domingo, 28 de setembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 26º DOMINGO COMUM - OBEDIÊNCIA E FIDELIDADE - 28.09.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 26º DOMINGO COMUM – OBEDIÊNCIA E FIDELIDADE– 28.09.2014

Caros Confrades,

A liturgia deste domingo deste 26º domingo comum dá sequência às parábolas de Jesus em relação aos fariseus, enfocando o tema de que obedecer não é cumprir formalmente a lei, mas vivê-la no seu coração. Cristo nos deu o mais perfeito exemplo da obediência, no dizer do apóstolo Paulo, quando deixou de lado sua condição divina e assumiu a nossa humanidade, humilhando-se até à morte, tudo para cumprir com fidelidade o plano do Pai.

A primeira leitura é retirada do Profeta Ezequiel, que chama a atenção para a conduta de acordo com a justiça, como garantia de uma vida longa. É importante lembrar que Ezequiel profetizou no tempo do exílio da Babilônia junto aos exilados. Ele era também um deles. Javeh permitiu que o povo hebreu sofresse essa imensa humilhação de ser levado cativo para uma terra estrangeira, por causa da desobediência à aliança, porque abandonaram o projeto dos Patriarcas, porque trocaram Javeh pelos ídolos e a lei pela vida luxuosa. O Profeta adverte: “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre.” (Ez 18, 26)  Era isso que havia acontecido ao povo hebreu: desviara-se da justiça, por isso estava no cativeiro. Todos tinham fé em que Javeh não iria deixar o seu povo para sempre cativo. No entanto, o Profeta foi enviado para anunciar que a libertação só ocorrerá quando eles se converterem, isto é, abandonarem a vida de desobediência e retornarem para o projeto de Javeh. O estilo de Ezequel é cheio de imagens fortes, pelas quais ele busca sensibilizar o povo. É muito conhecida  a profecia dele no cap. 36, 26: “tirarei do vosso peito o coração de pedra, e vos darei um coração de carne ” O coração do povo estava petrificado e essa era a missão do profeta: amolecer-lhes o coração. Não é certeza que Ezequiel tenha retornado do exílio, pois não são conhecidos os detalhes da sua morte. No entanto, a sua missão profética foi decisiva e seu trabalho foi completado pelos seus discípulos.

Na segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Filipenses, lemos aquela conhecida e nem sempre bem compreendida passagem em que ele diz que Cristo não se prevaleceu do fato de ser igual a Deus, isto é, não quis ter nenhum privilégio. A tradução da CNBB é infeliz, ao meu ver, porque fala em “usurpação”, abrindo espaço para entendimentos fora do contexto, no meu modesto modo de pensar. Com efeito, Paulo está enfatizando a fidelidade de Cristo ao projeto do Pai, fazendo-se obediente em tudo e, por isso, o Pai O exaltou e O colocou acima de tudo e Lhe deu um Nome que está acima de todo nome. (Fl 2, 9) Convém sempre lembrar que a comunidade de Filipos foi a primeira fundada por Paulo e pela qual ele tinha uma afeição especial, como se quisesse tornar esta a comunidade modelo para as outras. Daí ele dizer: “Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. ” Vê-se o cuidado que ele tinha em manter a comunidade fiel na observância do evangelho, evitando conflitos, praticando o amor mútuo e a comunhão fraterna. A fidelidade ao evangelho era a melhor maneira de conservar a obediência a Deus.

Temos no evangelho de Mateus (21, 28-32) outra das parábolas de Cristo dirigidas aos fariseus, que se consideravam obedientes a Deus porque cumpriam rigorosamente os preceitos da Lei. E por causa disso, desprezavam os outros (cobradores de impostos e prostitutas) porque não observavam tais preceitos. No domingo passado, foi a parábola dos trabalhadores que chegaram em horários diferentes e todos receberam o mesmo salário, contra os fariseus que se julgavam mais merecidos do que os pecadores. Aqui, Jesus faz uma comparação. Um pai tinha dois filhos e mandou a ambos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse: “não vou” mas, depois, pensou melhor e foi; o segundo disse “vou já”, mas não foi. E aí faz a pergunta retórica e de resposta óbvia: qual dos dois realmente obedeceu ao pai? Os próprios sumos sacerdotes (fariseus) responderam corretamente, porém não compreenderam que, novamente, Jesus estava contrapondo os pecadores, representados pelo filho que, a princípio, desobedeceu ao pai, mas depois arrependeu-se e foi fazer o que o pai mandara, com a conduta dos fariseus, representados pelo filho que aceitou o compromisso, porém não o cumpriu. Os fariseus, além de se considerarem automaticamente salvos porque obedeciam fielmente os preceitos da Lei, ainda desdenhavam dos pecadores (cobradores de impostos, prostitutas) que estariam assim condenados a priori. Por isso, Jesus usa um linguajar mais do que direto: “João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.” (Mt 21, 32) Ora, os fariseus achavam que não tinham do que se arrepender, pois afinal eles se consideravam puros e fiéis, eles eram os cumpridores da lei, não os outros. O que mais admirava aos fariseus nas atitudes de Jesus é que Ele, em vez de ficar na sinagoga, no meio deles, andava nas praças, nas montanhas, nas beiras dos lagos junto com os pecadores. Ora, se eles, fariseus, eram os herdeiros da promessa, então por que a prioridade de Jesus não fora dada a eles? Essa foi a questão que eles nunca entenderam.

Meus amigos, é muito comum observarmos essa atitude dos fariseus na conduta de muitos cristãos de hoje. No domingo passado, eu fiz a alusão às duas senhoras que discutiam no estacionamento da igreja logo após a missa. Mas esse é um exemplo entre muitos, infelizmente. Nos ambientes internos dos diversos serviços paroquiais encontramos cristãos que estão longe de praticarem o conselho de Paulo aos Filipenses (2, 3): “Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro.” Existe mesmo uma competição indisfarçada, uma busca insensata pelo “poder” dentro da comunidade, prática de bajulação como forma de conquistar a confiança do Pároco, domínio de espaços e locais (por ex: essa é a “minha” missa desde tantos anos), e o que é pior, chegam ao ponto de travarem discussões e agressões, gerando um clima de rivalidade e desconfiança. Provavelmente cada um dos leitores já se deparou com situações dessa espécie. Quanto maior visibilidade tem a função, maior é a disputa por ela no ambiente paroquial. Muitas vezes, a situação se torna tão instável, a ponto de comprometer até a permanência do próprio Pároco, porque as “conversas” chegam até o Bispo. Fico a imaginar que essas pessoas, se tivessem vivido no tempo de Cristo, estariam ali gritando: solta Barrabás.

Quero destacar, nesse contexto, que estamos em tempo de novena para a festa de São Francisco. Ele foi o modelo da obediência, legado que deixou para todos os seus seguidores. São Francisco ensinava aos frades o que ele chamava “obediência de cadáver”, algo como se a pessoa obediente não devesse ter vontade própria, mas comportar-se exatamente como lhe ordena o superior. Assim como se alguém coloca um cadáver numa posição, dali ele não se mexe. Lembro de uma historieta que o Frei Higino contava (e ele contava muitas) sobre um frade a quem o superior deu ordem para que ele levasse um certo objeto para um certo lugar “do modo mais rápido possível”. Esse frade, sem titubear, estando no andar de cima do prédio, simplesmente pulou a janela, não usando a escada, porque aquele era o modo mais rápido. E, segundo o Frei Higino, o frade “aterrissou” suavemente no chão, porque ele estava fazendo aquilo “em obediência”. Evidentemente, ninguém repetiria mais, nos dias de hoje, tais histórias nem iria afirmar, como São Francisco, que o obediente é igual a um cadáver. Essa era a pedagogia da época. No entanto, devemos sempre lembrar que a obediência é sinônimo de fidelidade, não de mero cumprimento de uma ordem. O exemplo de Cristo na parábola já ensinava isso: obediente não é aquele que diz “sim” e não pratica, ou seja, aquele que cumpre sua obrigação só da boca para fora, sem o envolvimento interior. Obediência não é fazer somente porque estão todos observando ou “para não dar o que falar”. Obediência é agir com o coração, mesmo que às vezes ocorram imperfeições nesse agir. O profeta Ezequiel já advertia aos cativos da Babilônia: “Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida.” (Ez 18, 27) Eventuais falhas na ação fazem parte da condição humana de seres pecadores, que somos nós. Foi para que tenhamos forças de superar as fraquezas da nossa natureza imperfeita que Cristo nos deixou os seus ensinamentos e os seus sacramentos, por meio dos quais permanece conosco. A humildade para reconhecer os próprios pecados e arrepender-se deles é o caminho que leva o cristão à perfeição. Os fariseus nunca entenderam isso, nem antes, nem agora.
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domingo, 21 de setembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 25º DOMINGO COMUM - JUSTIÇA DIVINA E JUSTIÇA HUMANA - 21.09.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 25º DOMINGO COMUM – JUSTIÇA DIVINA E JUSTIÇA HUMANA – 21.09.2014

Caros Confrades:

Neste 25º domingo comum, a liturgia aborda um tema bem interessante, acerca da diferença entre os modos de pensar divino e humano, mais especificamente no que diz respeito à justiça. A justiça divina não segue a lógica linear do pensamento humano, o que faz com que, muitas vezes, encontremos pessoas se queixando de que Deus não as ouve, não as atende, Deus teria sido injusto em relação a estas. Na verdade, o que nós precisamos mesmo é tentar compreender os fatos dentro dessa lógica diferente da nossa, que é a justiça divina.

Na primeira leitura, retirada do livro do Profeta Isaías (55, 6-9), lemos aquela conhecida advertência do profeta no sentido de que “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor.” Há um ditado popular que afirma que Deus escreve direto por linhas tortas, o que tem um sentido equivalente ao ensinamento do Profeta. E a única maneira de chegarmos a compreender essas linhas tortas é através da fé, porque devemos ter a certeza de que Deus nunca nos desampara e, mesmo quando as coisas parecem sair do trilho correto, surpreendendo o nosso modo de pensar, por ali passa a mão divina conduzindo os fatos e direcionando os acontecimentos. Sem a ajuda da fé, nós jamais alcançaremos as diretrizes divinas, como nos consola o Profeta no vers. 9: “Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra.” Para vencer uma barreira dessa dimensão, por certo que as nossas forças não são suficientes. A solução é, na maioria das vezes, crer e esperar.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Filipenses, vemos o Apóstolo se debater entre essas duas dimensões da existência: viver segundo o corpo e viver segundo Cristo. Diz ele, nos vers. 23-24: “Sinto-me atraído para os dois lados: tenho o desejo de partir, para estar com Cristo - o que para mim seria de longe o melhor - mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo.” É nesse contexto que ele diz aquela famosa frase: para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Pensando sob uma ótica humana, tal afirmação é totalmente contrária à lógica. Nenhum cristão encara com essa tranquilidade a realidade da morte, sendo esta sempre um motivo de preocupação e de desespero. O cientista britânico Bertrand Russell escreveu, certa vez, um livro com o título “porque não sou cristão” e uma das críticas que ele faz aos cristãos é nesse sentido. Os cristãos dizem que a vida no outro mundo é infinitamente superior à vida material, no entanto, no seu comportamento, demonstram um medo inexplicável de morrer, o que é incompreensível, já que a morte é condição necessária para chegar ao outro mundo. Uma coisa está em contradição com a outra. Essa é a grande dificuldade que se coloca para nós, na vida corpórea, qual seja a de pensar de acordo com os pensamentos divinos. Mas nos consola o fato de que isso não ocorre apenas conosco, simples seres humanos, pois Cristo também, na sua trajetória terrestre, revestido da natureza humana, expressou sentimento de apreensão e medo diante dos sofrimentos e da paixão que se avizinhava. Com efeito, nós somente teremos a possibilidade de compreender plenamente o modo de pensar divino quando estivermos completamente situados na esfera da imortalidade. Antes disso, o que nos sustenta é a fé e o que nos anima é a misericórdia divina.

No evangelho de Mateus (20, 1-16), lemos hoje mais uma das inúmeras parábolas que Jesus contou dirigindo-se aos crentes que, por frequentarem a igreja e praticarem os mandamentos, se julgam superiores às outras pessoas, que não vivenciam as práticas exteriores da religião. Como de costume, o alvo direto eram os fariseus, no entanto, numa aplicação extensiva, dirige-se a todos cristãos. É a história sobre o dono da videira e os trabalhadores contratados por ele. Examinemos a questão sob a ótica da justiça humana. O patrão acertou com os trabalhadores o pagamento de uma moeda pela diária. Fez assim com os que iniciaram o trabalho logo no começo do expediente e eles concordaram. No meio da manhã, ele contratou outros operários também nas mesmas condições. Outro grupo foi contratado ao meio dia, mais um grupo às três da tarde e outro grupo já ao anoitecer, todos com base na diária de uma moeda de prata. De início, vejamos aqui Jesus adotar a sequência das horas do calendário romano da época: hora prima (amanhecer), hora terça (cerca de 9 horas), hora sexta (meio dia), hora noa (3 da tarde), vésperas (entardecer). Essa era a sequência das horas canônicas em que se distribuíam as orações do breviário romano. Quem fez noviciado se lembra disso muito bem.

Na hora do pagamento, começaram a receber os últimos a chegarem: uma moeda de prata para cada um. Aqueles que haviam trabalhado desde o início do dia, ao verem aquilo, ficaram animados esperando que o pagamento deles fosse mais do que isso, pois enquanto eles trabalharam o dia inteiro, os últimos trabalharam apenas uma hora. Isso não aconteceu, então resmungaram e reclamaram do patrão, cuja atitude acharam injusta. Se trabalharam mais, mereciam receber mais. Dentro de um parâmetro de justiça humana, um tal patrão teria sido totalmente injusto, porém o exemplo dado por Cristo não se enquadra no conceito da justiça humana. O patrão é o Pai do Céu e o pagamento pelo trabalho na vinha é a salvação. Não existe uma salvação maior do que outra, para todos os redimidos, o prêmio da redenção é um só: o reino do céu. Essa conquista tanto é alcançada por aqueles que praticam os mandamentos desde a infância, quando foram admitidos na Igreja de Cristo pelo batismo, quanto se aplica também a quem foi iniciado na vida cristã já na juventude ou na maturidade. Alguns de nós chegamos na “vinha” ainda na madrugada, quando fomos introduzidos na casa de Deus por nossos pais. Outros foram catequizados na adolescência, ainda outros na idade adulta. Mas aqueles que “chegaram primeiro” não podem arvorar-se de mais merecedores, porque seguem a lei de Deus há mais tempo. E aqueles que se convertem na hora da morte também terão o mesmo “prêmio” como os que se dedicaram ao trabalho do reino durante toda a vida. Assim é a justiça divina. Recordemos o profeta Isaías: os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, diz o Senhor.

A parábola de Jesus se dirigia, na época, aos fariseus, que se julgavam “justos”, porque cumpriam rigorosamente a lei, e desprezavam os publicanos e pecadores, porque não cumpriam a lei e, portanto, não teriam os mesmos “direitos” que os primeiros. Quando viam Jesus se dedicando a essas pessoas “excluídas”, eles logo diziam: Ele não pode ser mandado por Deus, porque se fosse, se dirigiria a nós. Os fariseus, assim como os judeus em geral, que se originaram do “povo da aliança” feita por Javeh com os Patriarcas, estavam na “vinha” desde a madrugada, trabalharam durante muito tempo, achavam que a eles estava destinado o Reino de Deus, não àqueles que desprezavam a lei e estavam sendo conquistados por Jesus. Ao invés de se alegrarem com a ampliação do número de crentes, eles tinham “ciúmes” destes, como que se recusassem a “repartir o tesouro” com esses preguiçosos, que chegaram só “no final do dia”. Aqui entra a resposta do patrão, de acordo com o texto da parábola: eu não fui injusto contigo, paguei-te o que tínhamos combinado. (20, 13). A promessa que fora feita aos antigos patriarcas, milênios antes de Cristo, era a mesma que Ele, como enviado direto do Pai, veio trazer a todos os povos, não apenas àqueles que caminharam pelo deserto. Isso os fariseus nunca entenderam.

Pois bem, meus amigos. Essa advertência de Cristo aos fariseus deve nos motivar a não fazermos críticas nem tratarmos com indiferença as pessoas que “não fazem como nós”. É bastante comum os cristãos serem criticados assim: “fulano é de dentro da igreja, no entanto, ...”. Nâo faz muito tempo, aconteceu aqui na Paróquia, que duas senhoras, que haviam saído da igreja, estavam a discutir no estacionamento, na hora de retirarem os veículos, uma não queria ceder espaço para a outra passar. Casualmente, o Pároco ia passando pelo local e, ao ver aquilo, disse assim: de que adianta vir à igreja, participar da missa e comungar? Logo, as duas caíram em si e se comportaram como gente civilizada. Precisamos estar atentos para que uma tal conduta não nos surpreenda.

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domingo, 14 de setembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 24º DOMINGO COMUM - A SANTA CRUZ - 14.09.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 24º DOMINGO COMUM – A SANTA CRUZ – 14.09.2014

Caros Confrades,

Na liturgia deste domingo, 24º do tempo comum, as celebrações estão voltadas para a glorificação da cruz de Cristo. Fazendo o contraponto com a liturgia da sexta feira santa, na qual se celebra a morte de Cristo na cruz, portanto, os atos litúrgicos estão voltados para a paixão do Senhor, sendo o tom da festa um silêncio circunspecto, nesse dia 14 de setembro, exalta-se a cruz numa festa de alegria, porque foi através dela que veio para nós a salvação. É uma celebração litúrgica que remonta ao século IV e também é comemorada na mesma data pelas igrejas orientais com ritual solene, tendo precedência sobre a liturgia dominical.

Fora do contexto dos ritos graves que circundam o tríduo pascal, a festa da Exaltação da Santa Cruz foi instituída no ano 335, quando o imperador Constantino mandou erguer uma basílica sobre o monte Gólgota, no mesmo lugar onde Jesus fora crucificado, tendo sido colocada nesse templo a “vera cruz”, ou seja, aquela em que Jesus morreu. Já haviam se passado mais de 300 anos da morte de Cristo, quando os cristãos conseguiram encontrar a cruz, realizando escavações nos arredores de Jerusalém. Os trabalhos de busca levaram a diversas cruzes, porque era muito comum a utilização desse instrumento de morte na época de Cristo. De acordo com a tradição, a “vera cruz” foi reconhecida por uma “metodologia” bastante intuitiva: com as várias cruzes enfileiradas uma ao lado da outra, teria sido colocado um cadáver de um homem sobre cada uma delas e, quando isso foi feito na verdadeira, o homem milagrosamente reviveu. Muito provavelmente, essa história faz parte daquele “folclore” que vai sendo transmitido de geração em geração, a ponto de não se saber mais de onde se originou. Mas, por qualquer que tenha sido o método, os fiéis da época, liderados pelo imperador romano e pela mãe deste, Santa Helena, iniciaram a tradição de adorar essa cruz, que continua sendo reconhecida como a verdadeira. E mesmo que não seja, a sua antiguidade e a glorificação que vem recebendo ao longo de tantos séculos faz dela um verdadeiro ícone da fé cristã.

As leituras litúrgicas desta data fazem uma alusão à imagem da cruz associada à restauração da vida. Na primeira leitura, do livro dos Números (21, 4-9), relata-se o episódio da serpente de bronze amarrada a uma estaca, por ordem de Javeh. O título deste livro em hebraico diz-se Bamidbar, que significa literalmente 'No deserto'. Na tradução para a língua grega, o título do livro foi modificado para Arithmoi (aritmética, números, contagem), porque no seu texto constam dois recenseamentos do povo, feitos durante a sua trajetória pelo deserto. Neste livro, encontram-se também muitos preceitos práticos, que constituem uma espécie de tratado legislativo do povo hebreu. E é também neste livro, no cap. 6, 24, que consta aquela bênção que São Francisco costumava usar para abençoar seus frades: O Senhor te abençoe e te guarde, mostre para ti o Seu rosto e tenha piedade de ti... Pois bem. Na leitura da liturgia de hoje, relata-se o episódio em que os hebreus maldiziam Moisés por tê-los tirado do Egito e tê-los levado por uma trajetória sem fim pelo deserto, com toda a sorte de privações. E amaldiçoavam também a Javeh, que mandou serpentes venenosas para castigarem o povo maledicente. O povo se arrependeu e pediu a Moisés que intercedesse por eles. Então, Javeh ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze e a pendurasse numa vara comprida. Aquele que fosse mordido por uma serpente e olhasse para aquela feita de bronze, ficaria curado. Então, a figura da serpente de bronze suspensa significou para os hebreus um instrumento de salvação. Muito tempo depois, Jesus irá retomar esse episódio para comparar com a sua própria paixão.

Na segunda leitura, da carta aos Filipenses (2, 6-11), Paulo relembra àqueles cristãos que Cristo deixou de lado sua condição divina e assumindo plenamente a sua humanidade, humilhou-se ao máximo, sendo morto numa cruz, que era naquela época um suplício aplicado apenas aos escravos e aos mais terríveis delinquentes. Daí Paulo dizer que Cristo esvaziou-se a si mesmo, isto é, escondeu sua divindade por trás da sua humanidade e, mais ainda, escondeu essa humanidade por trás da condição humana mais vil, permitindo-se uma variedade de morte infame e humilhante. Mas Ele fez isso justamente para que o Pai o exaltasse, porque foi para isso que ele assumiu a condição humana. Por isso, o Pai O colocou acima de tudo e Lhe deu um nome que está acima de todo nome. E com isso, Cristo transformou aquele instrumento de suplício num recipiente de gozo, transformou aquele aparelho de sofrimento num capitel de regozijo, aquele aparato de humilhação num trono de exaltação. Depois disso, todo joelho que há no céu, na terra e embaixo da terra se dobrará em sua homenagem. Foi certamente esse hino de exaltação da cruz, composto por Paulo na carta aos Filipenses, que motivou a festa litúrgica desta data.

Na leitura do evangelho de João (3, 13-17), Jesus recorda a figura da serpente erguida na haste por Moisés no deserto para comparar isso a Ele próprio, no contexto de sua conversa com Nicodemos. Apenas o evangelista João narra esse episódio. Nicodemos era um mestre da lei, portanto, um fariseu especialista nas escrituras, que acreditava em Jesus, porém não podia declarar isso publicamente, por receio de represália dos demais, por isso, foi ter com Jesus à noite, às escondidas, e confessou a ele a sua fé. Nicodemos ficou embaraçado quando Jesus disse que somente quem renascesse poderia ver o reino de Deus. Renascer? Mas eu já sou um adulto, como pode ser isso? Nicodemos pensou logo no nascimento biológico, porém Jesus falava do renascimento em espírito. Por isso, Jesus fez até uma ironia com ele: “tu és mestre da lei e não sabes disso?” Sim, ele não sabia mesmo. Então, Jesus usou como exemplo uma figura conhecida por Nicodemos: a serpente de Moisés. Lembra de quando Moisés suspendeu uma serpente no deserto, para que todos os que a mirassem fossem salvos? Pois assim acontecerá com o Filho do Homem. Convém que seja suspenso também, de modo que quem o vir e nele crer tenha a vida para sempre. A figura da serpente erguida por Moisés fora um símbolo que preconizava a elevação de Jesus na cruz com o mesmo objetivo: trazer a salvação aos que olharem para Ele com fé.

Meus amigos, vejamos aqui uma situação de aparente contradição. Javeh havia proibido os hebreus de fazerem ídolos ou imagens d'Ele próprio, pois Ele devia ser adorado em espírito e em verdade. No entanto, neste caso relatado em Bamidbar, o mesmo Javeh mandou que Moisés fizesse um “ídolo” de bronze em forma de serpente. Não que Javeh se comparasse à figura de uma serpente, mas de todo modo, a mesma serpente que gerava a morte também passou a gerar a vida. Somente Javeh é o senhor da vida, então aquela figura idolatrizada da serpente funcionava como uma mediação entre a morte e a vida, para os que n'Ele acreditassem. Vemos com isso que Javeh não era totalmente contrário à feitura de imagens, Ele não queria ser retratado nelas. E o fato de Jesus, muito tempo depois, ter retomado a figura da serpente de bronze como portadora da vida para comparar a Si próprio, elevado numa haste de madeira, avaliza a idéia de que a confecção de imagens não é proibida, de forma absoluta, por Deus, mas as imagens devem ser símbolos e sinais daquelas verdades que representam. Javeh não mandou que ninguém adorasse a serpente, mas apenas que olhasse para ela com o coração contrito. Essa é a mesma atitude que o cristão deve ter diante das imagens sagradas, não se detendo nas figuras em si, mas servindo-se delas para melhor vislumbrar os sinais que elas representam.

É curioso observar que muitas pessoas invocam textos bíblicos para afirmarem que Deus não gosta das imagens e as proibiu. Esquecem de invocar também a imagem da serpente como mediadora da salvação. É o caso de dizermos o mesmo que Jesus disse a Nicodemos: tu és um mestre da lei e ignoras isso? Ou seja, buscas na escritura apenas aquelas passagens que favorecem a justificativa do teu ponto de vista? Ficas preso às palavras e expressões da lei e não consegues descobrir nelas o sentido mais profundo da sua mensagem? É por isso que toda interpretação fundamentalista da escritura deve ser evitada. É por isso que já afirmei, nesses escritos, por diversas vezes: não basta ler a Bíblia, é necessário estudar a Bíblia, aprofundar o seu conteúdo, compreendê-la no seu contexto histórico e cultural, para que possamos tentar descobrir a sua mensagem verdadeira.

A festa da Santa Cruz é sequenciada pela festa de Nossa Senhora das Dores, nesta segunda feira, dia 15 de setembro. Ao falar na cruz e morte de Cristo, não podemos esquecer que o sofrimento de Maria está também associado à cruz e é um fator de extraordinária importância no contexto dos eventos da história da salvação. Mãe das Dores, rogai por nós.

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domingo, 7 de setembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 23º DOMINGO COMUM - CORRIGIR O IRMÃO - 07.09.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 23º DOMINGO COMUM – CORRIGIR O IRMÃO – 07.09.2014

Caros Confrades,

Neste 23º domingo comum, o tema da liturgia diz respeito ao dever do cristão de chamar a atenção dos irmãos que, de algum modo, se desviam da fidelidade aos mandamentos divinos. No tempo do Noviciado, nós exercitávamos diariamente a prática da correção fraterna e o “corrigido” ainda tinha que dizer “seja pelo amor de Deus a sua santa caridade.” Esse dever decorre da responsabilidade que cada um de nós tem de reconduzir de volta ao caminho a ovelha desgarrada. Os nossos co-irmãos não católicos assumem isso como uma obrigação rotineira. Se um não comparece ao culto, no dia seguinte, alguém vai ter com o faltante a indagar-lhe os motivos da sua ausência. Entre os católicos, essa tradição não se manteve, mas Jesus Cristo recomenda expressamente no evangelho deste domingo.

Na primeira leitura, retirada do livro do profeta Ezequiel (33, 7-9), o Senhor adverte o fiel sobre a sua obrigação de mostrar ao ímpio a sua impiedade e de chamá-lo ao caminho da retidão, sob pena de que, não o repreendendo e vindo ele a morrer em pecado, o fiel se torna responsável pela perdição daquele pecador. Ao contrário, se o pecador for advertido pelo fiel e não quiser se converter, este não será responsabilizado pela perdição daquele. Esta responsabilidade que o cristão tem perante os irmãos da religião e mesmo perante os não crentes está expressa na frase de Javeh dita através do Profeta: “Eu te estabeleci como vigia da casa de Israel.” Cada cristão é responsável, ao mesmo tempo, pela fidelidade na própria fé e ainda pela perseverança na fé dos irmãos. Vemos aqui a dimensão horizontal da religião, isto é, a religião direcionada para a comunidade, dimensão esta que foi durante muito tempo menosprezada, quando a catequese católica se concentrava no lema “salva a tua alma”, como se o fiel fosse responsável apenas por si e os pastores devessem se preocupar com a qualidade da fé dos crentes em geral. A palavra de Javeh através do Profeta não está dirigida aos Sacerdotes do seu tempo, mas a cada um dos integrantes do povo de Deus. Cada fiel é estabelecido como vigia na casa de Israel, cada um de nós tem o dever não apenas de dar o exemplo, mas também de manter-se alerta com o procedimento dos membros da comunidade, a fim de que nenhum deles se desvie da fidelidade aos mandamentos. Cada cristão é responsável diretamente pela própria fé e indiretamente também pela fé dos irmãos. A fé assume, nesse contexto, uma característica proativa, no sentido de que o verdadeiro cristão não está preocupado apenas consigo próprio, apenas em salvar a própria alma, como se dizia na linguagem tradicional, mas deve preocupar-se também com a salvação dos irmãos. A salvação é comunitária, a fé é comunitária, a religião é comunitária. A religião vivida apenas para si, internamente, é estéril e vazia.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Romanos (13, 8-10), o Apóstolo ensina essa mesma lição com outras palavras, quando diz: “Os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “não matarás”, “não roubarás”, “não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.” Isso quer dizer que as ordens divinas contidas nos mandamentos da lei não devem consistir em normas negativas (não faça isso, não faça aquilo) nem preceitos de abstenção, mas no sentido da assunção de uma atitude ativa de amor generoso. Ou melhor dizendo: aquelas ordens de cunho negativo (não isso, não aquilo) que constavam na lei antiga, pelo novo mandamento de Cristo se transformaram em ações positivas e concretas de amar os irmãos. “O amor é o cumprimento perfeito da lei”, completa o apóstolo Paulo. E Paulo não está inventando isso, porque o próprio Cristo dissera, certa vez, ao criticar os fariseus, que haviam formulado centenas de prescrições restritivas interpretando a lei de Moisés, uma frase similar, quando um doutor da lei o interrogou: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.  (Mateus 22:36-40).” Os doutores da lei eram exatamente aqueles fariseus mestres, que haviam transformado a lei de Moisés em um conjunto de regras minuciosas e burocráticas, que tornavam insuportável a vida dos judeus. A grande catequese de Jesus contra esse tipo de religião farisaica, que infelizmente ainda hoje se mantém na cabeça de alguns cristãos (sacerdotes e leigos), foi a de mostrar que a lei de Deus é a lei do amor, não a do castigo e da repreensão. Infelizmente, apesar do ensinamento tão claro da parte de Jesus, desenvolveu-se uma vertente doutrinária do cristianismo nesses mesmos moldes de fanatismo. Isso decorre, sobretudo, do fato de que alguns cristãos colocam o Direito Canônico acima do Evangelho. O Direito Canônico deve ser compreendido como norma de organização e de manutenção da unidade eclesial, não como doutrina que se sobrepõe sobre a Palavra de Cristo transmitida pelos escritores sagrados. Por exemplo: o católico que vai à missa dominical apenas porque o Direito Canônico afirma cometer um pecado quem não for, esse cristão não está praticando a religião verdadeira de Cristo, que é a religião do amor. Lembro demais de ter ouvido na catequese tradicional que todos devem cumprir o “preceito dominical”. Ora, cumprir o preceito não é o mesmo que praticar o mandamento de Cristo. Cumprir o preceito é um ato burocrático exterior estéril, se não estiver acompanhado da motivação interior que decorre do amor a Cristo e aos irmãos. A falta desse componente interno essencial transforma a ida ao templo uma simples obrigação e assim estamos adotando um comportamento que Jesus Cristo, diversas vezes, criticou nos fariseus, que praticavam uma religião de exterioridades. Vista desse modo, a missa passa a ser um ritual enfadonho, o sermão do celebrante vira um discurso interminável e o fiel fica escolhendo aquele padre que celebra a missa mais depressa, a fim de “se livrar” logo da obrigação. Com toda certeza, não é isso que Cristo quer de nós.

Qual seria, então, a motivação para ir à missa aos domingos, se não for o do cumprimento do preceito? A resposta está na leitura do evangelho, retirada de Mateus (18, 15-20), ou seja, “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles.” A verdadeira motivação da participação na celebração litúrgica está no encontro com os irmãos, porque é na comunidade que Cristo está presente, de acordo com a promessa dele. É porque a nossa religião é comunitária e deve ser exercida na comunidade. Por mais que eu reze individualmente (e aqui eu não estou negando o valor dessa oração individual), isso não é suficiente, a fé não está completa. É no encontro da comunidade orante que o cristão tem a certeza de que está na presença de Cristo.

É nesse contexto que devemos compreender a exortação de Cristo, no sentido de que “se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus.” Na comunidade, a nossa oração é muito mais forte, aliás, ela tem todo o poder, assegurado pelo próprio Cristo. Daí que o ato de corrigir o irmão não deve ser com aquele tom ameaçador de censura, de mostrar seus pecados, de advertir sobre os castigos, etc., mas de reconduzi-lo ao amor de Deus. Por exemplo, se o irmão não vai à missa e você vai conversar com ele sobre isso, o tom da conversa não deve dar ênfase no aspecto do “pecado” ou do “descumprimento do preceito”, mas deve destacar a dimensão comunitária da religião, da superioridade da oração coletiva sobre a prece particular, da promessa de Cristo de estar presente quando os irmãos se reunem para rezar, não quando alguém reza individualmente.

É interessante também destacar a metodologia da abordagem ensinada por Jesus. Primeiro, o irmão deve ser procurado em particular, para não expô-lo na comunidade. Se essa conversa não tiver resultado, vem o segundo passo: repete a conversa na presença de outros dois irmãos, atribuindo assim uma força persuasiva maior. Se também isso não funcionar, então será a vez de apelar para que toda a comunidade se empenhe nessa tentativa. Essa sequência de ações deverá ser suficiente para chamar o irmão faltoso à reconciliação. Se nem assim der certo, então vai incidir aquilo que lemos na primeira leitura, do profeta Ezequiel: o ímpio morrerá na sua impiedade, mas tu não serás responsabilizado pela perdição dele. Aqui se entrelaça a primeira leitura com o texto do evangelho, mostrando a harmonia e a coerência da palavra de Deus no antigo e no novo testamentos.

Meus amigos, obviamente não é tarefa fácil chamar a atenção de um irmão sobre o seu comportamento, ao contrário, é extremamente delicada e deve ser tratada com o máximo tato e sensibilidade. Mas Jesus nos ensina que, apesar disso, a nossa fé nos traz essa responsabilidade e não devemos ignorá-la.

Por fim, recordo que amanhã, 8/9, celebra-se a festa de Nossa Senhora do Brasil, a padroeira do Seminário Seráfico. Que ela seja sempre um exemplo para a nossa vida.
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domingo, 31 de agosto de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 22º DOMINGO COMUM - OS DOIS MODOS DE PENSAR - 31.08.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 22º DOMINGO COMUM – OS DOIS MODOS DE PENSAR – 31.08.2014

Caros Confrades,

Neste 22º domingo comum, a liturgia nos põe diante do desafio de abandonar o modo de pensar de acordo com o mundo e aprender a pensar de acordo com o que é divino. A repreensão que Jesus faz a Pedro, que não compreendeu sua descrição da futura paixão pela qual teria de passar, nos adverte a buscar compreender os pensamentos de Deus, conforme ensinou o profeta Isaías (55, 8): “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos.”

Na primeira leitura, do livro do profeta Jeremias (Jr 20, 7-9), vemo-lo se debatendo entre o dilema de profetizar e ser alvo de zombarias ou de abandonar a proferia e se livrar. Javeh fá-lo compreender que, mesmo sofrendo chacotas e pilhérias, ele deve continuar a sua missão de profetizar. Para associar com o contexto histórico, Jeremias profetizou no período que antecedeu a destruição de Jerusalém pelos babilônios, um período histórico bastante conturbado do povo de Israel, cujos reis praticavam a ganância e a idolatria e desrespeitavam Javeh. O profeta Jeremias, por diversas vezes, chamou a atenção das autoridades para esses desmandos, ameaçando que Javeh seria muito rigoroso para com eles, no entanto, eles riam do Profeta e levavam-no na brincadeira. Foi quando Jeremias escreveu: “Todas as vezes que falo, levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades; a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo; desfaleci, sem forças para suportar.” (Jr 20, 8-9) Percebemos nesse depoimento do Profeta que, quando ele quis optar pelo modo de pensar mundano, esquecendo a profecia, Javeh lhe mostrou que ele devia continuar profetizando. Assim foi até que vieram da Babilônia os inimigos, destruíram a cidade de Jerusalém e levaram os habitantes como cativos. Ele, Jeremias, foi poupado do cativeiro e, para não sofrer represálias dos judeus que ficaram na cidade, fugiu para o Egito, junto com parentes e amigos. O apóstolo Paulo também, em certa ocasião, se expressou aos cristãos de Corinto numa linguagem similar: “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! (1 Cor 9:16)” O desabafo de Paulo tem o mesmo sentido do texto de Jeremias.

Na segunda leitura, extraída da carta aos Romanos (12, 1-2), o Apóstolo os adverte a pensar de acordo com os pensamentos divinos, quando diz: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus.” Para distinguir o que é da vontade de Deus, é necessário ultrapassar o modo de pensar de acordo com o mundo, renovar-se espiritualmente, oferecendo-se como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, seguindo as palavras de Paulo. O Papa Francisco, na alocução que fez neste domingo aos peregrinos, na Praça de São Pedro, por ocasião do Angelus do meio dia, com seu estilo bem informal e com a linguagem coloquial que lhe é peculiar, assim resumiu esse tema da liturgia de hoje: “Nós cristãos vivemos no mundo, totalmente inseridos na realidade social e cultural do nosso tempo, e com razão; mas isso traz o risco de que nos tornemos "mundanos", o risco de que "o sal perca o sabor", como diria Jesus (cf. Mt 5,13), ou seja, que o cristão se torne aguado, perca a novidade que lhe vem do Senhor e do Espírito Santo. Em vez disso, deveria ser o contrário: quando nos cristãos permanece viva a força do Evangelho, essa pode transformar os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida”. (apud Zenit, revista eletrônica desta data – www.zenit.org). Achei interessante o Papa dizer que o cristão se torna “aguado”, é uma imagem bem característica daquele alimento sem sabor, que o paladar não identifica a sua essência. E o Papa complementa a imagem, em outra parte do seu discurso: “É triste encontrar cristãos "aguados", que parecem vinho diluído, e não se sabe se são cristãos ou mundanos, como o vinho diluído que não se sabe se é vinho ou água!” Viver no mundo, mas, ao mesmo tempo, pensar com os pensamentos de Deus, esse é o desafio que se coloca, a cada dia, para os cristãos.

No evangelho deste domingo (Mateus 16, 21-17), encontramos uma repreensão dura de Cristo a Pedro, chamando-o de “satanás”. Acerca desse vocábulo, é interessante notar que é uma palavra transliterada diretamente do hebraico para o grego, passando daí para o latim e para o português. Na língua hebraica, “satan” (סתן) significa o acusador, relacionada etimologicamente com a raiz verbal do verbo hostilizar, acusar. É interessante ainda observar que, na tradução grega, o vocábulo “satanás” é utilizado para designar adversários humanos, pois quando o adversário é um anjo mau, a palavra usada é “diábolos”. No latim, as duas palavras ficaram sinônimas, passando assim para o português. Essa explicação é necessária para compreendermos que, quando Jesus chamou Pedro de “satanás”, nada tem a ver com o demônio, o capeta, aquele ser horripilante que os artistas medievais pintaram com chifres e com rabo, segurando o tridente. Esse é o arquétipo comum na nossa cultura, por isso, é a primeira imagem que nos acode à mente diante dessa palavra. No entanto, essa explicação também não retira a dureza da repreensão de Cristo a Pedro: sai pra lá, inimigo meu, és um escândalo para mim... é mais ou menos nesse sentido que deve ser entendido o carão de Jesus.

Convém destacar também nesse contexto o sentido da palavra “escândalo”, que não tem semelhança com o significado comum em português. Em grego, a palavra original é “skandalou”, que significa cilada, obstáculo, traição. No sentido dos evangelhos, escândalo significa algo que faz fraquejar a fé, como se fosse um mau exemplo dado por alguém. Na tradução oficial da CNBB, essa palavra foi traduzida como “pedra de tropeço”, isto é, algo que impede de atingir o objetivo. Foi exatamente isso que Jesus sentiu quando Pedro disse: Deus te livre, Mestre, isso nunca vai te acontecer. Ora, nós sabemos que Jesus, enquanto homem, sofreu muito diante da perspectiva da paixão, porque enquanto Deus ele sabia de tudo o que iria acontecer, mas sendo homem, ele teria que sofrer de verdade tudo aquilo, isso o deixava angustiado. Foi por isso que ele chegou a dizer “Pai, afasta de mim esse cálice”, foi por isso que ele suou sangue no Horto das Oliveiras. Então, aquela intervenção de Pedro, com a melhor intenção de proteger o Mestre, funcionou para ele como um desestímulo sob o aspecto humano, de modo que a repreensão forte sobre Pedro foi também uma forma de demonstrar para os demais que não deveriam “se meter” naquele assunto. Jesus estava comunicando antecipadamente ao seu grupo de discípulos o que iria acontecer, mesmo que eles não entendessem aquilo, para que eles soubessem e não fossem apanhados de surpresa quando tudo acontecesse. Então, Jesus completou: tu (Pedro), dizes isso porque não pensas as coisas de Deus, mas pensas as coisas dos homens.

Vemos assim, meus amigos, claramente nessa fala de Jesus, a diferença entre ser escândalo e ser discípulo, entre ser satanás e ser fiel, entre ter pensamentos mundanos e ter pensamentos divinos. Ser satanás é ser escândalo, isto é, ser motivo de fraquejamento na fé das pessoas que nos conhecem. É quando as pessoas dizem assim: fulano(a) vive na Igreja, carrega um terço no pescoço, não perde uma missa e, no entanto, está ali tirando proveito ilícito de uma situação, está faltando com a caridade, está desfazendo com suas ações o discurso que faz com a boca. Precisamos sempre vigiar para que tais situações não aconteçam conosco, porque o mau exemplo praticado por uma pessoa que se declara, e todos conhecem, como “de dentro da Igreja” é muito mais prejudicial do que quando o mesmo comportamento é feito por uma pessoa que assim não se qualifica. É quando alguém se torna em escândalo para o próximo, ou pedra de tropeço para o irmão.

Na sequência desse ensinamento, Jesus pronuncia outra frase que nos foi dita muitas vezes, no período de formação: “quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”. Nessa frase, está descrito, com outras palavras, o mesmo tema da nossa reflexão. Pensar de acordo com o mundo é querer salvar a vida pelas aparências, isso vai acarretar a sua perda. Pensar diferente do mundo é, aparentemente, perder a vida, mas só assim o verdadeiro discípulo de Cristo vai encontrá-la. E a promessa de Cristo é bastante alentadora: “o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”. (Mt 16, 27).

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domingo, 24 de agosto de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 21º DOMINGO COMUM - A LIDERANÇA NO SERVIÇO - 24.08.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 21º DOMINGO COMUM – A LIDERANÇA NO SERVIÇO – 24.08.2014

Caros Confrades,

Neste 21º domingo comum, a liturgia coloca para nossa reflexão um tema importante e ao mesmo tempo polêmico, qual seja o da liderança de Pedro. Afinal, Jesus quis mesmo instituir Pedro como “chefe” da sua Ekklesia? Esse trecho de Mateus (16, 17-19) foi utilizado historicamente para fundamentar a teoria do primado de Pedro e, por via de consequência, a autoridade do Papa como “chefe” da Igreja universal. Mas será que Cristo, de fato, pretendeu isso? Ele que sempre ensinou e deu exemplo da liderança pelo serviço? Ele que sempre se recusou a ser considerado como chefe do seu grupo de discipulos? Ele sempre ensinou e insistiu: o que se julgar ser maior do que os outros seja aquele que serve mais, ou quem se julgar o maior, que seja o menor. A clareza na solução das discussões em torno desse tema é a chave para a re-união das Igrejas ocidental e oriental.

Temos na primeira leitura, retirada do livro de Isaías (22, 19-23), uma repreensão do Profeta contra Sobna, o administrador do palácio real no tempo do rei Ezequias. Este administrador desobedecera a ordem de Javeh, quando o exército da Assiria estava prestes a invadir Jerusalém. Javeh mandou que todos fizessem penitência, no entanto, Sobna mandou fazer banquetes para todos, dizendo: vamos comer hoje, porque amanhã iremos todos morrer. Ou seja, Sobna não apenas desobedeceu a Javeh como ainda duvidou do poder de Javeh contra os inimigos do povo, por isso o profeta Isaías foi avisá-lo de que ele seria destituído daquele cargo e, no seu lugar, assumiria Eliakim, filho de Helcias. Podemos associar a figura de Sobna à do administrador infiel. Ele desconheceu totalmente a autoridade em nome de quem exercia o poder e, com seu mau exemplo, transmitiu a desconfiança ao povo, levando os hebreus a duvidarem também do seu próprio rei Ezequias. Ao invés de exercer a liberança a serviço do povo, Sobna fazia na verdade um desserviço, por isso, Javeh irá substitui-lo por um outro administrador, como disse o Profeta: “eu o vestirei com a tua túnica e colocarei nele a tua faixa, porei em suas mãos a tua autoridade; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá.” (Is 22, 21) A liturgia utiliza esse episódio de Sobna para fazer o contraponto com o trecho do evangelho de Mateus, no qual Jesus vai instituir Pedro como a “pedra” fundamental da Igreja.

Na segunda leitura, um trecho em continuidade da Carta aos Romanos, que vem sendo lida já há vários domingos, o Apóstolo louva a riqueza, a sabedoria e a ciência divinas. Esse hino de louvor, da forma como está apresentado na liturgia, fica melhor entendido se for contextualizado. Nas linhas anteriores, Paulo está explicando aos Romanos que nós, pessoas humanas, estávamos iguais a ramos que foram cortados de uma oliveira e Cristo, com o seu sacrifício, nos reinseriu na árvore, dando-nos de novo a vida. Paulo lembra aos Romanos que os judeus se recusaram a ser reinseridos na oliveira, por causa da incredulidade deles, mas ele (Paulo) está convocando os gentios para aquele lugar recusado pelos judeus. Por isso, ele proclama: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!” (11, 33) Paulo utiliza um argumento bem acessível e convincente, de modo a conseguir a adesão dos romanos cultos à doutrina cristã. Os romanos daquele tempo estavam muito influenciados pela filosofia grega, sobretudo pelo moralismo dos pós-socráticos e Paulo servia-se dessa situação para mostrar que o cristianismo era superior ao moralismo grego. E com isso ele conquistou numerosos adeptos entre os romanos, aqueles que se reuniam nas catacumbas para ouvir a pregação dele e receber o batismo.

Na leitura do evangelho de Mateus (16, 13-20), Jesus interroga seus discípulos sobre o que as pessoas falam a respeito d'Ele. “O que dizem os homens sobre o Filho do Homem?” As respostas são várias: João Batista ou Elias ou Jeremias, ou algum profeta que ressuscitou. Foi quando Pedro sintetizou: Tu és o Cristo de Deus. E Jesus advertiu os discípulos para que não espalhassem essa informação. Até aqui, o trecho do evangelho de Mateus (16, 13-17) é semelhante aos outros dois sinóticos: Marcos (8, 27-30) e Lucas (9, 18-21). O problema começa no versículo seguinte, que dá continuidade à fala de Jesus: tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha igreja e as forças do mal não prevalecerão contra ela. Sabe-se que pairam fortes suspeitas de que, durante a Idade Média, antes que fosse definido o cânon dos livros da Bíblia, certos trechos das escrituras tenham sido propositalmente “editados” de modo a servir de fundamento a algumas doutrinas que começaram a ser divulgadas. O fato de que os outros dois evangelhos terminam o seu relato na parte em que Pedro diz: Tu és o Cristo de Deus e somente o evangelho de Mateus contém aquela parte restante levanta sérias dúvidas de que esse trecho final teria sido uma inserção que não constava nos manuscritos originais, com o objetivo específico de dar um fundamento bíblico à autoridade de Pedro como “chefe” da Igreja. Tanto assim é que os Patriarcas das igrejas orientais não concordaram quando o Bispo de Roma se arvorou na autoridade de chefe acima da autoridade deles, levando até o cisma, que ainda hoje persiste. De fato, sabe-se que os evangelhos denominados de sinóticos são compilações de documentos mais antigos, manuscritos que circulavam nas primeiras comunidades cristãs formadas logo após a ressurreição de Cristo, por isso suas passagens guardam grande semelhança. Qual seria a explicação para esse trecho dos versículos 18 e 19 se encontrarem apenas na compilação de Mateus? Por que os outros dois evangelistas não citam isso? Não há resposta uniforme e clara para essas perguntas.

Não obstante isso, é importante deixar claro que essas são dúvidas acadêmicas e que há de ser prestigiado o texto oficial, que é reconhecido como autêntico. Mesmo assim, a situação está longe de ser pacificada, porque surge outra questão igualmente importante. Ainda que Pedro tenha sido formalmente indicado por Cristo para liderar o grupo dos apóstolos após a sua paixão, que ocorreria logo depois desses eventos, vem a outra dúvida séria: a autoridade dada a ele por Cristo era para ser o chefe mesmo, isto é, para ele ter um nível hierárquico superior aos demais?

A propósito dessa questão, trago aqui um trecho de um artigo do Cardeal Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro: “O Papa Emérito Bento XVI ensinou que: "A Cátedra de Pedro evoca outra recordação: a conhecida expressão de Santo Inácio de Antioquia que, na sua Carta aos Romanos, designa a Igreja de Roma como «aquela que preside à caridade» (Inscr.: PG 5, 801). Com efeito, o fato de presidir na fé está inseparavelmente ligado à presidência no amor. Uma fé sem amor deixaria de ser uma fé cristã autêntica. Mas as palavras de Santo Inácio contêm ainda outro aspecto, muito mais concreto: de fato, o termo «caridade» era usado pela Igreja primitiva para indicar também a Eucaristia. Efetivamente, a Eucaristia é Sacramentum caritatis Christi, por meio do qual Ele continua a atrair a Si todos nós, como fez do alto da cruz (cf. Jo 12, 32). Portanto, «presidir à caridade» signi-fica atrair os homens num abraço eucarístico – o abraço de Cristo – que supera toda a barreira e estranheza, criando a comunhão entre as múltiplas diferenças."(*) Ora, meus amigos, presidir na caridade significa estar a serviço. Foi justamente o que Cristo fez na última ceia, quando amarrou uma toalha na cintura e passou a lavar os pés dos apóstolos. E ainda disse: eu vos dei o exemplo para que façais o mesmo. “O maior de vocês deve ser aquele que serve.” (Mt 25,11) Infelizmente, a doutrina do primado de Pedro e dos seus sucessores no bispado de Roma não foi sempre tomada nesse sentido. Ao contrário, a autoridade romana se tornou símbolo de monarquia, de autoritarismo, de poder concentrado, isso durante muitos séculos. Pelo que eu conheço da história dos Papas, eu destacaria somente dois, os quais eu posso dizer que presidiram na caridade: o Papa João XXIII e o atual Papa Francisco. Todos os demais foram sempre supremas majestades, que exerciam autoridade política acima até dos governantes estatais, que usavam a tríplice coroa como símbolo dos poderes religioso, material e político. Certamente, não foi isso que Cristo transmitiu a Pedro e esse foi o grande motivo para a cisão das igrejas orientais, que não aceitaram a submissão ao Bispo de Roma.

Que o Divino Mestre inspire o Papa Francisco a presidir realmente na caridade e assim possamos ter novamente a união de todos os cristãos dentro da mesma comunidade.
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(*) OBS: Para quem quiser ler o artigo completo de Dom Orani, é só seguir o link: http://www.cnbb.org.br/eventos-1/muticom/13641-a-catedra-de-pedro

domingo, 17 de agosto de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 20º DOMINGO COMUM - ASSUNÇÃO DE MARIA - 17.08.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 20º DOMINGO COMUM – FESTA DA ASSUNÇÃO DE MARIA – 17.08.2014

Caros Confrades,

Outra vez, a liturgia dominical comum do vigésimo domingo cede espaço para a celebração da festa da Assunção de Maria, conforme a negociação dos feriados religiosos para o Brasil. Hoje, eu participei da missa de encerramento do novenário da Padroeira da Paróquia onde moro, Nossa Senhora da Glória, e o celebrante foi o Monsenhor Manfredo Ramos. No sermão, ele disse que estava presente na Praça de São Pedro, em Roma, no dia 1 de novembro de 1950, data da proclamação do dogma da Assunção de Maria ao céu. Disse que durante toda a semana anterior tinha havido muita chuva e frio, mas naquele dia, amanhecera com sol claro. E disse também uma informação que eu não sabia: esse dogma não é reconhecido pelas igrejas católicas orientais, que não usam o termo “assunção” de Maria, pois assim não acreditam, mas preferem a expressão “dormição” de Maria, porque ela aguarda pela ressurreição “no último dia”. São as variedades de crenças que brotam de uma mesma fonte bíblico-teológica. O dogma da Assunção foi proclamado com base em remota tradição, já que não consta na Bíblia, sendo esse um forte motivo para que outras igrejas cristãs não o aceitem.

A festa da Assunção de Maria também funciona como data de referência para outras denominações da Virgem, as quais não possuem uma data definida. Assim é que, nesta data, uma variedade de outras Nossas Senhoras tomam assento: além da Nossa Senhora da Assunção, designação própria da data, tem a Nossa Senhora da Glória, a Nossa Senhora dos Prazeres, a Nossa Senhora da Saúde, a Nossa Senhora da Palma, falando apenas de algumas que existem no território cearense. Provavelmente, em outros lugares do Brasil haja outras designações que eu não conheço. Esse fenômeno reflete a grande influência que o culto mariano tem na nossa cultura religiosa, tanto popular quanto erudita, herança deixada pelos colonizadores portugueses. Sem dúvida, há um acentuado exagero devocional a Nossa Senhora, que suplanta a figura principal da nossa fé religiosa, o Filho de Maria. Esse devocionismo excessivo se encontra também presente na atribuição dos nomes próprios das brasileiras. Nos dias atuais, essa tendência vem diminuindo progressivamente, mas seguramente mais da metade das mulheres brasileiras ainda tem alguma “maria” na composição do seu nome. Sem nenhum demérito para a Mãe de Deus, cuja participação no Mistério da Redenção é determinante e imensurável, mas o devocionismo a Maria e aos Santos em geral, marca do catolicismo brasileiro, constitui um desvio teológico de profundas raízes não apenas na mente popular, mas na grande maioria dos presbíteros.

Comentando um pouco as leituras da festa litúrgica da Assunção de Maria, temos na primeira leitura, um conhecido trecho do Apocalipse (12, 1-6), que narra a figura do dragão pronto para devorar o filho da mulher que estava prestes a nascer. As associações imediatas ai são mais do que óbvias: a mulher a Maria e o dragão ao demônio. Mas há outras hipóteses para a figura da mulher: a própria Igreja, ou o povo de Deus, ou ainda o povo de Israel. Assim como há outras hipóteses para o dragão de sete cabeças e dez chifres. Talvez seja a figura do império romano com suas autoridades perversas, levando perseguição ao cristianismo. A cauda do dragão era capaz de destruir a terça parte das estrelas do céu, significando o grande poder desses imperadores. Dado o grande conteúdo simbólico do livro do Apocalipse, são muitas as possibilidades de interpretação que as suas palavras permitem, de modo que cada crença busca uma forma de relacionar com suas próprias convicções. Eu tenho cá as minhas reservas sobre muitas dessas conclusões que já vi pessoas retirarem dali. Gramaticalmente, a palavra vem do grego apo-kalypsis, termo derivado do verbo kalyptô, que significa esconder, funcionando a preposição “apo” como uma negativa, portanto, algo que é retirado do esconderijo. Nas bíblias não católicas, o termo é traduzido por “revelação”, porém não se deve confundir o conceito teológico da revelação dada por Cristo sobre o Pai, o fundamento da nossa fé, com qualquer revelação. Talvez seja esse o motivo pelo qual a Bíblia católica não traduz a palavra, apenas a translitera. Na minha modesta opinião, não é este um livro que deva merecer a atenção dos fiéis em busca de “revelações” outras, visto que a única revelação, a única Palavra de Deus é o próprio Cristo e esta se encontra de modo admirável nos evangelhos. O Apocalipse é apenas um quebra-cabeças para  teólogos discutirem.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 20-27), temos aquela também famosa analogia que o Apóstolo faz entre Cristo e Adão, quando ela afirma que “por um homem” entrou o pecado no mundo e depois “por um homem” entrou a salvação. Essa figura retórica de Paulo já foi motivo de inúmeros e inconclusos debates entre os teólogos, de um lado, aqueles que defendem a doutrina científica da evolução das espécies e, de outro lado, os que defendem a teoria criacionista. Em meus recentes estudos de hebraico bíblico, aprendi que a palavra Adam (אדס) significa “homem”, pessoa humana, então não vale a pena discutir sobre o que essa analogia conceitual de Paulo possa significar. Além disso, as descobertas científicas não param de evidenciar que a criação divina continua com plena força na expansão do universo e na perene evolução dos seres vivos. Ao meu ver, a teoria criacionista é mero fruto do fundamentalismo bíblico e nada acrescenta à bagagem conteudista da nossa fé. Além do mais, seria irrazoável esperar que Paulo fosse capaz de pensar com categorias científicas que só passaram a ser definidas muitos séculos depois da morte dele. E o seu conceito mecanicisca de ressurreição, exposto nos versículos 23 e 24 deste capítulo 15 também merece ser atualizado, para uma melhor adequação com o pensamento teológico contemporâneo.

Temos, na leitura do evangelho de Lucas (1, 39-56), a narração da visita de Maria a sua prima Isabel, depois de ter sabido, pelo anjo, da gravidez desta. Este trecho contém o popular e belo cântico do Magnificat, que tantas vezes cantamos e em melodias diversas, correspondendo este à exaltação e ao agradecimento de Maria pela homenagem prestada a ela por Isabel, que recebeu ali a segunda revelação da chegada do Messias (a primeira revelação foi a do anjo a Maria). E a criança que pulou no ventre de Isabel, também por desígnio divino, seria o precursor de Jesus, aquele que iria aplainar as veredas, cumprindo o que profetizara Isaías. O evangelista Lucas, nesta narrativa, quis deixar bem clara essa relação entre a missão de João Batista e a profecia de Isaias acerca do Messias. Sendo um intelectual e tendo tido o privilégio de conviver com Maria, após a morte de Cristo, Lucas nos deixou preciosas informações e interessantes associações, enriquecendo de forma inteligente e apropriada as confidências que Maria lhe fizeram.

Convém lembrar que Zacarias, marido de Isabel, era o sacerdote em exercício naquele ano, e que ficara mudo misteriosamente, após duvidar da gravidez da mulher. Este fato é também digno de nota para demonstrar duas coisas importantes: primeiro, a relação direta familiar de Jesus com a classe sacerdotal do povo de Israel, embora José não pertencesse a essa classe; segundo, a instrução religiosa de João Batista, recebida do pai sacerdote. Não foi por acaso que ele foi escolhido para ser o anunciador do Messias e não foi por um milagre que ele veio a conhecer as escrituras, mas foi pela formação recebida. Igualmente, Maria também recebia instrução religiosa dos rabinos da sinagoga, de modo que o anúncio do anjo foi prontamente compreendido por ela. Ela apenas ficou embaraçada: por que eu? Mas quando o anjo disse que ela tinha sido agraciada por Deus, ela não teve dúvidas em aceitar: fiat mihi secundum verbum tuum (faça-se em mim segundo a tua palavra). E com toda certeza, Maria e José também colocaram o menino Jesus na escola bíblica daquele tempo, pois assim tinha sido a formação de ambos. É algo que faz falta nos dias de hoje, pois as nossas crianças e jovens não são estimuladas para o estudo da Bíblia, limitando-se a ouvirem “palestras” dos formadores paroquiais, os quais nem sempre possuem a desejável cultura religiosa que a função exige. Pelo menos é assim que eu observo nas diversas Paróquias, por ocasião do tirocínio preparatório das crianças e adolescente para a primeira eucaristia e para a crisma, respectivamente.

Meus amigos, que fique bem claro que eu não sou contrário à devoção a Nossa Senhora, ao inverso, eu creio que ela é digna de todo louvor e veneração, pela importância fundamental de sua vida no mistério da Redenção. O problema passa a existir quando, por um acentuado zelo em favor da devoção a Maria, se desvia a atenção dos fiéis do verdadeiro foco da nossa fé cristã, que é a pessoa de Cristo. Que Maria assunta inspire as nossas autoridades religiosas para reconhecerem e ensinarem a sua  correta devoção.
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