sábado, 28 de fevereiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 2 DOMINGO DA QUAESMA - 01.03.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA QUARESMA – A LEI E OS PROFETAS – 01.03.2026


Caros Confrades,

Neste 2º domingo da quaresma, a liturgia nos traz a narração da transfiguração de Cristo perante três dos seus apóstolos. Após abordar a temática das “tentações” de Cristo, no domingo passado, a liturgia agora faz uma antecipada demonstração da sua futura glória. A promessa de Javeh a Abrão, dizendo que a sua descendência seria abençoada e preencheria toda a terra, está na origem de toda a tradição judaico-cristã, que tem seu ponto culminante na pessoa de Jesus Cristo. E nesse tempo de penitência, recordamos a recomendação de Paulo a Timóteo, para que cada um suporte os sofrimentos decorrentes da pregação do evangelho, tal como ele (Paulo) também está sofrendo como prisioneiro dos romanos.


Na primeira leitura de hoje, lemos o desafio que Javeh lança a Abrão: sai de tua terra e vai para o lugar que eu vou te indicar; farei de ti um grande povo e em ti abençoarei todas as famílias da terra. (Gn 12, 2) De acordo com os estudos de hebraico bíblico, que fiz no Instituto Bíblico de Israel, o nome do livro, que nós chamamos Gênesis, no idioma original se diz Bereshit e significa “no início”, ou “no princípio”. O nome Gênesis foi atribuído na tradução grega deste livro e lembra logo a ideia de criação do mundo. No entanto, verificamos que a narração da criação ocupa apenas os dois primeiros capítulos. A partir do cap. 3, inicia-se a história de Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, os primeiros povos até chegar ao personagem Abraão, no cap. 11. A leitura deste domingo, do cap. 12, narra os primórdios da aliança de Javeh com o povo hebreu, através do patriarca Abrão. Conclui-se que o título 'gênesis' não tem muita relação com o conteúdo da maior parte dos 50 capítulos deste livro, sendo o nome Princípio ou Início muito mais adequado. O objetivo do autor sagrado, neste escrito, foi mostrar o início do povo de Deus, a origem da aliança de Javeh com os patriarcas, não propriamente a criação do mundo. Daí a importância de se conhecer as línguas antigas, a fim de compreender melhor os textos da escritura, o que não se percebe quando se depende apenas de traduções. Diz o autor de Bereshit que Abrão partiu para uma terra distante e fez conforme o Senhor havia dito.


O autor sagrado quer destacar, nesse contexto, duas coisas: em primeiro lugar, a fé inabalável do seu patriarca Abrão, cujo nome foi depois mudado para Abraão. Ele não sabia para onde iria, porque Javeh deveria indicar isso quando já estivesse a caminho, mas assim mesmo, com toda a confiança, ele deixou o seu lugar natal (Ur, na Caldeia) e foi, com toda a sua família, seus escravos, seus rebanhos e seus bens, pois era um homem rico, seguindo as ordens de Javeh. Em segundo lugar, essas narrativas também serviam para explicar ao povo hebreu, descendente dos patriarcas, o motivo de serem eles um povo nômade. Ainda hoje, no território que atravessa o deserto do Saara, há os povos nômades. O hagiógrafo do Bereshit quer justificar para o povo que o nomadismo faz parte de uma missão, de uma promessa, de um trato realizado por seus ancestrais, por isso eles não se fixam em nenhum território. A ligação desse texto com o evangelho do dia (narrativa da transfiguração de Jesus) está na referência de ser Cristo o ponto culminante daquela primitiva aliança, o cumprimento perfeito da promessa feita por Javeh aos primeiros patriarcas.


Na segunda leitura, Paulo exorta seu discípulo Timóteo e lhe recomenda sofrer com paciência as agruras decorrentes da pregação do Evangelho. Timóteo fora colocado por Paulo como dirigente da comunidade que ele (Paulo) criou em Éfeso e, por extensão, dirigente das comunidades de toda a Ásia Menor, região que hoje corresponde à Turquia. Paulo estava preso e era levado para Roma, a fim de ser julgado pelo imperador, tendo deixado com Timóteo a árdua missão de ser o continuador do trabalho dele, pois Paulo sabia que não mais retornaria ali. Naquela ocasião, Timóteo enfrentava um sério problema com os judeus adversários de Paulo, que haviam sido responsáveis pela sua prisão. E não eram apenas perseguições ideológicas, mas incluía também ameaças físicas. Paulo tomou conhecimento desses fatos e, através de carta dirigida a Timóteo, exorta-o a perseverar na fé assim como ele, Paulo, também estava preso por causa do evangelho, mas confiava na promessa de Cristo que, ao vencer a morte, trouxe a imortalidade para os seus seguidores. “A graça de Deus nos foi dada por Jesus Cristo para toda a eternidade.” A tenacidade de Paulo, de Timóteo, de Tito e dos primeiros líderes cristãos daquelas comunidades foi altamente importante para a continuidade do cristianismo, o que possibilitou seu avanço até os dias de hoje.


Na leitura do evangelho de Mateus (17, 1-9), temos a narração da transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João. Primeiramente, podemos refletir sobre a escolha desses três, isto é, por que Jesus não se transfigurou diante de todos os apóstolos? Certamente, eram esses três os que mereciam sua maior confiança. Pedro já estava escolhido para ser o líder do grupo e Jesus o preparava para essa missão. João era o discípulo mais jovem, aquele em que Jesus depositava total confiança. Quanto a Tiago, havia dois discípulos com esse nome. O evangelista Mateus diz que quem estava no trio era o Tiago (maior) filho de Zebedeu, irmão de João, porém os outros dois evangelhos sinóticos (Marcos 9, 2 e Lucas 9, 28) não afirmam se era este mesmo ou o outro Tiago (menor) filho de Alfeu. Este último é considerado, por algumas tradições, como 'irmão” de Jesus, deixando assim uma dúvida sobre a identidade do terceiro discípulo a presenciar aquele extraordinário fenômeno. Se levarmos em consideração o grau de parentesco, podemos supor que o Tiago referido na narração da transfiguração seja o outro, o irmão de Jesus, não o irmão de João.


Importa explicar aqui nesse contexto o significado de “irmão”, pois isso é motivo de polêmicas entre algumas igrejas cristãs. Com efeito, a palavra grega “adelphos”, que se traduz geralmente por irmão, também significava primo, meio-irmão, irmão de criação, ou seja, um parentesco bastante próximo, não necessariamente irmão consanguíneo, filho do mesmo pai e da mesma mãe. Sou levado a crer que o Tiago do trio que presenciou a configuração poderia ser este Tiago Adelphos, o menor, e não o filho de Zebedeu, irmão de João. Isso entra em choque com o texto de Mateus, mas os motivos que acima destaquei me levam a sustentar a segunda hipótese, com todo o respeito. Trata-se de uma questão polêmica, sem dúvida, mas não se deve interpretar o texto bíblico de forma puramente literal, e sim buscando elementos circunstanciais que auxiliem a uma compreensão mais ampla. Devemos considerar que, durante séculos, esses textos passaram pelas mãos de vários copistas e não se descarta a eventual possibilidade de ter havido pequenas alterações ou adaptações do texto primitivo, involuntárias ou voluntárias.


Um outro ponto a se destacar no texto da narração da transfiguração é a metamorfose de Jesus ante a presença de dois personagens da tradição hebraica: Moisés e Elias. Eles representam, respectivamente, a Lei e os Profetas. Diz o narrador que a face de Jesus ficou resplendente igual ao sol e as suas roupas brancas brilhantes como a luz. Os biblistas também comentam que a aparição de Moisés e Elias junto de Jesus tem uma particularidade: esses dois personagens “não morreram”, sinalizando de modo indireto para a ressurreição de Jesus. Sobre Elias, a Bíblia relata que ele foi arrebatado num carro de fogo (vide 2Rs 2, 10). Sobre Moisés, o fato de nunca haver sido localizado o seu túmulo, fez surgir uma tradição afirmando que ele não foi sepultado, porque não morreu, mas Javeh o levou diretamente para o céu. Quando Jesus exorta dos apóstolos a não contarem a ninguém o que tinham presenciado, deixando para revelar somente após a sua ressurreição, fica muito sugestiva a presença desses dois líderes naquele contexto, porque eles não teriam experimentado a morte.


Na sua transfiguração, Jesus quis provar aos seus discípulos duas verdades que ele vinha pregando há muito tempo: primeiro, a sua origem divina, a sua verdadeira feição gloriosa; segundo, que os seus ensinamentos não são contrários à lei mosaica, como muitas vezes os fariseus o acusavam, mas ao contrário, o fato de Ele se apresentar ao lado de Moisés e de Elias, dialogando com eles, queria significar que havia pleno entendimento entre os respectivos ensinamentos. Os discípulos eram judeus e, certamente, também podiam ter ainda dúvidas dessas duas verdades. Afinal, o judaísmo farisaico interpretava a lei de uma forma tão própria e exclusiva que, à primeira vista, dava a impressão que o ensinamento de Jesus estava contrariando a sua tradição. Com aquela visão futurista, Jesus estava dando provas de que a sua doutrina era mesmo a continuidade daquilo que a tradição guardava como ensinamentos de Moisés e dos Profetas.


Para nós, a figura do Cristo transfigurado é um constante e eloquente apelo a que tenhamos sempre na mente o nosso destino glorioso, cuja antecipação Ele demonstrou naquele memorável cenário. Nossa missão é fazer com que Cristo se apresente através de nós, transfigurando-nos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 21 de fevereiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 1 DOMINGO DA QUARESMA - 22.02.2026

 

COMENTÁRIO LITURGICO – 1º DOMINGO DA QUARESMA – ORIGEM E SIMBOLISMO DO PECADO – 22.02.2026


Caros Confrades,


A liturgia deste 1º domingo da quaresma põe para nossa reflexão o tema da origem do pecado, através da narração bíblica da legendária árvore do bem e do mal, já tantas vezes utilizada como tema de criações artísticas e sempre motivo de polêmica entre os leitores bíblicos. Logo a seguir, apresenta um trecho de Paulo igualmente polêmico, no qual ele faz um trocadilho sobre a origem do pecado, remetendo o argumento à árvore do paraíso, e lembrando a “tentação” sofrida pela mulher. Na sequência, o evangelho de Mateus vai abordar outro tema controvertido acerca das “tentações” de Cristo. Trata-se de assuntos que precisam ser entendidos com clareza, para evitarem-se discussões inúteis e questionamentos insolúveis. Mais do que narrar um fato, as leituras bíblicas trazem para nossa consideração a simbologia do pecado, para destacar a força da graça divina, que é infinitamente superior.


Na primeira leitura (Gen 2, 7 – 3, 7), temos aquela conhecida história sobre o “fruto proibido”, que teria sido ingerido por Eva e Adão, por influência da serpente. Como já inúmeras vezes tive ocasião de comentar, não se pode realizar interpretação literal dessa legenda, pois ela é simbólica e pedagógica. O seu objetivo é mostrar que a origem do pecado está, em primeiro lugar, na soberba humana de querer igualar-se a Deus e, em segundo lugar, na ousadia da desobediência. Sabe-se muito bem que serpente não fala e nunca falou, além do que a narrativa explora o aspecto da curiosidade feminina, envolvendo a ação da mulher na origem do pecado, fato que se transformou nessa, ainda hoje presente, discriminação sócio-religiosa contra a mulher, persistente e resistente, apesar de todo o empenho do movimento feminista mundial. Nem mesmo a inclusão de dispositivos nas leis e na constituição acerca da igualdade dos gêneros consegue força para superar tão arraigado preconceito. As matrizes da cultura hebraica, associadas e reforçadas pela mentalidade greco-romana antiga, colocam raízes demasiado profundas neste comportamento masculino (machismo), que consegue sobreviver a todas as tentativas de extirpá-lo. Essa simbologia do pecado, escondida nos meandros mais obscuros do inconsciente coletivo, tem uma força de regeneração extremamente poderosa.


Podemos observar uma explicação didática da simbologia do pecado no trecho paulino da Carta aos Romanos (5, 12-19). Foi muito importante a adesão da elite romana ao cristianismo primitivo, fruto do apostolado de Paulo, motivo pelo qual ele procurou explicar muito claramente esse tema complexo e difícil para seu público romano constituído, em grande parte, de pessoas instruídas na cultura grega. Paulo era um judeu fervoroso, ortodoxo, então ele conhecia bem a Torah e os seus ensinamentos, inclusive a história do jardim do paraíso, o Éden. Utilizando-se de seus conhecimentos da cultura grega, ele compôs um raciocínio lógico bastante criativo, fazendo uma espécie de trocadilho paralelo entre a história da árvore do bem e do mal e a redenção operada por Cristo, ao contrapor o pecado e a graça personificados, nas figuras de Adão (o pecado) e de Cristo (a graça). “Como a falta de um só acarretou condenação para todos os homens, assim o ato de justiça de um só trouxe, para todos os homens, a justificação que dá a vida. ” (Rm 5, 18). Pela culpa de Adão, o pecado entrou no mundo; pela ação redentora de Cristo, a graça venceu o pecado. Por um homem (Adão), veio o pecado; por um homem (Cristo), veio a graça. Paulo nem precisou fazer referência à participação de Eva no episódio da origem do pecado, talvez até propositalmente omitiu isso, para não complicar ainda mais a situação social das mulheres em Roma, pois elas já eram postas em segundo plano na sociedade romana. Esse texto de Paulo, não obstante o seu didatismo, trouxe enormes dificuldades teológicas para a sua interpretação, sendo ainda hoje motivo de inquietação por parte de teólogos, que não conseguem ultrapassar a barreira estrita da literalidade. Com certeza, Paulo não tencionava defender uma “tese científica” sobre a origem da humanidade, mas apenas construir um argumento teológico servindo-se da lógica filosófica grega, muito conceituada entre os romanos, para demonstrar que o cristianismo era uma religião compatível com a filosofia grega. A sua tese de “por um só homem” tem gerado memoráveis polêmicas quando confrontada com as teorias da evolução das espécies, opondo de forma desnecessária a Bíblia e a ciência. Sem adentrar nos detalhes dessa problemática, eu sustento o entendimento teológico de que o pecado se origina da própria natureza humana imperfeita e, nessa linha de pensamento, a graça que Cristo veio nos trazer com a sua encarnação não configura um “restabelecimento” ou retorno a uma situação anteriormente vivida no paraíso bíblico e que fora perdida por causa das ações mal sucedidas dos antepassados, mas se trata de uma situação futura, dentro do processo de aperfeiçoamento contínuo da própria criação divina.


Portanto, nessa nova linha de raciocínio, não teríamos uma sequência do tipo: graça original→ pecado original→ nova graça cristã, mas apenas natureza humana originalmente imperfeita (e por isso passível de ser atingida pelo pecado) e natureza humana socorrida pela graça divina trazida por Cristo, com a qual o ser humano tem a ajuda suficiente para superar as imperfeições naturais e se plenificar cada vez mais. Ao desenvolver-se, por via de consequência, o ser humano leva para toda a criação esse processo evolutivo. Aí, sim, vale a observação de Paulo em Romanos 5, 20: “onde abundou o pecado, superabundou a graça.” Esse trecho, que não está incluído na leitura deste domingo, é exatamente o versículo seguinte de onde termina o texto lido na liturgia.


A leitura do evangelho de Mateus 4, 1-11 traz a narração das “tentações” de Jesus no deserto, onde ele jejuou durante 40 dias. Vale recordar nesse contexto a simbologia do número 40. Dentro do contexto bíblico, o número 40 aparece sempre antecedendo um fato muito importante, não significa uma contagem matemática de 40 dias, mas do tempo oportuno para o poder de Deus se manifestar através de alguma obra grandiosa. Por sua vez, as tentações de Jesus representam os 'perigos' que a sua natureza divina poderia representar em situações de extrema pressão psicológica, como ser humano que era. Para cumprir os desígnios do Pai e para cumprir o plano salvífico, Jesus precisava passar por todo aquele padecimento enquanto pessoa humana. De fato, nós sabemos que Jesus enfrentou diversos desafios, que para Ele teriam sido facilmente resolvidos se usasse o poder divino, mas ele não podia fazer assim. As chamadas “tentações” foram, na verdade, uma espécie de treinamento psicológico que ele realizou consigo mesmo para comportar-se plenamente conforme a natureza humana.


Então, quais foram mesmo as grandes 'tentações' de Jesus? 1. Transforma essas pedras em pão... tentação do poder; 2. Eu te darei todos os reinos... tentação da riqueza; 3. Joga-te daqui para baixo... tentação do orgulho/vaidade. Quantas vezes, os fariseus tentaram Jesus para que Ele realizasse um “milagrezinho” na presença deles. Herodes foi um que disse na cara de Jesus: “você é uma piada”, porque insistiu pra Jesus atravessar a piscina dele andando sobre a água (cf Lucas 9, 7 e 23, 6), e Jesus não fez. Portanto, se quisermos encontrar a figura de satanás tentando Jesus, não busquemos essa no deserto, onde ele jejuou, mas nos diversos fariseus seus inimigos, que o tentaram em vão. O próprio Judas, que certamente vira Jesus fazer vários milagres, não conseguia acreditar que Ele fosse suportar todas aquelas humilhações impostas pelos chefes dos sacerdotes e iria 'dar a volta por cima', até pagou pra ver, mas perdeu a aposta. Desculpem-me, meus amigos, talvez alguns não concordem com o que vou escrever, mas muitas vezes, a figura de satanás é utilizada para encobrir nossas próprias fraquezas e nossa personalidade imperfeita. As grandes tentações que nos afetam não nos vêm de um “agente exterior”, mas da nossa “trindade” psíquica: id, ego e superego (tomando emprestada a terminologia de Freud), que são as verdadeiras “donas” da nossa personalidade em estado natural.


Meus amigos, veio-me a lembrança agora uma frase emblemática do filósofo austríaco Edmund Husserl, que insistia sempre: “voltemos às coisas mesmas”. Este apelo de Husserl corresponde ao início da filosofia fenomenológica, por ele defendida, instruindo-nos a reconhecer e valorizar as nossas próprias percepções e não procurarmos a todo custo racionalizar os acontecimentos, buscar explicações lógicas e racionais para tudo, através da generalização conceitual abstrata. Trago esta frase para este contexto pela mensagem que ela encerra. Encaremos de frente o nosso próprio ser, sem ocultações ou subterfúgios. Voltemo-nos para nós mesmos e tenhamos coragem de assumir nossas fraquezas, deixemos de culpar o demônio pelos males que fazemos, pois somente assim estaremos criando condições de superar a nós mesmos. A literatura transformou essa autoanálise na tentação e na figura do tentador. Mas nós devemos ir além dessa metáfora tradicional. Se sairmos disso, seremos capazes de reciclar também a nossa noção de pecado.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 14 de fevereiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 6º DOMINGO COMUM - 15.02.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 6º DOMINGO COMUM – A LEI E A JUSTIÇA – 15.02.2026


Caros Confrades,


Na liturgia deste 6º domingo comum, Jesus ensina a diferença entre cumprir a lei e fazer a justiça. Primeiro, Jesus diz que nenhuma palavra e nenhuma vírgula será retirada da lei antes que tudo seja cumprido. Depois, ele explica como se faz para cumprir a lei com sabedoria, sem apego a formalismos, fundamentalismos e sem o exagero das palavras. E adverte: se a vossa justiça não for maior do que a dos fariseus e mestres da lei, é porque ainda não compreendestes o autêntico sentido da lei, cujo significado vai além do que está escrito.


Na primeira leitura, do livro do Eclesiástico (Eclo 15, 16-21), o autor sagrado faz a relação entre a observância da lei e a longevidade do fiel. “Se observares os mandamentos, eles te guardarão.” Diante de nós, estão colocados o bem e o mal, a vida e a morte, cabe a cada um escolher. Obviamente, quem escolhe o bem está escolhendo viver; quem escolhe o mal está escolhendo morrer. Sobre isso, Deus não interferirá, pois ele deu a liberdade ao ser humano para que ele próprio determine os rumos de sua ação. No entanto, o resultado das nossas escolhas já pode ser previamente conhecido. Os olhos do Senhor só se voltam para os que o temem, a ninguém Ele deu licença para pecar. Pecar é fazer a opção pelo mal, pela natureza humana perversa e enganosa, pelo egoísmo e pela falta da caridade. Quem pensa estar se resguardando para si mesmo e não tem abertura para os irmãos se engana, porque quem escolhe fazer o mal não terá a garantia da vida, que é dada somente para os que observam os mandamentos.


Na segunda leitura, o apóstolo Paulo explica à comunidade de Corinto (1Cor 2, 6-10) a diferença entre a sabedoria dos homens e a sabedoria divina. Esta é misteriosa e Deus só a revela para os que lhe são caros. O poder mundano e o prestígio que lhe está associado nunca alcançarão tal sabedoria misteriosa. A nós, porém, Deus revelou esse mistério pelo Espírito, através dos ensinamentos de Cristo. Agir com sabedoria, portanto, é agir de acordo com os ideais cristãos, é ser um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo. Essa sabedoria misteriosa é algo que nenhum olho jamais viu, nenhum ouvido jamais ouviu, nenhum coração jamais pressentiu. Por que é assim? Porque ela só é alcançada por intermédio da fé. Somente os olhos e os ouvidos da fé alcançarão o elevado patamar onde essa sabedoria se encontra.


No evangelho de Mateus (Mt 5, 17-37), num trecho bastante longo, que é considerado uma extensão do Sermão da Montanha, Jesus explica bem detalhadamente como se deve cumprir a lei com sabedoria. Primeiramente, Ele esclarece que não veio revogar a lei ou os profetas, mas veio mostrar como a lei deve ser cumprida por inteiro, sem o exagero dos formalismos, e não apenas da boca para fora. Logo depois, ele faz uma afirmação surpreendente: quem descumprir algum dos mandamentos, por menor que seja, terá no reino dos céus um lugarzinho insignificante, lá atrás daqueles que cumpriram tudo. É curioso observar que Cristo não disse: quem descumprir a lei irá para o inferno, como costumava fazer a pedagogia catequética tradicional. No entanto, continua Ele, se a vossa justiça não for superior à dos mestres da lei e dos fariseus, aí sim, vocês não entrarão no reino dos céus. Qual a diferença que se observa nessas duas advertências? É porque os fariseus e mestres da lei cumpriam os mandamentos de forma incorreta, de modo puramente literal, exagerando no rigor das palavras, aquela maneira de entender a lei que a doutrina chama de “fundamentalismo”. Deus não é um fanático ou um burocrata, que se preocupa muito mais com o formalismo do que com a consciência. Deus quer que nós cumpramos a lei usando de sabedoria, não como os fariseus o faziam, preocupando-se tanto com os detalhes e com as atitudes exteriores que terminavam por descumprir o essencial. Então, Cristo vai tirar três exemplos da lei e mostrar como é o cumprimento da lei de acordo com a verdadeira justiça.


Exemplo 1. “Ouviste o que foi dito aos antigos: não matarás. Quem matar, será condenado pelo tribunal.” (Mt 5, 21). Os fariseus interpretavam essa norma no seu sentido puramente literal de matar ser igual a tirar a vida física de outrem. Então, Jesus vai dizer que “matar” não é apenas eliminar uma pessoa, mas intrigar-se com o irmão ou deixar de praticar a caridade também equivale a matá-lo. Dizer palavrão com o irmão é o mesmo que matá-lo. Ficar com raiva do irmão é outra forma de matá-lo. E para explicar ainda mais esse novo sentido de “matar”, ele diz: se você estiver diante do altar para fazer a sua oferenda e se lembrar que tem alguma desavença com alguém, não faça a oferta, vai primeiro resolver esse problema. Não adianta fazer a oferenda exteriormente, enquanto o coração está fechado para o irmão. Isso faz lembrar uma homilia famosa do Papa Francisco, no ano 2020, que foi destacada na imprensa: “não saiam da missa fofocando dos irmãos. Quem vai à igreja e sai fofocando depois, é melhor não ir.” Vejam que interessante, o Papa estava repetindo o mesmo ensinamento de Cristo, atualizando para a linguagem do nosso tempo. Fofocar é uma nova forma de “matar” o irmão. Essa atitude destrói a oração que ele/ela fez, ou melhor dizendo, invalida tudo. Quem vai à igreja sem estar disposto a entrar no clima da oração, a encontrar-se com Deus e com irmãos, então é melhor que não vá. Eu nunca tinha visto um Papa, um bispo, um sacerdote dar um conselho assim. A pedagogia tradicional sempre ensinava ameaçando: se não for à missa, cometerá pecado mortal e irá pro inferno. Obviamente, o Papa não estava dizendo que as pessoas não deviam ir à igreja, mas que os cristãos não devem fofocar, senão a missa assistida perde o valor. Além de ser falta de caridade, produz um mau exemplo para a comunidade. Está descumprindo a lei e ainda levando outras pessoas a descumprirem também.


Exemplo 2. “Também foi dito que não se deve cometer adultério.” Os fariseus pensavam que adulterar era apenas ter um intercurso sexual com uma mulher casada. Jesus vem então explicar que não é só isso, mas se alguém tiver apenas o desejo de possuir uma pessoa casada, já cometeu adultério. E esse desejo não significa apenas o instinto sexual, mas qualquer forma de demonstrar inveja por algo que o irmão ou irmã possui e a pessoa invejosa fica desejando. Não esqueçamos que, na época de Cristo, a mulher era um dos pertences do marido, assim como os rebanhos, as propriedades, os escravos, os bens materiais em geral. Nesse contexto, “desejar a mulher do próximo” correspondia a querer apropriar-se de um objeto dele. Portanto, devemos entender a ordem de “não cometer adultério” como qualquer cobiça sobre os bens do irmão, inveja da posição que ele tem, do prestígio de que desfruta, das amizades que o rodeiam, da personalidade que a pessoa tem. Cometer adultério vai muito além da esfera da sexualidade para alcançar todos os desejos que sejam frutos da cobiça, da inveja, da maldade, do egoísmo, da vontade de dominar, da busca incontrolada pela posse de bens materiais.


Exemplo 3. “Também vocês ouviram dizer para não fazerem juramentos falsos.” Os fariseus achavam que isso se referia apenas às manifestações exteriores de afirmações ou negações. Eram tão exagerados nesse entendimento que nunca pronunciavam o nome de Javé, por receio de pronunciá-lo em vão. Tanto assim que, atualmente, não se sabe mais como era a pronúncia original dessa palavra, que ficou perdida pelo continuado desuso. Pois bem, diz Jesus, eu digo que vocês não devem jurar é de jeito nenhum. Por que havia o costume de fazer juramentos? Porque não se podia acreditar na palavra das pessoas. Então, se alguém jurasse invocando os céus ou os altares ou um lugar sagrado, então as outras pessoas acreditariam, porque a pessoa estaria se expondo a um castigo divino, caso mentisse. Visto que nada de mau havia recaído sobre o jurador, então isso confirmava a veracidade das afirmações. Ora, é claro que esse apelo a algo sagrado não dava nenhuma garantia da verdade das afirmações, porque as pessoas podiam continuar a mentir e ninguém mais contestava, ou seja, o juramento não passava de mais uma formalidade exterior. Então, Jesus ensinou: não precisa vocês jurarem, basta falarem a verdade sempre. Se o seu “sim” ou “não” forem sempre verdadeiros, as pessoas acreditarão pela credibilidade da sua pessoa, não pelos santos ou lugares sagrados que acaso forem invocados.


Vemos, nesses exemplos que o próprio Cristo escolheu, o que significa cumprir fielmente a lei, cumprir a lei com sabedoria fazendo justiça. É curioso observarmos que, apesar do ensinamento de Cristo, apesar da sua rejeição ao formalismo das normas, nós ainda constatamos, atualmente, grupos de pessoas que se dizem cristãs, mas continuam apegadas aos formalismos, às regras canônicas, aos fundamentalismos exegéticos, à escravidão das palavras, esquecendo a lição que Cristo nos deixou, de forma tão clara e com tanta perfeição didática. Quando Ele disse que nenhuma letra ou vírgula seria retirada da lei, antes que tudo fosse cumprido, ele se referia a Si próprio, ao que as escrituras predisseram acerca d'Ele. Ele se referia à lei de Moisés, à lei antiga, os evangelhos não existiam ainda. Naturalmente, a mesma sabedoria que Ele demonstrou que deve ser adotada na interpretação da lei antiga também será adotada para a compreensão da nova lei. Ele não nos fez escravos das palavras, mas nos ensinou a buscarmos constantemente o espírito delas.

Que nós saibamos sempre ler, compreender e cumprir com sabedoria os seus mandamentos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 7 de fevereiro de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 5º DOMINGO COMUM - 08.02.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO COMUM – A LUZ E O SAL – 08.02.2026


Caros Confrades,


Neste 5º domingo comum, a liturgia coloca para nossa reflexão a figura da luz, exemplificando com o brilho da autora, que ilumina a terra. A luz que brilha sobre nós, semelhante à aurora, é exatamente a luz da graça divina, que recebemos de Deus no nosso batismo e que deve permanecer viva e brilhante, de modo a iluminar os atos da nossa vida e, ao mesmo tempo, deve funcionar como guia para clarear sobre os irmãos, especialmente aqueles mais fracos na fé. O evangelho associa a figura da luz com outro elemento essencial para a nossa vida, que é o sal. Um e outro são metáforas dos compromissos que nós, batizados, assumimos como autênticos discípulos de Cristo e que somos convidados a proclamar e executar.


A teologia da revelação ensina que nós nascemos com a sombra do pecado original, uma falha da natureza humana, que não devemos atribuir ao Criador, que é perfeito, mas à nossa própria condição de incompletude, inerente à natureza humana, herdeiros que somos de Adão e Eva. Para extirpar essa sombra, que carregamos como uma consequência da fragilidade humana, Deus nos concede o remédio eficaz, que é a sua graça divina. Através da aspersão com a água batismal, nós somos purificados dessa mácula, todavia, essa purificação não funciona de modo automático, mas precisa ser renovada e reforçada com as nossas boas ações, o que só é possível quando nós abrimos nosso coração para, livremente, receber a graça e, em consequência, orientamos nossa vontade para que a graça atue em nós e produza seus divinos efeitos. A referência a Adão e Eva é uma linguagem simbólica, pela qual o escritor sagrado personifica de um modo genérico as duas figuras humanas típicas de homem e mulher, imperfeitos pela natureza, mas aperfeiçoados pela graça recebida do Criador. E o pecado original não deve ser identificado com aquela vetusta história da maçã, mas com a vulnerabilidade inerente à natureza humana, que nos impede de conseguirmos alcançar, sozinhos, a salvação. Para isso, todos nós dependemos essencialmente da graça e da misericórdia de Deus.


Na primeira leitura, o profeta Isaías exemplifica, de um modo bem didático, algumas ações humanas que representam aquilo que a teologia chama de “pecado original”: “Se destruíres teus instrumentos de opressão e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, … a tua vida obscura será como o meio-dia.” (Is 58, 9) Esses “instrumentos de opressão” são aquelas forças instintivas que nos impelem para o egoísmo, o autoritarismo e a inveja, ou seja, uma tendência inata para agir de forma injusta com os irmãos. Aquele que consegue superar essas imperfeições decorrentes da nossa natureza desviada, esse andará na luz, a sua vida será clara como o meio-dia. Diz ainda Isaías em 58, 7: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos, quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne [teu semelhante]. Então, brilhará tua luz como a aurora.” Lembremo-nos de que, na época do profeta, ainda não havia sido instituído o batismo da conversão, que somente surgiu com a pregação de João Batista séculos após. No entanto, Isaías já preconizava aquelas ações que seriam propostas pelo Batista para os que se preparavam para a chegada o Messias, aplainando os caminhos e capinando as veredas. E quando, tempos depois, Cristo instituiu o batismo sacramental, o batismo da salvação, os benefícios da graça batismal atuaram de modo pleno no tempo, incluindo presente, passado e futuro, de modo que os que viveram nos tempos antigos segundo a orientação do Profeta foram também alcançados pela graça da salvação. O sacrifício redentor de Cristo foi realizado num tempo histórico determinado, no entanto, os seus efeitos se estendem em plenitude para um tempo indeterminado (anterior e posterior), referendando todas as práticas de justiça que as pessoas efetivaram, como consequência de sua fé. Com sua morte e sua ressurreição, Cristo aspergiu seu sangue sobre todos, independentemente da época em que viverem ou viverão, alcançando a todos estes os benefícios decorrentes da consumação da antiga aliança de Javeh com o povo hebreu. A única condição para isso é a adesão que cada um deve fazer a esse “contrato” patriarcal, renovado e consolidado pela intervenção do Messias, cujo conteúdo é o compromisso batismal, e cuja assinatura é traçada pela água derramada em nossas cabeças.


Na segunda leitura, de Paulo aos Coríntios (1Cor 2, 1-5), o Apóstolo diz que foi àquela cidade para anunciar ao povo o “mistério de Deus”. Que mistério seria esse? O próprio Paulo responde: Jesus Cristo crucificado. E para esse anúncio, Paulo não usou discursos bonitos nem oratória erudita, mas apenas a linguagem comum, para que o conteúdo de sua pregação se destacasse, e não a sonoridade das palavras bonitas. Meus amigos, a palavra “mistério” nem sempre é bem compreendida. Ela significa aquilo que estava escondido e foi revelado. Paulo utiliza o termo para referir-se àquilo que antes era obscuro e incompreensível aos homens, mas que tornou-se claro e iluminado, pela força da luz de Cristo. Ele é a própria luz e é através dele que nós, seus discípulos, podemos iluminar o mundo. Pelos sacramentos, que Ele instituiu e nos deixou, sob a coordenação da comunidade eclesial, nós participamos da claridade que essa luz transmite. A partir do recebimento do batismo, abre-se para nós a porta de acesso aos demais sacramentos, isto é, aos diversos canais pelos quais Ele distribui a sua graça. Paulo fez isso na comunidade de Corinto e noutras cidades daquela região. Nos dias de hoje, a Igreja dá continuidade a essa tarefa de acolher os fiéis e conduzi-los ao ambiente onde essa graça continua a ser distribuída. Dentro da comunidade eclesial, a graça que recebemos deve ser potencializada para que, em nossa vida cotidiana fora do ambiente típico da sacralidade, as demais pessoas possam perceber a luminosidade do nosso ser através do nosso comportamento, do nosso modo de agir.


O evangelho de Mateus (Mt 5, 13-16) associa duas metáforas muito poderosas: a luz e o sal. Desde os tempos mais remotos, as pessoas compreenderam a importância do sal para a vida humana. Chegou ao ponto de que, em eras primitivas, o pagamento de trabalhos realizados pelos operários era feito não com dinheiro, mas com sal (donde vem o termo “salarium”). Os minerais trazidos pelo sal são essenciais para o nosso organismo, de modo que a vida humana se tornaria inviável sem o consumo de porções (moderadas) de sal. Do mesmo modo como a vida humana seria inviável sem a luz, assim também seria sem o sal. Atuando de modos diferentes, mas sempre em caráter indispensável, a luz e o sal são insumos que tornam possível a vida humana, seja individual, seja social. Daí porque Cristo utilizou muitas vezes essas figuras como recursos pedagógicos para a sua catequese.


Ora, diz Jesus, imaginem se o sal viesse a perder a sua funcionalidade básica, com o que iríamos salgar os alimentos? Nos dias de hoje, a indústria química já consegue produzir materiais alternativos que geram efeito similar ao sal para o preparo dos alimentos a pessoas que possuem certas doenças agravadas com a ingestão do sódio, componente principal do sal. Mas na época de Cristo, isso não existia e ele falava para o povo daquela época, do modo que fosse mais compreensível para eles. Um sal que não produzisse seus efeitos não serviria para mais nada. Quando muito, seria usado como pedrisco para pavimentar os caminhos. Com isso Jesus vem nos dizer que um cristão que não desenvolver em si a graça que recebeu com o batismo, é como se a graça recebida não produzisse os efeitos que deveria gerar, portanto, haverá um desperdício da graça, pois um tal cristão não seria capaz de “salgar” a sociedade com o seu exemplo e o seu testemunho. Meus amigos, essa é uma séria advertência para que cada um de nós avalie de que modo a graça que recebemos está ou não produzindo seus frutos na nossa vida, para que não estejamos nos arriscando a ser esbanjadores da graça divina. No caso, essa graça inócua em nós, além de não contribuir para que superemos as vicissitudes próprias da nossa natureza imperfeita, ainda nos tornará réus de uma acusação muito grave, qual seja, de sermos desperdiçadores desse valioso dom.


Numa consideração analógica com a luz, a graça divina deverá nos tornar iguais a grandes lamparinas em noite de apagão. Ninguém acende uma lucerna e a coloca debaixo de uma vasilha, pois assim ela não cumprirá a sua finalidade. A graça divina que recebemos não deve ficar restrita ao nosso ser, à nossa subjetividade, mas deve ser compartilhada com os irmãos. Colocar a luz escondida significa agir egoisticamente, usar a lamparina para clarear apenas o nosso próprio caminho. Não foi para isso que Jesus veio abrir para nós a porta da salvação. Ninguém se salva sozinho, a salvação se realiza na comunidade. Houve uma época em que a catequese pregava: “salva a tua alma”... hoje em dia esse discurso mudou completamente para “salva o teu irmão e assim tu também serás salvo”. Por isso é que a luz deve ser colocada num local elevado, a fim de clarear o caminho para muitos, a fim de chamar a atenção dos incautos, daqueles que se encontram envolvidos com as coisas mundanas, daqueles onde a graça está dormitando, a fim de incentivá-los a também se tornarem luminares eficazes e generosos. Manter a luz escondida é uma contradição com ela própria, cuja existência só se justifica se for um ponto de orientação para todos, assim como o farol orienta os que viajam pelo mar.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos