meus amigos, nós, os cristãos de hoje, desfrutamos desse inefável privilégio de sermos considerados irmãos, irmãs, pai e mãe de Jesus, se cumprirmos o seu mandamento. Essa é a sua promessa e o resultado só depende de nós.

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sábado, 2 de junho de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 9º DOMINGO COMUM - O SABADO - 03.06.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 9º DOMINGO COMUM – O SÁBADO OU O DESCANSO – 03.06.2018

Caros Confrades,

Terminado o ciclo litúrgico de comemoração da Páscoa, a catequese eclesial retorna ao tempo comum, que se prolongará até o Advento. As leituras da liturgia de hoje centram-se num tema que tem sido objeto de controvérsias entre diversas comunidades cristãs: a observância do sábado. No século IV, o Concílio de Niceia colocou um ponto final nessa polêmica para os católicos, ao escolher o domingo, mas a discussão persiste entre as diversas igrejas cristãs separadas. Algumas são radicais, começando a observância do sábado logo no por do sol da sexta feira, como é o caso dos Adventistas do Sétimo Dia. Outras são menos rigorosas e outras ainda celebram mesmo o descanso dominical, assim como o catolicismo. Mas essa questão não é simples.

Temos, na primeira leitura (Deuteronômio 5, 12), a ordem taxativa de Javeh: “Guarda o dia de sábado, para o santificares, como o Senhor teu Deus te mandou. Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras. O sétimo dia é o do sábado, o dia do descanso dedicado ao Senhor teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu boi, nem teu jumento, nem algum de teus animais, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades, para que assim teu escravo e tua escrava repousem da mesma forma que tu.” As igrejas cristãs que seguem a interpretação literal da Bíblia não admitem outra alternativa. De fato, toda a tradição judaica, dos tempos bíblicos até hoje, observa o descanso sabático. Jesus observava o sábado, comparecia à sinagoga como todos os judeus, assim também faziam os apóstolos e as primeiras comunidades cristãs. Por que, então, mudou-se o dia do descanso semanal para o domingo, contrariando a determinação de Javeh, observada durante muitos séculos?

Antes de prosseguir nessa temática, é conveniente uma breve explicação sobre a palavra hebraica “shabat”, de onde deriva a palavra ‘sábado’. O sustantivo “shabat” é formado a partir do verbo hebraico “shavat”, que significa “parar”, “cessar”. Corresponde ao sétimo dia porque, de acordo com a narração bíblica, Deus criou o mundo em seis dias e no dia seguinte ele “parou para descansar”. Obviamente, Deus não se cansa, essa é apenas uma forma humanizada de nos referirmos à atividade criadora divina. Assim como também os “seis dias” da criação não podem ser entendidos como períodos de 24 horas, como hoje nós consideramos. A palavra “dia”, na narração da criação está mais relacionada a um conjunto de ações divinas, não a um certo período de tempo, porque Deus não se limita ao tempo. Pode-se afirmar que a narrativa bíblica, ao referir-se aos seis dias, está justificando, perante a sociedade daquele tempo, a necessidade do descanso corporal, após um certo período de trabalho. Alguns povos da época adotavam a prática dos dez dias, isto é, nove dias de trabalho e um de descanso. Para os judeus, a atividade criadora divina será, então, o parâmetro mais elevado e indiscutível para se fazer o descanso no sétimo dia. Uma nova cultura estava se sobrepondo à antiga. Ademais, na cultura judaica, o sete é considerado o número da perfeição e diversos fatos bíblicos estão relacionados com ele. Compreende-se assim que a descrição da criação divina em seis dias funcionou apenas como um motivo a mais para fortificar a cultura do sete perfeito. Há muitos estudos técnicos para explicar a numerologia bíblica, de modo que se trata de um assunto extenso, que não pode ser simplificado em poucas palavras.

Pois bem. Na religião judaica, além desse “shabat” semanal, que correspondia ao sétimo dia, há diversos “shabatot” (plural de shabat) especiais, na comemoração das datas mais importantes. Por exemplo: antes da Pessach (Páscoa), antes do Purim, antes do Yom Kipur há vários dias sabáticos, não relacionados com o sétimo dia. Quando Nicodemos foi pedir a Pilatos para retirar o corpo de Jesus da cruz, por causa do sábado, não era por um dia só, mas sim porque na festa da Páscoa, o shabat demorava sete dias e então o corpo de Jesus entraria em decomposição, porque não poderia ser retirado enquanto não terminasse o período sabático. Essas informações são importantes, porque na nossa cultura, o sábado é apenas um dia de 24 horas, mas na cultura judaica, podia demorar vários dias, e essa ideia deve ser levada em conta para entender diversas passagens da Bíblia.

Na leitura do evangelho de Marcos (2, 23), Jesus se confronta com essa tradição sabática, mostrando que o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado. Encontrando-se na sinagoga, havia ali um homem com a mão deformada. Pelo costume judaico, não se podia fazer nada no sábado, nenhum tipo de atividade. Por isso, os judeus ficaram observando se Jesus iria operar um milagre no sábado, porque isso seria contrário à lei. Percebendo isso, Jesus pergunta aos presentes: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Mas eles nada disseram. Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: “Estende a mão”. Ele a estendeu e a mão ficou curada.” Jesus mostrou que, sendo Filho de Deus, é senhor também do sábado e que o rigor da lei mosaica devia ser flexibilizado, porque não é a sua observância simples e literal que agrada a Deus. Mais uma vez, Jesus mostrou que cumprir a lei não é observar rigorosamente as suas palavras apenas e que a prática da caridade no sábado é, não só permitida e louvada, mas também agradável a Deus. Livrar alguém do sofrimento num dia de sábado não é ação contrária à lei, nem mesmo sob o ponto de vista rigoroso com que os judeus a consideravam. Mas eles nunca compreenderam isso e tiraram conclusão oposta: se Jesus não observava o sábado, é porque ele não era proveniente de Deus. E buscavam um modo de eliminá-lo, completa o evangelista.

Conforme dissemos acima, as primeiras comunidades cristãs continuaram a observar o sábado, comparecendo às sinagogas, como era o costume de Jesus. Porém, com o desenvolvimento da doutrina cristã, algumas comunidades passaram a observar também o “primeiro dia da semana”, ou seja, o que nós chamamos de “domingo”, em comemoração á ressurreição de Jesus, que ocorreu no primeiro dia da semana. O sábado era observado por obrigação, mas o domingo era observado por devoção. Essa variação era, inclusive, motivo de discussão entre os cristãos gentios (de origem grega) e os judeus convertidos ao cristianismo. Além da observância do sábado, os judeus convertidos também queriam exigir dos cristãos gregos a obrigatoriedade da circuncisão, uma tradição judaica importante, divergência que deu muito trabalho para Paulo pacificar. Pode-se afirmar que não foi apenas a problemática do sábado, mas de um modo geral, dos costumes judaicos foram, aos poucos, absorvidos e repaginados pelo cristianismo.

A transição da observância do sábado para o domingo está associada ainda a outro fato histórico importante. O imperador Constantino, o primeiro a se converter ao cristianismo e a dar pleno apoio às comunidades cristãs, publicou, no ano 321 d.C., um edital com os seguintes termos: “Que todos os juízes, e todos os habitantes da cidade, e todos os mercadores e artífices descansem no venerável dia do Sol.” A “cidade”, no caso, era todo o território romano, ou seja, praticamente, toda a Europa, Oriente Médio, norte da África, o mundo então conhecido. Havia, em Roma, uma religião pagã muito seguida, chamada “mitraísmo”, cuja figura divina central era o Deus-Sol-invicto, que era venerado no primeiro dia da semana. A palavra “domingo”, em inglês, ainda conserva essa referência a isso com o título “sunday” (dia do sol). Em diversos outros idiomas há ainda essa associação. A língua portuguesa é uma das que não mais conserva a tradição. Foi nesse contexto que Constantino, após convertido ao cristianismo, determinou que a natividade de Cristo (Natal) fosse comemorada no dia do Deus-Sol, 25 de dezembro. Foi uma forma de demonstrar que Jesus era o novo Deus-Sol da humanidade. A Igreja Católica, aproveitando a norma estatal de Constantino e considerando aquilo que já era praticado em grande parte das comunidades cristãs, alguns anos depois, no Concílio de Niceia, aprovou a permuta da observância do sábado pelo domingo. Alguém poderá dizer: então, foi o imperador romano que determinou a mudança. Não exatamente. Tratava-se de um costume, que já tinha muita adesão no meio cristão a observância do domingo, então os padres conciliares, aproveitando o fato de ter a seu favor a norma estatal, aprovaram a transferência do descanso semanal para o domingo, que passou a ter esse nome “dominica”, dies Domini, dia do Senhor.

Meus amigos, devemos considerar como o que de fato importa é o dia do descanso semanal, o dia dedicado ao Deus criador. Se este dia for o sétimo, ou o primeiro da semana, é de somenos importância. Apenas numa visão estreita e literal da Bíblia ainda se continua a bradar contra essa mudança. Mas não podemos esquecer que “o Filho do Homem é senhor também do shabat”, isto é, do dia do descanso. Foi o que ele sinalizou, ao ressuscitar no primeiro dia da semana.

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