domingo, 28 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 22º DOMINGO COMUM - HUMILDADE E DESAPEGO - 28.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 22º DOMINGO COMUM – HUMILDADE E DESAPEGO – 28.08.2016

Caros Leitores,

Neste domingo, 28 de agosto, a memória litúrgica comum é a festa de Santo Agostinho de Hipona, um dos teólogos mais importantes da antiguidade cristã. E as leituras do 22º domingo comum nos advertem a evitar a soberba, por ser esta uma atitude incompatível com a conduta do cristão. Uma das formas mais corriqueiras da pessoa soberba é querer aparecer, receber elogios, ser reconhecida em público, fazer amizade com os poderosos da sociedade. Com isso, o soberbo já recebe a sua recompensa passageira. Por outro lado, fazer o bem a quem não pode nos recompensar com favores gera um crédito na eternidade.

O oposto da soberba é a humildade. Etimologicamente, a palava humilde é a tradução do latim “humilis”, termo relacionado com o húmus, com a nossa origem do limo da terra. A imagem bíblica do homem criado por Deus a partir da lama pretende ressaltar a consciência da nossa finitude, da efemeridade da existência. Muitas pessoas vivem como se fossem permanecer no mundo para sempre e se utilizam dos bens materiais para obter prestígio e poder a todo custo, até mesmo pisoteando as outras pessoas. Quando se fala em humildade isso não significa viver como mendigo, como indigente, usar roupa esfarrapada, porque ser humilde é, antes de tudo, uma atitude do espírito. Assim como há pessoas abastadas e humildes, também há pessoas miseráveis gananciosas e soberbas. Ser humilde, pois, é antes de tudo ser pobre de espírito e isso significa desapego e generosidade, significa possuir bens sem ser escravo deles, significa acumular tesouros que a traça não consome e o ladrão não rouba (Mt 6, 19).

Na primeira leitura, extraída do Livro do Eclesiástico (3, 20), o escritor sagrado nos adverte: “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. ” O livro do Eclesiástico faz parte dos escritos deuterocanônicos, isto é, foi escrito em época mais recente, não compondo os livros sagrados do antigo judaísmo, portanto, não era lido nas sinagogas judaicas. Seu autor é um sábio de nome Jesus, filho de Sirac, daí porque o livro também é conhecido como Ben Sirac ou Sirácida. Os cristãos primitivos sempre consideraram este livro como sagrado, mas é um dos livros que Lutero recusou e por isso não está na bíblia protestante. Mas se compararmos o seu texto com os ensinamentos de Cristo, especialmente nas ocasiões em que Ele censura o comportamento dos fariseus, percebe-se que ambos se põem na mesma linha de raciocínio. No livro da Sabedoria, o autor expõe a tradição judaica mais autêntica e Jesus, tendo sido educado na tradição judaica, o conhecia muito bem, aproveitando-se disso para mostrar a hipocrisia dos fariseus que, como mestres da lei, não a praticavam. Semelhanças com o texto desta leitura podemos encontrar também no cântico de Maria, após ouvir a saudação do anjo (Lc 1, 52): derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes... pôs os olhos na humildade de sua serva. Não é, portanto, de se admirar que desde os primeiros tempos do cristianismo este livro tenha sido sempre prestigiado e lido nos templos.

No evangelho deste domingo, podemos identificar um verdadeiro sermão sobre a humildade, através das parábolas ditas por Cristo na casa de um dos chefes dos fariseus. Diz o evangelista Lucas (14, 1), que Jesus fora convidado para ir almoçar na casa de um importante fariseu, num dia de sábado. É de supor-se que Ele, como bom judeu, comparecera à sinagoga naquele dia e provavelmente tenha sido convidado para fazer a leitura da Torah. Após o culto, um dos lideres dos fariseus o teria convidado para ir almoçar na casa dele. Ali chegando, Jesus observou como os convidados ficavam disputando a preferência do dono da casa, escolhendo os melhores lugares à mesa. Cada qual queria demonstrar ter mais prestígio com o anfitrião. E ao mesmo tempo observavam qual seria a atitude de Jesus, como um convidado de honra. Percebendo isso e mesmo antevendo alguma provável armadilha, Jesus tomou a iniciativa das ações e passou a contar-lhes uma parábola.

Os fariseus gostavam daquele tipo de religiosidade das aparências, do cumprimento da lei pela sua literalidade, sem uma atitude de interiorização. Por isso, Jesus aproveitou o contexto e contou mais uma das suas historinhas: houve um banquete em que um convidado que estava sentado no lugar de honra foi solicitado pelo anfitrião para ceder seu lugar para outro conviva mais importante do que ele, tendo que ir sentar-se lá atrás. Era exatamente o que eles estavam fazendo, escolhendo os melhores lugares. Então, Jesus arrematou: quando tu fores convidado, senta-te nos últimos lugares, porque será honroso para ti ser chamado para ser chamado mais para a frente e, ao contrário, será decepcionante para ti ser mandado lá para trás. Essa parábola de Jesus foi tradicionalmente interpretada pelos biblistas no seu sentido mais literal de uma posição ou local físico. Contudo, podemos compreendê-la também noutro sentido mais simbólico, da busca por elogios, da necessidade de ser aplaudido, bajulado, da vaidade de ser notado, reconhecido. Essa procura psicológica pelos “primeiros lugares” na opinião pública tem o mesmo sentido da disputa pelo melhor lugar na mesa do banquete. A frustração que daí resulta, quando a expectativa não se materializa, é semelhante à humilhação daquele que foi “convidado” a sentar na última fileira. Sim, porque, mais importante do que a pobreza de bens materiais é a pobreza do espírito, o reconhecimento sincero da nossa fragilidade, da nossa incompletude. O espírito orgulhoso não percebe isso e necessita de estar sempre sendo incensado e colocado em alto pedestal. Ao contrário, o espírito humilde raciocina como Cristo disse no evangelho: somos servos inúteis, fizemos o que tínhamos de fazer. (Lc 17, 7)

Daí a complementação que Jesus faz desta primeira parábola com uma segunda: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. ” (Lc 14, 12) Ele não está dizendo que não se deve oferecer recepções aos amigos e parentes. Está advertindo que quem pratica o bem somente para os semelhantes, os da sua mesma classe social, recusando-se a fazer o mesmo com as pessoas mais humildes, na verdade, não age como cristão. Recentemente, o Papa Francisco fez uma comparação interessante, quando disse: de que adianta ir à missa e comungar se, quando chega de volta ao seu apartamento, nem cumprimenta o porteiro do prédio? O profissional que escolhe a sua clientela olhando apenas o poder aquisitivo e a consequente possibilidade da retribuição material não está agindo como cristão. Atender com alegria o cliente bem-vestido e perfumado, enquanto o cliente de aparência modesta é recepcionado com frieza e má vontade, não é atitude digna de quem se considera discípulo de Cristo. Novamente, devemos entender que não se trata de um local físico, de um almoço ou jantar convencionais, mas é preciso alcançar o nível do simbolismo da mensagem.

No final desta parábola, Jesus diz: “quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. ” (Lc 14, 13) Ora, isso não deve ser entendido na sua literalidade, mas no sentido metafórico: quando tu tratas bem os iguais a ti, aqueles que podem também te fazer o mesmo, a tua recompensa já foi dada, através dos elogios que recebes e das promessas que ouves. Mas se ages desse mesmo modo também com aqueles que não podem te retribuir, a recompensa será dada pelo Senhor, justo juiz. E de nada nos adiantaria cumprir a literalidade desse texto, promovendo banquetes para os indigentes, os excluídos, os moradores de rua, se o nosso espírito, a nossa atitude interior demonstrar superioridade, distanciamento, ojeriza ou indiferença. A humildade não está nas práticas exteriores, mas no sentimento de solidariedade que deve acompanhá-las. Esta é a diferença entre praticar a humildade e ser humilde. Alguém pode praticar atos exteriores de humildade e manter o espírito soberbo, isso de nada adianta. A humildade não é medida pela quantidade de bens materiais que alguém possui, mas pelo grau de desapego que tal pessoa demonstrará em relação a esses bens. Vale lembrar, nesse contexto, o inspirado comentário de Paulo sobre Jesus, na carta aos Filipenses (2, 5-7): sendo de condição divina, Jesus não se prevaleceu disso, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante a nós. Ele, sendo Deus, não precisava passar por todos aqueles tormentos. No entanto, Ele optou pela humildade até as últimas consequências, para nos dar o maior exemplo de capacidade de renúncia, quando Ele se desapegou até de sua condição divina, para sacrificar-se por nós homens, que nada temos para dar-Lhe em recompensa. Esse é o desafio que Jesus deixou para aqueles que aderem ao seu projeto e aceitam ser seus discípulos.

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domingo, 21 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 21º DOMINGO COMUM - A PORTA ESTREITA - 21.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 21º DOMINGO COMUM – A PORTA ESTREITA – 21.08.2016

Caros Leitores,

As leituras litúrgicas deste 21º domingo comum nos convidam a refletir sobre o tema da salvação, que é oferecida universalmente, ou seja, Deus não escolheu apenas um grupo, ainda que numeroso, para distribuir com este a sua graça, mas a oferece a todos. Porém exige certos requisitos para que a graça salvífica passe a agir na vida do crente. A graça divina é infinita e está disponível para todas as pessoas de boa vontade, todos os que procuram a Deus com o coração sincero, isso significa que há diversas “portas” por onde entrar para a vida eterna, no entanto, o cristão deve desconfiar das portas largas, pois estas levam a paragens ilusórias. A salvação vem associada à cruz, portanto, não há salvação sem que cada um carregue alegremente a sua cruz, seguindo o exemplo de Cristo.

A primeira leitura, retirada do livro de Isaías (66, 18-21- deuteroIsaías, escrito após o cativeiro da Babilônia) é de uma clareza extraordinária. É impressionante a visão de futuro do profeta, a precisão dos detalhes com que ele aponta os acontecimentos da salvação: “virei para reunir todos os povos e línguas; eles virão e verão minha glória.” (Is 66, 18) E prossegue mais adiante: “Escolherei dentre eles alguns para serem sacerdotes e levitas.” (Is 66, 21) O profeta anuncia como será o futuro da humanidade. Obviamente, ele escrevia para as pessoas do seu tempo. Porém, numa perspectiva escatológica, o profeta se refere a todos nós, quando explica: “...para as terras distantes, e, para aquelas que ainda não ouviram falar em mim e não viram minha glória.” (Is 66, 19) Com isso, o profeta estava anunciando ao povo hebreu que a aliança de Javeh com Abraão não se referia apenas a eles, ou seja, quando Ele disse que a descendência de Abraão seria mais numerosa do que as estrelas do céu, isso significava o alcance universal da promessa, ultrapassando os limites da nação hebraica. E o profeta complementa: dentre estes estrangeiros, escolherei alguns para serem sacerdotes e levitas, ou seja, esses que ainda não Me conhecem também serão meus anunciadores. É curioso como alguns pregadores de visão curta e fundamentalistas insistem em contar o número de pessoas a quem Javeh dirigiu a mensagem da salvação, ligando essa ideia aos 144.000 assinalados do Apocalipse (Ap 7,1). A imagem transcrita por João contém um enigma a ser decifrado e comporta divergências. Ao contrário, a profecia de Isaías é clara e direta: a mensagem da salvação é dirigida a todos os povos, inclusive àqueles que ainda não conhecem Javeh, mas que virão a conhecê-lo, através dos seus mensageiros. O momento histórico vivido pelo povo de Israel naquela época, retornando à pátria após livrar-se do cativeiro babilônico, era de grande euforia e isso refletia o desejo do Profeta de levar a todos os povos a misericórdia e a fidelidade de Javeh.

Na segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, o tema da salvação universal também está presente em outra perspectiva, numa dimensão do castigo disciplinar, da correção educativa, para aqueles que não estão comprometidos com a sua missão. O autor da carta, antes atribuída ao apóstolo Paulo, exorta os seus compatriotas hebreus, após a morte de Cristo, sobre a nova forma de compreender o sofrimento. Havia entre os hebreus uma tradição antiga que interpretava o sofrimento como castigo divino, de modo que uma pessoa infeliz era tida como alguém que não gozava da amizade de Javeh. Vemos diversas passagens no evangelho em que Cristo recrimina os fariseus por causa dessa ideia (por ex: Jo 9, 1-3). O autor da Carta aos Hebreus vem repetir essa mesma lição de Cristo em outro contexto, dizendo que o sofrimento faz parte da vida e que devemos compreendê-lo como um recurso pedagógico para nos aproximar do caminho da verdade. Assim diz: “não te desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho'.” (He 12, 6) E complementa: qual o filho a quem o pai não corrige, quando aquele erra? Daí a advertência em He 12, 13: “acertai os passos dos vossos pés', para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado.” Isso quer dizer que as pessoas que sofrem e as mais necessitadas não devem ser excluídas, mas trazidas para o convívio fraterno, para que não se percam, mas sejam socorridas. “É para a vossa educação que sofreis, e é como filhos que Deus vos trata. ” (He 12, 7) Exemplo dessa linha pedagógica nós encontramos também nas cartas de Paulo, quando trata da questão dos judaizantes (por ex: Romanos 14, 5), pois o povo hebreu tinha aquela ideia de que, por serem descendentes de Abraão e, portanto, os legítimos herdeiros da promessa, eles eram os primeiros da fila, ou seja, os demais deviam inspirar-se no exemplo deles. A Carta aos Hebreus, assim como as outras lições de Paulo, vêm mostrar que esse raciocínio é ilegítimo, pois pode até ocorrer o oposto, isto é, os últimos serem os primeiros, conforme está no evangelho de Lucas (13, 30).

A terceira leitura é exatamente do evangelista Lucas (13, 22-30), no trecho em que narra a pergunta feita por alguém a Jesus: é verdade que são poucos os que se salvam? Curiosamente, o evangelista não identifica quem foi o autor da pergunta, mas por se tratar de um tema muito preocupante para os fariseus, podemos supor que tenha sido um deles. Muitos fariseus de boa vontade acompanhavam Jesus e escutavam seus ensinamentos. E pelo estilo da resposta dada por Jesus, deve ter sido um fariseu o perguntador, por causa dos exemplos que Ele dá. Como costuma acontecer, Jesus nunca responde diretamente às perguntas, mas faz isso através de exemplos e de situações ilustrativas. Neste caso, Ele usa o exemplo da porta estreita, afirmando indiretamente que não existe um número determinado de pessoas aptas à salvação, mas que quem quiser salvar-se deverá escolher a porta estreita. Sabe-se que uma porta larga é um lugar mais cômodo de passar, mas neste caso, ela deve ser evitada. No caso dos fariseus, a “porta larga” significava a mentalidade que eles tinham de serem os herdeiros da promessa de Javeh e, portanto, já estavam com a salvação garantida. Então, Jesus quer mostrar que a salvação é um dom divino dirigido a todos e que, embora seja gratuito, exige atitude de quem quer salvar-se, por isso, deve escolher a porta mais difícil de entrar. Portanto, não alcança a salvação quem fica de braços cruzados, pensando que já foi escolhido e isso basta, e não cuida de fazer a sua parte. Por isso, Ele cita uma situação hipotética: o patrão fechou a porta e quando o servo pede para abrir, o patrão responde que não o conhece. O servo insiste: eu comi e bebi junto contigo... mas o patrão continua dizendo: não sei de onde sois.

Quais são, concretamente, essas tarefas árduas, que Jesus simboliza com a imagem da porta estreita? Falando num linguajar também simbólico, será cada um carregar a sua cruz de cada dia, não se queixando nem reclamando, mas na alegria e na esperança. A tolerância com os irmãos, a prática da justiça, o exercício da caridade são alguns comportamentos práticos associados à porta estreita. Quem se acomoda na presunção de estar salvo pelo sangue de Cristo e se descuida dos seus deveres de cristão, de testemunhar o amor de Cristo através das suas ações ouvirá do Mestre, diante da porta fechada: não sei de onde sois. Foi por isso que Jesus advertiu que muitos tentarão entrar na porta estreita e não conseguirão, estes são os que se contentam com uma religião de exterioridades, como acontecia com os fariseus do seu tempo. Estes achavam que bastava o cumprimento da lei, bastava jejuar, dar esmolas, ir ao templo nos dias de preceito, fazer suas orações e pronto. Saindo do templo, lá estavam eles com o coração cheio de orgulho, inchado pela prática da injustiça, obeso pelo desprezo para com os irmãos… meus amigos, precisamos vigiar para que isso não aconteça conosco. Esse puxão de orelhas de Jesus hoje é dirigido a todos nós. A nossa participação nesse projeto universal salvífico de Cristo se encontra descrito na passagem de Lc 13, 29: Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. Devemos, a todo custo, evitar nos colocarmos na posição dos fariseus, porque essa tentação da soberba sempre acometeu os cristãos em todos os tempos. A porta estreita não é compatível com essa conduta.

A porta estreita, enfim, não significa sofrimento, doença, tristeza, escassez, como outrora se interpretou, como se fosse necessário o autoflagelo, a privação das coisas materiais a fim de obter a salvação. Os bens materiais são dons divinos e eles somente atrapalham a nossa vocação para o Reino de Deus quando são direcionados para o nosso egoísmo e para a nossa ganância, porém se forem colocados ao serviço da comunidade, se forem objeto da partilha e instrumentos da prática do bem, eles não causarão embaraço ao projeto de Deus.

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domingo, 14 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 20º DOMINGO COMUM - O FOGO DA DISCÓRDIA - 14.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO 20º DOMINGO COMUM – O FOGO DA DISCÓRDIA – 14.08.2016

Caros Leitores,

Neste domingo, o 20º do tempo comum, a liturgia nos põe diante de leituras intrigantes, enigmáticas, daquelas que destoam dos temas geralmente tratados, relacionados com a paz e a concórdia. Os textos litúrgicos escolhidos, ao invés, falam sobre discórdias e desuniões, conflitos e conturbações. Num momento de azedume, Jesus pergunta aos discípulos: vocês pensam que eu vim trazer paz à terra? Pois não foi, vim trazer a desunião. A Bíblia nos coloca, algumas vezes, em dilemas sobre como compreender palavras tão duras, em total contraste com o ensinamento rotineiro de Cristo. Como devemos entender a mensagem de Cristo, quando ele diz que vai promover o fogo da discórdia?

Na primeira leitura, temos um episódio dramático envolvendo o profeta Jeremias em tempos difíceis vividos pelo reino de Judá, coagido de um lado pelo faraó do Egito e de outro lado, pelo rei da Babilônia. Jerusalém ficou sitiada por mais de um ano, com o povo vivendo agruras. O rei de Judá, de nome Zedequias (ou Sedecias ou Matatias, são outros nomes que ele tinha), não procedia bem aos olhos do Senhor e quando o profeta Jeremias foi interpelá-lo, transmitindo a mensagem de repúdio a mando de Javeh, o rei deixou-se influenciar por seus conselheiros e mandou prender Jeremias num calabouço lodento, a fim de que morresse de fome. Visto que Javeh não desampara os seus profetas, e Jeremias foi aquele que disse um dia que possuía um fogo queimando dentro dele, de modo que ele não conseguia ficar sem profetizar, um servo do rei (o texto fala de Ebed Melech, mas este não é nome próprio, significa literalmente “servo do rei”) de origem etíope foi inspirado por Javeh para fazer um recurso em favor de Jeremias. Ele se arriscou demasiadamente, porque no palácio real, todos eram inimigos de Jeremias e quem falasse a favor dele corria sério risco de ir parar no mesmo local onde estava o profeta, no calabouço lamacento. Porém, de forma imprevista, o rei Zedequias acedeu ao recurso de Ebed Melech e autorizou que ele reunisse trinta homens e juntos fossem retirar o profeta Jeremias do calabouço. Estima-se que não seriam realmente necessários trinta homens para retirar Jeremias do fosso, porém esse número avantajado teria sido determinado pelo rei por medida de precaução, porque ele sabia que os nobres e os sacerdotes estavam contra Jeremias e poderiam tentar impedir o cumprimento da ordem real. Em retribuição ao seu ato heroico, Ebed Melech recebeu de Jeremias a promessa de que ele não seria apanhado quando o rei da Babilônia invadisse Jerusalém e levasse os seus habitantes como cativos. Assim aconteceu, cerca de um ano depois. Tanto Ebed Melec quanto Jeremias escaparam de ser levados ao cativeiro e fugiram para refugiar-se em terras egípcias.

Vemos, nesse episódio, uma espécie de fogo da discórdia entre os sacerdotes e o profeta Jeremias. O profeta aconselhava o rei para fazer um acordo com os babilônios, a fim de evitar a acerbamento do conflito, porém os nobres e os sacerdotes deram opinião oposta e o rei não atendeu ao profeta. Como resultado, os babilônios invadiram Jerusalém, levaram os tesouros do templo e carregaram a população como escravos. Por não atender a voz de Javeh através da palavra do profeta, o rei de Judá infligiu ao povo terrível castigo, do qual somente se livraram após muito tempo e depois de sofrerem severas penas. Às vezes, é preciso pagar o preço da discórdia para, enfim, descobrir a paz.

Na segunda leitura, o autor da Carta aos Hebreus (Hb 12, 1-4) aconselha seus conterrâneos a seguirem o exemplo de Cristo, que enfrentou a morte, não se importando com a infâmia, para entrar no trono de Deus. Os cristãos não devem desanimar em sua luta contra o pecado, para ao final receberem a recompensa. “Empenhemo-nos com perseverança no combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé.” Aqui o fogo da discórdia está colocado entre o cristão e o pecado, contra o qual deve este resistir até ao sangue, tendo como referência o modo como Cristo resistiu na cruz. Até pouco tempo, atribuía-se a autoria da carta aos Hebreus ao apóstolo Paulo, mas atualmente a crítica literária descartou essa possibilidade, embora admita que foi provavelmente escrita por um intelectual judeu de cultura grega (assim como Paulo) possivelmente ouvinte do Apóstolo. Há quem afirme que a autoria desta carta seja de Priscila, esposa de Áquila, que foram os primeiros divulgadores do cristianismo em Roma. O casal era amigo de Paulo, que fazia culto na casa deles, em suas viagens àquela cidade. Essas mulheres sábias e heroicas daqueles tempos não eram bem vistas na sociedade como intelectuais e preferiam esconder seus talentos, para não sofrerem discriminação. Na prática, Priscila era uma diaconisa.

A leitura do evangelho de Lucas (Lc 12, 49-53) é também intrigante pelas palavras ríspidas de Cristo aos apóstolos. Nesse capítulo 12, o escritor sagrado reúne diversas “conversas” que Jesus teve em caráter reservado com os apóstolos e ele não “dourava a pílula”, como se diz na gíria, falava mesmo de forma grosseira, de modo que deixava os discípulos com o juízo embaralhado. Em certo momento (vers. 41), Pedro não se conteve e perguntou: Senhor, dizes essa parábola só para nós ou também para os outros? Jesus nem respondeu diretamente, mas de forma indireta avisou: aquele que sabe a vontade do seu senhor e não a cumpre, é merecedor de muitos açoites. Por outras palavras, ele quer dizer: vocês serão mais exigidos do que os outros, porque foi-lhes dado a conhecer muito mais e, portanto, serão mais cobrados por isso. Foi nesse contexto que Jesus os deixou de orelhas quentes, quando disse: vocês pensam que eu vim trazer paz? Pois não foi, vim trazer a discórdia. Vim lançar fogo e estou ansioso para que ele se acenda. Vou receber um certo batismo e fico ansioso até que isso se cumpra.

Percebe-se que Jesus fala acerca da sua paixão, que se aproximava, e pela sua natureza humana, tinha dificuldade de controlar a própaia angústia. E já antevia que aquele grupo seleto de seguidores seus iria passar por diversas agruras, quando fossem enviados em missão. Jesus estava lançando a faísca naquele pequeno grupo e eles seriam encarregados de distribuir esse fogo pelo mundo afora, por onde passassem. Isso eles não tinham ainda condições de entender. Por causa da sua doutrina, Cristo previu que “O pai estará dividido contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. (Lucas 12:53)” De fato, isso aconteceu no passado e, de certo modo, continua a acontecer ainda em nossos dias, quando se observam dissensões no interior das famílias, por causa de divergências acerca da fé e da prática da religião. As diversas interpretações que são dadas às palavras bíblicas levam a que o fogo da discórdia se instale até dentro dos ambientes religiosos. É como se Jesus estivesse nos acautelando de que essas coisas poderiam acontecer, mas que isso não deve nos perturbar, ao contrário, deve servir-nos de estímulo para superá-las. Logo adiante, nesse mesmo capítulo, Jesus continua com esse discurso ranzinza, quando diz: ao verem uma nuvem se aproximando no céu, vocês dizem: vai chover. Pois sois hipócritas que sabem interpretar o tempo atmosférico, mas não sabem compreender o tempo da vida de vocês. Meus amigos, que grande visão de futuro Jesus demonstra nessas palavras ríspidas, que os discípulos ouviam sem compreender.

Quando vemos, nos dias de hoje, grupos de pessoas dentro das comunidades entrando em divergência até mesmo ao ponto de se tornarem inimigas por causa de questões religiosas, então podemos perceber o quanto Jesus foi verídico e crítico, ao dizer que veio trazer o fogo à terra e quer mesmo é que ele queime. Ele sabia que, com a nossa cabeça dura, só mesmo um elemento tão forte e temido como é o fogo seria capaz de nos impelir a enfrentar esses pontos de discórdia. E o que lamentavelmente se constata é que, mesmo assim, os cristãos não aprendem e continuam a cultivar divergências e atear novos fogos de discórdia. A intolerância religiosa é um dos grandes dramas e dilemas do mundo de hoje, e não me refiro somente ao que acontece no choque com diferentes religiões. Esse é, de fato, o conflito mais evidente. Mas há também um conflito surdo e dissimulado entre membros da hierarquia, entre os grupos que existem nas comunidades, entre as lideranças dos diversos serviços ligados à paróquia, cada um querendo se sobressair, nem que seja pisoteando os demais. O fogo da discórdia continua bem aceso, porém parece que as pessoas se acostumam com as labaredas e estas já não incomodam mais. Quando Jesus fez referência ao fogo, penso que foi no sentido de que aquilo que arde deve nos motivar a buscar logo um meio de apagar aquele incêndio, não para mantê-lo em ardência permanente. Podemos assim constatar o quanto ainda precisamos meditar com profundidade nos ensinamentos de Cristo e colocá-los em prática.

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domingo, 7 de agosto de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 19º DOMINGO COMUM - VIGIAR SEMPRE - 07.08.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 19º DOMINGO COMUM – VIGIAR SEMPRE – 07.08.2016

Caros Leitores,

A liturgia deste 19º domingo comum nos convida a refletir sobre a necessidade da permanente vigilância acerca dos princípios da nossa fé, que fundamentam a nossa ação no mundo, o nosso exemplo de cristãos. Ser cristão não é uma diversão, um entretenimento, um modismo, mas a fé exige um engajamento, um conjunto de atitudes e atividades que envolve todo o nosso ser pessoal. Ninguém pode ser cristão apenas pela metade, esse cristianismo de fachada, pode até ser praticado por alguns crentes que se contentam em manifestações exteriores da sua fé, mas foi combatido por Cristo na sua catequese aos discípulos, de acordo com o que lemos no evangelho deste domingo.

A primeira leitura, retirada do livro da Sabedoria (Sb 18, 6-9), relembra a noite em que o povo foi libertado do Egito, quando Javeh demonstrou a sua fidelidade para com as promessas feitas através de Moisés ao povo, que n'Ele depositou sua fé. A ação miraculosa de Javeh foi, ao mesmo tempo, salvação para os justos e perdição para os inimigos. Os que acreditaram n'Ele foram contemplados com a sua força vencedora e os que não creram experimentaram o peso da sua ira. O livro da Sabedoria, cuja autoria era tradicionalmente atribuída a Salomão, é considerado pela crítica literária o texto mais recente do Antigo Testamento, tendo sido escrito numa época em que a cultura grega ganhava espaço dentre os judeus. Trata-se, portanto, de uma obra bem posterior ao tempo de Salomão. O objetivo do seu autor é recordar ao povo as suas raízes históricas, para deste modo fortalecer-lhes na fé e não deixar que sejam atraídos pelas novas doutrinas que apareciam. O texto busca resgatar e condensar os ensinamentos tradicionais básicos, produzidos pelos ancestrais do povo durante toda a sua caminhada, desde a libertação do Egito, demonstrando a superioridade de Javeh sobre os deuses dos outros povos.

A segunda leitura é retirada da carta aos Hebreus (Hb 11, 1-19). Esta carta, por muito tempo, foi aceita como tendo sido escrita por Paulo, por causa do pensamento grego inerente ao seu texto, que é uma característica dos escritos paulinos. Contudo, atualmente a crítica literária já descartou a autoria de Paulo, embora não se saiba, com certeza, quem teria sido seu autor. Nas Bíblias, ela ainda consta no final da listagem das cartas de Paulo, mas apenas por uma questão de organização de capítulos, pois não há certeza de quem a escreveu. Cogitou-se que poderia ter sido Timóteo ou Clemente de Alexandria, porém não há elementos históricos que corroborem essas hipóteses. O certo é que seu autor foi alguém da comunidade grega muito entrosado com a fé judaica, pois a exemplo do livro da Sabedoria, também procura resgatar esta tradição numa época muito marcada pela influência grega.

No início deste capítulo 11, o autor dá uma perfeita definição do que seja a fé: “um modo de já possuir o que ainda se espera”, é o conceito do “já e ainda não”, que também se encontra nos escritos paulinos. O autor da carta coloca como exemplo para esse conceito a extraordinária fé de Abraão, que superou todas as adversidades pela sua confiança na promessa de Javeh. Desde a gravidez de Sarah, em idade avançada, até a peregrinação pelo desconforto do deserto, morando em tendas precárias, passando pela provação experimentada, quando foi chamado a imolar seu único filho, Abraão nunca vacilou na sua crença na promessa de Javeh, pois sabia que Ele tem poder até de ressuscitar dos mortos. Pela sua fé inquebrantável, Abraão foi sempre uma referência para os escritores bíblicos, quando este assunto estava em pauta. Até Jesus Cristo, naquele episódio do centurião que disse “basta uma palavra tua” (sed tantum dic verbum), declarou: nunca vi tamanha fé em Israel. A fé demonstrada pelo centurião no Novo Testamento se equipara ao exemplo de fé de Abraão.

Os exemplos de Abraão, no Antigo Testamento, e do centurião, no Novo Testamento, demonstram para nós o tamanho do compromisso que brota da fé. Crer é integrar a fé na sua vida inteira e não apenas em parte dela nem apenas quando a ocasião coloca o crente em algum aperto. Fé significa viver cada dia com aquela mesma confiança e certeza, aconteça o que acontecer, vigiando para que nenhuma adversidade venha nos desviar deste caminho. As leituras da Sabedoria e de Hebreus reforçam a importância da fé incondicional como sendo aquela que Deus espera do fiel. Abandonar-se nas mãos de Deus não significa ficar de braços cruzados, sem fazer nada, esperando que Deus faça seus milagres a todo momento, mas sim fazendo cada um a sua parte, na convicção de que o resultado final será conduzido pela fidelidade daquele a quem servimos. Este é o significado da definição teológica da fé, contida nesse texto: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem.” (Hb 11, 1). Esta frase sozinha vale por um tratado teológico inteiro.

Na leitura do evangelho de Lucas (12, 32-48), temos uma catequese particular de Jesus para os discípulos. Algumas vezes, Ele catequizava os discípulos ao mesmo tempo em que ensinava também as multidões. Mas em outros momentos, Ele se dirigia especificamente ao pequeno grupo, como é o caso da leitura de hoje: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino.” (Lc 12, 32) O pequenino rebanho, no caso, é o seu grupo de escolhidos para continuarem o trabalho, depois que Ele retornasse ao Pai. Então, Jesus vai ministrar-lhe lições bem diretas: vocês devem ser vigilantes como empregados que esperam o patrão, que pode chegar a qualquer momento, para abrir-lhe imediatamente a porta. Por outras palavras, o verdadeiro crente é aquele que está sempre alerta, aquele cuja fé não tira férias, cuja fidelidade nunca esmorece ou dormita. Para estes, o patrão vai oferecer um banquete no qual ele próprio será o garçon. Esta será a retribuição aos que crerem de todo o coração e perseverarem inabaláveis na sua fé.

Porém, Jesus faz outra advertência aos discípulos, para que eles não ajam como servos “confiados”, ou seja, aqueles que o patrão deixou como administradores e na ausência dele, porém passam a explorar os outros empregados, passam a regalar-se de comida e bebida até se fartarem e, quando o patrão retorna, os encontra embriagados. Para estes, não haverá retribuição, e sim, castigo. E essa advertência de Jesus se dirige também para nós. A nossa condição de cristãos não deve nos levar a tirar proveito da situação, de nos considerarmos melhores do que os outros irmãos da fé e do que as pessoas que praticam outras crenças religiosas. O ser cristão para nós deve acarretar o compromisso de dar o exemplo para que os irmãos nos vejam e sejam estimulados a nos imitarem, isto é, eles devem ser convencidos pelo nosso testemunho e pelo nosso exemplo, e não ser tratados com desdém ou menosprezo. O Papa Francisco tem, repetidas vezes, enfatizado isso na sua catequese, superando aquela doutrina tradicional de que somente na Igreja Católica as pessoas serão salvas, como se isso fosse automático. Os cristãos “confiados” podem ser surpreendidos com a reprovação, enquanto pessoas de outras crenças, mas cuja conduta está de acordo com o evangelho, receberão aprovação.

Esta vigilância que Jesus exige de seus seguidores estende-se a todos, tanto os fiéis leigos quanto os fiéis consagrados e os ordenados. Quantas vezes, infelizmente, encontramos sacerdotes e bispos autoritários e prepotentes, que estão longe do modelo traçado por Cristo no evangelho deste domingo. Quantos personagens, ao longo da história eclesiástica (papas, bispos, purpurados) se comportaram como autênticos chefes políticos e não como aqueles que foram escolhidos para servirem ao povo de Deus. Outrora como nos dias atuais, não é raro encontrarmos exemplos de “empregados confiados” que esqueceram a palavra de Cristo: “'Meu patrão está demorando', e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis.” (Lc 12, 45-46). Vejamos que a consequência desse comportamento é terrível: o empregado será partido ao meio e irá participar do destino dos infiéis. E Jesus complementa dizendo que a exigência da fé será proporcional ao conjunto dos talentos recebidos, ou seja, a quem muito foi dado, muito será pedido. “Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes.” (Lc 12, 47)

Deus quer de nós fidelidade sempre, não apenas no comparecimento da missa aos domingos e na participação dos sacramentos, não apenas em determinadas horas do dia ou em determinados dias da semana, mas a cada minuto de vida que Ele nos dá. Que nós aprendamos a agir sempre como os empregados vigilantes, elogiados pelo patrão.

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domingo, 31 de julho de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 18º DOMINGO COMUM - RICOS PARA DEUS - 31.07.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 18º DOMINGO COMUM – RICOS PARA DEUS – 31.07.2016

Caros Leitores,

A liturgia deste 18º domingo do tempo comum nos leva a refletir sobre a posse e o usufruto dos bens materiais, dos quais não somos donos, mas apenas administradores. As leituras mostram exemplos de apego demasiado às coisas terrestres, situação que obnubila a nossa mente e nos impede de reconhecer o bem. Não vale a pena ser rico para ostentar, ser rico para o mundo, porque tal riqueza é vã e vazia, não nos acompanha na jornada futura. O cristão deve ser rico para Deus, rico de coração, pois esta é a riqueza perene.

Na primeira leitura, do livro do Qohelet (Eclesiastes), temos aquele bordão, que nos foi repetido incontáveis vezes no período de formação: vaidade das vaidades, tudo é vaidade. O Monsenhor Manfredo Ramos, no sermão da missa de hoje, explicou que a palavra hebraica que é traduzida por “vaidade” significa algo como “uma bolha de sabão”, ou seja, a vaidade é algo que aparenta beleza, todavia é vazia, transitória, de repente se desfaz. E observemos o quanto a vaidade mexe com a cabeça das pessoas. Por causa da vaidade, as pessoas praticam atos reprováveis, fazem inimigos e até se autodestroem. Por causa da vaidade, as pessoas tentam apresentar uma imagem de si mesmas que, de fato, não são e tentam diminuir o brilho dos outros, a fim de que possam aparecer com destaque. Eu arriscaria dizer que a vaidade é o maior pecado da humanidade.

O livro do Kohelet, cuja autoria é atribuída a Salomão, faz uma advertência que continua muito atual, quando vemos pessoas cujos pais tiveram vida próspera, como fruto do seu trabalho, enquanto os herdeiros, com pouco tempo, puseram tudo a perder. Nos meios de comunicação, é frequente lermos notícias de pessoas que ganharam elevadas quantias em loterias e outros negócios, como jogadores e artistas que fizeram muita fama e tiveram invejável fortuna, e terminaram os seus dias, muitas vezes, em asilos de amparo, na mais lamentável penúria. Existe uma frase do Dalai Lama, que circula pela internet, a qual reproduz no nosso contexto contemporâneo a advertência do Kohelet: os homens gastam a saúde trabalhando demais para angariar muita riqueza e depois gastam toda a riqueza que adquiriram para restabelecerem a saúde. Quando conseguem.

Na carta aos Colossenses (3, 1-2), o apóstolo Paulo lhes ensina a aspirar às coisas do alto, a concentrar-se nas coisas celestes, já que, pelo batismo, todos ressuscitaram em Cristo. Isso significa que o “homem velho” morreu e no seu lugar surgiu o “homem novo”, fruto do evangelho. No versículo 5, Paulo não poderia ser mais claro ao falar das coisas terrestres, que devem ser abominadas: “Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. ” Os conceitos utilizados pelo apóstolo são, na verdade, todos sinônimos da mesma vaidade, da qual fala o Kohelet: ôca e efêmera. Ao morrermos para o pecado e ressuscitarmos para a vida nova em Cristo, todo o nosso mundo se transforma. Então, não teremos mais apego aos bens materiais nem às honrarias nem às benesses terrestres, isto é, “Aí não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos ” (Col 3, 11).

Naturalmente, meus amigos, essas palavras não significam que seja incoerente para nós cristãos possuirmos bens materiais, porque estes fazem parte da vida e são conquistados por nós com o nosso trabalho, o nosso esforço, a nossa produtividade, com eles podemos ter uma vida mais confortável, isso não é vedado ao cristão. Mesmo nas comunidades religiosas, se recordarmos a vetusta regra de São Francisco (“que os frades não recebem dinheiro ou pecúnia”), compreendemos que essas palavras devem ser entendidas simbolicamente, porque é impossível aos padres, religiosos e pessoas consagradas em geral uma existência sem a dependência da pecúnia, sem ter uma conta bancária, um telefone celular, sem possuir uma casa para residir, um veículo para se transportar. A questão não é ter ou não ter, mas administrar bem essa posse e propriedade, de modo que não contradiga o nosso testemunho diante do evangelho de Cristo. Numa palestra proferida aos sacerdotes, logo no início de sua jornada, o Papa Francisco expressou bem esse pensamento, mais ou menos com essas palavras: o padre precisa ter um veículo, é um meio indispensável para a realização do seu ministério, mas não precisa ser da melhor marca nem do último modelo... E hoje, no sermão de enceramento da Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia, ele ensinou aos jovens: “Não vos deixeis anestesiar a alma, mas apostai no amor formoso, que requer também a renúncia, e um «não» forte ao doping do sucesso a todo o custo e à droga de pensar só em si mesmo e nas próprias comodidades.” Penso que essas declarações do Papa ilustram, de modo poderoso, o que significa ter um objeto sem pertencer a ele. Sim, porque quando somos apegados aos bens materiais, não são eles que nos pertencem, somos nós que pertencemos a eles.

É a lição que Cristo nos dá, na leitura do evangelho de hoje (Lc 12, 13-21): “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens.” Não é esta a única passagem em que Cristo chama a atenção para a correta administração dos bens materiais, mas esta é uma das mais eloquentes, quando Ele dá o exemplo do latifundiário que obteve abundante colheita e, longe de pensar em repartir aquele excesso de produção, favorecendo os irmãos, lembrou-se apenas de si mesmo, mandando construir armazéns maiores para assim guardar tudo só para ele. Todo aquele que é rico pensa somente em si: tenho o suficiente para viver folgado por muitos anos, aproveitando a vida. Porém, se ele não for rico para Deus, de nada adiantará o seu esforço egoísta. Meus amigos, essa parábola é por demais robusta, ela nos convida a refletir sobre o modo como estamos administrando os nossos bens, se estamos utilizando-os a serviço dos irmãos ou se estamos escondendo-os para o nosso único benefício. A ilusão de ter sempre mais facilmente escurece a razoabilidade da existência e afasta as pessoas, em vez de aproximá-las. A prática generalizada da violência urbana, que amedronta diariamente a todos nós, decorre dessa tentação de ter muito, ter sempre mais e, de preferência, ter sem ser preciso fazer esforço, sem precisar trabalhar, de forma rápida, para ser esbanjado mais rapidamente ainda.

E Cristo complementa o exemplo com a advertência: quem ajunta tesouros para si mesmo não é rico diante de Deus (Le 12, 21). Essa é uma expressão sinônima daquela outra que está no sermão da montanha, referente aos pobres de espírito. Está na mesma sintonia daquele outro desafio feito ao jovem que queria seguir a Cristo, mas tinha muitos bens e foi instado a livrar-se deles, mas não aceitou a oferta. Tem uma lição análoga àquela metafórica separação dos que ficam à esquerda e dos que ficam à direita, quando aqueles reclamam: quando foi que Te vimos com fome, ou com sede, ou maltrapilho e não Te atendemos? Quem procede igual ao fazendeiro da parábola narrada hoje não é capaz de reconhecer a figura de Cristo na pessoa do irmão necessitado. Recordo outra vez as eloquentes palavras do Papa Francisco, na sua visita ao Brasil, por serem verdadeiras e marcantes: um cristão pode estar sempre na Igreja, participar dos sacramentos, colaborar no dízimo, rezar o terço mariano todos os dias e, ao morrer, ir para o inferno, porque estar na Igreja não significa necessariamente estar em Cristo. Meus amigos, eu guardei essa lição do Papa, porque é um primor de ensinamento, em linguagem simples e profundamente teológica. Tem tudo a ver com a frase do evangelho de Lucas: quem ajunta tesouros para si não é rico diante de Deus. Estar na igreja é viver burocraticamente a religião, cumprir a obrigação por mera convenção social, realizar práticas devocionais apenas na aparência, que não brotam do íntimo da pessoa. Estar em Cristo é levar essas atitudes para a vida concreta, no trato diário com os familiares, com os do seu nível, com os seus subordinados, com o irmão necessitado que vem em busca de auxílio. Obviamente, estar na igreja deveria ser uma consequência de estar em Cristo, e vice-versa, no entanto, essa não é uma correspondência automática, ela deve ser buscada e aperfeiçoada em cada gesto e em cada atitude. De acordo com esse entendimento, um ateu praticante do bem obterá a salvação, por ser rico diante de Deus, enquanto alguns batizados não a obterão, se pensarem como o fazendeiro da parábola.

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domingo, 24 de julho de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 17º DOMINGO COMUM - A ORAÇÃO PODEROSA - 24.07.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 17º DOMINGO COMUM – A ORAÇÃO PODEROSA– 24.07.2016

Caros Leitores:

Neste 17º domingo comum, a liturgia enfoca um tema super importante nos dias atuais, qual seja, o poder da oração, que é uma consequência do poder da fé. Afinal, o que significa orar? Desde criança, nós somos orientados a aprender certas orações de cor e recitá-las. Mas quem tem fé e ora espontaneamente, sem se prender a fórmulas padronizadas, faz diferença?. Coloca-se, portanto, nesse contexto, a discussão acerca das orações repetitivas em contraposição à oração criativa. Ao rezar o terço, repetimos cinquenta vezes a Ave Maria, isto é válido ou é melhor deixar falar o coração? Há justificativas teológicas para um e outro casos.

A primeira leitura, retirada de Gênesis (18, 20-32), é a continuação da leitura do domingo anterior, quando Abraão dialogou com os mensageiros desconhecidos, que o visitaram e anunciaram a gravidez de Sarah. Os mensageiros anunciaram também que, dali, iriam visitar Sodoma, a fim de conferir se aquilo que bradava aos céus contra os seus habitantes era realmente fato ou era alguma notícia inverídica, para que fossem tomadas providências. É muito curioso esse estilo do escritor sagrado de comparar Javeh com as pessoas humanas, como se Deus não tivesse condição de saber o que estava ocorrendo e necessitasse de mensageiros para darem seu testemunho. Na verdade, o objetivo da narrativa é demonstrar a força que possui a oração do justo diante de Deus. Abraão intercede sucessivas vezes pelos habitantes 'justos' de Sodoma, para que Javeh não os destrua assim como iria fazer com os ímpios. Abraão vai criando coragem e baixando o perfil: se houver 50 justos... e se forem 45... e se forem apenas 30... ou 20... ou 10... E Javeh o atende, dizendo que se houver 10 justos na cidade, ela não será destruída. Acontece que não havia nenhum. No caso, portanto, o que interessa para nós não é a antropologização de Deus, mas a lição bíblica de que ele atende as orações dos justos e também que a presença de pessoas justas, ainda que em pequeno número, faz a diferença no mundo dos ímpios. Conforme Jesus explicou em suas parábolas, o justo funciona como o fermento na massa, isto é, embora em pequena quantidade, é capaz de fazer toda a massa levedar. É o mesmo caso do exemplo da luz que, por menor que seja, ilumina todo um ambiente que antes estava escuro. O poder da oração tem uma carga energética de grande potencial, cuja ação na sociedade é capaz de produzir efeitos extraordinários.

Na leitura do evangelho, da autoria de Lucas (11, 1-13), lemos duas importantes lições de Cristo acerca da oração. Primeiro, os discípulos pedem a Ele que lhes ensine a orar, e Ele compõe na hora aquela famosa prece que continua sendo repetida hoje como “a oração que o Senhor ensinou”. Em seguida, temos as exortações que Ele faz acerca do vizinho que atende ao pedido do outro, mesmo que não seja por causa da amizade, mas até para se livrar do incômodo, e ainda acerca do pai que atende ao pedido do filho e não lhe fará nenhum mal. Ora, diz Ele: “se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. As lições de Cristo seguem o mesmo padrão doutrinário do texto do Gênesis acerca da força da oração e da importância de cada um rogar a Deus segundo as suas necessidades. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. Se observarmos bem, até mesmo a figura literária dos mensageiros que foram a Sodoma “conferir” o que estava se passando, como se Javeh não soubesse, está, de outro modo, reproduzida no ensinamento de Cristo com o “pedi e recebereis”. É claro que Deus sabe das nossas necessidades e, na lógica humana, não seria preciso que se pedisse. Mas a lógica divina ensina que devemos pedir, não porque Deus não saiba, mas porque o ato de pedir é um ato de humildade, é uma confissão de carência, é um reconhecimento de incompletude, é um golpe no nosso orgulho. Mesmo que, em tese, não houvesse a necessidade de fazer o pedido, Cristo ensina que devemos pedir como uma forma de nos aproximarmos sempre mais daquele que dispõe de tudo e que tudo pode. Acima de tudo, o ato de pedir é um ato de fé, pois aquele que não crê acha que não precisa de Deus e, desse modo, sucumbe na sua autossuficiência.

Desponta, nesse contexto temático, aquela famosa polêmica do modo segundo o qual devemos orar: seguindo as orações formulares ou fazendo preces espontâneas, ditadas pela sensibilidade e pela emoção de cada momento? Obviamente, Cristo nunca mandou escrever orações modelares. A prece que chamamos de “pai nosso” não foi, com certeza, dada como modelo por Cristo, mas como um exemplo de como devemos nos dirigir ao Pai. A própria estrutura do “pai nosso” demonstra que devemos sempre, em primeiro lugar, orar para agradecer e louvar; depois, pedir e, depois, ter misericórdia. É importante observar isso, porque na maioria das vezes, as pessoas rezam apenas para pedir algo, fazem uma espécie de contrato com Deus: me dê isso que eu rezo durante tantos dias. Lamentavelmente, a pedagogia catequética tradicional levou as pessoas a identificarem a oração com um pedido de suprimento de alguma necessidade. Daí se criaram as “promessas”, os novenários, os devocionais, o costume de orar somente quando a pessoa se encontra em necessidade premente, precisa de ser urgentemente atendido, senão perde a fé e não vai rezar mais. Não podemos deixar de reconhecer que este é um fato corriqueiro na vida religiosa do nosso povo, sendo inclusive esse um motivo de “mudança de religião”, porque não conseguiu o que pretendia numa igreja, então vai procurar outra, como se Deus estivesse mais presente ali do que aqui. Em verdade, o que muda não é o espírito divino, mas a fé do crente.

Pois bem. Ao longo dos séculos, as autoridades eclesiásticas foram compondo textos de orações que se tornaram padronizadas, de modo que a catequese consistia, em grande parte, na memorização desses textos orantes. E a grande maioria dos fiéis só sabe rezar esses textos oficiais, como se apenas estes fossem válidos diante de Deus. É bem verdade que algumas pessoas não têm aquele “dom” de fazer preces bonitas, com palavras e frases bem-compostas. Isso não se refere apenas aos fiéis leigos, mas também aos sacerdotes. Nos primeiros tempos do cristianismo, não havia um “cânon” da missa, mas cada celebrante inventava o texto na hora da celebração. Ocorre que alguns sacerdotes mais cultos e devotos conseguiam compor orações mais completas e que agradavam mais à comunidade, enquanto outros tinham dificuldade em fazer belas preces. Assim, aos poucos foram se introduzindo textos padronizados para a celebração da missa e para as diversas orações a serem ditas nos cultos públicos. Chegou a um ponto tal essa burocracia do texto orante que, em determinada época, o celebrante cometia pecado venial se mudasse as palavras das orações oficiais. Atualmente, o celebrante tem certa liberdade para inovar, o que antes não era permitido. Ora, há pessoas que até questionam a tradução de certos trechos litúrgicos, quando são passados para as línguas vernaculares, o que demonstra que a prática da oração formular ainda é bastante forte.

Uma outra forma orante que causa certo incômodo para alguns fiéis é a das orações repetitivas. O terço mariano, por exemplo, é uma dessas orações criticadas. Que sentido faz repetir o mesmo texto de uma oração por cinquenta vezes? Por outro lado, há vários testemunhos de videntes que afirmam ter recebido de Maria a instrução-recomendação para a recitação do rosário, assim como de outros textos devocionais consagrados pela prática religiosa popular. Embora devamos reconhecer que essas repetições levam, na maioria das vezes, à distração mental porque se torna um comportamento mecânico e tedioso, não podemos deixar de reconhecer que muitas pessoas têm conseguido a obtenção de favores miraculosos com essas orações. Portanto, o que podemos dizer acerca desses vários tipos de orações é que, mais importante e mais operante do que o texto da oração será a fé do crente. Aquele que ora expressando sincera e honestamente a sua fé estará realizando o mandamento de Cristo “pedi e recebereis”, seja através das orações com textos prontos, seja através das orações espontâneas e criativas, porque acima das palavras da prece está a comunhão espiritual com Deus, através da fé. E isso é o que efetivamente Deus escuta e retribui: o coração sincero.

Que a nossa oração seja sempre a verdadeira expressão da nossa fé.

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domingo, 10 de julho de 2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 15º DOMINGO COMUM - O MEU PRÓXIMO - 10.07.2016

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O MEU PRÓXIMO – 10.07.2016

Caros Leitores,

Neste 15º domingo do tempo comum, temos aquela leitura emblemática do texto de Lucas, conhecido como a parábola do “bom samaritano” e o tema litúrgico em destaque é o confronto entre a lei e a misericórdia, o mandamento e a caridade. O que é mais importante: orar a Deus ou ajudar os irmãos? Resposta: os dois são importantes, claro. Mas o que é preferencial? Com a parábola do bom samaritano, Jesus ensina que a caridade para com o próximo é preferencial ao cumprimento puro e simples da lei. A misericórdia é a chave da porta que conduz à salvação, não basta a observância ritual e formalista dos mandamentos da lei.

Na primeira leitura, colhida do livro do Deuteronômio, Moisés ensina ao povo que a palavra de Deus está dentro de cada um, ou seja, está dentro da nossa consciência. Diz ele: a lei de Deus não está no céu, porque assim ficaria muito difícil de ser alcançada e alguém poderia dizer que não a conhece porque está inacessível. Também não está do outro lado do mar, porque estaria muito distante e ninguém conseguiria atingi-la. Lembremo-nos de que, na época de Moisés, o conceito de mar era bem outro do que conhecemos, ter de atravessar o mar era uma tarefa onerosa e demorada, tomando como referência o Mar Vermelho, o Mar Mediterrâneo, que eram os mares conhecidos. Mas não, diz Moisés, esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir. (Dt 30, 14) Este é o conceito da lei divina enquanto lei natural, isto é, aquela regra que cada um traz dentro de si mesmo e que a cultura costuma chamar de consciência.

De acordo com a doutrina tradicional, esta lei natural é inscrita em cada pessoa na sua razão como uma ideia inata, colocada pelo próprio Deus como parte da Sua atividade criadora. A lei natural decorre da própria racionalidade, está situada no âmago da razão humana, como sua fonte permanente de inspiração e de avaliação de conduta. No entanto, os filósofos da modernidade passaram a contestar essa noção de lei inata como algo próprio da natureza humana e passaram a afirmar que essas noções básicas do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto não nos vêm embutidas na razão mesma, mas são aprendidas a partir das vivências e experiências de cada um na família e na sociedade. De um modo ou de outro, a lei divina enquanto lei natural é reconhecida por todas as pessoas como aquela regra básica de sempre fazer o bem. Se observarmos cuidadosamente o conteúdo da lei de Moisés, a grande exigência que Javeh sempre fez ao Seu povo foi honrá-Lo e adorá-Lo como único Deus, desprezando a idolatria, que era muito comum entre os povos contemporâneos. Todos os outros preceitos são compatíveis com o que chamamos de lei natural: honrar pai e mãe, não matar, não levantar falso testemunho, não querer os bens pertencentes a outrem... Esta é a lei antiga, que Jesus não veio negar nem modificar, mas sim cumprir de forma plena, conforme Ele afirmou por diversas vezes. O exemplo mais claro e pedagógico que Jesus deixou de como deve ser o nosso cumprimento da lei se encontra na parábola do “bom samaritano”.

O evangelista Lucas (10, 25) narra o diálogo de Jesus com um doutor da lei. Quem eram os doutores da lei? Eram os sábios instruídos na lei de Moisés, os rabinos, aqueles que ensinavam ao povo os preceitos dados por Javeh, podendo ser sacerdotes ou não. Portanto, teoricamente, um doutor da lei sabia (mais do que as outras pessoas) o que era de seu dever e obrigação cumprir. Dentre os judeus daquele tempo, o grupo dos fariseus era aquele formado por aqueles doutores da lei mais fervorosos, aqueles que se esmeravam no conhecimento da lei e no seu cumprimento acima de qualquer outra exigência. E faziam questão de demonstrar isso publicamente, para que todos os vissem como exemplares cumpridores da lei. Jesus não era nenhum ingênuo e quando aquele fariseu veio perguntar-Lhe o que era preciso fazer para ganhar a vida eterna, Ele respondeu com outra pergunta: o que diz a Lei? Ora, o fariseu sabia de cor e respondeu imediatamente: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Então Jesus disse: pois faça isso e terá a salvação. Talvez o fariseu esperasse que Jesus fosse ensinar algo diferente do que estava na Lei e assim poder acusá-lo de heresia. Quando Jesus disse “cumpra a lei”, o fariseu ficou desapontado. Em outras palavras, Jesus estava dizendo para aquele fariseu e para todos nós que a lei divina, aquela que se encontra no coração de cada homem, esta lei não passa, não muda, esta lei não é ensinada apenas pelos judeus, mas está em todos os povos desde as épocas mais antigas e em todos os lugares do mundo, o mandamento de fazer o bem sempre esteve persente em todas as culturas. Não é necessário que os parlamentos a aprovem, pois ela já se mostra evidente e presente por si mesma, reconhecida pela sadia racionalidade.

Pois bem, disso o fariseu já sabia. Mas para o cumprimento pleno da Lei, é preciso amar também o próximo. Daí ele pergunta: e quem é esse próximo, que eu devo amar? Aqui entra a parábola do bom samaritano. Um homem ferido, necessitando de ajuda é observado por um sacerdote e por um levita, ambos judeus, que se desviam dele e passam pelo outro lado, na estrada. Observemos a fina ironia de Jesus, quando colocou no exemplo da parábola um sacerdote e um levita. Esses dois termos eram até certo ponto sinônimos, mas não por completo, havia levitas que não eram sacerdotes. Seriam como os diáconos, aqueles que auxiliavam os sacerdotes no serviço do templo. Então, quando Jesus colocou na parábola um sacerdote e um levita, era como se Ele estivesse dizendo para o seu interlocutor: um judeu igual a você. Por que motivo o sacerdote e o levita teriam se desviado do ferido e moribundo? O evangelista não entra nesse detalhe, mas poder-se-ia supor, na melhor das hipóteses, que fosse porque eles estariam se dirigindo ao templo e não poderiam se atrasar para o serviço do culto. Ou numa hipótese mais malvada, porque eles realmente não se preocupavam mesmo com os sofrimentos dos outros. Era como se Jesus estivesse lançando a carapuça na cabeça daquele doutor da lei.

E para completar a ironia, Jesus colocou na parábola a figura do samaritano, como aquele que fez a coisa certa. Ora, meus amigos, os judeus tinham uma rixa com os samaritanos, achavam que esses não cumpriam a lei, eram intrigados entre si e não se falavam. De propósito, Jesus colocou um sacerdote e um levita dando mau exemplo e, de outro lado, o samaritano como autor do bom exemplo. Desse modo, duplamente Ele puxou as orelhas do doutor da lei. Uma, porque alguém da classe dele (sacerdote ou levita) preferiu passar apressado para não se atrasar no cumprimento da lei. Duas, porque o rival dos judeus foi aquele que teve misericórdia do ferido e o amparou. E para não deixar só no plano das especulações, Jesus ainda perguntou ao doutor da lei, para que ele tirasse a conclusão: quem desses três, ao seu ver, foi o próximo para o ferido? O doutor da lei não tinha outra alternativa senão concordar que tinha sido o samaritano, saindo dali com as orelhas pegando fogo.

Mas, enfim, como é cumprir plenamente a lei, segundo Jesus ensinou? Agora podemos concluir: é juntando o cumprimento formal da lei com a prática da caridade. Não se pode dizer que, a rigor, o sacerdote e o levita descumpriram a lei. Eles deviam ter seus motivos. Mas o samaritano cumpriu a lei da forma mais perfeita, que foi dando a preferência ao atendimento do irmão necessitado, mesmo que isso implicasse no atraso de outras obrigações. Então, como podemos observar, quando Jesus disse que não veio para destruir a lei de Moisés, mas para cumpri-la de forma integral, Ele estava querendo dizer que ninguém pode dizer que ama a Deus se não ama o próximo. Amar a Deus é a dimensão vertical da religião, ou seja, a oração, a meditação, o jejum, o terço, a novena, a missa, o templo. Amar o próximo é a dimensão horizontal da religião, ou seja, a caridade, a estima, a ajuda mútua, o compartilhamento dos bens, a misericórdia com os irmãos. Uma dimensão se completa com a outra e a dimensão vertical, sem a horizontal, torna-se inócua. Várias vezes, no evangelho, temos exemplos patéticos nas parábolas de Jesus, como quando aqueles que foram mandados para a “esquerda” perguntaram: quando foi que Te vimos com fome e não Te demos de comer? E ele respondeu: foi quando deixastes de ajudar o irmão necessitado. Ou seja, se ponderarmos bem, a dimensão horizontal tem um peso bem maior na hora de aquilatar o cumprimento da lei, porque é a dimensão horizontal que leva a outra dimensão à perfeição. O bom samaritano é o exemplo clássico e insuperável do amor ao próximo.

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