sábado, 19 de maio de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - DOMINGO DE PENTECOTES - 20.05.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DE PENTECOSTES – 20.05.2018 – ESPÍRITO DE UNIDADE

Caros Leitores,

O domingo de Pentecostes encerra o tempo pascal. Entre o domingo da Ressurreição e o domingo de hoje, a liturgia rememora o período em que Jesus ressuscitado continuou aparecendo e fortalecendo a catequese dos apóstolos, reforçando a preparação deles para a missão de evangelizar. A doutrina teológica considera o evento de Pentecostes como a fundação oficial da igreja de Cristo, dada a repercussão que o fato teve na cidade de Jerusalém, atraindo grande número de moradores e visitantes para a casa onde estavam os apóstolos e que fora alvo de um de grande ruído e tremor. Havia muita gente em Jerusalém nesse dia, porque era uma festa tradicional dos judeus, a Shavuot, que é celebrada também cinquenta dias após a Páscoa e representa o dia em que Javeh outorgou a Moisés as tábuas da lei (os dez mandamentos). A festa judaica é celebrada ainda nos dias de hoje, portanto, é uma festa multimilenar.

Tal como a festa da Páscoa não foi inventada pelo cristianismo, pois ela já existia desde tempos imemoriais, também a festa de Pentecostes era uma festividade tradicional dos judeus, muito anterior ao cristianismo. Ocorre que Cristo aproveitou essas festas que congregavam multidões para conferir-lhes um novo sentido. Assim, depois de Cristo, a Páscoa não é mais a mesma nem Pentecostes é mais o mesmo. A ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito se deram no contexto celebrativo dessas festas para que, na infinita sabedoria de Deus, mais pessoas pudessem ter contato com esses fatos marcantes da história da salvação e assim houvesse uma maior divulgação da mensagem de Cristo. Tem ainda a característica de agregar pessoas de diversas nacionalidades, que vinham até Jerusalém a fim de participarem dessas festas, desse modo a pregação dos apóstolos no dia de Pentecostes foi ouvida e admirada por um grande número de estrangeiros presentes em Jerusalém, não apenas por judeus. Esses estrangeiros estavam ali para a celebração do Shavuot tradicional, o 50º dia da Páscoa, mas a vinda do Espírito transformou essa antiga festa em Pentecostes, dando a ela um novo significado. Este novo evento foi testemunhado por todos e marcado indelevelmente pelo milagre da poliglossia (a multiplicação das línguas). De acordo como relato de Lucas, nos Atos dos Apóstolos, todos os presentes testemunharam aquele milagre: cada um dos estrangeiros ouviam a Palavra de Deus em sua própria língua. Não porque os Apóstolos tivessem, de repente, se tornado poliglotas, eles continuavam sendo os pescadores semianalfabetos de antes, mas pela ação do Espírito, as palavras por eles pronunciadas, em seu idioma natural (eles falavam aramaico), os ouvintes ouviam 'como se' eles estivessem falando a língua deles. Lucas dá uma pequena amostra das diversas etnias e procedências daqueles ouvintes: “partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia, próxima de Cirene, também romanos” e mais cretenses e árabes, judeus e prosélitos. O fato de todos ouvirem a mensagem de Cristo na própria língua confirma a universalidade do cristianismo e corrobora a missão dada por Cristo aos apóstolos no sentido de que pregassem o evangelho a todos os povos.

Meus amigos, o vocábulo “espírito” usado no nosso idioma não dá a dimensão mais exata do termo grego original “pneuma”, traduzido em português por “espírito” à falta de uma palavra melhor. Com efeito 'pneuma' é o sopro vital, o hálito, a respiração. A palavra 'espírito', chegada até nós através do latim 'spiritus', não tem essa mesma abrangência semântica. Ao receberem o 'pneuma', os Apóstolos ganharam um novo sopro vital, uma nova energia, um novo alento. Eles superaram a timidez inicial e adquiriram uma invejável coragem a ponto de darem a própria vida em testemunho de Cristo. Durante toda a semana passada, as leituras litúrgicas, sempre tiradas de Atos, mostravam as tribulações, as humilhações, as prisões, as condenações dos apóstolos por causa da sua pregação no meio dos judeus. Foi o Espírito que transformou aqueles pescadores de peixes em pescadores de homens, conforme Cristo havia prometido. O Espírito confirmou isso.

Na leitura do evangelho, extraído de João 20, 22, lemos que Jesus “soprou sobre eles e disse: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos' ”É curioso o fato de João não se referir às línguas de fogo, logo ele que era um dos presentes no Cenáculo naquele dia memorável de Pentecostes. João relata de um modo diferente o recebimento do Espírito pelos Apóstolos: foi um 'sopro' de Cristo sobre eles. Sopro é exatamente um 'pneuma'. Soprando, Cristo conferiu aos Apóstolos o Espírito (Pneuma), que tinha como objetivo nesta ocasião, a transmissão do poder de perdoar. O Papa Francisco, como sempre nos surpreendendo, no sermão para os peregrinos presentes na Praça de São Pedro, em Roma, explicou que os apóstolos receberam duas vezes o Espírito. A primeira, foi na tardinha do mesmo domingo da ressurreição, quando Jesus apareceu e soprou sobre eles, de acordo com o relato de João. Essa foi uma forma privada. A segunda vez foi de uma forma pública. Depois de subir ao céu, Jesus pediu aos apóstolos que não se ausentassem de Jerusalém e aguardassem porque, dentro de poucos dias, eles receberiam a confirmação de tudo o que haviam aprendido, através da vinda solene do Espírito do Pai. E assim deu-se naquele domingo da festa judaica de Shavuot, com grande alarde de modo a chamar a atenção de muitos, a descida do Espírito. Maria estava com eles naquele evento histórico que marca o início oficial da Igreja de Cristo, significando assim o papel fundamental de Maria como mãe da Igreja, conforme é celebrado na teologia e na liturgia.

Então, como lemos em João 20, 22, é através da transmissão do Espírito que Cristo dá aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, sendo este relato de João o fundamento teológico do sacramento da penitência. Portanto, quando o padre confere a absolvição ao pecador que confessa e se arrepende de seus pecados, na verdade, é o Espírito que confere o perdão. E por que o Espírito é o vetor do perdão? Porque o Espírito é o Amor de Deus. Deus é tão infinitamente enorme que a sua Palavra, poderosíssima, se converte em uma outra Pessoa divina, o Filho; e o Amor de Deus é tão desmedido e poderosíssimo que se converte em outra Pessoa divina, o Espírito. Então, o arrependimento é o sintoma do amor. Quem não se arrepende, é porque não ama, e a esses os pecados não serão perdoados, ficarão retidos. É o Amor do Pai, em forma de Pessoa divina, que nos reinsere no convívio com Ele, quando nos arrependemos, isto é, quando nos abrimos ao Amor de Deus. E ninguém ama a Deus se não ama também o próximo. Portanto, não basta o amor a Deus, mas esse amor tem que se replicar no amor dos irmãos. A falta de amor é a essência da falta de arrependimento e essa atitude bloqueia o Amor de Deus, que não consegue penetrar o coração de quem não ama, para livrá-lo das culpas, por isso, os pecados de quem não se arrepende ficam retidos, permanecem consumindo o pecador, escravizando-o.

Na leitura da primeira carta aos Coríntios (1 Cor 12, 3) Paulo faz uma exposição bastante didática sobre a ação do Espírito enquanto amor do Pai quando afirma que não existe apenas uma forma de amar, mas diversas formas válidas. “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus ” (1 Cor 12, 4-5). São os carismas e os dons próprios de cada pessoa, que são inerentes à sua natureza mas são potencializados com a presença e a ação do Espírito. Houve uma época em que a teologia afirmava que somente na Igreja Católica se realizava a verdadeira comunhão com Cristo. Mas com o advento das doutrinas ecumênicas, embora a doutrina continue afirmando que a 'ekklesia' tutelada pelo sucessor de Pedro seja a genuína, no entanto, reconhece que as diversas comunidades que vivenciam os ensinamentos de Cristo formam uma grande 'comum unidade', porque o Espírito é um só. Se ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor” senão no Espírito, concluímos que todos aqueles que professam sua fé em Cristo de modo legítimo, através do seguimento de sua doutrina e do cumprimento de seus mandamentos, fazem isso por obra do mesmo Espírito. E mesmo aquelas pessoas que não professam publicamente uma fé religiosa, mas que agem de acordo com os valores éticos e humanos, também estes, mesmo sem saber, estão na comunhão do Espírito.


terça-feira, 15 de maio de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - ASCENSÃO DO SENHOR - 13.05.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA ASCENSÃO - A ELEVAÇÃO DE JESUS– 13.05.2018

Caros Confrades,

Neste domingo, celebramos a festa da Ascensão do Senhor. Convém lembrar que o dia litúrgico próprio é na quinta feira passada, dia 15, quando se completaram os 40 dias após a ressurreição. Segundo o testemunho de Lucas, nos Atos (1, 3): Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus. E convém sempre lembrar também que a simbologia do número 40, repetida em diversas passagens da Escritura, não significa que a ascensão de Jesus tenha sido exatamente 40 dias de calendário após a ressurreição. Na verdade, Jesus passou um tempo fazendo uma espécie de reciclagem com os apóstolos, recordando as lições transmitidas na sua pregação e confirmando com prodígios perante eles, de modo a fortalecer-lhes sempre mais a fé. Jesus sabia que eles eram homens rudes e não tinham assimilado bem a catequese estudada no período de três anos. Por isso, foi necessário esse “reforço escolar”, como se faz com os alunos que têm dificuldade de aprendizagem.

Na primeira leitura, temos o relato de Lucas, nos Atos dos Apóstolos, contando detalhadamente a ocorrência da despedida de Jesus. Depois daqueles dias de aulas de reforço, Jesus compreendeu que estava concluída a sua missão e pediu para os apóstolos que não se afastassem de Jerusalém, porque em breve eles iriam ser batizados com o Espírito, conforme a promessa do Pai. Eu fico imaginando a sua decepção quando um dos apóstolos, naquele momento, ainda perguntou se era agora que ele iria restaurar o reino em Israel... Acho que foi por isso que Jesus resolveu chamar Saulo e operar o milagre de sua conversão. Com aquele grupo de pescadores, a pregação do evangelho não teria ido muito além de algumas cidades do Oriente Médio. Jesus Cristo respondeu a essa ingênua pergunta de forma gentil e ao mesmo tempo enigmática: não vos cabe saber o dia nem a hora que o Pai determinou. E novamente confirmou a promessa da vinda do Espírito, que lhes traria o verdadeiro 'conhecimento' da doutrina, tal como dirá depois Paulo, na carta aos Efésios, que está na segunda leitura de hoje (Ef 1, 17): o Pai a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer. Foi exatamente isso que ocorreu com os apóstolos.

Junto com a confirmação dessa promessa do Pai, Cristo reafirmou aos apóstolos o motivo para o qual tinham eles sido chamados para o convívio mais próximo com Ele: (Atos 1, 8): para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra'. Na ocasião, eles provavelmente estavam em Jerusalém e foi lá também que aconteceu o Pentecostes poucos dias depois. Mas é digna de nota a citação da Judéia e da Samaria, pelo seguinte: a Judéia foi onde Jesus desenvolveu a sua catequese, andando por diversas cidades da região. E a Samaria era aquele grupo de judeus dissidentes, que eram inimigos do pessoal da Judéia. Um judeu mudava de lado da rua, se viesse ao encontro dele um samaritano. Mas Jesus foi lá, conversou com a mulher na beira do poço, aceitou o convite de ir até a cidade dela e realizou ali muitas conversões. Se nós trouxermos essa rivalidade para os dias de hoje, podemos interpretar que Jesus estaria se referindo aos cristãos dissidentes, que formam outras igrejas e também se reúnem em nome de Cristo. Tal como era no tempo de Cristo, a religião nem sempre é uma atividade que congrega, algumas vezes também desagrega. Mas é preciso ir em busca, não relegar, mas conviver, tal como Jesus deu o exemplo na sua convivência com os samaritanos. E a referência aos confins da terra certamente diz respeito a nós, que não somos nem judeus nem samaritanos, mas fomos convidados e aceitamos participar da boa nova da salvação.

Na segunda leitura, da carta aos Efésios (1, 17-23), Paulo repete uma lição que está presente nos evangelhos e que denota ser expressão comum nas comunidades cristãs primitivas: depois de concluir sua missão, Jesus voltou para se assentar à direita do Pai, bem acima de toda autoridade e potência. Era o costume nas sociedades antigas que o lugar à direita do rei era o da maior confiança e dava a idéia de igual poder. Todos nós sabemos que, na dimensão da eternidade, não há tempo nem lugar, de modo que sentar à direita ou à esquerda, ou atrás ou na frente, não faz qualquer sentido. Mas essa simbologia demonstra que a fé dos cristãos em Jesus, desde os primeiros tempos, era de que ele tinha idêntica situação com o Pai e idêntico poder. E nesta mesma carta, Paulo ensina a sua doutrina do corpo místico, que é a Igreja, da qual Cristo é a cabeça e está ao lado do Pai. Em verdade, Jesus não mandou os apóstolos fundarem uma igreja (ekklesia=comunidade), isso foi uma decorrência natural da necessidade de organização das atividades para as quais Jesus lhes havia enviado em missão. A questão é que, com o passar do tempo e sob a influência da cultura medieval, a comunidade tornou-se uma entidade cheia de burocracia... mas isso é outra história. Retorno ao tema inicial.

No evangelho de Marcos lido neste domingo (Mc 16, 15-20), está a mesma imagem de Jesus sentado à direita do Pai: “Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus. ” Aqui há um outro conceito que eu pretendo explicitar, além de sentar-se à direita, que é a imagem da elevação de Jesus. De acordo com a tradição, a elevação de Jesus teria sido em Jerusalém, onde existe até uma capela erguida no local do fato. Porém, no evangelho de Lucas, consta que teria sido em Betânia: “Ele os levou até Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, apartou-se deles e foi elevado ao céu. Eles, tendo-o adorado, voltaram para Jerusalém com grande gozo». (Lucas 24, 50-52) Nos outros, não há referência ao local, Contudo, o mesmo Lucas, em Atos 1, 12, diz: “Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras, o qual está perto de Jerusalém, à distância do caminho de um sábado”, sugerindo que a elevação se deu no monte das Oliveiras, aonde Jesus gostava de ir com os discípulos. Não deixa de ser curioso que o mesmo escritor (Lucas), em duas narrações distintas, refira-se a lugares diferentes, dando a entender que ou ele não conhecia a região ou não teve o devido cuidado de organizar os textos que lhe serviram de fonte. Deve ser a primeira hipótese, pois Lucas era um médico grego, natural de Antioquia, provavelmente ele não conhecia mesmo os locais por onde Jesus havia passado.

Em verdade, esse é apenas um detalhe de pouca importância. A grande verdade que se extrai dessa narrativa é que Jesus, ao elevar-se para o céu com um corpo visível, elevou com ele a sua condição humana, isto é, a nossa humanidade que ele assumiu também foi sentar-se à direita do Pai. Com a ascensão de Jesus, restaurou-se a união entre Deus e os homens, rompida pelo pecado, união esta simbolizada nas duas naturezas de Cristo. Ao elevar-se e assentar-se à direita do Pai, Jesus levou consigo a humanidade redimida, dando-nos uma visão antecipada daquilo que ocorrerá com todo aquele que crer nele. Esta promessa está descrita assim no evangelho de Marcos (16, 16): Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Não devemos entender nessa afirmação, como querem alguns, que basta ser batizado para ser salvo, nem também o oposto, isto é, quem não for batizado estará condenado. Na verdade, crer em Jesus não é uma decisão momentânea e isolada, apenas para receber o batismo, mas é uma atitude que se renova a cada dia, quando damos testemunho da nossa fé nas nossas vivências sociais, nas obras que realizamos. Então, a fé será superior ao batismo, na medida em que este é a confirmação externa daquela. A salvação está prometida para aquele que crê na prática, não apenas na teoria, pois o simples batismo não conduz automaticamente à salvação, se não for confirmado com as obras coerentes e exemplares. Isso quer dizer que o batismo é um ritual para o crente ser admitido na Igreja, mas isso não significa que o não batizado estará ipso facto fora da salvação. O Papa Francisco, a contragosto dos burocratas do Vaticano, vem repetidamente ensinando que a salvação é alcançada por todas as pessoas que têm Deus no coração, independentemente de sua opção religiosa. A meu ver, isso representa a superação de uma antiga doutrina de que fora da Igreja Católica não há salvação. A fé em Deus deve ficar acima das diversas religiões, porque um só é o rebanho e um mesmo é o Pastor.

Com um cordial abraço a todos.
Antonio Carlos

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 6º DOMINGO DA PÁSCOA - 06.05.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 6º DOMINGO DA PÁSCOA – ESCOLHIDOS PELO PAI – 06.05.2018

Caros Confrades,

Neste 6º domingo da Páscoa, as leituras nos revelam o quanto somos privilegiados: não fomos nós que escolhemos o Pai, mas foi o Pai quem nos escolheu. E Jesus Cristo nos ensina como é que devemos fazer para merecer tão grande distinção nessa escolha: se guardardes os meus mandamentos, permanecereis em mim, assim como eu guardo os mandamentos do Pai e permaneço nele. E o mandamento de Cristo, todos nós já sabemos: é o mandamento do amor. E não há ocasião melhor para falar sobre esse assunto do amor do que nesta semana que antecede a festa das mães.

Na primeira leitura, do livro dos Atos (At 10,25), podemos perceber o amadurecimento da ideia da salvação trazida por Cristo na mente dos apóstolos, através do discurso de Pedro perante os gentios de Cesareia, liderados por Cornélio, que era um centurião romano convertido ao cristianismo e que influenciara a conversão de muitas pessoas daquela cidade, porém ainda não tinham sido batizados. Nos versículos anteriores (Atos 10, 10-14), Pedro se vira numa situação embaraçosa, que foi a seguinte: estava com fome e teve uma visão de um grande lençol que descia do céu cheio de animais e aves, e o anjo lhe disse para escolher a comida. Pedro se recusou, porque havia ali animais que os judeus consideravam impuros, então o anjo disse: não tenhas por impuro aquilo que Deus purificou. Foi quando Pedro recebeu a visita dos emissários de Cornélio, que foram convidá-lo para ir até a casa deste, e Pedro foi. Ao chegar lá e vendo grande quantidade de gentios convertidos, Pedro pronunciou um discurso que hoje seria denominado de ecumênico: “estou compreendendo que Deus não faz distinção entre pessoas, pelo contrário, Ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença”. Este discurso é significativo porque dá a entender que, até então, Pedro ainda tinha dúvida sobre o modo de apresentar a mensagem de Cristo aos gentios, porque havia aquela famosa discussão se os pagãos, ao se converterem, deviam aceitar os costumes judeus como condição para a sua conversão. Mas naquela ocasião, ele declarou que afinal tinha compreendido que isso não era necessário, pois Deus havia purificado os pagãos da mesma forma que purificara os alimentos considerados impuros pelos judeus. E diz o texto de Atos (10, 44) que Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a sua palavra. Isso veio corroborar o que Pedro acabara de afirmar, isto é, o Espírito Santo confirmou o discurso de Pedro perante todos os presentes. E continua o texto de Atos (10, 45) afirmando que os “judeus” ficaram admirados ao verem o Espírito Santo descendo também sobre os pagãos, eles que se consideravam os autênticos seguidores de Cristo, por serem judeus convertidos e pensavam ser necessário que os pagãos primeiramente se tornassem judeus (pela circuncisão), para depois se tornarem cristãos.

Com efeito, o texto latino traduzido pela CNBB usa aqui a palavra 'judeus', mas o texto original de São Jerônimo diz 'circuncisione fideles', ou seja, os que eram leais ao judaísmo, que acreditavam na circuncisão. Nesse contexto, ficou então decidida a polêmica, confirmando-se que a circuncisão não seria necessária, passando a prevalecer o entendimento de que não deve haver distinção entre judeu, grego, romano ou asiático ou de qualquer outra nação, circunciso ou incircunciso, pois o Espírito de Deus foi derramado sobre os pagãos na presença dos judeus. Na verdade, o que deve prevalecer entre os discípulos de Cristo não é a nacionalidade ou a herança genética, mas a observância do seu mandamento do amor.

Na segunda leitura, da carta de João (1Jo 4, 7-10), o apóstolo repete o tema que lhe é tão caro em todos os seus textos: amemo-nos uns aos outros, porque todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. E então, ele confirma que nós fomos escolhidos, nós não escolhemos: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho ” (1Jo 4, 10). Esta afirmação de João guarda total sintonia com o discurso de Pedro, referido na primeira leitura, razão pela qual a mensagem cristã chegou até nós. Os judeus pensavam que eles eram os escolhidos, porque eram os herdeiros da antiga aliança. Mas os judeus recusaram a aceitar Cristo como o Messias, então Jesus mandou os apóstolos a pregarem a sua mensagem a todos os povos da terra. E confirmou isso com demonstrações extraordinárias, como o fato narrado na leitura dos Atos 10, referida acima, em que os fiéis judeus viram o Espírito Santo descer sobre os gentios convertidos, antes mesmo que estes fossem batizados. Foi quando Pedro falou: “'Podemos, por acaso, negar a água do batismo a estas pessoas que receberam, como nós, o Espírito Santo?' E mandou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.” (At 10, 47-48). A descida do Espírito Santo era a confirmação de que o Pai havia escolhido aqueles gentios e retirou da mente de Pedro qualquer dúvida que ele ainda tinha acerca da universalidade da salvação.

Na leitura do evangelho de João (Jo 15, 9-17), aparece este mesmo ensinamento, agora colocado na boca de Cristo: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi ” (Jo 15, 16). Jesus falava isso para os apóstolos, mas a escolha se estende a todos nós, cristãos. Deus nos amou primeiro e nos escolheu, ou seja, nos deu o privilégio de sermos seus amigos. E mandou o Filho para nos revelar isso e nos ensinar como devemos proceder para permanecermos nessa divina amizade. Em Jo 15, 14 Jesus diz que “vós sereis meus amigos se fizerdes o que eu vos mandei”. E o que foi que ele mandou? Isso todos já sabemos: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. ” (Jo 15, 12) E explica: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. ” (Jo 15, 10) Então, meus irmãos, a única exigência para permanecermos amigos do Pai é esta e está dita com todas as letras, não há como não compreender. No vers. 15,15 essa amizade está mais do que confirmada: “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. ” Pensemos bem nesse tão grande privilégio com que o Pai nos distinguiu: sermos escolhidos por ele. E a condição é também totalmente acessível a qualquer pessoa: amar o próximo.

A propósito da festa das mães, no próximo domingo, temos um momento oportuno para falar do amor na sua forma incondicional. Uma empresa colocou um anúncio de contratação de empregados, que deviam ter as seguintes qualificações: entender de medicina, psicologia, economia, gastronomia; estar disponível para trabalhar 24 horas por dia e 7 dias por semana, sem descanso e sem horário para dormir, monitorar constantemente os seus subordinados e acompanhá-los mesmo durante a noite; não há férias, não há salário, não há aposentadoria. E os pretendentes faziam cara de estupefação: isso não é emprego, é escravidão, é impossível alguém aceitar esse encargo. Então, o entrevistador dizia que aquela função era ser mãe e todos, sem exceção, concordaram que essas qualificações são todas reais em todas as mães. E o mais notável e incompreensível de tudo isso é que, mesmo sabendo com antecipação de que a situação é assim, todas as mulheres querem ser mães. E aqui deixem-me puxar um pouco a brasa para a sardinha dos pais, porque a maternidade é compartilhada com a paternidade, tanto a paternidade quanto a maternidade vêm de Deus e têm a mesma dignidade.

Pois bem. O Pai nem exige tanto de nós para continuarmos na condição de amigos dele, e se pensarmos que mães e pais se dispõem a tanta dedicação quando decidem gerar um filho, podemos concluir que não é muito o que Deus nos pede para sermos amigos dele. Se as pessoas são capazes de tanta abnegação e disponibilidade por uma causa oriunda da natureza, é só direcionar esse mesmo comportamento para o bem dos irmãos, por uma causa oriunda do espírito, e assim estaremos sendo fiéis ao mandamento de Cristo e nos dignificando para merecermos a sublime honra de sermos amigos do Pai.

Cordial abraço a todos.
Antonio Carlos

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 5º DOMINGO DA PÁSCOA - 28.04.2018



COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO DA PÁSCOA – A TRINDADE DA UNIDADE – 28.04.2018



Caros Confrades,



A liturgia deste 5º domingo da Páscoa nos convida a refletir sobre a nossa inserção na Trindade Santa, a partir da parábola da parreira e seus ramos. Cristo é a parreira, nós somos os ramos e o Pai é o agricultor (Jo 15, 1). Se o ramo não estiver conectado na parreira, vai secando até morrer. A primeira leitura, retirada do livro dos Atos (At 9, 26) falando da conversão de Saulo, mostra que, de início os cristãos o rejeitaram, por causa da sua fama de perseguidor, sendo necessária a intervenção de Barnabé, para que ele foi inserido no grupo dos discípulos. E a Carta de João nos lembra que é através do Espírito que nós sabemos da nossa inserção em Deus.



A parábola da parreira ou da videira não se encontra nos outros evangelhos, apenas no de João, o que indica que foi uma lembrança que o próprio evangelista guardou e não era conhecida dos outros escribas. Visto que o evangelho de João foi escrito só no final do primeiro século, o exemplo da parreira reflete também o amadurecimento teológico da doutrina cristã, e se encaixa bem na teologia joanina, exposta nas suas cartas, como se vê no texto da segunda leitura deste domingo (1 Jo 3, 18). Falar na imagem da parreira e dos seus ramos não é algo muito familiar para a nossa cultura, pois poucos nordestinos têm experiência própria desse tipo de cultivo, o qual é mais comum no sul do Brasil. Essa imagem bíblica, trazida para a nossa realidade regional, bem se que se assemelha com um pé de tomate ou de maracujá, que estende seus ramos para as estruturas de apoio, que comumente os agricultores colocam. Mantém-se assim a mesma simbologia da união que deve haver entre os ramos e o tronco, sem o que a produção é impossível e sem o que o ramo desgarrado resseca e morre. Se Cristo tivesse sido nordestino, teria usado a imagem do tomateiro ou o maracujazeiro, adaptando a parábola evangélica aos padrões da nossa cultura regional.



Então, Cristo diz que Ele é a parreira (e nós diríamos, o tomateiro) e o Pai é o agricultor. E depois completa: e vós sois os ramos. Assim como é necessário que o ramo permaneça unido ao tronco para que produza frutos, também nós precisamos permanecer unidos a Cristo, para que possamos produzir frutos de santidade. A imagem da parreira, usada por Cristo, portanto, representa a ideia da inserção. Os ramos da planta são a imagem simbólica da comunidade, ensinando-nos que nenhum de nós pode viver a religião de forma isolada. A planta não possui um ramo só e nem esses ramos se espalham isoladamente, mas totalmente entrelaçados. Nenhum de nós pode estar unido a Cristo, se não fizer parte ativa na comunidade eclesial. A inserção na comunidade, por sua vez, se faz através da participação nos momentos celebrativos, em que toda a igreja se reúne para rezar. Ninguém desconhece o valor da oração individual, particular, mas a oração que nos une verdadeiramente a Cristo e, através dele, ao Pai e ao Espírito, alçando-nos à comunhão da Trindade Santa, é a oração coletiva da comunidade reunida. É lamentável que alguns católicos considerem que ir à missa é uma obrigação. Na verdade, essa mentalidade é fruto da pedagogia religiosa tradicional, que impôs a ideia do “preceito” dominical, em vez de ressaltar a importância da oração comunitária, A antiga pedagogia catequética colocava em primeiro plano a missa como uma obrigação, um preceito, por isso, quanto mais rápida a celebração, melhor. Podemos perceber o peso do efeito prejudicial que esse ensinamento deixou na cultura religiosa do nosso povo.



Pois bem, nós não nascemos já agarrados no tronco da parreira, nós nascemos como ramos desgarrados, que precisam ser enxertados no tronco, donde iremos receber a seiva da vida. É pelo batismo que somos enxertados nesse tronco vivo e é pela vivência do evangelho que nele devemos permanecer. E Cristo, pela boca do evangelista, nos diz textualmente: “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim.” (Jo 15,4) Porque todo ramo que, enxertado a Ele, não der fruto, o Pai o arrancará; e aquele que dá fruto, o Pai cuidará, para que dê mais fruto ainda. Então, a nossa missão de cristãos é permanecer enxertados no tronco vivo, como ramos produtivos, que o Pai limpa e poda para aumentar sempre mais a produtividade.



Na Primeira Carta (3, 24), João complementa o texto do seu evangelho, ao ensinar qual o modo de permanecermos como ramos vivos e produtivos: “Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus e Deus permanece com ele.E a conduta concreta que nos mantém enxertados no tronco da vida, João explica no vers. 18-19: não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! Aí está o critério para saber que somos da verdade e para sossegar diante dele o nosso coração. Portanto, a condição para que nós, ramos, permaneçamos enxertados na parreira e produzindo frutos é uma só: amar de verdade, com ações concretas e não apenas da boca para fora. Para guardar os mandamentos, a única receita é a prática do amor ao próximo, pois o amor faz parte da essência desse mandamento (Jo 3, 23): “Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, de acordo com o mandamento que ele nos deu.” Ou seja, meus amigos, a condição para permanecermos atrelados a Cristo-tronco é a fé nEle, que se expressa no amor aos irmãos. Não são duas coisas distintas, mas são duas atitudes que se complementam e, ao final, se transformam numa só. A fé que não se manifesta em obras é morta, portanto, não basta crer. E todo o que crê em Cristo, ama os irmãos, por quem Ele deu a Sua vida. O João ainda diz mais: como vamos saber se guardando os mandamentos, Deus permanece em nós e nós permanecemos nEle? Resposta de João: é pelo Espírito que sabemos disso. Vemos aqui, portanto, que permanecer unido a Cristo equivale a estar inserido na Trindade Santa.



Aqui podemos encaixar a primeira leitura, que narra a inserção de Saulo na comunidade dos discípulos, depois de sua conversão. Os Apóstolos ficaram com receio de recebê-lo, porque ele era conhecido como feroz perseguidor do cristianismo. De repente, ele chega querendo se aproximar, a reação natural dos apóstolos foi de recusa, porque essa podia ser uma nova estratégia de perseguição. Foi preciso que Barnabé advogasse em favor de Saulo e testemunhasse todo o processo de mudança ocorrido em sua pessoa, para que os discípulos então acreditassem e o aceitassem. Na verdade, Cristo precisava de um pregador da estirpe de Saulo, com formação intelectual e arrojo para enfrentar as dificuldades da missão evangélica. Em Atos (9, 19), o escriba fala que ele discutia com os judeus de língua grega, isto é, com os judeus intelectuais, coisa que os outros apóstolos não tinham cacife para fazer e que colocava em risco a sua própria vida, por isso, ele precisou mudar de cidade. Sem a competência de Saulo, a propagação do cristianismo na comunidade grega teria sido um fracasso. Para mim, uma das maiores provas históricas da divindade de Cristo é a conversão de Saulo.



Saulo tornou-se companheiro de Barnabé e foi por intermédio deste que decidiu trocar seu nome para Paulo. Os estudiosos não são unânimes na explicação do por que Saulo tomou essa decisão, mas a razão mais provável deve ter sido para que a mudança de nome representasse externamente a sua mudança íntima, a sua conversão, e ele queria que isso ficasse bem notório para todos. O nome Saulo é judeu, o nome Paulo é romano. O nome Saulo tem a mesma raiz do nome do rei Saul, primeiro rei de Israel, que perseguiu Davi. Ora, Cristo era descendente de Davi e Saulo não era mais um perseguidor. Além disso, era costume que os judeus convertidos mudassem seu nome judaico para um nome grego ou romano, assim como nós mudávamos o nome ao entrar no Seminário, como forma de simbolizar uma mudança no modo de vida. A mudança do nome de Saulo para Paulo significou, para ele, concretamente a sua inserção entre o discipulado de Cristo e, por via de consequência, sua inserção na Trindade Santa. E diz Lucas, em Atos (11, 26), que Barnabé e Paulo passaram um ano inteiro pregando e dando assistência à igreja de Antioquia e “Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos.” Temos aí também a origem histórica do nome de 'cristãos' atribuída aos seguidores de Cristo.



Que o exemplo de Paulo nos inspire a permanecer unidos à parreira-Cristo, guardando os seus mandamentos e amando os irmãos com ações de verdade.



Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 21 de abril de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4º DOMINGO DA PÁSCOA - 22.04.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA PÁSCOA – OS PASTORES MODERNOS – 22.04.2018

Caros Leitores,

Neste 4º domingo da Páscoa, a liturgia nos traz a conhecida imagem do Bom Pastor (Jo 10, 11). A figura romântica do pastor de outrora está muito distante da profissão de pecuarista dos dias atuais. Mesmo nos povoados mais distantes, no sertão mais distante, já não se pastoreia mais como antigamente. Os atuais pastores trabalham andando em motocicleta e os seus rebanhos são enxotados ao ronco dos motores, isto é, aquela figura tradicional do pastor, do vaqueiro, do boiadeiro só existe no nosso folclore e certamente não haverá retrocesso nisso. Devemos, portanto, repaginar essa figura, que já foi tão simbólica no passado, mas que não faz mais qualquer sentido evocá-la no mundo moderno.

Na época de suas pregações, Jesus utilizava, dentro da sua pedagogia catequética, as imagens conhecidas pelas pessoas da região, preferencialmente, as dualidades pescador-peixe e pastor-rebanho. Em diversas ocasiões, ele usou figuras e ações ligadas à profissão do pescador para associar com a missão do cristão; outras vezes, o tema foi a figura do pastor, como no caso da leitura deste domingo. A liturgia de hoje pede orações pelos nossos pastores, pelos vocacionados, religiosos e religiosas. Fico procurando na minha mente associar a imagem do pastor às autoridades eclesiásticas que temos e chego à conclusão de que muito poucas delas poderiam se enquadrar nesse figurino. Com raras exceções, não existem mais nos dias de hoje padres como o Cura d'Ars, como Frei Damião, Frei Inocêncio, Frei Higino, só para citar alguns que conhecemos e que realmente faziam o autêntico pastoreio. Quero fazer aqui uma menção especial a Dom Aloísio Lorscheider, que representava, para mim, a figura típica do pastor dos tempos pós-modernos. O que vemos no comportamento de muitos ordenados dos dias atuais são perfis de profissionais, preocupados com um “salário” que a paróquia lhe possibilita, com um “emprego” paralelo em algum colégio ou faculdade, com um veículo para se locomoverem, com uma casa confortável para morar, ou seja, um profissional liberal, como existem tantos outros na sociedade. O diferencial do autêntico pastoreio fica totalmente esquecido. Sinto-me triste em afirmar isso, mas lamentavelmente é assim a nossa realidade eclesiástica atual. Por isso, não prolongarei os comentários sobre essa figura romântica da catequese tradicional, atendo-me a outros temas postos nas leituras deste domingo.

Na primeira leitura, da carta de João (1Jo 3,2), o Apóstolo, com a sua linguagem carinhosa do pai idoso, diz que o grande presente que recebemos de Cristo foi o de sermos chamados filhos de Deus, “desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos!”. Eu entendo que João quer afirmar que, por ora, mesmo sendo pecadores e frágeis, já temos esse dom de sermos chamados 'filhos de Deus', o que será realizado em plenitude quando Jesus se manifestar em nós, porque então seremos semelhantes a ele. Penso que aqui João está se referindo explicitamente à nossa ressurreição, quando morrermos em Cristo e formos com ele ressuscitados. É como se a situação atual fosse uma antecipação do que acontecerá no futuro, para que, através do nosso testemunho, outras pessoas possam também acreditar em Jesus, filho de Deus. Se o mundo não nos conhece, continua João, é porque não conheceu o Pai. Ora, somente através de Cristo, é possível chegar até o Pai. Nós, enquanto cristãos, temos essa missão de testemunhar Cristo perante o mundo, para que assim o mundo conheça o Pai.

Coerente com este mesmo tema é a primeira leitura, retirada do livro dos Atos dos Apóstolos (At 4,8), que relata um discurso de Pedro perante os membros do Sinédrio judaico, em mais um interrogatório pelo qual passavam, por estarem realizando milagres em nome de Jesus. Muito inspirado pelo Espírito Santo, Pedro diz que não existe, debaixo do céu, nenhum outro nome pelo qual possamos ser salvos. Essa afirmação de Pedro, é a mesma que está presente na carta de Paulo aos Filipenses (2, 10): ao nome de Jesus, todo joelho se dobre... e toda língua confesse que Jesus é o Senhor. Esse tema é muito preferido entre os pregadores não católicos, desde Lutero, quando a catequese tradicional afirmava que fora da Igreja não havia salvação. Eles dizem que o catolicismo distorce a palavra de Cristo, ao transferir para a Igreja uma prerrogativa que é do Senhor. Sob certo aspecto, não lhes tiro a razão, sobretudo no exagerado devocionismo que marca a religião tradicional. No entanto, a Igreja somente poderá ser local de salvação se estiver unida a Cristo, afinal Ele é a única porta, aliás a porta estreita (Mt 7, 13), porque larga e espaçosa é a porta que conduz à perdição.

No comentário do domingo passado, fiz referência ao discurso de Gamaliel no Sinédrio, quando Pedro e João eram interrogados por estarem pregando o cristianismo. Nas leituras litúrgicas do meio da semana, foram lidos diversos trechos do livro dos Atos, sempre referindo-se a ações miraculosas feitas pelos apóstolos, logo após a ressurreição de Cristo. Foi o caso de um homem chamado Enéias, que era paralítico e estava acamado fazia 8 anos e Pedro o curou, da mesma forma como Jesus curara outro paralítico, e este também saiu andando e carregando a cama na qual jazia pouco tempo antes. Outro milagre de Pedro foi a ressurreição de uma mulher caridosa, chamada Tabita. A morte dela causou grande comoção na comunidade, porque ela fazia muito bem aos pobres, que lamentaram o fato. Pedro estava na cidade e foi avisado e, dirigindo-se até lá, orou pedindo a Jesus que a ressuscitasse, e isso aconteceu. E diz o texto: todos ficaram maravilhados e muitos habitantes creram em Jesus.

Foi por isso que Pedro foi, mais uma vez, convocado pelo Sinédrio e ali, cheio de coragem, encarou os anciãos e os chefes do povo e disse sem meias palavras: nós estamos sendo perseguidos porque fazemos o bem, pois saibam que fazemos isso em nome daquele Jesus que vós matastes... Imaginemos a cena: Pedro um pescador, uma pessoa rude e sem instrução, falando diante dos mestres e doutores da lei, os donos da sabedoria de Israel. Cumpriu-se aí literalmente aquilo que Jesus predissera, que eles não se preocupassem com o que iriam dizer, porque o Espírito falaria através deles. E o curioso é que Pedro utiliza uma imagem que Jesus havia ensinado aos apóstolos, sobre a pedra angular rejeitada pelos construtores.

Jesus era verdadeiramente um grande pedagogo. O conceito da pedra angular não era propriamente da cultura judaica, mas da engenharia romana, que naquela época era dominante no território da Palestina. Todos conhecem as famosas arcadas de Roma, fruto da engenhosa arte dos construtores romanos que, antes da existência do concreto armado com ferro, conseguiam fazer vãos enormes que se auto sustentavam, pela colocação de uma pedra em formato triangular bem no centro do arco, equilibrando o peso dos semiarcos laterais. Em qualquer foto das construções da Roma antiga é possível ver a sua presença, e a sua importância decorre do fato de que, se ela fosse retirada, toda a construção iria abaixo. Jesus traz para a sua pedagogia uma imagem importada de uma cultura que, embora não sendo nativa da cultura judaica, mas que já se tornara bastante conhecida, por causa da prolongada presença dos romanos na região. E Pedro repete este conceito perante os mestres da lei e chefes do povo, reforçando o seu discurso. É pelo nome de Jesus de Nazaré que este homem está curado diante de vós, conclui Pedro.

Assim como a figura do Bom Pastor ficou esmaecida nos dias atuais e precisa ser repensada, do mesmo modo, o modelo tradicional devocionista da religião não pode mais ser utilizado na formação da nossa juventude. Deixemos isso com os idosos que aprenderam assim, pois eles não irão mais mudar o modo de pensar, mas à juventude deve ser ensinada a religião cristocêntrica. “Em nenhum outro nome há salvação”, continua repetindo Pedro nos nossos dias. Se nos espelharmos em Cristo, iremos refletir a imagem dele para os que nos conhecem. Nesse processo, Cristo se manifestará em nós, como disse João, e seremos semelhantes a ele. Sem desmerecer a virtude e o exemplo dos santos cristãos que se destacaram na autenticidade da fé e na vivência da caridade, a pessoa de Jesus Cristo deve ser o centro da nossa atenção primordial.

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domingo, 15 de abril de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO DA PÁSCOA - 15.04.2018


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOMINGO DA PÁSCOA – O INTERCESSOR – 15.04.2018



Caros Leitores,



A liturgia deste terceiro domingo da Páscoa traz dois textos escritos por Lucas (Atos e Evangelho) e uma carta de João. Nas três leituras de hoje, encontramos alguma referência a Cristo como o defensor, o intercessor. Essa palavra é da raiz do verbo grego donde vem o termo “paráclito”, que se atribui ao Espírito Santo. Na sua carta, João diz: se alguém pecar, temos diante do Pai um Defensor. E no evangelho, Lucas relata a primeira aparição de Cristo aos apóstolos, após a ressurreição, deixando-os assustados e medrosos, pensando estarem vendo um fantasma. No final, coloca também a referência à ressurreição de Cristo que perdoa os pecados de todo o mundo. Nesse contexto do intercessor, parece-me oportuna uma reflexão sobre o conceito do pecado.



Na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos (3, 13-19), o autor narra um discurso de Pedro dirigido ao povo, certamente aos judeus, dado o conteúdo da fala, porque se refere a eles dizendo diretamente: vós o entregastes a Pilatos, vós matastes o autor da vida... porém, se vos arrependerdes, os vossos pecados serão perdoados. Eu percebi no teor dessa leitura o ranço que, durante séculos, a liturgia conservou em relação aos judeus (pérfidos judeus, assim dizia a oração oficial da sexta feira santa), situação que só começou a se abrandar após o Concílio Vaticano II, com Paulo VI. Porém, nesse discurso de Pedro, ele mesmo diz que “agistes por ignorância”, mas desse modo, se cumpriu o que todos os profetas haviam anunciado. É curiosa essa contradição, a mesma que durante séculos também perseguiu Judas, protofigura do traidor. Se a ação deles foi necessária para que se cumprissem as escrituras, então por que essa discriminação, esse repúdio? Talvez porque eles não manifestaram arrependimento público, assim como fez Myrian de Magdala (a Madalena), mas lembremo-nos de que Pedro dirige esse discurso aos judeus que o ouviam de bom grado, com certeza, em vias de conversão ao cristianismo. Realmente, essa conduta tradicional do cristianismo com relação aos judeus configura um pecado histórico, da mesma forma como foram discriminadas todas as demais religiões não católicas. Felizmente, vimos testemunhando um processo de restauração da verdade dos fatos, um esforço dos nossos Papas dos últimos 50 anos, no sentido de reaproximar os diversos credos, cujas divergências já provocaram tantas violências ao longo da história.



Eu achei interessante abordar esse tema do pecado, porque na catequese tradicional, havia uma “lista” de pecados com as devidas especificações: tal era um pecado leve ou venial, outro tal era um pecado grave ou mortal, que podia até levar a pessoa ao inferno, ou seja, criou-se uma tabela moralista na qual se enquadravam as condutas exteriores das pessoas, deixando de lado o que verdadeiramente interessa, que é o interior de cada um. A religião de exterioridades ainda está implantada na cabeça de muitos católicos, desde bispos e padres até os fiéis leigos. Deixar de ir à missa no domingo é pecado grave; deixar de fazer a comunhão na Páscoa é pecado grave; caluniar alguém é pecado venial; mentir é pecado venial... ora, meus amigos, é tempo de passar por cima desse tabelamento. Pecado é o que nos afasta do amor de Deus, pecado é faltar com a caridade. Até algum tempo atrás, era proibido aos católicos trabalharem aos domingos, porque esse é o dia do preceito. Nos dias atuais, em que muitas atividades profissionais envolvem o trabalho dominical, o católico consciente fica em dificuldade para conciliar sua fé com a sua profissão. Além disso, observem a expressão “dia de preceito”, isso indica uma coisa que se deve fazer por obrigação. Imaginem só: ir à missa porque é obrigação não adianta de nada, não é isso que Deus quer. Fazer abstinência de carne na sexta feira santa porque é obrigação não adianta de nada, não é isso que faz de você um crente, um fiel a Cristo. Tudo aquilo que é realizado simplesmente porque é obrigação não tem valor. O agente deve agir porque considera que aquela ação é boa, é útil, é louvável, é para a glória de Deus, é para o seu bem espiritual e para o bem de toda a comunidade. Deixar de ajudar ao irmão necessitado, quando se tem a possibilidade de fazê-lo, mas não se faz por omissão ou por preguiça ou por desprezo é muito mais grave do que deixar de ir à missa dominical. E como tem gente que pensa que, ao ir à missa, está garantindo a sua salvação eterna. Vejam bem, não estou afirmando que ir à missa não é importante, estou comparando os dois comportamentos. Ir à missa e não praticar a caridade com os irmãos é uma atividade vazia de sentido e de resultados, é hipocrisia.



Na segunda leitura, o apóstolo João, com a sua linguagem carinhosa de um pai idoso, admoesta: meus filhinhos, eu digo isso para que não pequeis; mas se alguém pecar, fique calmo, você não está perdido, nós temos um intercessor, um defensor junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo. E depois, dá uma alfinetada forte: se alguém diz que conhece a Deus, mas não guarda seus mandamentos, esse é um mentiroso. É mais ou menos o que eu escrevi acima, com outras palavras. E que mandamentos são esses? São aqueles que todos nós já sabemos de cor: amar a Deus e amar ao próximo, nesses dois, estão resumidos toda a lei e os profetas. Então, não basta dizer: Senhor, Senhor... todo mundo se lembra disso. Não adianta se confessar toda semana, comungar todos os dias, rezar três terços por dia, etc, se não praticar a caridade. Paulo disse isso naquele conhecido texto aos Coríntios (1Cor, 13): praticar a religião sem amor é igual a um sino que tine, só faz barulho, não tem nada no seu interior. Com outras palavras, diz João: conhecer a Deus sem cumprir os mandamentos é uma mentira. Não podemos ter assim um comportamento religioso de mentira, de fachada, de barulho. Então, é importante o ensinamento de João, porque ele sabe que todos nós somos imperfeitos, sujeitos a falhas na nossa conduta. Por isso, ele diz: eu digo isso para que não pequeis; mas, se alguém pecar, tem um jeito: Jesus é o nosso defensor, é a nossa fé nEle que possibilita a nossa remissão. Naquele que guarda a sua palavra, o amor de Deus se realiza plenamente.



Na leitura do evangelho de Lucas (24, 35-48), temos a sequência do episódio conhecido, ocorrido no próprio domingo da ressurreição, quando Jesus ressuscitado dialogou com os discípulos que iam para Emaús e os fez voltarem a Jerusalém. Ainda estavam contando o fato para os outros, quando Jesus apareceu no meio deles. Aqui estou eu, ressuscitei conforme prometi. E então, foi relembrar aos apóstolos o que havia lhes ensinado. Se não fosse essa 'prova de segunda chamada' da pedagogia de Jesus, os ensinamentos de antes teriam ficado esquecidos, pois os apóstolos eram homens rudes, não acostumados a leituras e estudos. E no final da lição, profetizou: no meu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém e vós sereis testemunhas de tudo isso. Jesus passou quarenta dias fazendo a reciclagem, dando aulões de reforço àqueles ex-pescadores, demonstrações fantásticas de seu poder, para que assim eles se firmassem na fé. Nenhum dos evangelistas relata que Jesus tenha perguntado a Pedro porque o negara diante dos palacianos, pois Jesus sabia que o conhecimento deles ainda era muito superficial, era necessário um aprofundamento, uma revisão geral. Quando, por fim, receberam o Espírito, então estavam preparados pro que desse e viesse, foi o que aconteceu. Então, se explica aquele discurso de Pedro aos judeus, relatado por Lucas na primeira leitura deste domingo.



Nas leituras da liturgia diária da semana, são lidos vários trechos dos Atos dos Apóstolos, relatando as primeiras pregações dos apóstolos, as prisões que eles sofreram, as chicotadas e a perseguição dos fariseus e saduceus, proibindo-os de falar em nome de Jesus. Quanto mais eles eram proibidos de falar, mais falavam. Dentre essas, uma que merece destaque é a leitura de Atos (5, 34), onde temos o ponderado discurso de Gamaliel, que era mestre da lei e membro do Sinédrio, dizendo: 'deixai esses homens irem embora, porque se o projeto deles for obra humana, daqui a pouco se acaba, mas se for obra divina, vós não conseguireis detê-los.' E o seu conselho foi seguido pelo Sinédrio. Através desse conselho de 'deixar os apóstolos irem embora', Gamaliel estava, com sábia argumentação lógica e jurídica, ao mesmo tempo, querendo livrar os apóstolos daquela incômoda situação e ainda insinuando que a obra deles era de origem divina e que as perseguições não iriam detê-los. Como de fato, a história comprovou que a profecia de Cristo sobre o anúncio do Seu nome para o perdão dos pecados de todas as nações foi testemunhado tanto pelos apóstolos, como é ainda testemunhado por nós nos nossos dias. Porém, para sermos autênticos discípulos de Cristo e testemunhas da sua palavra, será necessário desmistificar o conceito burocrático de pecado, que a pedagogia catequética nos ensinou, para assumirmos aquele compromisso definido por João: conhecer a Deus é guardar os mandamentos.

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domingo, 8 de abril de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 2º DOMINGO DA PÁSCOA - 08.04.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA PÁSCOA – CRER SEM TER VISTO – 08.04.2018

Caros Leitores,

Neste segundo domingo da Páscoa, a liturgia nos oferece apenas leituras do Novo Testamento – Atos dos Apóstolos e escritos de João (epístola e evangelho). A leitura dos Atos sinaliza o tempo inicial das comunidades cristãs, enquanto os escritos de João representam o pensamento teológico mais evoluído dos tempos posteriores. Observemos que o evangelho e as cartas de João são, no aspecto cronológico, os últimos escritos do NT, pois foram elaborados por volta do ano 100 d. C., muito após João ter saído do seu exílio na ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse. Na tradição medieval, este domingo era conhecido como Pascoela, que era a oitava da Páscoa. Naquela época, as festas mais importantes duravam oito dias, por isso, este era o domingo da oitava da Páscoa.

Na leitura dos Atos dos Apóstolos (4, 32-35), o cronista relata a vida das primeiras comunidades cristãs, onde os convertidos colocavam todos os seus bens à disposição dos Apóstolos, para divisão entre os irmãos mais necessitados, de modo que ninguém se sentia dono de alguma coisa, mas tudo era literalmente de todos. Esse sentimento de comunidade autêntica, historicamente, só se verificou nesses primeiros tempos, os chamados tempos apostólicos, pois logo que o cristianismo foi-se divulgando entre os povos das culturas diversas, e sobretudo após a morte dos Apóstolos, novas práticas e novas influências culturais foram-se infiltrando nas comunidades. Tal sentimento de pertença foi revivido nas nossas congregações religiosas, também nos tempos românticos até os anos de 1970. Depois que se iniciou o processo de globalização e com a abertura pós-conciliar, nem mesmo nas comunidades religiosas houve mais espaço para esse tipo de conduta solidária. Pensando em termos da mentalidade contemporânea, apresenta-se como uma vivência utópica e inexequível, no entanto foi esse o modelo proposto, por exemplo, por São Francisco, quando disse que os frades não deveriam receber pecúnia, mas apenas o necessário para o seu sustento. Bem diferente é a situação nos dias atuais.

Na segunda leitura deste domingo, temos a Carta de João (1Jo 5, 1-6), de cujo texto podemos destacar duas lições. A primeira está no vers. 3: “pois isso é amar a Deus: observar os seus mandamentos, e os mandamentos de Deus não são pesados.” Ou seja, trata-se do mandamento do amor, aquele que Cristo resumiu no lava-pés, quando disse: “eu vos dou um novo mandamento – que vos ameis uns aos outros”, este é o sinal pelo qual os cristãos devem ser reconhecidos. Por isso, João diz que os mandamentos não são pesados, porque não existe algo mais digno e prazeroso do que amar. E quem ama aquele que gerou amará também o que d'Ele nasceu. Portanto, ficam em segundo plano aqueles mandamentos da lei de Moisés, da antiga aliança. Agora, com o novo mandamento, os antigos 10 são resumidos em apenas 2: amar a Deus e ao próximo.

A segunda lição está no vers. 6: “Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. Nâo veio somente com água, mas com a água e o sangue.” João refere-se claramente ao batismo e ao calvário, isto é, o batismo apenas não salva, não basta ser batizado, mas é preciso participar também da morte e ressurreição de Cristo, através do sacrifício eucarístico. Para sermos merecedores da salvação, direito conquistado com o batismo, devemos participar com Ele da sua cruz através da memória da redenção, que se renova a cada dia na celebração eucarística. João reforça o trabalho de Paulo, com o objetivo de evitar certas deturpações da doutrina cristã por parte dos judeus convertidos, no tempo das primeiras comunidades cristãs, colocando em choque os ditames do antigo testamento com o novo testamento. O batismo representa o final da antiga aliança e a morte- ressurreição de Cristo representam o início da nova aliança. Os dois são inseparáveis: água e sangue.

Na leitura do evangelho de hoje, também de João (Jo 20, 19-31), está relatado o episódio da incredulidade de Tomé, que se transformou em conhecida história popular – o teste de São Tomé. Mas passando um pouco adiante dessa história, vamos observar, no vers 22, uma declaração importante de João. Diz ele que Jesus “soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo...” Vemos aqui o Pentecostes descrito por João, bem diferente das narrações dos outros textos, que falam em vendaval e línguas de fogo, conferindo uma dimensão bem mais dramática ao episódio. Na narração joanina, ao contrário, isso foi muito tranquilo. Cristo soprou e conferiu o Espírito aos apóstolos nesta sua primeira 'visita', ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana. Sem desmerecer as outras narrativas, mas devemos nos lembrar que João estava lá, enquanto os outros escritores não estavam. Além disso, João escreveu o seu texto depois dos outros narradores, o que nos possibilita deduzir que João conhecia o que os outros haviam escrito, mesmo assim, ele fez uma descrição diferente daquele importante evento. Na verdade, João está querendo destacar fatos importantes que ocorreram “no primeiro dia da semana”, enfatizando um costume que já se iniciara de mudar o dia do Senhor para o domingo, e não ser mais para o sábado, como era na tradição judaica.

Outro detalhe interessante: Tomé não se encontrava com os doze e disse que só acreditaria vendo. Oito dias depois, isto é, no domingo seguinte, outra ênfase para o domingo, Jesus apareceu-lhes novamente e mostrou as cicatrizes para o incrédulo Tomé. O destaque que João faz desse episódio tem uma razão especial: o intuito de catequizar as novas comunidades acerca da importância de ter fé em Cristo mesmo sem tê-lo visto, pois na época em que João escreveu, já fazia bastante tempo da morte de Cristo. Então, o exemplo de Tomé fazia uma pedagogia de reforço, para animar os novos cristãos, que não chegaram a conhecer pessoalmente a Cristo, quando este disse que: “bem aventurados os que creram sem ter visto.” E como João sabia que este escrito ia ser distribuído para muitas comunidades na Ásia Menor, ele complementa dizendo que Jesus havia realizado muitas outras maravilhas, que não foram escritas naquele livro, as que estão escritas são apenas uma amostra de tudo o que Ele havia feito.

Ainda nesse evangelho de João do domingo de hoje temos um trecho que suscita grande polêmica, que está no vers. 23: “a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, serão retidos”. A teologia considera este versículo como o fundamento teológico do sacramento da penitência. Muitas vezes, se ouve as pessoas dizendo 'sacramento da confissão', mas não é bem assim, é o sacramento da penitência e da reconciliação, decorrente do arrependimento. Conforme se verifica no texto joanino, Cristo fala em perdoar os pecados (subentende-se dos pecadores arrependidos) e reter, isto é, não perdoar, dos que não se arrependem. Cristo não disse que o pecador devia ir até os apóstolos e 'narrar seus pecados' (confessar os pecados) para poder ser perdoado, a ordem de Cristo se concentra no perdão ligado ao arrependimento. Por que, então, a Igreja Católica coloca como obrigatória a 'confissão' individual dos pecados? Essa prática não existia nas primeiras comunidades, mas foi um costume introduzido pelos monges, na Idade Média, e que acabou tornando-se regra canônica para os católicos.

Nos primeiros anos após o Concílio Vaticano II, foi autorizada uma experiência litúrgica chamada de 'confissão comunitária', que foi uma sugestão de alguns grupos de teólogos conciliares para o retorno da prática original da penitência, como era nos primeiros tempos da era cristã. Todavia, as forças conservadoras da teologia, das quais o Papa Bento XVI foi um notável representante, após algum tempo retiraram essa prática como não recomendada, podendo ser realizada apenas em ocasiões especialíssimas e em caráter excepcional. No entanto, sabe-se que aquele rito inicial da missa, com o ato penitencial, tinha exatamente essa finalidade de possibilitar o arrependimento dos fiéis, que então recebiam a benção do perdão. Esse ponto, o Concílio Vaticano II não teve força suficiente para reformar.

Caros amigos, nós somos herdeiros daquelas comunidades que não conheceram pessoalmente a Cristo, no entanto, creram nele. Nós somos os bem-aventurados, conforme Cristo proclamou, mais do que Tomé e dos outros Apóstolos, que precisaram ver para crer. A nossa fé se fundamenta na leitura e no testemunho, por isso, para os outros irmãos, nós devemos dar esse testemunho de uma fé amadurecida e atuante.

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