domingo, 28 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 22º DOMINGO COMUM - HUMILDADE E DESAPEGO - 28.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 22º DOMINGO COMUM – HUMILDADE E DESAPEGO – 28.08.2016

Caros Leitores,

Neste domingo, 28 de agosto, a memória litúrgica comum é a festa de Santo Agostinho de Hipona, um dos teólogos mais importantes da antiguidade cristã. E as leituras do 22º domingo comum nos advertem a evitar a soberba, por ser esta uma atitude incompatível com a conduta do cristão. Uma das formas mais corriqueiras da pessoa soberba é querer aparecer, receber elogios, ser reconhecida em público, fazer amizade com os poderosos da sociedade. Com isso, o soberbo já recebe a sua recompensa passageira. Por outro lado, fazer o bem a quem não pode nos recompensar com favores gera um crédito na eternidade.

O oposto da soberba é a humildade. Etimologicamente, a palava humilde é a tradução do latim “humilis”, termo relacionado com o húmus, com a nossa origem do limo da terra. A imagem bíblica do homem criado por Deus a partir da lama pretende ressaltar a consciência da nossa finitude, da efemeridade da existência. Muitas pessoas vivem como se fossem permanecer no mundo para sempre e se utilizam dos bens materiais para obter prestígio e poder a todo custo, até mesmo pisoteando as outras pessoas. Quando se fala em humildade isso não significa viver como mendigo, como indigente, usar roupa esfarrapada, porque ser humilde é, antes de tudo, uma atitude do espírito. Assim como há pessoas abastadas e humildes, também há pessoas miseráveis gananciosas e soberbas. Ser humilde, pois, é antes de tudo ser pobre de espírito e isso significa desapego e generosidade, significa possuir bens sem ser escravo deles, significa acumular tesouros que a traça não consome e o ladrão não rouba (Mt 6, 19).

Na primeira leitura, extraída do Livro do Eclesiástico (3, 20), o escritor sagrado nos adverte: “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. ” O livro do Eclesiástico faz parte dos escritos deuterocanônicos, isto é, foi escrito em época mais recente, não compondo os livros sagrados do antigo judaísmo, portanto, não era lido nas sinagogas judaicas. Seu autor é um sábio de nome Jesus, filho de Sirac, daí porque o livro também é conhecido como Ben Sirac ou Sirácida. Os cristãos primitivos sempre consideraram este livro como sagrado, mas é um dos livros que Lutero recusou e por isso não está na bíblia protestante. Mas se compararmos o seu texto com os ensinamentos de Cristo, especialmente nas ocasiões em que Ele censura o comportamento dos fariseus, percebe-se que ambos se põem na mesma linha de raciocínio. No livro da Sabedoria, o autor expõe a tradição judaica mais autêntica e Jesus, tendo sido educado na tradição judaica, o conhecia muito bem, aproveitando-se disso para mostrar a hipocrisia dos fariseus que, como mestres da lei, não a praticavam. Semelhanças com o texto desta leitura podemos encontrar também no cântico de Maria, após ouvir a saudação do anjo (Lc 1, 52): derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes... pôs os olhos na humildade de sua serva. Não é, portanto, de se admirar que desde os primeiros tempos do cristianismo este livro tenha sido sempre prestigiado e lido nos templos.

No evangelho deste domingo, podemos identificar um verdadeiro sermão sobre a humildade, através das parábolas ditas por Cristo na casa de um dos chefes dos fariseus. Diz o evangelista Lucas (14, 1), que Jesus fora convidado para ir almoçar na casa de um importante fariseu, num dia de sábado. É de supor-se que Ele, como bom judeu, comparecera à sinagoga naquele dia e provavelmente tenha sido convidado para fazer a leitura da Torah. Após o culto, um dos lideres dos fariseus o teria convidado para ir almoçar na casa dele. Ali chegando, Jesus observou como os convidados ficavam disputando a preferência do dono da casa, escolhendo os melhores lugares à mesa. Cada qual queria demonstrar ter mais prestígio com o anfitrião. E ao mesmo tempo observavam qual seria a atitude de Jesus, como um convidado de honra. Percebendo isso e mesmo antevendo alguma provável armadilha, Jesus tomou a iniciativa das ações e passou a contar-lhes uma parábola.

Os fariseus gostavam daquele tipo de religiosidade das aparências, do cumprimento da lei pela sua literalidade, sem uma atitude de interiorização. Por isso, Jesus aproveitou o contexto e contou mais uma das suas historinhas: houve um banquete em que um convidado que estava sentado no lugar de honra foi solicitado pelo anfitrião para ceder seu lugar para outro conviva mais importante do que ele, tendo que ir sentar-se lá atrás. Era exatamente o que eles estavam fazendo, escolhendo os melhores lugares. Então, Jesus arrematou: quando tu fores convidado, senta-te nos últimos lugares, porque será honroso para ti ser chamado para ser chamado mais para a frente e, ao contrário, será decepcionante para ti ser mandado lá para trás. Essa parábola de Jesus foi tradicionalmente interpretada pelos biblistas no seu sentido mais literal de uma posição ou local físico. Contudo, podemos compreendê-la também noutro sentido mais simbólico, da busca por elogios, da necessidade de ser aplaudido, bajulado, da vaidade de ser notado, reconhecido. Essa procura psicológica pelos “primeiros lugares” na opinião pública tem o mesmo sentido da disputa pelo melhor lugar na mesa do banquete. A frustração que daí resulta, quando a expectativa não se materializa, é semelhante à humilhação daquele que foi “convidado” a sentar na última fileira. Sim, porque, mais importante do que a pobreza de bens materiais é a pobreza do espírito, o reconhecimento sincero da nossa fragilidade, da nossa incompletude. O espírito orgulhoso não percebe isso e necessita de estar sempre sendo incensado e colocado em alto pedestal. Ao contrário, o espírito humilde raciocina como Cristo disse no evangelho: somos servos inúteis, fizemos o que tínhamos de fazer. (Lc 17, 7)

Daí a complementação que Jesus faz desta primeira parábola com uma segunda: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. ” (Lc 14, 12) Ele não está dizendo que não se deve oferecer recepções aos amigos e parentes. Está advertindo que quem pratica o bem somente para os semelhantes, os da sua mesma classe social, recusando-se a fazer o mesmo com as pessoas mais humildes, na verdade, não age como cristão. Recentemente, o Papa Francisco fez uma comparação interessante, quando disse: de que adianta ir à missa e comungar se, quando chega de volta ao seu apartamento, nem cumprimenta o porteiro do prédio? O profissional que escolhe a sua clientela olhando apenas o poder aquisitivo e a consequente possibilidade da retribuição material não está agindo como cristão. Atender com alegria o cliente bem-vestido e perfumado, enquanto o cliente de aparência modesta é recepcionado com frieza e má vontade, não é atitude digna de quem se considera discípulo de Cristo. Novamente, devemos entender que não se trata de um local físico, de um almoço ou jantar convencionais, mas é preciso alcançar o nível do simbolismo da mensagem.

No final desta parábola, Jesus diz: “quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. ” (Lc 14, 13) Ora, isso não deve ser entendido na sua literalidade, mas no sentido metafórico: quando tu tratas bem os iguais a ti, aqueles que podem também te fazer o mesmo, a tua recompensa já foi dada, através dos elogios que recebes e das promessas que ouves. Mas se ages desse mesmo modo também com aqueles que não podem te retribuir, a recompensa será dada pelo Senhor, justo juiz. E de nada nos adiantaria cumprir a literalidade desse texto, promovendo banquetes para os indigentes, os excluídos, os moradores de rua, se o nosso espírito, a nossa atitude interior demonstrar superioridade, distanciamento, ojeriza ou indiferença. A humildade não está nas práticas exteriores, mas no sentimento de solidariedade que deve acompanhá-las. Esta é a diferença entre praticar a humildade e ser humilde. Alguém pode praticar atos exteriores de humildade e manter o espírito soberbo, isso de nada adianta. A humildade não é medida pela quantidade de bens materiais que alguém possui, mas pelo grau de desapego que tal pessoa demonstrará em relação a esses bens. Vale lembrar, nesse contexto, o inspirado comentário de Paulo sobre Jesus, na carta aos Filipenses (2, 5-7): sendo de condição divina, Jesus não se prevaleceu disso, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante a nós. Ele, sendo Deus, não precisava passar por todos aqueles tormentos. No entanto, Ele optou pela humildade até as últimas consequências, para nos dar o maior exemplo de capacidade de renúncia, quando Ele se desapegou até de sua condição divina, para sacrificar-se por nós homens, que nada temos para dar-Lhe em recompensa. Esse é o desafio que Jesus deixou para aqueles que aderem ao seu projeto e aceitam ser seus discípulos.

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domingo, 21 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 21º DOMINGO COMUM - A PORTA ESTREITA - 21.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 21º DOMINGO COMUM – A PORTA ESTREITA – 21.08.2016

Caros Leitores,

As leituras litúrgicas deste 21º domingo comum nos convidam a refletir sobre o tema da salvação, que é oferecida universalmente, ou seja, Deus não escolheu apenas um grupo, ainda que numeroso, para distribuir com este a sua graça, mas a oferece a todos. Porém exige certos requisitos para que a graça salvífica passe a agir na vida do crente. A graça divina é infinita e está disponível para todas as pessoas de boa vontade, todos os que procuram a Deus com o coração sincero, isso significa que há diversas “portas” por onde entrar para a vida eterna, no entanto, o cristão deve desconfiar das portas largas, pois estas levam a paragens ilusórias. A salvação vem associada à cruz, portanto, não há salvação sem que cada um carregue alegremente a sua cruz, seguindo o exemplo de Cristo.

A primeira leitura, retirada do livro de Isaías (66, 18-21- deuteroIsaías, escrito após o cativeiro da Babilônia) é de uma clareza extraordinária. É impressionante a visão de futuro do profeta, a precisão dos detalhes com que ele aponta os acontecimentos da salvação: “virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória.” (Is 66, 18) E prossegue mais adiante: “Escolherei dentre eles alguns para serem sacerdotes e levitas.” (Is 66, 21) O profeta anuncia como será o futuro da humanidade. Obviamente, ele escrevia para as pessoas do seu tempo. Porém, numa perspectiva escatológica, o profeta se refere a todos nós, quando explica: “...para as terras distantes, e, para aquelas que ainda não ouviram falar em mim e não viram minha glória.” (Is 66, 19) Com isso, o profeta estava anunciando ao povo hebreu que a aliança de Javeh com Abraão não se referia apenas a eles, ou seja, quando Ele disse que a descendência de Abraão seria mais numerosa do que as estrelas do céu, isso significava o alcance universal da promessa, ultrapassando os limites da nação hebraica. E o profeta complementa: dentre estes estrangeiros, escolherei alguns para serem sacerdotes e levitas, ou seja, esses que ainda não Me conhecem também serão meus anunciadores. É curioso como alguns pregadores de visão curta e fundamentalistas insistem em contar o número de pessoas a quem Javeh dirigiu a mensagem da salvação, ligando essa ideia aos 144.000 assinalados do Apocalipse (Ap 7,1). A imagem transcrita por João contém um enigma a ser decifrado e comporta divergências. Ao contrário, a profecia de Isaías é clara e direta: a mensagem da salvação é dirigida a todos os povos, inclusive àqueles que ainda não conhecem Javeh, mas que virão a conhecê-lo, através dos seus mensageiros. O momento histórico vivido pelo povo de Israel naquela época, retornando à pátria após livrar-se do cativeiro babilônico, era de grande euforia e isso refletia o desejo do Profeta de levar a todos os povos a misericórdia e a fidelidade de Javeh.

Na segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, o tema da salvação universal também está presente em outra perspectiva, numa dimensão do castigo disciplinar, da correção educativa, para aqueles que não estão comprometidos com a sua missão. O autor da carta, antes atribuída ao apóstolo Paulo, exorta os seus compatriotas hebreus, após a morte de Cristo, sobre a nova forma de compreender o sofrimento. Havia entre os hebreus uma tradição antiga que interpretava o sofrimento como castigo divino, de modo que uma pessoa infeliz era tida como alguém que não gozava da amizade de Javeh. Vemos diversas passagens no evangelho em que Cristo recrimina os fariseus por causa dessa ideia (por ex: Jo 9, 1-3). O autor da Carta aos Hebreus vem repetir essa mesma lição de Cristo em outro contexto, dizendo que o sofrimento faz parte da vida e que devemos compreendê-lo como um recurso pedagógico para nos aproximar do caminho da verdade. Assim diz: “não te desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho'.” (He 12, 6) E complementa: qual o filho a quem o pai não corrige, quando aquele erra? Daí a advertência em He 12, 13: “acertai os passos dos vossos pés', para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado.” Isso quer dizer que as pessoas que sofrem e as mais necessitadas não devem ser excluídas, mas trazidas para o convívio fraterno, para que não se percam, mas sejam socorridas. “É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata. ” (He 12, 7) Exemplo dessa linha pedagógica nós encontramos também nas cartas de Paulo, quando trata da questão dos judaizantes (por ex: Romanos 14, 5), pois o povo hebreu tinha aquela ideia de que, por serem descendentes de Abraão e, portanto, os legítimos herdeiros da promessa, eles eram os primeiros da fila, ou seja, os demais deviam inspirar-se no exemplo deles. A Carta aos Hebreus, assim como as outras lições de Paulo, vêm mostrar que esse raciocínio é ilegítimo, pois pode até ocorrer o oposto, isto é, os últimos serem os primeiros, conforme está no evangelho de Lucas (13, 30).

A terceira leitura é exatamente do evangelista Lucas (13, 22-30), no trecho em que narra a pergunta feita por alguém a Jesus: é verdade que são poucos os que se salvam? Curiosamente, o evangelista não identifica quem foi o autor da pergunta, mas por se tratar de um tema muito preocupante para os fariseus, podemos supor que tenha sido um deles. Muitos fariseus de boa vontade acompanhavam Jesus e escutavam seus ensinamentos. E pelo estilo da resposta dada por Jesus, deve ter sido um fariseu o perguntador, por causa dos exemplos que Ele dá. Como costuma acontecer, Jesus nunca responde diretamente às perguntas, mas faz isso através de exemplos e de situações ilustrativas. Neste caso, Ele usa o exemplo da porta estreita, afirmando indiretamente que não existe um número determinado de pessoas aptas à salvação, mas que quem quiser salvar-se deverá escolher a porta estreita. Sabe-se que uma porta larga é um lugar mais cômodo de passar, mas neste caso, ela deve ser evitada. No caso dos fariseus, a “porta larga” significava a mentalidade que eles tinham de serem os herdeiros da promessa de Javeh e, portanto, já estavam com a salvação garantida. Então, Jesus quer mostrar que a salvação é um dom divino dirigido a todos e que, embora seja gratuito, exige atitude de quem quer salvar-se, por isso, deve escolher a porta mais difícil de entrar. Portanto, não alcança a salvação quem fica de braços cruzados, pensando que já foi escolhido e isso basta, e não cuida de fazer a sua parte. Por isso, Ele cita uma situação hipotética: o patrão fechou a porta e quando o servo pede para abrir, o patrão responde que não o conhece. O servo insiste: eu comi e bebi junto contigo... mas o patrão continua dizendo: não sei de onde sois.

Quais são, concretamente, essas tarefas árduas, que Jesus simboliza com a imagem da porta estreita? Falando num linguajar também simbólico, será cada um carregar a sua cruz de cada dia, não se queixando nem reclamando, mas na alegria e na esperança. A tolerância com os irmãos, a prática da justiça, o exercício da caridade são alguns comportamentos práticos associados à porta estreita. Quem se acomoda na presunção de estar salvo pelo sangue de Cristo e se descuida dos seus deveres de cristão, de testemunhar o amor de Cristo através das suas ações ouvirá do Mestre, diante da porta fechada: não sei de onde sois. Foi por isso que Jesus advertiu que muitos tentarão entrar na porta estreita e não conseguirão, estes são os que se contentam com uma religião de exterioridades, como acontecia com os fariseus do seu tempo. Estes achavam que bastava o cumprimento da lei, bastava jejuar, dar esmolas, ir ao templo nos dias de preceito, fazer suas orações e pronto. Saindo do templo, lá estavam eles com o coração cheio de orgulho, inchado pela prática da injustiça, obeso pelo desprezo para com os irmãos… meus amigos, precisamos vigiar para que isso não aconteça conosco. Esse puxão de orelhas de Jesus hoje é dirigido a todos nós. A nossa participação nesse projeto universal salvífico de Cristo se encontra descrito na passagem de Lc 13, 29: Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. Devemos, a todo custo, evitar nos colocarmos na posição dos fariseus, porque essa tentação da soberba sempre acometeu os cristãos em todos os tempos. A porta estreita não é compatível com essa conduta.

A porta estreita, enfim, não significa sofrimento, doença, tristeza, escassez, como outrora se interpretou, como se fosse necessário o autoflagelo, a privação das coisas materiais a fim de obter a salvação. Os bens materiais são dons divinos e eles somente atrapalham a nossa vocação para o Reino de Deus quando são direcionados para o nosso egoísmo e para a nossa ganância, porém se forem colocados ao serviço da comunidade, se forem objeto da partilha e instrumentos da prática do bem, eles não causarão embaraço ao projeto de Deus.

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domingo, 14 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 20º DOMINGO COMUM - O FOGO DA DISCÓRDIA - 14.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO 20º DOMINGO COMUM – O FOGO DA DISCÓRDIA – 14.08.2016

Caros Leitores,

Neste domingo, o 20º do tempo comum, a liturgia nos põe diante de leituras intrigantes, enigmáticas, daquelas que destoam dos temas geralmente tratados, relacionados com a paz e a concórdia. Os textos litúrgicos escolhidos, ao invés, falam sobre discórdias e desuniões, conflitos e conturbações. Num momento de azedume, Jesus pergunta aos discípulos: vocês pensam que eu vim trazer paz à terra? Pois não foi, vim trazer a desunião. A Bíblia nos coloca, algumas vezes, em dilemas sobre como compreender palavras tão duras, em total contraste com o ensinamento rotineiro de Cristo. Como devemos entender a mensagem de Cristo, quando ele diz que vai promover o fogo da discórdia?

Na primeira leitura, temos um episódio dramático envolvendo o profeta Jeremias em tempos difíceis vividos pelo reino de Judá, coagido de um lado pelo faraó do Egito e de outro lado, pelo rei da Babilônia. Jerusalém ficou sitiada por mais de um ano, com o povo vivendo agruras. O rei de Judá, de nome Zedequias (ou Sedecias ou Matatias, são outros nomes que ele tinha), não procedia bem aos olhos do Senhor e quando o profeta Jeremias foi interpelá-lo, transmitindo a mensagem de repúdio a mando de Javeh, o rei deixou-se influenciar por seus conselheiros e mandou prender Jeremias num calabouço lodento, a fim de que morresse de fome. Visto que Javeh não desampara os seus profetas, e Jeremias foi aquele que disse um dia que possuía um fogo queimando dentro dele, de modo que ele não conseguia ficar sem profetizar, um servo do rei (o texto fala de Ebed Melech, mas este não é nome próprio, significa literalmente “servo do rei”) de origem etíope foi inspirado por Javeh para fazer um recurso em favor de Jeremias. Ele se arriscou demasiadamente, porque no palácio real, todos eram inimigos de Jeremias e quem falasse a favor dele corria sério risco de ir parar no mesmo local onde estava o profeta, no calabouço lamacento. Porém, de forma imprevista, o rei Zedequias acedeu ao recurso de Ebed Melech e autorizou que ele reunisse trinta homens e juntos fossem retirar o profeta Jeremias do calabouço. Estima-se que não seriam realmente necessários trinta homens para retirar Jeremias do fosso, porém esse número avantajado teria sido determinado pelo rei por medida de precaução, porque ele sabia que os nobres e os sacerdotes estavam contra Jeremias e poderiam tentar impedir o cumprimento da ordem real. Em retribuição ao seu ato heroico, Ebed Melech recebeu de Jeremias a promessa de que ele não seria apanhado quando o rei da Babilônia invadisse Jerusalém e levasse os seus habitantes como cativos. Assim aconteceu, cerca de um ano depois. Tanto Ebed Melec quanto Jeremias escaparam de ser levados ao cativeiro e fugiram para refugiar-se em terras egípcias.

Vemos, nesse episódio, uma espécie de fogo da discórdia entre os sacerdotes e o profeta Jeremias. O profeta aconselhava o rei para fazer um acordo com os babilônios, a fim de evitar a acerbamento do conflito, porém os nobres e os sacerdotes deram opinião oposta e o rei não atendeu ao profeta. Como resultado, os babilônios invadiram Jerusalém, levaram os tesouros do templo e carregaram a população como escravos. Por não atender a voz de Javeh através da palavra do profeta, o rei de Judá infligiu ao povo terrível castigo, do qual somente se livraram após muito tempo e depois de sofrerem severas penas. Às vezes, é preciso pagar o preço da discórdia para, enfim, descobrir a paz.

Na segunda leitura, o autor da Carta aos Hebreus (Hb 12, 1-4) aconselha seus conterrâneos a seguirem o exemplo de Cristo, que enfrentou a morte, não se importando com a infâmia, para entrar no trono de Deus. Os cristãos não devem desanimar em sua luta contra o pecado, para ao final receberem a recompensa. “Empenhemo-nos com perseverança no combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé.” Aqui o fogo da discórdia está colocado entre o cristão e o pecado, contra o qual deve este resistir até ao sangue, tendo como referência o modo como Cristo resistiu na cruz. Até pouco tempo, atribuía-se a autoria da carta aos Hebreus ao apóstolo Paulo, mas atualmente a crítica literária descartou essa possibilidade, embora admita que foi provavelmente escrita por um intelectual judeu de cultura grega (assim como Paulo) possivelmente ouvinte do Apóstolo. Há quem afirme que a autoria desta carta seja de Priscila, esposa de Áquila, que foram os primeiros divulgadores do cristianismo em Roma. O casal era amigo de Paulo, que fazia culto na casa deles, em suas viagens àquela cidade. Essas mulheres sábias e heroicas daqueles tempos não eram bem vistas na sociedade como intelectuais e preferiam esconder seus talentos, para não sofrerem discriminação. Na prática, Priscila era uma diaconisa.

A leitura do evangelho de Lucas (Lc 12, 49-53) é também intrigante pelas palavras ríspidas de Cristo aos apóstolos. Nesse capítulo 12, o escritor sagrado reúne diversas “conversas” que Jesus teve em caráter reservado com os apóstolos e ele não “dourava a pílula”, como se diz na gíria, falava mesmo de forma grosseira, de modo que deixava os discípulos com o juízo embaralhado. Em certo momento (vers. 41), Pedro não se conteve e perguntou: Senhor, dizes essa parábola só para nós ou também para os outros? Jesus nem respondeu diretamente, mas de forma indireta avisou: aquele que sabe a vontade do seu senhor e não a cumpre, é merecedor de muitos açoites. Por outras palavras, ele quer dizer: vocês serão mais exigidos do que os outros, porque foi-lhes dado a conhecer muito mais e, portanto, serão mais cobrados por isso. Foi nesse contexto que Jesus os deixou de orelhas quentes, quando disse: vocês pensam que eu vim trazer paz? Pois não foi, vim trazer a discórdia. Vim lançar fogo e estou ansioso para que ele se acenda. Vou receber um certo batismo e fico ansioso até que isso se cumpra.

Percebe-se que Jesus fala acerca da sua paixão, que se aproximava, e pela sua natureza humana, tinha dificuldade de controlar a própaia angústia. E já antevia que aquele grupo seleto de seguidores seus iria passar por diversas agruras, quando fossem enviados em missão. Jesus estava lançando a faísca naquele pequeno grupo e eles seriam encarregados de distribuir esse fogo pelo mundo afora, por onde passassem. Isso eles não tinham ainda condições de entender. Por causa da sua doutrina, Cristo previu que “O pai estará dividido contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. (Lucas 12:53)” De fato, isso aconteceu no passado e, de certo modo, continua a acontecer ainda em nossos dias, quando se observam dissensões no interior das famílias, por causa de divergências acerca da fé e da prática da religião. As diversas interpretações que são dadas às palavras bíblicas levam a que o fogo da discórdia se instale até dentro dos ambientes religiosos. É como se Jesus estivesse nos acautelando de que essas coisas poderiam acontecer, mas que isso não deve nos perturbar, ao contrário, deve servir-nos de estímulo para superá-las. Logo adiante, nesse mesmo capítulo, Jesus continua com esse discurso ranzinza, quando diz: ao verem uma nuvem se aproximando no céu, vocês dizem: vai chover. Pois sois hipócritas que sabem interpretar o tempo atmosférico, mas não sabem compreender o tempo da vida de vocês. Meus amigos, que grande visão de futuro Jesus demonstra nessas palavras ríspidas, que os discípulos ouviam sem compreender.

Quando vemos, nos dias de hoje, grupos de pessoas dentro das comunidades entrando em divergência até mesmo ao ponto de se tornarem inimigas por causa de questões religiosas, então podemos perceber o quanto Jesus foi verídico e crítico, ao dizer que veio trazer o fogo à terra e quer mesmo é que ele queime. Ele sabia que, com a nossa cabeça dura, só mesmo um elemento tão forte e temido como é o fogo seria capaz de nos impelir a enfrentar esses pontos de discórdia. E o que lamentavelmente se constata é que, mesmo assim, os cristãos não aprendem e continuam a cultivar divergências e atear novos fogos de discórdia. A intolerância religiosa é um dos grandes dramas e dilemas do mundo de hoje, e não me refiro somente ao que acontece no choque com diferentes religiões. Esse é, de fato, o conflito mais evidente. Mas há também um conflito surdo e dissimulado entre membros da hierarquia, entre os grupos que existem nas comunidades, entre as lideranças dos diversos serviços ligados à paróquia, cada um querendo se sobressair, nem que seja pisoteando os demais. O fogo da discórdia continua bem aceso, porém parece que as pessoas se acostumam com as labaredas e estas já não incomodam mais. Quando Jesus fez referência ao fogo, penso que foi no sentido de que aquilo que arde deve nos motivar a buscar logo um meio de apagar aquele incêndio, não para mantê-lo em ardência permanente. Podemos assim constatar o quanto ainda precisamos meditar com profundidade nos ensinamentos de Cristo e colocá-los em prática.

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domingo, 7 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 19º DOMINGO COMUM - VIGIAR SEMPRE - 07.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 19º DOMINGO COMUM – VIGIAR SEMPRE – 07.08.2016

Caros Leitores,

A liturgia deste 19º domingo comum nos convida a refletir sobre a necessidade da permanente vigilância acerca dos princípios da nossa fé, que fundamentam a nossa ação no mundo, o nosso exemplo de cristãos. Ser cristão não é uma diversão, um entretenimento, um modismo, mas a fé exige um engajamento, um conjunto de atitudes e atividades que envolve todo o nosso ser pessoal. Ninguém pode ser cristão apenas pela metade, esse cristianismo de fachada, pode até ser praticado por alguns crentes que se contentam em manifestações exteriores da sua fé, mas foi combatido por Cristo na sua catequese aos discípulos, de acordo com o que lemos no evangelho deste domingo.

A primeira leitura, retirada do livro da Sabedoria (Sb 18, 6-9), relembra a noite em que o povo foi libertado do Egito, quando Javeh demonstrou a sua fidelidade para com as promessas feitas através de Moisés ao povo, que n'Ele depositou sua fé. A ação miraculosa de Javeh foi, ao mesmo tempo, salvação para os justos e perdição para os inimigos. Os que acreditaram n'Ele foram contemplados com a sua força vencedora e os que não creram experimentaram o peso da sua ira. O livro da Sabedoria, cuja autoria era tradicionalmente atribuída a Salomão, é considerado pela crítica literária o texto mais recente do Antigo Testamento, tendo sido escrito numa época em que a cultura grega ganhava espaço dentre os judeus. Trata-se, portanto, de uma obra bem posterior ao tempo de Salomão. O objetivo do seu autor é recordar ao povo as suas raízes históricas, para deste modo fortalecer-lhes na fé e não deixar que sejam atraídos pelas novas doutrinas que apareciam. O texto busca resgatar e condensar os ensinamentos tradicionais básicos, produzidos pelos ancestrais do povo durante toda a sua caminhada, desde a libertação do Egito, demonstrando a superioridade de Javeh sobre os deuses dos outros povos.

A segunda leitura é retirada da carta aos Hebreus (Hb 11, 1-19). Esta carta, por muito tempo, foi aceita como tendo sido escrita por Paulo, por causa do pensamento grego inerente ao seu texto, que é uma característica dos escritos paulinos. Contudo, atualmente a crítica literária já descartou a autoria de Paulo, embora não se saiba, com certeza, quem teria sido seu autor. Nas Bíblias, ela ainda consta no final da listagem das cartas de Paulo, mas apenas por uma questão de organização de capítulos, pois não há certeza de quem a escreveu. Cogitou-se que poderia ter sido Timóteo ou Clemente de Alexandria, porém não há elementos históricos que corroborem essas hipóteses. O certo é que seu autor foi alguém da comunidade grega muito entrosado com a fé judaica, pois a exemplo do livro da Sabedoria, também procura resgatar esta tradição numa época muito marcada pela influência grega.

No início deste capítulo 11, o autor dá uma perfeita definição do que seja a fé: “um modo de já possuir o que ainda se espera”, é o conceito do “já e ainda não”, que também se encontra nos escritos paulinos. O autor da carta coloca como exemplo para esse conceito a extraordinária fé de Abraão, que superou todas as adversidades pela sua confiança na promessa de Javeh. Desde a gravidez de Sarah, em idade avançada, até a peregrinação pelo desconforto do deserto, morando em tendas precárias, passando pela provação experimentada, quando foi chamado a imolar seu único filho, Abraão nunca vacilou na sua crença na promessa de Javeh, pois sabia que Ele tem poder até de ressuscitar dos mortos. Pela sua fé inquebrantável, Abraão foi sempre uma referência para os escritores bíblicos, quando este assunto estava em pauta. Até Jesus Cristo, naquele episódio do centurião que disse “basta uma palavra tua” (sed tantum dic verbum), declarou: nunca vi tamanha fé em Israel. A fé demonstrada pelo centurião no Novo Testamento se equipara ao exemplo de fé de Abraão.

Os exemplos de Abraão, no Antigo Testamento, e do centurião, no Novo Testamento, demonstram para nós o tamanho do compromisso que brota da fé. Crer é integrar a fé na sua vida inteira e não apenas em parte dela nem apenas quando a ocasião coloca o crente em algum aperto. Fé significa viver cada dia com aquela mesma confiança e certeza, aconteça o que acontecer, vigiando para que nenhuma adversidade venha nos desviar deste caminho. As leituras da Sabedoria e de Hebreus reforçam a importância da fé incondicional como sendo aquela que Deus espera do fiel. Abandonar-se nas mãos de Deus não significa ficar de braços cruzados, sem fazer nada, esperando que Deus faça seus milagres a todo momento, mas sim fazendo cada um a sua parte, na convicção de que o resultado final será conduzido pela fidelidade daquele a quem servimos. Este é o significado da definição teológica da fé, contida nesse texto: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem.” (Hb 11, 1). Esta frase sozinha vale por um tratado teológico inteiro.

Na leitura do evangelho de Lucas (12, 32-48), temos uma catequese particular de Jesus para os discípulos. Algumas vezes, Ele catequizava os discípulos ao mesmo tempo em que ensinava também as multidões. Mas em outros momentos, Ele se dirigia especificamente ao pequeno grupo, como é o caso da leitura de hoje: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino.” (Lc 12, 32) O pequenino rebanho, no caso, é o seu grupo de escolhidos para continuarem o trabalho, depois que Ele retornasse ao Pai. Então, Jesus vai ministrar-lhe lições bem diretas: vocês devem ser vigilantes como empregados que esperam o patrão, que pode chegar a qualquer momento, para abrir-lhe imediatamente a porta. Por outras palavras, o verdadeiro crente é aquele que está sempre alerta, aquele cuja fé não tira férias, cuja fidelidade nunca esmorece ou dormita. Para estes, o patrão vai oferecer um banquete no qual ele próprio será o garçon. Esta será a retribuição aos que crerem de todo o coração e perseverarem inabaláveis na sua fé.

Porém, Jesus faz outra advertência aos discípulos, para que eles não ajam como servos “confiados”, ou seja, aqueles que o patrão deixou como administradores e na ausência dele, porém passam a explorar os outros empregados, passam a regalar-se de comida e bebida até se fartarem e, quando o patrão retorna, os encontra embriagados. Para estes, não haverá retribuição, e sim, castigo. E essa advertência de Jesus se dirige também para nós. A nossa condição de cristãos não deve nos levar a tirar proveito da situação, de nos considerarmos melhores do que os outros irmãos da fé e do que as pessoas que praticam outras crenças religiosas. O ser cristão para nós deve acarretar o compromisso de dar o exemplo para que os irmãos nos vejam e sejam estimulados a nos imitarem, isto é, eles devem ser convencidos pelo nosso testemunho e pelo nosso exemplo, e não ser tratados com desdém ou menosprezo. O Papa Francisco tem, repetidas vezes, enfatizado isso na sua catequese, superando aquela doutrina tradicional de que somente na Igreja Católica as pessoas serão salvas, como se isso fosse automático. Os cristãos “confiados” podem ser surpreendidos com a reprovação, enquanto pessoas de outras crenças, mas cuja conduta está de acordo com o evangelho, receberão aprovação.

Esta vigilância que Jesus exige de seus seguidores estende-se a todos, tanto os fiéis leigos quanto os fiéis consagrados e os ordenados. Quantas vezes, infelizmente, encontramos sacerdotes e bispos autoritários e prepotentes, que estão longe do modelo traçado por Cristo no evangelho deste domingo. Quantos personagens, ao longo da história eclesiástica (papas, bispos, purpurados) se comportaram como autênticos chefes políticos e não como aqueles que foram escolhidos para servirem ao povo de Deus. Outrora como nos dias atuais, não é raro encontrarmos exemplos de “empregados confiados” que esqueceram a palavra de Cristo: “'Meu patrão está demorando', e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis.” (Lc 12, 45-46). Vejamos que a consequência desse comportamento é terrível: o empregado será partido ao meio e irá participar do destino dos infiéis. E Jesus complementa dizendo que a exigência da fé será proporcional ao conjunto dos talentos recebidos, ou seja, a quem muito foi dado, muito será pedido. “Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes.” (Lc 12, 47)

Deus quer de nós fidelidade sempre, não apenas no comparecimento da missa aos domingos e na participação dos sacramentos, não apenas em determinadas horas do dia ou em determinados dias da semana, mas a cada minuto de vida que Ele nos dá. Que nós aprendamos a agir sempre como os empregados vigilantes, elogiados pelo patrão.

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