terça-feira, 17 de abril de 2012

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA PÁSCOA – TEOLOGIA JOANINA – 15.04.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA PÁSCOA – TEOLOGIA JOANINA – 15.04.2012



Neste segundo domingo da Páscoa (atentar que não se diz domingo 'depois' da Páscoa), fiz a opção de não destacar um tema em especial, mas comentar diversos pontos teológicos próprios da teologia joanina, a partir dos seus escritos colocados na liturgia de hoje: a 1a. Carta e o evangelho.

Para melhor compreensão, é necessário observar que o evangelho e as cartas de João são, no aspecto cronológico, os últimos escritos do NT. Embora o cânon da Sagrada Escritura coloque no final da Bíblia o Apocalipse, este foi escrito antes, na época em que João estava exilado na ilha de Patmos. As cartas e o evangelho foram escritos após a sua libertação, por volta dos anos 96 a 100. Esse detalhe é importante para perceber o amadurecimento teológico presente nos escritos joaninos, resultado já de várias décadas de desenvolvimento da doutrina cristã.

No trecho da 1a. Carta de João, selecionado pela liturgia deste domingo (5, 1-6) temos pelo menos duas lições a destacar: no vers. 3, temos: “pois isso é amar a Deus: observar os seus mandamentos, e os mandamentos de Deus não são pesados.” Ou seja, é o mandamento do amor, aquele que Cristo resumiu no lavapés dos discípulos, quando disse: eu vos dou um novo mandamento – que vos ameis uns aos outros, este é o sinal pelo qual os cristãos devem ser reconhecidos. Por isso, João diz que os mandamentos não são pesados, porque não existe algo mais digno e prazeroso do que amar. E quem ama aquele que gerou amará também o que d'Ele nasceu. Portanto, já não são mais aqueles mandamentos da lei de Moisés, da antiga aliança. Trata-se agora do novo mandamento, que resume os antigos 10 em apenas 2: amar a Deus e ao próximo.

A outra lição está no vers. 6: “Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. Nâo veio somente com água, mas com a água e o sangue.” João refere-se claramente ao batismo e ao calvário, isto é, o batismo apenas não salva, não basta ser batizado, mas é preciso participar também da morte e ressurreição de Cristo, no sacrifício eucarístico. Cristo morreu por nós e nos salvou, mas para sermos merecedores desse dom salvífico, devemos participar com Ele da sua cruz através da memória da redenção, que se renova a cada dia na celebração eucarística. João reforça o trabalho de Paulo, com o objetivo de evitar certas deturpações da doutrina cristã por parte dos judeus convertidos, no tempo das primeiras comunidades cristãs, colocando em choque os ditames do antigo testamento com o novo testamento. O batismo representa o final da antiga aliança e a morte- ressurreição de Cristo representam o início da nova aliança.

No trecho do evangelho da liturgia de hoje (Jo 20, 19-31), onde está relatado o episódio da incredulidade de Tomé, há outros pontos a destacar além dessa conhecida história, que virou até comercial de sabão em pó, na década de 70 (teste de s. Tomé). No vers 22, João diz que Jesus “soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo...” Vemos aqui o Pentecostes descrito por João, bem diferente das outras narrações, que falam em línguas de fogo. Cristo conferiu o Espírito aos apóstolos nesta sua primeira 'visita', ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana. Se fizermos uma composição cronológica, este dia seria o domingo de hoje, porque no alvorecer do primeiro dia da semana após a sua morte, Jesus ressuscitou e apareceu a Maria Madalena, mandando recado aos apóstolos que iria encontrá-los na Galiléia. É interessante observar que, de início, a Igreja ainda mantinha o costume judaico de guardar o sábado, só depois de conscientizar-se de que os fatos mais importantes a partir da ressurreição de Cristo ocorreram no primeiro dia da semana, foi-se introduzindo a mudança para o domingo como dia do Senhor. Tal mudança ainda não é bem aceita e entendida por diversas igrejas cristãs não católicas (não falar 'protestantes', ok, em homenagem ao grande Papa João XXIII).

Outro detalhe interessante: Tomé não se encontrava com os doze e disse que só acreditaria vendo. Pois bem, quando Cristo apareceu no domingo seguinte, foi logo chamando Tomé e mostrando as chagas, ou seja, Cristo já sabia da incredulidade de Tomé sem ninguém ter-lhe informado disso. João utiliza este episódio dando bastante ênfase à teimosia de Tomé com dois objetivos: primeiro, para mostrar a divindade de Cristo através do dom da onisciência, pois soubera do que Tomé havia dito mesmo sem ninguém ter falado isso para Ele; segundo, para animar os novos cristãos, que não chegaram a conhecer Cristo, quando Este disse que: “bem aventurados os que creram sem ter visto.” E como João sabia que este escrito ia ser distribuído para muitas comunidades na Ásia Menor, ele complementa dizendo que Jesus havia realizado muitas outras maravilhas, que não foram escritas naquele livro, as que estão escritas são apenas uma amostra de tudo o que Ele havia feito.

Quero destacar agora um ponto de muita importância teológica e ao mesmo tempo suscitador de grande polêmica. Está no vers. 23: “a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, serão retidos”. Primeiro, devemos entender que o perdoar naquela época significava livrar, porque quem tinha alguma dívida e não podia pagar se tornava escravo do credor. Quando o credor perdoava a dívida, significava que estava dando a liberdade ao devedor. Então, é neste contexto que devemos entender o 'perdoar' de João, ou seja, de libertar a pessoa daquele mal que é o pecado. Quem não era perdoado, permanecia escravo. Portanto, este é o sentido do verbo 'retiverdes', a pessoa continuaria presa ao seu pecado, não se libertaria. Ficar retido, pois, significa permanecer escravo do próprio pecado. Assim fica o pecador que não manifesta arrependimento.

Aqui entra outro ponto muito delicado. A teologia considera este versículo como o fundamento teológico do sacramento da penitência. Muitas vezes, se ouve as pessoas dizendo 'sacramento da confissão', mas não é bem assim, é o sacramento da penitência e da reconciliação, decorrente do arrependimento. Conforme se verifica no texto joanino, Cristo fala em perdoar os pecados (subentende-se dos arrependidos) e reter, isto é, não perdoar, dos que não se arrependem. Cristo não disse que o pecador devia ir até os apóstolos e 'narrar seus pecados' para poder ser perdoado, a ordem de Cristo se concentra no perdão ligado ao arrependimento. Por que, então, a Igreja Católica coloca como obrigatória a 'confissão' dos pecados? Nas primeiras comunidades eclesiais, não havia essa 'confissão'. O ato penitencial que faz parte da liturgia eucarística é exatamente o momento para o pecador examinar o seu íntimo e se arrepender. No entanto, a Igreja Católica não considera só esse arrependimento íntimo como suficiente para o perdão, exige o ritual de comparecer diante do sacerdote para que o perdão seja efetivo.

Nos primeiros anos após o Concílio Vaticano II, cujo cinquentenário está sendo comemorado neste ano, foi autorizada uma experiência litúrgica chamada de 'confissão comunitária', que foi uma sugestão de alguns grupos de conciliares para o retorno da prática original da penitência, como era nos primeiros tempos da era cristã. Todavia, as forças conservadoras da teologia, das quais o nosso Papa Bento XVI é um notável representante, após algum tempo retiraram essa prática como não recomendada, podendo ser realizada apenas em ocasiões especialíssimas e em caráter excepcional.

Conclui-se que esse ritual da 'confissão' foi introduzido na teologia posteriormente como fazendo parte do sacramento da penitência, tendo sido inventado pelos monges medievais que faziam a 'confissão' em sinal de humildade, como uma prática devocional optativa e mais fervorosa. Mais ou menos como nós fazíamos no 'capítulo das culpas', que era parte dos costumes diários no tempo do noviciado. Mas Cristo, segundo as palavras de João, não colocou essa condição como necessária para o perdão, apenas o arrependimento. Assim como também Cristo não disse que os cristãos deveriam participar da celebração eucarística todos os domingos. Ele disse apenas “todas as vezes que fizerdes isso, fazei-o em minha memória”. A Igreja Católica faz esses acréscimos fundamentando-se naquela outra 'delegação' de Cristo a Pedro: tudo o que ligares... e o que desligares... Contudo, devemos ter em mente que a doutrina deve também acompanhar a evolução dos tempos, pois aquele famoso ditado latino 'oh tempora, oh mores' não deve ser entendido apenas em relação aos costumes pretéritos, mas respeitando cada grupo de 'mores' nos seus devidos 'tempora'. Na comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II, foi convocado pelo Papa um Sínodo dos Bispos para o mês de outubro deste ano. Como seria oportuno um novo fôlego para o 'aggiornamento' tão acalentado por João XXIII, que foi se tornando em 'apassadamento' nas décadas seguintes até hoje.


COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA PÁSCOA – 08.04.2012 - RABONI


COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA PÁSCOA – 08.04.2012 - RABONI



Estamos mais uma vez no domingo da Páscoa. Neste ensejo, completa-se um ano desses comentários que venho escrevendo sobre a liturgia dominical. Não é um ano pela contagem civil, que só completará em 24 de abril, porque a Páscoa do ano passado foi um pouco mais tardia, mas um ano pelo calendário litúrgico. Para mim, tem sido uma ocasião de perene aprendizado e de recordação de assuntos estudados e leituras realizadas nos anos 70, quando cursei teologia no Seminário da Prainha. Tem me servido de apoio muito importante as lições recebidas do Padre Luiz Uchoa, que era nosso professor de Bíblia, através de quem aprendi muitas coisas das que publico aqui. Sou muito grato a todos os caros Confrades que me dão a honra de ler essas lucubrações que escrevo. Digo isso, porque de fato, eu não imagino que esteja fazendo nenhuma homilia ou palestra sobre o assunto, apenas tento coordenar as idéias e as escrevo aqui, como se estivesse pensando em voz alta. Alguns colegas enviam respostas frequentemente, outros esporadicamente, outros não se manifestam, mas também nenhum de vcs ainda me pediu pra parar de fazer isso, por isso continuo a escrever. As opiniões manifestadas por aqueles que enviam comentários me animam a continuar.

Neste domingo da Páscoa, a palavra chave, palavra mestra, palavra de ordem, poderosíssima é uma só: Ressurrexit - Ressuscitou. Meus amigos, esta é uma palavra muito forte, a mais poderosa que qualquer um de nós pode pronunciar. Ressuscitar significa vencer a morte, aquela força contra a qual nenhum poder humano resiste. E no entanto, Jesus ressuscitou e nos deu a promessa certa de ressuscitarmos com Ele. E aqui, parafraseando o apóstolo Paulo, em 1 Cor 15, 14: se Cristo não ressuscitou, inútil é a nossa fé, somos as pessoas mais miseráveis deste mundo, por acreditarmos numa falácia. Mas não, diz ele, Cristo realmente ressuscitou e é por isso que nós estamos aqui, e é por isso que nós cremos e mantemos a certeza de que nós também venceremos a morte, da mesma forma como Ele fez.

Na noite de ontem (sábado), eu ajudei na solenização da festa da Vigília Pascal, na Paróquia onde frequento. É a cerimônia litúrgica da Semana Santa que me dá mais satisfação de participar, apesar de ser sempre muito demorada. Ontem, demorou três horas, mas eu confesso que não sinto esse tempo passar. Os atos litúrgicos são tão ricos e simbólicos, que ao vc concentrar-se neles, não percebe a duração. O canto do Exultet (Proclamação da Páscoa), as leituras que vão desde a narração da criação até as profecias de Isaías e Baruc e depois o evangelho de João, que narra a chegada das mulheres e dos discípulos ao túmulo e encontram a pedra removida... eu fico imaginando a cara de espanto, preocupação e perplexidade de todos eles quando encontram a tampa afastada, os lençóis na posição (sem terem sido afastados), só o que estivera sobre a sua cabeça estava enrolado na lateral. E o anjo que anunciou: Ele não está mais aqui, ressuscitou como havia dito. Então, como se diz no popular, 'caiu a ficha' deles e ficaram pensando: ah, foi por isso que ele falou tal coisa... foi isso que ele quis dizer... Eu li um comentário explicando que o verbo grego traduzido por 'deixados', quando o texto fala que os panos estavam deixados, quer dizer que o lençol que recobria o corpo de Cristo estaria com a forma produzida pelo Seu corpo, mas sem nada por baixo, oco, conservando apenas o aspecto figurativo de um corpo deitado. Ou seja, na ressurreição, Cristo não se levantou e afastou o lençol, como é comum cada um de nós fazer quando se levanta da cama, puxando o lençol para um lado. Ele simplesmente 'saiu' daquele ambiente, Seu corpo físico, podemos dizer, se desintegrou sem alterar o estado do lençol que o recobria. Talvez seja essa a origem da imagem do Santo Sudário. Nessa 'desintegração' física, o corpo do Senhor deixou no lençol a marca indelével de sua figura, que ainda hoje é motivo de estudos e debates por crentes, não crentes, cientistas e curiosos.

Merece um destaque especial a participação de Maria Madalena neste episódio. Ela chegou ainda de madrugada, com escuro, e vinha pensando como fazer para afastar aquela grande pedra da entrada. De longe, ela viu que a pedra tinha sido afastada e se assustou, nem continuou, mas voltou para dizer isso a Pedro e João, que ainda estavam no caminho. Então, João e Pedro saíram correndo pra conferir isso, e João por ser mais jovem correu mais e chegou primeiro, e viram que de fato a pedra não estava no lugar. Receberam o aviso do anjo e ficaram ali a maturar sobre o caso. Mas Maria caiu no choro, parecia que não tinha acreditado no anjo, quando ouviu uma voz a lhe pergungar: Mulher, por que choras? Sigamos as palavras do evangelista João, em 20, 15:"Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, julgando que fosse o jardineiro, respondeu-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, virando-se, disse-lhe em hebraico: Raboni! - que quer dizer, Mestre." Imaginemos a cara de Maria Madalena nessa hora, um misto de surpresa, medo e felicidade. E agora imaginemos a cara de 'ciúme' dos apóstolos quando ela chegou pra eles e disse: "Vi o Senhor" (Jo 20, 18). Jesus apareceu a Maria Madalena antes deles... percebamos que grande privilégio o dela. Aqueles teólogos e fiéis que afirmam que não pode haver sacerdotisas no catolicismo porque Cristo só escolheu homens como apóstolos é porque, com toda certeza, nunca refletiram sobre a importância e o privilégio de Maria Madalena. Sem falar nas outras mulheres que acompanharam Jesus de perto em toda a via sacra, exatamente no momento em que os discipulos (homens) tinham fugido e se escondido. Mas elas estavam lá, até o fim. No cap. 20 de João, acima referido, ele fala apenas em Maria Madalena. Mas no cap. 16, 1 de Mateus, lêem-se os nomes de outras mulheres: "Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus." Podemos deduzir que havia no grupo um número bem maior de mulheres do que o rol de nomes que consta no texto bíblico. E as mulheres também estavam no Cenáculo, juntamente com Maria Mãe de Jesus, quando desceu o Espírito Santo. Portanto, meus amigos, a tradição católica tem uma grande dívida de reconhecimento dessas valorosas mulheres que acompanharam toda a trajetória de Jesus, sendo fiéis até os instantes finais e mesmo depois da Sua morte, e bem assim como todo o trabalho que elas desenvolveram nas primeiras comunidades cristãs. Segundo os evangelhos não incluídos no cânon bíblico, Maria Madalena era líder de uma fervorosa comunidade cristã primitiva e tinha uma liderança reconhecida por todos, o que era motivo de picuínas e caras feias por alguns apóstolos, especialmente Pedro e Paulo. Mas isso é uma outra história.

Voltemos à palavra chave da festa pascal: Ele Ressuscitou ! No sermão da missa da Vigília Pascal, o celebrante (Mons. Manfredo Ramos) fez uma interessante referência a Santo Atanásio, que foi bispo de Alexandria no séc. IV, que dizia: a Páscoa não é celebrada apenas no domingo da ressurreição, mas eu todos os 7 domingos do período pascal. Não se diz 2º domingo depois da páscoa, 3º domingo depois da páscoa, etc, mas 2º domingo, 3º domingo da páscoa, os sete domingos formam uma só e grande páscoa. De fato, a páscoa é uma festividade de uma dimensão tal que teria sua importância diminuída se ficasse reduzida a apenas um domingo celebrativo. Se observarmos bem, a páscoa é a memória central que se celebra em todos os domingos do ano, sendo que neste período tem uma referência especial.

Todos os anos, nós celebramos a festa da Páscoa e este é sempre um momento forte de recarregar a nossa fé e a nossa esperança. No século XIX, os exegetas racionalistas protestantes tentaram fazer uma 'interpretação' científica da Bíblia, retirando todas as referências sobrenaturais a milagres, procurando encontrar explicações científicas para estes. Jesus poderia ter sido um grande mágico, um grande prestidigitador, um grande parapsicóloco, um grande físico ou químico ou biólogo, etc... mas essa tentativa esbarrou num fato inexplicável: a ressurreição. Nunca, em tempo ou lugar algum, se ouviu qualquer notícia ou testemunho de algo semelhante, ou seja, de alguém que tivesse morrido verdadeiramente e depois, pelas suas próprias forças, tivesse voltado a viver. E ficaram num dilema: ou afirmariam que todas aquelas pessoas que testemunharam esses fatos eram loucas (o que seria absolutamente irrazoável e insensato) ou então acreditariam que eles falaram a verdade. E pararam o trabalho por aí.

Meus amigos, vale lembrar aqui o que Cristo disse a Tomé: tu acreditaste porque viste; bem aventurados os que não viram e, no entanto, creram. Jesus está nos chamando de bem aveuturados. Poderia haver elogio maior? principalmente se considerarmos de quem esse elogio partiu? Ora, só temos motivos e mais motivos para nos alegrarmos com todas essas realidades que a fé cristã nos traz e que a pura razão ou a mais elevada ciência jamais conseguirá alcançar. Celebremos, portanto, de verdade a nossa páscoa com o nosso testemunho sincero nas labutas do dia a dia.


COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – 01.04.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – 01.04.2012



A liturgia deste domingo celebra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, por ocasião dos preparativos para a páscoa judaica. Já vimos nos domingos passados que não foi esta a primeira vez que Ele foi a Jerusalém nesse período, porém, nesta vez, como Ele já sabia que estava na Sua hora, as coisas ocorreram de forma diferente, com maior festejo. Ele sabia que os chefes dos sacerdotes estavam aguardando uma oportunidade para prendê-Lo, então Ele não chegou discretamente, mas o fez de forma a chamar a atenção dos inimigos.

Quem assistiu àquele filme (que foi inicialmente uma peça teatral exibida em Nova York) Jesus Cristo Superstar deve lembrar de como o diretor do filme retrata esse momento. Os chefes dos sacerdotes estavam espreitando a procissão que O vinha conduzindo e comentando entre eles: Ele é perigoso. Mas eles não podiam simplesmente prendê-Lo diante da multidão, porque isso ocasionaria uma revolta popular, ela preciso encontrá-Lo em um local reservado, para isso precisaram da ajuda de Judas, para indicar onde Ele estaria longe do povo.

A principal leitura deste domingo é a da paixão, no entanto, há a leitura opcional do evangelho de Marcos, onde ele narra os detalhes da entrada de Jesus em Jerusalém. Foi o próprio Jesus quem pediu aos discípulos para irem buscar um jumentinho, indicando precisamente onde o encontrariam. Depois de três anos pregando pelos territórios da Judéia, Galiléia, Samaria, Jesus tinha adquirido um número bastante grande de admiradores, embora nem todos fossem seguidores. E adquiriu também, óbvio, um outro número de inimigos, exatamente dentre aqueles para quem Ele veio confirmar a antiga aliança: os líderes do povo judeu.

Desde tempos imemoriais, a festa da páscoa era celebrada entre os povos orientais, sempre coincidindo com o início do período das colheitas, que no hemisfério norte corresponde à chegada da primavera. A saída dos hebreus do Egito, por volta de 1.800 anos antes de Cristo, já ocorrera numa dessas celebrações pascais, quando os umbrais das portas foram tingidas com o sangue do cordeiro. A escolha de Jesus para se apresentar aos seus inimigos, sabendo que eles iriam matá-Lo, foi também propositalmente direcionada para o período da páscoa judaica, porque Ele, sendo o novo cordeiro, iria ser imolado na mesma situação do primeiro cordeiro, que assinalou a libertação dos cativos do Egito. Geograficamente, esta data está referenciada com a primeira lua cheia após a passagem do equinócio da primavera (no hemisfério norte, pois para nós, é o equinócio do outono). O equinócio, evento geográfico que significa a mesma duração do dia e da noite, ocorre entre os dias 20 e 21 de março de cada ano. Se observarmos o calendário deste ano, veremos que a primeira lua cheia após o equinócio ocorrerá no dia 6 de abril, ou seja, cairá numa sexta feira. Este seria o dia da páscoa, pelo calendário judaico antigo. Mas como nós celebramos a páscoa sempre num domingo, então, o dia para nós será 8 de abril. A páscoa é a única data comemorativa que ainda nos dias de hoje se rege pelo calendário lunar.

No conjunto das leituras deste domingo, chama a atenção a precisão profética de Isaías, quanto aos sofrimentos que iriam castigar o Messias. No cap 15, vers 6, o texto não podia ser mais claro: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. ” O mesmo se pode dizer em relação ao salmista, no Sl 21: “Cães numerosos me rodeiam furiosos, e por um bando de malvados fui cercado. Transpassaram minhas mãos e os meus pés e eu posso contar todos os meus ossos. ” No período quaresmal, é constante a leitura de trechos de Isaías, porque este profeta foi o que expressou com mais clareza os sofrimentos do cordeiro. E era também o texto que Jesus mais gostava de citar, quando se referia aos antigos profetas.

Meus amigos, todos os anos, a liturgia do domingo de ramos repete estas cenas e leituras, nós que somos habituais em frequentar a missa talvez até já saibamos de cor esses trechos. Qual o significado, então, dessa repetição, o que a liturgia da Igreja nos transmite com essas cerimônias da Semana Santa, em especial, do Tríduo Pascal a cada ano? Ora, nós sabemos que cada missa celebrada é uma realização da vontade de Cristo, que disse: todas as vezes, que fizerdes isso, fazei-o em minha memória. Portanto, não apenas na Semana Santa se celebra a morte e ressurreição de Cristo, mas em cada missa se faz isso. É o que nós rezamos após a consagração: anunciamos a Tua morte e proclamamos a Tua ressurreição... ou seja, em cada missa, temos uma síntese do Tríduo Pascal.

Concluímos, então, que a celebração destacada dos fatos históricos centrais relacionados com o mistério da salvação, que acontece na Semana Santa, tem o sentido pedagógico de nos lembrar de que, em cada missa que é celebrada, em qualquer lugar do mundo, a nossa salvação está se renovando. A liturgia da Semana Santa vem nos proporcionar um tempo mais específico e demorado para meditarmos nesse mistério, cuja memória ocorre em todos os lugares e muitas vezes por dia. Mas certamente pela constante repetição, podemos nos inclinar a não levar na devida consideração o conjunto desses fatos.

A tradição popular que cerca a sexta feira santa é por demais emotiva e deprimente. É comum verem-se pessoas chorando durante a Via Sacra. Mas não é esse o objetivo da comemoração litúrgica. De fato, Jesus não morre mais, isso aconteceu uma vez para sempre. A memória da sexta feira santa deve ser celebrada na perspectiva do conjunto dos atos litúrgicos que evoluem para a vigília pascal e depois para o domingo da Páscoa. A morte de Cristo celebrada na sexta feira santa é, como o catecismo ensina, de forma incruenta, isto é, sem derramamento de sangue. Ora, assim é também em todas as missas, sejam elas na semana santa ou durante o restante do ano. Não devemos, pois, encarar com sentimentalismos o tríduo pascal, mas com os olhos da fé esclarecida, que não separa a paixão e morte de Cristo da sua ressurreição.

A propósito da sexta feira santa, eu li hoje que o Papa, em visita a Cuba, solicitou ao governo que decretasse feriado nesta sexta feira, ao que o governo cubano aquiesceu, e então depois de mais de 50 anos (desde 1960), a sexta feira santa será feriado em Cuba, o que está sendo visto pelos observadores como um sinal de significativa mudança para os católicos cubanos. Pode ser este o reinício das tradições religiosas interrompidas com o governo de Fidel, o que denota também o grande prestígio do Papa.

Então, meus amigos, devemos aproveitar os feriados da semana santa não como ocasião para viagens e diversões extras, mas para reflexão sobre o mistério da nossa redenção, vivenciado historicamente na paixão/ressurreição de Cristo e revivenciado liturgicamente em cada missa que se celebra, com especial acento nesta semana que estamos iniciando.

Eu ainda hoje me lembro de uma oração que aprendi no Noviciado, a qual rezo sempre que entro no templo: Nós Te adoramos, santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as igrejas que estão em todo o mundo e Te bendizemos porque pela tua santa cruz redimiste o mundo.


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO DA QUARESMA – OBEDIÊNCIA E FIDELIDADE – 25.03.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO DA QUARESMA – OBEDIÊNCIA E FIDELIDADE – 25.03.2012



Na liturgia deste 5º domingo da quaresma, eu destaco dois temas importantes que estão interrelacionados: obediência a Deus e fidelidade ao seu projeto.

Na primeira leitura, o projeta Jeremias (31, 33) preconiza a nova aliança que Javeh fará com seu povo, que não será igual à anterior mercê da qual os hebreus foram retirados do Egito e conduzido pela mão pelo deserto, mas que os antepassados violaram, ou seja, não foram fiéis. A aliança anterior era escrita em tábuas de pedra, mas a nova aliança será diferente, como diz o profeta: “Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, diz o Senhor: imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração.” A aliança anterior, escrita na pedra, podia ser facilmente violada, mas a nova aliança escritas nas entranhas e no coração, esta jamais poderá ser esquecida. Jeremias está assim antecipando o que Cristo iria pessoalmente afirmar quando veio realizar esta nova aliança. Só que os judeus não quiseram ouvi-lo e nem aceitaram a inscrição dela nas suas entranhas, por isso a nova aliança foi levada aos gentios, aos não judeus, chegando até nós. Pelo batismo, a lei divina é impressa no nosso coração e assim, como continua o profeta, no vers. 34, não será mais necessário ensinar ao próximo, ao irmão: aqui está Deus, porque “todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor.”

A missão de Cristo foi demonstrar que os seus seguidores devem ser fiéis à nova aliança e ser obedientes ao Pai, assim como Ele o foi em todos os momentos. Na segunda leitura, extraída da Carta aos Hebreus, lemos: “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte.” (Heb 5, 7) Esta mesma mensagem está contida no evangelho de João (12, 27), quando Cristo comenta com os discípulos: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? `Pai, livra-me desta hora!'? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim.” E nós todos conhecemos a célebre oração de Cristo no Getsêmani: 'Pai afasta de mim este cálice, porém, não se faça a minha vontade, e sim a Tua.' E complementando este pensamento, retornamos ao texto da Carta aos Hebreus (5, 8): “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu.” Nesses trechos, nós podemos perceber claramente os dois conceitos integrados de fidelidade e obediência. Na sua natureza humana, Cristo se sentia angustiado, porque sabia que os dias maus estavam se aproximando, mas tinha consciência de que era para isso que Ele tinha vindo, então a sua missão deveria ser cumprida até o fim.

Essas leituras, selecionadas para o último domingo da quaresma, quando se aproximam as comemorações da paixão, morte e ressurreição de Cristo, servem também como reforço teológico para que não caiamos nos mal entendidos das antigas heresias, como por exemplo, os gnósticos que afirmavam que Cristo, sendo Deus, não poderia sofrer e assim a crucificação de Cristo teria sido uma espécie de encenação, pois Ele não estaria sofrendo realmente. Ora, meus amigos, o evangelista João faz questão de expor um longo diálogo de Cristo explicando aos seus discípulos o que iria ocorrer com Ele e ainda que tipo de morte Ele teria de padecer (Jo 12, 23-27), exatamente para que ninguém viesse a ter dúvidas de que o padecimento de Cristo, além de ter sido real, foi ainda mais agravado porque Ele, sendo Deus, sabia antecipadamente de tudo pelo que ia passar, o que aumentava ainda mais o seu sofrimento. Sabia também que os discípulos iriam duvidar dele, sabia dos sofrimentos que isso iria trazer a Maria, tudo se acumulava na sua cabeça. Daí João ter relatado que Ele disse: “Agora sinto-me angustiado.” Cristo estava em plena esta da Páscoa, em Jerusalém, mas ainda não havia chegado a sua hora. Contudo, na sua mente, com certeza, todo o drama já estava acontecendo.

Essa leitura do evangelho de João também registra que alguns gregos, mesmo antes dos padecimentos de Cristo, já demonstravam interesse por sua doutrina. Tanto assim que, sabendo da sua presença em Jerusalém naqueles preparativos para a Páscoa, mas não sabendo quem era Ele, pediram a Felipe que lhes apresentasse. É o que lemos em Jo 12, 20-21: “Havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém, para adorar durante a festa. Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: 'Senhor, gostaríamos de ver Jesus.'” Lembremo-nos de que o evangelho de João foi escrito por volta do ano 100, bastante depois dos outros três, e nessa ocasião, tanto Paulo como os demais discípulos já haviam sido martirizados. João quer mostrar que o interesse dos gregos pelo cristianismo não começou com o trabalho apostólico de Paulo. É indubitável que foi Paulo o grande propagador do cristianismo no mundo da cultura grega. Mas João está aí afirmando que, mesmo antes da paixão e morte de Cristo, os gregos já demonstravam interesse em conhecê-Lo, certamente por já terem ouvido falar de sua doutrina.

A bem da verdade, conforme já comentei aqui em tópicos anteriores, às vezes a tradução pode atrapalhar o entendimento da mensagem. No caso do evangelho de João, em comento, a alusão aos 'gregos' que tinham ido a Jerusalém é uma correção da tradução latina de São Jerônimo, que na vulgata registrou a palavra 'gentiles' como se fosse correspondente à palavra grega 'helénes'. De fato, gentiles (gentios) e helénes (helênicos, gregos) não são gramaticalmente sinônimos, mas no contexto doutrinário do novo testamento, são equivalentes. Mas não apenas os gregos eram gentios, porque havia também os samaritanos, com quem os judeus não se comunicavam, e que também assim consideravam. Mas esta tradução da CNBB resgata o sentido original do texto joanino, que fez referência aos helênicos especificamente e não aos gentios em geral.

Nesta mesma leitura de João ( 12, 31) lemos uma frase bem enigmática, que está assim traduzida no texto da CNBB: “agora o chefe deste mundo vai ser expulso”. O 'chefe' deste mundo? Quem seria este? Recorrendo ao texto da vulgata de São Jerônimo, temos a expressão 'princeps huius mundi', que já dá outra conotação ao texto: 'o príncipe deste mundo'... não me parece que a palavra 'chefe' seja uma tradução boa para 'princeps'. Se observarmos o texto grego, vamos ter: 'ó arkhon tou kosmos', então vemos que o original é arkhon, palavra que para os gregos significava o arconte, ou seja, um magistrado, um tirano de Atenas. Vemos então que João quer se referir a alguém poderoso ou ao próprio poder que ele exerce. Então, poderemos concluir que João se referia ao poder que reina no mundo, qual seja, o poder do mal. Cristo estava profetizando que, com o seu sacrifício, a tirania do mal seria derrotada. E prossegue no vers. 32: “e Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a Mim.” João conclui: ele estava se referindo ao modo como deveria morrer. E eu penso que podemos concluir mais além: literalmente, ele estava profetizando que a Sua cruz passaria a ser o símbolo maior da vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte. E que a Sua cruz estaria presente em todos os cantos do mundo.

Prezados confrades, no próximo domingo, iniciaremos a semana santa. As leituras deste domingo nos colocam no limiar dessas singulares comemorações que, embora celebradas todos os anos, nunca são repetidas. Ou pelo menos, nós não podemos nunca pensar que se trata de mera repetição. A mensagem de Cristo se renova a cada vez e a cada vez nos desafia, como seus verdadeiros seguidores, a imitá-Lo na fidelidade e na obediência ao plano de Deus em cada um de nós, ao pleno desenvolvimento da nossa missão. Que Ele nos transmita ao menos um pouco da sua extraordinária força.


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOMINGO DA QUARESMA – IDOLATRIA E COMÉRCIO RELIGIOSO – 11.03.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOMINGO DA QUARESMA – IDOLATRIA E COMÉRCIO RELIGIOSO – 11.03.2012



As leituras da liturgia deste domingo (3º da quaresma) nos trazem para a reflexão diversos temas importantes, mas vou me fixar apenas na questão da idolatria e sua consequência, que é o comércio religioso.

Vemos na primeira leitura, do livro do Êxodo (20, 1-17) a declaração divina dos mandamentos dados a Moisés no monte Sinai. Este tema é, por si só, merecedor de um comentário à parte, por conta das inúmeras divergências sobretudo entre católicos e seguidores de Lutero, especialmente no que diz respeito ao segundo mandamento (não farás imagens) e ao último (não cobiçarás a mulher do próximo,nem seu boi, nem seu jumento...), quanto ao primeiro, a catequese católica simplesmente omitiu, e quanto ao segundo, dividiu em dois preceitos. Atenhamo-nos, porém, apenas ao tema do segundo mandamento: “não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante destes deuses nem lhes prestarás culto...” (Ex 20, 4-5) pois fica evidente, pela leitura do texto bíblico, que a catequese católica 'saltou' este e pôs como se fosse o segundo mandamento, o terceiro (Ex 20,7): não pronunciarás o nome de Deus em vão. Depois viria a questão do sábado, mas deixemos essa polêmica para outra ocasião.

É do conhecimento geral que a catequese católica pulou este segundo mandamento porque, ao longo do tempo, sempre aprovou e autorizou o uso de imagens sacras, tendo sido essa uma das grandes divergências apontadas por Lutero e ainda hoje motivo de reclamação dos cristãos não católicos. Eu vejo nisso uma enorme e desnecessária discussão que, perante uma interpretação dinâmica da escritura, não apegada à literalidade, em nada contradiria a prática tradicional do catolicismo. Bem que a Igreja Católica poderia rever o rol dos mandamentos e corrigir aquilo que, pela simples leitura do texto do Êxodo, está em desalinho. Para entender melhor isso, basta analisarmos o significado da idolatria, rejeitada por Javeh em Ex, 20, 4. Se observarmos bem, o grande “x” da questão não está no ato de esculpir imagens de figura alguma (vers. 4), mas no ato de prostrar-se e adorar esses 'deuses' (vers. 5). Trata-se de um mandamento só: não esculpir imagens de figuras (deuses, imagens =eídolon, em grego), para que o povo não venha a praticar a 'eidolon-latreia', ou seja, a idolatria ou a adoração dos ídolos. O ciúme de Javeh se foca no fato de ser 'substituído' pelas figuras criadas pelo povo, não é propriamente pelas esculturas em si mesmas. Nós sabemos, pelos relatos bíblicos, que por diversas vezes, isso aconteceu. Inclusive, quando Moisés desceu do Sinai para anunciar a lei, encontrou vários hebreus cultuando o bezerro de ouro.

Ora, nós todos sabemos que as imagens sacras adotadas no catolicismo não têm essa mesma característica dos 'ídolos' do antigo testamento, porque não são elas objeto de adoração, elas apenas evocam, para nosso exemplo e edificação, cristãos que podem ser considerados como modelos a serem seguidos, pelas suas reconhecidas virtudes e piedade, assim são os fiéis canonizados (santos). As imagens religiosas não são objetos de culto, embora estejam presentes no recinto do culto. Não se pode negar que uma significativa parcela dos fiéis, de instrução religiosa mais elementar, de fato adoram as imagens, mas essa não é a postura teológica doutrinária. Por isso, entendo ser bastante razoável uma 'revisão' do que foi escrito no passado e fazer-se uma adequação do texto catequético ao texto bíblico. O grande problema é que, então, isso iria significar a admissão de um erro histórico e aí entra aquela outra séria e desnecessária decisão dogmática das autoridades religiosas do passado acerca da 'inerrância' da instituição eclesiástica, cujos desdobramentos doutrinários e pastorais são totalmente imprevisíveis. Contudo, meus amigos, fico eu a pensar se a manutenção da situação atual é menos prejudicial do que uma reformulação doutrinária em alguns pontos básicos.

A situação do catolicismo mundial está muito complicada. Estatisticamente, a Europa possui um número assustadoramente baixo de católicos. A África e a Àsia, há muito tempo, têm folgada maioria islâmica. Os Estados Unidos da América são, desde há muito, em maioria protestantes. Resta apenas a América do Sul, especialmente o Brasil, como o grande celeiro mundial dos cristãos católicos. Mas com a maciça investida das organizações evangélicas, igrejas-empresas, a nossa população mais desinformada vem trocando, com uma preocupante mobilidade, sua fé católica pelo engodo daqueles que prometem 'um terreninho no céu' pago em módicas prestações. Do jeito que a situação evolui, daqui a pouco teremos um mero punhado de intelectuais adeptos do catolicismo ortodoxo, provavelmente, aqueles vinculados a alguma das comunidades 'carismáticas'.

Meus amigos, penso que vocês vão concordar comigo no seguinte: o grande, o máximo, o sublime ídolo do nosso tempo é o dinheiro, é ele que está tomando o lugar sagrado do Criador, mesmo nos ambientes religiosos, que se autoproclamam legítimos. Não são as figuras de gesso, madeira ou bronze que ameaçam o lugar de Deus no nosso meio, mas sim o vil metal. É verdade que, sem o dinheiro, nada se faz nos dias de hoje. Aquela regra antiga de São Francisco (“que os frades não recebam dinheiro”) já foi abandonada há muito tempo, por razões perfeitamente compreensíveis. Mas uma coisa é utilizar o dinheiro como meio, outra bem diferente é ter o dinheiro como um fim em si mesmo. E aqui entra a narrativa do evangelho de João (2, 13) sobre a atitude radical de Jesus em expulsar os comerciantes do templo: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” Eu fico a pensar que atitude tomaria Jesus se chegasse hoje em muitos dos nossos templos, sobretudo nas calçadas e arredores, mais especialmente nos dias de festas do(a) padroeiro(a)... com certeza ele repetiria a mesma cena narrada no evangelho. Citemos somente os exemplos de Canindé, Juazeiro do Norte, Aparecida (SP). Como fica difícil distinguir as pessoas que ali comparecem com verdadeiro espírito de fé daquelas outras que têm como objetivo apenas “se dar bem” com a situação. Uma vez, eu fui a Canindé e, logo que desci do carro, na praça da Matriz, achegou-se um cidadão e me 'deu' um santinho minúsculo de bronze, dizendo que já estava bento e que estava doando, porque ele não vendia o produto. Mas me pediu uma ajuda financeira em compensação. Eu recusei o 'presente' e ele ficou visivelmente aborrecido, porque escolheu o cliente errado. E fiquei pensando na estratégia dele e nas diversas formas dos outros 'vendedores' dissimulados. Nos dias de romarias, esses aproveitadores fazem a sua festa particular.

Nesse contexto, meus amigos, eu vejo também com muita preocupação os casos dos 'padres-cantores', gravadores de discos e apresentadores de shows religiosos. De um lado, eles realizam uma forma de evangelizar, aproveitando-se dos meios audiovisuais. Mas junto com isso, tem o lado inevitável dos produtos que eles 'divulgam', inclusive CD e DVD, cobrando dinheiro para fazer apresentações, negociando retransmissão de programas em emissoras de rádio, etc. Por mais que eles declarem o propósito favorável do empreendimento, fica difícil estabelecer uma linha divisória entre a devoção e o mercantilismo. E assim, a idolatria tão rejeitada por Javeh desde tempos imemoriais continua infiltrada, de modo mais ou menos disfarçado, entre as pessoas e os ambientes religiosos.

Por isso, escrevi acima que a grande preocupação de Javeh, ao proibir a confecção das imagens, não era pelas figuras em si, mas pela idolatria que elas poderiam gerar. Ocorre que, com ou sem a presença das imagens, o que preocupa Javeh é a substituição dEle pelos ídolos, sejam eles em qual figura se expressem. Daí eu ter afirmado acima que o comércio religioso é, ao meu ver, o grande ídolo da religiosidade contemporânea. E nesse ponto, vemos que católicos e não católicos estão numa mesma situação, com certa hegemonia de algumas organizações evangélicas, que não se preocupam em disfarçar o seu verdadeiro objetivo. E o nosso povo simples, ingenuamente e embotado pela mentalidade cultural criada pela catequese histórica no nosso meio, considera isso a coisa mais natural do mundo.

Estejamos atentos para não sermos cooptados por essa sutil e penetrante idolatria contemporânea.

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA QUARESMA – DIVES IN MISERICORDIA (RICO EM MISERICÓRDIA) – 18.03.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA QUARESMA – DIVES IN MISERICORDIA (RICO EM MISERICÓRDIA) – 18.03.2012

A liturgia do 4º domingo da quaresma traz como tema das leituras o conhecido mote paulino “dives in misericórdia” = o Senhor é rico em misericórdia.

Vemos, na primeira leitura retirada do livro de Paralipômenos ou Crônicas, que o povo todo (tanto os chefes como os subordinados) foi infiel a Javeh e O substituiu pelos ídolos das nações pagãs, profanando o sagrado templo, por isso, o castigo foi também tremendo: aqueles que não foram mortos à espada pelo exército de Nabucodonosor, foram levados cativos para a Babilônia. Aparece novamente aqui a temática da idolatria, que foi comentada do domingo anterior, e desta vez fica mais clara ainda que a ira de Javeh não é propriamente quanto à confecção de esculturas ou imagens, mas sim com o fato de que o povo passa a adorar essas imagens, em vez de adorar o próprio Javeh. Daí a proibição de fazer qualquer escultura, por causa do risco de que sejam transformadas em objeto de adoração e assim o povo venha a se afastar de Javeh e voltar-se para as esculturas que eles mesmos fizeram. Mas este tema é tratado apenas 'en passant', porque já foi abordado antes. Aqui o foco se desloca para a misericórdia divina com o povo, mesmo tendo sido ele infiel e idólatra.

Nesse contexto do cativeiro da Babilônia compreendemos todo o livro de Isaías, pois foi através deste profeta que Javeh fez a catequese do povo no sentido de que eles entendessem que o cativeiro era fruto da infidelidade, mas que o Senhor estava sempre pronto a perdoar, esquecer tudo e devolver a liberdade deles, assim que eles O reconhecessem como seu Deus e se voltassem para ele. E, por fim, Isaias mostrou a povo que Javeh se utilizou da força do exército de Ciro, rei dos Persas, para vencer o dominador babilônico e restituir a liberdade aos hebreus. É o que se contém em Isaías 44, 29: “ASSIM diz o SENHOR ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações diante de sua face, e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas ”. E na leitura deste domingo, nas Crônicas, vemos que o rei Ciro, da Pérsia, baixou um Edito que ele mandou publicar de viva voz e afixar em todo o reino, confirmando a promessa de Javeh: 'Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra, e encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, que está no país de Judá. Quem dentre vós todos, pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho'. (II Cro 36, 23) Foi a concretização da tão sonhada liberdade do povo hebreu. No salmo responsorial desta primeira leitura, o salmista repete as palavras sofridas do povo enquanto se encontrava cativo: “junto aos rios da Babilônia nos sentávamos e chorávamos, lembrando de Sião; nos salgueiros das suas margens, pendurávamos nossas cítaras.” (Salmo 136, 1). Após o Edito de Ciro, certamente eles foram buscar suas cítaras e saíram correndo em busca de Jerusalém. Então, vemos aqui o tema principal da leitura: o Senhor é rico em misericórdia. Apesar de todas as infidelidades praticadas pelo povo, mesmo tendo ficado irado com isso e aplicado severo castigo, o Senhor relevou tudo e perdoou o seu povo, que ouviu a voz do profeta e voltou para Ele.

Este tema está contido também na segunda leitura, de Paulo aos Efésios, quando ele afirma: “Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos! ” (Ef 2, 4) Neste outro momento da história do povo de Deus, a misericórdia divina se manifestou em sua forma mais plena na pessoa de Cristo, em cuja ressurreição, o Pai nos ressuscitou a todos e nos garantiu um assento no céu. Nesta leitura, temos também uma afirmação paulina, que é motivo de divergência entre os teólogos, em relação àquilo que é necessário para a salvação. No cap 2, vers 8, Paulo diz que “é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! Não vem das obras, para que ninguém se orgulhe. ” Ora, meus amigos, o que Paulo está dizendo? Que a fé é uma graça que Deus nos dá e, com ela, faremos boas obras e teremos acesso à salvação, ou seja, tudo se inicia com a graça. Santo Agostinho gastou muito tempo meditando para tentar entender como isso acontece, tendo em vista que Deus fez o ser humano dotado de liberdade. Então, se Deus nos deu ao homem o livre arbítrio e depois vem dar a sua graça, isso fica parecendo uma contradição, pois se o homem, usando do livre arbítrio que Deus lhe dá, não quiser receber a graça, mesmo assim a receberá? Ou seja, a graça é uma imposição divina para nós, o que afronta a liberdade humana, dada pelo mesmo Deus. É como se Deus estivesse sendo incoerente, o que é inadmissível para a pessoa divina. Como é que ele dá liberdade ao homem e, ao mesmo tempo, o obriga a receber a graça? De acordo com Paulo, sem a graça que Deus nos dá, não teríamos a fé e sem a fé não teríamos a salvação. Portanto, é pela graça de Deus que temos a salvação. Mas se o homem não quiser se salvar, como fica? Ele é ou não livre para aceitar a graça que Deus lhe dá? Santo Agostinho chegou até a pensar que haveria uma predestinação, ou seja, alguns homens já estariam condenados desde o nascimento, pois Deus já sabia que esses não iriam corresponder à sua graça. Depois, o próprio Agostinho rejeitou essa explicação, porque isso equivaleria a dizer que Deus é injusto, o que também é inadmissível para a pessoa divina. Por fim, Santo Agostinho não encontrou uma explicação satisfatória. Depois, Sto Tomás veio dizer que a graça não interfere na liberdade, porque o homem é livre na medida em que está aberto à graça divina, pois a graça é aquilo que a mais realiza a liberdade humana. Eu confesso a vocês que, nos meus estudos de teologia, esse foi um assunto que não me deixou satisfeito com nenhuma das doutrinas. Para mim, continua uma incógnita o modo de explicar racionalmente como se dá esse confronto entre liberdade e graça. Talvez não haja uma forma racional de explicar isso.

Na leitura do evangelho de João, vemos o diálogo de Cristo com Nicodemos. Este, assim como José de Arimatéia, eram fariseus que reconheciam em Cristo o Messias, mas não assumiam isso em público, com medo da represália dos membros do seu grupo. Tanto que Nicodemos só se encontrava com Cristo em ambiente reservado, para conversar a sós. E Cristo então tinha toda paciência para explicar a ele respondendo as suas dúvidas e mostrando que os fariseus estavam sendo irracionais em não aceitá-lo como Messias, demonstrando que Ele tinha vindo como enviado do Pai: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. ” Em outras palavras, Cristo estava mandando um recado aos fariseus através de Nicodemos. Vejam, eu vou ser elevado do solo assim como Moisés fez com a serpente no deserto, para salvação do povo. (Jo 3, 16) Cristo é Ele mesmo a própria misericórdia divina em pessoa e quem não acreditar nisso, já está condenado. Observem bem, Cristo não disse que Deus condena quem não acredita nele (Cristo), disse que quem não acreditasse estaria se autocondenando. A lei estava ali, na pessoa dEle e o julgamento já estava proclamado: “o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz.” Deus é rico em misericórdia, mas do mesmo modo como entregou o povo para ser escravo, no tempo de Nabucodonosor, porque eles insistiam em não reconhecê-lO como o seu Deus, do mesmo modo aqueles que não reconhecessem o Filho Unigênito, misericórdia divina em pessoa, também seriam atirados num tremendo castigo.

Portanto, meus amigos, a riqueza misericordiosa de Deus tem um limite que não está nEle, mas em nós, isto é, a misericórdia divina é sem limite mas se nós não O aceitarmos, o problema não está com Ele, mas conosco. Deus não condena ninguém, ao contrário, ele está sempre pronto a perdoar e esquecer, como fez com o seu povo muitas vezes infiel. Quem se condena é o próprio pecador, quando não reconhece o dom misericordioso de Deus que Ele está constantemente a nos ofertar.

Que Deus nos ilumine para termos sempre a mente aberta e o livre arbítrio orientado para a sua divina graça, para que assim a nossa fé esteja sempre acima de qualquer tribulação.