domingo, 11 de novembro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 32º DOMINGO COMUM - 11.11.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 32º DOMINGO COMUM – O ÓBULO DA VIÚVA – 11.11.2018

Caros Leitores,

Neste 32º domingo comum, a liturgia traz para nossa reflexão dois episódios envolvendo viúvas: uma do tempo do profeta Elias e outra do tempo de Cristo. Em ambos os casos, observa-se a mesma atitude, que representa um louvável exemplo de generosidade e de desprendimento. A liturgia reúne esses dois fatos marcantes, ocorridos em épocas históricas bem distantes uma da outra, chamando a nossa atenção também para a superação do preconceito, que naquela época era forte contra as viúvas, enquanto no nosso tempo adquire formas diversificadas. Somos convidados a vencer o preconceito, não apenas pelo aspecto jurídico e legalista, porque este só alcança a conduta exterior, mas e principalmente pelo aspecto caritativo-cristão, que parte do íntimo do nosso coração.

Na primeira leitura, retirada do Livro dos Reis (1Rs 17, 10-16), temos o episódio protagonizado pelo profeta Elias, numa época de grande seca na região do Sinai, onde se encontrava estacionado o povo hebreu, levando a população a passar grandes necessidades de abastecimento de alimentos. O Profeta percorria a região, a mandado de Javeh, a fim de exortar o povo contra a idolatria, que o contaminava facilmente, quando estavam em contato com os povos do deserto. Ao chegar na cidade de Sarepta, o Profeta pediu pão a uma mulher que colhia lenha, ao que ela respondeu que só tinha um pouco de farinha e de azeite, pra fazer o último pão que comeriam, ela e o filho, porque depois disso não teriam mais o que comer e o único jeito era esperar a morte. Elias pediu que ela fizesse aquele último pão para ele, assegurando que Javeh não deixaria que faltasse o necessário para ela e o filho, até que sobreviesse novamente a fartura. Assim aconteceu.

Se aquela não fosse uma mulher de fé, ela não teria acreditado no Profeta, teria negado a ele aquele último pão, com o qual iria saciar a fome provisória dela e do filho, encaminhando-se em seguida para a inanição. Mas, não. Ela acreditou no Profeta e deu a ele o seu último alimento. E aconteceu o milagre, conforme Elias predissera: sua farinha era reposta e seu azeite era renovado a cada dia, e assim ela teve alimento por muitos dias além. O Profeta comeu e seguiu o seu caminho, mas a promessa de Deus foi cumprida, porque a viúva fez a sua oferta de coração sincero.

Tempos depois, um episódio semelhante envolvendo outra viúva é narrado pelo evangelista Marcos (Mc 12, 41-44), numa ocasião em que Jesus se encontrava no templo e observava as ofertas que os judeus faziam, de acordo com o costume de doar o dízimo para o culto. Os ricos depositavam moedas grandes e pesadas, que faziam eco ao caírem no fundo do cofre. Provavelmente, havia o costume de deixar o dobrão cair subitamente, para chamar a atenção dos transeuntes sobre o tamanho da oferta. Daí a pouco, chegou uma pobre viúva que colocou só duas moedinhas, que nem fizeram barulho ao cair no cofre. Jesus observava os doadores e logo ressaltou para os discípulos a diferença entre as ofertas: os primeiros, os ricos, doavam o que lhes sobrava, enquanto a viúva doara tudo o que possuía; os ricos faziam a oferta de forma ostensiva e com barulho, destacando o cumprimento da sua obrigação, enquanto a viúva fazia a doação com humildade e discrição, não por obrigação, mas por devoção, doava de coração o próprio coração. E Jesus completou: a oferta dessa mulher com duas moedinhas sem valor foi muto maior do que a dos anteriores, que fizeram tanto barulho, porque Deus não olha a quantidade, mas a qualidade da nossa oferta.

O evangelista não relata os eventos futuros relacionados a este fato, mas com certeza Deus proveu aquela pobre mulher com maiores bênçãos e retribuições, assim como deve ter recusado as ofertas dos outros fanfarrões, os quais, nas palavras do próprio Jesus “receberão a pior condenação” (Mc 12, 40). A teologia do dízimo utiliza o exemplo da viúva para fortalecer a convicção de que todos os paroquianos são responsáveis pela manutenção do templo e dos serviços religiosos, fazendo doações espontâneas e regulares, evitando-se a 'cobrança' de espórtulas para celebração dos sacramentos, como era a prática tradicional. Apenas os casamentos requintados, que são na verdade muito mais acontecimentos sociais do que cerimônias religiosas, são taxados aos que os requisitam.

O direito canônico não estipula valores para o dízimo, assim como não imprime qualquer tipo de sanção para os fiéis nesse sentido. No Antigo Testamento, havia o entendimento de que o dízimo seria a décima parte das colheitas e dos ganhos auferidos. No entanto, pelo comentário que Jesus faz acerca da oferta da viúva, podemos concluir que, mais importante do que a quantidade da oferta do dízimo é a qualidade da oferta que cada um faz. Muitos pregadores das organizações eclesiais ditas evangélicas aproveitam-se dessa norma veterotestamentária para cobrar dos fiéis os 10% do salário de cada um e muitos contribuem assim mesmo, de forma crédula e ingênua, supondo estarem adquirindo um 'terreninho' no céu. Outras pessoas criticam as ofertas e contribuições feitas pelos católicos, alegando que a Igreja é muito rica e devia vender suas propriedades e distribuir aos pobres a arrecadação. Com certeza, essas pessoas não conhecem os serviços de assistência popular realizados nas paróquias, os quais não seriam possíveis sem estruturas materiais e sem suporte monetário. O dízimo é uma contribuição para o serviço do templo, que não precisa se expressar apenas em valor financeiro, mas pode também ser ofertado em forma de serviço ou de colaboração com as atividades paroquiais. Esse serviço voluntário é essencial para que o trabalho evangelizador possa atingir um número maior de pessoas, sobretudo os mais necessitados. Na concepção atual, a palavra dízimo foi desassociada do seu étimo de corresponder à décima parte dos bens para significar o tamanho do seu coração. De nada valeria entregar para a sua Paróquia matematicamente dez por cento das suas rendas, se aquilo não fosse uma atitude de fé, diferente de mera obrigação.

Na segunda leitura, extraída da carta aos Hebreus (Hb 9, 24-28), o hagiógrafo faz referência à oferta que Cristo fez de si próprio e que se diferencia completamente daquelas que eram historicamente feitas pelos sacerdotes do Antigo Testamento. Estes precisavam entrar no templo todos os anos e repetir suas preces rituais, oferecendo a Javeh o sangue alheio, ou seja, as oferendas dos animais sacrificados, que eram os “dízimos” apresentados pelos mais abastados. Porém, Cristo entrou no tabernáculo apenas uma vez e ofereceu o seu próprio sangue, por isso, ele não precisará mais repetir a oferta, porque esta é completa e definitiva. “Foi agora, na plenitude dos tempos, que, uma vez por todas, ele se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo.” (9, 26) A liturgia faz o contraponto entre as ofertas dos sacerdotes do Antigo Testamento com a oferta de si próprio por Cristo, na mesma linha de raciocínio que Jesus fez o contraponto entre a oferta feita pelos fariseus no templo e a oferta da viúva pobre: aqueles fizeram uma oferta imperfeita (o que lhes sobrava) e não agradável a Javeh, mas estoutra fez a oferenda perfeita (o próprio coração). O autor da carta aos Hebreus inspirou-se, certamente, no comentário que Jesus fez aos discípulos acerca da oferenda da viúva: “'Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver'.

A personagem singela e discriminada da viúva, exaltada por Jesus, nos leva a refletir sobre as discriminações que a sociedade também faz a algumas pessoas, nos tempos atuais. Na antiguidade, as viúvas pertenciam à classe mais baixa da sociedade, porque os direitos dos povos antigos não lhes garantiam nenhuma participação nos bens hereditários, que eram distribuídos entre os herdeiros diretos do falecido (filhos, netos, parentes consanguíneos), as viúvas eram excluídas da partilha. Por isso, elas eram as pessoas mais pobres da sociedade, fato que associado à condição feminina daqueles tempos as colocava em singular estado de miséria. Ao exaltar a contribuição da viúva, que ofertara tudo o que tinha para sobreviver e seria recompensada por Deus, Jesus nos ensina a respeitar e valorizar as pessoas, independentemente de sua condição social.

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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS - 04.11.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – TODOS OS SANTOS – COMUM UNIÃO - 04.11.2018

Caros Leitores,

A liturgia comemora neste domingo a festa de Todos os Santos. Essa festa é necessária, porque dada a grande quantidade de pessoas canonizadas oficialmente pela Igreja e outras muito mais que, embora não estejam ainda no rol oficial, foram seguidores exemplares de Cristo, não seria possível fazer celebrações destacadas de todos os santos distribuindo-os pelos dias do ano. Além disso, esta solenidade litúrgica nos traz para a reflexão a verdade teológica da 'comunhão dos santos', que nós rezamos no Credo, e faz parte dos enunciados básicos da fé católica. Esta comunhão (melhor explicada no termo latino 'communio'), ou seja, a comum união de todos os cristãos, inclui não apenas aqueles que já estão no reino de Deus (a comunidade gloriosa) mas também aqueles que ainda estão a caminho, isto é, nós (comunidade operosa), que vivemos no meio das vicissitudes do tempo a proclamar com nossa vida cristã a nossa fé na ressurreição.

É bem significativo refletir sobre o dogma religioso da comunhão dos santos e sobre o próprio significado do termo 'santos', porque nós habitualmente designamos com essa palavra aqueles cristãos que foram canonizados, ou seja, aqueles que tiveram suas virtudes publicamente reconhecidas pela Igreja Católica e são colocados como modelos para todos. Não podemos, porém, esquecer que o apóstolo Paulo, na carta aos Romanos (8, 32) utiliza o termo 'santos' como sinônimo de cristãos e, portanto, todos nós somos santos. Ou, pelo menos, somos destinados para a santidade. Ser santo não significa nunca cometer algum deslize, não significa viver com o terço ou a Bíblia na mão ou recitando os salmos, não equivale a nunca ter raiva de alguém nem nunca ter cometido qualquer desobediência à lei de Deus. Os cristãos são santos porque foram santificados pelo sangue de Cristo, na Sua morte e ressurreição. A teologia ensina que a principal vocação do cristão é à santidade, nós todos nos encontramos neste caminho de busca da santidade. A tradição cultural religiosa comumente nos leva a fazer uma relação paradoxal entre eles e nós: eles, os santos; nós, os pecadores. De fato, teologicamente, não é assim. Tanto aqueles que foram canonizados são santos, quanto também os cristãos falecidos na graça de Deus e nós, que peregrinamos do “vale de lágrimas” e que tomamos os canonizados como modelo de nossa vida cristã. Quando o jovem perguntou a Jesus: Mestre, o que devo fazer para entrar na vida eterna? Jesus respondeu: observa os mandamentos (Lc 18, 18). Esta pergunta, com outras palavras, pode muito bem ser entendida assim: Mestre, o que devo fazer para ser santo? A resposta é a mesma: observa os mandamentos.

A comunhão dos santos é, portanto, um conceito equivalente ao que Paulo expressa nas suas cartas com o nome de 'corpo místico', do qual Jesus é a cabeça e nós somos os membros. Este corpo místico na sua forma visível é a Igreja e engloba todos os fiéis seguidores dos mandamentos de Cristo, de antes, de hoje, de ontem e de depois, todos formando uma unidade na diversidade dos carismas, mas mantendo-se unidos no Espírito. É nesse contexto que devemos entender a primeira leitura da liturgia de hoje, retirada do Apocalipse de João, onde ele fala no número dos que foram marcados na fronte (Ap 7, 4) para serem salvos, cujo quantitativo era de cento e quarenta e quatro mil. Numa linguagem direta, João se refere às doze tribos de Israel, num montante de doze mil de cada uma, para chegar a esse total. João era judeu e talvez tivesse a esperança de que os seus irmãos de raça ainda viessem aderir à mensagem de Cristo. Historicamente, sabe-se que isso não ocorreu, ao menos, não ocorreu ainda. Mas ele previu, logo a seguir, (Ap 7, 9) “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar.” É aqui que nós entramos e essa multidão é tão imensa, que João nem teve como quantificar, e nem poderia. E todos também estavam marcados para serem salvos, uma vez que “estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. Todos proclamavam com voz forte: "A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro".” (Ap 7, 9-10) Unindo num mesmo contexto as lições dos apóstolos João e Paulo, podemos concluir sem medo de errar: todos igualmente santos, todos igualmente irmãos, todos igualmente face a face com o Criador.

Na segunda leitura, o mesmo apóstolo João, na sua primeira carta (1Jo 3,2) usou uma expressão semelhante à de Paulo para dizer que todos somos santos: sermos chamados filhos de Deus. Ora, como poderia um filho de Deus não ser santo? Daí ele afirmar: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos!” Ou seja, nós já somos e ainda nem sabemos como é ser isso, pois nós abraçamos pela fé esse grande mistério revelado por Cristo, embora tal situação vá se consolidar somente no futuro. Assim, pela fé, nós já somos filhos de Deus, embora sem sabermos com clareza do que somos, pois isso somente se manifestará totalmente quanto O virmos face a face, quando então Ele será tudo em todos. A teologia tem uma expressão interessante para explicar isso: “já e ainda não”, é a grandeza do mistério que nós conseguimos alcançar com a nossa fé. Nós já somos santos, mas ainda não sabemos bem como é isso. Mas já somos. Isso só é possível para quem crê. Daí João ter escrito em 1Jo 3,1: este é o grande presente de amor que o Pai nos deu, o de podermos ser incluídos no rol dos seus filhos já desde agora, quando Ele ainda não se manifestou plenamente para nós.

A riqueza litúrgica da festa da comunhão dos santos se completa com o famoso sermão da montanha, no qual Cristo chama de bem aventurados todos os que estão submetidos a algum tipo de tribulação. Dizer que somos bem aventurados é o mesmo que dizer que nós somos santos. Em latim, bem aventurados se diz 'beati' (plural de beatus), que é a mesma palavra que em português se traduz por 'felizes', tradução que também aparece em algumas versões do texto sagrado. Curiosamente, Cristo chama de bem aventurados todos aqueles que, pela aparência social, seriam pessoas desventuradas. Havia um entendimento tradicional entre os judeus do farisaísmo de que as pessoas abençoadas por Deus (portanto, bem aventuradas) eram aquelas bem aquinhoadas de bens, que já recebem logo neste mundo uma recompensa abundante. Assim, perante essa visão farisaica, bem aventurados eram os ricos, os poderosos, os belos, os vencedores, os beneficiados pela sorte e pela esperteza. Os demais eram considerados pessoas amaldiçoadas, esquecidas por Deus, que desde logo já estavam sofrendo um castigo que continuariam a sofrer na outra vida.

Contrariando esse ponto de vista, Jesus por diversas vezes ressaltou as virtudes dos pobres e humildes, em contraposição à arrogância e ao orgulho dos ricos. Cito somente dois casos: do rei que preparou o banquete e os convidados não compareceram, tendo ele convidado os mendigos e os moradores de rua para se refestelarem. E ainda o caso da pecadora que lavou os pés dele com lágrimas na presença dos fariseus (não confundir com a figura de Maria Madalena, esta foi de quem Ele expulsou sete demônios – Lc 8, 2). No sermão da montanha (Mt 5), ele vai dizer quem são os verdadeiros bem aventurados: os pobres, os aflitos, os mansos, os famintos, os misericordiosos, os puros, os pacíficos, os perseguidos, os injuriados, todos aqueles a quem a tradição social excluía como os mais desprezíveis. E arremata: alegrai-vos e exultai porque grande será a vossa recompensa.

Caros amigos, vejamos então a nossa responsabilidade de cristãos enquanto chamados, vocacionados à santidade. Cada um de nós, na variedade das tarefas cotidianas, exercemos, do modo como Deus nos chama, a nossa vocação para a santidade. Não importa se um dia seremos canonizados, se teremos nossas virtudes reconhecidas e seremos colocados num altar, servindo como exemplo para os demais cristãos. Isso nem é necessário, porque o que nós somos e fazemos apenas a Deus interessa. Ocorre, porém, que devemos ter consciência de que nós já somos, embora ainda não tenhamos chegado lá. Isso significa que toda a nossa vida é um aprendizado, um treinamento contínuo, um exercício interminável na tentativa de superarmos nossas deficiências e nos livrarmos dos nossos pecados. O que Deus quer e espera de nós é que vivamos constantemente na busca daquilo que nos falta para alcançarmos a santidade plena. E o modo de irmos nos aproximando disso é praticando continuamente a caridade e o amor ao próximo.

Que nós sejamos fiéis ao ensinamento de Cristo e possamos nos aproximar sempre mais da perfeição que conduz à santidade.

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domingo, 28 de outubro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 30º DOMINGO COMUM - 28.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 30º DOMINGO COMUM – IGREJA EM SAÍDA – 28.10.2018

Caros Leitores,

Na liturgia deste 30º domingo comum, a leitura do profeta Jeremias faz alusão ao “resto de Israel”, uma expressão também usada pelo profeta Isaías (10, 20), referindo-se aos israelitas que foram libertados do cativeiro da Babilônia e haviam de retornar a Jerusalém. O “resto” significa o povo sobrevivente, aqueles que foram submetidos ao jugo do inimigo e agora retornam à liberdade. Num certo sentido, todos nós, que caminhamos no meio das tribulações da vida, fazemos parte deste “resto” do povo de Deus, a caminho da casa do Pai. O Papa Francisco tem enfatizado, em seus discursos, a imagem da Igreja “em saída”, ou seja, em constante atividade de evangelização, contrastando com a imagem tradicional da Igreja burocrática, embarreirada pelos seus muros e acomodada em seu lugar de conforto. O seguimento de Cristo exige presença e ação no mundo, para que o cristão seja sempre fermento, sal e luz.

A palavra inspirada do profeta Jeremias é bastante significativa tanto no contexto histórico do povo hebreu, quanto no caminhar geral de toda a humanidade. Diz ele: “Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam ” (Jr 31, 8). Num primeiro momento, a profecia se dirige aos cativos da Babilônia, mas no momento seguinte, se refere a todos os crentes localizados em todos os confins da terra e esse grupo inclui pessoas sadias e pessoas em situações especiais, porque as vicissitudes da existência afetam as pessoas de diversas maneiras. Mas essas provações não devem abalar a fé do cristão, pois mesmo estando cego, aleijado, parido, necessitado de cuidados, todos serão conduzidos por um caminho reto para a terra prometida. A descrição do profeta Isaías sobre o “resto de Israel” é também bastante ilustrativa: “Um resto voltará, um resto de Jacó, para o Deus forte. Ainda que teu povo fosse inumerável como a areia do mar, dele só voltará um resto. A destruição está resolvida, a justiça vai tirar a desforra." (Is 10,20) . Isaías é mais enfático em relação àqueles que não aceitarão a salvação oferecida por Javeh. Embora, em tese, toda a humanidade seja convidada à salvação, no entanto, nem todos atenderão e assim a redenção trazida por Cristo não alcançará a todos, mas apenas ao “resto”, aos sobreviventes da tentação. E por que isso ocorrerá? Porque Deus não interfere na liberdade das pessoas, Ele oferece a salvação, mas espera que haja adesão da vontade, espera que o crente exercite a sua fé na Sua palavra.

A segunda leitura, da carta aos Hebreus, faz referência ao sacramento da salvação, que é mediado pelo sumo sacerdote. Trata-se de uma alusão indireta à comunidade eclesial, onde o crente pratica a sua fé e recebe os meios para superar os desafios que a vida cotidiana interpõe no nosso meio. O sacrifício expiatório de Cristo é rememorado pelo sumo sacerdote. Ele é retirado do meio do povo e, por isso, conhece as dificuldades e os entraves do existir temporal, portanto, sabe compreender as fraquezas dos irmãos, porque ele é também afetado por essa fraqueza. Então, ao oferecer o sacrifício da cruz, ele reza tanto pelos pecados dos outros, quanto por seus próprios pecados. Cristo encarregou seus apóstolos, e esses os seus sucessores, para continuarem a guiar o “resto” do povo pelos caminhos do mundo, mostrando onde ficam as torrentes de água e ensinando o caminho reto que conduz ao destino esperado. A carta aos Hebreus faz referência ao sacerdócio de Melquisedec, personagem que é interpretado como sendo o precursor do sacerdócio de Cristo e, por intermédio de Cristo, esse mesmo sacerdócio se reproduz nos presbíteros ordenados. Aquele refrão que antigamente era cantado nas missas solenes de ordenação é bastante forte e emblemático: tu es sacerdos in aeternum, secundum ordinem Melchisedech. O sacerdote é, desse modo, aquele que deve liderar o povo sobrevivente das tormentas do cotidiano, o “resto” da humanidade salva por Cristo, aqueles “144 mil assinalados”, de que fala o Apocalipse. Daí decorre a necessidade de que o fiel se integre na comunidade eclesial, porque essa condução pelo caminho reto é obra coletiva, não se resolve individualmente.

Na leitura do evangelho de Marcos, temos o conhecido episódio da cura do cego de Jericó (10, 46-52), personagem este que simboliza a multidão referida pelo profeta Jeremias, na primeira leitura. Entre os sobreviventes, há cegos, aleijados, gestantes e parturientes. A liturgia coloca para nossa reflexão a figura do cego, simbolizando nele todos aqueles que estão expostos aos perigos e às tentações do mundo infiel, aos estratagemas da ideologia do poder e do dinheiro, às seduções da corrupção e da injustiça, ou seja, todos nós. O cego de Jericó é o protótipo do cristão santo e pecador, crente e duvidoso, sadio, mas nem tanto, pois que precisa que Jesus lhe abra os olhos, para que possa ver melhor o mundo onde habita e progredir na fidelidade à mensagem cristã.

Vejamos uma breve notícia de cunho histórico e geográfico. Jericó é uma das cidades mais citadas nos evangelhos, porque era já naquela época uma das cidades mais importantes da Palestina. Sua conquista pelos hebreus, sob o comando de Josué, quando estavam retornando do Egito, foi uma das mais memoráveis (quando as muralhas caíram), então esta cidade era um ícone da nacionalidade hebraica, um lugar muito visitado. Geograficamente, situa-se a 27 km de Jerusalém e a 10 km do Mar Morto, sendo considerada pelos historiadores uma das cidades mais antigas do mundo, pois há evidências de ter moradias lá desde pelo menos 9.000 anos antes de Cristo. Este fato fazia com que muitas pessoas passassem diariamente por Jericó e, com isso, havia muitos pedintes na entrada da cidade, como ainda hoje se vê nas nossas cidades que são alvo romarias religiosas.

Pois bem. Jesus passava por Jericó, a caminho de Jerusalém, onde o desfecho da sua vida iria acontecer. Na entrada da cidade, havia um grupo de cegos pedindo esmolas aos viajantes. O Padre Uchoa, que foi meu professor de Bíblia, comentava que havia verdadeiros bandos de pedintes nas entradas das grandes cidades, explorando a caridade pública, além de vendedores de quinquilharias e souvenirs diversos, tal como vemos nas cidades turísticas, em geral. Em Jericó, devia ser algo assemelhado. Ao saber que Jesus estava passando, um cego de nome Bartimeu começou a gritar: “Filho de Davi, tem piedade de mim”. De tanto gritar e insistir, Jesus mandou chamá-lo. Diz o evangelista que ele deu um pulo, largou o manto onde recolhia as moedas que lhe jogavam como esmola e foi até onde Jesus se encontrava. “Que queres que eu te faça?”, perguntou Jesus. (Mc 10, 51) E ele respondeu: Mestre, eu quero ver. E Jesus disse: Assim será, a tua fé te curou. E ele passou a enxergar e saiu acompanhando Jesus. Ao sair do comodismo do seu lugar de pedinte, o cego Bartimeu assumiu uma nova realidade de vida, iniciou um novo caminho, armou-se de disposição para seguir o Mestre.

Neste diálogo de Jesus com o cego Bartimeu, podemos ver um exemplo de que o milagre divino não se opera sem a colaboração do beneficiário. Por certo, junto com Bartimeu, havia outros cegos, aleijados e necessitados, porém não foram beneficiados com o fato milagroso, porque não creram. Jesus fez questão de dizer a ele que foi “a tua fé que te curou”. O poder divino de Jesus não agiria na sua deficiência, se não houvesse a sua cooperação com a fé, a sua disponibilidade para aceitar, a sua coragem para assumir aquela nova situação. É óbvio que Jesus, pelo seu conhecimento divino, sabia quem estava a gritar por Ele, sabia que era uma pessoa das mais pobres e excluídas da sociedade. E também pela sua sabedoria divina, Jesus conhecia a intensidade da fé daquele mendigo, sabia o que estava subentendido naquela prece insistente: “Tem piedade de mim”. É como se ele dissesse: com o teu poder, tira-me dessa situação. E Jesus retribuiu a sua oração com o milagre da cura, mas foi logo avisando: foi a tua fé que te curou, ou seja, persevera com esta fé, ela te renderá a salvação, mantém a fé operante e firme, pela fé tu és incluído no rol dos sobreviventes. Inspirada neste e noutros exemplos similares é que a teologia da graça divina ensina que, embora Deus dê a todos a graça, esta somente age no coração dos que a aceitam e a ela aderem. Ou por outras palavras, o efeito do poder divino na nossa vida será proporcional à intensidade da nossa fé.

Por isso, podemos dizer que, para o milagre acontecer nas nossas vidas, embora o poder de Deus seja pleno e absoluto, nossa participação através da fé é indispensável, porque o poder de Deus não se sobrepõe à nossa vontade, e a fé é a manifestação mais completa do ato da vontade humana.

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sábado, 20 de outubro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 29º DOMINGO COMUM - 21.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 29º DOMINGO COMUM – A RECOMPENSA – 21.10.2018

Caros Leitores,

Neste 29º domingo comum, último domingo do mês de outubro, a liturgia celebra o Dia Mundial das Missões, reverenciando todos aqueles que, no mundo tudo, levam a palavra de Cristo aos irmãos mais distantes, especialmente para aqueles que ainda não conhecem a Redenção. Todos nós somos convidados a ser missionários e, pelo batismo, fomos ungidos para esta missão. Todavia, é uma missão a ser exercida com humildade e na caridade, por isso, ninguém deve gloriar-se com os resultados ou entristecer-se com os eventuais fracassos, porque nessa tarefa interessa apenas a fidelidade ao mandamento de Jesus. Nesse contexto, a liturgia nos põe como tema de reflexão o diálogo de Tiago e João com Jesus, sobre a recompensa pela opção que fizeram, encomendando desde já um “lugar” que cada um queria ter no reino de Deus. Foi quando Jesus disse que será melhor recompensado aquele que melhor servir.

Inicialmente, faço uma observação exegética sobre o trecho do evangelho lido neste domingo, retirado de Marcos 10, 35-45. Fazendo um estudo comparativo entre os evangelhos, podemos cotejar essa passagem com o texto análogo de Mateus 20, 20, onde é narrado o mesmo episódio. No evangelho da liturgia de hoje (Mc 10, 35), lemos: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram:”. No evangelho de Mateus (20, 20), lemos: “Então, aproximou-se d'Ele a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo algo a Ele.” A análise desses dois pequenos trechos nos mostra que devemos ter muito cuidado com a leitura fundamentalista da Sagrada Escritura, porque os textos às vezes se mostram incoerentes. Afinal, quem foi fazer o pedido a Jesus: os filhos de Zebedeu sozinhos ou acompanhados da mãe deles? Por que Marcos não menciona a mãe dos apóstolos, enquanto Mateus a inclui? Embora não seja esse um detalhe significativo no contexto da mensagem de Jesus, no entanto, é por causa de detalhes como esse que algumas pessoas dizem que a Bíblia é cheia de imprecisões e mentiras.

Os biblistas explicam essa divergência dizendo que os textos de Marcos e de Mateus possuem origens geográficas e históricas diferentes. Os estudos históricos confirmam que os ensinamentos de Jesus, durante vários anos, existiam nas comunidades apenas em forma oral, passando a ser escritos somente uns 20 a 30 anos após a morte d'Ele. Havia muitos textos esparsos e os evangelistas os colheram e, com base neles, compuseram seus evangelhos, procurando observar a ordem cronológica dos acontecimentos. Podemos verificar que, também na Bíblia, funciona aquela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto. Desse modo, embora o evangelho de Mateus venha em primeiro lugar no cânon bíblico, contudo o texto de Marcos é mais antigo. Ainda sobre o evangelho de Mateus suscita polêmica entre os estudiosos, inclusive dúvidas sobre a sua autoria. O seu texto original foi escrito em aramaico e só depois traduzido para o grego, enquanto os demais foram escritos originalmente em grego. Não vou adentrar aqui na polêmica acerca do texto desse evangelho que, segundo os estudiosos, devia ter como título “genealogia de Jesus”, escrito por um autor desconhecido. Quem tiver interesse sobre o assunto, procure livros específicos, que abordam a questão com profundidade.

Pois bem, passemos agora ao tema da leitura, o pedido que os filhos de Zebedeu fizeram a Jesus: que um deles tivesse assento à direita e outro à esquerda, no reino da Sua glória. Jesus ficou intrigado com aquilo e falou: vocês têm certeza do que estão pedindo? Vocês estão dispostos a beber o mesmo cálice que eu? Eles confirmaram e, por fim, Jesus arrematou: 'Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado'. (Mc 10, 39) E diz mais o evangelista que os outros dez ficaram indignados quando souberam do pedido dos dois irmãos, provavelmente, eles também queriam pedir aquilo, mas não tiveram coragem. Ademais, por que razão haveriam aqueles dois de ser privilegiados com um lugar de honra? Foi quando Jesus os repreendeu, dizendo que a autoridade cristã não é símbolo de honraria, mas de serviço. (Mc 10, 43)

Esse diálogo de Cristo com os discípulos nos deixa algumas lições importantes. Primeiro: será que nós sabemos pedir? Quando oramos, quando fazemos nossos pedidos a Deus, que tipo de oração fazemos? Será que caímos no mesmo disparate dos filhos de Zebedeu, reprovado por Jesus? Pois é, muitas vezes, a nossa oração contém uma dose significativa de egoísmo. Pedimos preferencialmente algo bom para cada um de nós, para os nossos parentes e amigos, esquecendo que o próprio Cristo ensinou que devemos buscar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e que o resto nos será dado por acréscimo. Em geral, as orações dirigidas a Deus são pedidos de favorecimentos, de bens materiais, de bem-estar, de uma conquista profissional, etc. Sem deixar de falar numa prática ainda mais extravagante que é a de fazer um “negócio” com Deus, uma certa 'promessa': se eu conseguir tal coisa, vou fazer tal tarefa. Meus amigos, quanta pretensão. Se passássemos a vida toda fazendo penitências, nem assim mereceríamos um único favor divino, por menorzinho que seja, Deus nos dá tudo gratuitamente, sem precisar de nada de nós e sem nós merecermos, ele age por plena e inefável benevolência. As nossas orações, portanto, devem ser muito mais para agradecer do que para pedir.

Em segundo lugar, lembremos que a oração modelar para nós deve ser inspirada no exemplo dado pelo próprio Jesus: quando orardes, dizei algo assim: Pai, santificado seja o Teu nome, venha o Teu reino, faça-se a Tua vontade... é o tipo da oração altruísta, a oração que agrada a Deus. De orações egoístas, Deus se distancia, vira o rosto para o outro lado. Quando Jesus perguntou aos dois filhos de Zebedeu: vocês estão dispostos a 'beber o mesmo cálice' que eu beberei e eles confirmaram, Jesus disse: mas isso não garantirá o atendimento ao que estais pedindo, pois não é assim que se conquista um lugar no Reino. E arremata: o lugar é para aqueles a quem foi reservado. (Mc 10, 40)

Esta resposta de Jesus é, a um só tempo, enigmática e esperançosa. Enigmática, porque ele não revelou quem são esses a quem está reservado o melhor lugar. Esperançosa, porque a reserva pode ser para qualquer um deles e qualquer um de nós. Como podemos interpretar esse enigma-esperança? A resposta, a meu ver, está na frase seguinte do evangelho (Mc 10, 45): o Filho do Homem não veio para ser servido, mas pra servir... ou seja, quem seguir o exemplo de Jesus na prestação do serviço aos irmãos, é para estes que o lugar está reservado. Foi isso que Ele deu a entender quando ensinou: quem quiser ser grande, que seja o servo; quem quiser ser o maior, que seja o escravo. Então, o 'lugar reservado' se destina a quem realizar o 'serviço' tal como Ele realizou, isto é, com humildade e sem reserva, dando tudo de si até o fim das suas forças. Esta será a nossa melhor recompensa.

Meus amigos, o recado de Cristo está dado para todos nós. O lugar está reservado para quem for capaz de seguir o exemplo dele no serviço aos irmãos, superando as tendências naturais e sociais associadas ao ganho de prestígio e de honrarias, especialmente quando exercemos profissões que são consideradas relevantes socialmente. Humildade não significa vestir trapos e andar descalço, mas é uma atitude que mora dentro do coração. Tomando emprestado palavras do Papa Francisco aos peregrinos em Roma, vejamos o que ele pensa: “À vista de tantos que lutam por obter o poder e o sucesso, por dar nas vistas, frente a tantos que querem fazer valer os seus méritos, as suas realizações, os discípulos são chamados a fazer o contrário. Por isso adverte-os: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo» (10, 42-43). Com estas palavras, Jesus indica o serviço como estilo da autoridade na comunidade cristã. Quem serve os outros e não goza efetivamente de prestígio, exerce a verdadeira autoridade na Igreja. Jesus convida-nos a mudar a nossa mentalidade e a passar da ambição do poder à alegria de se ocultar e servir; a desarraigar o instinto de domínio sobre os outros e exercer a virtude da humildade. Todos nós, que acompanhamos pela imprensa as notícias sobre a atuação do Papa, sabemos que essas palavras dele não são apenas discurso mas a sua prática concreta, pois ele assim vivencia no seu cotidiano. Que nós tenhamos a ousadia e a coragem de seguir o seu exemplo de autêntico cristão.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 28º DOMINGO COMUM - 14.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 28º DOMINGO COMUM – A CORDA NA AGULHA – 14.10.2018

Caros Leitores,

Neste domingo, a liturgia nos convida a refletir sobre o tema da riqueza, através do diálogo de Jesus com o jovem rico, que não abriu mão de seus bens. Mas todos conhecemos também o oposto disso, a história do jovem Francisco de Assis, que seguiu literalmente o convite de Jesus, ao ler esta passagem do evangelho, e abandonou realmente tudo o que possuía, deixou a casa paterna com seu conforto, entregou até as roupas que vestia para o pai, largando tudo para seguir a Cristo na total pobreza e na plena fé de que receberia elevado percentual de recompensa nesta vida e ainda a vida eterna no mundo que há de vir. Nos dias atuais, em que se fala muito acerca do grande distanciamento que há entre as classes sociais (algumas em exagerada abundância e outras em grandes necessidades), o tema da riqueza é bastante oportuno para a reflexão. De fato, a questão que se coloca não é a riqueza em si mesma, porque quando ela é fruto do trabalho, deve ser recebida como justa recompensa. A questão é quando esse acúmulo de bens é fruto de atividades pérfidas, realizadas com o desrespeito do bem e da moralidade, porque é esse tipo de riqueza que não se coaduna com a justa recompensa e é esta que causa a perigosa convulsão da violência em todas as suas formas de manifestação – abertas ou veladas.

A primeira leitura, retirada do Livro da Sabedoria (7, 7-11), fala sobre a verdadeira riqueza, que não está no poder terreno nem na posse dos bens materiais, mas na prudência, na sabedoria, junto da qual todo o ouro do mundo é semelhante a um punhado de areia e toda a prata parece com a lama. E diz mais que, cultivando a sabedoria, todos os bens e riquezas materiais chegam como consequência, pois quem age com sabedoria tem em mãos a maior de todas as riquezas. Por outras palavras, a riqueza deve estar acompanhada da sabedoria para ser legítima. Quando a riqueza é amealhada com esperteza, tornando-se ilegítima, então aplica-se aí a metáfora da areia para o ouro e da lama para a prata.

A segunda leitura, da Carta aos Hebreus (4, 12-13), faz uma comparação interessante entre os conceitos de alma e espírito, os quais são usualmente tidos como sinônimos, no nosso idioma, mas etimologicamente pertencem a funções mentais distintas. A alma (do termo latino “anima”, mas que vem do grego “psiché”) se relaciona com o pensamento lógico, o raciocínio, o conhecimento das coisas do mundo. Por outro lado, o espírito (do termo latino “spiritus”, mas que em hebraico se diz “nefesh”) se relaciona com a respiração, o sopro vital, aquilo que nos mantém vivos, relacionando-se com a consciência e a moralidade. Por isso, o escritor sagrado diz que a palavra de Deus é “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até dividir alma e espírito”, isto é, repercute tanto no conhecimento, no raciocínio, quanto na consciência, na responsabilidade. Isso está explicado, com outras palavras, no versículo seguinte, quando diz: “Ela julga os pensamentos e as intenções do coração. ” Podemos ver aqui a seguinte relação com o tema da riqueza, abordado na leitura anterior: quando o acúmulo de bens decorre do uso dos conhecimentos mundanos para obtê-los, mas não está acompanhado de atitudes bem intencionadas, perde-se na ganância e na insensatez, o que não é compatível com a verdadeira sabedoria, e assim vai ocasionar conflitos sociais que se transmudam em violência e infelicidade para todos. E então, adverte o escritor, o avarento se torna réu do julgamento da palavra de Deus, porque “tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas.” Conceitualmente, a palavra de Deus é a suprema sabedoria.

A leitura do evangelho de Marcos (10, 17-27), relata o diálogo de Cristo com um jovem rico de bens materiais, mas que entristeceu-se com a possibilidade de vir a desfazer-se deles. Vemos novamente o tema da riqueza, que se põe no plano do saber interesseiro, e não ultrapassa para o nível das intenções do coração. O diálogo de Cristo com esse jovem é permeado por vários ensinamentos, que o breve conteúdo narrativo condensa. Primeiro, a ideia do Bem. O jovem chamou Jesus de 'bom mestre' e ele disse que somente Deus é bom. Ora, Cristo sendo Deus, por que razão questionaria alguém que o chamasse de 'bom mestre'? O destaque é dado pelo evangelista para significar que o jovem, ao chamar Jesus de 'bom', já estava reconhecendo nele uma pessoa do bem. Mas Jesus quis pô-lo à prova, para saber se ele era também um conhecedor do verdadeiro bem. Pelo que se constata, o jovem tinha demasiado apego à riqueza, visando apenas ao plano da materialidade, por isso não foi capaz de captar a nobreza do convite que lhe foi feito.

O segundo ensinamento é o reforço à lei de Moisés. Jesus fez questão de recitar os mandamentos e dizer que a sua prática conduz à salvação. Por diversas vezes, Jesus afirmou publicamente que não veio modificar a lei mosaica, ao contrário, veio cumpri-la. Porém, o seu cumprimento não devia ser igual ao dos fariseus, que tomavam tudo ao pé da letra e achavam que isso bastava. Aparentemente, o jovem interlocutor também cumpria a lei mosaica sob esse prisma literal, no plano da exterioridade, sem alcançar o patamar das intenções do coração. Tendo percebido isso, Jesus completou: 'Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.' (Mc 10, 21). Com certeza, não era isso o que o jovem pretendia, mas Jesus utilizou o seu diálogo para ensinar os seus discípulos a importância da riqueza bem adquirida e bem administrada.

O terceiro ensinamento do evangelho é sobre a vida de perfeição. Foi nesse ponto que Francisco de Assis se fixou e com ele traçou um plano de vida, que veio a transformar-se no franciscanismo da regra e dos ensinamentos, que ele demonstrou e viveu. Jesus quis ensinar que a riqueza não é, por si mesma, empecilho para a salvação, mas se o seu detentor não estiver disposto a abrir mão dela, então o seu coração está preso na materialidade e não conseguirá alcançar o verdadeiro sentido do uso dos bens com sabedoria. Daí o comentário de Jesus: como é difícil a um rico entrar no reino do céu. Jesus não disse que os ricos estão necessariamente excluídos da salvação, mas sim que a posse dos bens materiais torna mais difícil levar uma vida agradável a Deus. Evidentemente, a causa disso não seria a simples posse dos bens, mas o apego a eles. Nós sabemos que, assim como há pessoas ricas generosas, há pessoas pobres mesquinhas, por isso o ensinamento de Cristo é a pobreza de espírito, que é mais importante do que a simples falta de bens.

Podemos então retirar daqui um quarto ensinamento do evangelho, que é a ideia do desapego. Esse é o grande problema da sociedade contemporânea, aquilo que ocasiona o grande “abismo social” entre pessoas que se apropriam (muitas vezes, de forma ilícita) de grandes fortunas, que ficam depositadas em instituições financeiras de outros países, ocultas para não prestarem contas delas conforme manda a lei, contando com a possibilidade de, ao deixarem seus cargos, poderem usufruir desses bens indignos em territórios estrangeiros, onde não são conhecidos. Quase diariamente, os meios de comunicação trazem informações sobre cidadãos destituídos de consciência, que terminam sendo apanhados em negócios escusos e, em geral, fazem de conta que não é com eles, continuando como se nada estivesse acontecendo. Em outras sociedades, onde ainda pulsa o sentimento da moralidade, esses episódios ganhariam outros contornos. Entre nós, porém, vence a desfaçatez e a desonra. Quando não posam de vítimas de algum inimigo de outra facção.

Por isso, continua sempre atual a metáfora do buraco da agulha para comparar com a dificuldade (ou impossibilidade) de um rico alcançar a salvação. Para superar tal dificuldade ou para viabilizar essa possibilidade, as riquezas materiais devem estar a serviço da fé do seu possuidor. Aquele que valoriza a sua fé não deixará que o poder político e os bens materiais prendam a sua alma e saberá utilizar desses controles sociais para transformá-los em um maior serviço aos irmãos. Quem exerce um cargo relevante na sociedade tem nas mãos uma oportunidade extraordinária de fazer o bem aos outros mais do que quem não está nessa situação. Quem obteve com seu trabalho um acúmulo considerável de bens não pode se considerar culpado porque outras pessoas não possuem tanto, mas deve transformar esses bens em maiores serviços às pessoas necessitadas.

Ecoa no ar a pergunta dos apóstolos: então, quem poderá salvar-se? A resposta pode ser: quem faz uso dos bens materiais em coerência com a verdadeira fé cristã.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 27º DOMINGO COMUM - 07.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 27º DOMINGO COMUM – MATRIMÔNIO EM DISCUSSÃO – 07.10.2018

Caros Leitores,

Neste 27º domingo comum, a liturgia comemora o dia da família e enfoca o matrimônio cristão, trazendo para nossa reflexão as leituras do Gênesis e do evangelho de Marcos. O tema traz para o debate a questão do modelo familiar tradicional, composto por homem-mulher-filhos, colocando em discussão os modelos alternativos, que desconhecem a natureza do gênero masculino e feminino. É a duvidosa ideologia do gênero, tão do gosto de muitos políticos e intelectuais autoproclamados progressistas. Outra questão também relacionada com o tema do matrimônio cristão é a grande preocupação do Papa com a situação dos casais de segunda união, isto é, aqueles que são casados pelo rito religioso e divorciados pelo rito civil, tendo contraído segundas núpcias. O papa Francisco até já expediu um documento abrindo conversações sobre o tema, que enfrenta profundas divergências no Vaticano e, em geral, na cúpula da hierarquia eclesiástica no mundo inteiro. Afinal, o matrimônio cristão é mesmo intocável ou é passível de flexibilização, dentro da realidade concreta de cada caso ou situação existencial? Esse é um tema sensível e controverso, que não pode ser ignorado.

Na primeira leitura, retirada do livro do Gênesis (2, 18-24), temos a conhecida narração bíblica da denominação dos animais, feita por Adão, seguida de outra narração também muito enraizada na nossa cultura, que é a da criação da mulher a partir da costela do homem. Naturalmente, são duas narrativas metafóricas, isto é, de sentido figurado pois, embora no passado se aceitasse que fossem descrições de fatos acontecidos, na hermenêutica bíblica contemporânea entende-se como histórias narradas com um conteúdo pedagógico, para ensinamento do povo hebreu. Na verdade, são duas parábolas, que devem ser entendidas dentro da simbologia e do alegorismo.

Nesse sentido alegórico, a parábola diz que Deus chamou Adão e mandou que ele “desse nome” aos animais. Esse “poder” de dar o nome significa, na cultura hebraica, o domínio que o homem devia ter sobre os animais. Para a cultura hebraica, dar o nome significava exercer influência sobre o nominado, quem dá o nome a algo ou a alguém tem autoridade sobre aquilo ou aquele. Ainda hoje, prevalece a regra de que o nome dado aos filhos pelos pais não pode ser modificado, salvo raras e específicas situações. No caso, ao dar nomes aos animais, o personagem Adão simbolizava todos os homens em relação aos animais, ou seja, a superioridade do homem e o poder dado por Deus para que o homem utilizasse os animais para se alimentar e para auxiliar no trabalho de transporte de objetos e no aproveitamento de sua força física. E para dar destaque à posição da mulher nesse contexto, de acordo com a descrição bíblica, Adão não encontrou no meio desses animais “uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 20), requerendo uma ação especial do Criador.

Esse detalhe tem a finalidade pedagógica de ensinar ao povo que a mulher está numa posição diferente dos animais no seu relacionamento com o homem, ou seja, que ela está na mesma hierarquia do homem. Sim, porque nas culturas antigas, era comum a mulher ser considerada uma propriedade do homem, um objeto do qual ele podia dispor como quisesse. O autor bíblico está ensinando que não é assim, mas que a mulher deve receber do homem um tratamento diferente dos animais, porque ela é uma espécie de 'auxiliar' (adjutorium, em latim) para ele. Para explicar isso, o narrador sagrado construiu uma historieta, que a hermenêutica bíblica chama de “legenda”: o sono de Adão e a retirada de sua costela. Observemos que não há verossimilhança nisso, porque se assim fosse, haveria um número diferente das costelas do homem no lado esquerdo em relação ao direito, e não há. O texto bíblico diz que o lugar de onde teria sido retirada a costela foi preenchido com carne (Gn 2, 21). Ora, se nós fôssemos tomar essa narrativa ao pé da letra, como um fato ocorrido, os homens teriam uma costela faltando, o que não é verídico.

Outro detalhe que merece explicação é a afirmação de Adão (Gn 2, 23): “Ela será chamada 'mulher', porque foi tirada do homem'.” Na nossa língua, essa frase não faz sentido, mas na língua hebraica, o autor bíblico faz uma espécie de trocadilho, do seguinte modo. A palavra 'homem' diz-se em hebraico 'ish' e a palavra mulher diz-se 'isha'. Por isso ela foi chamada mulher (isha) porque foi tirada do homem (ish). Apesar disso, historicamente, sabe-se que tanto a sociedade hebraica, e ainda mais a sociedade romana, baseadas no patriarcalismo, sempre colocaram a mulher numa posição social de inferioridade, o que só veio a se modificar nos tempos atuais.

Na leitura do evangelho de Marcos (10, 5), o tema central é o matrimônio e as questões sobre a sua dissolução. Os fariseus perguntaram a Jesus sobre e legitimidade do divórcio que, segundo eles, teria sido permitido por Moisés. Disseram que Moisés havia instituído uma espécie de 'carta de repúdio' que o homem podia fazer para despedir a mulher. Foi quando Cristo os censurou, dizendo que Moisés só havia consentido naquilo por causa da dureza dos corações dos seus ancestrais, mas isso não pode mudar o projeto divino, pois desde o começo da criação, Deus fez homem e mulher (“ossos dos meus ossos, carne da minha carne”, como disse Adão), para que os dois sejam uma só carne, através do matrimônio, isto é, os dois devem formar juntos as duas metades de um mesmo ser. E arremata taxativamente: o que Deus uniu, o homem não separe. (Mc 10, 9)

O texto mosaico referido nessa discussão dos fariseus, na verdade, encontra-se em Deuteronômio (24, 1): “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora”. O livro do Deuteronômio contém inúmeros preceitos que, sob a aparência de norma religiosa, são de fato normas civis gerais, que eram usadas pelos juízes para o julgamento das questões entre os hebreus. No caso específico da condição “por encontrar nela algo que ele reprova”, de acordo com os biblistas, isso tinha relação com a origem familiar da mulher e com a sua situação sócio-religiosa, que talvez fosse ignorada pelo homem, ao contrair matrimônio. Durante o percurso no deserto, o povo hebreu recebeu muitas influências dos povos com os quais tiveram contato, sobretudo moabitas e amonitas, sendo este o principal motivo das frequentes “crises” de idolatria que ocorreram e que deram muito trabalho aos líderes do povo e aos profetas. Por exemplo, na religião desses povos, havia uma função feminina de “prostituta sagrada”, que se fantasiava na ocasião dos cultos e sua identidade era, em geral, desconhecida. Um hebreu poderia casar-se com uma delas sem saber dessa particularidade, vindo a saber somente depois. Portanto, quando Jesus disse que, no início não era assim, pois desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher para serem uma só carne, ele quer dizer que a regra do divórcio fora tolerada por Moisés, aplicando-se casos específicos, mas depois havia sido transformada numa regra geral pelos fariseus.

Pois bem. Conforme aludi antes, um dos graves problemas da pastoral religiosa dos nossos dias é o caso dos casais de 'segunda união matrimonial' entre católicos, para o qual o Papa tem demonstrado uma preocupação intensa e tem enfrentado sérias resistências no meio eclesiástico, em especial por parte dos conservadores. Não se pode partir da premissa de que isso ocorre apenas com pessoas que possam ser chamada de inconsequentes e levianas. Ocorre também com pessoas responsáveis e bem intencionadas. A Igreja Católica não pode ficar adiando o enfrentamento desse problema, pois é grave e progride a todo momento. Cabe à pastoral religiosa oferecer alternativas concretas de solução, não sendo justo apenas reprovar e proibir a participação nos sacramentos. A caridade de Jesus vai muito além disso. Portanto, o grande desafio é buscar uma resposta coerente com o evangelho pois, como lemos hoje, Cristo foi taxativo contra o divórcio, no entanto, o Papa lembra, no documento citado antes, que o Senhor Jesus é um juiz compassivo e por isso, pastoralmente, é necessário analisar com maior benignidade os casos concretos de cada casal envolvido, deixando de lado o rigorismo e o formalismo. Mais importante do que as normas são as pessoas e é imperiosa uma abordagem mais humanística da realidade matrimonial vivenciada, com todas as vicissitudes e contingências da condição humana. Deve-se analisar com seriedade e profundidade o real motivo existencial daquelas pessoas que, pelas mais diversas razões, tiveram uma união matrimonial anterior mal sucedida, para que possam reorganizar suas vidas não somente perante a sociedade civil, mas também perante a comunidade eclesial. Nem a sociedade nem a religião podem admitir atitudes discriminatórias. Aquela, por razões de justiça; esta, por razões de fé, esperança e caridade.

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