domingo, 25 de janeiro de 2015

COMENTARIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO COMUM - O TEMPO CHEGOU - 25.01.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO COMUM – O TEMPO CHEGOU – 25.01.2015

Caros Confrades,

Na liturgia deste 3º domingo comum, as leituras possuem um tema comum: o tempo. Por mais que nos pareça algo muito concreto, na verdade, o conceito de tempo é abstrato. Falamos sempre do tempo como se fosse um objeto, algo corpóreo, contudo, o tempo é apenas uma produção da nossa atividade psicológica, é uma forma de conceituarmos essa sensação que nos vem acompanhada da evolução dos fatos numa corrente sucessiva. Para melhor controle, as pessoas aprenderam a contar o tempo, a quantificá-lo ou a dividi-lo em fatias (como diz o soneto de Drummond). Na língua portuguesa, o vocábulo “tempo” é polissêmico, por isso o utilizamos nas mais diversas situações, mas sabemos distinguir mentalmente o seu significado. A título de exemplo, no idioma grego, há palavras diferentes para falar do tempo cronológico (chrónos) e do tempo simbólico (kairós), entendido aqui o tempo simbólico como a oportunidade, o momento, a hora certa de fazer algo, ou como dizem os teólogos, o tempo favorável. É neste último sentido que compreendo a alusão ao tempo na liturgia de hoje: o tempo favorável para a ação de Deus na história. Esse tempo não vem com hora marcada, nós é que temos de encontrá-lo ou, se for o caso, construi-lo.

Na primeira leitura, o texto traz a lembrança da missão do profeta Jonas, em Nínive (Jn 3, 1-5). Deus mandara que ele pregasse ao povo de Nínive assim: Se não mudardes o vosso modo de vida, dentro de 40 dias, a esta cidade será destruída. O povo se converteu e Deus suspendeu o castigo que iria mandar. Nínive era a capital da Assíria, uma megalópole daquele tempo, talvez maior do que é Fortaleza nos dias de hoje, porque o texto afirma que eram necessários três dias para atravessar a cidade. Era um local de muitas perversidades, como em toda grande cidade. O profeta Naum a chamara de cidade sanguinária, cheia de mentiras e de roubo (Na 3,1), por isso Javeh iria transformá-la num deserto. Mas com a pregação do profeta Jonas, o rei e os cidadãos se converteram e fizeram penitência, assim o castigo foi evitado. Evidentemente, essa tarefa de Jonas não deve ter sido assim tão simples e de resultado imediato, conforme a descrição do texto, mas o que a liturgia quer destacar aqui é o tempo favorável, que os ninivitas reconheceram e souberam aproveitá-lo. A população da cidade dirigiu seus ouvidos à pregação do profeta e deu-lhe crédito. Devemos também considerar que havia ali um momento favorável, no sentido de que muitos dos habitantes da cidade ainda se recordavam da derrota do rei de Judá, Ezequias, para o rei de Nínive, Senaqueribe, e da humilhação sofrida pelo povo, por isso tiveram maior sensibilidade para ouvir o profeta.

Na segunda leitura, Paulo exorta os fiéis de Corinto para viverem o seu tempo favorável, cada um de acordo com o seu estado. (1Cor 7, 29-31) Contextualizando a leitura, nos versículos anteriores, Paulo fala sobre a vida dos casados, dos solteiros, das viúvas, dos escravos, dando conselhos a cada grupo para viverem na graça de Deus. A igreja de Corinto foi uma comunidade fundada por Paulo e os coríntios entenderam a sua pregação como se a volta de Cristo fosse acontecer logo naqueles dias. Alguns até não queriam mais nem trabalhar, deixaram tudo de lado só esperando a nova vinda de Cristo. Então, Paulo os adverte a viverem suas vidas, na perspectiva da eternidade. Cada um fique no estado em que foi chamado. Quem quiser ser como ele Paulo, que era celibatário, ele acha melhor, mas quem não conseguir viver assim, que procure um cônjuge, porque é melhor casar-se do que abrasar-se (7, 9). Sinceramente, eu não entendo por que a Igreja Católica não segue o conselho de Paulo e continua a exigir dos sacerdotes o celibato obrigatório. Além disso, a tradução oficial da CNBB não reproduz bem o sentido do texto paulino. Diz 'o tempo está abreviado', mas no texto latino, Paulo diz: 'tempus breve est', expressão que, ao meu ver, não tem o mesmo sentido. A tradução melhor seria “o tempo é breve”, isto é, passa muito rápido. Tempo abreviado dá um sentido de encurtado, diminuído e não me parece que seja este o sentido expresso no texto. O tempo breve nos conduz à consciência de que é preciso viver com os pés no hoje, mas com os olhos no futuro, porque nós não somos desde mundo e a nossa estadia aqui é passageira.

Na leitura do evangelho de Marcos (1, 14-20), temos a narrativa do chamado dos primeiros apóstolos: Pedro, André, João e Tiago. De acordo com este evangelista, Jesus teria chamado os quatro na mesma ocasião, mas se observamos o evangelho de João, lido no domingo passado, acerca do chamado de Pedro, veremos que não foi bem assim. No texto de Marcos, Jesus estava passeando pela beira do mar da Galiléia e viu Simão e André, seu irmão, e os chamou. No texto de João (1, 42), ele diz que André era discípulo de João Batista e viu quando este falou sobre Cristo: eis o Cordeiro de Deus, então passou a segui-lo e depois apresentou a Ele seu irmão Simão. Não devemos, porém, concluir com isso que o texto de Marcos seja impreciso ou incorreto. Como sabemos, no tempo de Cristo não havia jornalistas documentando fatos nem havia escribas acompanhando seus passos e registrando suas atividades. Ora, o evangelho de Marcos, cronologicamente o primeiro a ser escrito, deve ter sido redigido cerca de 40 anos antes do evangelho de João. Além disso, Marcos não foi testemunha ocular, mas utilizou-se da tradição oral e de textos esparsos que circulavam nas comunidades da região onde ele vivia, os quais por sua vez foram escritos a partir de tradições orais, histórias que passavam de boca em boca entre os primeiros cristãos. Por outro lado, João foi testemunha viva daqueles fatos e escreveu a sua própria experiência, não por ouvir dizer. Marcos e João escreveram em locais distantes entre si e servindo-se de fontes diferentes, de modo que o texto de João, até por ter sido escrito bastante tempo depois, é mais elaborado, mais pesquisado, mais coerente. Apesar das divergências, o que verdadeiramente importa não é se foi na beira do mar, como disse Marcos, ou num lugar qualquer da Galiléia, como disse João, mas o que interessa é que eles atenderam ao chamado, eles aceitaram a proposta de Cristo para mudarem de vida e em vez de ser pescadores de peixes, passaram a ser pescadores de gente. Cada um deles teve o seu tempo favorável de ouvir o chamado e aceitar a missão que lhes foi confiada.

O evangelho de Marcos lido neste domingo também faz referência ao início das atividades públicas de Jesus, o que ocorreu após a prisão de João Batista. Alguns domingos atrás, quando comemorou-se o batismo de Jesus, João Batista dizia ao povo que, após ele, viria alguém de quem ele não seria digno de desamarrar as sandálias. Então, a prisão de João Batista foi o tempo favorável para o início da missão profética que Jesus veio realizar. Jesus não iria fazer concorrência com João Batista, até porque este foi o agenciador da chegada d'Aquele, por isso não seria oportuno que ambos atuassem simultaneamente. Essa oportunidade chegou quando João Batista saiu de cena, abrindo-se o espaço para o anúncio da “boa nova”. E um detalhe significativo é que Jesus começou suas pregações na Galiléia, não foi em Jerusalém, a grande cidade da época. Por que na Galiléia? Porque aquela região era habitada por pessoas de diversas origens étnicas e de diversas nacionalidades. Isso teria ocorrido porque a população primitiva daquela região teria sido levada, em sua maior parte, cativa para a Assíria e a terra ficou desabitada, passando a ser ocupada por pessoas nômades de outras tribos, durante o tempo em que os hebreus permaneceram no cativeiro. Com o retorno do povo hebreu libertado, os novos habitantes se relacionaram bem com aqueles e por esse motivo o local era um misto populacional de diversas origens, razão porque era chamada de Galiléia das Nações. Então, Jesus escolheu iniciar a pregação do reino de Deus exatamente num local em que a população, além de ser pobre, não era constituída exclusivamente de hebreus, demonstrando logo no início o destino universal dos seus ensinamentos. É essa igreja dos pobres que o Concílio Vaticano II destacou em seus documentos, diferentemente daquela igreja elitizada, como ela passou a ser a partir do seu envolvimento com os imperadores romanos e com os senhores feudais da Idade Média. Esse é o sentido da “opção preferencial pelos pobres”, que tanto o Concílio quanto os documentos oficiais posteriores pretenderam resgatar, o que deu origem à doutrina muitas vezes mal entendida e não poucas vezes deturpada chamada “teologia da libertação”.

Esta mensagem acerca do tempo favorável, do momento e da oportunidade nos convida a estar sempre atentos aos “sinais dos tempos”, sempre reavaliando nosso modo de ser, pois Deus está se manifestando a nós de diversos modos nos acontecimentos e às vezes nós não percebemos e deixamos passar aquela oportunidade de praticar o bem.

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domingo, 18 de janeiro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 2º DOMINGO COMUM - O CHAMADO - 18.01.2015

COMENTARIO LITURGICO – 2º DOMINGO COMUM – O CHAMADO – 18.01.2015

Caros Confrades,

Passado o tempo do natal, a liturgia retoma o tempo comum e neste 2º domingo comum, o tema litúrgico é o “chamado” ou a vocação de cada um. Vocação está associada à nossa missão, ao nosso objetivo de vida. Cada pessoa possui certas habilidades e tendências inatas, próprias do seu caráter e da sua personalidade, de modo que realizar a própria vocação corresponderá a descobrir esses talentos que Deus nos dá em maior abundância e fazer uso deles para o maior bem de nós mesmos, dos irmãos, da sociedade, do reino de Deus, para cujo desenvolvimento nós somos convocados a colaborar. A vocação requer escuta e compromisso. Escuta para que cada um possa identificar o que Deus espera de nós. Compromisso para cada um assumir a sua missão com honestidade e com vontade, na certeza de que a graça divina não deixará de nos favorecer.

Na primeira leitura, retirada do livro de Samuel (3, 10-19), lemos a vocação deste sacerdote e profeta, quando recebeu o primeiro chamado de Javeh. Ele era um jovem que nunca havia tido contato com o Senhor e por isso não identificou, de início, quem o estava chamando e apresentou-se ao sacerdote Eli, na suposição de seria ele o autor do chamado. Somente depois de ouvir algumas vezes a voz de Deus, instruído por Eli, Samuel conseguiu identificar a origem do chamamento. Isso também pode acontecer conosco, embora não sejamos jovens de idade como o Samuel da leitura, mas por vezes não conseguimos ouvir ou identificar o chamado que nos chega da parte de Deus. Este chamado nem sempre é assim tão claro e insistente, como sugere a leitura, às vezes, ele é sutil e delicado, como é o caso de quando vem através da voz do irmão necessitado, do próximo que pede a nossa ajuda, por exemplo. Tempos atrás, nós fomos conduzidos até o Seminário, por termos ouvido um chamado através dos nossos pais, parentes, sacerdotes ou através de acontecimentos marcantes, que nos impulsionaram até lá. O fato de termos saído do seminário não significa que nós renunciamos a seguir o chamado, mas apenas que Deus nos mostrou outras alternativas e nos deu outras oportunidades para servi-Lo, que não através da vida religiosa consagrada. Cada um prossegue no atendimento ao chamado, contribuindo para a maior glória de Deus nas tarefas do dia a dia de cidadãos, nos exemplos de vida pessoal e profissional, na fidelidade do seguimento do evangelho de Cristo.

É interessante observarmos que Javeh chamou Samuel enquanto ele dormia. No antigo testamento, não havia ainda a figura do “profeta”, ou melhor dizendo, essa palavra não existia nem o sentido que ela expressa. A palavra correspondente a “profeta” em hebraico, a língua original do antigo testamento, é “navi” e essas pessoas geralmente recebiam as mensagens divinas através de sonhos. Há vários exemplos na escritura sagrada sobre os sonhos dos “navis”, eram uma espécie de revelação que ele recebia, assim como aconteceu com Samuel. A palavra “profeta” surgiu na tradução da escritura para a língua grega, quando “navi” foi traduzido por “prophaités”, palavra derivada do verbo grego “phainow” (falar), então o profeta é aquele que fala em nome de alguém. No antigo testamento, o navi trazia um recado de Javeh, o qual ele havia recebido geralmente através de um sonho, daí porque foi traduzida essa palavra por “pro-phaités”. Visto que, no mais das vezes, os fatos abordados se referiam a eventos futuros, gerou-se uma tradição de que profeta é aquele que é capaz de prever acontecimentos, como se fosse um adivinho, sendo esse o significado semântico mais usual. Na verdade, profetas somos todos nós quando, através das nossas atitudes, nossas palavras e nosso testemunho demonstramos para os irmãos a nossa característica de cristãos e, mesmo sem proferir discursos ou pregações, somos eloquentes no agir e no fazer.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 6, 13-20), o Apóstolo aborda a vocação matrimonial, advertindo os cristãos de Corinto para não se envolverem em atividades sexuais ilícitas, mantendo a fidelidade com os respectivos cônjuges, pois o homem que se une a uma prostituta faz do seu corpo um só com o corpo dela (6, 16) e isso contradiz a união espiritual que o cristão tem com o Senhor. Por isso, diz Paulo: fugi da fornicação. “Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto, ignorais também que vós não pertenceis a vós mesmos? De fato, fostes comprados, e por preço muito alto, ” (6, 19-20) ou seja, com a paixão e morte de Jesus. Portanto, continua, usem o seu corpo para a glória de Deus. É mais adiante, nessa mesma carta (cap. 13), que Paulo escreveu o seu belíssimo poema sobre o amor cristão, que é muito conhecido e repetido, e que começa com essa bela comparação: “Eu poderia falar todas as línguas que são faladas na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o som de um gongo ou como o barulho de um sino.” A vocação matrimonial é, talvez, o maior desafio que se coloca para o ser humano (homem e mulher), quando firmam um compromisso de vida em comum por toda a existência, o que só pode ser conseguido a assistência permanente da graça divina.

Na leitura do evangelho de João (1, 42), vemos a narração do chamado especial de Cristo dirigido a Pedro. Pelo que se deduz da narrativa joanina, André era discípulo de João Batista e passou a seguir a Cristo, depois que João O identificou. Após passar um dia na companhia de Jesus, André foi convidar seu irmão Simão para tornar-se também um seguidor. Logo que Simão foi apresentado a Jesus por André, Este foi logo dizendo: teu nome é Simão, mas serás chamado Kéfas. Este trecho do evangelho é marcado por digressões explicativas, pelo que se deduz que João escrevia para pessoas que não entendiam as palavras em hebraico. Ele explica que Rabi significa mestre, que Messias significa Cristo e que Kéfas significa pedra.

Observemos alguns aspectos interessantes da análise do vocábulo KÉFAS. No próprio texto do evangelho (1,42), o evangelista João se preocupa logo em traduzir kéfas. Lembremo-nos que o evangelho de João foi escrito por volta do ano 100 d.C. e nessa época a figura de Pedro já estava consolidada como chefe da Igreja. No texto latino, diz assim: quod interpretatur Petrus - Petrus está escrito com letra maiúscula (tradução literal: que se interpreta como Pedro). A palavra Kéfas não é grega, mas aramaica, uma variação do hebraico falada por Cristo. Segundo a internet, kéfas em aramaico significaria 'rochedo esburacado'. Por isso, João disse que Kéfas se interpreta como Petros, ele não disse que era sinônimo de pedra. E João fez isso cerca de 30 anos após a morte de Pedro, certamente lembrando a passagem de Mateus (13, 18). Apenas para recordar, o evangelho de Mateus foi escrito originalmente em aramaico e só depois traduzido para o grego. Portanto, deduz-se que foi através desta passagem de Mateus (13,18 - tu es Petros e sobre esta Petra edificarei a minha igreja)  que a palavra kéfas foi introduzida no idioma grego e deste, transferida para o latim.

Um outro aspecto tb interessante da palavra kéfas é que, por não ser grega nem latina, ela foi simplesmente transliterada nos dois idiomas - quero dizer: tanto em grego como em latim, foi copiada a sua pronúncia do aramaico. Mas por uma feliz coincidência, kéfas contém a primeira parte da palavra grega kefalé, que significa 'cabeça', então o chamado de Pedro foi especial porque Jesus o colocou, ao mesmo tempo, como fundamento e como cabeça do grupo. Esse é um polêmico ponto de divergência entre a Igreja Católica ocidental e a oriental, questão que vem se arrastando por vários séculos e que o Papa Francisco está cuidadosamente tentando superar, em busca da reunião de todas as comunidades eclesiais. A diferença no tratamento do problema está em que os Papas anteriores se apresentavam como “chefes” a quem todos deveriam manifestar obediência. No caso do Seráfico Papa, ele se apresenta como um irmão que tenta reatar os laços de fraternidade com outros irmãos. E isso mesmo ele faz também em relação às outras religiões não cristãs, como o judaísmo e o islamismo, cumprindo a previsão de Cristo de que todos formariam um só rebanho e teriam um só pastor. Esta é a vocação especial que Cristo reservou para ele.

Nesse contexto, cada um de nós é convidado a refletir de que modo, nas nossas vidas na familia, no trabalho, no lazer, no estudo, na educação dos filhos, prossegue com fidelidade sendo fiel ao chamado que nos foi dirigido.


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domingo, 11 de janeiro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - BATISMO DO SENHOR - 11.01.2015

COMENTARIO LITURGICO – BATISMO DO SENHOR – 11.01.2015

Caros amigos,

Neste domingo após a Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor. Na verdade, Jesus não precisava ser batizado, porque o seu “batismo” se deu quando ele foi apresentado no templo, de acordo com a lei de Moisés. Além disso, o batismo de João tinha por objeto o perdão dos pecados, para aplainar os montes e endireitar as veredas, ou seja, a “metanóia” ou a conversão ou a mudança de vida, sendo o mergulho do batismo o símbolo dessa mudança: o batizado ressurge das águas como um novo fiel, purificado dos seus pecados. Não era esse o caso de Jesus. Por isso, penso que o fato de Jesus ter entrado na fila para ser batizado por João, tinha dupla finalidade: primeiro, dar um caráter oficial àquela catequese preparatória do povo, feita por João, antes que Ele (Jesus) iniciasse a pregação da sua doutrina; segundo, fazer a sua apresentação pública, pois até então ele vivera anonimamente, e agora seria apresentado oficialmente como Filho de Deus, pois foi nessa ocasião que, pela primeira vez, ocorreu a manifestação da Trindade divina.

O tema do batismo é um dos que desperta mais polêmica entre a Igreja Católica e as demais igrejas cristãs, por diversas razões históricas, que todos conhecemos, porém penso que as querelas mais significativas se concentram em dois pontos: 1. o batismo de crianças recém-nascidas, fato que não ocorria no início do cristianismo, tendo sido introduzida como prática posteriormente; 2. o ritual do batismo por mera aspersão (derramamento de pouca água na cabeça do batizando) e não por imersão (mergulho na água), como era o batismo original de João.

Em relação a essa crucial polêmica, o fato histórico é que nem sempre o batismo foi realizado por imersão do fiel. No Novo Testamento, diversos relatos sobre o batismo sugerem uma outra forma de batizar, como por exemplo, em Atos 16, 33, quando Paulo batizou pessoas na prisão, certamente ali não tinha como fazer a imersão dos batizados. O batismo do próprio Paulo por Ananias (Atos 9, 18), realizado na casa de Judas, não deve ter sido por imersão. Do mesmo modo, o episódio ocorrido no dia de Pentecostes (Atos 2, 37-41), quando cerca de 3.000 pessoas foram batizadas após a pregação de Pedro, não deve ter sido por imersão. Ou seja, desde os primeiros tempos do cristianismo, já se praticava o batismo por aspersão, não tendo sido “invenção” dos padres medievais, como insinuou Lutero quando se opôs a essa prática, porque queria retornar ao fundamentalismo do texto. Aliás, Lutero não se opunha apenas ao ritual da aspersão, mas também ao fato de que a Igreja aprovava o batismo de crianças bem pequenas, ao invés de batizar apenas os adultos. Embora eu reconheça que há um certo exagero nessa antecipação do tempo batismal para a infência, creio que há razões teológicas que a justificam, entre as quais destaco duas fundamentais: 1. o fato de que a pessoa deve ser purificada do pecado (no caso da criança, o pecado original) o quanto antes possível, ou seja, logo após ao nascer, sem esperar a idade adulta; 2. embora a criança de pouca idade não saiba o que está ocorrendo, a Igreja age como mãe amorosa e faz isso por ser o melhor para o pequeno fiel, assim como toda mãe só quer o bem dos filhos, ficando com os pais e padrinhos a responsabilidade de ensinar a criança e conscientizá-la, quando tiver entendimento. É assim que o catecismo ensina, é assim a doutrina oficial da Igreja Católica.

Saindo dessas polêmicas histórico-doutrinárias e analisando agora sob o aspecto gramatical, o vocábulo batizar deriva do verbo grego BAPTIZÔ, que significa mergulhar, submergir, mas também lavar. Por exemplo, batismo já foi uma espécie de pena de morte, em que se mergulhava o condenado até ele morrer afogado. Em Lucas (11, 38), quando os fariseus se admiraram porque os discípulos de Jesus não lavavam as mãos antes de comer, a frase latina é “quare non baptizatus esset” (liberalmente, “porque não tinham se batizado”) e a frase grega é “ou proton ebaptiste”, demonstrando assim o significado do verbo “baptizô” no sentido de lavar. Ora, para lavar as mãos, não é necessário sempre as mergulhamos em água, muitas vezes apenas derramamos água sobre elas. Ou seja, além dos aspectos puramente doutrinários, há ainda o suporte favorável do estudo linguístico dos termos. Em algumas igrejas cristãs não católicas que eu conheço, prepara-se uma espécie de piscina ou tanque grande cheio de água para o ritual do batismo por imersão. Ao meu ver, trata-se de uma prática desvirtuada do sentido original do batismo de João, pois deveria ser realizado em uma fonte de água natural. Isso, sem esquecer os aspectos práticos da água esparramada, das vestes encharcadas, do constrangimento por que passam as pessoas, sobretudo as mulheres, que têm seus corpos expostos desnecessariamente... Ora, se é para seguir o ritual, então, que se o sigamos por completo. Pessoalmente, eu não vejo sentido nesse tipo de ritual, que pode ser simplificado sem perder o seu sentido e a sua finalidade. Em síntese, digo que a forma de realizar o batismo, se por imersão ou por aspersão, não é relevante, e sim a fé que deve motivar o fiel a receber o batismo. No caso de crianças pequenas, a fé é dos adultos que as levam a batizar e que se comprometem a catequizar o batizado na mesma fé que professam.

Acerca das leituras litúrgicas dessa festa, o evangelho de Marcos (1, 7-11) relata o batismo de Jesus por João, o qual dizia que depois dele viria alguém bem maior, de quem ele não era digno nem de desamarrar as sandálias. Culturalmente, o ato de desamarrar as sandálias era próprio dos servos, que assim o faziam com o seu amo, e João se colocava desse modo como inferior a um servo. E diz o evangelista: “Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galiléia, e foi batizado por João no rio Jordão. E logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele.” A fama de João era conhecida em toda a Judéia, Galiléia, Samaria, em todas as comunidades, ele tinha muitos discípulos e seguidores. Então, Jesus saiu de Nazaré para ter com João propositalmente, para dar continuidade ao trabalho dele, fez uma espécie de homologação dos seus atos preparatórios e assumiu dali em diante a tarefa de cumprir a promessa do Pai. O evangelista Marcos não diz nada a respeito, mas Mateus (13, 14) relata que João reconheceu Jesus e não queria batizá-lo, exatamente por causa do seu discurso de acerca da superioridade de Jesus em relação a ele e só a muito custo concordou em fazê-lo. Ora, se Jesus tinha tido até então uma vida oculta, como foi que João soube de quem se tratava? Com certeza, foi o “espírito” quem lhe indicou isso.

Então, foi no batismo de Jesus o primeiro momento em que se manifestou a Trindade divina, que “ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele. E do céu veio uma voz: 'Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer'”, isto é, o início da vida pública de Jesus foi oficialmente declarado pela presença das três pessoas divinas. Obviamente, naquele momento, as pessoas não compreenderam o que havia acontecido, mas posteriormente, após a ressurreição de Jesus, quando as comunidades dos primeiros fiéis fizeram a rememoração dos acontecimentos da Sua vida, de onde provêm os textos primitivos que deram origem aos evangelhos, puderam compreender o alcance desse fato deveras significativo.

Curiosamente, tenho observado que, nos dias atuais, está-se tornando comum o batismo de pessoas adultas, como era bem no princípio do cristianismo. Lembro que, na Páscoa de 2014, aqui na Paróquia da Glória, um grupo de 21 pessoas (homens e mulheres) adultas receberam o batismo na Vigília Pascal, como era o costume mais primitivo. Hoje mesmo eu ouvi o Pároco convidando os adultos ainda não batizados para se inscreverem no curso preparatório. Ora, isso significa que há pessoas adultas que frequentam a missa e não são batizados. Ninguém põe em dúvida que a opção pelo batismo na idade adulta é muito mais significativa do que o batismo das crianças, porque tem-se um ato de vontade do próprio fiel e não de seus pais. Então, aquela antiga polêmica do batismo de crianças já não tem mais tanta importância nem desperta mais tanta polêmica, como foi no passado.

Que o divino Espírito nos inspire a viver o nosso batismo no dia-a-dia da nossa caminhada existencial, testemunhando diuturnamente, através do nosso comportamento, o compromisso assumido na pia batismal.


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domingo, 4 de janeiro de 2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO - EPIFANIA DO SENHOR - LUZ DAS NAÇÕES - 04.01.2015

COMENTÁRIO LITÚRGICO – EPIFANIA DO SENHOR – LUZ DAS NAÇÕES - 04.01.2015

Caros Confrades:

Celebramos, na liturgia deste domingo, de forma antecipada, a festa da Epifania do Senhor, cuja data é mesmo 6 de janeiro. A tradição popular sempre se refere a três Reis Magos, porém não há evidências de que eles eram reis e nem de que eram três. O evangelho de Mateus fala apenas que “alguns magos” vieram do oriente. Talvez pela alusão aos três presentes ofertados, deduziu-se que eram três, no entanto, os presentes fazem parte do simbolismo que o evangelista quis atribuir à pessoa do Messias, a luz das nações. E ainda a expressão “magos” não se vincula à magia, no sentido que hoje se atribui a essa palavra, mas ao fato de que eles seriam estudiosos dos fenômenos cósmicos, algo que no passado se chamava de astrologia, isto é, o conhecimento adquirido através do estudo dos astros. E foi assim que eles observaram um incomum alinhamento dos planetas e compreenderam que aquilo era o sinal de um grande evento, combinando esse fato com alguns oráculos antigos. A epifania do Senhor designa a universalidade da salvação trazida por Cristo.

No passado, o Deus do antigo testamento fizera uma aliança com um povo determinado e fizera-lhe promessas de se disseminarem por toda a terra. No modo de pensar daquele tempo, eles entenderam isso pela ótica da materialidade e da genealogia, contudo, com a chegada do Messias, a promessa se cumpriu e não foi pela trilha da genética e da hereditariedade cromossômica, mas seguiu a rota da vocação à santidade, oferecida a todos os povos, através do evangelho. A presença dos magos vindos do oriente é o primeiro sinal da universalidade da salvação trazida por Cristo. O texto bíblico não informa de que cidade eles vieram, mas apenas que vieram de terras distantes no oriente, guiados pela estrela. O evangelho fala somente que os 'magos' seguiram a estrela, a qual lhes teria indicado o local onde encontrariam Aquele de quem as profecias antigas faziam menção. Sim, eles eram pessoas de fé e de ciência, numa época em que essas duas realidades se confundiam numa só. Muito provavelmente, eles eram sacerdotes de uma religião diferente, talvez do zoroastrismo, religião fundada por Zaratustra, cerca de 1.500 anos antes de Cristo e praticada na região que hoje corresponde ao Irã. Para os propósitos do evangelista Mateus, não interessa efetivamente quem eram nem mesmo se eram aquilo, mas o objetivo é mostrar que o Messias, em primeiro lugar, é aquele a quem os profetas mais antigos se referiram e, em segundo lugar, que a sua vinda não se restringia a um determinado povo ou a pessoas de uma determinada região geográfica, mas além daqueles da antiga aliança, alcançaria também gentios e pagãos, realizando a promessa divina de um modo novo e inesperado.

Na primeira leitura, do livro de Isaías (deutero-Isaías, cap 60, 1-6), aparece claramente o sentido da universalidade do Messias, quando o Profeta se refere a Jerusalém como um local onde se congregam povos de diversas origens: “Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti.” Jerusalém já não é mais a capital apenas do povo hebreu, mas de todas as nações. “Com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações”, desse modo, o Profeta vaticina a transformação de Jerusalém numa cidade onde haverá a confraternização de todos os povos, pois eles se dirigem a ela não com o objetivo de domínio ou de fazer negócios, mas para proclamar a glória do Senhor. Na figura alegórica do Profeta, vislumbra-se a Jerusalém de Judá como a antecipação da Jerusalém celeste, ou seja, a Igreja de Cristo, que se estenderá a todos os povos e a todos os lugares. E se existirem povos em outros planetas e em outras galáxias, também para eles se destina a missão dada por Cristo: “ide e ensinai a todos os povos”. Da mesma forma que, até a Idade Média, quando não se conheciam as terras do continente americano, pensava-se apenas no mundo europeu, mas logo que se descobriram outras paragens, os missionários trouxeram a mensagem cristã para a nossa região, assim também, quando novas comunidades de seres inteligentes forem encontradas, competirá a nós a tarefa de missionar as novas regiões, cumprindo o mandamento de Cristo.

Vemos, na carta de Paulo aos Efésios (3, 2-6), um testemunho interessante do Apóstolo acerca do “mistério” que lhe foi comunicado por revelação, qual seja, “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.” Ora, o próprio Paulo não conheceu a Jesus Cristo, não ouviu Seus ensinamentos, não participou do processo pedagógico do grupo de galileus, aos quais Jesus tentou ensinar, durante três anos, a sua mensagem, a sua “nova lei”. Ele próprio, Paulo, era um pagão, um gentio, e a revelação que ele recebeu de Cristo diz respeito exatamente ao fato de que a salvação não está restrita ao povo da antiga aliança, isto é, os pagãos também são chamados para fazerem parte do povo de Deus. Foi isso que os fariseus nunca entenderam na pregação de Jesus, foi por isso que não o reconheceram como o Messias, porque pensavam a salvação em termos nacionalistas e étnicos, porque liam as escrituras de uma forma meramente literal e fechada e isso os impedia de ver, no texto sagrado, um novo sentido mais amplo e mais flexível. Paulo recebeu esses ensinamentos por revelação e tratou de transmiti-los através da sua pregação, do seu exemplo, dos seus escritos, da sua própria vida, devotada ao evangelho. A só presença de Paulo e a sua atividade missionária comprovam essa nova dimensão da antiga aliança, ensinada por Cristo. O evangelho de Mateus fala dos magos vindos do oriente; as cartas de Paulo se destinam aos gentios do ocidente; a junção das duas perspectivas nos dá a dimensão maior da envergadura que comporta a mensagem cristã.

Sobre a leitura do evangelho (Mt 2, 1-12), é curioso observar que nem Lucas nem Marcos se referem ao episódio da visita dos “magos”, sobretudo Lucas, que foi o evangelista portador dos maiores detalhes particulares da infância de Cristo. É de se imaginar que a visita de “magos” vindos do estrangeiro nos primeiros dias após o nascimento de Jesus devia ter sido um fato importante, no entanto, Lucas não obteve essa informação. Ademais, se fizermos as contas, a provável chegada desses magos teria encontrado o Menino Jesus já com alguns meses de idade, considerando que a visão da “estrela” teria ocorrido no nascimento e considerando a distância de onde eles se encontravam, uma viagem no lombo de camelos deveria demorar pelo menos uns três meses até Belém. Como se vê, existem muitas incongruências envolvendo essa narrativa da vinda dos magos, de modo que nunca se saberá com certeza o que há de realidade nesses fatos e por isso, mais uma vez, fica evidenciado que não se deve ler e interpretar a Bíblia de forma literal. Mas visto que os evangelhos não são propriamente registros históricos e sim proclamações de fé das comunidades primitivas, o que mais importa nessa narrativa é a doutrina da universalidade da salvação.

O evangelista Mateus tem um propósito deliberado de demonstrar que Jesus é o Messias prometido, aquele de quem falam as profecias. Ele faz todo um esforço para compor a narrativa, unindo os fatos com os textos proféticos, harmonizando-os e integrando-os. Daí que ele vai buscar um texto antigo do profeta Miquéias (Mq 5, 2) e o insere no contexto do diálogo de Herodes com os “magos”, quando os sacerdotes e doutores da lei revelaram a cidade de Belém como a terra natalícia do Messias. Diz o Profeta: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel.” O codinome “efrata” associado a Belém, de acordo com os estudiosos, é uma referência aos descendentes de Efraim (os efratas), que teriam sido os fundadores da cidade. Efrata era também o nome da esposa de Caleb, um dos líderes do povo de Israel, juntamente com Josué, após a morte de Moisés. De acordo com a tradição judaica, Efrata seria um nome correspondente a Míriam, que é o nome original de Maria, a mãe de Jesus. Gramaticalmente, “efrata” é também um substantivo que significa “terra frutífera”, terra boa de plantar. Por sua vez, a palavra Belém (em hebraico, bait +lehem=casa do pão) indica um local de grande fartura, onde existe alimento em abundância. Verifica-se, desse modo, um grande acúmulo de significados, cada qual o mais interessante, associado à cidade de Belém, os quais a qualificam como um local privilegiado. Daí porque o Profeta diz que, embora pequena cidade, ela não é menos importante do que as maiores, porque dela sairá aquele que irá governar Israel. Vê-se, com isso, que o evangelista Mateus era também um profundo conhecedor das antigas escrituras.

Meus amigos, no meio de tantas informações, nem sempre coerentes, o que nos interessa é destacar o símbolo da universalidade da mensagem cristã, quando os tempos se completaram e o Verbo se encarnou.

Cordial abraço a todos e votos de Feliz Ano Novo.


domingo, 28 de dezembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA - 28.12.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – 28.12.2014

Caros confrades,

Neste domingo que sucede o Natal, a liturgia celebra a festa da Sagrada Família de Nazaré, exemplo de fidelidade à sua religião judaica. Convém não esquecer que Jesus era judeu, Maria era judia e José era judeu também. Certa vez, assistindo aulas de hebraico, um aluno perguntou à professora quem é Jesus para os judeus. Resposta dela: Jesus é um judeu famoso, como existiram vários outros. Aí termina o significado da figura de Jesus para a religião judaica. Porém, no evangelho de hoje, lemos o relato da profecia de Simeão, ao ver aquele menino de poucos dias, que chegava com seus pais ao templo de Jerusalém, para a consagração, conforme estava previsto na lei de Moisés. Simeão viu naquele menino judeu o Messias prometido, coisa que os demais judeus de ontem e de hoje ainda não perceberam.

Temos na primeira leitura, retirada do livro do Eclesiástico (que em hebraico, diz-se Ben Sirac), as lições da tradição judaica sobre o respeito que os membros da família devem ter entre si: os filhos para com os pais, estes para com os filhos e o casal, um em relação ao outro: “Quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros. Quem honra o seu pai, terá alegria com seus próprios filhos; e, no dia em que orar, será atendido. Quem respeita o seu pai, terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe.” (Eclo 3, 5-7) De acordo com os estudiosos da Bíblia, este livro foi escrito aproximadamente 200 anos antes de Cristo, ou seja, mais de dois mil anos atrás e a sabedoria do povo de Deus do antigo testamento continua plenamente atual e aplicável aos nossos dias. Este texto era lido nos templos cristãos desde os princípios do cristianismo, embora não fosse considerado sagrado para os judeus. Estes o consideravam mais um livro histórico e referencial da sabedoria dos antigos, mas não exatamente “palavra de Deus”, talvez por seu conteúdo acentuadamente humanístico. Na nomenclatura de hoje, seria considerado um livro de conteúdo psicológico, de formação humana para a juventude, mas os cristãos sempre o consideraram um livro inspirado e o seu conteúdo, que atravessou inúmeras gerações e permanece como roteiro de vida plena e justa, é merecedor do nosso respeito e digno de ser posto em prática. Sobretudo o conselho referente à senectude dos pais: “Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele.” Esta recomendação é muito oportuna nos dias de hoje, quando se veem pessoas deixando seus pais ou parentes idosos em asilos, porque não querem ter trabalho com essas pessoas, principalmente se são acometidas com algum tipo de demência. E continua o sábio judeu: “a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados.” Na época em que esse texto foi escrito, talvez ainda não existissem as morbidades da vida contemporânea, porque naquele tempo poucas pessoas tinham vida longa, diferentemente de hoje, quando a população envelhecida cresce até mais do que o número de nascimentos. O sábio conselho do Eclesiástico merece ser lido e meditado por todos nós, especialmente por nossos jovens.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Colossenses (Cl 3, 12-21), o apóstolo exorta os cristãos daquela cidade sobre os deveres recíprocos dos familiares de perdão, de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, “suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro.” E em relação ao casal, ele traz conselhos bem específicos: “Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas.” E complementa: “Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isso é bom e correto no Senhor.” Ora, meus amigos, temos aqui uma nova manifestação da sabedoria judaica nos princípios do cristianismo. Embora escrevendo para as comunidades de língua grega, no entanto, Paulo era judeu, tinha formação judaica e o seu aprendizado primeiro se deu nas sinagogas. Convertido ao cristianismo, obviamente, ele permaneceu com o modo de pensar do judaísmo, porque essa era a sua formação. Portanto, os conselhos que Paulo dá aos cristãos de Colossos são inspirados, certamente, na mesma sabedoria escrita por Ben Sirac, ou seja, na milenar experiência do povo judeu, que aprendeu esse modo de ser a partir das orientações dos seus profetas, que por sua vez as recebiam de Javeh. Eu estive lendo uns artigos de um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, nos quais ele defende essa idéia das origens judaicas do cristianismo, que foi posteriormente influenciado pela cultura grega, e seus estudos me parecem bastante coerentes. Com efeito, na época de Paulo, essa helenização do cristianismo ainda não ocorrera, Paulo tinha o pensamento marcadamente judaico, embora inspirado pela fé cristã. Foi a partir de Santo Agostinho, no século IV, e depois com Santo Tomás, no século XIII, que se fez a opção pela matriz filosófica grega e isso trouxe inúmeras influências nem sempre benignas para o desenvolvimento da teologia cristã. Nos dias de hoje, há todo um esforço de vários estudiosos para recuperarem esse modelo primitivo da fé cristã anterior à influência grega, como ocorre desde os primórdios entre as igrejas católicas orientais. Nestas, a influência grega não se fez presente, de modo que a tendência é forte no sentido da unificação dessas comunidades, um esforço que teve início ainda com o Papa Paulo VI, que fez a primeira visita a um Patriarca oriental, após quase mil anos de cisão entre as igrejas. Quanto mais a teologia católica ocidental for capaz de se libertar das categorias do pensamento grego, tanto mais a aproximação entre as igrejas ocidental e oriental se fará sentir.

Na leitura do evangelho de Lucas (Lc 2, 22-40), encontramos o emocionante relato da obediência de José e Maria à lei mosaica. “Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor.” De acordo com a lei de Moisés, a mulher ficava impura durante o período da menstruação e também durante o puerpério (aquilo que na nossa cultura chamamos de resguardo). Nesses dias, a mulher não podia ir ao templo e devia evitar ter contato com outras pessoas, porque que dela se aproximasse, também ficaria impuro. Quanta discriminação cultural com as nossas benditas mulheres e quanto isso ainda pesa sobre a nossa cultura. Pois bem. Como bons judeus, José e Maria foram levar o filho ao templo, para ser consagrado. E também como mandava a lei, para que o filho não tivesse de permanecer no templo, pagava-se uma “taxa”, de acordo com as posses do casal: os ricos ofereciam bois; os médios ofereciam carneiros; os pobres ofereciam pombos. Daí o relato de Lucas: “Foram também oferecer o sacrifício - um par de rolas ou dois pombinhos - como está ordenado na Lei do Senhor.” A mão divina colocou o intelectual Lucas no lugar certo, na época certa. Foi graças à sua presença constante na casa de Maria que ele conseguiu ouvir dela diversos depoimentos que enriquecem suas narrativas. Sem isso, nós não saberíamos de muitos detalhes que envolvem a vida de Cristo. Graças a ele e ao seu estilo narrativo, temos uma leitura emocionante desses fatos. A riqueza de detalhes da profecia de Simeão somente Lucas nos traz. José e Maria ficaram boquiabertos com a reação daquele homem de Deus. Eles chegaram ao templo de uma forma pacata e humilde, como faziam as pessoas da sua condição, e teriam certamente passado despercebidos. Mas chegou aquele homem desconhecido e reconheceu naquele menino judeu o Messias prometido pelos profetas. É óbvio que José e Maria sabiam da origem divina do Menino, mas não contaram nada para ninguém, como é que aquele homem sabia? Admirados, ouviram-no dizer: “meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos.” Essa foi a primeira declaração pública acerca da divindade de Jesus e foi feita por uma pessoa do povo, inspirada pelo espírito de Deus. Simeão não era sacerdote, não era chefe religioso, era um homem justo e temente a Deus. Pena que os líderes judaicos daquele tempo não tiveram a mesma sensibilidade e a mesma humildade de Simeão. E ele foi ainda mais além e mais veraz, quando profetizou em relação a Maria: “Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma.” Tivemos aí a proclamação de Nossa Senhora das Dores, antecipada pelo velho judeu. Maria, que já tinha compreendido isso desde o evento da anunciação pelo anjo Gabriel, ouviu aquilo e fortificou a sua fé. Esse sofrimento fazia parte do seu “sim”, ela sabia desde o início do quanto teria de suportar no cumprimento daquela sublime missão.

O compromisso com a lei divina e a fidelidade a ela é a grande lição que devemos aprender com a Sagrada Família de Nazaré. Que o seu exemplo continue inspirando as nossas famílias no seguimento dos ensinamentos cristãos.

Cordial abraço a todos e votos de Feliz Ano Novo.

Antonio Carlos

domingo, 21 de dezembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 4º DOMINGO DO ADVENTO - O FILHO DE DAVI - 21.12.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 4º DOMINGO DO ADVENTO – O FILHO DE DAVI – 21.12.2014

Caros Confrades,

Neste quarto domingo do Advento, destaco a referência que as leituras litúrgicas fazem de Jesus como filho de Davi. O conhecido refrão cantado no domingo dos ramos exalta o filho de Davi, em diversas outras passagens esta mesma ligação de Jesus com Davi é repetida. Os numerólogos bíblicos fizeram as contas de que desde Abraão até Davi contam-se 14 gerações; de Davi ao cativeiro da Babilônia são outras 14 gerações e do cativeiro da Babilônia até o nascimento de Jesus são mais 14 gerações. (Ver evangelho de Mateus, 1, 1-17). O rei Davi representa o auge do desenvolvimento material do povo hebreu; o cativeiro da Babilônia representa o momento da queda, o auge da destruição; o nascimento de Jesus representa, nessa linha de raciocínio, o apogeu da promessa de Javé. Davi e Jesus significam, portanto, os pontos mais significativos da história do povo de Deus, daí a importância de se demonstrar que Jesus era um descendente de Davi.

Na primeira leitura, do segundo livro de Samuel (2Sm 7, 1-16), lemos a profecia de Natan acerca do filho de Davi, que reinaria para sempre, sendo confirmado na realeza. Historicamente, este filho de Davi foi Salomão, responsável pela construção do templo e famoso por sua legendária sabedoria. No sentido transistórico, aproveitando o cálculo genealógico de Jesus explicado por Mateus, o filho de Davi confirmado perenemente na realeza é Jesus Cristo. A insistência do evangelista em ressaltar a descendência de Jesus da linhagem de Davi tem por objetivo interligar o nascimento de Cristo com a promessa de Javeh aos antigos patriarcas, fundamentando assim a fé no Messias salvador prometido pelas escrituras. O rei Davi queria construir uma casa digna para o Senhor, um templo suntuoso, mais do que o palácio onde ele, o rei, morava. No entanto, através do profeta Natan, Javeh fez ver a Davi que essa honra não seria dele, mas de um filho dele. Então, o filho próximo dele, Salomão, edificou o famoso templo, que se tornou referência para muitas gerações, alcançando até o tempo de Jesus. E o filho longínquo de Davi, Jesus, erigiu a sua igreja como templo vivo, não mais de tijolo e pedras, mas presente no coração dos que nEle creem. Quando chegou a plenitude dos tempos, a promessa de Javé foi cumprida também de forma plena.

Na segunda leitura, retirada da carta aos Romanos (Rm 16, 25-27), o apóstolo Paulo enfatiza esse mistério, que ficara escondido ao longo dos tempos, mas que então fora revelado, por meio de Jesus Cristo. “Este mistério foi manifestado e, mediante as Escrituras proféticas, conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé.” O mistério referido por Paulo é exatamente este do cumprimento definitivo da antiga promessa, através de um descendente da linhagem de Davi. Diferentemente do próprio rei Davi, cujo poder se dirigia e se limitava ao povo hebreu, o poder deste filho de Davi se estende a todas as nações. Portanto, o mistério que Cristo veio revelar foi de que aquela promessa feita por Javeh aos antigos patriarcas não tinha seus limites atrelados a um determinado local geográfico nem a uma etnia específica, mas todos os povos são os destinatários dela, o seu alcance se estende a todas as nações.

O evangelho de Lucas (Lc 1, 26-38) é também enfático em afirmar que José era descendente de Davi. Não podendo afirmar que José gerou Jesus, como está escrito nas genealogias anteriores, o evangelista refere que José era da família de Davi e era esposo de Maria, a mãe de Jesus. “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim' ” (Lc 1, 31). Observemos que José era pai adotivo de Jesus, porém mesmo sem ser filho biológico, Jesus era herdeiro legal de José, portanto, herdeiro da tradição de Davi. A escritura não menciona que Maria era descendente de Davi. Existe um testemunho de Santo Irineu, que viveu nos primeiros séculos do cristianismo, de que Maria também era da linhagem de Davi, mas isso é atestado apenas pela tradição, não consta nos relatos dos evangelistas. Talvez fosse até mais fácil de fundamentar a descendência de Jesus em relação a Davi através da análise de genealogia de Maria. Contudo, naquela época em que prevalecia a linhagem masculina, para evitar quaisquer dúvidas acerca da validade da profecia, se por acaso ficasse demonstrada apenas a descendência pelo lado feminino, os evangelistas destacam sempre a descendência pelo lado de José, deixando de considerar a genealogia de Jesus pelo lado de Maria. Daí porque tal referência só está presente na tradição.

Interessante nesse contexto é observar a forma como a revelação divina foi dada a Maria, diferente do modo tradicional em que isso acontecia. De acordo com a tradição judaica, as mensagens proféticas eram reveladas por Javeh aos seus escolhidos através de sonhos, portanto, quando eles não estavam despertos. Porém, no caso de Maria, ela não apenas estava desperta, mas chegou a dialogar com o anjo e expor suas dúvidas, ao que o anjo respondeu e a tranquilizou. O caso do sonho de José é um desses exemplos de revelação recebida em sonho. Outro caso também relacionado com José é aquele episódio em que ele recebeu uma “ordem” de fugir com Maria e o menino para o Egito, até passar a perseguição de Herodes, através de outro sonho. Com base nessa análise, pode-se afirmar que a revelação a Maria teve uma característica totalmente peculiar, fora do padrão em que isso costumava acontecer. Certamente, porque o evento que esta revelação abordava não era apenas uma intervenção de Javeh na história dos homens, mas a autêntica redenção prometida, a intervenção última e definitiva. Com bastante probabilidade, o diálogo de Maria com o anjo foi bem mais demorado e detalhado do que a narração bíblica apresenta. Maria era muito jovem e estava no início de sua vida adulta, ainda não começara sua coabitação com José. Era necessário que ela ficasse bastante segura do que estava por acontecer, para que ela finalmente concordasse. E obviamente a gestação não teria iniciado, caso ela tivesse recusado. Daí a importância do “sim” de Maria, porque naquele momento, ela também deve ter antevisto os grandes problemas e as grandes dores que iria suportar futuramente. Isso também deve ter sido objeto do diálogo com o anjo. Por fim, ela aquiesceu: faça-se conforme a tua palavra. E o anjo retirou-se.

Meus amigos, a concordância de Maria é um ato de generosidade, de generosa grandeza. A missão que cada um de nós recebe nessa vida, ou seja, aquilo que outra passagem do evangelho chama com o nome de “talentos”, é um desafio que depende da nossa generosidade. Generosidade para aceitar e disponibilidade para executar. Do folheto da novena do Natal, que celebramos hoje em família, destaco o seguinte trecho, que achei bastante significativo: “A generosidade é a capacidade de dar com desapego, onde o amor ganha do egoísmo. É na entrega generosa que fazemos de nós mesmos que se mostra a profundidade de um amor que não fica somente nas palavras. É isso que celebramos no natal: o gesto generoso de Maria em aceitar ser a mãe de Deus e o gesto generoso de Deus que se dá a si mesmo, para a redenção da humanidade.” A generosidade é o antídoto do egoísmo, é uma atitude por demais sugestiva para os nossos tempos, em que o individualismo e o isolamento são uma marca característica da nossa sociedade, sobretudo com a massificação do uso da tecnologia da comunicação. Contraditoriamente, aquilo que deveria nos unir mais é justamente aquilo que contribui para nos afastar mais uns dos outros. A lição da generosidade de Maria continua, portanto, eloquente e atual, merecendo fazer parte das nossas reflexões e dos propósitos de melhoria de vida, que todos nós devemos fazer nesse tempo de preparação para o nascimento de Jesus.

Ao ensejo, envio a todos sinceros votos de Feliz Natal.


domingo, 14 de dezembro de 2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 3º DOMINGO DO ADVENTO - O ÚLTIMO PROFETA - 14.12.2014

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 3º DOMINGO DO ADVENTO – O ÚLTIMO PROFETA – 14.12.2014

Caros Confrades,

Na liturgia deste 3º domingo do advento, o tema predominante é o refrão “alegrai-vos, Ele está bem perto”, sendo este o domingo da alegria. No evangelho, destaca-se a questão da identidade de João Batista, questionado pelos fariseus: quem és tu, afinal? E ele, humildemente, nega ser o Messias ou um profeta, autodefinindo-se como “a voz que clama no deserto”, porém, Jesus irá dizer dele, em outra ocasião (Mt 11,11) que João Batista é muito mais do que um profeta, dentre os nascidos, ninguém é maior do que ele. Com efeito, João Batista foi o último profeta, aquele que anunciou que o Messias já está no meio de nós.

A primeira leitura, do profeta Isaias (61, 1-11 – deuteroIsaías), contém aquela passagem que está repetida em Lucas (4, 18), quando Jesus fez a leitura na sinagoga e se autodeclarou para os presentes: o profeta falava a meu respeito. O trecho é o seguinte: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o tempo da graça do Senhor.” (Is 61, 1) Quando Jesus foi convidado para fazer a leitura na sinagoga, onde ele comparecia como todos os bons judeus, Ele escolheu propositalmente esse trecho de Isaías e, ao final, completou: hoje se cumpriu aquilo que foi dito pelo profeta. Jesus havia há pouco iniciado suas pregações e aquela era a primeira vez que ele ia a Nazaré, sua terra natal, após o início de sua vida pública. Ao proclamar-se abertamente que Ele era o ungido, os nazareenses presentes na sinagoga ficaram se entreolhando e se perguntando: mas, esse não é o filho de José? Não foi ele que vimos nascer e crescer aqui? (Lc 4, 22) Ou seja, entre surpresos e incrédulos, os habitantes de Nazaré não souberam reconhecer naquele “filho de José” o Messias, filho de Deus, fato que levou Jesus a dizer: nenhum profeta é bem recebido na sua pátria (Lc 4, 23), o que deixou aqueles seus conterrâneos irritados, a ponto de quererem lançá-lo do precipício. A escolha desse trecho para a leitura demonstra o quanto Jesus era conhecedor das escrituras, em especial, do profeta Isaías, o seu livro predileto.

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Tessalonicenses (1Ts 5, 16-24), o Apóstolo exorta os cristãos daquela cidade a estarem preparados para a vinda de Cristo, afastando-se de toda maldade. Estai sempre alegres e rezai sem cessar, recomendava Paulo. O conselho dele acerca da alegria na espera do Senhor está em sintonia com o tema deste terceiro domingo: a alegria da espera. No sermão de hoje para os peregrinos presentes no Vaticano, o Papa assim comentou essa carta de Paulo: “Neste terceiro domingo a liturgia nos propõe outra atitude interior para viver a espera do Senhor, ou seja, alegria. Mais uma vez São Paulo na liturgia de hoje nos indica as condições para ser "missionários da alegria": orar sem cessar, sempre dar graças a Deus, seguir o seu Espírito, buscar o bem e evitar o mal. Nunca se ouviu falar de um santo triste ou de uma santa com cara fúnebre, nunca se ouviu, seria uma contradição.” (cf boletim do site www.zenit.org) Essa última afirmação do Papa nos faz lembrar uma frase que o Frei Higino costumava dizer: um frade triste é um triste frade. São Francisco era o protagonista da alegria, isso está documentado nos escritos dos seus contemporâneos. A vocação cristã não é um convite à tristeza e ao isolamento, pelo contrário, é como disse o Papa, uma convocação para sermos missionários da alegria. Em outro trecho do seu sermão de hoje, o Papa diz assim: “Não é só uma alegria esperada ou deslocada para o paraíso, ‘aqui na terra estamos tristes, mas no paraíso estaremos alegres’, não, não é isso. Mas, de uma alegria já real e que já é possível sentir agora, porque o mesmo Jesus é nossa alegria, é nossa casa.” O paraíso não é uma situação futura, mas uma realidade que já se faz presente. Nesse contexto, aquela narração bíblica da “queda” de Adão e Eva deixa de ter um sentido de perda para adquirir um significado de conquista. Nós não fomos expulsos do paraíso, nós estamos a caminho de lá e a simples expectativa da chegada já nos deixa alegres. O reino de Deus, que Jesus veio anunciar, é uma experiência antecipada, na vida terrena, daquilo que nos está prometido para uma vida futura. Ou seja, nós não precisamos esperar que isso aconteça algum dia, pois pelo batismo, nós fomos colocados no umbral do paraíso e já podemos antever o que ocorre naquela dimensão transcendental.

No evangelho de João (Jo 1, 6-28), lemos aquele episódio em que os fariseus vão até João Batista a fim de indagarem sobre a sua identidade. A fama de João Batista se espalhara na região e os líderes judeus queriam certificar-se de quem era ele, para isso, mandarem mensageiros a indagar-lhe. Quem és, afinal, para que possamos informar os que nos enviaram? João Batista, então, serviu-se das palavras do profeta Isaías para falar de si próprio: eu sou a voz que clama no deserto – aplainai os caminhos do Senhor. E ao afirmar que ele não era o Messias, acrescentou que “no meio de vós, está aquele que virá depois de mim”, isto é, eu não sou o Messias, mas Ele já está no meio de vós. João tinha consciência plena da sua missão preparatória, conforme ele mesmo proclamou em outra ocasião: é preciso que Ele cresça e eu desapareça. (Jo 3, 30) Ou como ele diz no evangelho de hoje: eu não sou digno nem de desamarrar as correias das Suas sandálias. (Jo 1, 27)

Os fariseus estranharam porque João batizava sem ser um profeta. Aqui, podemos considerar dois aspectos. Primeiro, Jesus mesmo disse que João era mais do que um profeta. Etimologicamente, a palavra “profeta” deriva do grego pro+fainô, isto é, falar por alguém, falar em nome de alguém. Essa palavra surgiu, portanto, com a tradução da escritura em hebraico para a língua grega, conhecida como a tradução dos setenta ou septuaginta. A palavra correspondente, em hebraico, é NAVI (ou NABI), que significa ter uma antevisão dos fatos, o que ocorria geralmente com as manifestações de Javeh em sonhos para certas pessoas. Então, João Batista era mais do que isso, porque ele não falava em nome de alguém, mas em nome próprio, porque ele foi a primeira testemunha da chegada do Messias; e ainda porque ele não recebera nenhuma antevisão através de sonhos, como acontecera com os profetas anteriores. Os teólogos consideram João Batista o último profeta do Antigo Testamento, e de fato, ele foi um profeta especial, um profeta-testemunha, enquanto os outros eram apenas porta-vozes. A maior profecia de João Batista, na verdade, a sua maior revelação, foi a de dizer para aqueles que iam ouvi-lo na margem do Jordão, onde ele batizava: o Messias já está no meio de vocês.

Um outro fato a merecer destaque era o batismo trazido por João, donde lhe advém o cognome de Batista. Os outros profetas não batizavam. Os judeus ficaram intrigados com isso. Como é que ele batiza e nem profeta ele é. De fato, os judeus praticavam um ritual (tevilah) de purificação, que era adotado sobretudo pelas mulheres, após o ciclo menstrual ou após o parto, para poderem novamente frequentar a sinagoga. João utiliza esse ritual, dando a ele um significado novo, a tevilah de arrependimento, a mudança de vida, preparando o caminho para a chegada do Messias. O ritual feito por João era praticado através da imersão do corpo todo no rio, significando que ao emergir, o fiel estaria renascendo, abandonando a sua vida de pecados para reviver purificado. Jesus também se submeteu a esse ritual, conforme sabemos pelas narrativas evangélicas, embora Ele não necessitasse de arrependimento. Mas o fato de Jesus ter-se associado a esse ritual é uma amostra de que Ele estava aprovando aquilo e reconhecendo o valor daquele rito simbólico. Com a tradução pra o grego, a palavra hebraica tevilah passou para baptizô (ou baptismô), que significa também lavar, derramar, aspergir, tendo essa palavra grega assumido todos os significados da tevilah hebraica, inclusive as abluções que os judeus faziam (lavagem das mãos) antes das refeições. João deu um significado mais amplo e profundo para a tevilah (ou baptismô), que deixou de ser um ritual simples e repetitivo para tornar-se uma atitude única de mudança de comportamento, de assunção de um novo modo de vida, de maneira que não haveria mais necessidade de ser repetido. Aqui está mais uma razão para ele ser considerado o último profeta e “mais do que um profeta”, porque depois dele, não haveria mais outro, e sim a manifestação do próprio Deus, em Jesus Cristo.

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