domingo, 26 de novembro de 2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO - FESTA DE CRISTO REI - 26.11.2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO – FESTA DE CRISTO REI – REINO DA CARIDADE – 26.11.2017.

Caros Leitores,

Como é praxe, no domingo que encerra o ano litúrgico, a Igreja celebra a festa de Cristo Rei do Universo. Recordando um pouco a história, esta celebração foi instituída em 1925, pelo Papa Pio XI, num contexto político internacional conturbado, período entre as guerras mundiais e com profusão de governos autocráticos e ditatoriais em vários países da Europa. A intenção do Papa era chamar a atenção do mundo para o “reino” de Cristo, que supera as divisões políticas e as disputas pelo poder material, pois o seu mandamento supremo é a caridade para com os irmãos. Particularmente, eu não vejo com simpatia essa festividade no contexto sociopolítico contemporâneo, falar em reino não condiz com o exemplo histórico de Cristo, que sempre recusou honrarias e não gostava de ser chamado de Rei. Convém ainda lembrar que na cruz de Cristo, Pilatos mandou colocar a inscrição “rei dos judeus” como um escárnio, então a inspiração litúrgica para essa memória litúrgica, por melhor que tenha sido a intenção do Papa, bem que poderia ser repaginada. Trata-se de uma festa da igreja universal, não apenas no Brasil, o que torna mais difícil ainda qualquer alteração, porque, com certeza, muitas vozes de protesto se levantariam. Mas o fato é que um símbolo de realeza e de triunfalismo religioso nos dias de hoje não são aceitos de bom grado pelas demais igrejas, o que trama contra o ecumenismo, uma das principais metas buscadas pelo Papa Francisco. Na próxima semana, o Papa estará viajando ao leste asiático (Myanmar e Bangladesh), em missão de paz e confraternização cristã, ou seja, o universo preferencial da Igreja Católica romana se direciona totalmente em sentido diverso. É um ponto de vista pessoal, peço desculpas aos leitores que dele não participarem.

Pois bem, dada essa completa modificação do contexto histórico e também das novas estratégias adotadas pela Igreja Católica romana, as leituras litúrgicas exigem de nós um maior esforço mental para ajustá-las a esse estado de coisas. A primeira leitura, do livro do profeta Ezequiel, habitualmente enigmático, no trecho lido na liturgia de hoje, faz referência às muitas ovelhas que estão dispersas e que serão resgatadas por Deus. Porém, comete um erro, na época justificável, de fazer distinção entre ovelhas, carneiros e bodes. Esse mesmo erro referencial será também cometido por Mateus, na distinção entre ovelhas e cabritos, comentarei isso mais adiante. Por sua vez, a carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 20-28) contém aquela famosa e polêmica comparação entre Adão e Jesus Cristo, que traz dificuldades teológicas para a harmonização entre a teologia e a ciência: “por um homem veio a morte, e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. ” (15, 21) Conforme todos sabem, na perspectiva científica, não se sustenta mais a convicção de que toda a humanidade se originou apenas de um único casal, porém esse era o entendimento na época de Paulo. E depois, Paulo faz uma afirmação que, ao meu ver, está em total desacordo com a ideia de Cristo sobre o seu “reino”: “Pois é preciso que ele reine, até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés.” (15, 25) Ora, essa proposta de subjugar os inimigos é bem típica da época do império romano e era um arquétipo na cabeça de Paulo. No entanto, o “reino” que Cristo veio fundar é o reino do amor, cujo passaporte para nele adentrar é a caridade e, assim sendo, não está conforme a ele a imagem de submeter os inimigos debaixo dos seus pés. Os possíveis inimigos serão conquistados para fazerem parte também eles do reino da caridade. Por isso, precisamos filtrar a doutrina de Paulo para a ajustarmos à cosmovisão contemporânea. E Paulo novamente insiste naquela ideia mecanicista da vinda de Cristo “dentro de alguns dias”. Ele, Paulo, e os cristãos da época, pensavam que o retorno de Cristo era uma questão de poucos dias, Paulo pensava que ainda iria encontrar Cristo antes de morrer. Do mesmo modo, os demais cristãos entendiam que essa vinda gloriosa de Cristo seria iminente. Só com o passar do tempo e com o aperfeiçoamento da reflexão teológica esse pensamento evoluiu.

Um semelhante contorcionismo mental será necessário para ajustarmos a compreensão do texto do evangelho de Mateus, lido na liturgia de hoje (Mt 25, 31-46). Novamente, precisamos ter em mente a cosmologia da época, fundada no geocentrismo de Ptolomeu, que era o conhecimento científico dominante. Mateus coloca na boca de Jesus todo um discurso que é, provavelmente, muito mais resultado da crença da comunidade do que de palavras do próprio Cristo. Comparemos com o texto de João, quando Pilatos perguntou-lhe: “então, és rei?” Jesus respondeu: o meu reino não é deste mundo. (João 18, 34) Percebe-se que essa descrição feita por Mateus da vinda de Jesus descendo em sua glória, acompanhado dos anjos e sentado num trono glorioso é muito mais uma criação de uma cabeça pensante humana do que algo que se perceba nos outros discursos de Cristo acerca do reino de Deus. De fato, o evangelista faz uma descrição bem conforme o modelo terreno dos reis de sua época, que é também como ainda hoje as imagens de Cristo Rei são representadas: com um vistoso manto rubro, uma coroa real, um cetro de ouro, como eram os protótipos dos reis da antiguidade. Mas o Cristo Rei não precisa se apresentar com esse aparato imperialista, porque o Seu reino não é deste mundo, é o reino da caridade, do amor ao próximo, não é da ostentação nem da dominação.

Uma outra comparação totalmente desproporcional é a que o evangelista faz, ao distinguir as ovelhas dos cabritos (25, 32-33), colocando as ovelhas à direita e os cabritos à esquerda. Eu diria que é uma comparação infeliz, porque está figurando os infiéis como cabritos, da mesma forma como o profeta Ezequiel havia diferenciado entre ovelhas, carneiros e bodes (Ez 11, 17). Meus amigos, essa metáfora é totalmente fora de propósito. Deve ter sido dela que os artistas medievais tiraram aquela figura horrível de representar o demônio com pés de bode, ou seja, bodes, cabritos são imagens demoníacas. Quero crer que Jesus Cristo não tenha feito esse tipo de comparação, porque contém uma odiosa discriminação, tenho por certo que da boca de Jesus não sairiam palavras com tais significados depreciativos. Ademais, eu também tenho por certo que, na presença de Cristo, a “fila da esquerda” estará totalmente vazia, pois todos (ovelhas, carneiros, bodes e cabritos) estarão na “fila da direita”, porque o reino de Cristo é o reino do amor e o passaporte para sua entrada é a caridade. Percebe-se isso nas ações que Ele valorizou praticadas por aqueles que ficaram na fila da direita: estava com fome e me destes de comer, com sede e me destes de beber, era estrangeiro e me recebestes na vossa casa... ou seja, em uma só palavra, é a prática da caridade.

Vejamos agora o que disse o Papa Francisco, no sermão de uma missa da festa de Cristo Rei, algum tempo atrás, essa sim, uma mensagem totalmente coerente com a mensagem de Cristo: "A Salvação não começa confessando a realeza de Cristo, mas imitando as obras de misericórdia por meio das quais Ele realizou o Reino do amor, da proximidade e da ternura com os nossos irmãos. Disso dependerá a nossa entrada ou não no Reino de Deus”. Perfeito esse ensinamento do Papa, desmistificando aquela imagem triunfalista tradicional do Cristo Rei no estilo medieval. Proclamar a realeza de Cristo é agir como Ele agiu e como Ele ensinou que deveríamos agir: dando alimento aos famintos e água aos sedentos, vestindo os nus e recepcionando os estrangeiros. Se não fizermos isso, não adianta tentar se colocar sob o manto do Cristo Rei, porque não haverá espaço.

Meus amigos, concluo com uma ideia que já tive ocasião de repassar a vocês em outra oportunidade: entendo a figura de Cristo como rei não no sentido da realeza terrena, mas como o soberano da verdade, da justiça, da paz, da igualdade e da fraternidade e, para isso, Ele não precisa nem de um manto nem de um cetro nem de um trono, porque o seu manto é a verdade, o seu trono é a justiça e o seu cetro é a paz.

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domingo, 19 de novembro de 2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 33º DOMINGO COMUM - CAPITALISMO DE JESUS - 19.11.2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 33º DOMINGO COMUM – CAPITALISMO DE JESUS - 19.11.2017

Caros Confrades,

A liturgia do 33º domingo comum, o penúltimo do ano eclesiástico, nos traz uma imagem do que se poderia chamar de capitalismo de Jesus: o patrão da história indica como modelo de atitude a produção de algum lucro e ironiza a falta de interesse de um operário que nem ao menos colocou a sua porção no banco, a fim de “receber juros”. São os ensinamentos de Cristo na conhecida parábola dos talentos, os quais devem sempre produzir novos frutos e multiplicar-se. Chega a causar uma certa estranheza essa comparação entre talentos-dinheiro e talentos-dons, por isso devemos entender a metáfora do “lucro” com a devida ponderação.

Na primeira leitura, temos um também conhecido texto do Livro dos Provérbios, em que o sábio bíblico elogia a figura da mulher forte (Prov 31, 10-31). Não deixa de ser uma referência bastante interessante naquele contexto, porque sabe-se que a tarefa da mulher na sociedade hebraica era colocada em segundo plano, a sua função social era secundária, predominndo a cultura masculina, hoje chamada de machismo. Em geral, todos as culturas antigas seguem o modelo da família patriarcal, aquela em que o homem tem o poder e o domínio sobre todas as pessoas e os bens familiares. Entre os hebreus, isso não era diferente. Daí porque a figura da “mulher forte” lançada no livro dos Provérbios é uma referência que foge ao padrão cultural comum do tempo. Este livro teria sido escrito por Salomão, pelo menos em sua maior parte, e depois foi complementado por outros sábios hebreus, sendo considerado um livro profético e usado para leitura pública nas sinagogas judaicas, embora o seu conteúdo seja nitidamente ético e filosófico. O autor tem por objetivo ensinar o leitor a alcançar a sabedoria através da autodisciplina e de uma vida prudente.

As características da “mulher forte”, de acordo com a sabedoria salomônica, são a diligência ou a operosidade (“com habilidade trabalham as suas mãos”), a caridade ou a prestatividade (“abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre”) e a piedade ou o temor de Deus (“a mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece louvor”). E conclui o sábio: “Ela vale muito mais do que as joias. Seu marido confia nela plenamente, e não terá falta de recursos” (Pv 31, 10-11). Tenho plena certeza de que todos nós tivemos a ventura de ter pelo menos duas mulheres fortes nas nossas vidas: as nossas mães e as nossas esposas. Trabalhando sempre em silêncio, mas com todo o afinco, elas tiveram um papel importante e decisivo naquilo que cada um de nós conseguiu realizar. Foi por isso que Javeh, logo no início da humanidade, proclamou que não convém que o homem fique só. E observemos que o sábio fala na “mulher forte”, não na mulher subordinada, subjugada, inferiorizada. Se na época de Salomão ele já indicava essa qualidade feminina para a mulher que fará a companhia correta e justa para o homem (ela lhe dá só alegria e nenhum desgosto, todos os dias de sua vida), nos dias modernos, essa característica é ainda mais necessária e com maior razão deve ser reconhecida e valorizada. Fica aqui a minha homenagem a todas as nossas caras-metades, que são mesmo metades de nós.

Na segunda leitura, de Paulo aos Tessalonicenses (1Ts 5, 1-6), o Apóstolo explica a vinda de Cristo no momento em que ninguém espera, por isso, todos devem estar vigilantes, para não serem surpreendidos. Nota-se que, naquela ocasião, havia uma expectativa de que Cristo iria retornar “a qualquer momento”, o próprio Paulo no início também pensava assim. Paulo tinha esperança de poder ver a Cristo na sua vinda, já que não tivera oportunidade de vê-Lo em sua existência humana. Ou seja, parecia àqueles crentes que o retorno de Jesus era uma questão de horas, de dias, talvez, tanto que alguns daquela comunidade até deixaram de trabalhar e viviam olhando para o céu, esperando ver o momento em que “aquelas coisas” apareceriam. E lembremos que, naquele tempo, ainda não era conhecido da comunidade o Apocalipse de João, onde os “sinais” do final dos tempos estão pintados com cores bem mais nítidas. Passados todos esses anos (dois milênios), nós ainda vemos pessoas alarmistas tentando interpretar os fenômenos climáticos e os desastres provocados pela ação humana como sendo os sinais do Apocalipse. Essas pessoas, de visão curta e fundamentalista, imaginam que o universo seja somente o planeta terra e se esquecem que somos menores do que um grão de areia no infinito do cosmos. Caso (digo apenas por um raciocínio absurdo) a terra entre em colapso, podem até sucumbir a vida humana e as outras formas de vida que conhecemos, mas o mundo não será nem minimamente afetado. Na verdade, a lição que devemos tirar da leitura da carta de Paulo é a da vigilância, da prudência, da prontidão. A vinda de Cristo será a qualquer momento, disso ninguém duvida, mas a prestação de contas será de cada um de nós e não do mundo como um todo.



Na leitura de hoje do evangelho de Mateus (25, 14 30), Jesus assume uma postura nitidamente capitalista, quando proclama a parábola dos “talentos”: um homem rico deixou três empregados na administração dos seus bens, distribuindo quantias desiguais a cada um, “a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Já começa aí a “esperteza” do patrão. Por que motivo Jesus daria um exemplo de um patrão que não trata os empregados de um modo isonômico? Por que isso, se ele havia dito que o Pai não faz acepção de pessoas? Para ajudar a clarear essa polêmica, lembremo-nos daquela outra passagem em que Judas censurou a pecadora, porque ela estava derramando perfume nos pés de Jesus, pois estava estragando um produto valoroso, que se fosse vendido daria para dar esmolas a muitos pobres. E Jesus disse: pobres sempre tereis entre vós (Jo 12, 8). Vê-se, desse modo, a falácia de certos pregadores socialistas acerca da divisão igualitária das riquezas. Temos aí já dois exemplos da pregação de Cristo, em que ele reconhece que as pessoas têm diferentes habilidades e, por que não dizer, capacidades de trabalho diferentes. Por isso, não é justo que um preguiçoso tenha retribuição igual ao que despendeu grande esforço para produzir seu trabalho. Não é justo, ao contrário, é viciante “dar dinheiro” a quem não trabalha, sob a pífia desculpa de que essas pessoas não tiveram as mesmas oportunidades na vida. Todos nós conhecemos temos em nossas vidas e ainda conhecemos exemplos práticos que contraditam essa ideologia interesseira. É uma falácia utilizada como argumento de interesse ideológico para manipulação e enganação de pessoas preguiçosas.
Então, o patrão fictício da parábola de Cristo distribuiu seus bens em proporções diferentes entre os três empregados, dando a cada um de acordo com as suas capacidades. Dois deles, os mais operosos, multiplicaram as parcelas recebidas, porém o terceiro, por medo, por preguiça, por desinteresse, o que seja, não produziu nada. Os dois primeiros foram louvados, enquanto o terceiro foi censurado e excluído. E Jesus ainda vai mais longe na sua metáfora: por que não colocaste pelo menos depositado em algum banco? Assim, poderia render juros... entendamos bem isso: Jesus não está defendendo a teoria capitalista dos juros sobre o capital como legítima, seu objetivo é outro. Ele quer dizer que ninguém deve ficar inerte, fechar-se no seu isolamento e não buscar nenhum tipo de atitude produtiva. O capitalismo de Jesus não é igual ao capitalismo de mercado, a busca do ganho constante, ilimitado, antiético, a qualquer custo, não se trata disso, mas no sentido da produtividade. Nós precisamos ser pessoas produtivas, tanto no sentido da produção de bens, porque isso é, sem dúvida, necessário, pois é assim que cada um de nós compartilha da obra divina da criação do mundo, mas também da produção de bons exemplos, de virtudes, de amor ao próximo, de fé e caridade nas nossas tarefas cotidianas. A partilha de bens materiais deve fazer-se na mesma proporção e na mesma oportunidade da partilha da palavra e da oração. E o ambiente mais adequado para se fazer isso é na comunidade paroquial, onde nós praticamos o que é ser igreja. Portanto, aquela ação caritativa tradicional de apenas dar a esmola “pelo amor de Deus” não é exatamente o tipo de partilha que Jesus quer que façamos. Se não for acompanhada do seu componente interior de religiosidade, uma tal partilha termina por ser mecânica e artificial. Daí a minha sugestão de que o ambiente legítimo para se exercitar a partilha será através das ações comunitárias, preferencialmente, nas paróquias, que me parece preferível do que na forma de ações isoladas, individuais. Assim, estaremos praticando o verdadeiro capitalismo cristão.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 32º DOMINGO COMUM - DONZELAS PRUDENTES - 12.11.2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 32º DOMINGO COMUM – DONZELAS PRUDENTES – 12.11.2017

Caros Confrades,

Neste 32º domingo comum, a liturgia ainda repercute a celebração dos fiéis defuntos, trazendo como tema a vigilância constante que devemos ter, porque não sabemos o dia nem a hora em que o Senhor virá. Daí a necessidade da prudência e da prontidão. Esse assunto sempre foi muito utilizado para exercer um certo temor e tremor entre os fiéis, uma vez que aqueles apanhados desprevenidos ficarão “de fora” do banquete, ou seja, estarão excluídos da salvação. O tema está, portanto, diretamente relacionado com a crença na vida eterna e com a recomendação de cada um viver o seu dia de hoje como se fora o último. Essas ameaças, juntamente com as referências terríveis ao “fogo do inferno” já foram assuntos prediletos dos pregadores populares, sendo ainda hoje muito caros aos evangélicos, em especial aos atuantes nas “igrejas eletrônicas”, que existem em grande profusão. A incerteza e a insegurança geradas sempre trazem grande medo e podem até se tornar um terror psicológico a atormentar os fiéis, porque mexem com algo carregado de imutabilidade, de irreversibilidade. Isso sempre assusta.

A primeira leitura faz um elogio da sabedoria, mostrando a sua ligação com a prudência e apresentando-a como uma alternativa para alimentar a esperança diante das incertezas (Sab 6, 12-16). Meditar sobre a sabedoria é a perfeição da prudência. Ela é facilmente encontrada por aqueles que a procuram e até se antecipa para aqueles que desejam conhecê-la. Quem a busca não se cansará e seguir os seus ensinamentos torna a pessoa despreocupada. A sabedoria será, portanto, a chave da solução do problema colocado pela instabilidade e pela insegurança em relação ao futuro. O sábio é sempre prudente e, ao inverso, o néscio é sempre imprudente. Essa lição acerca da natureza da sabedoria sintoniza com a parábola narrada no evangelho de Mateus (25, 1-13), acerca da antítese colocada através das figuras das donzelas prudentes e das imprudentes, em que as primeiras estavam preparadas na hora incerta e as segundas não estavam. No caso, a sabedoria de umas lhas deu incomparável vantagem em relação às outras. A sabedoria será, portanto, o ideal a ser buscado por aqueles que desejam estar sempre preparados para os momentos de incerteza.

Na segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Tessalonicenses (1Ts 4,16-18), o Apóstolo procura animar os cristãos daquela comunidade diante da crença dos gregos acerca do destino dos mortos. Conforme os biblistas, a primeira carta aos fiéis de Tessalônica teria sido uma das primeiras escritas por Paulo. A cultura grega antiga era marcadamente materialista, não referendando a crença na vida eterna, afirmando que tudo se acaba com a morte. Por isso, alguns cristãos dali tinham certa dificuldade de acreditar na ressurreição, afirmada pela fé cristã, levando Paulo a reforçar a sua catequese sobre o tema, ao dizer: “Se Jesus morreu e ressuscitou - e esta é nossa fé - de modo semelhante Deus trará de volta, com Cristo, os que através dele entraram no sono da morte.” Em seguida, Paulo ensina como será a ressurreição do último dia, precedida “pela voz do arcanjo e pelo toque da trombeta”, uma cena que foi muitas vezes ilustrada pelos artistas da Renascença. No início do cristianismo, o entendimento literal da palavra de Cristo levava os cristãos a interpretarem como se isso fosse ocorrer naqueles dias. Alguns até ficaram sem trabalhar e sem fazer mais nada, só esperando o retorno de Cristo, fato que foi até contestado por Paulo em carta posterior. Mas o fato é que esse entendimento era mesmo predominante nos primeiros tempos. E o “retorno” de Cristo seria um grande espetáculo, sendo as pessoas arrebatadas pelos ares ao encontro do Senhor. Ao meu ver e pelo linguajar da carta, Paulo criou uma certa visão da vinda de Cristo que influenciou muito a doutrina teológica e ainda hoje faz a cabeça de muitos cristãos fundamentalistas e carismáticos. Penso que esse cenário impactante precisa ser reformulado, dentro de uma realidade mais conformada com o contexto da simbologia que Jesus adota nos seus discursos.

Na leitura do evangelista Mateus (25, 1-13), Jesus narra a parábola das dez donzelas (damas de casamento) que esperavam o noivo e deviam permanecer com as suas lâmpadas (alimentadas com óleo) acesas, pois não sabiam a que hora chegaria o noivo e as lâmpadas não poderiam se apagar. Nos casamentos antigos, o noivo e a noiva faziam um percurso a pé pelas ruas da cidade até o local da cerimônia e cada um era acompanhado por um cortejo de damas, que deveriam iluminar-lhes o caminho. No horário noturno, a lâmpada era algo essencial, não apenas para compor o visual estético do cortejo, mas sobretudo para clarear o trajeto a ser percorrido. Jesus dá um exemplo de um cortejo noturno, em que a lâmpada acesa era indispensável. Mas os noivos podiam demorar-se na preparação, tal como ainda ocorre hoje, com o costume chamado “dia do noivo” ou “dia da noiva”, os quais passam um dia inteiro num recinto apropriado, cumprindo um ritual preparatório demorado e cansativo. Então, as damas deveriam ficar de prontidão para acompanhar o noivo quando a preparação terminasse e este saísse para o cortejo. Aqui entra em cena o qualitativo da sabedoria, que fará a diferença entre um grupo e outro das damas.

Ao referir-se especificamente às jovens que se mantiveram de prontidão, o texto do evangelho, na versão atual, usa o conceito de “previdente”, ou seja, elas foram previdentes, porque se prepararam para qualquer eventualidade. A tradução anteriormente adotada para esse conceito era “prudente” que, ao meu ver, é mais consentâneo tanto com o tema da primeira leitura (livro da Sabedoria), quanto com o texto original do evangelho. Com efeito, o texto grego utiliza a palavra “fronímoi”, que significa “sensato”, “inteligente” e São Jerônimo traduziu em latim por “prudentes”; e de outro lado, o grego utiliza a palavra “môrai”, que significa “néscio”, “louco” e São Jerônimo traduziu em latim por “fatuae”, que significa “estúpido”, “inconsequente”. Partindo dessa breve análise textual, parece-me que a tradução adotada de “previdente” e “imprevidente” não condiz bem com o sentido original do texto. Talvez seja uma preocupação com o politicamente correto, para evitar o uso de uma palavra que possa ensejar qualquer interpretação preconceituosa ou homofóbica, pois nos dias de hoje, é preciso ter muita precaução acerca das palavras ditas em público. Talvez um conceito que melhor expressasse o sentido original do texto fosse “cuidadosas” e “descuidadas”, para indicar aquelas que estavam preparadas e as despreparadas. Ou ainda “proativas” e “displicentes”, na mesma ordem conceitual. O grande problema quando se traduz de um idioma para outro é a falta de correspondência plena entre os significados das palavras, porém qualquer tradução, sem a análise da palavra de origem, pode levar a conclusões bem distorcidas, o que se verifica com certa frequência no linguajar de alguns pregadores.

Meus amigos, a questão se coloca, portanto, na relação entre viver com sabedoria e estar preparado ou não buscar a sabedoria e arriscar-se a se expor a situações vexatórias. O exemplo dado por Cristo me parece por demais desconcertante. Parecia que ele estava usando uma pedagogia do impacto, do mesmo como muitas vezes os pais fazem com os filhos pequenos, incutindo-lhes certo temor de algo, com o fito de modelar-lhes a conduta. Atualmente, essa prática é muito repudiada pelos teóricos do comportamento, mas nós, que fomos educados em outra época, quando não havia essas “teorias modernas”, sabemos que essas formas tradicionais, quando usadas com moderação e dentro de limites razoáveis, produziam efeitos muito positivos. Há que considerar ainda outro ponto pouco edificante no exemplo dado por Cristo, que foi a falta de solidariedade das donzenas cuidadosas com as displicentes, em não quererem repartir com estas a sua sobra de azeite. Se contextualizarmos com o ensinamento de Cristo em outras parábolas, poderemos classificar como egoísta essa conduta das donzelas que tinham levado azeite de sobra. Afinal, o ensinamento cristão é no sentido de repartir os bens e não de cada um querer preservar o seu apenas para si. Essa incoerência textual, associada a outras já citadas em outros comentários, fazem-me supor que o texto do evangelho de Mateus pode ter passado por “ajustes” literários ao longo do tempo. Nos demais evangelhos, essa parábola não aparece. Em Lucas (12, 35), o tema se encontra em outro contexto: mantende os vossos rins cingidos e as vossas lâmpadas acesas e sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor, quando retornar das bodas. Bem diferente da descrição de Mateus, portanto. Peço desculpas se alguém, por acaso, se melindrar com essas considerações, mas ressalto que são apenas minhas especulações como estudioso, que coloco como ponto de reflexão e discussão.

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domingo, 5 de novembro de 2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO - TODOS OS SANTOS - 05.11.2017

COMENTÁRIO LITÚRGICO – IMENSA MULTIDÃO (TODOS OS SANTOS) – 05.11.2017

Caros Leitores,

A liturgia deste domingo traz a comemoração da festa de Todos os Santos. Comumente, quando se fala em “santos”, vem logo à mente os cristãos e cristãs que foram canonizados. No entanto, tomando como referência a leitura do Apocalipse, o apóstolo João teve a visão de “uma grande multidão de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, que ninguém podia contar”, composta por aqueles que lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Essa multidão, que se sucedeu à visão joanina daqueles assinalados, os membros das doze tribos de Israel, somos nós, os cristãos espalhados pelos diversos quadrantes do universo conhecido, e que poderão ser ainda mais, se pensarmos na possibilidade de outros mundos habitados.

Nesta semana, ocorre em Juazeiro do Norte uma das suas mais concorridas romarias, a de finados. Era uma devoção pessoal do Padre Cícero (as almas do purgatório), que ele repassou para os fiéis de sua freguesia e se transformou num grandioso fenômeno sócio-religioso. Ali se reúnem anualmente cristãos provenientes dos diversos Estados do nordeste para rezar e expressar sua fé. Meus amigos, parece-me óbvio que essa multidão de fiéis que lota a cidade de Juazeiro do Norte nesses dias é uma representação exemplar da imensa multidão descrita no texto de João, tanta que ninguém podia contar. Alguém poderá contradizer: ah, mas isso não é fé cristã, é cultura, é fanatismo religioso. Seja qual for o nome que queiramos dar, o fato é que, para as pessoas que experimentam isso, é a mais autêntica fé do modo que eles sabem melhor expressar. Vê-se isso nos seus semblantes, nas suas atitudes.

Na leitura litúrgica de hoje do Apocalipse (Ap 7, 13), João dialoga com um ancião, que lhe perguntou: quem são essas pessoas? João não soube responder e o próprio ancião completou: São os que vieram da grande tribulação, lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro. Ora, só podiam ser nordestinos, os que saíram da grande tribulação da seca e foram fortalecer a sua fé batismal nos lugares sagrados ciceronianos. É oportuno salientar que, nos primeiros dez séculos do cristianismo, não havia canonização, quem proclamara os santos era o povo. Somente a partir do primeiro milênio, o Papa atraiu para si essa tarefa de proclamar oficialmente os “santos”. Ora, todos sabemos que o nosso povo já proclamou santo o Padre Cicero, independentemente de qualquer pronunciamento oficial eclesiástico. Assim, se olharmos o fato pela antiga tradição da proclamação popular dos santos, o povo nordestino está seguindo a regra primitiva, mesmo que a hierarquia oficial ainda não tenha feito isso.

Meus amigos, essa é a autêntica comunhão dos santos, a Igreja peregrina se unindo com a Igreja celestial através da fé. Quem nunca esteve presente numa romaria não consegue avaliar o grau de seriedade com que o romeiro se comporta. Uma coisa é a reportagem que se vê pela televisão, outra coisa é o fenômeno que se observa “in loco” e a energia que se sente emanar dessas pessoas. No Apocalipse, João fala no número dos que foram marcados na fronte (Ap 7, 4) para serem salvos, cujo quantitativo era de cento e quarenta e quatro mil. Ora, somente em Juazeiro, na romaria de finados, este número é mais do que quadruplicado. A previsão do apóstolo João deve ser, portanto, calculada com a correção do fator multiplicador do tempo decorrido, sendo mais coerente a passagem do versículo 9, onde ele diz que ninguém podia contar a multidão. Nós não somos descendentes genéticos das doze tribos de Israel, mas todos nós lavamos e alvejamos nossas roupas no sangue do Cordeiro, portanto, também fomos assinalados para a salvação. Se nós computarmos as diversas comunidades de igrejas cristãs, então esse número se torna deveras incontável. Dentro de uma perspectiva ecumênica, todos os que foram validamente batizados, foram assinalados na testa com o sinal da salvação.

A segunda leitura, que também é da autoria de João, complementa o tema acima, quando afirma que desde já somos filhos de Deus, embora ainda não tenha se manifestado em nós o que seremos. Essa manifestação somente ocorrerá no futuro, “quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é.” (1Jo 3, 2). Ou seja, pelo batismo, somos assinalados e já podemos ser chamados filhos de Deus, embora essa condição só se resolva de modo pleno na futura morada de todos nós. Este foi o grande presente que Deus nos deu, diz João, o de sermos chamados Seus filhos desde já. E isso é possível por causa da redenção trazida por Cristo, que apagou todos os nossos pecados e nos abriu as portas da morada divina. Essa situação é descrita na teologia como a dialética do “já e ainda não”, isto é, já somos filhos de Deus, porém, ainda não o somos plenamente. O teólogo Francis Scraeffer, no seu livro “A verdadeira espiritualidade” (p. 89), assim explica essa doutrina: “A salvação, no sentido em que essa palavra é usada na Bíblia, é mais ampla do que a justificação. Na salvação, há passado, futuro e, com o mesmo grau de realidade, há presente. A obra infinita realizada por Cristo na cruz traz mais do que justificação ao cristão. No futuro, haverá a glorificação. Quando Cristo retornar, haverá a ressurreição do corpo e a eternidade; mas há também um aspecto em que a salvação é presente. A santificação constitui nosso atual modo de relacionamento com o Senhor, é a nossa conjugação verbal presente na vida de comunhão com Deus”. Achei interessante esse texto e o reproduzi aqui porque, em outras igrejas cristãs, prega-se a justificação do fiel em Cristo, mas o teólogo explica que o conceito de salvação é muito superior à simples justificação, porque inclui desde a forma da vida atual, no mundo corporal, e se prolonga até a vida definitiva, sendo coerente com a passagem da carta de João citada logo acima (3, 2), “quando Jesus se manifestar”. Esse conjunto de palavras expressa de uma forma dinâmica o estado da nossa vida de fé que, por ora nos deixa ver as coisas como encobertas por um véu, como diz Paulo na carta a Coríntios:” …porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” [1Coríntios 13].

A riqueza litúrgica da festa da comunhão dos santos se completa com o famoso sermão da montanha, no qual Cristo chama a todos de bem aventurados. Dizer que somos bem aventurados é o mesmo que dizer que somos santos. Em latim, bem aventurados = 'beati' (plural de beatus), que é a mesma palavra que em português se traduz por 'felizes', tanto assim que algumas traduções do evangelho usam esta palavra nos textos. Curiosamente, Cristo chama de bem aventurados todos aqueles que, pelo status social, seriam pessoas desventuradas. Esse assunto se encaixa com um episódio bastante conhecido, narrado no evangelho de Mateus (13, 31), quando Jesus escolheu hospedar-se na casa de Zaqueu. Este era um cobrador de impostos, portanto, um publicano, um pecador público, um excluído do mundo religioso pela hipocrisia dos fariseus. Querendo conhecer Jesus, mas sendo de baixa estatura, ele subiu numa árvore, pensando que iria passar despercebido. No entanto, Jesus conhecia a sua fé e mandou que ele descesse da árvore, pois queria hospedar-se na sua casa. Os fariseus, que sempre estavam por perto, ao verem aquilo, murmuravam: com tantas pessoas honradas e dignas nesta cidade, porque Jesus vai escolher a casa de um publicano para visitar? Pois é, dentro da lógica humana (e do próprio Zaqueu, que não imaginava que isso fosse acontecer), ele estaria fora dos “beati” referidos no sermão da montanha. Mas dentro da lógica de Cristo, a ele foi ofertada a salvação e ele muito que aceitou e, por isso, tornou-se também um “beatus”.

O Papa Francisco, no sermão dirigido aos fiéis que lotavam a na Praça de São Pedro, lembrou que o nome Zaqueu, em hebraico, significa “Deus recorda”, e fez o seguinte comentário: Não existe profissão ou condição social, não há pecado ou crime de qualquer gênero que possa cancelar da memória e do coração de Deus um filho sequer. “Deus recorda”, sempre, não esquece nenhum daqueles que criou; Ele é Pai, sempre à espera vigilante e amorosa de ver renascer no coração do filho o desejo de retornar à casa. E quando reconhece este desejo, mesmo que simplesmente manifestado, e tantas vezes quase inconsciente, imediatamente põe-se a seu lado, e com o seu perdão lhe torna mais leve o caminho da conversão e do retorno.O convite que Jesus fez a Zaqueu, ignorando que ele era um pecador público, assim como o sermão da montanha, no qual Ele exalta as virtudes contrárias ao que o mundo aceita, enche de esperança a todos nós, que ainda estamos na “grande tribulação” e, portanto, sujeitos às maiores adversidades no cumprimento fiel à nossa vocação cristã.
Permaneçamos fiéis ao ensinamento de Cristo, para que possamos ser dignos de participar das suas promessas de santidade.

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