sábado, 19 de outubro de 2024

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 29 DOMINGO COMUM - 24.10.2024

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 29º DOMINGO COMUM – A ESCOLHA DO LUGAR – 17.10.2021


Caros Confrades,


Neste 29º domingo comum, a liturgia nos convida a refletir sobre a situação de cada fiel, na relação com o cumprimento de sua missão neste mundo e na perspectiva da futura recompensa que será atribuída a cada um. Na primeira leitura, a saga do servo sofredor, narrada pelo profeta Isaías, faz a associação entre os nossos sofrimentos e os sofrimentos de Jesus, ressaltando que pelos méritos dele, os seus seguidores também serão justificados. E a segunda leitura, da Carta aos Hebreus, reforça essa ideia, concitando os cristãos a se aproximarem de Jesus, o trono da graça, para alcançarem a sua recompensa no tempo oportuno. Nessa temática da recompensa, a leitura do evangelho traz o diálogo de Tiago e João com Jesus, sobre o lugar que cada um deles teria no reino futuro do Messias, encomendando desde já uma posição de honra. Foi quando Jesus disse que será melhor recompensado aquele que melhor servir.


Inicialmente, faço uma observação exegética a respeito desse trecho do evangelho, escrito pelo evangelista Marcos, cap 10, 35-45. Fazendo um estudo comparativo com os evangelhos, podemos cotejar essa passagem com o texto análogo de Mateus 20, 20, onde é narrado o mesmo episódio. No evangelho da liturgia de hoje (Mc 10, 35), lemos: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram:”. No evangelho de Mateus (20, 20), lemos: “Então, aproximou-se d'Ele a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo algo a Ele.” A análise desses dois pequenos trechos nos mostra que devemos ter muito cuidado com a leitura fundamentalista da Sagrada Escritura, porque os textos às vezes se mostram incoerentes. Afinal, quem foi fazer o pedido a Jesus: os filhos de Zebedeu sozinhos ou acompanhados da mãe deles? Por que Marcos não menciona a mãe dos apóstolos, enquanto Mateus a inclui? Embora não seja esse um detalhe significativo no contexto da mensagem de Jesus, no entanto, é por causa de detalhes como esse que algumas pessoas dizem que a Bíblia é cheia de imprecisões e mentiras.


Pois bem. Os biblistas explicam essa divergência dizendo que os textos de Marcos e de Mateus possuem origens geográficas e históricas diferentes. Os estudos históricos confirmam que os ensinamentos de Jesus, após a sua morte e durante vários anos, existiam nas primeiras comunidades apenas em forma oral, passando a ser escritos somente uns 20 a 30 anos depois. Havia muitos textos esparsos e os evangelistas os colheram e, com base neles, compuseram seus evangelhos, procurando observar a ordem cronológica dos acontecimentos. Podemos verificar que, também na Bíblia, funciona aquela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto. Desse modo, embora o evangelho de Mateus venha em primeiro lugar no cânon bíblico, contudo o texto de Marcos é cronologicamente anterior. Ainda sobre o evangelho de Mateus suscita polêmica entre os estudiosos, inclusive dúvidas sobre a sua autoria. O seu texto original teria sido escrito em aramaico e só depois traduzido para o grego, enquanto os demais foram escritos originalmente em grego. Não vou adentrar aqui na polêmica acerca do texto desse evangelho que, segundo os estudiosos, devia ter como título “genealogia de Jesus”, escrito por um autor desconhecido. Quem tiver interesse sobre o assunto, procure livros específicos, que abordam a questão com profundidade.


Passemos agora ao tema da leitura, o pedido que os filhos de Zebedeu fizeram a Jesus: que um deles tivesse assento à direita e outro à esquerda, no reino da Sua glória. Jesus ficou intrigado com aquilo e falou: vocês têm certeza do que estão pedindo? Vocês estão dispostos a beber o mesmo cálice que eu vou beber? Eles confirmaram e, por fim, Jesus arrematou: 'Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado'. (Mc 10, 39) E diz mais o evangelista que os outros dez apóstolos ficaram indignados quando souberam do pedido dos dois irmãos, provavelmente, eles também queriam pedir aquilo, mas não tiveram coragem. Ademais, por que razão haveriam aqueles dois de ser privilegiados com um lugar de honra? Foi quando Jesus os repreendeu, dizendo que a autoridade cristã não é símbolo de honraria, mas de serviço. (Mc 10, 43)


Esse diálogo de Cristo com os discípulos nos deixa algumas lições importantes. Primeiro: será que nós sabemos pedir? Quando oramos, quando fazemos nossos pedidos a Deus, que tipo de oração fazemos? Será que caímos no mesmo disparate dos filhos de Zebedeu, reprovado por Jesus? Pois é, muitas vezes, a nossa oração contém uma dose significativa de egoísmo. Pedimos preferencialmente algo bom para cada um de nós, para os nossos parentes e amigos, esquecendo que o próprio Cristo ensinou que devemos buscar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e que o resto nos será dado por acréscimo. Em geral, as orações dirigidas a Deus são pedidos de favorecimentos, de bens materiais, de bem-estar, de uma conquista profissional, etc. Sem deixar de falar numa prática ainda mais extravagante que é a de fazer um “negócio” com Deus, uma certa 'promessa': se eu conseguir tal coisa, vou rezar tais orações, vou fazer tal tarefa. Meus amigos, quanta pretensão. Se passássemos a vida toda fazendo penitências, nem assim mereceríamos um único favor divino, por menorzinho que seja, Deus nos dá tudo gratuitamente, sem precisar de nada de nós e sem nós merecermos, ele age por plena e inefável benevolência. As nossas orações, portanto, devem ser muito mais para agradecer do que para pedir.


Em segundo lugar, lembremos que a oração modelar para nós deve ser inspirada no exemplo dado pelo próprio Jesus: quando orardes, dizei algo assim: Pai, santificado seja o Teu nome, venha o Teu reino, faça-se a Tua vontade... é o tipo da oração altruísta, a oração que agrada a Deus. De orações egoístas, Deus se distancia, vira o rosto para o outro lado. Quando Jesus perguntou aos dois filhos de Zebedeu: vocês estão dispostos a 'beber o mesmo cálice' que eu beberei e eles confirmaram, Jesus disse: mas isso não garantirá o atendimento ao que estais pedindo, pois não é assim que se conquista um lugar no Reino. E arremata: o lugar é para aqueles a quem foi reservado. (Mc 10, 40)


Esta resposta de Jesus é, a um só tempo, enigmática e esperançosa. Enigmática, porque ele não revelou quem são esses a quem está reservado o melhor lugar. Esperançosa, porque a reserva pode ser para qualquer um deles e também para qualquer um de nós. Como podemos interpretar esse enigma-esperança? A resposta, a meu ver, está na frase seguinte do evangelho (Mc 10, 45): o Filho do Homem não veio para ser servido, mas pra servir... ou seja, quem seguir o exemplo de Jesus na prestação do serviço aos irmãos, é para estes que o lugar está reservado. Foi isso que Ele deu a entender quando ensinou: quem quiser ser grande, que seja o servo; quem quiser ser o maior, que seja o escravo. Então, o 'lugar reservado' se destina a quem realizar o 'serviço' tal como Ele realizou, isto é, com humildade e sem reserva, dando tudo de si até o fim das suas forças. Esta será a nossa melhor recompensa.


Meus amigos, o recado de Cristo está dado para todos nós. O lugar está reservado para quem for capaz de seguir o exemplo dele no serviço aos irmãos, superando as tendências naturais e sociais associadas ao ganho de prestígio e de honrarias, especialmente quando exercemos profissões que são consideradas relevantes socialmente. Humildade não significa vestir trapos e andar descalço, mas é uma atitude que mora dentro do coração. Tomo emprestado aqui as palavras do Papa Francisco aos peregrinos em Roma: “À vista de tantos que lutam por obter o poder e o sucesso, por dar nas vistas, frente a tantos que querem fazer valer os seus méritos, as suas realizações, os discípulos são chamados a fazer o contrário. Por isso adverte-os: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo» (10, 42-43). Com estas palavras, Jesus indica o serviço como estilo da autoridade na comunidade cristã. Quem serve os outros e não goza efetivamente de prestígio, exerce a verdadeira autoridade na Igreja. Jesus convida-nos a mudar a nossa mentalidade e a passar da ambição do poder à alegria de se ocultar e servir; a desarraigar o instinto de domínio sobre os outros e exercer a virtude da humildade.” Todos nós, que acompanhamos pela imprensa as notícias sobre a atuação do Papa, sabemos que essas palavras dele não são apenas discurso mas a sua prática concreta, pois ele assim vivencia no seu cotidiano. Que nós tenhamos a ousadia e a coragem de seguir o seu exemplo de autêntico cristão.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 28 DOMINGO COMUM - 13.10.2024

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 28º DOMINGO COMUM – A CORDA NA AGULHA – 13.10.2024


Caros Confrades,


Neste domingo, a liturgia nos convida a refletir sobre o tema da riqueza, através do diálogo de Jesus com o jovem rico, que não abriu mão de seus bens. Mas todos conhecemos também o oposto disso, a história do jovem Francisco de Assis, que seguiu literalmente o convite de Jesus, ao ler esta passagem do evangelho, e abandonou realmente tudo o que possuía, deixou a casa paterna com seu conforto, entregou até as roupas que vestia para o pai, largando tudo para seguir a Cristo na total pobreza e na plena fé de que receberia elevado percentual de recompensa nesta vida e ainda a vida eterna no mundo que há de vir. Nos dias atuais, em que se fala muito acerca do grande distanciamento que há entre as classes sociais (algumas em exagerada abundância e outras em grandes necessidades), o tema da riqueza é bastante oportuno para a reflexão. De fato, a questão que se coloca não é a riqueza em si mesma, porque quando ela é fruto do trabalho, deve ser recebida como justa recompensa. A questão é quando esse acúmulo de bens é fruto de atividades pérfidas, realizadas iniquamente, com o desrespeito do bem e da moralidade, porque é esse tipo de riqueza que não se coaduna com a justa recompensa e é esta que causa a perigosa convulsão da violência em todas as suas formas de manifestação – abertas ou veladas.


A primeira leitura, retirada do Livro da Sabedoria (7, 7-11), fala sobre a verdadeira riqueza, que não está no poder terreno nem na posse dos bens materiais, mas na prudência, na sabedoria, junto da qual todo o ouro do mundo é semelhante a um punhado de areia e toda a prata parece com a lama. E diz mais que, cultivando a sabedoria, todos os bens e riquezas materiais chegam como consequência, pois quem age com sabedoria tem em mãos a maior de todas as riquezas. Por outras palavras, a riqueza deve estar acompanhada da sabedoria para ser legítima. Quando a riqueza é amealhada com violência, esperteza e fraude, tornando-se ilegítima, então aplica-se aí a metáfora da areia para o ouro e da lama para a prata.


A segunda leitura, da Carta aos Hebreus (4, 12-13), faz uma comparação interessante entre os conceitos de alma e espírito, os quais são usualmente tidos como sinônimos, no nosso idioma, mas etimologicamente pertencem a funções mentais distintas. A alma (do termo latino “anima”, mas que vem do grego “psiché”) se relaciona com o pensamento lógico, o raciocínio, o conhecimento das coisas do mundo material. Por outro lado, o espírito (do termo latino “spiritus”, mas que em grego se diz “pneuma” e em hebraico se diz “nefesh”) se relaciona com o ar, com a respiração, o sopro vital, aquilo que nos mantém vivos, relacionando-se com a consciência e a moralidade. Por isso, o escritor sagrado diz que a palavra de Deus é “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até dividir alma e espírito”, isto é, repercute tanto no conhecimento, no raciocínio, quanto na consciência, na responsabilidade. Isso está explicado, com outras palavras, no versículo seguinte, quando diz: “Ela julga os pensamentos e as intenções do coração. ” Podemos ver aqui a seguinte relação com o tema da riqueza, abordado na leitura anterior: quando o acúmulo de bens decorre do uso dos conhecimentos mundanos para obtê-los, mas não está acompanhado de atitudes bem intencionadas, perde-se na ganância e na insensatez, o que não é compatível com a verdadeira sabedoria, e assim vai ocasionar conflitos sociais que se transmudam em violência e infelicidade para todos. E então, adverte o escritor, o avarento se torna réu do julgamento da palavra de Deus, porque “tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas.” Conceitualmente, a palavra de Deus é a suprema sabedoria.


A leitura do evangelho de Marcos (10, 17-27), relata o diálogo de Cristo com um jovem rico de bens materiais, mas que entristeceu-se com a possibilidade de vir a desfazer-se deles. Vemos novamente o tema da riqueza, que se põe no plano do saber interesseiro, e não ultrapassa para o nível das intenções do coração. O diálogo de Cristo com esse jovem é permeado por vários ensinamentos, que o breve conteúdo narrativo condensa. Primeiro, a ideia do Bem. O jovem chamou Jesus de 'bom mestre' e ele disse que somente Deus é bom. Ora, Cristo sendo Deus, por que razão questionaria alguém que o chamasse de 'bom mestre'? O destaque é dado pelo evangelista para significar que o jovem, ao chamar Jesus de 'bom', já estava reconhecendo nele uma pessoa do bem. Mas Jesus quis pô-lo à prova, para saber se ele era também um conhecedor do verdadeiro bem. Pelo que se constata, o jovem tinha demasiado apego à riqueza, visando apenas ao plano da materialidade, por isso não foi capaz de captar a nobreza do convite que lhe foi feito.


O segundo ensinamento é o reforço à lei de Moisés. Jesus fez questão de recitar os mandamentos e dizer que a sua prática conduz à salvação. Por diversas vezes, Jesus afirmou publicamente que não veio modificar a lei mosaica, ao contrário, veio cumpri-la. Porém, o seu cumprimento não devia ser igual ao dos fariseus, que tomavam tudo ao pé da letra e achavam que isso bastava. Aparentemente, o jovem interlocutor também cumpria a lei mosaica sob esse prisma literal, no plano da exterioridade, sem alcançar o patamar das intenções do coração. Tendo percebido isso, Jesus completou: 'Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.' (Mc 10, 21). Com certeza, não era isso o que o jovem pretendia, mas Jesus utilizou o seu diálogo para ensinar os seus discípulos a importância da riqueza bem adquirida e bem administrada.


O terceiro ensinamento do evangelho é sobre a vida de perfeição. Foi nesse ponto que Francisco de Assis se fixou e com ele traçou um plano de vida, que veio a transformar-se no franciscanismo da regra e dos ensinamentos, que ele demonstrou e viveu. Jesus quis ensinar que a riqueza não é, por si mesma, empecilho para a salvação, mas se o seu detentor não estiver disposto a abrir mão dela, então o seu coração está preso na materialidade e não conseguirá alcançar o verdadeiro sentido do uso dos bens com sabedoria. Daí o comentário de Jesus: como é difícil a um rico entrar no reino do céu. Jesus não disse que os ricos estão necessariamente excluídos da salvação, mas sim que a posse dos bens materiais torna mais difícil levar uma vida agradável a Deus. Evidentemente, a causa disso não seria a simples posse dos bens, mas o apego a eles. Nós sabemos que, assim como há pessoas ricas generosas, há pessoas pobres mesquinhas, por isso o ensinamento de Cristo é a pobreza no espírito, que é mais importante do que a simples falta de bens.


Podemos então retirar daqui um quarto ensinamento do evangelho, que é a ideia do desapego. Esse é o grande problema da sociedade contemporânea, aquilo que ocasiona o grande “abismo social” entre pessoas que se apropriam (muitas vezes, de forma ilícita) de grandes fortunas, que ficam depositadas em instituições financeiras de outros países, ocultas para não prestarem contas delas conforme manda a lei, contando com a possibilidade de, ao deixarem seus cargos, poderem usufruir desses bens indignos em territórios estrangeiros, onde não são conhecidos. Quase diariamente, os meios de comunicação trazem informações sobre cidadãos destituídos de consciência, que terminam sendo apanhados em negócios escusos e, em geral, fazem de conta que não é com eles, continuando como se nada estivesse acontecendo. Em outras sociedades, onde ainda pulsa o sentimento da moralidade, esses episódios ganhariam outros contornos. Entre nós, porém, vence a desfaçatez e a desonra. Quando não posam de vítimas de algum inimigo de outra coligação.


Por isso, continua sempre atual a metáfora do buraco da agulha para comparar com a dificuldade (ou impossibilidade) de um rico alcançar a salvação. Para superar tal dificuldade ou para viabilizar essa possibilidade, as riquezas materiais devem estar a serviço da fé do seu possuidor. Aquele que valoriza a sua fé não deixará que o poder político e os bens materiais prendam a sua alma e saberá utilizar desses controles sociais para transformá-los em um maior serviço aos irmãos. Quem exerce um cargo relevante na sociedade tem nas mãos uma oportunidade extraordinária de fazer o bem aos outros mais do que quem não está nessa situação. Quem obteve com seu trabalho um acúmulo considerável de bens não pode se considerar culpado porque outras pessoas não possuem tanto, mas deve transformar esses bens em maiores serviços às pessoas necessitadas.


Ecoa no ar a pergunta dos apóstolos: então, quem poderá salvar-se? A resposta pode ser: quem faz uso dos bens materiais em coerência com a verdadeira fé cristã.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

domingo, 6 de outubro de 2024

COMENTARIO LITURGICO - 27 DOMINGO COMUM - 06.10.2024

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 27º DOMINGO COMUM – MATRIMÔNIO E DIVÓRCIO – 06.10.2024


Caros Confrades,


Neste 27º domingo comum, a liturgia comemora o dia da família e enfoca o tema do matrimônio cristão, trazendo para nossa reflexão as leituras do Gênesis e do evangelho de Marcos. O tema traz para o debate a questão do modelo familiar tradicional, composto por homem-mulher-filhos, colocando em discussão os modelos alternativos, que desobedecem a natureza dos gêneros masculino e feminino e tentam convencer a sociedade para aceitação dos novos modelos. É a duvidosa ideologia do gênero, tão do gosto de muitos políticos e intelectuais autoproclamados progressistas. Outra questão também relacionada com o tema do matrimônio cristão é a grande preocupação do Papa com a situação dos casais de segunda união, isto é, aqueles que continuam casados pelo rito religioso, após terem se divorciado pelo rito civil, tendo contraído segundas núpcias. O papa Francisco até já expediu um documento abrindo conversações sobre o tema, que enfrenta profundas divergências no Vaticano e, em geral, na cúpula da hierarquia eclesiástica no mundo inteiro. Afinal, o matrimônio cristão é mesmo intocável ou é passível de flexibilização, dentro da realidade concreta de cada caso ou situação existencial? Esse é um tema sensível e controverso, que não pode ser simplesmente ignorado.


Na primeira leitura, retirada do livro do Gênesis (2, 18-24), temos a conhecida narração bíblica da denominação dos animais, feita por Adão, seguida de outra narração também muito enraizada na nossa cultura, que é a da criação da mulher a partir da costela do homem. Naturalmente, são duas narrativas metafóricas, isto é, de sentido figurado pois, embora no passado se aceitasse que fossem descrições de fatos acontecidos, na análise metodológica do texto feita pela hermenêutica bíblica contemporânea entende-se como histórias narradas com um conteúdo pedagógico, isto é, para ensinamento do povo hebreu. Na verdade, são duas parábolas, que devem ser entendidas dentro da sua simbologia e do seu alegorismo.


Nesse sentido alegórico, a parábola diz que Deus chamou Adão e mandou que ele “desse o nome” aos animais. Esse “poder” de dar o nome significava, na cultura hebraica, o domínio que o homem devia ter sobre os animais. Para os hebreus, o nome tinha um significado especial, não era apenas uma palavra e, então, dar o nome significava exercer influência sobre o nominado. Quem dá o nome a algo ou a alguém tem autoridade sobre aquilo ou aquele. Na cultura hebraica, o nome dado aos filhos pelo pai tem todo um significado do que ele espera que o filho venha a ser na sua vida. Ainda hoje, no Direito, prevalece a regra de que o nome dado aos filhos pelos pais não pode ser modificado, salvo raras e específicas situações. No caso bíblico, ao dar nomes aos animais, o personagem Adão simbolizava todos os homens em relação aos animais, ou seja, a superioridade do homem e o poder dado por Deus para que o homem utilizasse os animais para se alimentar e para auxiliar no trabalho de transporte de objetos e no aproveitamento de sua força física. E para dar destaque à posição da mulher nesse contexto, de acordo com a descrição bíblica, Adão não encontrou no meio desses animais “uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 20), requerendo uma ação especial do Criador.


Esse detalhe tem a finalidade pedagógica de ensinar ao povo que a mulher está numa posição mais elevada que os animais no seu relacionamento com o homem, ou seja, que ela está na mesma hierarquia do homem. Sim, porque nas culturas antigas, era comum a mulher ser considerada uma propriedade do homem, um objeto patrimonial do qual ele podia dispor como quisesse. O autor bíblico está ensinando que não é assim, mas que a mulher deve receber do homem um tratamento diferente dos animais, porque ela é uma espécie de 'auxiliar' (adjutorium, em latim) para ele. Para explicar isso, o narrador sagrado construiu uma historieta, que a hermenêutica bíblica chama de “legenda”: o sono de Adão e a retirada de sua costela. Observemos que não há verossimilhança nisso, porque se assim fosse, haveria um número diferente das costelas do homem no lado esquerdo em relação ao direito, e não há. O texto bíblico diz que o lugar de onde teria sido retirada a costela foi preenchido com carne (Gn 2, 21), não com outro osso. Ora, se nós fôssemos tomar essa narrativa ao pé da letra, como um fato ocorrido, os homens teriam uma costela faltando, o que não é verídico.


Outro detalhe que merece explicação é a afirmação de Adão (Gn 2, 23): “Ela será chamada 'mulher', porque foi tirada do homem'.” Na nossa língua, essa frase não faz sentido, mas na língua hebraica, o autor bíblico faz uma espécie de trocadilho com as palavras, do seguinte modo. A palavra 'homem' diz-se em hebraico 'ISH' e a palavra mulher diz-se 'ISHA'. Por isso, diz o escritor bíblico que ela foi chamada mulher (ish+a) porque foi tirada do homem (ish). Apesar disso, historicamente, sabe-se que tanto a sociedade hebraica, e ainda mais a sociedade romana, baseadas no patriarcalismo, sempre colocaram a mulher numa posição social de inferioridade, o que só veio a se modificar nos tempos atuais.


Na leitura do evangelho de Marcos (10, 5), o tema central é o matrimônio e as questões sobre a sua dissolução. Os fariseus perguntaram a Jesus sobre e legitimidade do divórcio que, segundo eles, teria sido permitido por Moisés. Disseram que Moisés havia instituído uma espécie de 'carta de repúdio' que o homem podia fazer para despedir a mulher. Foi quando Jesus os censurou, dizendo que Moisés só havia consentido naquilo como uma exceção, por causa da “dureza dos corações” dos seus ancestrais, mas isso não pode mudar o projeto divino, pois desde o começo da criação, Deus fez homem e mulher (“ossos dos meus ossos, carne da minha carne”, como disse Adão), para que os dois sejam uma só carne, através do matrimônio, isto é, os dois devem formar juntos as duas metades de um mesmo ser. E arremata taxativamente: o que Deus uniu, o homem não separe. (Mc 10, 9)


O texto de Moisés referido nessa discussão dos fariseus acerca da permissão do divórcio é uma das passagens mais controversas da Biblia e encontra-se em Deuteronômio (24, 1): “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora”. O livro do Deuteronômio contém inúmeros preceitos que, sob a aparência de norma religiosa, são de fato normas civis gerais, que eram usadas pelos juízes para o julgamento das questões entre os hebreus. No caso específico da condição “por encontrar nela algo que ele reprova”, de acordo com os biblistas, isso tinha relação com a origem familiar da mulher e com a sua situação sócio-religiosa, que talvez fosse ignorada pelo homem, ao contrair matrimônio. Durante o percurso no deserto, o povo hebreu recebeu muitas influências dos povos estrangeiros com os quais tiveram contato, sobretudo moabitas e amonitas, sendo este o principal motivo das frequentes “crises” de idolatria que ocorreram no meio do povo e que deram muito trabalho aos líderes e aos profetas. As mulheres estrangeiras traziam para o meio dos hebreus os costumes pagãos. Por exemplo, na religião desses povos, havia uma função feminina de “prostituta sagrada”, uma mulher que se fantasiava na ocasião dos cultos e sua identidade era desconhecida. Um hebreu poderia casar-se com uma delas sem saber dessa particularidade, vindo a saber somente depois. Portanto, quando Jesus disse que, no início não era assim, pois desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher para serem uma só carne, ele quer dizer que a regra do divórcio fora tolerada por Moisés, aplicando-se casos específicos, mas que os fariseus depois haviam transformado numa regra geral.


Pois bem. Conforme aludi antes, um dos graves problemas da pastoral religiosa dos nossos dias é o caso dos casais de 'segunda união matrimonial' entre católicos, para o qual o Papa tem demonstrado uma preocupação intensa e tem enfrentado sérias resistências no meio eclesiástico, em especial por parte dos teólogos conservadores. Não se pode partir da premissa de que isso ocorre apenas com pessoas que possam ser chamada de inconsequentes e levianas. Ocorre também com pessoas responsáveis e bem-intencionadas. A Igreja Católica não pode ficar adiando o enfrentamento desse problema, pois é grave e progride a todo momento. Cabe à pastoral religiosa oferecer alternativas concretas de solução, não sendo justo apenas reprovar e proibir a participação nos sacramentos. A caridade de Jesus vai muito além disso. Portanto, o grande desafio é buscar uma resposta coerente com o evangelho pois, como lemos hoje, Cristo foi taxativo contra o divórcio, no entanto, o Papa lembra, no documento citado antes, que o Senhor Jesus é um juiz compassivo e por isso, pastoralmente, é necessário analisar com maior benignidade os casos concretos de cada casal envolvido, deixando de lado o rigorismo e o formalismo. Mais importante do que as normas são as pessoas e é imperiosa uma abordagem mais humanística da realidade matrimonial vivenciada, com todas as vicissitudes e contingências da condição humana. Deve-se analisar com seriedade e profundidade o real motivo existencial daquelas pessoas que, pelas mais diversas razões, tiveram uma união matrimonial anterior malsucedida, para que possam reorganizar suas vidas não somente perante a sociedade civil, mas também perante a comunidade eclesial. Nem a sociedade nem a religião podem admitir atitudes discriminatórias. Aquela, por razões de justiça; esta, por razões de fé, esperança e caridade.


Com um cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

sábado, 28 de setembro de 2024

COMENTÁRIO LITURGICO - 26 DOMINGO COMUM - 29.09.2024

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 26º DOMINGO COMUM – TODOS PROFETAS – 29.09.2024


Caros Confrades,


A liturgia deste 26º domingo coloca em pauta um assunto que o Papa Francisco, por diversas vezes, já citou publicamente e causou controvérsias na Cúria Romana: Deus está não apenas na Igreja Católica, mas no meio de todos os que o procuram de coração sincero, independentemente da crença religiosa. Esse é o grande tema teológico que embasa o ecumenismo, sobretudo no esforço de aproximação do cristianismo com as grandes religiões monoteístas, que tem sido um dos pontos recorrentes nos discursos dos Papas, desde Paulo VI: cristianismo, judaísmo e islamismo. Ninguém possui o monopólio da fé. Essa exclusividade da única Igreja válida e verdadeira foi uma doutrina teológica muito forte no passado, dos tempos apologéticos. Ainda hoje um considerável número de católicos continua a afirmar isso, porém o próprio Cristo reprova esse exclusivismo, conforme vemos na leitura do evangelho de Marcos.


A primeira leitura, retirada do livro dos Números (11, 25-29), narra um episódio ocorrido durante a caminhada pelo deserto, quando os israelitas chegaram ao monte Sinai. Depois de vários meses comendo perdizes, maná e frutos do deserto, o povo estava descontente, com saudade da comida que tinham no Egito, onde comiam carne fresca e legumes e começaram a murmurar contra Moisés. Então, Javeh desceu da nuvem e mandou Moisés separar 70 homens dentre os mais idosos do povo para formarem uma espécie de 'conselho' de anciãos. Moisés fez isso e, diz o livro dos Números, que Javeh “Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram.” (11, 25). Porém, o trecho mais curioso vem logo a seguir: dois anciãos, que não participavam daquele grupo, também receberam o espírito e passaram a profetizar no acampamento (Eldad e Medad). Os invejosos foram logo enredar a Moisés, como se eles estivessem fazendo algo proibido, e Moisés deu-lhes um puxão de orelhas: que é isso? Estão com inveja porque vocês também não profetizam? Josué chegou a pedir a Moisés que ordenasse que eles dois parassem de profetizar, ao que este respondeu: 'Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!' (11,29). Josué era o “lugar tenente” de Moisés e talvez tenha se sentido diminuído porque ele próprio não recebera o dom de profetizar. Essa ciumeira do serviço religioso de hoje, como se percebe, já existia nos tempos bíblicos remotos. Moisés, inspirado, rejeitou isso: quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta! Nós também podemos exercitar a profecia, bastando estarmos atentos às manifestações do Espírito.


Nesse mesmo sentido, segue a narrativa do evangelho de Marcos (9, 38-43), quando João veio dizer a Jesus: “'Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue'. Jesus disse: 'Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor.” Os discípulos demonstraram aí um certo ciúme do Mestre e talvez achassem que somente a eles, do grupo de seguidores próximos de Jesus, era dado o poder de expulsar demônios. Mas Jesus fá-los ver que o Espírito sopra onde quer e ninguém pode inibir a ação do Espírito em sua liberdade total, ninguém manda no Espírito, ninguém tem o monopólio da profecia. É lamentável que alguns grupos radicais dentro da própria Igreja Católica não consigam entender esse ensinamento de Cristo. Um fato é notório: toda vez que o Papa recebe a imprensa para uma entrevista coletiva, a Cúria Romana fica em polvorosa, com receio do que “ele vai dizer”, ou seja, não acreditam no dom da profecia que ele tem, não acreditam na manifestação do Espírito através dele.


Ora, meus amigos, quando Jesus repreendeu os discípulos que haviam 'proibido' aquele homem que não era do grupo, para que não expulsasse demônios, era como se Jesus estivesse antevendo os diversos movimentos religiosos futuros, as distorções que iriam fazer da sua doutrina, os diversos 'missionários' que se apresentariam em nome dele, prometendo curas e arrebanhando grupos mais ou menos numerosos de seguidores. Em outras palavras, o que Jesus propunha era uma religião enquanto modo de vida, Ele não mandou que fosse fundada uma 'organização' estruturada com cargos e hierarquias, ou seja, Ele não mandou que se constituíssem 'igrejas'. Estas foram surgindo de forma espontânea, com a reunião de fiéis em torno de um líder. De início, esse líder era um dos apóstolos, depois passou a ser uma pessoa da Comunidade, a quem eles delegavam este poder, através da 'imposição das mãos' (ordenação), e assim foram sendo criados os vários 'cargos' internos: diáconos, sacerdotes, bispos, estruturando-se aos poucos uma hierarquia. Obviamente, essa organização é necessária e, ao longo do tempo, a Igreja tem dado demonstração da eficiência do seu modelo administrativo, apesar das inevitáveis vicissitudes, que decorrem da própria historicidade e da limitação dos seres humanos. Observando somente sob o aspecto puramente estrutural e formalista, não se pode negar a importância dessa organização, que vem atravessando séculos. Porém, não é essa a finalidade da Igreja. Isso é o meio, o suporte material, sem dúvida necessário, mas o seu objetivo último é a pregação da boa nova, o anúncio do evangelho. E não se deve confundir os meios com os fins.


Quando se faz a reflexão sobre a propagação da fé, a questão básica a ser enfrentada é esta: qualquer 'igreja' reproduz o ideal religioso proposto por Cristo? Ou somente uma delas, no caso a Igreja Católica Romana? E as outras religiões não cristãs, mas igualmente monoteístas, tais como o judaísmo e o islamismo, em que posição se enquadram? (Só uma observação necessária: falar em islamismo não deve ser confundido com o radicalismo do autodenominado Estado Islâmico, que pratica atrocidades em nome da religião, isso não representa todo o Islã). E as religiões orientais milenares, tais como o budismo, o bramanismo, taoísmo? O que dizer do espiritismo, do umbandismo, das vivências espiritualistas em geral, não ligadas a uma determinada religião? Pois é, Jesus disse claramente: quem não está contra nós, está a nosso favor. Há muito preconceito de parte a parte, reforçado ao longo dos séculos por lamentáveis acontecimentos, que dificultam as tentativas de reaproximação de todas essas formas de expressão religiosa, no entanto, a profecia de Cristo é que, um dia, haverá um só rebanho e um só pastor. Boa parte do sucesso desse empreendimento depende da forma como cada um de nós vive e pratica a sua fé.


Vemos na segunda leitura, retirada da carta do apóstolo Tiago (o irmão do Senhor) ensinamentos que parecem ser dirigidos para os donos do capital do mundo de hoje (Tg 5, 1-6): “o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso.” Quantas pessoas ficam ricas e vivem luxuosamente como consequência de exploração do serviço dos irmãos, do aproveitamento inescrupuloso do poder social, da sonegação e dos desvios dos bens públicos em benefício próprio, as campanhas políticas realizadas periodicamente mostram isso de modo bem claro. Contra esses, o Apóstolo é bastante ríspido: “E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós.” Nesse mesmo sentido, expressou-se o papa Paulo VI , na encíclica Populorum Progressio (1967), quando disse: a terra foi dada a todos, ricos e pobres, não apenas aos ricos. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo o que é supérfluo, enquanto para outros falta até o necessário. O Papa critica tanto o liberalismo sem freio, que conduziu ao imperialismo internacional do dinheiro, isto é, o capitalismo liberal, como também a coletivização integral e a planificação arbitrária, que priva os homens da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana, isto é, o comunismo. Ambos são paradoxalmente equivalentes.


Meus amigos, o desafio que a liturgia nos coloca é o de viver autenticamente a mensagem de Cristo, de forma honesta e objetiva, sem tentar adequá-la ao que é do nosso maior interesse. Se nos deixarmos levar pelos preconceitos, que ao longo do tempo fomos assimilando, corremos o risco de recair sobre nós aquela mesma repreensão que Cristo fez aos discípulos: não lhos proibais, porque quem não está contra nós, está conosco. Isso não quer dizer que agora cada um pode escolher a religião que lhe aprouver, como se todas são iguais, porque nós professamos uma fé e acreditamos nela. Significa, outrossim, que não podemos fazer discriminações de pessoas por motivos religiosos. Mais importante do que as denominações religiosas é a pureza do coração e a retidão da consciência, pois o monopólio da fé não foi dado a ninguém.


Que o Divino Mestre nos ajude a sermos autenticamente fiéis, para que a vivência da nossa religião não seja movida apenas pela tradição ou pelo costume familiar.


Cordial abraço.

Antonio Carlos


sábado, 14 de setembro de 2024

COMENTARIO LITURGICO - 24 DOMINGO COMUM - 15.09.2024

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 24º DOMINGO COMUM – CRISTO SOFREDOR – 15.09.2024


Caros Confrades,


Na liturgia deste 24º domingo comum, o evangelista Marcos destaca uma ríspida resposta de Cristo a Pedro, que foi falar-lhe coisas inconvenientes: “vade retro, satanas” (afasta-te, vai-te embora, satanás), uma das poucas demonstrações de atitudes de Cristo em que se vislumbra o quanto o seu lado humano, por vezes, conflitava com a fidelidade à missão que ele viera realizar. Outra vez, foi no Jardim das Oliveiras, quando ele suou sangue. Esses episódios representam de forma bem eloquente a presença em Cristo das naturezas divina e humana e mostram que, enquanto humano, ele sofria mesmo, não apenas fingia sofrimento, como afirmaram os seguidores do docetismo, nos primeiros tempos do cristianismo. Vale também uma explicação sobre o termo “satanás”, palavra hebraica transliterada para o grego, que significa literalmente “adversário”, “opositor”. Só na Idade Média, essa palavra tomou a acepção de diabo, demônio.


A primeira leitura, extraída do profeta (deutero) Isaías (50, 5-9), apresenta os poemas clássicos do servo sofredor, fazendo eco com a narrativa do evangelista Marcos (8, 27-35), quando Jesus falava para os discípulos dos sofrimentos pelos quais deveria passar, como parte integrante da sua tarefa messiânica, antecipando os acontecimentos que estavam por vir. Essa parte do livro de Isaías, chamada de deutero-Isaías, foi escrita durante o cativeiro da Babilônia, depois da morte do profeta, daí as referências ao sofrimento do povo, junto com as exortações de penitência e de confiança em Javeh, que na hora certa virá libertá-los. O servo sofredor do exílio babilônico é a prefiguração do futuro Messias, que irá personificar de forma plena esta figura, através da sua paixão e morte, para nossa redenção. A profecia de Isaías impressiona pela riqueza de detalhes com que seu autor descreve o futuro sofrimento do Messias, através de citações verdadeiramente inspiradas, que se confirmaram com elevada precisão.


Acerca desse tema do sofrimento de Cristo, é valioso recordar uma temática que foi objeto de múltiplas polêmicas, nos primeiros séculos do cristianismo, acerca da natureza humana e também divina de Cristo. Enquanto Ario (um bispo, fundador do arianismo) afirmava que Cristo não era igual a Deus, pois era filho e, portanto, subordinado a ele e hierarquicamente inferior, de outro lado havia os cristãos gnósticos, que afirmavam que Jesus tinha apenas uma aparência humana, quando na verdade, ele era Deus e o seu corpo humano era só uma ilusão de ótica. Essa doutrina era chamada de docetismo e afirmava que Cristo de fato não sofreu nada, a paixão foi toda uma grande encenação de sofrimento, pois sendo Deus, ele não poderia sofrer. Desnecessário dizer que ambas as doutrinas foram rejeitadas como heresias, pois a doutrina que se consolidou nas discussões acerca da pessoa de Jesus foi a de que ele possuía duas naturezas (divina e humana) sendo assim, verdadeiramente, Deus e homem, ou seja, ele sofreu de verdade como qualquer ser humano sofreria todas aquelas torturas, feridas, dores, enfim, tudo o que é tipicamente humano.


Pois bem, esse prólogo tem como finalidade esclarecer o diálogo de Pedro com Jesus, conforme está narrado no evangelho de Marcos (8, 27-35), sobre os episódios da vida de Cristo que antecedem sua ida a Jerusalém, onde viria a ser sacrificado. Após três anos de catequese diária com os discípulos, Jesus vendo aproximarem-se os seus dias finais, foi fazer uma espécie de pré-teste, como se diz no vocabulário moderno, um exame simulado, para saber como estava o entendimento dos seus discipulos acerca da sua pessoa. Ele começa perguntando por longe: quem as pessoas dizem que eu sou? Jesus não queria saber o que o povo pensava dele, mas sim o que os discípulos pensavam, porém pedagogicamente começou com uma pergunta bem genérica. Eles responderam: uns dizem que é João Batista, outros que é Elias ou algum dos profetas que ressuscitou. Então, Jesus vai direto ao ponto: e vocês, o que dizem? Antes que alguém respondesse, Pedro saiu na frente: Tu és o Messias. Eu não gosto dessa tradução da CNBB, porque na tradução de São Jerônimo, o texto está coerente com o termo original do grego: tu és o Cristo, então acho que assim devia ser mantida essa tradução. Embora se trate de conceitos sinônimos, penso que é mais correto conservar o original, por uma questão de fidelidade ao texto, já que não dificulta a compreensão.


Ao ouvir a confissão de Pedro, diz o evangelista Marcos que “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a respeito.” Em seguida, passou a dizer-lhes que “devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias.” Pedro, que era sempre muito falastrão, se meteu de novo na conversa, chamou Jesus um pouco ao lado e foi pedir-lhe para não falar essas coisas, porque nada disso iria lhe acontecer e só causava medo dos discípulos. Parece que Pedro tinha receio que as pessoas, ouvindo aquilo, começassem a se desiludir de segui-lo, porque muitos dos que o ouviam tinham a esperança de que Jesus fosse liderar uma rebelião contra os romanos, para expulsá-los do território da Judeia. Inclusive dentro do grupo dos apóstolos, a missão de Cristo não era bem entendida, aliás foi percebendo isso mesmo que Jesus começou esse diálogo incômodo e desgastante, mas necessário. Imaginemos que, para Jesus, era também muito constrangedor ficar falando nessas coisas, porque ele sabia da extensão dos acontecimentos, sabia das agruras pelas quais ia passar e a sua natureza humana entrava em conflito com a sua vontade divina, não devia ser nada confortável para Jesus ficar tocando nesse assunto tão delicado.


Daí porque ele não gostou nada quando Pedro foi insinuar que ele não devia falar aquilo. Ora, ele já falava com grande esforço e superando enormes dificuldades, e ainda tendo de escutar alguém tentando desvanecê-lo daquela ideia, aquilo passou dos limites. A reação de Jesus foi bastante ríspida, até mesmo com certa violência verbal: “ýpage opíso mou, satana”, diz o texto grego, que São Jerônimo traduziu por “vade retro me, satanas”. Essa expressão equivale a uma daquelas que nós dizemos quando estamos com raiva de alguém: vai pro raio que te parta... ou algo assemelhado. E Jesus ainda chamou Pedro de 'satanás', por isso convém explicar também isso. Essa palavra satanás, no nosso idioma, adquiriu o sentido de demônio, porém, o seu sentido original é bem mais brando. Na verdade, trata-se de uma palavra original do hebraico (satan), transliterada em grego, isto é, não é uma palavra da língua grega, e o seu significado próprio é adversário, inimigo, opositor. Então, é como se Jesus estivesse chamando Pedro de inimigo dele, porque estava dificultando o cumprimento da sua missão, não chamou de demônio. A irritação de Jesus também pode ser entendida se imaginarmos que ele sabia que um dos componentes do grupo estava ali com outros objetivos, então aquele puxão de orelhas que Pedro levou tinha também o objetivo de atingir, mesmo que indiretamente, Judas Iscariotes. Ademais disso, conforme já referi antes, essa atitude encolerizada de Jesus ressalta o seu lado humano, o lado emotivo, o sangue que esquenta diante de uma situação desagradável, enfim, a natureza humana de Jesus.


Podemos fazer aqui um link com a segunda leitura, do apóstolo Tiago (2, 14-18), onde ele fala que a fé autêntica não é válida sozinha, mas deve estar sempre acompanhada pelas obras: “a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta.” Encontramos atitude similar nos ensinamentos e nos exemplos que Jesus deixou. Nas várias parábolas que utilizou, ele sempre ressaltou a importância da ação, como fato exterior que acompanha o ato interior do cumprimento dos mandamentos. É isso que confirma o apóstolo João na sua carta: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu.” (1Jo 4, 20) Em relação aos sofrimentos associados à sua missão redentora, ele poderia muito bem ter operado um grande milagre, não se submeter a tantos padecimentos. Se observarmos bem, esse era o tema das “tentações” que Jesus sofreu quando se preparava para começar a sua vida de pregador e foi fazer um retiro no deserto. “Pra que isso?”, dizia-lhe o tentador? Por que não chamas teus anjos para te levarem nos braços... por que não ordenas a essas pedras que se transformem em pão para saciar a tua fome... por que... era o conflito interno que se passava na mente dele. Era muito mais simples e rápido obrar um milagre, como um passe de mágica, e tudo estaria resolvido. Mas assim ele não estaria sendo fiel ao mandato do Pai. Aquilo tudo era doloroso ao extremo, mas precisava ser enfrentado. Por isso, aquela insinuação de Pedro ecoou tão forte e perfurou tão fundo, como um grande espinho de mandacaru. “Sai pra lá”, foi mais uma tentação que ele precisou superar, para o correto exercício da sua messianidade.


Meus amigos, às vezes, precisamos dizer também “vade retro” para diversas pessoas e situações, a fim de nos mantermos fiéis à nossa missão Que o divino Mestre nos ilumine nas nossas tarefas de cada dia, para sabermos sempre discernir e seguir fielmente a missão que Deus nos deu.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos

domingo, 8 de setembro de 2024

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 23 DOMINGO COMUM - 08.09.2024

 

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 23º DOMINGO COMUM – AOS DESANIMADOS – 08.09.2024


Caros Confrades,


Neste 23º domingo comum, a mensagem do profeta Isaías se dirige aos desanimados: criai ânimo, não tenhais medo. Esta exortação do Profeta aos judeus exilados, que aguardavam a sua libertação do cativeiro da Babilônia, bem se aplica aos nossos conturbados tempos. O panorama geopolítico, tanto no nível nacional quanto no internacional, causa-nos grande apreensão e medo. Quem será o portador da recompensa, que vem de Deus, prometida pelo Profeta? As ondas migratórias, na Europa e na América Latina, deixam-nos em dúvida quanto à eficiência dos modelos políticos e administrativos aplicados nos países subdesenvolvidos, desafiam a nossa crença na recuperação da humanidade. O período político eleitoral gera conturbação na mente dos cidadãos sem esperança e sem confiança nos candidatos que se apresentam. Nós nos encontramos hoje tao desanimados quanto os judeus na Babilônia.


O profeta Isaías, na primeira leitura (35, 4-7), procura animar os desiludidos judeus, vencidos pelo cansaço de um cativeiro que já demorava vários anos, e se entregavam às lamentações e aos impropérios contra Javeh, que os tinha abandonado: até quando teremos de suportar tal castigo? por onde anda o Messias prometido? E o Profeta os consolava: “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar”. De fato, pouco tempo depois, o messias político esperado para libertá-los chegou: foi o rei Ciro, da Pérsia, que derrotou o rei da Babilônia, Nabucodonosor, e devolveu a liberdade aos judeus, que assim puderam retornar à sua terra. E diz mais o profeta Isaías:“Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos …  brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo.” Assim aconteceu, quando eles retornaram para a terra de Israel. Só que este messias-Ciro apenas de muito longe lembrava a figura do futuro Messias, que iria libertar não só o povo judeu, mas todo o gênero humano da escravidão do pecado e da morte. Por isso, naquela ocasião, dizia o Profeta: 'criai ânimo' porque logo logo virá a recompensa de Deus, que nos vem salvar. A Bíblia tem sempre um sentido histórico e outro transistórico, e assim, no primeiro momento, a profecia se referia ao messias-Ciro da Pérsia, mas no sentido do futuro, ao Messias-Cristo. Ciro não tinha o poder de devolver a visão aos cegos nem a deambulação aos coxos nem de soltar a língua dos mudos, mas o Profeta previu que isso aconteceria quando viesse o Messias verdadeiro. E sucedeu realmente como ele previra.


Na leitura do evangelho de Marcos (7, 31), temos a concretização da profecia de Isaías na ação histórica do verdadeiro Messias, através da narração do episódio da cura de uma pessoa surda e gaga. Ele colocou os dedos nos ouvidos moucos dele e com Sua saliva, molhou a língua trôpega do felizardo, e depois pronunciou a palavra forte “ephatá”, a qual o próprio evangelista explica que significa 'abre-te'. E logo aquele que era surdo e gago transformou-se num incontrolável falante-ouvinte. E quanto mais Cristo pedia para que ele se calasse, mais ele falava e proclamava as maravilhas realizadas nele. Esta palavra foi escrita por São Jerônimo, no texto latino, como 'ephphetha', enquanto no texto grego está escrito “effathá”, certamente por isso a tradução da CNBB utiliza o termo 'efatá' e eu estou usando com o símbolo antigo do F=PH, para distinguir com um sentido especial.


Meus amigos, este ephatá pode ser entendido de múltiplos modos. No sentido próprio utilizado por Jesus na ocasião do milagre, significou para o surdo-gago o abrir-se fisiológico dos seus ouvidos e da sua glote, para que ele pudesse articular sons e ouvi-los. Mas no sentido figurado, que se refere a nós, o ephatá se dirige à nossa mente, ao nosso coração, à nossa vontade, ao nosso intelecto. Cristo está nos dizendo 'abre-te' para que possamos compreender melhor a nossa missão e assim podermos melhor testemunhar a nossa fé. Esse seria o significado intelectual do ephatá. Saber interpretar com maior clareza a palavra de Cristo dentro dos desafios que a vida social nos coloca a cada dia, em meio a tantas e tão variadas dissensões, alternativas, exigências, falsas promessas e diversas quimeras que nos rodeiam. Abrir a nossa mente para compreendermos de que modo o nosso viver pode dar testemunho de que somos a Igreja de Cristo no meio do mundo, com a maior naturalidade e sem afetação. Nesse contexto, vale aqui uma referência ao grande problema mundial das migrações, causando pânico tanto na Europa quanto na América Latina. Pessoas que deixam tudo por motivos de guerra ou por motivos políticos e econômicos e partem em busca de novos horizontes. Uma parte deles tem sorte e consegue chegar ao seu destino; outros terminam suas vidas nessa rota de travessia, ao enfrentarem os mais variados desafios. O Papa Francisco, numa demonstração de profetismo contemporâneo e de inigualável solidariedade cristã, tem manifestado irrestrito apoio a todos esses irmãos andarilhos e tem incentivado as famílias e as autoridades para darem atenção aos que sofrem com esse infortúnio. No Brasil, especificamente, tem ocorrido a entrada de inúmeros cidadãos venezuelanos para o Amazonas, através da região norte, e de lá espalham-se por todo o Brasil, inclusive o Ceará. O ephatá do evangelho de Marcos vem nos alertar para, ao menos no plano espiritual, abrirmos o nosso entendimento e o nosso coração em prol desses irmãos desafortunados.


Um outro sentido que podemos descobrir no comando ephatá, associado ao anterior, é o volitivo, quando a mensagem cristã nos convida a ser solidários com os que nos estão mais próximos. E aqui eu trago à colação a segunda leitura, retirada da carta de São Tiago (2, 1), que vai direto ao assunto, sem rodeios, dando um exemplo que até parece estar se referindo aos dias de hoje: “ imaginai que na vossa reunião entra uma pessoa com anel de ouro no dedo e bem vestida, e também um pobre, com sua roupa surrada, e vós dedicais atenção ao que está bem vestido, dizendo-lhe: 'Vem sentar-te aqui, à vontade', enquanto dizeis ao pobre: 'Fica aí, de pé', ou então: 'Senta-te aqui no chão, aos meus pés'.” Mais direto, impossível. Quantas vezes, isso pode ter acontecido conosco, por não estarmos com a mente aberta para perceber além das aparências, além das etiquetas sociais. Um pobre que bate à nossa porta pedindo um pouco de alimento tem a mesma dignidade como pessoa do q ue um profissional liberal que nós recebemos na nossa casa de portas abertas. Não estou dizendo que se deva deixar entrar em sua casa qualquer pessoa desconhecida, pois a cautela também faz parte da vida do cristão. Refiro-me à atitude de falta de respeito humano com que, muitas vezes, vemos as pessoas mais humildes serem tratadas por outros e até por nós mesmos. Infelizmente, há cristãos que se orgulham de ser católicos de carteirinha (até mesmo sacerdotes) e tratam mal as pessoas de vestes maltrapilhas ou surradas, usando a expressão do apóstolo Tiago. Daí a exortação dele: “a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas”, isto é, não deve permitir que sejamos injustos com pessoas menos favorecidas, exatamente aquelas mais precisadas.


Num terceiro sentido, que eu chamaria de afetivo, o conceito de ephatá nos leva a refletir sobre a nossa abertura interior para compreender a nossa missão, o que Deus quer de nós. Estar aberto à graça divina é condição indispensável para que esta graça de Deus opere através de nós. Deus não nos obriga, não nos impõe, não vem a nós em qualquer condição, mas apenas quando encontra a porta da nossa alma aberta para recebê-lo. Os teólogos, desde S. Tomás de Aquino, sempre foram acordes em reconhecer que Deus dá a sua graça a todas as pessoas, no entanto, para que esta graça seja eficaz, é necessário que estejamos abertos, disponíveis, atentos, desejosos de recebê-la. Deus nos dá a graça da salvação, porém, sem a nossa colaboração, sem a nossa disponibilidade, sem que façamos a nossa parte, esta graça não operará seus efeitos em nós. Estar aberto à graça divina é condição indispensável para que ela penetre em nós e nos faça verdadeiros filhos d'Ele.


Hoje, dia 8 de setembro, celebra-se também a Natividade de Nossa Senhora, que não se comemora por ser domingo. Esse título de Maria está associado ao de Nossa Senhora do Brasil, festividade comemorada no Seminário Seráfico, onde ela é padroeira. Era também a data onomástica do nosso querido confrade Mariano (meus filhos, meus filhos). Que ele descanse em paz e que a Nossa Mãe do Brasil fortaleça na fé todos os que por lá passaram e nos ajude a manter sempre a nossa mente e o nosso espírito disponíveis à graça divina, assim como Ela fez e que tornou possível a nossa redenção.


Cordial abraço a todos.

Antonio Carlos