segunda-feira, 28 de março de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - DOMINGO DA PÁSCOA - 27.03.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA PÁSCOA – 27.03.2016 – PÁSCOA HOJE

Caros Leitores,

Ao fazer aqui umas continhas, percebi que, neste domingo de Páscoa, completam-se já cinco anos que escrevo esses comentários semanais, contando sempre com a prestimosa simpatia de vocês, que sempre revigoram o meu entusiasmo para escrevê-los. E a nossa Páscoa, na atual conjuntura brasileira, mais do que nunca precisa ser ressignificada, pois o momento sociopolítico é de incertezas e turbulências, o que exige de nós, cristãos, maior dose de fé e engajamento. Afinal, todos somos responsáveis pelos destinos do país. Não me refiro a ativismo político partidário, pois este fica a critério de cada cidadão fazer ou não. Refiro-me à necessidade de refinar a consciência e não adotar atitudes de extremismos, seja para qual lado for a tendência, porque acima de todas as dissensões está o interesse coletivo e o bem comum. A Páscoa, festa mais antiga da humanidade, é sempre uma ocasião inspiradora de novas esperanças, oportunidade para renovar compromissos e, principalmente, reacender a fé, porque esta é que nos mantém firmes na caminhada. Enquanto temos fé, temos energias para seguir adiante. Se ela fraquejar, tudo o mais também desmoronará. Portanto, a maior mensagem que a ressurreição de Cristo poderá nos trazer é a firmeza na nossa fé.

Aqui está, com efeito, o ponto central da nossa fé cristã: a ressurreição de Cristo. Jesus não inventou a Páscoa, mas sendo conhecedor da história humana, ele escolheu esta significativa data para incluir nela a sua ressurreição, isso não foi por mero acaso, tenho plena convicção de que houve a ação divina para que esses fatos tenham se encaminhado para uma realização conjunta. Foi tudo meticulosamente planejado desde o início. Jesus, por diversas vezes (relatam os evangelistas), se dirigira a Jerusalém para celebrar a Páscoa. Era assim que todos os judeus faziam e Jesus era judeu plenamente. Até então, a Páscoa rememorava, para eles, a libertação da escravidão do Egito, fato que já era considerado o ponto central da fé israelita: a conquista da liberdade perante um adversário muito mais poderoso e bem equipado, tudo conduzido por Javeh, numa demonstração de predileção por aquele povo e provando Sua fidelidade com a aliança tratada com os antigos patriarcas.

Com efeito, os pesquisadores não sabem a origem da festa da páscoa, porque essa é uma tradição que se perde no tempo. Estima-se que a páscoa começou a ser celebrada desde que os seres humanos começaram a formar grupos estáveis em determinados locais, onde passaram a plantar e criar animais, deixando assim de ser nômades, como eram os primeiros grupos humanos. Ou seja, a festa da páscoa originalmente estaria integrada com o próprio surgimento da sociedade humana. Esse tempo geográfico que, no hemisfério norte, corresponde à primavera e coincide com o tempo em que as árvores iniciam a brolhar após o frio do inverno, começando a produzir os primeiros frutos da terra, passou a ser festejado como o tempo da primeira colheita, tempo de fartura e da prosperidade, celebrando a paz entre a natureza e os seus habitantes, tempo em que os animais também acasalam e a vida sobre a terra se renova. Este seria o sentido primitivo da páscoa, festejada desde tempos imemoriais.

A páscoa, portanto, desde os primórdios, já tinha um significado especial para a espécie humana, mesmo antes de alguns acontecimentos importantes terem ocorrido nessa época do ano, vindo a trazer um significado renovado para essa festa, dentro da tradição judaico-cristã. Assim é que a fuga dos hebreus do Egito, onde eles viviam como escravos, se deu por ocasião da páscoa. A narração epopéica do Êxodo reproduz a fé dos judeus no Deus de seus ancestrais, permeada de intervenções divinas poderosas, protegendo o povo contra o inimigo perseguidor. Porém, divergindo disso, teorias de alguns historiadores acreditam que ocorreu, de fato, uma fuga em massa dos hebreus, liderados por Moisés. Tudo fora combinado para que aproveitassem os festejos da páscoa, porque os egípcios também estariam festejando, e assim os hebreus teriam mais chance de não serem percebidos ou de pensarem que aquela fuga alguma forma celebrativa e isso os faria ganhar tempo e dianteira, antes que o exército do Faraó se pusesse a caminho para recapturá-los. Assim foi que o grupo de fugitivos somente foi alcançado quando já haviam atravessado o Mar Vermelho, portanto, já fora dos limites territoriais do Egito. Só que os hebreus conseguiram atravessar o mar com a maré baixa, porém quando os soldados do Faraó chegaram, a maré já estava enchendo e assim eles ainda tentaram alcançar os fugitivos, mas o mar os impediu. No livro do Êxodo (14, 21) há uma referência a isso, quando diz que Moisés estendeu a mão sobre o mar e durante toda a noite soprou vento forte, dividindo as águas. Segundo essa versão não bíblica da história, não houve uma “divisão” das águas em colunas (como aparecem nas versões cinematográficas), mas os fugitivos aguardaram na beira-mar o vento siroco que fazia a maré recuar, a ponto de conseguiram atravessar até a outra margem, com água rasa. Quando os egípcios chegaram, aquele vento forte havia cessado e eles tentaram seguir pelo mesmo caminho, mas então a profundidade da água não permitiu que eles atravessassem, e com isso os israelitas puderam seguir seu caminho. Aquela narração clássica do Êxodo, em uma linguagem carregada de símbolos, que já foi artisticamente representada nos filmes, fazia parte da catequese rabínica, para exaltar diante dos jovens judeus, que não haviam passado por aqueles momentos de aflição, a proteção de Javeh para com o seu povo.

Para os hebreus, portanto, a Páscoa lembrava essa trajetória heroica dos seus antepassados e desse modo a Páscoa era a festa da liberdade reconquistada, era a principal festa do povo hebreu. Tanto assim que os chefes dos sacerdotes queriam “resolver” a situação de Jesus antes da Páscoa, porque se entrasse o período festivo, as pessoas iriam se dedicar à festa e não haveria mais clima favorável ao julgamento pretendido por eles. Porém, o que eles não sabiam é que tudo isso já estava no plano salvífico divino. Ao chamar os apóstolos para irem com ele a Jerusalém, para aquela páscoa especial, Jesus fez tudo diferente: uma entrada triunfal, montado num jumento, aclamado pela população. Quantas vezes Jesus já havia ido a Jerusalém para a Páscoa e não tinha feito assim. Mas aquela Páscoa iria ganhar um significado novo, aquela iria ser a Sua páscoa e, com isso, a nossa Páscoa verdadeira e definitiva. As primeiras comunidades cristãs, de início, não perceberam isso e continuaram celebrando o dia do Senhor no sábado, como era a tradição hebraica. Mas depois foram percebendo que, com a ressurreição de Cristo, a Páscoa tinha ganho um novo sentido e aquela antiga tradição sabática precisava ser superada pela celebração dominical, porque Jesus havia ressuscitado no primeiro dia da semana. O novo significado da Páscoa, como festa da vida renovada, da vida plena e definitiva, da vida que supera a morte devia ser comemorada como uma nova festa, com um novo simbolismo, essa devia ser a nova referência para as festividades pascais.

Meus amigos, conforme mencionei no início, a celebração da Páscoa neste ano está acompanhada de muitas apreensões e incertezas. A nação está dividida, faz-me lembrar os tempos da guerra civil romana, quando os partidários de Pompeu agrediam os partidários de César. As lições da história devem ser sempre relembradas, porque nos trazem ensinamentos frutuosos e esclarecedores. O que vemos, de parte a parte, hoje no Brasil, são grupos maniqueístas, alinhados em duas colunas: “a favor do golpe” e “contra o golpe”. Não vejo nenhuma tendência “a favor do Brasil”, mas cada uma a tentar proteger o “território” conquistado, longe de pensar no bem de todos. Aliás, cada grupo supõe que representa “todos”, numa análise míope e tendenciosa. Confesso com sinceridade, eu nunca havia vivido uma Páscoa tão triste e apreensivo. Daí o meu apelo para que hoje, quando celebramos a Páscoa, nos lembremos da esperança que a Páscoa nos deve trazer, junto com a ressurreição de Cristo. A situação, conforme estabelecida, não interessa a ninguém (exceto a um certo grupo de abutres sociais, aqueles para quem quanto pior, melhor). E o mais desalentador de tudo é vermos irmãos nossos que, por momentânea perda de lucidez (creio eu), não percebem que estão “a serviço” desses dilapidadores da pátria, seja de qual lado que estejam.

Neste domingo de Páscoa, essa foi a minha reflexão pessoal, diante dos presságios pouco animadores que nos são trazidos pela imprensa, em todas as suas formas. Peço desculpas por ter utilizado esse espaço para expor minha opinião pessoal acerca do momento histórico pelo qual atravessamos e peço que me perdoem pelo desabafo, especialmente aqueles que não concordam com o meu ponto de vista. Para mim, não faz sentido celebrar a Páscoa apenas com o Círio aceso e os cumprimentos formais, enquanto no recinto exterior, as maquinações se multiplicam. Apesar de tudo, é preciso seguir em frente e manter a fé.

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domingo, 20 de março de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - DOMINGO DE RAMOS - 20.03.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – O SERVO SOFREDOR – DOMINGO DE RAMOS - 20.03.2016

Caros Confrades,

A liturgia deste domingo dos ramos traz uma leitura clássica da profecia de Isaías acerca do servo sofredor. É oportuno lembrar que Isaías era o profeta preferido nas citações de Cristo, quando em discussão com os fariseus referia-se à sua pessoa. É realmente desconcertante observar que, com cerca de 700 anos de antecedência dos fatos, a visão profética de Isaías tenha sido tão perfeita e fiel em relação ao que sucedeu com o Messias. Outro relato profético de grande precisão foi o de Miqueias, acerca do nascimento de Jesus em Belém (Mq 5, 2). Mas os relatos de Isaías são muito mais impressionantes e com grande riqueza de detalhes.

É também oportuno mencionar que a festa da páscoa, no tempo de Cristo, era celebrada no sábado, porque este era o dia santificado para os judeus. Na condição de judeu convicto, Jesus foi diversas vezes a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Nessa vez, que ele sabia que seria a última, ele fez de propósito uma chegada diferente, montado num jumento e aclamado pela multidão. Somente por volta do século IV, a tradição cristã mudou a celebração da Páscoa para o dia de domingo, em homenagem à ressurreição de Cristo e ainda para indicar uma nova regra celebrativa, diferente dos costumes antigos dos patriarcas, pois Cristo afirmou, por diversas vezes, que viera trazer um novo mandamento, uma nova proposta religiosa, um novo estilo de adorar o Pai, deixando de lado a figura tradicional do Javeh veterotestamentário. Essa é a justificativa teológica oficial. Mas no meu ponto de vista pessoal, opino que foi uma deliberação imprópria, pois devia ter-se mantido a festa sabática, de acordo com a mais vetusta tradição. Obviamente, a essas alturas da história ocidental, não faz mais sentido retornar ao antigo costume, todavia registro o meu voto de desacordo com essa mudança. A Páscoa já existia antes do cristianismo, pois é a festa mais antiga da humanidade e continua regida pelo calendário lunar, esse é mais um motivo para não ter sido alterada a sua data comemorativa.

Passando às leituras, a primeira, já referida no preâmbulo, (Is 50, 4-7) assim descreve a imagem do servo sofredor: aquele que não foge diante dos castigos, que oferece a outra face a quem lhe bateu e não se afasta diante de bofetões e cusparadas. E complementa: “o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. ” O texto de São Jerônimo, traduzido literalmente, é mais enfático: por isso, expus o meu rosto como pedra duríssima, pois sei porque não ficarei desconcertado. O servo sofredor era a imagem oposta da figura do Messias esperado pelos fariseus, que o imaginavam um cavaleiro real, brandindo a espada e expulsando os romanos do território deles. Decepcionaram-se.

Temos, na segunda leitura, outro conhecido texto de Paulo à comunidade de Filipos, a sua preferida. Falando sobre o sacrifício de Cristo, diz que ele não fez da sua condição divina um privilégio para evitar os sofrimentos. Eu não gosto da tradução oficial do texto da CNBB, que usa o vocábulo “usurpação” (não fez do ser igual a Deus uma usurpação – Fl 2, 6). A meu ver, modifica totalmente o sentido da mensagem paulina. Paulo estava afirmando que Jesus sofreu realmente os castigos que lhe foram impostos, ele abriu mão de sua condição divina em preferência à condição humana, a fim de nos redimir de todos os pecados e nos dar a salvação. Havia alguns cristãos que acreditavam que Jesus não havia sofrido de verdade, pois ele era Deus e podia evitar o sofrimento, assim toda a sua paixão teria sido uma encenação de sofrimento, mas não real. Paulo afirma exatamente o oposto. Cristo não escapou do sofrimento, porque ele quis assim. Esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo (Fl 2, 7), se ele não tivesse feito assim, a sua paixão não teria valor nenhum e dela nós não aproveitaríamos. Pela sua obediência ao plano do Pai, ele foi exaltado acima de todos e assim conquistou a redenção em nosso favor. Esse é o grande mistério que os judeus não compreenderam e não aceitaram.

Na leitura do evangelho de Lucas (22, 14), o evangelista descreve a condenação e crucifixão de Jesus, juntamente com outros dois condenados. Há um trecho interessante, que reproduz o momento em que o 'mau ladrão' com Ele crucificado, o provoca dizendo: “salvou os outros, salva agora a ti mesmo”. A resposta para esta provocação está na passagem de Isaías acima e também está explicada na carta de Paulo aos Filipenses. Se Jesus tivesse utilizado o seu poder miraculoso para se livrar da cruz, o plano do Pai teria ido por terra. Daí a queixa humana de Jesus: “Pai, por que me abandonaste?” E depois, a entrega: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Jesus veio para o mundo humano a fim de cumprir a missão que o Pai lhe destinou, então não seria Ele próprio o gestor desta empreitada, e sim o Pai que O enviou. As diversas manifestações miraculosas realizadas em outras pessoas tinham como finalidade levar aquelas pessoas a acreditarem n'Ele, na Sua missão, na Sua divindade, na Sua entrega total ao cumprimento da promessa. Vejamos o grande testemunho contido nos versículos 47 e 48 do cap. 23 de Lucas: “O oficial do exército romano viu o que acontecera e glorificou a Deus dizendo: 'De fato! Este homem era justo!' E as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram o que havia acontecido, e voltaram para casa, batendo no peito.” O sacrifício de Cristo começou a produzir seus efeitos logo logo, de modo imediato, após o “consumatum est”. Nem foi preciso esperar a Sua miraculosa ressurreição para que os resultados pudessem ser notados.

Consta nas narrações dos evangelistas que a crucifixão de Jesus teria sido por volta da hora sexta (meio dia) e que se fizeram trevas no local até a hora nona (3 da tarde), cf. Lucas, 23, 44, quando Jesus entregou o espírito ao Pai. Especulando sobre esse fenômeno, o que teria provocado tal escuridão? Talvez um eclipse? Bem, a festa da Páscoa, desde tempos imemoriais, está sempre associada à ocorrência da primeira lua cheia da primavera (para os europeus; para nós, a primeira lua cheia do outono). Eu nunca li nada a respeito de um provável eclipse do sol associado à morte de Cristo, mas eu arriscaria essa probabilidade, pois o evangelista Lucas é bastante cuidadoso na produção do seu texto e bastante criterioso na citação dos detalhes, portanto, essa referência a um horário de trevas não teria sido incluída despropositadamente. O sol parou de brilhar e a cortina do templo partiu-se ao meio. A inauguração da vida missionária de Jesus deu-se com o evento miraculoso da aparição do Espírito juntamente com a voz do Pai. A sua finalização na cruz também merecia, certamente, ser marcada com eventos miraculosos provocados na natureza, isso me parece coerente. Por outro lado, é bem verdade que os relatos dos evangelhos não podem ser entendidos como “atas” dos acontecimentos ou “reportagens” de profissionais, mas sim como relatos de testemunhas e expressões de fé das primeiras comunidades, as quais são críveis exatamente porque estão situadas temporalmente bem próximas dos fatos. Isso nos ajuda a ultrapassar dúvidas infundadas e questionamentos desnecessários. A nossa fé deve estar adiante e acima desses detalhes.

Devemos também estar cientes de que a comemoração da Páscoa não deve ter seu foco apenas na paixão de Cristo, mas sempre nos lembrarmos que os sofrimentos de Cristo são a transição para a Sua glória, pois não há como falar em ressurreição sem falar em morte, no entanto, o que deve ser ressaltado nas comemorações da semana santa há de ser muito mais a ressurreição do que a paixão. As encenações teatrais da Paixão de Cristo formam uma tradição mundial, até filmes já exploraram exaustivamente o tema, no entanto, não é esse sentimentalismo e essa consciência de culpa que deve nos servir de estímulo, e sim o resultado final disso tudo, ou seja, o triunfo de Cristo sobre o pecado e a morte. O sacrifício de Cristo não se esgota na paixão, mas se corrobora na ressurreição. Os sofrimentos são constantes na nossa vida, mas Jesus nos ensina a não nos concentrarmos neles nem nos deixarmos sucumbir por eles, porque Ele nos deu o maior exemplo de que todo sofrimento será superado e toda morte será vencida, e o que nos coloca nesta perspectiva é a nossa fé sempre viva e produtiva. Fé sem obras não existe.

Portanto, meus amigos, vivamos e comemoremos as festividades desta semana santa dentro do espírito da verdadeira 'parasceve', isto é, a preparação para a Páscoa do Senhor, que nos conduz à verdadeira vida. E, para não perder a tradição que aprendi no Seminário, rezemos: Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

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domingo, 13 de março de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 5º DOMINGO DA QUARESMA - NÃO AO PRECONCEITO - 13.03.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO DA QUARESMA – NÃO AO PRECONCEITO – 13.03.2016

Caros Confrades,

Neste 5º domingo da quaresma, dia 13 de março, a Igreja Católica comemora o terceiro aniversário do Papa Francisco no governo do Vaticano, agradecendo a Deus pelas incontáveis bênçãos que a sua presença e o sem exemplo trouxeram para o cristianismo, nesses tempos difíceis. E a liturgia traz para nossa reflexão um episódio narrado pelo evangelista João e bastante conhecido pelo grande público, que é o caso da mulher flagrada em adultério e que deveria ser apedrejada, destacando a sabedoria de Jesus para atropelar o preconceito e a hipocrisia dos fariseus.

Na primeira leitura, o projeta Isaias (43, 18) nos dirige um recado bem apropriado para esse tempo quaresmal de renovação espiritual: “'Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? ” Pois é, será que não somos capazes de reconhecer as coisas novas que Deus nos faz constantemente? Neste domingo, uma grande manifestação sóciopolítica tomou conta de várias cidades brasileiras, em moção de repúdio aos episódios de corrupção nas diversas esferas do governo, largamente divulgados pela imprensa. Não se pode mais ficar indiferente a esses fatos, como no passado, quando se dizia que religião nada tem a ver com política. A consciência da cidadania e o exercício responsável dela faz parte da nossa vida de cristãos, independente da opção partidária que cada um possa ter. O acompanhamento dos fatos sociais e a equilibrada análise deles é uma das formas mais concretas da vivência da nossa fé em Jesus Cristo. Esse tema de Isaías foi utilizado também por Paulo naquela polêmica levantada pelos cristãos judaizantes, que queriam restabelecer a obrigação da circuncisão como complemento do batismo, ao que Paulo argumentou: deixem de olhar o passado e mirem os fatos futuros, em Cristo, Deus fez novas todas as coisas.

Na segunda leitura, da carta aos Filipenses (3, 8-14), Paulo prossegue nessa mesma linha de raciocínio, acerca das novidades, quando ele diz que perdeu tudo por causa de Cristo. O que Paulo sacrificou para aderir plenamente à missão que Cristo lhe confiou não consistiu apenas em bens e benefícios, mas no abandono de si mesmo pela causa do evangelho. Ele não tinha mais família, nem casa, nem emprego, nem salário, sua vida era viajando de um lugar para outro, a pregar o evangelho, converter pessoas e constituir novas comunidades. Paulo foi o verdadeiro herói da difusão do cristianismo na Europa, desde as comunidades gregas até Roma. A própria comunidade de Roma foi fundada por Paulo, aquela onde Pedro foi exercer sua missão episcopal posteriormente, transformando-a na Diocese base do cristianismo mundial. Pedro era antes titular da comunidade de Jerusalém, que era a capital do povo judeu, tendo-se transferido para Roma a convite de Paulo, após o sucesso da sua pregação e dada a grande adesão ali conseguida da população romana ao evangelho de Cristo. Paulo diz que considera lixo tudo aquilo que ele sacrificou, comparado à glória de estar unido a Cristo, em comunhão com seus sofrimentos, tornando-se semelhante a Ele na sua morte. No mesmo sentido da mensagem de Isaías, na primeira leitura, Paulo também afirma que “Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus. ”(Fl 3, 13) Veremos como, de forma indireta, essa temática do esquecer o passado e olhar para a frente está também presente na leitura do evangelho.

No evangelho (Jo 8, 1-11), o apóstolo João mostra a sabedoria de Jesus ao resolver magistralmente uma autêntica enrascada em que lhe colocaram os fariseus e os mestres da lei, que estavam sempre à procura de apanhá-lo em contradição. Antes de abordar o conhecido episódio da mulher adúltera, detenhamo-nos em alguns detalhes da leitura, que são também significativos. Diz João, no início deste capítulo 8, que Jesus havia ido ao monte das Oliveiras para orar e, voltando de lá, foi direto para o templo. É interessante observarmos essa informação, porque João está testemunhando que Jesus ia frequentemente orar no monte das Oliveira, por isso Judas sabia que o encontraria lá, quando foi com os soldados. Essa oração noturna de Jesus, por diversas vezes referenciada nos evangelhos, inspirou os monges medievais para os ofícios divinos durante as madrugadas, costume que perdurou entre nós até os anos 60, tendo sido abandonado após as modificações litúrgicas decorrentes do Concílio Vaticano II. João diz mais que Jesus saiu de lá ainda na madrugada e foi direto para o templo, onde já encontrou pessoas, que queriam escutá-lo. Foi quando chegaram os fariseus, arrastando a mulher apanhada em adultério.

Outro ponto acessório a destacar no contexto deste episódio é o da discriminação que pesava sobre a mulher na sociedade patriarcal, muito forte e presente em todos os povos daquela época (e ainda persistente na sociedade atual), associada à hipocrisia masculina. A mulher, se fosse flagrada em adultério, deveria ser apedrejada até a morte, conforme a lei de Moisés, todavia, todos sabemos que uma mulher não pode adulterar sozinha, para isso ela devia ter uma companhia masculina. Jesus, na sua perspicácia, foi direto ao ponto crucial da problemática: se a mulher foi flagrada em adultério, o seu parceiro também o foi e bem provavelmente era um dos que estavam ali com pedras na mão, sem deixar de observar que aqueles acusadores ali agrupados já tinham também cometido adultério e estavam impunes. Quanta desfaçatez e quanta hipocrisia, quantas mulheres aquele grupo já teria apedrejado, valendo-se da cobertura que a sociedade dava para a conduta masculina. O evangelista não registrou o nome daquela mulher e, ao que eu saiba, a tradição também não traz essa informação, mas certamente, ela era uma daquelas mulheres piedosas, que acompanharam o trajeto de Cristo a caminho do calvário e choraram por Ele.

A estratégia dos fariseus e mestres da lei era poderosa e eles pensavam que haviam colocado Jesus contra a parede, deixando-o numa situação sem saída, qualquer que fosse a sua resposta. “Moisés, na lei, mandou apedrejar essas mulheres, que dizes tu?” Ora, se Jesus concordasse com isso, sua pregação sobre o amor e o perdão estaria desmoralizada e a sua palavra se tornaria sem qualquer valor, levando a sua legião de seguidores ao descrédito e inviabilizando o seu projeto do novo reino de amor. Se discordasse, seria pior ainda, pois estaria infringindo a lei de Moisés na presença de dezenas de testemunhas, e isso seria suficiente para ele ser acusado de delito legal e ser condenado no pretório. Uma cilada tão bem arquitetada só podia ser resolvida de modo favorável por alguém que possuía uma mente especial, mesmo prescindindo da natureza divina de Cristo. Ele não se abalou com a indisfarçável má-fé dos fariseus e serenamente passou a escrever no chão com o dedo. O evangelho silencia a respeito das palavras que Ele estava escrevendo. Embora a tradição afirme que seriam os pecados dos que estavam ali presentes, na minha opinião, Jesus não escrevia nada propriamente, ele fez aquele gesto como uma contraestratégia para provocar os fariseus. Obviamente, eles não foram lá perto tentar ler o que ele escrevia, mas ficaram intimidados. Certamente, tiveram até medo de olhar ou perguntar, pois talvez a sua intimidade estivesse ali exposta, pois embora duvidando da divindade de Jesus, eles sabiam da sua fama de realizar milagres e de ter um poder sobrenatural. Então, apenas insistiram na pergunta: o que dizes sobre isso?

Jesus percebeu nessa insistência deles um sinal de indecisão e fraqueza, a arrogância deles havia se transformado em temor e aquela pergunta reiterada foi forçada por Jesus, que já a esperava. A resposta não poderia ter sido mais magistral: façamos o seguinte, quem de vocês aí nunca cometeu nenhuma infração, pode começar a jogar pedra, porque só tem moral para reclamar dos pecados alheios aquele que não os tem. Então, diz o evangelista, Jesus se inclinou novamente e voltou a rabiscar no chão, enquanto eles foram se retirando um a um, a começar pelos mais velhos. A pobre mulher, tremendo e temendo pelo que poderia ocorrer, foi a única que não correu, bem que poderia ter fugido quando os seus acusadores se afastaram. Mas não, ela esperou pelo perdão de Cristo, ali naquele momento, ela passou por uma profunda conversão, e foi o que Jesus percebeu quando lhe disse: vai e não tornes a pecar. Isto é, esquece o passado, olha pra frente, daqui em diante farei novas todas as coisas na tua vida. O perdão de Jesus fez daquela mulher uma discípula fiel e deixou ainda mais furiosos os fariseus dissimulados. Estes nunca conseguiram compreender as “coisas novas” e o seu apego ao passado foi a sua derrota até o fim.

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domingo, 6 de março de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4º DOMINGO DA QUARESMA - PERDÃO E RECONCILIAÇÃO - 06.03.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA QUARESMA – PERDÃO E RECONCILIAÇÃO – 06.03.2016

Caros Confrades,

Nas leituras deste 4º domingo da quaresma, destaca-se o tema da reconciliação, presente nos vários textos lidos, dentre eles aquela conhecida história do “filho pródigo”, que a liturgia agora prefere chamar de “pai misericordioso”. Essa temática está em total sintonia com a proposta do Papa Francisco, concretizada na programação do Ano Santo da Misericórdia, cuja abertura se deu há algumas semanas. Para haver reconciliação, é necessário que haja perdão, sem o que aquela não será possível. E o perdão é a atitude mais louvável e digna que uma pessoa humana pode ter, pois o ato de perdoar tem a dupla função de salvar tanto o perdoado quanto quem perdoa.

Na primeira leitura, do livro de Josué (5, 9-12), temos a narração da primeira Páscoa que os israelitas comemoraram após adentrar na terra prometida. Javeh diz a Josué: 'Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito', isto é, agora vocês estão livres novamente, habitando a terra dos vossos pais, não precisam mais temer o dominador egípcio. Após uma passagem de quarenta anos em peregrinação pelo deserto, durante a qual a velha geração dos israelitas sucumbiu, a reconciliação de Javeh com o seu povo se deu, finalmente, pelas mãos de Josué, sucessor de Moisés no comando da nova geração de israelitas, que adentraram a terra prometida. O próprio Moisés já não estava presente nessa ocasião. A primeira Páscoa celebrada em Canaã significa o cumprimento da promessa de Javeh e a renovação da aliança. De um modo semelhante e em outro contexto, a leitura do evangelho de Lucas irá contrapor as atitudes do filho mais velho com o filho mais novo, diante do pai misericordioso.

Na segunda leitura, da carta de Paulo a Coríntios (2Cor 5, 17-21), o apóstolo lembra que, por Cristo, Deus reconciliou o mundo com ele próprio e nos deu o ministério da reconciliação. Esta carta foi escrita num momento difícil para a comunidade de Corinto, envolta com a polêmica dos judaizantes e atormentada por adversários de Paulo, que teimavam em manter os velhos costumes judeus, mesmo depois de convertidos. Por isso, Paulo adverte: “Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo. ” (2Cor 5,7) Os velhos costumes não deviam mais ser invocados diante da nova geração de cristãos, porque em Cristo tudo foi reconfigurado. E de uma forma bastante contundente, ele conclama toda a comunidade a deixar-se reconciliar com Deus. “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20) para que não recebais em vão a Sua graça. A exortação de Paulo acerca da reconciliação e do perdão se fazia necessária porque a comunidade de Corinto havia afastado os dissidentes e não aceitava mais a participação destes nas atividades eclesiais. Por isso, Paulo insistia na exigência do perdão e da reconciliação com os dissidentes ao dizer que Deus nos deu, através de Cristo, o ministério da reconciliação. E até evitou fazer uma viagem a Corinto, a fim de não exaltar ainda mais os ânimos, preferindo só mandar a carta.

Na leitura do evangelho de Lucas (Lc 15, 11-32), temos a narração de uma das parábolas de Cristo mais conhecidas, ao lado da parábola do Bom Samaritano, que é a conhecida história do filho pródigo. Durante muito tempo, a liturgia identificava assim esse texto, reportando-se à figura do filho que esbanjou frivolamente todos os seus bens de herança e depois foi novamente acolhido pelo pai misericordioso. Reformulando o tema, a liturgia agora mudou o foco do episódio para a figura do pai, que acolhe o filho irresponsável e arrependido, buscando a reconciliação com o irmão mais velho, que não aceitava aquela situação.

Essa historinha contada por Jesus foi mais um “cascudo” na cabeça dura dos fariseus, que se consideravam como irmãos mais velhos e, assim, os únicos merecedores da amizade com Javeh, porque eram os herdeiros legítimos da tradição veterotestamentária. Como sempre, os fariseus não entenderam a mensagem, porque estavam seguros demais dos seus méritos e, na sua estreiteza de pensamento, não podiam admitir que os convertidos (irmãos mais novos), povos estranhos à aliança antiga, passassem a ter assento junto com eles na mesa da refeição divina.

O contexto da narração se dá num momento em que Jesus conversava com publicanos e pecadores. Para começar, é importante lembrar que os fariseus se consideravam puros e sem pecado, ao contrário dos publicanos, que eram pecadores públicos. Os fariseus cumpriam rigorosamente a lei, jejuavam, davam esmolas, iam à sinagoga nos sábados, isto é, faziam tudo como mandava a lei de Moisés, tal como o irmão mais velho da parábola. Embora essas práticas fossem, muitas vezes, hipócritas e exteriorizadas, eles se consideravam pessoas exemplares e quem não fazia isso era considerado pecador. Dentro da mentalidade judaica, os publicanos viviam permanentemente no pecado e não tinham jeito, ou seja, não havia como eles deixarem essa vida marginal e passarem à condição de pessoas justas. Por isso, o simples contato com essas pessoas, ainda que fosse para um mero aperto de mão, era suficiente para deixar impuro quem se aproximasse, havendo a necessidade de fazer depois um ritual de purificação. No caso, Jesus estava todo contaminado, porque conversava com eles.

O fato de Jesus ter comunicação com essas pessoas pecadoras públicas era fortemente censurado pelos fariseus e um dos motivos para que estes duvidavam da divindade de Jesus, porque um enviado de Javeh saberia da proibição legal de ter contato com essa gente 'imunda'. Daí que, conforme diz Lucas (15, 1), os publicanos e pecadores se aproximavam de Jesus para escutá-los e Jesus os recebia, e isso gerava revolta nos fariseus. Por isso, Jesus contou-lhes a história onde o filho mais velho ficou se roendo de ciúmes porque o irmão pecador retornou a casa depois de uma temporada de aventuras e o pai, além de não repreendê-lo, ainda fez uma grande festa. Neste mesmo trecho (15, 7), que foi omitido na leitura litúrgica, Jesus justificou isso, quando disse que haverá grande alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de perdão. Por não compreenderem e nem aceitarem essa verdade, os fariseus terminaram perdendo a oportunidade de participar da festa pascal promovida pelo Pai.

Vê-se, meus amigos, nessa narração uma atitude acima de tudo preconceituosa por parte dos fariseus. Naquela época, tanto quanto hoje, existia a praxe de rotular as pessoas por critérios nem sempre justificáveis, mas que tinham aprovação social tácita. Naquela época, eram os publicanos e prostitutas. Nos dias de hoje, são as pessoas humildes, as de pouca instrução, alguns grupos que sofrem segregação por causa da cor ou pela opção sexual, sem falar também na discriminação que, muitas vezes, sofrem as pessoas de outras crenças religiosas, que são logo tachadas de hereges ou infiéis. Esses preconceitos, que nos são repassados pelo processo de aculturação, se alojam no nosso inconsciente e, de repente, nos surpreendemos tendo atitudes que nós mesmos reprovamos nos outros. O comportamento de Cristo, acolhendo a todos indistintamente, aliás, acolhendo com mais atenção aqueles que eram os mais excluídos na sociedade farisaica, deve servir-nos de exemplo para a nossa vida cotidiana, a fim de nos vigiarmos para não cairmos no mesmo falso moralismo e na mesma falsa fé dos fariseus.

Vemos também, na pedagogia paulina, uma atitude de respeito que serve de modelo para nós, educadores de nossos filhos ou de alunos, que é a prática da humildade. Paulo tinha conhecimento da rebeldia de seus críticos, que viviam na comunidade de Corinto, todavia, não se prevaleceu da sua autoridade de apóstolo e enviado por Cristo para impor o seu pensamento. Ao contrário, ele muito humildemente “suplicou” aos coríntios para que se deixassem reconciliar com Deus, não ameaçou, não intimidou, não impôs condições. Ao apelar para o ministério da reconciliação, ele ensinou que, mesmo quando o irmão está numa posição errônea, não se deve expor os seus defeitos nem apelar para ameaças e castigos, como estratégia de convencimento porque, diz ele, “em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas”, mas ao contrário, “aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus.” (2Cor 5, 21).

Que o Divino Mestre nos ensine sempre a humildade no trato com os irmãos, exercitando cada vez mais e melhor o ministério da reconciliação e do perdão.

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