sábado, 27 de dezembro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA - 28.12.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – 28.12.2025


Caros amigos,


No domingo do que medeia entre o Natal e o Ano Novo, a liturgia celebra a festa da Sagrada Família de Nazaré, apresentando-a para as famílias cristãs como o modelo e o exemplo a ser seguido, encerrando assim o ano civil com um incentivo à reflexão sobre a situação das nossas famílias, local onde a humanidade se perpetua, não apenas no aspecto biológico, mas e principalmente, no aspecto cultural, social, valorativo, religioso, ético, atingindo a personalidade inteira das pessoas. Não é por outro motivo que vivemos em num mundo repleto de desajustes em todos os sentidos, ou seja, a falta de estrutura e segurança no ambiente familiar produz adultos insatisfeitos, imaturos, violentos, egoístas e despreparados para a vida, contribuindo para a desigualdade e para a insegurança da sociedade.


Desde o final do século XX, a organização familiar vem passando por um período de turbulência conceitual nunca antes verificado. Com efeito, o modelo familiar tradicional, constituído por um homem, uma mulher e seus filhos, está agora competindo com outras modalidades familiares que não existiam no passado, quais sejam, as famílias “de fato”, nas quais não há vínculo formal entre pai e mãe, as famílias resultantes de uniões homoafetivas, com filhos adotados, e ainda as famílias monoparentais: pai e filhos de diferentes mães, mãe e filhos de diferentes pais. A religião católica tem bravamente resistido a essas mudanças, que são consequências diretas da maior assimilação dos comportamentos sexuais alternativos na nossa sociedade, os quais se tornam cada vez mais frequentes e gozam de reconhecimento jurídico pelo Estado. Não pretendo fazer aqui um juízo de valor sobre o tema, deixo isso para a consideração de cada um. A análise que faço é apenas para destacar que a instituição social mais antiga que se conhece, que é a família tradicional, vem passando por uma transformação substancial, com reflexos dentro e fora da religião, como consequência de adaptações legislativas realizadas pelos órgãos governamentais, com o objetivo de amparar situações novas no âmbito dos relacionamentos humanos.


Voltando ao tema inicial, a liturgia deste domingo coloca a família de Nazaré como o modelo a ser seguido da família perfeita, até mesmo com as eventuais vicissitudes que ocorrem em todos os grupos familiares: por exemplo, o 'pito' que Maria deu no menino Jesus, depois da estressante procura por Ele, na ocasião do retorno de Jerusalém, depois da Páscoa. Um puxão de orelhas educativo (agora proibido pela lei dos castigos corporais) nunca fez mal a ninguém, desde os tempos bíblicos.


Na primeira leitura, temos um trecho do livro do Eclesiástico (Eclo, 3, 3-17), livro este também conhecido como Ben Sirac ou Sirácide, em alusão ao seu escritor. Este era um judeu chamado Jesus Ben Sirac, que escreveu uma meditação sobre a felicidade, partindo da sabedoria tradicional do povo hebreu, numa época em que a cultura grega se espalhava entre os judeus. O autor quis reforçar os valores hebraicos tradicionais, que não devem ser substituídos pela cultura alienígena, detalhando-os para ensinamento dos mais jovens. Este livro não fazia parte da antiga bíblia judaica, sendo por isso considerado deuterocanônico. Ele foi incluído no cânon da Bíblia Católica após muitas discussões sobre a pertinência disso, porque nem todos os Padres da Igreja antiga assim o consideravam. Foi um dos motivos do protesto de Lutero, que não concordava com a sua inclusão na Bíblia, por isso, esse livro não consta na bíblia protestante..


Dentro do tema geral do livro, que trata da felicidade, a leitura escolhida pela liturgia traz conselhos aos filhos sobre o respeito aos pais, que tem a aprovação e a bênção de Javé. O cuidado dos filhos com os pais idosos, mesmo quando já estão sem lucidez, além de ser uma obrigação moral deles, torna-se também motivo de santificação, para perdão dos pecados, cuja recompensa será devolvida por Javé. O conteúdo do texto se aplica perfeitamente na nossa sociedade, como aliás se aplicou em todas as épocas, porque a relação pais e filhos foi sempre um dos pontos fundamentais de sustentação da sociedade e as admoestações da sabedoria antiga são, podemos dizer, perenes e supra culturais.


A segunda leitura, de Paulo aos Colossenses (Cl 3, 12-21), exorta os membros daquela comunidade ao exercício da caridade, da tolerância e do amor fraterno, como regra básica para a harmonia que deve marcar a vivência dos cristãos. Paulo escreveu esta carta quando estava na prisão em Roma e soube de algumas desavenças que ocorriam entre os cristãos de Colossos. Conclama as esposas a serem solícitas com os maridos e estes a amarem as esposas e não ser grosseiros com elas. Depois, admoesta os filhos para obedecerem aos pais, até parece que Paulo procura complementar ou atualizar a leitura do Sirácide, texto que ele devia muito bem conhecer.


No evangelho de Mateus (Mt 2, 13-23), temos a narrativa do episódio da fuga da Sagrada Família de Nazaré para o Egito, a fim de escapar da perseguição pelo perverso rei Herodes. Diz o evangelista que, logo após a visita dos Magos, que tinham vindo do Oriente, o anjo do Senhor apareceu a José em sonho, exortando-o a sair da Judeia e ir refugiar-se no Egito, porque o Menino corria perigo. Com efeito, Herodes havia ficado intrigado com a informação recebida da parte dos Magos, dando conta do nascimento do novo rei dos judeus. Ora, o rei ali era ele, Herodes, e a mulher dele não estava grávida, o que signficava aquela mensagem trazida por sábios estrangeiros? Herodes era o representante do imperador romano na região da Judeia e a sua missão política era zelar pelo bem do império na região, impedindo e coibindo movimentos de rebeldia e de libertação, que ocorriam vez por outra no meio dos judeus. Era como se os Magos tivessem revelado um “segredo”, que ninguém na sua corte sabia. E mais indignado ainda ele ficou quando compreendeu que havia sigo enganado pelos Magos, que não retornaram para confirmar a notícia, assim como ele havia recomendado a eles. Deu, então, ordem aos soldados para que eliminassem todos os recém-nascidos na região de Belém, já que não tinha condições de identificar o provável “novo rei”. Este foi só mais um de seus comportamentos insanos e paranoicos.


Convém destacar, nesse contexto, um fato que não consta nos evangelhos canônicos, encontrando-se apenas os evangelhos apócrifos. Todos se recordam da visita de Maria a sua prima Isabel, que estava grávida no mesmo período e Maria foi auxiliá-la nas tarefas de amparo ao recém-nascido João. Fazendo as contas, João era mais velho do que Jesus aproximadamente três meses, portanto, ele era uma das crianças incluídas na chacina determinada por Herodes. Ocorre que Isabel, tomando conhecimento do fato, fugiu para as montanhas indo refugiar-se em casa de parentes, resguardando assim a vida de João. No entanto, Zacarias, marido dela, que era sacerdote no templo e estava na sua escala de serviço, não acompanhou Isabel na fuga. Os soldados foram, então, abordá-lo no templo, perguntando pelos “meninos”, pois sabiam que a esposa dele havia tido um filho em data recente e sabiam também do parentesco de Isabel com Maria. Zacarias respondeu que não sabia onde estavam, porque ele realmente não sabia o destino de ambos, contudo os soldados não acreditaram nele e pensaram que ele os estava enganando. Por isso, mataram Zacarias. Foi mais um inocente na relação dos santos inocentes vítimas de Herodes.


Os evangelhos apócrifos também relatam detalhes inusitados da fuga da Sagrada Família de Nazaré para o Egito. Citarei apenas dois fatos. Durante a viagem, eles se hospedaram numa casinha à margem da estrada, onde havia uma mulher com uma doença incurável. Sabendo disso, Maria deu à dona da casa uma das fraldas usadas pelo Menino Jesus, para que ela pusesse sobre a cabeça da doente. Ao fazer isso, ela ficou imediatamente curada. Em outro trecho do caminho, estavam todos com fome e ainda estava longe o próximo povoado. Na região desértica, eles se sentaram para descansar na sombra de uma tamareira. A árvore era alta e estava carregada de frutos, porém eles não alcançavam para retirá-los. Então, o Menino Jesus fez um gesto com a mão e a tamareira se inclinou, permitindo que eles colhessem os frutos e assim saciassem a fome. Há diversas outras ocorrências curiosas.


Meus amigos, os episódios da infância de Jesus, narrados pelos evangelhos, revelam a intimidade da Família de Nazaré e demonstram que a rotina de José, Maria e Jesus era similar à de todas as famílias, com as vicissitudes próprias da vida cotidiana, porque Jesus quis ter uma família igual a todos nós, sem se prevalecer de sua condição e natureza divinas. O exemplo de fidelidade ao projeto de Deus e de harmonia familiar é o grande legado que devemos aprender da Sagrada Família de Nazaré, não apenas para as famílias tradicionais, mas também pelos modelos familiares alternativos, para que sempre se orientem no sentido dos verdadeiros ensinamentos cristãos.


Cordial abraço a todos. Efusivos votos de Feliz Ano Novo.

Antonio Carlos

sábado, 20 de dezembro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4 DOMINGO DO ADVENTO - 21.12.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DO ADVENTO – O JUSTO JOSÉ – 21.12.2025


Caros Confrades,


Neste quarto domingo do Advento, a liturgia destaca a figura de São José, chamando-o de “o justo”, aquele que compreendeu e aceitou a maternidade de Maria. De início, ficou embaraçado com a gravidez inexplicável, mas sem querer denunciá-la, porque sabia das consequências severas que recairiam sobre ela, planejou deixá-la em segredo. Porém, o mensageiro celeste o tranquilizou e José assumiu com zelo e serenidade a sua missão de cuidador do Messias. São dois momentos críticos e opostos em que a virtude da justiça se revelou nas atitudes de José: a primeira vez, quando, na dúvida da gravidez misteriosa, decidiu não denunciá-la, porque não tinha motivos para duvidar dela; a segunda vez, quando, na certeza advinda com o aviso celeste, transmudou a dúvida em confiança. O Papa Francisco disse, em um de seus sermões, que essa atitude de São José nos ensina a confiar em Deus, quando ele se aproxima de nós.


Na primeira leitura, do profeta Isaias (Is 7, 10-14), lemos aquela famosa previsão sobre a futura vinda do Messias: uma virgem conceberá e parirá um filho, que terá o nome de Emanuel (Is 7, 14). Sob o prisma da história, o Emanuel previsto por Isaías foi o rei Ezequias, filho de Acaz, e a “virgem” (jovem mulher) era a rainha, esposa dele. Ezequias um rei justo e santo, que restaurou a dignidade do povo de Israel. No plano trans-histórico, o evangelista Mateus associa a figura do Emanuel a Jesus, o salvador não só de Israel mas de todos os povos. Se o reinado do rei Ezequias, que seguiu o padrão do seu ancestral rei Davi, foi marcado pela prática da justiça e pela obediência à lei de Deus, o “reinado” do Messias será a plenificação dessa prática. O profeta Isaias é a leitura preferida para a liturgia do advento, por causa da sua precisão de detalhes sobre o futuro Messias, destacando-se, neste domingo, a virtude da justiça como aquela atitude que bem possibilitará o seu reconhecimento. E o próprio Jesus, posteriormente, tomou o livro de Isaías como a sua leitura preferida, sempre que era convidado a fazer a leitura na sinagoga.


Na tradição religiosa, a figura de José é também frequentemente associada à virtude da justiça: o justo José. Tentemos imaginar a situação em que ele se encontrava. José ainda não era casado com Maria e, estavam noivos e ainda não coabitavam, de acordo com o costume daquela época, bem diverso da prática contemporânea. Maria ainda estava passando por um “treinamento” para assumir as funções próprias do matrimônio. O texto bíblico oficial não esclarece como foi que José tomou conhecimento da gravidez de Maria, mas nos evangelhos apócrifos, isso está descrito em detalhes. José tinha viajado para um serviço e passou alguns meses ausente. Ao retornar, percebeu a gravidez de Maria e não entendeu aquilo. Ele sabia não ser o pai, então, pela norma vigente, cabia-lhe denunciar a noiva por mau comportamento perante os sacerdotes. Mas José sabia que isso implicaria o apedrejamento de Maria por adultério, de acordo com a Lei de Moisés. José era justo e não queria fazer mau juízo sobre Maria nem desconfiar das virtudes dela, porém não entendia como aquela gravidez tinha ocorrido. Então, resolveu simplesmente abandoná-la, viajar para outras terras e seguir sua vida por lá. Só que isso era muito trabalhoso, afinal, mudar de domicílio não é fácil nos dias de hoje, devia ser mais complexo ainda naquela época. José se encontrava nesse dilema sobre o que fazer. Foi quando ele teve o sonho com o anjo, fato que é narrado por Mateus no evangelho deste domingo (Mt 1, 18-24). É interessante observar que a Bíblia relata diversos episódios em que Javeh fala com as pessoas em sonho, seja diretamente, seja através de um mensageiro. Esta palavra mensageiro em grego, diz-se “angelos”, derivada do verbo “angelô” (anunciar, proclamar), que se transformou no latim em “angelus” e, em português, passou para “anjo”.


A bíblia relata sobre muitos personagens bíblicos que foram visitados por esses mensageiros divinos (angelos), sem descrever como é a aparência deles, porém, os artistas medievais se encarregaram de compor a sua figura como um ser masculino, jovem, de grande beleza, tendo as omoplatas desenvolvidas em forma de asas como os pássaros. E assim ficou criada a figura estereotipada do anjo que todos conhecemos. No entanto, não podemos nos esquecer que Lúcifer era também um anjo da corte celeste, apesar disso, a figura deste é retratada pelos mesmos artistas de uma forma totalmente diversa. Digo isso para que retiremos da nossa cabeça as imagens medievais, quando nos referimos aos mensageiros divinos. Por que razão não existem figuras femininas como anjos (ou anjas), apenas figuras masculinas? Evidentemente, entra aí toda a carga cultural do machismo, típico da cultura greco-romana. Apesar da sua feição marcadamente andrógina, no entanto, eles são apresentados sempre como seres masculinos, em coerência com a mesma cultura, a qual afirma que somente os homens podem exercer os ministérios eclesiais. É o paradigma da masculinidade, ainda presente na Santa Madre Igreja, excluindo as mulheres das funções ordenadas. E ainda demandará bastante tempo para que seja superada essa prática milenar.


Pois bem, mas voltando à história sobre o sonho de José, vemos uma diferença curiosa na forma como o mensageiro (anjo) apareceu a José e a Maria. No caso de Maria, ela estava desperta e dialogou com ele. No caso de José, ele estava dormindo e não participou da conversa, apenas recebeu a mensagem. É o caso de indagarmos se, efetivamente, um mensageiro lhe apareceu ou se ele apenas sonhou, foi apenas um sonho simples, da mesma forma como nós, muitas vezes, estamos com uma dúvida nos atormentando e, num sonho, vislumbramos uma solução. Aliás, se formos observar bem, nas diversas vezes em que um texto bíblico se refere a um mensageiro (anjo), em geral, a presença de um ser angelical não é de fato necessária, mas a situação se esclarece com uma explicação psicológica. O caso do sonho de José é um desses exemplos. Outro caso também relacionado com José é aquele episódio em que ele recebeu uma “ordem” de fugir com Maria e o menino para o Egito, até passar a perseguição de Herodes, através de outro sonho. A referência ao mensageiro fica mais por conta da tradição hebraica, ainda muito presente no cristianismo primitivo. E também devido ao estado de desenvolvimento científico da época, em que esses fenômenos psicológicos eram sempre considerados como manifestações divinas (se fossem boas) ou demoníacas (se fossem más). Disso podemos concluir, com alguma segurança, que a doutrina tradicional acerca dos anjos precisa ser repensada e redimensionada, dando-lhe uma compreensão mais realista e menos fantasiosa.


O caso da anunciação a Maria já foge a essa regra, por causa do diálogo que ela travou com o anjo até ser convencida e dar o seu aceite. Há uma intervenção divina na história, trata-se de algo realmente miraculoso na sua essência, algo para o qual apenas uma explicação da psicologia não seria suficiente. Isso é que torna diferente a atuação do “mensageiro” divino em certas situações em que há uma justificativa para a sua presença. Temos um exemplo bem típico no Antigo Testamento (Gn 32, 24), que narra a luta que Jacó teve com um anjo, pouco antes de sua reconciliação com Esaú. Porém, nem sempre o fato narrado justifica a presença física do “anjo”, mas pode ser resolvido de um modo mais prosaico, como quando estamos sonhando ou quando simplesmente temos um “estalo” na mente, aquilo que os psicólogos chamam de “insight”, uma descoberta inesperada e instantânea que a nossa mente produz, em situações emergenciais. Digo isso para reforçar o que escrevi antes, acerca da necessidade de um estudo mais crítico e menos fanático sobre a angeologia.


E por último, uma breve referência à segunda leitura, da carta de Paulo aos Romanos (Rm 1, 1-7), na qual Paulo destaca a descendência de Jesus da raça de David (em grego: ek spérmatos David) segundo a natureza humana, e predestinado como Filho de Deus em poder, segundo o Espírito. Curiosamente, o texto da CNBB traduz a palavra latina “praedestinatus” (predestinado) como “autenticado”. Por certo, essa tradução visa evitar o uso da palavra “predestinado” por causa da doutrina da predestinação, que não é acolhida pela teologia católica, substituindo-a por uma palavra mais amena: autenticado, isto é, reconhecido, como quem faz reconhecimento de firma no Cartório.. No entanto, eu considero essa palavra perigosa na sua interpretação, porque traz subjacente também a ideia de algo que não é original, mas uma cópia... sinceramente, tem certas traduções que aparecem nos textos oficiais da CNBB que complicam aquilo que deveriam explicar. Dizer que Jesus é autenticado como Filho de Deus com o poder do Espírito, a meu ver, deturpa o significado do texto paulino e dá a impressão de uma coisa subalterna, uma segunda via que se autentica para ter validade oficial. Com certeza, Jesus não precisa dessa autenticação.


Ao ensejo, envio antecipados votos de Feliz Natal.

Antonio Carlos

sábado, 13 de dezembro de 2025

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3 DOMINGO DO ADVENTO - 14.12.2025

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOMINGO DO ADVENTO – O ÚLTIMO PROFETA – 14.12.2025


Caros Confrades,


O 3º domingo do Advento, denominado domingo “gaudete” (alegrai-vos), celebra a alegria da comunidade diante da próxima chegada do Senhor. O refrão latino antigo dizia: gaudete in Domino semper, iterum dico, gaudete (Carta de Paulo aos Filipenses 4, 4). Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez eu digo, alegrai-vos. Na composição do ato litúrgico celebrativo, neste domingo é acesa a vela da cor lilás, símbolo da alegria. Este é o tema dominante desta liturgia, que traz na leitura do evangelho o elogio que Jesus faz a João Batista: ele é muito mais do que um profeta, dentre os nascidos, ninguém é maior do que ele. E, nesse contexto, Jesus indiretamente se autodeclara o Messias, quando afirmou que foi sobre João que o profeta Isaías disse: eis que mando o meu mensageiro para preparar-te o caminho.


A primeira leitura, do profeta Isaias (35, 1-10), texto escrito no período final do cativeiro da Babilônia, expressa a alegria dos cativos ao serem libertados e retornarem a Jerusalém: “Dizei às pessoas deprimidas: 'Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar'. Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos. Os que o Senhor salvou, voltarão para casa.” (Is 1, 4-10) Esta alegria do retorno dos cativos para casa é comparada com a alegria da Igreja pela chegada do Senhor, que se avizinha. A liturgia relembra a festa dos hebreus celebrando a sua libertação do cativeiro babilônico, fazendo alusão com o júbilo que deve tomar conta de todo o mundo cristão, com a chegada da libertação trazida por Cristo. Se aquela libertação política foi motivo de tão grande regozijo para os hebreus, então para nós, que recebemos de Cristo a salvação eterna, a alegria deve ser muito maior. A parte final do versículo 10 é bem sugestiva: “Eles virão a Sião cantando louvores, com infinita alegria brilhando em seus rostos: cheios de gozo e contentamento, não mais conhecerão a dor e o pranto.” Sião, a Jerusalém terrestre, é a manifestação prévia da Igreja de Cristo, da qual nós fazemos parte. A ela, nós nos dirigimos cantando louvores e com intensa alegria brilhando nos nossos rostos, tal como os hebreus libertados. O livro de Isaías, ao mesmo tempo em que, no início, descreve a tristeza do povo cativo, do meio para o fim, passa a retratar o grande contentamento daqueles que puderam voltar à sua terra. É uma leitura recorrente no tempo do advento, era também uma leitura preferida por Cristo, quando comparecia aos cultos na sinagoga e lhe era dada a palavra.


Na segunda leitura, retirada da carta de Tiago (Tg 5, 7-10), ele exorta os cristãos sobre a vinda do Senhor, que está próxima. Sabemos que, naquele tempo, tanto os apóstolos quanto as comunidades primitivas esperavam para “os próximos dias” o retorno de Jesus. Ao subir aos céus, ele havia prometido que retornaria “em breve”, então, a interpretação que os primeiros cristãos davam a essa passagem bíblica era totalmente literal: ele vai voltar dentro de poucos dias. No caso da exortação de Tiago, esta espera tinha outro sentido daquela referida pelo profeta Isaías, pois no tempo deste Profeta, o Messias ainda não havia vindo, portanto, ele se refere à sua chegada original. Mas na carta de Tiago, a espera é pelo seu retorno, para julgar o mundo. Daí percebermos uma certa ingenuidade e singeleza nas palavras de Tiago, no versículo 9: “Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para que não sejais julgados. Eis que o juiz está às portas. Essa era uma compreensão recorrente entre os judeus convertidos, pois essa era também a maneira como os apóstolos haviam compreendido as palavras de despedida de Cristo, na Ascensão. Esta carta de Tiago não é dirigida a uma comunidade de gentios nem de uma determinada localidade, mas a todos os judeus da diáspora, especialmente aos judeus cristãos. A diáspora, ou dispersão dos judeus, ocorreu logo após a destruição de Jerusalém pelos romanos (ano 70 d.C.), levando-os a se espalharem por diferentes territórios da Ásia, África e sul da Europa. Em alguns destes locais, já existiam igrejas cristãs, sobretudo aquelas fundadas por Paulo, tendo sido até motivo de atritos. Na verdade, os judeus ficaram sem um território próprio e isso perdurou por vários séculos, pois eles somente voltariam a ter um local geográfico com a criação do Estado de Israel, após a segunda guerra mundial (1948). Pois bem, a carta de Tiago reflete assim aquela ideia que era comum entre os primeiros cristãos, acerca da iminente volta de Cristo, para julgar os vivos e os mortos. Ficai calmos, porque o juiz está chegando, ninguém queira julgar uns aos outros.


No evangelho de Mateus (Mt 11, 2-11), lemos o episódio em que João Batista, encontrando-se preso por ordem de Herodes, ouviu falar de Cristo e enviou a ele alguns dos seus discípulos, a fim de recolher informações: “és Tu o que esperamos ou devemos esperar por outro?” Lembremos que João Batista já havia batizado Jesus no rio Jordão, portanto, já o conhecia, inclusive foi naquela ocasião em que o Espírito Santo apareceu, ou seja, João Batista tinha conhecimento da existência de Jesus, que era também seu parente. Mas, mesmo assim, visto que estava preso e não podia fazer isso pessoalmente, enviou seus discípulos para se certificarem do fato. Não deixa de ser curiosa essa referência do evangelho à inquietação de João Batista sobre o Messias. Por certo, ele queria ter certeza do término de sua missão preparatória. João Batista tinha discípulos e era preciso que estes tivessem essa certeza também. Quiçá, o objetivo maior era tranquilizar os discípulos, pelo fato de encontrar-se preso. Portanto, eu interpreto esse fato de João Batista enviar mensageiros para irem ter com Jesus como uma forma de dizer a eles algo assim: pronto, a minha carreira terminou, de agora em diante, vocês devem ficar com Ele. Sabemos que alguns discípulos de João Batista passaram a seguir Jesus Cristo. Um destes foi André, irmão de Simão Pedro. Daquela prisão onde se encontrava, João Batista não mais saiu, vindo a ser decapitado a pedido da concubina de Herodes, como forma de vingar-se dele, que havia censurado a sua vida marital com Herodes, por ser uma união ilegítima. A vingança da imperatriz não demorou a acontecer.


É interessante a atitude de Jesus diante das perguntas dos discípulos de João. Ele não respondeu de forma direta, mas apenas indiretamente, ao afirmar: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.” (Mt 11, 4-5) Se observarmos bem, Jesus estava mandando o recado para João Batista mais ou menos nesses termos: vejam só, estão acontecendo aquelas coisas que o profeta Isaías dissera que iriam acontecer com a chegada do Messias. Isto é, para um bom entendedor (e João conhecia as escrituras), ali estava uma resposta claríssima. João deve ter, então, se despedido dos seus discípulos, porque a sua missão tinha sido encerrado e, certamente, os encaminhou para o seguimento de Jesus.


Mas o evangelista Mateus prossegue (11, 9) a história, contando o que Jesus falou aos seus ouvintes, após a saída dos discípulos de João: Vocês lembram de João, aquele que pregava no deserto? Vocês pensavam que ele era um profeta, pois eu vos afirmo que ele é mais do que um profeta. Aqueles que ouviam Jesus conheciam os Profetas da Israel e os reverenciavam, assim Jesus quis dar a eles uma noção da importância de João Batista. E citando o seu profeta preferido, Isaías, completou: “É dele que está escrito: 'Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti'.” (Mt 11, 10) Com essa autodescrição, Jesus está, ao mesmo tempo, afirmando que João é o último Profeta e que Ele, Jesus, é o Messias. Em outra ocasião, Jesus havia utilizado outra passagem de Isaías para se identificar na sinagoga, perante os rabinos e os chefes do povo, quando foi convidado para fazer a leitura e escolheu um trecho de Isaias, conforme está relatado no evangelho de Lucas (4, 16). Após a leitura na qual Isaías falava sobre as qualidades do futuro Messias, Jesus disse: hoje se cumpriu essa escritura. Foi como se dissesse: Isaías estava falando a meu respeito. E complementando o elogio que fazia a João Batista, assim terminou o seu discurso: “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. (Mt 11,11) Vejam que Jesus exclui a si próprio dessa referência, fazendo assim uma alusão velada à sua divindade. Ele nunca falava de si mesmo diretamente, mas sempre de forma indireta. Porém, logo depois, Jesus faz um surpreendente elogio a todos nós, cristãos: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele.” Ou seja, Jesus coloca os seus seguidores (quer dizer, nos coloca) acima de João Batista, porque ele não chegou a ver a revelação e a salvação, que nós conhecemos através dos seus ensinamentos e a eles aderimos através do nosso batismo.


Que nós realmente façamos por onde sermos dignos desse escancarado elogio que Jesus nos fez.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos