domingo, 25 de outubro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 30º DOMINGO COMUM - RESTO DE ISRAEL - 25.10.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 30º DOMINGO COMUM – RESTO DE ISRAEL – 25.10.2015

Caros Leitores,

Na liturgia deste 30º domingo comum, a leitura do profeta Jeremias faz alusão ao “resto de Israel”, uma expressão também usada pelo profeta Isaías (10, 20), referindo-se aos israelitas que foram libertados do cativeiro da Babilônia e haviam de retornar a Jerusalém. O “resto” significa o povo sobrevivente, aqueles que foram submetidos ao jugo do inimigo e agora retornam à liberdade. Num certo sentido, todos nós, que caminhamos no meio das tribulações da vida, fazemos parte deste “resto” do povo de Deus, a caminho da casa do Pai.

A palavra inspirada do profeta Jeremias é bastante significativa tanto no contexto histórico do povo hebreu, quanto no caminhar geral de toda a humanidade. Diz ele: “Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam ” (Jr 31, 8). Num primeiro momento, a profecia se dirige aos cativos da Babilônia, mas no momento seguinte, se refere a todos os crentes localizados em todos os confins da terra e esse grupo inclui pessoas sadias e pessoas em situações especiais, porque as vicissitudes da existência afetam as pessoas de diversas maneiras. Mas essas provações não devem abalar a fé do cristão, pois mesmo estando cego, aleijado, parido, necessitado de cuidados, todos serão conduzidos por um caminho reto para a terra prometida. A descrição do profeta Isaías é também bastante ilustrativa: “Um resto voltará, um resto de Jacó, para o Deus forte. Ainda que teu povo fosse inumerável como a areia do mar, dele só voltará um resto. A destruição está resolvida, a justiça vai tirar a desforra." (Is 10,20) . Isaías é mais enfático em relação àqueles que não aceitarão a salvação oferecida por Javeh. Embora, em tese, toda a humanidade seja convidada à salvação, no entanto, nem todos irão atender e assim a redenção trazida por Cristo não alcançará a todos, mas apenas ao “resto”, aos sobreviventes da tentação. E por que isso ocorrerá? Porque Deus não interfere na liberdade das pessoas, Ele oferece a salvação, mas espera que haja adesão da vontade, espera que o crente exercite a sua fé na Sua palavra.

A segunda leitura, da carta aos Hebreus, faz referência ao sacramento da salvação, que é mediado pelo sumo sacerdote. Trata-se de uma alusão indireta à comunidade eclesial, onde o crente pratica a sua fé e recebe os meios para superar os desafios que a vida cotidiana interpõe no nosso meio. O sacrifício expiatório de Cristo é rememorado pelo sumo sacerdote. Ele é retirado do meio do povo e, por isso, conhece as dificuldades e os entraves do existir temporal, portanto, sabe compreender as fraquezas dos irmãos, porque ele é também afetado por essa fraqueza. Então, ao oferecer o sacrifício da cruz, ele reza tanto pelos pecados dos outros, quanto por seus próprios pecados. Cristo encarregou seus apóstolos e esses os seus sucessores para continuarem a guiar o “resto” de Israel pelos caminhos do mundo, mostrando onde ficam as torrentes de água e ensinando o caminho reto que conduz ao destino esperado. A carta aos Hebreus faz referência ao sacerdócio de Melquisedec, personagem que é interpretado como sendo o precursor do sacerdócio de Cristo e, por intermédio de Cristo, esse mesmo sacerdócio se reproduz nos presbíteros ordenados. Aquele refrão que antigamente era cantado nas missas solenes de ordenação é bastante forte e emblemático: tu es sacerdos in aeternum, secundum ordinem Melchisedech. O sacerdote é, desse modo, aquele que deve liderar o povo sobrevivente das tormentas do cotidiano, o “resto” da humanidade salva por Cristo, aqueles “144 mil assinalados”, de que fala o Apocalipse. Daí decorre a necessidade de que o fiel se integre na comunidade eclesial, porque essa condução pelo caminho reto é obra coletiva, não se resolve individualmente.

Na leitura do evangelho de Marcos, temos o conhecido episódio da cura do cego de Jericó (10, 46-52), personagem este que representa a multidão referida pelo profeta Jeremias, na primeira leitura. Entre os sobreviventes, há cegos, aleijados, gestantes e parturientes. A liturgia coloca para nossa reflexão a figura do cego, simbolizando nele todos aqueles que estão expostos aos perigos e às tentações do mundo infiel, aos estratagemas da ideologia do poder e do dinheiro, às seduções da corrupção e da injustiça, ou seja, todos nós. O cego de Jericó é o protótipo do cristão santo e pecador, crente e duvidoso, são, mas nem tanto, pois que precisa que Jesus lhe abra os olhos, para que possa ver melhor o mundo onde habita e progredir na fidelidade à mensagem cristã.

Vejamos a uma breve notícia de cunho histórico e geográfico. Jericó é uma das cidades mais citadas nos evangelhos, porque era já naquela época uma das cidades mais importantes da Palestina. Sua conquista pelos hebreus, sob o comando de Josué, quando estavam retornando do Egito, foi uma das mais memoráveis, então esta cidade era um ícone da nacionalidade hebraica, um lugar muito visitado. Geograficamente, situa-se a 27 km de Jerusalém e a 10 km do Mar Morto, sendo considerada pelos historiadores uma das cidades mais antigas do mundo, pois há evidências de ter moradias lá desde pelo menos 9.000 anos antes de Cristo. Este fato fazia com que muitas pessoas visitassem Jericó e, com isso, havia também muitos pedintes na entrada da cidade, por onde passavam as caravanas.

Pois bem. Jesus passava por Jericó, a caminho de Jerusalém, onde o desfecho da sua vida iria acontecer. Na entrada da cidade, havia um grupo de cegos pedindo esmolas aos viajantes. O Padre Uchoa, que foi meu professor de Bíblia, comentava que havia verdadeiros bandos de pedintes nas entradas das grandes cidades. Lembremo-nos, nos dias de hoje, de cidades como Canindé, Juazeiro do Norte, apenas para citar algumas do nordeste, onde também encontramos verdadeiros batalhões de pedintes, vendedores de objetos e de informações, espertalhões de diversas espécies. Lá devia ser algo assemelhado. Ao saber que Jesus estava passando, um cego de nome Bartimeu começou a gritar: Filho de Davi, tem piedade de mim. De tanto gritar e insistir, Jesus mandou chamá-lo. Diz o evangelista que ele deu um pulo, largou o manto onde recolhia as moedas que lhe jogavam como esmola e foi até onde Jesus se encontrava. “Que queres que eu te faça?”, perguntou Jesus. (Mc 10, 51) E ele respondeu: Mestre, eu quero ver. E Jesus disse: Assim será, a tua fé te curou. E ele passou a enxergar e saiu acompanhando Jesus.

Neste diálogo de Jesus com o cego Bartimeu, podemos ver um exemplo de que o milagre divino não se opera sem a colaboração do beneficiário. Por certo, junto com Bartimeu, havia outros cegos, aleijados e necessitados, porém não foram beneficiados com o fato milagroso, porque não creram. Jesus fez questão de dizer a ele que foi “a tua fé que te curou”. O poder divino de Jesus não agiria na sua deficiência, se não houvesse a sua cooperação com a fé, a sua disponibilidade para aceitar, a sua coragem para assumir aquela nova situação. É óbvio que Jesus, pelo seu conhecimento divino, sabia quem estava a gritar por Ele, sabia que era uma pessoa das mais pobres e excluídas da sociedade. E também pela sua sabedoria divina, Jesus conhecia a intensidade da fé daquele mendigo, sabia o que estava subentendido naquela prece insistente: “Tem piedade de mim”. É como se ele dissesse: com o teu poder, tira-me dessa situação. E Jesus retribuiu a sua oração com o milagre da cura, mas foi logo avisando: foi a tua fé que te curou, ou seja, persevera com esta fé, ela te renderá a salvação, mantém a fé operante e firme, pela fé tu és incluído no rol dos sobreviventes. Inspirada neste e noutros exemplos similares é que a teologia da graça divina ensina que, embora Deus dê a todos a graça, esta somente age no coração dos que a aceitam e a ela aderem. Ou por outras palavras, o efeito do poder divino na nossa vida será proporcional à intensidade da nossa fé.

Por isso, podemos dizer que, para o milagre acontecer nas nossas vidas, embora o poder de Deus seja pleno e absoluto, nossa participação através da fé é indispensável, porque o poder de Deus não se sobrepõe à nossa vontade, e a fé é a manifestação mais completa do ato da vontade humana.
É a fé que nos congrega num só rebanho e agora podemos compreender que o conceito de “resto de Israel” não é outro senão esse rebanho que segue os passos do Bom Pastor.

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domingo, 18 de outubro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 29º DOMINGO COMUM - O LUGAR RESERVADO - 18.10.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 29º DOMINGO COMUM – O LUGAR RESERVADO – 18.10.2015

Caros Leitores,

Neste 29º domingo comum, a liturgia celebra o Dia Mundial das Missões, reverenciando todos aqueles que, no mundo tudo, levam a palavra de Cristo aos irmãos mais distantes, especialmente para aqueles que ainda não conhecem a Redenção. Todos nós somos convidados a ser missionários e, pelo batismo, fomos ungidos para esta missão. Todavia, é uma missão a ser exercida com humildade e na caridade, por isso, ninguém deve gloriar-se com os resultados ou entristecer-se com os eventuais fracassos, porque nessa tarefa interessa apenas a fidelidade ao mandamento de Jesus. Nesse contexto, a liturgia nos põe como tema de reflexão o diálogo de Tiago e João com Jesus, sobre a recompensa pela opção que fizeram, encomendando desde já um “lugar” que cada um queria ter no reino de Deus. Foi quando Jesus disse que será melhor recompensado aquele que melhor servir.

Inicialmente, faço uma observação exegética sobre o trecho do evangelho lido neste domingo, retirado de Marcos 10, 35-45. Fazendo um estudo comparativo entre os evangelhos, podemos cotejar essa passagem com o texto análogo de Mateus 20, 20, onde é narrado o mesmo episódio. No evangelho de hoje (Mc 10, 35), lemos: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram:”. No evangelho de Mateus (20, 20), lemos: “Então, aproximou-se d'Ele a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo algo a Ele.” A análise desses dois pequenos trechos nos mostra que devemos ter muito cuidado com a leitura fundamentalista da Sagrada Escritura, porque os textos às vezes se mostram incoerentes. Afinal, quem foi ter com Jesus: os filhos de Zebedeu sozinhos ou acompanhados da mãe deles? Por que Marcos não menciona a mãe dos apóstolos, enquanto Mateus a inclui? É bem verdade que esse detalhe não é significativo, mas por causa de detalhes como esse, eu ouço pessoas dizendo que a Bíblia é cheia de imprecisões e mentiras.

Os biblistas explicam essa divergência justificando que o texto de Marcos é mais antigo do que o de Mateus, e por isso é mais simplificado. Os estudos históricos confirmam que os ensinamentos de Jesus, durante vários anos, existiam nas comunidades apenas em forma oral, passando a ser escritos somente uns 20 a 30 anos após a morte d'Ele. Havia muitos textos esparsos e os evangelistas os colheram e, com base neles, compuseram seus evangelhos, procurando observar a ordem cronológica dos acontecimentos. Podemos verificar que, também na Bíblia, funciona aquela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto. Desse modo, embora o evangelho de Mateus venha em primeiro lugar no cânon bíblico, contudo o texto de Marcos é tido como mais antigo. Ainda sobre o evangelho de Mateus, mais uma curiosidade: o texto original foi escrito em aramaico, o mesmo idioma que Jesus falava, enquanto os demais foram escritos originalmente em grego. Isso denota que o evangelho de Mateus foi escrito em uma região mais afastada, onde se falavam o aramaico, tendo sido traduzido para o grego só posteriormente. Talvez esse detalhe sobre a sua origem também explique aquela divergência sobre a inclusão da mãe intercedendo pelos filhos.

Pois bem, passemos agora ao tema da leitura, o pedido que os filhos de Zebedeu fizeram a Jesus: que um deles tivesse assento à direita e outro à esquerda, no reino da Sua glória. Jesus ficou intrigado com aquilo e falou: vocês têm certeza do que estão pedindo? Eles confirmaram e, por fim, arrematou: 'Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado'. (Mc 10, 39) E diz mais o evangelista que os outros dez ficaram indignados quando souberam do pedido dos dois irmãos, provavelmente, eles também queriam pedir aquilo, mas não tiveram coragem. Ademais, por que razão haveriam aqueles dois de ser privilegiados com um lugar de honra? Foi quando Jesus os repreendeu, dizendo que a autoridade cristã não é símbolo de honraria, mas de serviço. (Mc 10, 43)

Esse diálogo de Cristo com os discípulos nos deixa algumas lições importantes. Primeiro: será que nós sabemos pedir? Quando oramos, quando fazemos nossos pedidos a Deus, que tipo de oração fazemos? Será que caímos no mesmo disparate dos filhos de Zebedeu, reprovado por Jesus? Pois é, muitas vezes, a nossa oração contém uma dose significativa de egoísmo. Pedimos preferencialmente algo bom para cada um de nós, para os nossos parentes e amigos, esquecendo que o próprio Cristo ensinou que devemos buscar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e que o resto nos será dado por acréscimo. Em geral, as orações dirigidas a Deus são pedidos de favorecimentos, de bens materiais, de bem-estar, de uma conquista profissional, etc. Sem deixar de falar numa prática ainda mais extravagante que é a de fazer um “negócio” com Deus, uma certa 'promessa': se eu conseguir tal coisa, vou fazer tal tarefa. Meus amigos, quanta pretensão. Se passássemos a vida toda fazendo penitências, nem assim mereceríamos um favor divino, por menorzinho que seja, Deus nos dá tudo gratuitamente, sem precisar de nada de nós e sem nós merecermos, ele age por plena e inefável benevolência. As nossas orações, portanto, devem ser muito mais para agradecer do que para pedir.

A oração modelar para nós deve ser inspirada no exemplo dado pelo próprio Jesus: quando orardes, dizei algo assim: Pai, santificado seja o Teu nome, venha o Teu reino, faça-se a Tua vontade... é o tipo da oração altruísta, a oração que agrada a Deus. De orações egoístas, Deus se distancia, vira o rosto para o outro lado. Quando Jesus perguntou aos dois filhos de Zebedeu: vocês estão dispostos a 'beber o mesmo cálice' que eu beberei e eles confirmaram, Jesus disse: mas isso não garantirá o atendimento ao que estais pedindo, pois não é assim que se conquista um lugar no Reino. E arremata: o lugar é para aqueles a quem foi reservado. (Mc 10, 40)

Esta resposta de Jesus é, a um só tempo, enigmática e esperançosa. Enigmática, porque ele não revelou quem são esses a quem está reservado o melhor lugar. Esperançosa, porque a reserva pode ser para qualquer um deles e de nós. Como podemos interpretar esse enigma-esperança? A resposta, a meu ver, está na frase seguinte do evangelho (Mc 10, 45): o Filho do Homem não veio para ser servido, mas pra servir... ou seja, quem seguir o exemplo de Jesus na prestação do serviço aos irmãos, é para estes que o lugar está reservado. Foi isso que Ele deu a entender quando ensinou: quem quiser ser grande, que seja o servo; quem quiser ser o maior, que seja o escravo. Então, o 'lugar reservado' se destina a quem realizar o 'serviço' tal como Ele realizou, isto é, com humildade e sem reserva, dando tudo de si até o fim das suas forças. E podemos deduzir também que o 'lugar reservado' não é um lugar individual, mas coletivo, não cabe apenas um, mas cabem muitos, cabem nele todos os que tomarem a cruz e O seguirem.

Meus amigos, o recado de Cristo está dado para todos nós. O lugar está reservado para quem for capaz de seguir o exemplo dele no serviço aos irmãos, superando as tendências naturais e sociais associadas ao ganho de prestígio e de honrarias, especialmente quando exercemos profissões que são consideradas relevantes socialmente. Humildade não significa vestir trapos e andar descalço, mas é uma atitude que mora dentro do coração. No sermão da missa deste domingo, o Papa Francisco abordou esse tema de forma bem direta, como é o seu estilo: “À vista de tantos que lutam por obter o poder e o sucesso, por dar nas vistas, frente a tantos que querem fazer valer os seus méritos, as suas realizações, os discípulos são chamados a fazer o contrário. Por isso adverte-os: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo» (10, 42-43). Com estas palavras, Jesus indica o serviço como estilo da autoridade na comunidade cristã. Quem serve os outros e não goza efetivamente de prestígio, exerce a verdadeira autoridade na Igreja. Jesus convida-nos a mudar a nossa mentalidade e a passar da ambição do poder à alegria de se ocultar e servir; a desarraigar o instinto de domínio sobre os outros e exercer a virtude da humildade.” Todo nós, que acompanhamos pela imprensa as notícias sobre a atuação do Papa, sabemos que essas palavras dele não são apenas discurso, mas ele assim vivencia no seu cotidiano. Que nós tenhamos a ousadia e a coragem de seguir o seu exemplo de autêntico cristão.

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domingo, 11 de outubro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 28º DOMINGO COMUM - QUEM PODERÁ SALVAR-SE? - 11.10.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 28º DOMINGO COMUM – QUEM PODERÁ SALVAR-SE? – 11.10.2015

Caros Leitores,

Neste domingo, a liturgia nos convida a refletir sobre o tema da riqueza, através do diálogo de Cristo com o jovem rico. Nós conhecemos a história de Francisco de Assis, que seguiu literalmente o convite de Cristo, ao ler esta passagem do evangelho, e abandonou realmente tudo o que possuía, deixou a casa paterna com seu conforto, entregou até as roupas que vestia para o pai, largando tudo para seguir a Cristo na total pobreza e na plena fé de que receberia elevado percentual de recompensa nesta vida e ainda a vida eterna no mundo que há de vir. Nos dias atuais, em que se fala muito acerca do grande distanciamento que há entre as classes sociais (algumas em exagerada abundância e outras em grandes necessidades), o tema da riqueza é bastante oportuno para a reflexão. De fato, a questão que se coloca não é a riqueza em si mesma, porque quando ela é fruto do trabalho, deve ser recebida como a justa recompensa. A questão é quando esse acúmulo de bens é fruto de atividades pérfidas, realizadas com o desrespeito do bem e da moralidade, porque é esse tipo de riqueza que não se coaduna com a justa recompensa e é esta que causa a perigosa convulsão da violência em todas as suas formas de manifestação – abertas ou veladas.

A primeira leitura, retirada do Livro da Sabedoria (7, 7-11), fala sobre a verdadeira riqueza, que não está no poder terreno nem na posse dos bens materiais, mas na prudência, na sabedoria, junto da qual todo o ouro do mundo é semelhante a um punhado de areia e toda a prata parece com a lama. E diz mais que, cultivando a sabedoria, todos os bens e riquezas materiais chegam como consequência, pois quem age com sabedoria tem em mãos a maior de todas as riquezas. Por outras palavras, a riqueza deve estar acompanhada da sabedoria para ser legítima. Quando a riqueza é amealhada com esperteza, tornando-se ilegítima, então aplica-se aí a metáfora da areia para o ouro e da lama para a prata.

A segunda leitura, da Carta aos Hebreus (4, 12-13), faz uma comparação interessante entre os conceitos de alma e espírito, os quais são usualmente tidos como sinônimos, no nosso idioma, mas etimologicamente pertencem a funções mentais distintas. A alma (do termo latino “anima”, mas que vem do grego “psiché”) se relaciona com o pensamento lógico, o raciocínio, o conhecimento mundano. Por outro lado, o espírito (do termo latino “spiritus”, mas que em grego se diz “pneuma) se relaciona com o sopro vital, aquilo que nos mantém vivos, relacionando-se com a consciência e a moralidade. Por isso, o escritor sagrado diz que a palavra de Deus é “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até dividir alma e espírito”, isto é, repercute tanto no conhecimento, no raciocínio, quanto na consciência, na responsabilidade. Isso está explicado, com outras palavras, no versículo seguinte, quando diz: “Ela julga os pensamentos e as intenções do coração. ” Podemos ver aqui a seguinte relação com o tema da riqueza, abordado na leitura anterior: quando o acúmulo de bens decorre do uso dos conhecimentos mundanos para obtê-los, mas não está acompanhado de atitudes bem intencionadas, perde-se na ganância e na insensatez, o que não é compatível com a verdadeira sabedoria, e assim vai ocasionar conflitos sociais que se transmudam em violência e infelicidade para todos. E então, adverte o escritor, o avarento se torna réu do julgamento da palavra de Deus, porque “tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas. ” Conceitualmente, a palavra de Deus é a suprema sabedoria.

Na leitura do evangelho de Marcos (10, 17-27), que reproduz o diálogo de Cristo com um jovem rico de bens materiais, mas que entristeceu-se com a possibilidade de vir a desfazer-se deles, vemos novamente o tema da riqueza que se põe no plano do saber interesseiro e não ultrapassa para o nível das intenções do coração. O diálogo de Cristo com esse jovem é permeado por vários ensinamentos, que o breve conteúdo narrativo condensa. Primeiro, a ideia do Bem. O jovem chamou Jesus de 'bom mestre' e ele disse que somente Deus é bom. Ora, Cristo sendo Deus, por que razão iria questionar que alguém o chamasse de 'bom mestre'? O destaque é dado pelo evangelista para significar que o jovem, ao chamar Jesus de 'bom', já estava reconhecendo nele uma pessoa do bem. Mas Jesus quis pô-lo à prova, para saber se ele era também um conhecedor do verdadeiro bem. Pelo que se constata, o jovem tinha demasiado apego à riqueza, visando apenas ao plano da materialidade, por isso não foi capaz de captar a nobreza do convite que lhe foi feito.

O segundo ensinamento é o reforço à lei de Moisés. Jesus fez questão de recitar os mandamentos e dizer que a sua prática conduz à salvação. Por diversas vezes, Jesus afirmou publicamente que não veio contestar a lei mosaica, ao contrário, veio cumpri-la. Porém, o seu cumprimento não devia ser igual ao dos fariseus, que tomava tudo ao pé da letra e achavam que isso bastava. Aparentemente, o jovem interlocutor também cumpria a lei mosaica sob esse prisma literal, no plano da exterioridade, sem alcançar o patamar das intenções do coração. Tendo percebido isso, Jesus completou: 'Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.' (Mc 10, 21). Com certeza, não era isso o que o jovem pretendia, mas Jesus utilizou o seu diálogo para ensinar os seus discípulos a importância da riqueza bem adquirida e bem administrada.

O terceiro ensinamento do evangelho é sobre a vida de perfeição. Foi nesse ponto que Francisco de Assis se fixou e com ele traçou um plano de vida, que veio a transformar-se no franciscanismo da regra e dos ensinamentos, que ele demonstrou e viveu. Jesus quis ensinar que a riqueza não é, por si mesma, empecilho para a salvação, mas se o seu detentor não estiver disposto a abrir mão dela, então o seu coração está preso na materialidade e não conseguirá alcançar o verdadeiro sentido do uso dos bens com sabedoria. Daí o comentário de Jesus: como é difícil a um rico entrar no reino do céu. Jesus não disse que os ricos estão necessariamente excluídos da salvação, mas sim que a posse dos bens materiais torna mais difícil levar uma vida agradável a Deus. Evidentemente, a causa disso não seria a simples posse dos bens, mas o apego a eles. Nós sabemos que, assim como há pessoas ricas generosas, há pessoas pobres mesquinhas, por isso o ensinamento de Cristo é a pobreza de espírito, que é mais importante do que a simples falta de bens.

Podemos então retirar daqui um quarto ensinamento do evangelho, que é a ideia do desapego. Esse é o grande problema da sociedade contemporânea, aquilo que ocasiona o grande “abismo social” entre pessoas que se apropriam (muitas vezes, de forma ilícita) de grandes fortunas, que ficam depositadas em instituições financeiras de outros países, ocultas para não prestarem contas delas conforme manda a lei, contando com a possibilidade de, ao deixarem seus cargos, poderem usufruir desses bens indignos em territórios estrangeiros, onde não são conhecidos. Quase diariamente, os meios de comunicação trazem informações sobre cidadãos destituídos de consciência, que terminam sendo apanhados em negócios escusos e, em geral, fazem de conta que não é com eles, continuando como se nada estivesse acontecendo. Em outras sociedades, onde ainda pulsa o sentimento da moralidade, esses episódios ganhariam outros contornos. Entre nós, porém, vence a desfaçatez e a desonra. Quando não posam de vítimas de algum inimigo de outra facção.

Por isso, continua sempre atual a metáfora do buraco da agulha para comparar com a dificuldade (ou impossibilidade) de um rico alcançar a salvação. Para superar tal dificuldade ou para viabilizar essa possibilidade, as riquezas materiais devem estar a serviço da fé do seu possuidor. Aquele que valoriza a sua fé não deixará que o poder político e os bens materiais prendam a sua alma e saberá utilizar desses controles sociais para transformá-los em um maior serviço aos irmãos. Quem exerce um cargo relevante em algum órgão ou entidade tem nas mãos uma oportunidade extraordinária de fazer o bem aos outros mais do que quem não está nessa situação. Quem obteve com seu trabalho um acúmulo considerável de bens não pode se considerar culpado porque outras pessoas não possuem tanto, mas deve transformar esses bens em maiores serviços às pessoas necessitadas.

Ecoa no ar a pergunta dos apóstolos: então, quem poderá salvar-se? A resposta pode ser: quem faz uso dos bens materiais em coerência com a verdadeira fé cristã.

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domingo, 4 de outubro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 27º DOMINGO COMUM - MITIS JUDEX - 04.10.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 27º DOMINGO COMUM – MITIS JUDEX – 04.10.2015

Caros Confrades,

Neste 27º domingo comum, a liturgia comemora o dia da família, inspirando-se no Sínodo sobre a família, que se inicia hoje no Vaticano, e enfoca o matrimônio cristão, trazendo para nossa reflexão as leituras do Gênesis e do evangelho de Marcos. Nestes tempos conturbados, a sociedade brasileira debate uma proposta de mudança legislativa, que está em discussão no Congresso Nacional, acerca do “modelo” oficial da organização familiar, tendo em vista o fato social concreto das uniões de fato entre pessoas, independente da diferença do gênero masculino/feminino. Outra questão que o Sínodo sobre a família aborda, e que é grande preocupação do Papa, é a situação dos casais de segunda união, isto é, aqueles que são casados pelo rito religioso e divorciados pelo rito civil, tendo contraído segundas núpcias. Vale lembrar que, faz poucos dias, o papa Francisco veio de editar um “motu proprio” (que no Direito Canônico corresponde a uma espécie de Decreto Presidencial) intitulado “Mitis judex Dominus Jesus” (O Senhor Jesus juiz compassivo), introduzindo modificações na legislação eclesial sobre o matrimônio católico, simplificando o processo de nulidade matrimonial.

Na primeira leitura, retirada do livro do Gênesis (2, 18-24), temos a conhecida narração bíblica da denominação dos animais, feita por Adão, seguida de outra narração também muito enraizada na nossa cultura, que é a da criação da mulher a partir da costela do homem. Naturalmente, são duas narrativas de sentido figurado pois, embora no passado se aceitasse que fossem descrições de fatos acontecidos, na hermenêutica bíblica contemporânea entende-se como histórias narradas com um conteúdo pedagógico, para ensinamento do povo hebreu. Na verdade, são duas parábolas, que devem ser entendidas dentro da simbologia e do alegorismo.

Nesse sentido alegórico, a parábola diz que Deus chamou Adão e mandou que ele desse nome aos animais. Esse “poder” de dar o nome significa, na cultura hebraica, o domínio que o homem devia ter sobre os animais. Para a cultura hebraica, dar o nome significava exercer influência sobre o nominado, quem dá o nome a algo ou a alguém tem autoridade sobre aquilo ou aquele. No caso, ao dar nomes aos animais, o personagem Adão simbolizava todos os homens em relação aos animais, ou seja, a superioridade do homem e o poder dado por Deus para que o homem utilizasse os animais para se alimentar e para auxiliar no trabalho de transporte de objetos e no aproveitamento de sua força física. E para dar destaque à posição da mulher nesse contexto, de acordo com a descrição bíblica, Adão não encontrou no meio desses animais “uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 20).

Esse detalhe tem a finalidade pedagógica de ensinar ao povo que a mulher está numa posição diferente dos animais no seu relacionamento com o homem, que ela está na mesma hierarquia do homem. Sim, porque nas culturas antigas, era comum a mulher ser considerada propriedade do homem, um objeto do qual ele podia dispor como quisesse. O autor bíblico está ensinando que não é assim, mas que a mulher deve receber do homem um tratamento diferente dos animais, porque ela é para ele uma espécie de 'auxiliar' (adjutorium). Para explicar isso, o narrador sagrado construiu uma historieta, que a hermenêutica bíblica chama de “legenda”: o sono de Adão e a retirada de sua costela. Observemos que não há verossimilhança nisso, porque se assim fosse, haveria um número diferente das costelas do homem no lado esquerdo em relação ao direito, e não há. O texto bíblico diz que o lugar de onde teria sido retirada a costela foi preenchido com carne (Gn 2, 21). Ora, se nós fôssemos tomar essa narrativa ao pé da letra, como um fato ocorrido, os homens teriam uma costela faltando, o que não é verídico.

Outro detalhe que merece explicação é a afirmação de Adão (Gn 2, 23): “Ela será chamada 'mulher', porque foi tirada do homem'.” Na nossa língua, essa frase não traz um sentido imediato, mas na língua hebraica, o autor bíblico faz uma espécie de trocadilho, do seguinte modo. A palavra 'homem' diz-se em hebraico 'ish' e a palavra mulher diz-se 'isha'. Por isso ela foi chamada mulher (isha) porque foi tirada do homem (ish). Apesar disso, historicamente, sabe-se que tanto a sociedade hebraica, e ainda mais a sociedade romana, baseadas no patriarcalismo, sempre colocaram a mulher numa posição social de inferioridade, o que só veio a se modificar nos tempos atuais.

Na leitura do evangelho de Marcos (10, 5), o tema central é o matrimônio e as questões sobre a sua dissolução. Os fariseus perguntaram a Jesus sobre e legitimidade do divórcio que, segundo eles, teria sido permitido por Moisés. Disseram que Moisés havia instituído uma espécie de 'carta de repúdio' que o homem podia fazer para despedir a mulher. Foi quando Cristo os censurou, dizendo que Moisés só havia consentido naquilo por causa da dureza dos corações dos seus ancestrais, mas isso não pode mudar o projeto divino, pois desde o começo da criação, Deus fez homem e mulher (“ossos dos meus ossos, carne da minha carne”, como disse Adão), para que os dois sejam uma só carne, através do matrimônio, isto é, os dois devem formar juntos as duas metades de um mesmo ser. E arremata taxativamente: o que Deus uniu, o homem não separe. (Mc 10, 9)

O texto mosaico referido nessa discussão, na verdade, encontra-se em Deuteronômio (24, 1): “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora”. O livro do Deuteronômio contém inúmeros preceitos que, sob a aparência de norma religiosa, são de fato normas civis gerais, que eram usadas pelos juízes para o julgamento das questões entre os hebreus. De acordo com antiga tradição, pensava-se que todo o Pentateuco houvesse sido escrito por Moisés. Atualmente, os estudiosos da arqueologia bíblica já se convenceram de que não pode ter sido ele, pois são tradições orais escritas só muitos séculos depois. Mesmo sem adentrar nessa discussão sobre a autoria de Moisés, podemos verificar que a “carta de repúdio” não faz parte da Lei Mosaica, mas trata-se de costume adquirido no percurso do deserto, por influência dos povos com os quais os hebreus tiveram contato, sobretudo moabitas e amonitas, os quais tiveram influência muito forte sobre o povo, sendo este o principal motivo das frequentes “crises” de idolatria que ocorreram e que deram muito trabalho aos líderes do povo e aos profetas. Portanto, quando Jesus disse que, no início não era assim, pois desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher para serem uma só carne, ele quer dizer que a regra do divórcio fora tolerada por Moisés, dada a grande influência da cultura estrangeira no meio do povo, mas não faz parte da lei dada por Javé.

Pois bem. Conforme me reportei no início, acerca do Sínodo sobre a família, um dos graves problemas da pastoral religiosa dos nossos dias é o caso dos casais de 'segunda união matrimonial' entre católicos, para o qual o Papa tem demonstrado uma preocupação intensa e tem enfrentado sérias resistências no meio eclesiástico, em especial por parte dos conservadores. Não se pode partir da premissa de que isso ocorre apenas com pessoas que possam ser chamada de levianas. Ocorre também com pessoas responsáveis e bem intencionadas. A Igreja Católica não pode ficar mais adiando o enfrentamento desse problema e deve, de forma serena e ponderada, oferecer alternativas de solução, sendo esta uma das tarefas que o Papa está propondo ao Sínodo.

O grande desafio é buscar uma resposta coerente com o evangelho pois, como lemos hoje, Cristo foi taxativo contra o divórcio. No entanto, o Papa lembra, no “motu proprio” citado antes, que o Senhor Jesus é um juiz compassivo e por isso, pastoralmente, é necessário analisar com maior benignidade os casos concretos de cada casal envolvido, deixando de lado o rigorismo e o formalismo. Mais importante do que as normas são as pessoas e, numa abordagem mais humanística da realidade matrimonial vivenciada, com todas as vicissitudes e contingências da condição humana, deve-se descobrir um real motivo que torne o matrimônio anterior inválido, para que aquelas pessoas que, pelas mais diversas razões, tiveram uma união anterior mal sucedida, possam reorganizar suas vidas não somente perante a sociedade civil, mas também perante a comunidade eclesial. Afinal, nas próprias palavras de Cristo, quando Ele disse: o que Deus uniu, o homem não separe, podemos entender que os próprios cônjuges não podem fazer isso, nem outra autoridade humana. Mas a Igreja, com autoridade divina, delegada que foi pelo próprio Cristo, através do poder de ligar e desligar, pode fazê-lo. Na minha modesta opinião, é isso que o papa Francisco está tentando fazer os padres sinodais entenderem.

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domingo, 27 de setembro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 26º DOMINGO COMUM - MONOPÓLIO DA FÉ - 27.09.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 26º DOMINGO COMUM – MONOPÓLIO DA FÉ – 27.09.2015

Caros Leitores,

A liturgia deste 26º domingo coloca em pauta um assunto que o Papa Francisco, por diversas vezes, já citou publicamente: Deus está não apenas na Igreja Católica, mas no meio de todos os que o procuram de coração sincero, independentemente da crença religiosa. Esse é o grande tema teológico que embasa o ecumenismo, sobretudo no esforço de aproximação das grandes religiões monoteístas, que tem sido um dos pontos recorrentes nos discursos do Papa: cristianismo, judaísmo e islamismo. Ninguém possui o monopólio da fé. Essa exclusividade era uma doutrina teológica do passado, dos tempos apologéticos, porém o próprio Cristo reprova isso, conforme vemos no evangelho de Marcos.

A primeira leitura, retirada do livro dos Números (11, 25-29), narra um episódio ocorrido durante a caminhada pelo deserto, quando os israelitas chegaram ao monte Sinai. Depois de vários meses comendo perdizes, maná e frutos do deserto, o povo estava descontente, com saudade da comida que tinham no Egito, onde comiam carne fresca e legumes e começaram a murmurar contra Moisés. Então, Javeh desceu da nuvem e mandou Moisés separar 70 homens dentre os mais idosos do povo para formarem uma espécie de 'conselho' de anciãos. Moisés fez isso e, diz o livro dos Números, que Javeh “Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram.” (11, 25). Porém, o trecho mais curioso vem logo a seguir: dois anciãos, que não participavam daquele grupo, também receberam o espírito e passaram a profetizar no acampamento (Eldad e Medad). Os invejosos foram logo enredar a Moisés, como se eles estivessem fazendo algo errado, e Moisés deu-lhes um puxão de orelhas: que é isso? Estão com inveja? Josué chegou a pedir a Moisés que ordenasse que eles dois parassem de profetizar, ao que este respondeu: 'Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!' (11,29). Josué era o “lugar tenente” de Moisés e talvez tenha se sentido diminuído porque ele próprio não recebera o dom de profetizar. É curioso observar como essa espécie de “ciúme” do dom do espírito continua a acontecer no meio de certas pessoas que atuam nos serviços paroquiais, cada uma disputando espaço e liderança, por vezes, até criando dissensões e inimizades.

Nesse mesmo sentido, segue a narrativa do evangelho de Marcos (9, 38-43), quando os discípulos vieram dizer a Jesus: “'Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue'. Jesus disse: 'Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor.” Os discípulos certamente achavam que somente a eles, do grupo de seguidores próximos de Jesus, era dado o poder de expulsar demônios, mas Jesus fá-los ver que o Espírito sopra onde quer e ninguém pode inibir a ação do Espírito em sua liberdade total, ninguém manda no espírito, ninguém tem o monopólio da profecia. É lamentável que alguns grupos radicais dentro da própria Igreja não consigam perceber esse ensinamento de Cristo. Na semana passada, quando o Papa esteve visitando Cuba e teve um encontro com Fidel Castro, alguns católicos fanáticos estremeceram dos pés à cabeça e, no dia seguinte, fizeram uma manifestação de rua, propondo a volta do papa Bento, porque consideram que Francisco é o antipapa.

Ora, meus amigos, quando Jesus repreendeu os discípulos que haviam 'proibido' aqueles que não eram do grupo, para que não expulsassem demônios, era como se Jesus estivesse antevendo os diversos movimentos religiosos que iriam surgir, no futuro, as distorções que iriam fazer da sua doutrina, os diversos 'missionários' que se apresentariam em nome dele, prometendo curas e arrebanhando grupos mais ou menos numerosos de seguidores. Em outras palavras, o que Jesus propunha era uma religião enquanto modo de vida, Ele não mandou que fosse fundada uma 'organização' estruturada com cargos e hierarquias, ou seja, Ele não mandou que se constituíssem 'igrejas'. Estas foram surgindo de forma espontânea, com a reunião de fiéis em torno de um líder. De início, esse líder era um dos apóstolos, depois passou a ser uma pessoa a quem eles delegavam este poder, através da 'imposição das mãos' (ordenação), e assim foram sendo criados os vários 'cargos' internos: diáconos, sacerdotes, bispos, estruturando-se aos poucos uma hierarquia. Obviamente, essa organização é necessária e, ao longo do tempo, a Igreja tem dado demonstração da eficiência do seu modelo administrativo, apesar das inevitáveis vicissitudes, que decorrem da própria historicidade e da limitação dos seres humanos. Observando somente sob o aspecto puramente estrutural e formalista, não se pode negar a importância dessa organização, que vem atravessando séculos. Porém, não é essa a finalidade da Igreja, isso é o meio, o suporte, o objetivo último é a pregação do evangelho. E não se deve confundir os meios com os fins.

Quando se faz a reflexão sobre o monopólio da fé, a questão básica a ser enfrentada é: qualquer 'igreja' reproduz o ideal religioso proposto por Cristo? Ou somente uma delas, no caso a Igreja Católica Romana? E as outras religiões não cristãs, mas igualmente monoteístas, tais como o judaísmo e o islamismo, em que posição se enquadram? (Só uma observação necessária: falar em islamismo não deve ser confundido com o radicalismo do autodenominado Estado Islâmico, que pratica atrocidades em nome da religião, isso não representa todo o Islã). E as religiões orientais milenares, tais como o budismo, o bramanismo, taoísmo? O que dizer do espiritismo, do umbandismo, das vivências espiritualistas em geral, não ligadas a uma determinada religião? Pois é, Jesus disse claramente: quem não está contra nós, está a nosso favor. Há muito preconceito de parte a parte, reforçado ao longo dos séculos por lamentáveis acontecimentos, que dificultam as tentativas de reaproximação de todas essas formas de expressão religiosa, no entanto, a profecia de Cristo é que, um dia, haverá um só rebanho e um só pastor. Boa parte do sucesso desse empreendimento depende da forma como cada um de nós vive e pratica a sua fé.

Vemos na segunda leitura, retirada da carta do apóstolo Tiago (o irmão do Senhor) ensinamentos que parecem ser dirigidos para os donos do capital do mundo de hoje (Tg 5, 1-6): “o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso.” Quantas pessoas ficam ricas e vivem luxuosamente como consequência de exploração do serviço dos irmãos, do aproveitamento inescrupuloso do poder social, da sonegação e dos desvios dos bens públicos em benefício próprio... contra esses o Apóstolo é bastante ríspido: “E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós.” Nesse mesmo sentido, expressou-se o papa Paulo VI , na encíclica Populorum Progressio (1967), quando disse: a terra foi dada a todos, ricos e pobres, não apenas aos ricos. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo o que é supérfluo, enquanto para outros falta até o necessário. O Papa critica tanto o liberalismo sem freio, que conduziu ao imperialismo internacional do dinheiro, como a coletivização integral e a planificação arbitrária, que priva os homens da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana, isto é, tanto o capitalismo quanto o comunismo, pois são antiteticamente equivalentes.

Meus amigos, o desafio que a liturgia nos coloca é o de viver autenticamente a mensagem de Cristo, de forma honesta e objetiva, sem tentar adequá-la ao que é do nosso maior interesse. Se nos deixarmos levar pelos preconceitos, que ao longo do tempo fomos assimilando, corremos o risco de recair sobre nós aquela mesma repreensão que Cristo fez aos discípulos: não lhos proibais, porque quem não está contra nós, está conosco. Isso não quer dizer que agora cada um pode escolher a religião que lhe aprouver, como se todas são iguais, porque nós professamos uma fé e acreditamos nela. Significa, outrossim, que não podemos fazer discriminações de pessoas por motivos religiosos. Mais importante do que as denominações religiosas é a pureza do coração e a retidão da consciência, pois o monopólio da fé não foi dado a ninguém.

Que o Divino Mestre nos ajude a sermos autenticamente fiéis, para que a vivência da nossa religião não seja movida apenas pela tradição ou pelo costume.


domingo, 20 de setembro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 25º DOMINGO COMUM - O FRUTO DA JUSTIÇA - 20.09.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 25º DOMINGO COMUM – O FRUTO DA JUSTIÇA – 20.09.2015

Caros Leitores:

Na liturgia deste 25º domingo comum, desponta uma temática que está intimamente associada à missão que o Papa Francisco atualmente realiza, na sua viagem internacional a Cuba e aos Estados Unidos. A ideia está resumida na frase da epístola do apóstolo Tiago: “O fruto da justiça é semeado na paz para aqueles que promovem a paz.” (Tg 3, 18) Uma missão quase impossível, que o Papa Francisco tomou para si é essa: reconciliar Cuba e Estados Unidos, que entraram em crise de relações institucionais há 54 anos e agora, com a intermediação do Papa, o diálogo está reiniciando. Será um extraordinário ato de caridade para o povo cubano o resultado dessa negociação, o que representa também um pedagógico exemplo para os demais países latinoamericanos.

De uma forma simbólica muito oportuna, Platão colocou como subtítulo de sua conhecida obra “A República” a expressão “sobre a justiça”, pois desde os tempos mais remotos, os homens de bem sempre entenderam que o fruto da justiça é a paz. N primeira leitura litúrgica, retirada do Livro da Sabedoria, vemos também o tema da justiça, quando o sábio aborda as ciladas dos ímpios contra os justos. O livro da Sabedoria representa a tradição dos sábios do povo de Israel, aqueles ensinamentos consolidados com a prática continuada, que os mais idosos transmitiam para os mais jovens. A presença do justo incomoda o ímpio, porque faz este ver a própria maldade. Mesmo sem dizer palavras, o próprio comportamento do justo causa desconforto às pessoas maldosas que, por isso, buscam tramar contra o justo, armando-lhe ciladas: “Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência.” O justo incomoda o ímpio porque para este, a paz não interessa, e sim a realização dos seus propósitos escusos. Fazendo um paralelo com a visita do Papa, a sua presença no território dos países politicamente adversários deve ser bastante incômoda, isso não apenas no caso atual de Cuba e Estados Unidos, mas também quando ele visitou o Oriente Médio, onde se arrasta o infindável entre judeus e palestinos. Naturalmente, o Papa tem consciência disso, mas ele aproveita exatamente esse fato para “incomodar positivamente”, com o intuito de promover ações que resultem em bons frutos. É preciso ter muita coragem para agir assim, não é uma obra fácil. O Papa Bento esteve em Cuba, alguns anos antes, mas não enfrentou a crise política. O Papa Francisco, agora, aborda diretamente esse ponto super-sensível e, com o superior carisma que ele possui, faz isso com toda autoridade e com todo o reconhecimento do mundo inteiro, não apenas do mundo católico.

Na segunda leitura, o apóstolo Tiago demonstra claramente que a origem da injustiça, dos males sociais, das guerras, da insegurança, da violência que domina a sociedade de hoje, em todos os países, é a equivocada busca pelo poder material, político, financeiro. Diz o apóstolo: qual a origem das desavenças que há entre vós? É porque buscais primeiros os vossos interesses. Vós matais, invejais, maltratais e mesmo assim não conseguis o que quereis. O vosso problema é porque não pedis. Ou melhor, pedis mal, porque quereis somente aquilo que atende aos vossos interesses. Meus amigos, vemos nessa admoestação do apóstolo Tiago que esses equívocos que sufocam a humanidade atual são, na verdade, uma problemática muito antiga. Quando Platão escreveu uma teoria do Estado, colocando como subtítulo “a justiça”, queria ele dizer que a finalidade do poder político é promover a justiça, pois não era isso o que ele via na Grécia do seu tempo, governada por tiranos, mas entendia que esse deveria ser o objetivo a ser alcançado pelo verdadeiro Estado. Cronologicamente, Platão é bem mais antigo do que o apóstolo Tiago, além do que ambos viveram em localidades muito distantes uma da outra. No entanto, ambos tiveram a mesma intuição em relação à necessidade de se praticar a justiça, a fim de que vivamos numa sociedade pacificada. Apesar do decurso temporal de mais de dois milênios, desde que essas lições foram ensinadas, as pessoas que governam os povos ainda não as aprenderam ou delas desdenham.


No evangelho de Marcos, o evangelista continua a narração do episódio do domingo anterior, quando Jesus ia viajando a pé para Cafarnaum, já a caminho de Jerusalém, onde a sua missão iria se consumar, e ele ensinava aos discípulos as últimas lições da sua catequese. Depois daquele puxão de orelhas em Pedro, que foi sugerir a Jesus que não falasse assim, porque os discípulos ficavam embaraçados, Jesus prossegue e repete: é necessário ele eu vá a Jerusalém, onde serei torturado e morto, mas depois de três dias, ressuscitarei. Aí, diz o evangelista, eles não entendiam, mas ficavam com vergonha de perguntar e especulavam sobre a situação deles, como ficaria o grupo sem a presença de Jesus, como seria a hierarquia entre eles. Chegando em Cafarnaum, depois de acomodados em casa (o evangelista não diz de quem era a casa), Jesus puxou o assunto: sobre o que vocês conversavam enquanto estávamos caminhando? Eles ficaram calados e não quiseram responder, com medo do carão, que com certeza viria, pois Jesus sabia muito bem do que eles tinham conversado. Foi quando ele reuniu os doze e repassou a lição: aquele dentre vós que quiser ser o maior, seja o menor; o que quiser ser o primeiro, seja o último. Convenhamos, isso embaralhava ainda mais o entendimento deles. Como é que alguém poderia ser o primeiro, chegando por último? Como poderia ser maior se desvalorizando? Percebendo a confusão na mente deles, Jesus tomou uma criança e colocou no meio deles, para servir de exemplo. Sede como esta criança... Por que Jesus fez comparação com a criança? Ora, naquele tempo, as mulheres e as crianças não tinham vez na sociedade, acentuadamente machista e patriarcalista. Somente os homens adultos tinham direitos, tinham reconhecimento. Ao colocar a criança como exemplo, Jesus estava usando um recurso pedagógico para dizer: o pensamento de vocês está ao contrário. De acordo com a mentalidade dos judeus, uma criança não tinha direito a acolhimento, ela era subjugada ao pai (nem a mãe podia ter qualquer atitude). De acordo com a doutrina romana, que prevalecia na Galiléia naquele tempo, o pai tinha direito de vida e de morte sobre os filhos, sobre a esposa, sobre os servos, sobre os bois e cabritos, todos estavam no mesmo pé de igualdade.

Então, Jesus diz: quem não se tornar igual a uma criança, não terá lugar no Reino do Céu... aquele que acolhe uma criança, acolhe a mim, e quem acolhe a mim, acolhe o Pai que me enviou. Se algum de vós quer ser o primeiro, pois que seja o servo de todos. Ou seja, Jesus estava ensinando que a verdadeira justiça não faz distinção entre grandes e pequenos, ele próprio estava ali se colocando como o menor de todos. Foi o exemplo que ele deu na última ceia, quando passou o avental na cintura e foi lavar os pés de todos. Quando Jesus disse aos discípulos que seria preso, torturado e morto, para depois ressuscitar, ele estava indiretamente ensinando que por mais cruéis que sejam as maldades humanas, elas nunca superarão a justiça, a sua ressurreição seria (e foi) uma prova disso. Fez-me lembrar agora de uma composição de Roberto Carlos, de 1971, na qual ele dizia: “Tanta gente se esqueceu que o amor só traz o bem, que a covardia é surda e só ouve o que convém”, logo em seguida, ele faz um apelo para que Jesus venha ensinar tudo de novo, porque a humanidade ainda não aprendeu. Voltando ao tema da viagem do Papa, eu diria que ele está fazendo isso, ou seja, está ensinando novamente aquilo que Jesus ensinou dois milênios antes, mas as pessoas não aprenderam ou então já esqueceram: que a paz é fruto da justiça.

Para nós, cristãos, a leitura desses textos litúrgicos vem lembrar que, ao vivermos a nossa fé através da realização de boas obras, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus, estaremos contribuindo para neutralizar a ganância do ter em demasia, do poder a qualquer custo. O Papa está fazendo isso. Diversos pontífices, antes dele, escreveram e discursaram sobre a justiça e a paz, mas pouco fizeram. O Papa Francisco não é muito de escrever e discursar, mas de fazer, de demonstrar. Meses atrás, ele convidou os líderes políticos do Oriente Médio e, juntamente com eles, plantou uma oliveira nos jardins do Vaticano. Fazer é muito mais do que falar. Agora, ele está fazendo a visita da paz no Caribe e na América do Norte, em mais uma notória demonstração de que a fé sem as obras não tem valor. Até parece o encontro de São Francisco com o lobo de Gubbio, pacificando a cidade e trazendo tranquilidade aos seus moradores. Que Deus ilumine os seus passos.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 24º DOMINGO COMUM - VADE RETRO - 13.09.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 24º DOMINGO COMUM – VADE RETRO – 13.09.2015

Caros Leitores,

Na liturgia deste 24º domingo comum, o evangelista Marcos destaca uma ríspida resposta de Cristo a Pedro, que foi falar-lhe coisas inconvenientes: vade retro, satanas (afasta-te, vai-te embora, satanás), uma das poucas demonstrações de atitudes de Cristo em que se vislumbra o quanto o seu lado humano, por vezes, conflitava com a fidelidade à missão que ele viera realizar. Outra vez, foi no Jardim das Oliveiras, quando ele suou sangue. Esse episódio representa de forma bem eloquente a presença em Cristo das naturezas divina e humana e mostra que, enquanto humano, ele sofria mesmo, não apenas fingia sofrimento, como afirmaram os seguidores do docetismo, nos primeiros tempos do cristianismo.

A primeira leitura, extraída do profeta Isaías (50, 5-9), apresenta os versos clássicos do servo sofredor, fazendo eco com a narrativa do evangelista Marcos (8, 27-35), quando Jesus falava para os discípulos dos sofrimentos pelos quais deveria passar, como parte integrante da sua tarefa messiânica, antecipando os acontecimentos que estavam por vir. Essa parte do livro de Isaías, chamada de deutero-Isaías, foi escrita durante o cativeiro da Babilônia, daí as referências ao sofrimento do povo, junto com as exortações de penitência e de confiança em Javeh, que na hora certa virá libertá-los. O servo sofredor do exílio babilônico é a premonição do futuro Messias, que irá personificar de forma plena esta figura, através da sua paixão e morte, para nossa redenção. A profecia de Isaías impressiona pela riqueza de detalhes com que seu autor descreve o futuro sofrimento do Messias, através de citações verdadeiramente inspiradas, que se confirmaram com elevada precisão.

Acerca desse tema do sofrimento de Cristo, é valioso recordar uma temática que foi objeto de múltiplas polêmicas, nos primeiros séculos do cristianismo, acerca da natureza humana e também divina de Cristo. Enquanto Ario (fundador do arianismo) afirmava que Cristo não era igual a Deus, pois era filho e, portanto, subordinado a ele e hierarquicamente inferior, de outro lado havia os cristãos gnósticos, que afirmavam que Jesus tinha apenas uma aparência humana, quando na verdade, ele era Deus e o seu corpo humano era só uma ilusão de ótica. Essa doutrina era chamada de docetismo e afirmava que Cristo de fato não sofreu nada, a paixão foi toda uma grande encenação de sofrimento, pois sendo Deus, ele não poderia sofrer. Desnecessário dizer que ambas as doutrinas foram rejeitadas como heresias, pois a doutrina que se consolidou nas discussões acerca da pessoa de Jesus foi a de que ele possuía duas naturezas (divina e humana) sendo assim, verdadeiramente, Deus e homem, ou seja, ele sofreu de verdade como qualquer ser humano sofreria todas aquelas torturas, feridas, dores, enfim, tudo o que é tipicamente humano.

Pois bem, esse prólogo tem como finalidade esclarecer o diálogo de Pedro com Jesus, conforme está narrado no evangelho de Marcos (8, 27-35), sobre os episódios da vida de Cristo que antecedem sua ida a Jerusalém, onde viria a ser sacrificado. Após três anos de catequese diária com os discípulos, Jesus vendo aproximarem-se os seus dias finais, foi fazer uma espécie de pré-teste, como se diz no vocabulário moderno, um exame simulado, para saber como estava o entendimento do seu grupo acerca da sua pessoa. Ele começa perguntando por longe: quem as pessoas dizem que eu sou? Jesus não queria saber o que o povo pensava dele, mas o que os discípulos pensavam, mas pedagogicamente começou com uma pergunta bem genérica. Eles responderam: uns dizem que é João Batista, outros que é Elias ou algum dos profetas que ressuscitou. Então, Jesus vai direto ao ponto: e vocês, o que dizem? Antes que alguém respondesse, Pedro saiu na frente: Tu és o Messias. Eu não gosto dessa tradução da CNBB, porque na tradução de São Jerônimo, o texto está coerente com o termo original do grego: tu és o Cristo, então acho que assim devia ser mantida essa tradução. Embora se trate de conceitos sinônimos, penso que é mais correto conservar o original, por uma questão de fidelidade ao texto, já que não dificulta a compreensão.

Ao ouvir a confissão de Pedro, diz o evangelista Marcos que “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a respeito.” Em seguida, passou a dizer-lhes que “devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias.” Pedro, que era sempre muito falastrão, se meteu de novo na conversa, chamou Jesus um pouco ao lado e foi pedir-lhe para não falar essas coisas, porque nada disso iria lhe acontecer. Parece que Pedro tinha receio que as pessoas, ouvindo aquilo, começassem a se desiludir de segui-lo, porque muitos dos que o ouviam tinham a esperança de que Jesus fosse liderar uma rebelião contra os romanos, para expulsá-los do território da Judéia. Inclusive dentro do grupo dos apóstolos, a missão de Cristo não era bem entendida, aliás foi percebendo isso mesmo que Jesus começou esse diálogo incômodo e desgastante, mas necessário. Imaginemos que, para Jesus, era também muito constrangedor ficar falando nessas coisas, porque ele sabia da extensão dos acontecimentos, sabia das agruras pelas quais ia passar e a sua natureza humana entrava em conflito com a sua vontade divina, não devia ser nada confortável para Jesus ficar tocando nesse assunto tão delicado. Daí porque ele não gostou nada quando Pedro foi insinuar que ele não devia falar aquilo. Ora, ele já falava com grande esforço e superando enormes dificuldades, e ainda tendo de escutar alguém tentando desvanecê-lo daquela idéia, aquilo passou dos limites. A reação de Jesus foi bastante ríspida, até mesmo com certa violência verbal: ýpage opíso mou, satana, diz o texto grego, que São Jerônimo traduziu por vade retro me, satanas. Essa expressão equivale a uma daquelas que nós dizemos quando estamos com raiva de alguém: vai pro raio que o parta... ou algo assemelhado. E Jesus ainda chamou Pedro de 'satanás', por isso convém explicar também isso. Essa palavra satanás, no nosso idioma, adquiriu o sentido de demônio, porém, o seu sentido original é bem mais brando. Na verdade, trata-se de uma palavra original do hebraico (satan), transliterada em grego, isto é, não é uma palavra da língua grega, e o seu significado próprio é adversário, inimigo, opositor. Então, é como se Jesus estivesse chamando Pedro de inimigo dele, porque estava dificultando o cumprimento da sua missão, não de demônio. A irritação de Jesus também pode ser entendida se imaginarmos que ele sabia que um dos componentes do grupo estava ali com outros objetivos, então aquele puxão de orelhas que Pedro levou tinha também o objetivo de atingir, mesmo que indiretamente, Judas Iscariotes. Ademais disso, conforme já referi antes, essa atitude encolerizada de Jesus ressalta o seu lado humano, o lado emotivo, o sangue que esquenta diante de uma situação desagradável, enfim, a natureza humana de Jesus.

Podemos fazer aqui um link com a segunda leitura, do apóstolo Tiago (2, 14-18), onde ele fala que a fé autêntica não é válida sozinha, mas deve estar sempre acompanhada pelas obras: “a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta.” Encontramos atitude similar nos ensinamentos e nos exemplos que Jesus deixou. Nas várias parábolas que utilizou, ele sempre ressaltou a importância da ação, como fato exterior que acompanha o ato interior do cumprimento dos mandamentos. É isso que confirma o apóstolo João na sua carta: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu.” (1Jo 4, 20) Em relação aos sofrimentos associados à sua missão redentora, ele poderia muito bem ter operado um grande milagre, não se submeter a tantos padecimentos. Se observarmos bem, esse era o tema das “tentações” que Jesus sofreu quando se preparava para começar a sua vida de pregador e foi fazer um retiro no deserto. “Pra que isso?”, dizia-lhe o tentador? Por que não chamas teus anjos para te levarem nos braços... por que não ordenas a essas pedras que se transformem em pão para saciar a tua fome... porque... era o conflito interno que se passava na mente dele. Era muito mais simples e rápido obrar um milagre, como um passe de mágica, e tudo estaria resolvido. Mas assim ele não estaria sendo fiel ao mandato do Pai. Aquilo tudo era doloroso ao extremo, mas precisava ser enfrentado. Por isso, aquela insinuação de Pedro ecoou tão forte e perfurou tão fundo, como um grande espinho de mandacaru. “Sai pra lá”, foi mais uma tentação que ele precisou superar, para o correto exercício da sua messianidade.

Meus amigos, às vezes, precisamos dizer também “vade retro” para diversas pessoas e situações, a fim de nos mantermos fiéis à nossa missão Que o divino Mestre nos ilumine nas nossas tarefas de cada dia, para sabermos sempre discernir e seguir fielmente a missão que Deus nos deu.

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