domingo, 14 de julho de 2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 2º DOMINGO DA QUARESMA - 17.03.2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 2º DOMINGO DA QUARESMA – CORPO GLORIOSO – 17.03.2019



Neste domingo, 2º da quaresma, a liturgia nos traz a narração da transfiguração de Cristo perante os apóstolos Pedro, Tiago e João, exibindo diante deles o seu corpo glorioso, tal qual se manifestaria mais tarde aos doze, após a ressurreição. Transfigurando-se, Jesus dá demonstração do seu poder e da sua origem divina. Nas outras leituras, lemos sobre a glória de Javeh manifestando-se a Abrão, dando início à aliança com o povo eleito, e ainda sobre a advertência de Paulo aos Filipenses, dizendo que nós seremos transfigurados um dia, tal como aconteceu com Cristo.

Na primeira leitura, lemos o início das tratativas entre Abrão e Javeh, com vistas à formação da aliança, que deu origem ao povo escolhido. Abrão pede um sinal e Javeh mandou que ele trouxesse animais e aves para sacrificar em sua homenagem, ocasião em que Javeh mandou o fogo do céu para a consumação do sacrifício, prometendo a Abrão uma descendência mais numerosa do que as estrelas. Esta passagem do Gênesis (Gn 15, 17), assim como outras similares, formam aquele conjunto de conteúdos legendários da memória hebraica, sustentados durante séculos por uma tradição oral, com imensas probabilidades de alterações ao longo do tempo, pois nenhuma tradição oral se mantém incólume por muito tempo. E reflete também a cosmologia da época, na que se refere à contagem das estrelas, pois estas eram entendidas como se estivessem penduradas na abóbada celeste. De fato, Abrão ficou com certo temor de acreditar nessa promessa de ter uma geração numerosa, por isso, pediu a Javeh um sinal, para que pudesse acreditar. Com efeito, Abrão era já idoso, assim como sua mulher Sarah, e não tinham conseguido gerar filhos até então, quanto mais a idade de ambos avançava, mais isso ficaria impossível. E como se cumpriria a promessa? Essa era a dúvida dele. O sinal dado por Javeh reacendeu-lhe a esperança.

É no contexto dessa dúvida de Abrão que, com o consentimento de Sarah, ele gerou um filho na sua escrava egípcia Agar (a quem chamou de Ismael), antes que Sarah gerasse Isaac. Essas narrações legendárias incluídas no Pentateuco têm por finalidade explicar que todos os povos daquela região seriam descendentes de Abrão, porém enquanto os israelitas eram descendentes pelo lado legítimo da filiação de Isaac, filho da esposa, os outros povos eram descendentes de Abrão pelo lado ilegítimo de Ismael, filho da concubina dele. Essas histórias explicavam também porque aqueles povos habitavam naquela região “entre o rio do Egito (Nilo) e o rio Eufrates” (Gn 15, 18), no entanto, os verdadeiros “donos da terra” eram os israelitas, por serem filhos da esposa legítima de Abrão, os herdeiros da promessa de Javeh a Abrão.

Na segunda leitura, da carta de Paulo à comunidade de Filipos, uma das primeiras comunidades cristãs fundada por ele, pela qual ele tinha grande estima, constata-se a angústia de Paulo (Fl 3, 18) quando ele escreve: muitos de vocês estão se comportando como inimigos da cruz de Cristo..., sede meus imitadores, vivam de acordo com o evangelho que eu vos dei. Não deem maus exemplos, pensando só nas coisas terrenas, porque nós somos cidadãos do céu. Então, Paulo faz o seu discurso futurológico, ao afirmar que (Fl 3, 21), se vivermos de acordo com o evangelho, teremos no céu um corpo glorioso, semelhante ao corpo de Cristo. Os povos gregos eram os grandes comerciantes daquela região do Mediterrâneo. Os filipenses ouviram e aceitaram a pregação de Paulo, convertendo-se ao cristianismo. Mas quando Paulo viajou para fundar outras comunidades, os filipenses se voltaram aos seus afazeres materiais, diversões, comes e bebes, deixando de lado a vivência da fé cristã. Daí a chamada de atenção de Paulo: ouvi dizer que alguns de vocês se comportam como inimigos da cruz de Cristo… não façam isso, o fim destes é a perdição, o deus deles é o estômago e a sua glória está na vergonha. Esta advertência de Paulo cabe bem nos nossos dias, quando percebemos fiéis que esquecem os compromissos de cristãos sufocados pelas urgentes e inadiáveis necessidades do dia a dia. Não podemos deixar que o nosso deus seja a gula nem que a nossa glória esteja nos bens materiais. A vivência da fé deve iluminar nossas atividades profissionais e nossos compromissos cotidianos e não pode ser um empecilho para o exercício destes. Da mesma forma que essas atividades não podem se antepor aos nossos compromissos de fé, mas ambas devem conciliar-se mutuamente.

Na leitura do evangelho de Lucas (9, 29-36), o tema é a narração da transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João. Pela narração do evangelista, deduz-se que eles não entenderam nada daquilo, agarraram no sono e quando acordaram, Jesus já estava se despedindo. O completo entendimento desse episódio somente chegou para eles muito tempo depois, quando Jesus já havia ressuscitado. Chega-se a essa conclusão pelo contexto da narrativa. Primeiro, aquela visão espiritualizada de Cristo conversando com dois personagens também espirituais; segundo, o assunto da conversa (de acordo com Lucas, Jesus conversava com Moisés e Elias sobre a sua futura paixão e morte, coisa que ele já tinha explicado diversas vezes para os apóstolos, mas eles não conseguiam entender); terceiro, os discípulos devem ter ficado hipnotizados com aquela visão fantástica e quedaram-se em profunda letargia, êxtase, talvez. Diz Lucas (9, 36) que aqueles discípulos não falaram nada daquilo pra ninguém e nem conversavam entre eles sobre o assunto. Cada um deve ter pensado que tivera um sonho (ou um pesadelo) e até um teve receio de comentar com o outro, pois não sabia se o outro também tinha visto aquilo.

Uma observação textual merece ser aqui destacada. O evangelista Lucas diz que uma nuvem os encobriu a todos, os discípulos também ficaram cobertos pela nuvem, de onde saiu uma voz, que dizia: este é o meu filho dileto, escutai-o. O texto oficial da CNBB escreve “meu filho escolhido”, mas essa não me parece a melhor tradução. A palavra grega escrita por Lucas é “eklelegménos”, conjugação do verbo “legow”, que São Jerônimo traduziu por 'dilectus'. Conforme o dicionário, o verbo “legow” tem o significado de escolher, mas tem também o sentido de anunciar, declarar, então no contexto da história da salvação, parece-me que este último sentido estaria mais apropriado. Daí eu preferiria traduzir a expressão por “meu filho prometido”, porque assim fica mais coerente com a leitura do Gênesis (primeira leitura), onde se rememora a aliança com Abrão, o futuro desta promessa era a vinda do Salvador. Jesus é, portanto, aquele que fora prometido desde o início. “Escolhido”, como traduziu a CNBB, dá a impressão que Javeh teria vários filhos e escolheu Jesus, por isso não me parece uma tradução apropriada.

Os dois personagens com os quais Jesus dialogava (Moisés e Elias), de acordo com a explicação tradicional da exegese, representam a Lei e os Profetas. Esse entendimento também se encontra na fé judaica, como se pode ver na palavra “tanach”, com a qual os judeus resumem toda a sua Bíblia. A palavra “tanach” é formada de um acróstico com as sílabas iniciais de “torah” (lei de Moisés), “neviim” (profetas representados por Elias) e “chetuvim” (os escritos sapienciais). Ao transfigurar-se e aparecer junto com Moisés e Elias, Jesus estava referendando a Lei e os Profetas e acrescentando a elas os seus próprios ensinamentos. Assim é que se faz o entendimento cristão da presença dos três personagens no episódio da transfiguração.

Agora, ponho outra questão: por que Jesus não chamou todos os doze apóstolos para testemunharem aquela demonstração de sua divindade, mas apenas aqueles três? Fica difícil saber com certeza, mas podemos fazer conjeturas. Talvez, um reconhecimento da liderança de Pedro, fato que seria posteriormente tomado como argumento para justificar o primado do Papa. Talvez o fato de João e Tiago terem parentesco com Jesus (lembremo-nos que, na hora da morte, Jesus confiou Maria, sua mãe, aos cuidados de João) e Tiago é muitas vezes citado como “o irmão do Senhor”, ambos apontados como filhos de Salomé (mulher de Zebedeu), que seria irmã de Maria, mãe de Jesus. Essas genealogias são repletas de controvérsias, no entanto, o fato de terem sido eles dois escolhidos para testemunhar o fato miraculoso reforça essa tese, por serem pessoas de sua maior confiança.

À margem dessa polêmica, exsurge o fato de que nós, cristãos, somos todos escolhidos por Jesus para conhecer sua doutrina e chamados a participar da construção do céu na terra. Aos apóstolos, Jesus não se mostrou a todos, mas a nós, Ele se revelou sem restrição. Daí o conselho de Paulo, que pediu chorando aos Filipenses para que eles não se deixassem levar pela atração das coisas terrenas, porque assim estavam se desviando do foco da missão que ele, Paulo, lhe havia deixado. E quando a nós, Paulo nos adverte que tenhamos sempre na mente o nosso destino glorioso, nunca perdendo o foco nas promessas do nosso batismo.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 1º DOMINGO DA QUARESMA - 10.03.2019

COMENTÁRIO LITURGICO – 1º DOMINGO DA QUARESMA – A METÁFORA DAS TENTAÇÕES – 09.03.2019



A liturgia deste 1º domingo da quaresma põe para nossa reflexão o tema das tentações suportadas por Jesus Cristo, logo após o batismo e antes de iniciar sua atividade missionária. Esse tema traz de imediato a pergunta: Jesus podia ser tentado? Teria Satanás um poder tão extraordinário, a ponto de perturbar a paz de espírito de Jesus? Ou será que o evangelista exagerou na narrativa, com figuras de linguagem exacerbadas para chamar a atenção dos leitores? Nas duas primeiras leituras, o tema em destaque é a fé na dimensão da universalidade: no texto de Deuteronômio, a fé do povo hebreu em Javeh; no texto de Paulo a Romanos, a fé em Cristo, que congrega todos os crentes.

De início, convém observar a simbologia bíblica do número 40, visto que estamos no início da quaresma, cuja palavra, em latim, se diz “quadragesima” e o número 40 está em destaque tanto na leitura de Deuteronônio e quanto no evangelho de Lucas. Dentro do contexto bíblico, o número 40 aparece com frequência e sempre antecedendo a ocorrência de um fato muito importante. Quando o narrador inclui uma situação em que desponta o símbolo 40, isso não significa literalmente a passagem de 40 dias ou meses ou anos contados matematicamente, mas o tempo oportuno para o poder de Deus se manifestar através de alguma obra grandiosa. Na liturgia moderna, a simbologia dos 40 dias é observada no período que antecede a Páscoa (quaresma) e no período que vai da Ressurreição até a Ascensão de Jesus.

Na primeira leitura (Deuteronômio, 26, 4-10), o texto traz as instruções de Moisés aos seus auxiliares, porque ele já sabia que não chegaria até a terra prometida, apenas a veria de longe. Possivelmente, a instrução seria para Josué, que foi o sucessor de Moisés no comando do povo, na reta final. Por isso, Moisés disse que, quando chegassem à terra prometida, deviam levar ao altar do Senhor em oferenda os primeiros frutos produzidos naquela terra e ali professar o agradecimento de todo o povo pela libertação da escravidão e pela condução que tiveram durante a peregrinação pelo deserto, tempo em que tiveram de enfrentar um sem número de desafios físicos e espirituais, tendo o Senhor conduzido-os sempre e constantemente perdoado as infidelidades deles. O livro bíblico que contém essas instruções tem o título de Deuteronômio (deuteros+nomos=segunda lei) porque se trata de um compêndio de normas encontradas posteriormente numa escavação no templo e que repete, em parte, as normas já contidas em outros escritos da Torah. Este livro é um verdadeiro 'código de legislação' hebraica, tantas e tão pormenorizadas são as prescrições e os rituais descritos. É uma verdadeira compilação do direito hebreu, que não fazia distinção entre normas religiosas e normas civis, porque a sua organização era um estado teocrático, situação que ainda hoje persiste nos países da religião islâmica.

Temos na segunda leitura (Paulo a Romanos, 10, 8-13), a lição paulina sobre a universalidade da fé em Cristo: é irrelevante se alguém é judeu ou grego, nascido na fé ou pagão convertido – e nós podemos acrescentar: europeu ou americano, africano ou indiano – o que importa é crer em Jesus com o coração e confessar essa fé com a boca, pois todo que nEle crer não ficará confundido. Quando Paulo fez essa afirmação, pensava apenas no mundo do seu tempo, mas por extensão, alcança todos nós. Especificamente, Paulo tencionava solucionar aquela polêmica que surgiu em Roma com os cristãos judaizantes em relação aos novos cristãos convertidos do paganismo. Os judeus cristãos achavam que só podia ser cristão quem aderisse primeiro à lei de Moisés e fizesse a circuncisão, querendo que essa regra fosse observada pelos cristãos convertidos de origem grega. Então, Paulo ensinou que o batismo cristão supre e substitui todos os rituais da antiga lei judaica. Roma, a grande metrópole na qual o cristianismo se universalizou, era uma grande babel daquele tempo, abrigando pessoas das mais diversas origens e nacionalidades, consequentemente, dos mais diversos idiomas e costumes. Foi o primeiro grande desafio do cristianismo enfrentado na pregação do evangelho para os pagãos ou gentios, resolvido graças à intervenção oportuna e sábia de Paulo, que fez prevalecer a sua autoridade de apóstolo para convencer os mais reticentes.

A leitura do evangelho de Lucas (4, 1-13) repete a narração contida nos outros dois sinóticos: após ter sido batizado por João Batista, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, onde ele jejuou durante 40 dias e foi tentado por Satanás. Ora, pergunta-se: Qual o poder que Satanás teria sobre o Filho de Deus, a ponto de desafiá-lo? Em que medida Satanás teria controle sobre as riquezas da terra, de modo a colocar isso como um atrativo para Jesus? Qual o conhecimento que Satanás tem da Sagrada Escritura, de modo a utilizar citações bíblicas para tentar convencer Jesus? Ora, com certeza temos aí figuras literárias, simbolismos linguísticos, certo exagero de descrição com caráter pedagógico para ilustração dos leitores. As tentações de Jesus representam, na verdade, os 'perigos' que, para a sua natureza divino-humana, poderiam significar as situações de extrema pressão psicológica. Ele estava prestes a iniciar a sua missão de pregador e devia saber controlar adequadamente o exercício do poder divino, que ele sabia possuir. Para cumprir os desígnios do Pai e para cumprir o plano salvífico, Jesus precisava passar por todas aquelas provações, enquanto pessoa humana. De fato, nós sabemos que Jesus enfrentou diversos desafios, que para Ele seriam facilmente resolvidos se usasse o poder divino, mas ele não podia fazer assim. As tentações representam, na verdade, as grandes ambições que mais seduzem os seres humanos: vaidade, poder, riqueza. Foi uma espécie de “treinamento” que ele realizou para comportar-se plenamente conforme a natureza humana elevada ao seu mais alto grau de perfeição.

Então, quais foram mesmo as grandes 'tentações' de Jesus? 1. Transforma essas pedras em pão... tentação do poder; 2. Eu te darei todos os reinos... tentação da riqueza; 3. Joga-te daqui para baixo... tentação do orgulho/vaidade. Quantas vezes, os fariseus tentaram contra Jesus para que Ele realizasse um milagre na presença deles, porque eles só ouviam falar pela boca dos outros e queriam presenciar. Jesus nunca os atendeu. Herodes foi um que disse na cara de Jesus: “você é uma piada”, porque insistiu para Jesus fazer um 'milagrezinho' na presença dele (cf Lucas 9, 7 e 23, 6), e Ele nada disse. Portanto, o “retiro espiritual” que Jesus fez antes de começar a pregar foi também uma preparação psicológica para as dificuldades práticas que ele teria de enfrentar. Assim, se quisermos encontrar a figura de satanás tentando Jesus, não busquemos essa no deserto, onde ele jejuou, mas nos diversos fariseus que o tentaram em vão. O próprio Judas, que certamente vira Jesus fazer vários milagres, não conseguia acreditar que Ele fosse suportar todas aquelas humilhações impostas pelos chefes dos sacerdotes e iria 'dar a volta por cima' numa situação de extremo perigo, até pagou pra ver, mas perdeu a aposta. Desculpem-me, meus amigos, porque talvez alguns não concordem com o que vou escrever, mas muitas vezes, as pessoas se servem a figura de satanás para encobrir suas próprias fraquezas e personalidade imperfeita. As grandes tentações que nos afetam não nos vêm de um agente exterior tentador, um “demônio” externo, mas da nossa “trindade” interior, que habita no nosso subconsciente mais recôndito: id, ego e superego (tomando emprestada a terminologia de Freud).

Meus amigos, o filósofo austríaco Edmund Husserl, criador da filosofia fenomenológica, tinha uma frase que usava insistentemente: “voltemos às coisas mesmas”. Trago esta frase para este contexto pela mensagem que ela contém. Em vez de atribuirmos a satanás as coisas más que fazemos, vamos olhar no espelho, encaremos de frente o nosso próprio ser, sem ocultações ou subterfúgios. Voltemo-nos para nós mesmos e tenhamos coragem de assumir nossas fraquezas, pois somente assim criaremos condições de superá-las. Foi o que Jesus fez no deserto: refletir sobre si mesmo, sobre sua condição divina e humana, sobre a sua missão espinhosa e dolorosa da qual ele não podia se esquivar. A literatura transformou essa autoanálise em tentação e os subterfúgios inconscientes dele na figura do tentador. Mas nós devemos ir além dessa metáfora tradicional. Quando fazemos algo do qual depois ficamos arrependidos, não foi um satanás exterior que nos tentou, foi ação daquele demônio que reside num canto obscuro do nosso ser mais íntimo e nós fazemos tudo para ocultá-lo, ignorá-lo através de processos de racionalizações das nossas próprias decisões equivocadas. Se sairmos disso, seremos capazes de reciclar também a nossa noção de pecado.

Que o Mestre nos ensine sempre e nos dê sempre força para superarmos as nossas imperfeições e frustrações.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 8º DOMINGO COMUM - 03.03.2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 8º DOMINGO COMUM – A BOCA E O CORAÇÃO – 03.03.2019

Neste 8º domingo comum, a liturgia traz para nossa reflexão a relação existente entre o interior e o exterior da pessoa: a boca fala daquilo que o coração está cheio. E nós podemos entender com o conceito de “boca” o ser humano inteiro, porque nós nos comunicamos também com gestos e atitudes, não apenas com as palavras. Este domingo, que antecede o período quaresmal, põe em destaque uma vivência comum a todos nós, pois o nosso falar e o nosso agir estão sempre associados e, já diz o jargão popular, é mais fácil apanhar um mentiroso do que um aleijado. Sim, porque uma pessoa, cujas ações e atitudes não condizem com o seu discurso verbal, é de fato um mentiroso.

Na primeira leitura, retirada do Livro do Eclesiastes (Eclo 27, 5-8), temos o conselho dos antigos sábios de Israel: não elogies a ninguém antes de ouvi-lo falar. O título desse livro na Bíblia hebraica diz-se Qohelet e faz parte do grupo dos “escritos” (ketuvim), a terceira seção daquela Bíblia, ao lado dos livros poéticos e dos sapienciais (a primeira seção é a Torá – a lei; a segunda seção é Naviim – os profetas). Qohelet significa aquele que reúne a assembleia, aquele que ensina, o pregador. Então, este livro contém ensinamentos teóricos e práticos transmitidos ao longo de muitos séculos pelos sábios do Povo de Israel, cuja leitura era feita nas sinagogas, com o intuito de mostrar sobretudo aos jovens como deve ser conduzida a vida com sabedoria. O sábio não precisa ser aquele asceta, figura que surgiu na Idade Média e mostrava pessoas que haviam abandonado tudo e se refugiavam nos mosteiros ou mesmo em locais desertos, dedicando-se à oração e à meditação, e eram tidos como respeitáveis pelo seu ato de renúncia extrema. O Qohelet é mais modesto, procura ensinar aos jovens que não é necessário adotar condutas extremas para alcançar a sabedoria, mas que esta também pode ser encontrada nas labutas cotidianas. Exercer a própria vida com sabedoria quer dizer servir-se dos bens materiais e do conforto que o trabalho proporciona com duas condições básicas: primeira, compreender que tudo isso é dom de Deus e sempre agradecer por isso; segundo, não ser apegado a esses bens, de modo que a posse deles não seja motivo de soberba nem de desprezo dos irmãos. Em outras palavras, a sabedoria seria a expressão da fé autêntica, aquela fé que não fica presa nas palavras, mas se estende e se entrelaça com as atitudes. Por isso, diz o Qohelet, no texto de hoje, assim como o fruto revela a qualidade da árvore de onde proveio, assim a palavra revela o coração do homem. Antes de formar sua opinião acerca de alguém, ouça-o falar. Se a sua palavra for coerente com as ações que ele realiza, então trata-se de uma pessoa confiável e sábia. O conselho dos sábios de Israel, escritos na literatura sapiencial, revela-se como perene e sempre atual, corolários de um saber existencial que não está atrelado nem a uma determinada religião nem a uma determinada sociedade, mas à própria natureza da humanidade.

Coloca-se nessa mesma linha de raciocínio o ensinamento de Jesus, transmitido pelo evangelista Lucas (Lc 6, 39-45): a boca fala daquilo que o coração está cheio. Jesus encarna, na nova aliança, a figura do pregador (qohelet), do doutrinador por excelência. E diz: todo discípulo bem formado se igualará ao mestre. Se o mestre for um sábio, o discípulo assim será também. Se o mestre for um néscio, o discípulo terá o mesmo destino, porque um cego não pode guiar outro, ambos cairão no buraco. Jesus usava essa imagem do cego referindo-se aos fariseus daquele tempo. Eles eram os mestres do povo, mas eram néscios, soberbos, insensatos, por isso não conseguiam guiar o povo para a religião verdadeira. Em outra ocasião, Jesus disse (Mt 23, 4): “Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens. No entanto, eles próprios não se dispõem a levantar um só dedo para movê-los.” Eles estavam teoricamente sentados na cadeira de Moisés, ou seja, eles tinham a autoridade, no entanto, não davam o exemplo, o agir deles não era coerente com o seu discurso. Por isso, disse Jesus, façam o que eles dizem, mas não imitem o que eles fazem. Esta mesma lição se repete no texto do evangelho de Lucas da liturgia de hoje, através da imagem do cego. O farisaísmo havia transformado a Lei de Moisés num repertório de regras de conduta, com mais de 600 enunciados, quase todos proibitivos (não pode isso, não pode aquilo…), no entanto, os próprios fariseus não cumpriam esses preceitos, porém exigiam que os judeus os cumprissem. Daí o recado grosseiro de Jesus: Hipócrita, como é que consegues perceber o cisco no olho do teu irmão, mas não percebes a catarata no teu olho? Limpa primeiro o teu olho, para poderes enxergar bem, depois vai tirar o cisco do olho do irmão. E o evangelista relembra outros discursos de Jesus com o mesmo teor: a árvore boa produz bons frutos, a árvore má produz frutos ruins; não se colhem uvas de espinheiros nem figos de abrolhos. Da mesma forma, uma pessoa de coração má não poderá dar bons exemplos. Só a pessoa boa retira bons frutos do bom tesouro do seu coração.

Meus amigos, precisamos ter muito cuidado para que esse puxão de orelhas de Jesus não venha a ser aplicado a nós. Sobretudo aquelas pessoas que possuem algum tipo de liderança, essas mais do que as outras têm a obrigação de dar bons exemplos. Assim, os pais em relação aos filhos, os professores em relação aos alunos, os idosos em relação aos jovens, os líderes de qualquer natureza em relação aos seus liderados. Os sábios romanos antigos possuíam uma máxima que bem se enquadra nesse contexto e que dizia assim: Verba movent, exempla trahunt. (As palavras comovem, os exemplos arrastam). Dizer e não fazer é uma incoerência interna imperdoável. Ninguém pode arrogar em seu favor a repreensão que Jesus fez aos fariseus do seu tempo: façam o que eu digo, mas não o que eu faço. Qualquer líder que assim fizer será indigno de exercer a liderança. Será um cego guiando outro cego para caírem ambos no buraco. Ao contrário, deve aplicar-se o sempre atual ensinamento do Qohelet: a sabedoria consiste na coerência que deve existir entre o interior e o exterior da pessoa. Essa é a sabedoria milenar recolhida pelo escritor bíblico e que tem se mostrado eficaz em todos os tempos.

O apóstolo Paulo, na epístola aos Coríntios (1Cor 15, 54-48) demonstrou saber que total coerência entre o ser humano interior e o seu exterior é uma tarefa constante e difícil, que só estará completa quando este corpo mortal se revestir da imortalidade e este ser corruptível se revestir da incorruptibilidade. Aí, então, se cumprirá a palavra da Escritura: a morte foi vencida pela vitória. Onde está, na Escritura, essa referência feita por Paulo aos Coríntios? Está no livro de Isaías, o profeta do exílio e da esperança, cap. 25, 6-8, confortando os cativos na Babilônia: “O Senhor dos Exércitos dará nesse monte uma grande festa a todos os povos… e destruirá nesse monte os vínculos que oprimem todos os povos… e destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos...” A profecia de Isaías é messiânica e Paulo sabia que essa profecia já havia se cumprido com Jesus Cristo, através de sua ressurreição, restando agora a cada um seguidor de Cristo fazer a sua parte, para também ter acesso aos mesmos benefícios conquistados pela redenção de Jesus. E assim ele aconselha aos cristãos corintianos: sede firmes e empenhai-vos cada vez mais na obra do Senhor, cientes de que os vossos esforços não serão em vão. Esse ensinamento de Paulo pode ser conectado com outra passagem dele, na carta aos Romanos (7, 12), onde ele confessa a dificuldade que ele próprio tem de colocar em prática o mandamento de Cristo: “a lei é espiritual, mas eu sou carnal, sufocado pelo pecado. O querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Por isso, não faço o bem que quero, mas o mal, que não quero”. Jesus sabia que não é fácil integrar o interior com o exterior do homem, mas para isso é que Deus dá a cada um a sua graça. Paulo, na sua humildade de discípulo de Cristo, não tem vergonha de confessar que ele também erra. Porém, a questão não é errar ou acertar, mas ter consciência do erro, para não repeti-lo, para aprender com ele, para perceber que somente com o auxílio da graça divina cada um pode evoluir na direção da sabedoria e da santidade.

Examinemos, portanto, atentamente como está a coerência entre a nossa boca e o nosso coração e tenhamos a humildade de admitir que estamos sempre sujeitos a falhas, mas isso não é de todo ruim, desde que saibamos aprender com elas.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 7º DOMINGO COMUM - 24.02.2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 7º DOMINGO COMUM – O AMOR COMO DESAFIO – 24.02.2019

Caros Leitores,

Neste 7º domingo comum, as leituras litúrgicas dão sequência ao tema do domingo anterior, acerca das bem-aventuranças, o famoso “sermão da montanha”, que resume em grandes linhas todo o ensinamento de Jesus Cristo. No domingo de hoje, é como se ele concluísse: vocês ouviram o que eu disse? Eu ouçam mais: é preciso amar o próximo e também os inimigos. Amar os amigos e fazer o bem a quem lhe faz bem, isso não é grande coisa, os pagãos também fazem assim. Para fazer diferente, o cristão deve amar os inimigos e fazer o bem aos que lhe fazem o mal. É este o grande desafio do amor cristão.

Na primeira leitura, do livro do Samuel (1Sam 26, 2-22), é narrada a atitude respeitosa e temente a Deus de Davi, que poupou a vida de Saul, na ocasião inimigo dele, quando poderia tê-lo executado. Para entendermos a situação, vejamos a história. Saul era rei de Israel mas, por sua soberba e arrogância, desrespeito a lei de Moisés e, por isso, Javeh o rejeitou, determinando ao sacerdote Samuel que ungisse a Davi como novo rei. De início, Saul tinha um comportamento amistoso com Davi, apesar de não haver gostado nada de ter sido rejeitado, chegou até a entregar a filha como esposa de Davi. Porém, os sucessos de Davi nos combates contra os inimigos de Israel causaram inveja em Saul, que passou a perseguir Davi, procurando matá-lo. Por causa disso, Davi precisou refugiar-se no deserto com seus soldados, enquanto Saul o perseguia. Certa noite (aqui entra o trecho da leitura de hoje), Davi surpreendeu Saul dormindo no seu acampamento e poderia tê-lo atravessado com a própria lança real. O guerreiro companheiro de Davi (vers. 8) chegou a dizer: vou dar só um golpe, nem será preciso repetir. Mas Davi o deteve, dizendo: “ninguém pode lançar a mão contra o ungido do Senhor”. E foram embora sem molestá-lo. Ora, numa situação inversa, com certeza Saul teria liquidado Davi. Mas este respeitou o inimigo, vendo nele o “ungido”. Mil anos antes de Cristo, época de Davi, ele já estava realizando aquilo que Jesus futuramente iria ensinar.

Na sequência também da primeira carta aos Coríntios, lida no domingo passado (1Cor 15, 45-49), o apóstolo Paulo continua o paralelo entre Adão e Jesus, dizendo que Adão era um homem material, ou seja, proveniente do limo da terra, enquanto Jesus é um homem espiritual, ou seja, proveniente diretamente do céu. Assim ele diz no versículo 48: “Como foi o homem terrestre, assim também são as pessoas terrestres; e como é o homem celeste, assim também vão ser as pessoas celestes.” A figura de Adão representa o homem velho, aquele que ainda não conheceu a mensagem cristã. Paulo lembra aos cristãos de Corinto que, antes da adesão ao cristianismo, eles também estavam prefigurados na pessoa de Adão, com todas as imperfeições e ambiguidades dos “homens terrestres”, seduzidos pelos bens materiais, pela riqueza, pelos prazeres da carne. Mas, depois de convertidos e depois da adesão à mensagem cristã, esse homem terrestre deve ser transmudado no “homem celeste”, cujo protótipo é a figura de Jesus Cristo. E o que vai se tornar a marca característica desse novo homem, fiel ao ensinamento de Cristo, é a colocação na prática das bem-aventuranças, de acordo com o catálogo de ações de beatitudes ensinadas no sermão da montanha. Essa mesma advertência Paulo faz também na carta aos Efésios (5, 8), nos seguintes termos: “Pois, no passado éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Assim, andai como filhos da luz.”

A leitura do evangelho é também uma continuação da temática do domingo passado, em que Lucas resumiu o sermão das bem-aventuranças (Lc 6, 27-38). Depois de dizer “ai de vós, que agora estás rindo, porque ireis chorar”, Jesus arremata: e a vocês que ouviram o que eu disse, vou dizer mais: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam.” Eu fico imaginando a expressão nos rostos daqueles ouvintes, depois que Jesus fez esse arremate, como se dissessem: tu estás achando pouco, ainda vais exigir mais? E Jesus, percebendo a cara de espanto deles, complementa: é isso mesmo, se alguém te der um tapa num lado do rosto, oferece também o outro lado; e se alguém te tomar o chapéu, dá também o teu sapato. Se fazes o bem somente a quem também te faz o bem, que novidade há nisso? Os pecadores também fazem assim. Os cristãos devem fazer o bem a quem não lhes faz e dar um objeto sem esperar nada em troca, aqui está a diferença, aqui está o que eu denominei no início de “amor como desafio”.

Esse tipo de atitude parece, para as pessoas do mundo, como algo incoerente, ingênuo, contraditório. Alguém pode pensar: como é que Jesus exige isso dos seus seguidores? Aqui podemos inserir a lição de Paulo aos Coríntios, mencionada acima, com o paralelo entre o homem terrestre e o homem celeste. Se não somos capazes de entender esse pedido de Cristo, é porque ainda estamos impregnados com o pensamento do homem terrestre, a graça de Deus ainda não operou em nós o suficiente para superarmos essa atitude mundana de sempre esperar a retribuição por aquilo que fazemos. Para fazer isso, será necessário antes entender o conteúdo metafísico do ensinamento de Jesus, isto é, a questão não se refere a fazer-se de otário diante dos outros, tornar-se motivo de chacota e padecer humilhações. Jesus seria extremamente malvado se esperasse mesmo essa atitude, por isso, é preciso apreender a sua simbologia. E aqui, para exemplificar, podemos lembrar das atitudes de Mahatma Gandhi, que não era cristão, no entanto, cumpria esse ensinamento de Cristo. Enquanto todos protestavam com armas, ele protestava com uma conduta não-violenta, pregando a cultura da paz. Podemos lembrar também uma famosa frase do britânico John Lennon, conhecido guitarrista da banda Beatles, que escreveu, certa vez: “Não importam os motivos para a guerra, pois a paz será sempre superior a todos eles”. E ele não era cristão. Lamentavelmente, ele morreu assassinado por um fanático (assim como, sem querer comparar, também Gandhi e também Jesus morreram assassinados, porque o bem incomoda demais a maldade), mas os ensinamentos deles continuam a ecoar nos nossos ouvidos. Esses dois exemplos de “pessoas celestes” (usando a terminologia de Paulo), mesmo sem serem cristãos, devem nos incentivar a por em prática o ensinamento de Jesus, até porque, no nosso caso, ainda temos a vantagem de ter conosco a graça de Deus, que nos apóia e fortalece.

Em resumo, portanto, o ensinamento de Jesus sobre o amor como desafio não pode ser entendido como uma ideia de fraqueza, de acovardamento, como se o cristão devesse ter medo dos maus, não reagir aos maus, não enfrentar o malvado. Penso que, quando Cristo aconselhou “oferecer a outra face” para quem te bate no rosto, ele quis dizer: os maus agem de forma agressiva, vocês, porém, não devem tomar esse comportamento como exemplo, façam diferente deles, não por medo, mas por convicção, isto é, não se equiparem aos maus, não repitam suas ações, não se comportem como eles. Esse deve ser, segundo penso, o significado metafórico da recomendação de Cristo sobre “oferecer a outra face”. Se você revidar a um bofete, você estará repetindo o mau exemplo dado por quem lhe ofendeu. Então, não retribua a violência com violência, mas com o amor, isto é amar sem medida, esse é o amor como desafio: amar os amigos e os inimigos, fazer o bem a quem faz o mal. O escritor James C. Hunter, no conhecido livro “O monge e o executivo”, faz uma interpretação interessante desse ensinamento de Cristo. Diz ele que na frase “amar os inimigos”, o significado do verbo “amar” é diferente da frase “amar os amigos”. Explicando melhor, seria assim: em relação aos amigos, amar tem o sentido de sentimento, afeto; em relação aos inimigos, amar tem um sentido puramente comportamental, ético. Então, a frase “amar os inimigos” quer dizer comportar-se de um modo ético mesmo com aquelas pessoas que fizeram algum mal a você, isto é, não exercitar a vingança, não ficar esperando uma ocasião futura para ir à desforra. Amar os inimigos significaria, dessarte, ser ético com todos, tratar as pessoas más da mesma forma como se deve tratar qualquer pessoa, com ética e dignidade, mesmo que intimamente a sua vontade seja de esganar o adversário.

Se passarmos para uma análise do texto grego de Lucas, veremos que o J. Hunter tem certa razão. No texto grego, o verbo que está traduzido por “amai” é “agapate”, verbo com o mesmo radical da palavra “ágape”. Quando eu estudei antropologia teológica, aprendi que os gregos conheciam três significados para o verbo “amar”: 1 – amor erótico (eros); 2 – amor amizade (filia); 3 – amor fraternidade (agape). Esse terceiro sentido se refere à convivência humana, ao modo respeitoso como as pessoas devem tratar umas às outras, independente de quem seja. Então, seguindo o raciocínio de J. Hunter, podemos concluir que a ordem de amar os amigos tem o sentido 2 (amizade), enquanto amar os inimigos tem o sentido 3 (fraternidade, caridade). Eu continuo pensando que a doutrina de Cristo não faz essa distinção, no entanto, pode ser uma forma de atenuar o rigor do desafio que Cristo nos deixou e, assim fazendo, quem sabe, aos poucos chegaremos a encarar o desafio de forma completa. Que o divino Mestre nos socorra com engenho e arte, para conseguirmos colocar em prática os seus ensinamentos.

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domingo, 17 de fevereiro de 2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 6º DOMINGO COMUM - 17.02.2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 6º DOMINGO COMUM – BEM-AVENTURADOS – 17.02.2019

Neste sexto domingo do tempo comum, as leituras litúrgicas nos convidam a refletir sobre os efeitos valorativos da confiança que sempre devemos ter no Senhor, qual seja, a verdadeira felicidade. O profeta Jeremias compara a atitude de quem confia em Deus a uma planta cujas raízes mantêm-se em contato com a água e, por isso, não teme a chegada do calor. No evangelho, Jesus chama a estes de bem-aventurados, no seu famoso e carismático “sermão da montanha”, no qual ele inverte a ordem daquilo que o “mundo” considera felicidade e mostra que ser feliz, isto é, ser bem-aventurado é ser santo. Ser fiel nas coisas simples, ser solidário em todas as ocasiões, ser amável e respeitoso só contribui para a melhora geral da vida na sociedade. Sem dúvida, é disso que todos nós mais precisamos, na vida urbana dos nossos dias.


Na leitura retirada do livro do profeta Jeremias (17, 5-8), vemos uma comparação entre a atitude de quem confia nos homens, de um lado, e quem confia no Senhor, de outro. Confiar “na força da carne humana”, como fiz o Profeta, quer dizer encantar-se com as aparências da sociedade e com as suas pompas ilusórias, representadas no poder, na riqueza, no prestígio, na dissimulação dos bajuladores, esquecendo que a verdadeira fortaleza vem da fé e das garantias proporcionadas a todos pelo cumprimento da lei de Deus. Na época do Profeta, ele se referia especificamente às atitudes levianas do rei de Judá, Ezequias, que fez acordos maliciosos com outros reinos vizinhos, com receio das ameaças de povos inimigos, em detrimento da obediência à lei de Moisés e expondo o povo às influências do paganismo e dos deuses estrangeiros e, consequentemente, à idolatria. Em vez de buscar a confiança no Senhor dos exércitos, o rei preferiu abrigar-se à sombra dos soberanos humanos e a consequência para o povo foi desastrosa. Pouco tempo depois, o reino de Judá foi invadido e derrotado pelos assírios, sendo os seus habitantes arrastados cativos para Babilônia. O profeta Jeremias, por muito pouco, escapou dessa mesma sorte, tendo sido protegido por amigos, que o levaram para o Egito, onde refugiou-se. Contra a sua vontade, é bom que se diga, porque o desejo dele era acompanhar os cativos.


Na segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 12-20), o apóstolo recorda aos cristãos daquela cidade que a verdadeira salvação está na fé no evangelho de Jesus Cristo, conforme a pregação que ele fizera ali. ‘Lembro a vocês’, diz ele no início deste capítulo 15, ‘que o evangelho que eu preguei e no qual acreditaram, nele se encontra a verdadeira salvação, e não em outras doutrinas que falsos pregadores trouxeram até vocês’. Paulo encontrava-se em Éfeso, na ocasião, e soube através de outros cristãos que em Corinto voltavam a circular doutrinas gregas antigas, pondo em dúvida a fé na eucaristia e na ressurreição dos mortos, por isso o Apóstolo escreveu-lhes esta carta, rememorando os ensinamentos que ele havia ali partilhado, a fim de conduzir a comunidade à verdadeira fé cristã. O trecho da leitura deste domingo aborda apenas o tema da ressurreição dos mortos, mas nos capítulos anteriores Paulo trata dos outros temas, inclusive o conhecido “hino à caridade” (cap 13), no qual ele tematiza, de modo muito inspirado, as características fundamentais do amor cristão. A inclusão desse trecho no cenário litúrgico deste domingo se coloca na advertência feita pelo Apóstolo para que os cristãos de Corinto não se deixem enganar pelos falsos pregadores e não busquem a felicidade nos bens terrenos, esquecendo as verdades cristãs, dentre estas, a crença na ressurreição. Daí dizer ele, no versículo 19: ‘Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, então nós somos os humanos mais dignos de compaixão’, ou seja, quem pensa assim está totalmente equivocado. Se os mortos não ressuscitam, então, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, coitados de nós que acreditamos nele. Mas não, completa ele, Cristo ressuscitou, pois assim como entrou a morte no mundo por um homem, também por um homem veio para nós a ressurreição. Então, a fé na mensagem cristã é a fonte da verdadeira felicidade, e não as promessas ilusórias dos embusteiros. Por ser uma realidade de difícil compreensão, sobretudo naquele contexto da sociedade grega, marcada pelo materialismo e pelo imanentismo próprios daquela cultura, Paulo fez um raciocínio bastante didático, no capítulo 13, 12 dessa mesma carta, quando diz que, apesar dessa dificuldade, não é impossível crer, porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas depois veremos face a face: “Videmus enim nunc per speculum in aenigmate, tunc autem facie ad faciem”.


A temática sobre a felicidade que acompanha aqueles que acreditam e colocam em suas vidas a mensagem cristã está representada em sua melhor forma no famoso sermão da montanha, no qual Cristo chama a todos de bem-aventurados. Dizer que somos bem-aventurados é o mesmo que dizer que somos felizes. Em latim, a palavra bem-aventurados se diz 'beati' (plural de beatus) e esta é a mesma palavra que em português se traduz por 'felizes', tanto assim que algumas traduções do evangelho usam esta palavra nos textos: felizes os pobres de espírito, felizes os mansos, felizes os pacíficos, etc. Curiosamente, Cristo chama de bem-aventurados todos aqueles que, pelo status social, seriam pessoas desventuradas. O cap. 3 do Livro da Sabedoria, identifica os conceitos de “justo”, “feliz” e “santo”,quando diz: “Depois de terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, pois Deus os provou e achou dignos de si.” (Sb 3, 5). Aqui se encaixa o conceito de “felizes os que sofrem, porque serão consolados”. A felicidade, a santidade, a bem-aventurança e a justiça estão sempre de mãos dadas. Ser santo não é isolar-se de todos e passar o dia rezando e meditando, sem viver na comunidade. Talvez vivendo sozinho fosse até mais fácil para o ser humano alcançar a santidade. Mas o grande desafio da santidadeé ser capaz de aturar as maledicências, as incompreensões, a má vontade de algumas pessoas com quem convivemos e ainda assim mantermos a serenidade, a alegria e o bom humor. Fazendo assim, nem é necessário desfiar as contas do rosário seguidas vezes nem castigar os joelhos no chão em preces contínuas, para alcançar o patamar da autêntica santidade.


O texto do evangelista Lucas sobre as bem-aventuranças é mais sintético do que o de Mateus, isso se explica porque um e outro se dirigiam a leitores de culturas diferentes. Lucas dirigia-se à comunidade grega e enfatiza os aspectos da pobreza, da fome, da perseguição, das injustiças sociais que fazem chorar as pessoas humildes. Em seguida, ironiza com os ricos, que possuem muitos bens, vivem na fartura, têm legiões de bajuladores, porque depois a situação irá inverter-se. Se observarmos bem, o contexto social sugerido pela leitura de Lucas referindo-se à sociedade grega daquele tempo não é muito diferente do mundo de hoje, no qual a enorme dicotomia entre ricos e pobres conduz àquela mesma estratificação: de um lado, pessoas muito ricas, que vivem na abundância e até zombam da miséria alheia, aproveitando-se dela em seu benefício. De outro lado, pessoas extremamente carentes, as quais, em grande número, se desviam para a criminalidade e a violência, como uma medida imediatista e ilusória de tentar superar a sua condição de inferioridade. Mas aqui pode ser colocada a advertência do profeta Jeremias: confiar na força da carne humana é igual a plantar sementes no deserto.


O sermão da montanha, como é popularmente conhecido esse trecho do evangelho, é uma síntese de diferentes ensinamentos e propostas, que Jesus fazia aos seus seguidores. Não necessariamente ele teria dito todas essas “bem-aventuranças” de uma vez só, num local específico, sendo mais provável que os escritores sagrados tenham coletado e reunido num mesmo texto esses, que podem ser considerados como o resumo geral e grandioso de toda a pregação de Jesus em forma de aforismos, concentrando em poucas palavras os temas principais de sua mensagem da salvação. Também podemos imaginar que esses ensinamentos eram transmitidos por Jesus para um grupo de seguidores mais próximos, incluindo os doze, aqueles que lhe eram mais fiéis. Muito embora a expressão “sermão da montanha” sugira que havia uma grande multidão de ouvintes, sabe-se que, nessas ocasiões, Jesus preferia proferir sua mensagem de forma de parábolas, utilizando-se de temas e situações comuns na vida daquelas pessoas. Essa forma mais refinada e concentrada de transmitir sua doutrina em temas deve ter sido adotada para um grupo menor, de pessoas mais comprometidas e fiéis, aos quais ele podia falar de um modo mais direto e contendo uma maior quantidade de exigências. Trazendo para o nosso contexto, o “sermão da montanha” se dirige exatamente a nós, cristãos do mundo de hoje, lembrando-nos dos nossos compromissos decorrentes de nossa adesão à fé cristã pelo batismo. Podemos dizer que hoje nós temos melhor condição de entender as “exigências” da fé cristã do que os doze apóstolos, que ouviram diretamente de Jesus essas palavras. Aqui está o nosso perene desafio: pô-las em prática.

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sábado, 9 de fevereiro de 2019

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 5º DOMINGO COMUM - 10.02.2019


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 5º DOMINGO COMUM – A NOSSA VOCAÇÃO – 10.02.2019



Caros Confrades,



Na liturgia deste 5º domingo comum, as leituras mostram três formas diferentes, pelas quais o chamado (vocação) divino foi dirigido a três personagens importantes na história da salvação: o profeta Isaías e os apóstolos Pedro e Paulo. Esses exemplos nos levam a refletir sobre a nossa própria vocação, cada um de acordo com os seus talentos, de modo que possamos dizer, como o profeta Isaías, diante do apelo do Senhor: “aqui estou, envia-me”.



Na primeira leitura, temos assim o relato de Isaías narrando sobre a sua vocação profética (6, 1), onde ele diz que foi no ano da morte do rei Ozias (740 a.C.) que ele recebeu a missão de profetizar. Diz ele que viu o Senhor dos exércitos sentado no trono, rodeado de serafins, que o adoravam dizendo “santo, santo, santo” e ficou com medo, considerando-se indigno de tamanha distinção, porque era apenas um pecador. Caiu por terra e tremeu, porque achava que ali iria morrer, pois de acordo com a tradição hebraica, ninguém tinha visto a Deus e depois continuado vivo. Então Isaías achou que era o momento de sua morte. Foi quando um dos serafins tirou uma brasa do altar, aproximou-se dele e com ela tocou a boca de Isaías, purificando-lhe os lábios para que ele pudesse falar em nome de Javé. Após isso, ele disse ao Senhor: estou pronto, envia-me. Este é, sucintamente, o relato de Isaías e daí podemos fazer algumas considerações.



Em primeiro lugar, destaco o fato de que foi Isaías o profeta que mais se aproximou da realidade do futuro Messias, inclusive sobre o sacrifício da cruz a que ele teria de se submeter, tanto assim que o texto de Isaías é o mais citado por Jesus nas suas pregações, inclusive no domingo passado lemos aquele texto em que Jesus diz expressamente que “hoje se cumpriu a palavra do profeta”. Mas Isaías, por causa do contexto histórico e político do reino de Judá, onde ele vivia, sempre às voltas com guerras e ameaças por parte dos inimigos, tinha a visão de Javeh como um chefe guerreiro, o Senhor dos exércitos, de modo que as previsões que ele fez do Messias eram também de um destemido guerreiro, que viria expulsar os inimigos. Não é de admirar, portanto, que o povo hebreu tenha resistido em reconhecer a messianidade de Jesus, porque ele não veio na condição de herói, libertador político, conforme havia sido previsto pelos profetas. Quando Jesus veio pregar um reino do amor e da mansidão, eles não viram nele aquela figura da sua expectativa histórica, que se formara ao longo de tantos séculos, como de um Messias guerreiro e lutador.



Em segundo lugar, esse trecho de Isaías contém aquela invocação que foi colocada no cânon da missa como parte fixa: o santo, santo, santo (Is 6, 3). que era o canto entoado pelos serafins que ladeavam o trono de Javeh. De princípio, convém explicar algo sob o aspecto gramatical, que não sei se todos sabem. Na língua hebraica, não há uma mudança morfológica na palavra, quando ela se põe no superlativo. Por exemplo, em português, o superlativo de “santo” é “santíssimo”, mas em hebraico, o superlativo da palavra se expressa com a repetição dessa palavra por três vezes. Desse modo, 'santo, santo, santo' (em hebraico: kadosh, kadosh, kadosh) quer dizer: santíssimo. Outro detalhe é que Isaías escreve: Senhor Deus Sabaoth, palavra hebraica que significa exércitos e que não foi traduzida nem para o grego nem para o latim, mantendo-se a grafia original nesses dois idiomas. Quem se recorda da missa em latim, lembra disso: Sanctus, sanctus, sanctus, Dominus Deus Sabaoth. Assim era também em português, mas na reforma litúrgica, a CNBB preferiu alterar a denominação “Deus dos exércitos” por “Deus do universo”, como está hoje no texto oficial.



Outro detalhe interessante é que o serafim apanhou uma brasa do altar com uma tenaz, espécie de alicate, (para não se queimar) e com ela tocou os lábios de Isaías (que não se queimou), ficando com isso purificado para falar em nome de Javeh. É interessante notar essa figura do fogo como símbolo da purificação, que tem presença constante nas imagens bíblicas. A brasa foi retirada do fogo que fora aceso para o sacrifício das vítimas que eram oferecidas ao Senhor. Ora, esse detalhe insinua que Isaías teve esta visão enquanto estava no templo. Isaías teve a árdua missão de denunciar os pecados do povo de Israel, desde os simples fiéis até os governantes, fato que ele fez com muita coragem, mesmo sabendo dos riscos que corria. Não é fato histórico confirmado, mas há uma tradição que afirma que Isaías morreu ao ter seu corpo serrado no meio, por ordem do rei Manassés, que ficou ofendido com as admoestações do profeta.



Na segunda leitura do domingo, o apóstolo Paulo conta, de sua própria pena, a sua vocação, história que todos conhecemos. Mas ele faz alguns complementos interessantes sobre as aparições de Cristo após sua ressurreição, narrativas que estão em certa divergência com os evangelhos. Por exemplo: diz que Jesus apareceu primeiro a Cefas (Pedro) e depois aos doze (2Cor 15, 5); esta aparição a Pedro isoladamente não consta nos evangelhos. Diz depois: mais tarde, apareceu a mais de 500 irmãos de uma vez, depois apareceu a Tiago e depois aos apóstolos todos juntos. Pelas narrativas evangélicas, essas aparições a 500 irmãos e a Tiago também não estão registradas, contudo, não se pode dizer que Paulo esteja faltando com a verdade, pois muitas tradições orais que eram conhecidas em algumas comunidades não eram conhecidas em outras e nem todas foram escritas.



Por fim, em 2Cor 15, 8, Paulo diz que Jesus apareceu também a ele (“como um abortivo”), afirmando não ser merecedor de tamanha honra. Nesse ponto, Paulo está fazendo um discurso de humildade, arrependido do tempo em que foi perseguidor da Igreja. Mas logo depois (vers. 10), ele faz um autoelogio, ao dizer: tenho trabalhado mais do que os outros apóstolos. Talvez como uma espécie de compensação, por ter sido perseguidor, Paulo tenha se dedicado muito mais do que os outros, em viagens e missões por todo o mundo grego, levando o cristianismo até Roma, que era a grande capital do mundo de então. Foi Paulo quem levou Pedro para presidir a comunidade de Roma, para dedicar a ele a honra de ser o líder cristão da cidade mais importante, fato que ainda hoje tem grande repercussão, na pessoa do Papa, bispo de Roma. Aliás, na minha convicção pessoal, a vocação de Paulo é uma das maiores provas da divindade de Cristo, porque se dependesse dos doze, dificilmente o cristianismo teria alcançado a expansão que atingiu, em termos de locais habitados naquela época. Com sua formação intelectual e sua pedagogia arrojada, pode afirmar-se que Paulo foi o primeiro teólogo, igualando-se a João em importância na elaboração doutrinária.



O evangelho de Lucas (5, 1-11) expõe a vocação dos primeiros apóstolos: Pedro e seu irmão André, que eram sócios de Tiago e João, filhos de Zebedeu, todos pescadores. Primeiro, Jesus entrou na barca de Pedro e pediu que se afastasse um pouco da margem do Mar da Galileia (ou Lago de Genesaré), para que pudesse pregar para a multidão que estava na praia. Depois, Jesus ordena que Pedro adentre para águas mais profundas, a fim de pescar. Pedro estava meio desanimado, porque na noite anterior, a pescaria tinha sido um fracasso. Foi então que se deu a pesca milagrosa: eram tantos peixes que o peso deles rompia as redes e foi preciso chamar a outra barca (de Tiago e João), para que o auxiliassem. Foi quando Jesus convidou Pedro para ser pescador de gente, estendendo o mesmo convite aos demais.



Pois bem, meus amigos. O que vemos de comum nesses três episódios? É o fato de que Deus se serve de fatos da existência das pessoas para chamá-los a colaborar na Sua missão. Na história de nossas vidas, a vocação cristã nos põe diante desse desafio de identificar e cumprir a nossa missão na sociedade onde vivemos. Assim como Isaías, Pedro, Paulo e todos os apóstolos, se especularmos sobre o nosso passado, iremos encontrar diversos fatos pelos quais Jesus nos chama para dar testemunho dele, sendo essa a nossa missão. Missão é um conceito que se identifica com a nossa vida social, na qual somos chamados a viver de acordo com o evangelho, testemunhando a nossa fé perante a comunidade. Não é necessário ficar o dia todo com o terço na mão nem com a Bíblia embaixo do braço para simbolizar que estamos em missão. Quando cumprimos nossas tarefas com honestidade, convicção, amor ao próximo, alegria, integridade, estamos dando um testemunho muito mais eloquente e eficaz do que se estivéssemos só balbuciando orações em particular. Portanto, nós não precisamos sair da nossa rotina para colocar em prática a nossa vocação, para realizar na nossa vida o que Deus deseja e espera de nós, estejamos nós só na beira da praia ou em águas mais profundas. Em qualquer lugar em que nos encontremos, a missão está ao nosso alcance.


COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4º DOMINGO COMUM - 03.02.2019


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO COMUM – 03.02.2019 – A CARIDADE

Caros amigos,

Neste quarto domingo comum, a liturgia traz para nossa reflexão o hino da caridade, uma inspirada página do apóstolo Paulo a Coríntios (1Cor 12,31), interpretando a lição de Jesus sobre o maior mandamento da Lei. Nas outras leituras, o tema em destaque é a vocação para a profecia: mesmo antes de nascer, o profeta já está predestinado a isso. Foi o que testemunhou Jeremias. De outra parte, Jesus, aquele 'profeta' que falava em nome próprio, não obteve o reconhecimento dos seus concidadãos.

Num antológico texto, que até já foi transformado em música popular, Paulo foi de uma felicidade muito grande, ao tecer louvores ao amor, à caridade, aquela ação humana que foi elevada pela palavra de Cristo como o maior dos mandamentos. Convém, de início, fazer um breve esclarecimento linguístico, porque amor e caridade não são, em português, palavras sinônimas e, para melhor entendimento, será necessário fazer uma análise dos termos originais. No texto grego, Paulo usa o vocábulo “agape”, que é uma das palavras traduzidas por “amor”, mas como palavra amor é polissêmica em português, para evitar uma compreensão equivocada do seu sentido, costuma-se traduzir por 'caridade'. Para que fique bem entendido o sentido da palavra “caridade” aqui nesse contexto, permitam-me informá-los de que, na língua grega, há três palavras diferentes, que podem ser traduzidas por “amor” em português. Uma delas é a palavra “eros” para significar o amor carnal, aquele voltado para a satisfação dos sentidos corporais, quase sempre numa perspectiva egoista, individualista e interesseira. Outra é a palavra “filos”, que tem o sentido de amizade, gostar de algo, tem um significado mais espiritual, como por exemplo é conhecida a palavra “filos+sofia” (amor à sabedoria) ou quando se fala em ações de filantropia (amor ao próximo). Por sua vez, a palavra “ágape” é utilizada para significar o amor doação, desinteressado, amor que quer o bem do outro e não o seu próprio, daquele que é capaz de tudo para fazer feliz o seu semelhante. É o amor compartilhado, que se perfaz na entrega de si e que se plenifica com a felicidade do(a) amado(a). Como podem ver, não há uma palavra em português que carregue toda esse conjunto de significados, nem mesmo a palavra 'caridade' tem essa conotação plena. No entanto, é o vocábulo que mais se aproxima do significado da palavra grega “agape”, embora na nossa língua a palavra 'caridade' seja também variadamente polissêmica. No texto de Coríntios, portanto, Paulo usa a palavra “ágape”, que é traduzida por amor ou caridade.

Pois bem, no famoso 'hino à caridade', Paulo adverte para a verdadeira expressão dessa forma de amor, que não se limita a meras atitudes externas, mas deve unir o interior com o exterior, para alcançar o seu pleno significado. Se eu falasse todas as línguas, isto é, se eu fosse um exímio comunicador, mas sem a caridade, seria igual a uma sineta que toca. Se eu tivesse toda ciência e toda fé, ou seja, se eu fosse um sábio extraordinário e um crente ardoroso, mas sem a caridade eu nada seria. Se eu me desfizesse de todos os meus bens a serviço dos pobres, ou seja, se eu praticasse a filantropia para ser elogiado pelas pessoas, mas se não tiver a caridade, de nada isso serve. E por aí segue. Meus amigos, que extraordinário desafio Paulo põe diante de nós. De nada valem a nossa devoção, nossos jejuns, nossas obras de misericórdia, nossa pregação, nossas leituras da Bíblia, nossos grupos de oração, nossas participações na missa e nos sacramentos, nosso dízimo pago para o culto divino, nossos trabalhos pastorais, etc, se tudo isso for uma mera atitude exterior, uma conduta destinada a receber elogios ou a lograr reconhecimento social. Se as nossas práticas religiosas não vierem de uma convicção interior, de um ato original de entrega plena e total do nosso próprio ser a Deus, de um compromisso firme e permanente de seguir o ensinamento de Cristo, se tudo o que fizermos como vivência religiosa tiver como motivação só o cumprimento do dever, a tradição familiar ou social, se for pelo peso na consciência ao ver um irmão ou irmã necessitado(a), ou pior ainda, se for para exibir-se aos outros, estaremos sendo o que Paulo chama de 'címbalo que tine', ou seja, uma sineta que só faz barulho, um corpo sem espírito, uma pessoa sem alma, que não funciona por si, mas manipulado por uma força externa.

E passa ele a discorrer sobre as qualidades do amor-ágape: “A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; não se alegra com a iniqüidade, mas se regozija com a verdade. Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo. ” (1Cor 13, 4-7) Se nós observamos bem, Paulo está descrevendo a personalidade de Jesus Cristo, está colocando em conceitos aquilo que Jesus praticou em toda a sua vida e nos deixou como exemplo. Ele é a 'caridade' (amor-ágape) em pessoa, o modelo acabado e perfeito desta virtude. Não era à toa que entoávamos com frequência aquela jaculatória, que todos ainda devem saber de cor: “Deus charitas est et qui manet in charitate in Deo manet et Deus in eo”. A caridade é o próprio Deus. Daí porque, Paulo conclui: a caridade nunca acabará. Todas as profecias, todas as palavras, promessas e virtudes acabarão, a esperança desaparecerá e a própria fé se extinguirá um dia, mas a caridade permanecerá para sempre. Fica fácil de compreender o porquê disso: a caridade é o próprio Deus e estando na caridade, estamos nele.

Uma das formas de viver esse amor-ágape é a que encontramos na atividade da profecia. O profeta é uma pessoa que age motivada exclusivamente pelo amor, porque ele não profetiza para si, para o bem próprio, mas para o bem dos outros. O profeta não faz isso para se promover ou para se exibir, mas até com o sacrifício da própria vida, ele fala o que lhe vem da alma, expõe o que Deus lhe inspira. A palavra “profeta”, na sua forma original do grego, já contém esse significado. No grego, “prophetés” é uma palavra ligada à raiz do verbo “phêmi”, que significa 'dizer, proclamar'. A palavra 'prophetés' significa 'aquele que fala em nome de alguém', no caso da Bíblia, fala em nome de Javeh. Jeremias declarou que Javeh revelou a ele que, mesmo antes de nascer, ele já estava destinado à profecia. Mas também foi ele o profeta que ousou desafiar Javeh ao dizer: eu não vou mais falar em teu nome, porque todas as vezes em que faço isso, sou ameaçado, sou humilhado, sou expulso, não vou mais fazer isso. Porém, não conseguiu. O próprio Jeremias confessou: eu não consigo ficar calado, há um fogo abrasador dentro de mim que me impele a profetizar, mesmo que eu não queira. Foi aí que Javeh o tranquilizou: “ põe a roupa e o cinto, levanta e comunica-lhes tudo o que eu mandei dizer … eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, ” (Jr 1, 18) E Jeremias se enche de coragem e vai cumprir a sua missão, enfrentando todos os riscos decorrentes dela.

A nossa vocação profética também nos coloca diante de desafios semelhantes, por isso, o exemplo de Jeremias é uma motivação para nós. Ai de mim se eu não anunciar o evangelho, disse Paulo parafraseando Jeremias. (1Cor 9, 16) Cada um de nós, no exercício da nossa missão de seguidor de Cristo e de Francisco, deve também sentir dentro de si esse fogo abrasador que não permite que a nossa voz se cale, que não deixa passar uma ocasião para testemunhar a nossa fé, para comunicar aos outros o ensinamento que recebemos de Cristo. Os profetas de outrora falavam em nome de Javeh, nós hoje falamos em nome de Cristo, que é a própria Palavra de Javeh materializada e encarnada, que nos mandou para continuarmos a sua missão, quando chamou os apóstolos e estes criaram as primeiras 'ekklesias' (comunidades), através das quais nós somos hoje chamados ao mesmo apostolado. É por isso que o modelo de vivência da fé religiosa proposto pela teologia do Vaticano II não é mais aquele marcado pela introspecção, pela interioridade, pela fé individualista, atitudes que estavam representadas numa famosa recomendação dos antigos missionários: “salva a tua alma”. Nos dias atuais, a teologia entende que a salvação é um ato coletivo, que a religião deve ser vivida na comunidade e que aquelas práticas religiosas voltadas para a interioridade devem ser transmudadas em atitudes concretas, em ações externas, em práticas solidárias, nas quais se vivencia em comunidade o amor-ágape, do qual o apóstolo Paulo fala na carta aos Coríntios. O lema agora não é mais “salva a tua alma”, mas salva a alma do teu irmão e assim estarás salvando também a tua.

Meus amigos, concluo convidando todos a meditarem sobre a nossa vivência da vocação profética, à qual fomos chamados pelo batismo, fortalecida na vivência da fé comunitária e na partilha caridosa das nossas disponibilidades.