sábado, 25 de abril de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4 DOMINGO DA PÁSCOA - 26.04.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DA PÁSCOA – O PASTOR E O IMPOSTOR – 26.04.2026



Caros Confrades,


No 4º domingo da Páscoa, a liturgia nos apresenta a clássica imagem do Bom Pastor, talvez uma das imagens mais conhecidas e mais reproduzidas pela arte sacra. A exposição detalhada e consistente do evangelista João reforça essa figura, que era tradicional nas culturas antigas e muito familiar naquele ambiente oriental do cristianismo primitivo. Neste domingo, tanto quanto no domingo anterior, destaca-se a figura de Pedro, na leitura de Atos e também na leitura da sua primeira carta. O oposto do bom pastor será o impostor, o que não entra pela porta, mas escorrega furtivamente pela janela e engana ostensivamente. Olhando para a nossa sociedade contemporânea, parece que estamos com grande deficiência de bons pastores. A todo momento, temos notícias de lobos travestidos de ovelhas, enganando o povo que, por sua vez, parece gostar de se deixar enganar.


A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos (2, 14ss), relata mais um trecho do discurso de Pedro feito no dia de Pentecostes para a multidão, que acorreu ao Cenáculo com o barulho da ventania. O mesmo povo que, dias antes, havia pedido a morte de Jesus e a soltura de Barrabás, diante do discurso inspirado de Pedro, pergunta, arrependido: o que devemos fazer? E Pedro responde: convertei-vos e recebei o batismo para o perdão dos pecados. (At 2, 38) Diz o texto que, naquele dia, cerca de três mil pessoas foram batizadas. Esta leitura, embora sem mencionar diretamente, retrata a figura do Bom Pastor, enquanto porta da salvação para as “ovelhas” arrependidas. Esses fenômenos de conversões em massa, que se sucederam logo após o dia de Pentecostes, causavam grande irritação aos fariseus e sumos sacerdotes, porque haviam manobrado o povo contra Jesus, pedindo a Pilatos a sua condenação e agora viam o mesmo povo mudando de lado, arrependido. Grande parte dos visitantes e da população de Jerusalém, muitos que estavam ali para os festejos da Páscoa e haviam acompanhado os acontecimentos da paixão de Jesus, também souberam dos eventos miraculosos que sucederam a sua morte, causando-lhes grande comoção. E, ouvindo a pregação simples dos apóstolos, passaram a acreditar em Jesus e entraram a fazer parte do rebanho do Bom Pastor.


Na segunda leitura, extraída da primeira carta de Pedro (1Pd 2, 20), lemos a sequência do texto do domingo anterior, daquela carta dirigida aos judeus convertidos, que sofriam perseguições por causa de sua opção religiosa pelo cristianismo. Daí que Pedro os exorta a suportarem com paciência o sofrimento, seguindo o exemplo de Jesus que, mesmo sem culpa, não se maldisse nem se vingou dos que o maltrataram. E embora sem fazer alusão direta, o texto de Pedro também guarda relação com a figura do Bom Pastor, quando diz: “andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas.” (1Pd 2, 25) O Bom Pastor, portanto, está presente na pregação dos apóstolos desde os primeiros tempos, porque a metáfora do pastor e do rebanho estava bastante ligada à realidade do povo judeu, que tinha na ovinocultura uma importante fonte de renda, sendo uma profissão tradicional e muito integrada na vida econômica de suas comunidades. Ora, se ainda hoje, quando vivemos numa época de maciça produção tecnológica, a ideia de um pastor ainda tem forte apelo emocional e devocional, quanto mais naquele tempo em que essa atividade era costumeira e rendosa. Os nossos Bispos ainda são chamados de pastores e os ministros das igrejas cristãs não católicas adotaram esse epíteto como referência para a sua liderança religiosa. No Ceará, a figura humana que corresponderia ao pastor seria a do vaqueiro, tradicional e romântico personagem da nossa zona rural, que antes aparecia com chapéu de couro e gibão, montado em brilhosos cavalos, e hoje transita montado em outros “cavalos”, estes mecânicos, de pés redondos e emborrachados, movidos a gasolina. Nas cidades do interior, com certeza há mais motocicletas do que automóveis e, se duvidar, do que as tradicionais montarias. Tanger rebanhos montado numa moto é a nova imagem do nosso sertão tecnológico.


A leitura do evangelho de João (Jo 10, 1-10) narra o início da parábola do Bom Pastor, um dos símbolos muitas vezes repetidos na catequese de Jesus, sendo uma narrativa que consta apenas no evangelho escrito por João. É compreensível que João, tendo escrito seu texto depois dos outros evangelistas e ainda tendo tido o privilégio de conviver com Jesus, pôde fazer uma espécie de complementação, relatando fatos e circunstâncias que os demais não haviam escrito. Por isso, é comum encontrarem-se certas passagens que constam apenas no evangelho joanino e é também por isso que este evangelho não leva o título de sinótico, como os três primeiros. Enquanto os outros fizeram uma espécie de sinopse de textos esparsos que circulavam nas comunidades, guardando assim diversas passagens em comum, o evangelho de João é mais reflexivo e específico, legando-nos o entendimento das primeiras comunidades localizadas na região da Ásia Menor, onde ele atuava. Apenas para recordar, João, assim como Paulo, são os primeiros teólogos do cristianismo e João escreveu seu evangelho em Éfeso, onde era bispo daquela comunidade.


Acerca da figura do Bom Pastor, ele começa descrevendo o seu oposto, isto é, o mau pastor, aquele que não entra pela porta, mas furtivamente e às escondidas. A tradução oficial da CNBB usa dois substantivos para exemplificar o mau pastor: ladrão e assaltante. (Jo 10, 1) Mas vejamos os vocábulos originais, para fazermos uma comparação. No texto da vulgata, São Jerônimo chama o mau pastor de “fur et latro”, que em português correspondem à tradução oficial da CNBB. FUR é o que rouba às escondidas e LATRO é o que rouba com violência. A lei penal brasileira faz essa mesma distinção entre os tipos penais. Porém, no texto grego original, os vocábulos são “kléptes” e “lestes”. KLEPTES significa embusteiro, enganador, o que age com dissimulação, não necessariamente o ladrão. Na língua portuguesa, existe a palavra “cleptomania”, aplicada às pessoas que têm um desvio de conduta, anomalia que as leva a se apoderarem de bens alheios furtivamente, até sem ter necessidade, apenas pela emoção de surrupiar. E a palavra grega “LESTES” deriva do verbo “lesteuô”, que significa fazer pirataria, portanto, “lestes” é o pirata, o usurpador. No grego como no latim, ambas as palavras têm a ver com o furto e podem ser traduzidas, genericamente, por ladrão. Mas me parece que essas explicações dos vocábulos gregos ajudam a compreender um sentido mais profundo por trás do conceito do mau pastor. O ladrão e o assaltante põem as ovelhas para correr e assim não podem ser comparadas com um pastor. Já o enganador, o impostor, o usurpador tentam se passar pelo autêntico pastor e podem, sim, enganar as ovelhas. São os lobos travestidos de cordeiros, outra figura também emblemática nesse contexto. Por isso, penso que esses estereótipos são mais compatíveis com a figura do mau pastor do que os conceitos comuns de ladrão e assaltante. Mais adiante, no versículo 12 (que não faz parte da leitura de hoje), João compara o mau pastor com o mercenário, que está mais relacionado com a figura do usurpador, do enganador, o que reforça a minha conclusão de que os termos “ladrão e assaltante” não são os mais adequados para a tradução.


Então, o bom pastor é o que entra pela porta e as ovelhas conhecem sua voz e o seguem. Logo em seguida, ao fazer uma explicação mais direta, porque pareceu que seus interlocutores não haviam entendido, Jesus diz claramente: digo-lhes uma coisa – eu sou a porta, (Jo 10, 7) quem entrar por mim será salvo (Jo 10, 9). Observemos a transmutação dos conceitos: o bom pastor torna-se a própria porta por onde as ovelhas devem entrar, ele entra pela porta e se transforma na própria porta do aprisco. Mais do que o simples condutor do rebanho, como são todos os pastores convencionais, Jesus se identifica como a porta por onde as ovelhas devem entrar para encontrarem pastagens abundantes. Aí está a grande novidade. Transcendendo o conceito de bom pastor para a porta da verdade, Jesus está se autoafirmando como Deus. Ele não apenas conduz os seus seguidores para Deus, mas quem crê nele e, portanto, passa através dele, já chegou a Deus. Concretamente, no âmbito de nossas vidas, a porta por onde passamos para chegar até Jesus é o nosso batismo, pelo qual passamos a fazer parte do seu “rebanho”. Assim, voltamos ao trecho da leitura de Atos, citado acima, quando Pedro responde aos que o interrogaram sobre o que deviam fazer: convertam-se e aceitem o batismo de Jesus. (At 2, 38) Aceitar o batismo significa escolher a porta certa, a porta da verdade, que conduz à salvação.


Meus amigos, o batismo não é um fato do nosso passado, de quando ainda éramos infantes e nossos pais nos levaram a receber esse divino dom. Esse evento foi apenas o momento da entrada, mas nós continuamos a caminhar na estrada da salvação. Por isso, o batismo deve se renovar a cada dia, na nossa missão junto à família, à sociedade, à profissão, através do nosso testemunho de pertença ao rebanho de Cristo, pelo qual as pessoas com quem convivemos possam perceber em nós a marca que identifica os verdadeiros cristãos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 18 de abril de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO DA PÁSCOA - 18.04.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOM. DA PÁSCOA – FICA CONOSCO, SENHOR – 18.04.2026


Caros Confrades,


Neste terceiro domingo da Páscoa, a liturgia nos dá uma pequena demonstração da dificuldade que Jesus teve para instruir o grupo de seus discípulos, de modo a que pudessem sair propagando a sua “boa nova”. Quando nós lemos essas narrativas sobre os primórdios do cristianismo, entendemos melhor de que modo a mão de Deus protegeu e guiou essas primeiras comunidades, de forma a mantê-las vivas e ativas, após o final da missão de Cristo. Muitas pessoas dizem: “ah, o Império Romano promoveu a Igreja e lhe deu sustentação política...” é fato histórico que isso aconteceu, porém não naqueles momentos iniciais, quando predominava a perseguição. Esse apoio institucional de Roma só aconteceu no século IV, por obra do imperador Constantino. Mas até lá, foram mais de 300 anos de muita luta e muita resistência às perseguições cruéis, até que o vento soprasse favoravelmente. A Igreja de Cristo não dependeu do Império Romano para se manter, ao longo desses 300 anos iniciais, ao contrário, os imperadores romanos anteriores a Constantino tentaram, de diversas maneiras, destruir essas comunidades. Sem deixar de mencionar também a perseguição que os primeiros cristãos sofreram por parte dos chefes dos sacerdotes judeus, conforme se vê nos relatos dos Atos dos Apóstolos.


As duas primeiras leituras deste domingo dão ênfase ao trabalho de Pedro, nos primórdios do cristianismo (Atos 2, 14-33 e 1Pd 1, 17-21). Na primeira leitura, um trecho dos Atos dos Apóstolos relata que Pedro faz uma pregação para o povo no dia de Pentecostes e ele faz uma interpretação bastante extensiva do Salmo 15, atribuído a Davi, no qual este assim canta: “meu corpo no repouso está tranquilo; pois não haveis de me deixar entregue à morte, nem vosso amigo conhecer a corrupção - este salmo é rezado também na liturgia de hoje – aludindo a que Davi estaria profetizando a ressurreição de Cristo. Vejamos como Pedro interpretou essa passagem: “o patriarca Davi morreu e foi sepultado e seu sepulcro está entre nós até hoje. Mas, sendo profeta, sabia que Deus lhe jurara solenemente que um de seus descendentes ocuparia o trono. É, portanto, a ressurreição de Cristo que previu e anunciou com as palavras.” Não é preciso grande esforço para perceber que o estilo da pregação de Pedro não tem a força persuasiva, a construção elegante do raciocínio e a profundidade reflexiva dos escritos de Paulo. E Pedro era, mesmo assim, aquele mais esperto, tanto que foi indicado por Cristo como líder do grupo. Percebe-se que Pedro não tinha lá um grande entrosamento com as Escrituras e foi buscar um trecho de um salmo para tirar daí uma conclusão bem diferente do que os exegetas habitualmente fazem. Os salmos não são livros proféticos, são cânticos ora de louvor, ora de arrependimento, ora de confissão, ora de lamento, além do que Davi não era exatamente um profeta. Com todo respeito à figura apostólica singular de Pedro, mas sabe-se que ninguém dá o que não tem e, no caso dele, nem mesmo com a suprema inspiração do Espírito Santo, ele foi muito feliz na referência ao rei Davi. Ou seja, se a Igreja de Cristo tivesse que depender somente da pregação dos onze discípulos originais, teria sucumbido logo no início. Essa dificuldade pedagógica de Jesus, sobre a qual falávamos acima, teve uma solução exemplar: Jesus cooptou Paulo, um judeu fervoroso, perseguidor implacável para transformá-lo no mais fervoroso discípulo e propagador do evangelho. O chamado de Paulo foi consequência dessa dificuldade que Jesus enfrentou para formar um grupo de discípulos e continuadores do seu trabalho, dada a grande limitação humana dos vocacionados galileus.


Na segunda leitura, da primeira Carta de Pedro (1Pd 1, 17-21), vemos uma referência aos judeus cristãos, que se espalhavam por toda a Ásia Menor. Pedro escrevia para as primeiras comunidades cristãs, compostas por judeus convertidos, que sofriam as represálias dos judeus tradicionalistas, que os rejeitavam. Daí o discurso de Pedro, lembrando a antiga aliança e sua atualização feita por Jesus: “Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo.” (1 Ped 1, 18). Pedro faz o contraponto entre a “vida fútil” da antiga Lei e a vida nova no sangue de Cristo, que inaugura a nova aliança. Os biblistas colocam em dúvida a autoria desta carta de Pedro, por causa de certas semelhanças com o estilo de Paulo, porém outros justificam que o escriba desta carta teria sido Silas, que era discípulo de Paulo, e ao escrever a pedido de Pedro, teria demostrado uma certa influência paulina. Também o versículo anterior a este denota que os destinatários eram judeus dispersos, que viviam em locais onde pagãos e judeus não convertidos eram maioria e tinham atitudes hostis para com os judeus convertidos: vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo.” (17) A palavra traduzida por “migração”, no texto acima, corresponde no original grego ao vocábulo “paroikias”, que significa a situação daquele 'que vive num país estrangeiro' uma “pessoa sem teto” e isso se aplicava nos dois sentidos, tanto no sentido material político da época (cristãos vivendo em cidades judias) quanto no sentido espiritual da “peregrinação” terrestre, a caminho do céu. Como deve ser do conhecimento de todos, enquanto Pedro e os outros discípulos desenvolveram seu trabalho na Ásia Menor, onde havia a maior quantidade de população judia, o trabalho de Paulo se voltou para as comunidades gregas, na época dominada pelos romanos, expandindo suas atividades até a própria Roma, abrindo caminho para Pedro depois se estabelecer por lá.


O texto do evangelho de Lucas (24, 13-35) relata o conhecido episódio dos discípulos que fugiam para Emaús. Essa história é contada apenas pelo evangelista Lucas, com o seu característico estilo cheio de detalhes, só faltou dizer o nome do segundo discípulo. O texto mostra como Jesus precisou sair correndo atrás daqueles dois fujões, que haviam se desgarrado do grupo que ficara em Jerusalém, certamente desiludidos com os últimos acontecimentos. E como foi difícil para eles reconhecerem a Jesus e compreenderem o significado de tudo o que acontecera. Conforme o testemunho de Lucas, Jesus censurou aqueles dois apressados: 'Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?' (Lc 24, 25-26). E precisou repetir toda a catequese, relacionando com as escrituras e, por fim, somente no ato de partir o pão eles o identificaram. Então, voltaram imediatamente para Jerusalém (diz o evangelho que ficava a cerca de 11 km, distância do centro de Fortaleza ao centro de Messejana) e, chegando lá, encontraram os outros reunidos e relataram para eles a experiência que tiveram. A leitura do evangelho de hoje termina nesse ponto, mas no versículo seguinte, diz que “enquanto eles ainda estavam falando, Jesus apareceu no meio deles” (36) e eles ficaram amedrontados, pensando que estavam vendo um fantasma. Foi preciso Jesus dizer: 'por que estais perturbados? Sou eu...Vede as minhas mãos e pés...' que coisa mais incrível. Os dois estavam falando justamente que haviam conversado com Jesus ressuscitado e, ato contínuo, Jesus lhes apareceu e não conseguiram reconhecê-lo. Quão difícil foi, para Jesus, preparar esse pequeno grupo para dar continuidade ao seu trabalho messiânico.


Além dessa dificuldade de natureza pedagógica e administrativa, foram muitos os entraves de ordem política que os primeiros cristãos tiveram de enfrentar. O próprio apóstolo Paulo relatou que precisou, às vezes, sair de uma cidade às pressas, com medo de ser apedrejado pelos seus perseguidores, que eram judeus fanáticos e Paulo, com sua formação judaica, os desafiava. E depois vieram as perseguições mais audazes e destruidoras por parte das autoridades romanas, que vitimaram os dois grandes líderes Pedro e Paulo no mesmo ano, embora não juntos, na época do imperador Nero. Este e Diocleciano fizeram o maior massacre de cristãos naquele tempo, algo similar ao que ainda ocorre nos dias de hoje em alguns países islâmicos, no Oriente Médio e na África. Nas últimas décadas, a extrema esquerda na Nicarágua também vem produzindo perseguições aos católicos. Mas a mesma força da fé que mantinha unidos os cristãos dos primeiros tempos, também opera com os de hoje, que passam por severas provações. Nós, que temos uma vida relativamente calma em relação a essas políticas agressivas e sangrentas de outros países, não conseguimos fazer ideia do que é ser cristão em situação adversa. Contudo, no passado tanto quanto hoje, a presença de Cristo e os dons do Espírito fortalecem os cristãos que são perseguidos, mantendo-os firmes nas suas convicções.


Pois bem, meus amigos. Essas recordações dos tempos heroicos dos primeiros missionários devem servir para nos fortalecer também na nossa fé, quando tomamos consciência do quanto eles tiveram de suportar para testemunharem a Cristo, enquanto nós, muitas vezes por comodismo ou por preguiça, nos esquivamos de demonstrar a nossa fé e o nosso compromisso, através das nossas atitudes, pelas quais devemos ser identificados como discípulos de Cristo. O tempo pascal se presta para refletirmos sobre a nossa vocação cristã e para avaliarmos o grau de nossa fidelidade à fé que professamos.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

domingo, 5 de abril de 2026

COMENTÁRIO LITÚRGICO - DOMINGO DA PÁSCOA - 05.04.2026

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – DOMINGO DA PÁSCOA – 05.04.2026 – DIA DO SENHOR


Caros Confrades,

Sempre no domingo de páscoa eu faço a comemoração do aniversário desses comentários, pois foi na Páscoa de 2011 que comecei a escrevê-los, atendendo a algumas solicitações de Colegas, e com isso pus-me a rever e aprofundar os conceitos bíblico-teológicos da nossa fé cristã. Já se completam, pois, quinze anos dessa missão que assumi, tendo oportunidade de reestudar e reaprender muitos conceitos. A vivência religiosa de todos nós deve estar numa incessante evolução, pela qual vamos superando certos conceitos recebidos na juventude e que hoje devem ser repaginados. Existe muito romantismo associado à festa da Páscoa, sobretudo quando são lidos os textos do Êxodo, acerca da saída dos hebreus do Egito, por volta do século XIV antes de Cristo. Certamente a narração bíblica é permeada com elementos culturais literários didático-pedagógicos criados para a catequese dos judeus daquele tempo. Precisamos ultrapassar esse nível do texto para adentrar no seu conteúdo mais profundo.


Numa abordagem histórica, os pesquisadores não sabem definir a origem da festa da páscoa, porque essa é uma tradição tão antiga, que se perde no tempo. Estima-se que a páscoa começou a ser celebrada desde que os seres humanos começaram a formar grupos estacionários em determinados locais, onde passaram a plantar alimentos e criar animais, deixando assim de ser nômades, e assim formaram as primeiras comunidades humanas. Ou seja, a festa da páscoa originalmente estaria integrada com o próprio surgimento da sociedade humana. Este momento histórico e geográfico que, no hemisfério norte, corresponde ao término do inverno e à chegada da primavera, coincide com o tempo em que as árvores iniciam a brolhar após o degelo invernal, começando a produzir os primeiros frutos da terra. Com as nuvens se dissipando no céu, a lua podia ser divisada mais facilmente e a primeira lua cheia após o inverno passou a ser festejada como o tempo da primeira colheita, tempo de fartura e da prosperidade, celebrando a paz entre a natureza e os seus habitantes, tempo em que os animais também acasalam e a vida sobre a terra se renova. Este seria o sentido primitivo, arcaico da páscoa, festejada desde tempos imemoriais.

Como podem verificar, nós celebramos a páscoa pelo ciclo geográfico europeu, isto é, a páscoa dos povos do norte, pois se fôssemos considerar os mesmos fenômenos cósmicos no hemisfério sul, a nossa páscoa seria celebrada no mês de setembro. Estando a festa da Páscoa relacionada com a primeira lua cheia da primavera europeia, já imaginaram se nós, ocidentais e austrais, fôssemos seguir o mesmo esquema para a definição da data da páscoa? Deixaria de ser uma festa comemorada universalmente, como é nos dias atuais, pois haveria a Páscoa do norte e a do sul. Porém, essa divergência geográfica de fato não fará diferença, uma vez que nós não celebramos a páscoa pelo seu significado histórico e cultural, mas pelo sentido religioso que essa festa passou a ter após a ressurreição de Cristo.


Numa abordagem teológica, a festa cristã da Páscoa passou a ser celebrada logo depois que foi proclamada a liberdade religiosa no império romano, o que se deu com o imperador Constantino, em 313 d.C. O século IV da era cristã foi um período de muitas definições dogmáticas e doutrinárias, tendo em vista diversas heresias que se disseminavam no meio cristão, havendo a necessidade do trabalho de refinamento teológico de insignes Doutores da fé, expurgando doutrinas contrárias ao ensinamento de Cristo, sendo necessário ainda, por diversas ocasiões, a reunião de Concílios ecumênicos, com o objetivo de serem debatidas as verdades teológicas que formam o núcleo central da doutrina cristã. Foi nesse contexto que houve o debate acerca da definição da data da Páscoa, bem como das diversas solenidades que compõem o ano litúrgico. Foi nessa ocasião também que se deu uma importante e radical mudança, que foi motivo de muita discussão e ainda hoje divide opiniões, a mudança do “shabat”, ou seja, do descanso semanal, que passou do sábado para o domingo. A partir da consciência da magnitude da ressurreição de Cristo como sendo o evento mais importante de todo o mistério da redenção, as autoridades cristãs permutaram o antigo dia sabático pelo dia dominical. Essa definição caracteriza também a passagem da tradição do Antigo Testamento para o Novo Testamento. Canonicamente, essa mudança foi definida nos Concílios de Nicéia (325) e de Laodicéia (364).


Nesses concílios, ficou decidido que a festa da Páscoa seria no domingo que sucede a lua cheia após o equinócio da primavera no hemisfério norte, que tem como data de referência o dia 21 de março. Desse modo, o domingo que sucede a lua cheia após 21 de março de cada ano é a data da festa da Páscoa. Essa definição, porém, continua sendo ponto de discórdia entre a igreja católica romana e as igrejas católicas orientais, pois estas consideram que foi uma imposição do império romano, do mesmo modo que a celebração do Natal, também definida na mesma oportunidade, teria sido feita para atender a um pedido do imperador Constantino. Atualmente, a mim parece que não é mais o caso de levar adiante tal discussão, porque seria de pouca utilidade prática e o calendário internacional não iria ser alterado por conta disso. Assim, a data da páscoa continua seguindo o calendário lunar, gerando divergências com as demais datas, que se orientam pelo calendário solar, mas isso é administrado de uma forma já convencional e não acarreta maiores transtornos. Embora não haja uma coincidência exata de datas, no entanto a festividade pascal, em todas as culturas, é celebrada sempre nesse mesmo período do ano, desde os tempos ancestrais.


A Páscoa, portanto, originalmente está associada à renovação da vida na terra, (no caso, considerando a geografia europeia, pois naquela época as terras do hemisfério sul terrestre não eram conhecidas). Dentro da economia da salvação, o plano salvífico de Deus fez coincidir a ressurreição de Cristo com essa simbólica festividade da humanidade setentrional, dando-lhe um sentido totalmente novo e inusitado. Integrando o Antigo com o Novo Testamento, há uma curiosidade interessante: a entrada de Jesus em Jerusalém deu-se no 10º dia do mês de Nissan, data que corresponde à prescrição constante em Êxodo 12:3-6, dia em que, de acordo com a Lei de Moisés, um cordeiro era separado do rebanho e colocado à disposição para ser sacrificado na Páscoa. Nesse dia, entrando triunfalmente em Jerusalém, Jesus foi colocado à disposição dos sumos sacerdotes judeus para ser sacrificado, uma coincidência que, sem dúvida, une os dois Testamentos. Após a ressurreição de Cristo, a Páscoa deixou de ser apenas uma festa das colheitas do campo, da celebração da vida natural, da cultura humana, e veio assumir uma dimensão especial na economia da salvação, transmudando o seu sentido para a dimensão espiritual e alcançando não apenas os habitantes de uma região do mundo, mas toda a humanidade. Jesus ia todos os anos a Jerusalém, para celebrar a Páscoa com os discípulos, mas Ele sabia que naquela vez seria diferente, daí ter preparado tudo, conforme descrevem os evangelistas, inclusive aquela entrada triunfal, sendo aclamado com ramos de palmeiras, de modo a chamar bem a atenção dos fariseus, sacerdotes e chefes do povo. Ali, ele se colocou à disposição. Tudo fora preparado, no plano divino, para que a antiga páscoa dos homens fosse transformada na nova Páscoa de Cristo.


As primeiras comunidades cristãs não perceberam essa nova dimensão dos fatos logo no início e continuaram celebrando o dia do Senhor no sábado, como era a tradição judaica. Mas depois foram percebendo que, com a ressurreição de Cristo, a Páscoa tinha ganho um novo sentido e aquela tradição sabática precisava ser superada pela celebração dominical, porque Jesus havia ressuscitado no primeiro dia da semana, após o shabat. Aqueles que não creem em Cristo como o Salvador e, portanto, não reconhecem o novo testamento escrito com o seu sangue, continuam guardando o sábado. Ou algumas denominações cristãs radicais que, mesmo acreditando em Cristo, não aceitam a mudança de significado do “sábado-dia do descanso” para o “domingo-dia do senhor” e continuam a guardar o sétimo dia, em vez do primeiro dia da semana. O novo significado da Páscoa, como festa da vida renovada, da vida plena e definitiva, da vida que supera a morte devia ser comemorada como uma nova festa, com um novo simbolismo. O dia da ressurreição do Senhor, o primeiro dia da semana, passou a ser, então, a nova referência para as festividades pascais.


Meus amigos, quando hoje celebramos a Páscoa, devemos nos lembrar disso: pela Páscoa da ressurreição de Cristo, nós ganhamos um verdadeiro motivo para comemorar, qual seja, a nossa redenção, a conquista da nossa vida plena e definitiva, que Cristo antecipou para nós com a sua ressurreição dos mortos e nos deu a certeza de que, assim como Ele, nós também teremos a nossa vitória sobre a morte e sobre o pecado e um dia nos uniremos com Ele, junto do Pai, na morada eterna. Para além, portanto, das costumeiras saudações de Feliz Páscoa ou mesmo utilizando essa costumeira terminologia, nossas palavras passam a ter um novo sentido, se estivermos conscientes do seu verdadeiro significado.

Renovados votos de Feliz Páscoa a todos.
Antonio Carlos