domingo, 28 de outubro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 30º DOMINGO COMUM - 28.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 30º DOMINGO COMUM – IGREJA EM SAÍDA – 28.10.2018

Caros Leitores,

Na liturgia deste 30º domingo comum, a leitura do profeta Jeremias faz alusão ao “resto de Israel”, uma expressão também usada pelo profeta Isaías (10, 20), referindo-se aos israelitas que foram libertados do cativeiro da Babilônia e haviam de retornar a Jerusalém. O “resto” significa o povo sobrevivente, aqueles que foram submetidos ao jugo do inimigo e agora retornam à liberdade. Num certo sentido, todos nós, que caminhamos no meio das tribulações da vida, fazemos parte deste “resto” do povo de Deus, a caminho da casa do Pai. O Papa Francisco tem enfatizado, em seus discursos, a imagem da Igreja “em saída”, ou seja, em constante atividade de evangelização, contrastando com a imagem tradicional da Igreja burocrática, embarreirada pelos seus muros e acomodada em seu lugar de conforto. O seguimento de Cristo exige presença e ação no mundo, para que o cristão seja sempre fermento, sal e luz.

A palavra inspirada do profeta Jeremias é bastante significativa tanto no contexto histórico do povo hebreu, quanto no caminhar geral de toda a humanidade. Diz ele: “Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam ” (Jr 31, 8). Num primeiro momento, a profecia se dirige aos cativos da Babilônia, mas no momento seguinte, se refere a todos os crentes localizados em todos os confins da terra e esse grupo inclui pessoas sadias e pessoas em situações especiais, porque as vicissitudes da existência afetam as pessoas de diversas maneiras. Mas essas provações não devem abalar a fé do cristão, pois mesmo estando cego, aleijado, parido, necessitado de cuidados, todos serão conduzidos por um caminho reto para a terra prometida. A descrição do profeta Isaías sobre o “resto de Israel” é também bastante ilustrativa: “Um resto voltará, um resto de Jacó, para o Deus forte. Ainda que teu povo fosse inumerável como a areia do mar, dele só voltará um resto. A destruição está resolvida, a justiça vai tirar a desforra." (Is 10,20) . Isaías é mais enfático em relação àqueles que não aceitarão a salvação oferecida por Javeh. Embora, em tese, toda a humanidade seja convidada à salvação, no entanto, nem todos atenderão e assim a redenção trazida por Cristo não alcançará a todos, mas apenas ao “resto”, aos sobreviventes da tentação. E por que isso ocorrerá? Porque Deus não interfere na liberdade das pessoas, Ele oferece a salvação, mas espera que haja adesão da vontade, espera que o crente exercite a sua fé na Sua palavra.

A segunda leitura, da carta aos Hebreus, faz referência ao sacramento da salvação, que é mediado pelo sumo sacerdote. Trata-se de uma alusão indireta à comunidade eclesial, onde o crente pratica a sua fé e recebe os meios para superar os desafios que a vida cotidiana interpõe no nosso meio. O sacrifício expiatório de Cristo é rememorado pelo sumo sacerdote. Ele é retirado do meio do povo e, por isso, conhece as dificuldades e os entraves do existir temporal, portanto, sabe compreender as fraquezas dos irmãos, porque ele é também afetado por essa fraqueza. Então, ao oferecer o sacrifício da cruz, ele reza tanto pelos pecados dos outros, quanto por seus próprios pecados. Cristo encarregou seus apóstolos, e esses os seus sucessores, para continuarem a guiar o “resto” do povo pelos caminhos do mundo, mostrando onde ficam as torrentes de água e ensinando o caminho reto que conduz ao destino esperado. A carta aos Hebreus faz referência ao sacerdócio de Melquisedec, personagem que é interpretado como sendo o precursor do sacerdócio de Cristo e, por intermédio de Cristo, esse mesmo sacerdócio se reproduz nos presbíteros ordenados. Aquele refrão que antigamente era cantado nas missas solenes de ordenação é bastante forte e emblemático: tu es sacerdos in aeternum, secundum ordinem Melchisedech. O sacerdote é, desse modo, aquele que deve liderar o povo sobrevivente das tormentas do cotidiano, o “resto” da humanidade salva por Cristo, aqueles “144 mil assinalados”, de que fala o Apocalipse. Daí decorre a necessidade de que o fiel se integre na comunidade eclesial, porque essa condução pelo caminho reto é obra coletiva, não se resolve individualmente.

Na leitura do evangelho de Marcos, temos o conhecido episódio da cura do cego de Jericó (10, 46-52), personagem este que simboliza a multidão referida pelo profeta Jeremias, na primeira leitura. Entre os sobreviventes, há cegos, aleijados, gestantes e parturientes. A liturgia coloca para nossa reflexão a figura do cego, simbolizando nele todos aqueles que estão expostos aos perigos e às tentações do mundo infiel, aos estratagemas da ideologia do poder e do dinheiro, às seduções da corrupção e da injustiça, ou seja, todos nós. O cego de Jericó é o protótipo do cristão santo e pecador, crente e duvidoso, sadio, mas nem tanto, pois que precisa que Jesus lhe abra os olhos, para que possa ver melhor o mundo onde habita e progredir na fidelidade à mensagem cristã.

Vejamos uma breve notícia de cunho histórico e geográfico. Jericó é uma das cidades mais citadas nos evangelhos, porque era já naquela época uma das cidades mais importantes da Palestina. Sua conquista pelos hebreus, sob o comando de Josué, quando estavam retornando do Egito, foi uma das mais memoráveis (quando as muralhas caíram), então esta cidade era um ícone da nacionalidade hebraica, um lugar muito visitado. Geograficamente, situa-se a 27 km de Jerusalém e a 10 km do Mar Morto, sendo considerada pelos historiadores uma das cidades mais antigas do mundo, pois há evidências de ter moradias lá desde pelo menos 9.000 anos antes de Cristo. Este fato fazia com que muitas pessoas passassem diariamente por Jericó e, com isso, havia muitos pedintes na entrada da cidade, como ainda hoje se vê nas nossas cidades que são alvo romarias religiosas.

Pois bem. Jesus passava por Jericó, a caminho de Jerusalém, onde o desfecho da sua vida iria acontecer. Na entrada da cidade, havia um grupo de cegos pedindo esmolas aos viajantes. O Padre Uchoa, que foi meu professor de Bíblia, comentava que havia verdadeiros bandos de pedintes nas entradas das grandes cidades, explorando a caridade pública, além de vendedores de quinquilharias e souvenirs diversos, tal como vemos nas cidades turísticas, em geral. Em Jericó, devia ser algo assemelhado. Ao saber que Jesus estava passando, um cego de nome Bartimeu começou a gritar: “Filho de Davi, tem piedade de mim”. De tanto gritar e insistir, Jesus mandou chamá-lo. Diz o evangelista que ele deu um pulo, largou o manto onde recolhia as moedas que lhe jogavam como esmola e foi até onde Jesus se encontrava. “Que queres que eu te faça?”, perguntou Jesus. (Mc 10, 51) E ele respondeu: Mestre, eu quero ver. E Jesus disse: Assim será, a tua fé te curou. E ele passou a enxergar e saiu acompanhando Jesus. Ao sair do comodismo do seu lugar de pedinte, o cego Bartimeu assumiu uma nova realidade de vida, iniciou um novo caminho, armou-se de disposição para seguir o Mestre.

Neste diálogo de Jesus com o cego Bartimeu, podemos ver um exemplo de que o milagre divino não se opera sem a colaboração do beneficiário. Por certo, junto com Bartimeu, havia outros cegos, aleijados e necessitados, porém não foram beneficiados com o fato milagroso, porque não creram. Jesus fez questão de dizer a ele que foi “a tua fé que te curou”. O poder divino de Jesus não agiria na sua deficiência, se não houvesse a sua cooperação com a fé, a sua disponibilidade para aceitar, a sua coragem para assumir aquela nova situação. É óbvio que Jesus, pelo seu conhecimento divino, sabia quem estava a gritar por Ele, sabia que era uma pessoa das mais pobres e excluídas da sociedade. E também pela sua sabedoria divina, Jesus conhecia a intensidade da fé daquele mendigo, sabia o que estava subentendido naquela prece insistente: “Tem piedade de mim”. É como se ele dissesse: com o teu poder, tira-me dessa situação. E Jesus retribuiu a sua oração com o milagre da cura, mas foi logo avisando: foi a tua fé que te curou, ou seja, persevera com esta fé, ela te renderá a salvação, mantém a fé operante e firme, pela fé tu és incluído no rol dos sobreviventes. Inspirada neste e noutros exemplos similares é que a teologia da graça divina ensina que, embora Deus dê a todos a graça, esta somente age no coração dos que a aceitam e a ela aderem. Ou por outras palavras, o efeito do poder divino na nossa vida será proporcional à intensidade da nossa fé.

Por isso, podemos dizer que, para o milagre acontecer nas nossas vidas, embora o poder de Deus seja pleno e absoluto, nossa participação através da fé é indispensável, porque o poder de Deus não se sobrepõe à nossa vontade, e a fé é a manifestação mais completa do ato da vontade humana.

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sábado, 20 de outubro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 29º DOMINGO COMUM - 21.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 29º DOMINGO COMUM – A RECOMPENSA – 21.10.2018

Caros Leitores,

Neste 29º domingo comum, último domingo do mês de outubro, a liturgia celebra o Dia Mundial das Missões, reverenciando todos aqueles que, no mundo tudo, levam a palavra de Cristo aos irmãos mais distantes, especialmente para aqueles que ainda não conhecem a Redenção. Todos nós somos convidados a ser missionários e, pelo batismo, fomos ungidos para esta missão. Todavia, é uma missão a ser exercida com humildade e na caridade, por isso, ninguém deve gloriar-se com os resultados ou entristecer-se com os eventuais fracassos, porque nessa tarefa interessa apenas a fidelidade ao mandamento de Jesus. Nesse contexto, a liturgia nos põe como tema de reflexão o diálogo de Tiago e João com Jesus, sobre a recompensa pela opção que fizeram, encomendando desde já um “lugar” que cada um queria ter no reino de Deus. Foi quando Jesus disse que será melhor recompensado aquele que melhor servir.

Inicialmente, faço uma observação exegética sobre o trecho do evangelho lido neste domingo, retirado de Marcos 10, 35-45. Fazendo um estudo comparativo entre os evangelhos, podemos cotejar essa passagem com o texto análogo de Mateus 20, 20, onde é narrado o mesmo episódio. No evangelho da liturgia de hoje (Mc 10, 35), lemos: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram:”. No evangelho de Mateus (20, 20), lemos: “Então, aproximou-se d'Ele a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo algo a Ele.” A análise desses dois pequenos trechos nos mostra que devemos ter muito cuidado com a leitura fundamentalista da Sagrada Escritura, porque os textos às vezes se mostram incoerentes. Afinal, quem foi fazer o pedido a Jesus: os filhos de Zebedeu sozinhos ou acompanhados da mãe deles? Por que Marcos não menciona a mãe dos apóstolos, enquanto Mateus a inclui? Embora não seja esse um detalhe significativo no contexto da mensagem de Jesus, no entanto, é por causa de detalhes como esse que algumas pessoas dizem que a Bíblia é cheia de imprecisões e mentiras.

Os biblistas explicam essa divergência dizendo que os textos de Marcos e de Mateus possuem origens geográficas e históricas diferentes. Os estudos históricos confirmam que os ensinamentos de Jesus, durante vários anos, existiam nas comunidades apenas em forma oral, passando a ser escritos somente uns 20 a 30 anos após a morte d'Ele. Havia muitos textos esparsos e os evangelistas os colheram e, com base neles, compuseram seus evangelhos, procurando observar a ordem cronológica dos acontecimentos. Podemos verificar que, também na Bíblia, funciona aquela máxima popular que diz: quem conta um conto aumenta um ponto. Desse modo, embora o evangelho de Mateus venha em primeiro lugar no cânon bíblico, contudo o texto de Marcos é mais antigo. Ainda sobre o evangelho de Mateus suscita polêmica entre os estudiosos, inclusive dúvidas sobre a sua autoria. O seu texto original foi escrito em aramaico e só depois traduzido para o grego, enquanto os demais foram escritos originalmente em grego. Não vou adentrar aqui na polêmica acerca do texto desse evangelho que, segundo os estudiosos, devia ter como título “genealogia de Jesus”, escrito por um autor desconhecido. Quem tiver interesse sobre o assunto, procure livros específicos, que abordam a questão com profundidade.

Pois bem, passemos agora ao tema da leitura, o pedido que os filhos de Zebedeu fizeram a Jesus: que um deles tivesse assento à direita e outro à esquerda, no reino da Sua glória. Jesus ficou intrigado com aquilo e falou: vocês têm certeza do que estão pedindo? Vocês estão dispostos a beber o mesmo cálice que eu? Eles confirmaram e, por fim, Jesus arrematou: 'Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado'. (Mc 10, 39) E diz mais o evangelista que os outros dez ficaram indignados quando souberam do pedido dos dois irmãos, provavelmente, eles também queriam pedir aquilo, mas não tiveram coragem. Ademais, por que razão haveriam aqueles dois de ser privilegiados com um lugar de honra? Foi quando Jesus os repreendeu, dizendo que a autoridade cristã não é símbolo de honraria, mas de serviço. (Mc 10, 43)

Esse diálogo de Cristo com os discípulos nos deixa algumas lições importantes. Primeiro: será que nós sabemos pedir? Quando oramos, quando fazemos nossos pedidos a Deus, que tipo de oração fazemos? Será que caímos no mesmo disparate dos filhos de Zebedeu, reprovado por Jesus? Pois é, muitas vezes, a nossa oração contém uma dose significativa de egoísmo. Pedimos preferencialmente algo bom para cada um de nós, para os nossos parentes e amigos, esquecendo que o próprio Cristo ensinou que devemos buscar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e que o resto nos será dado por acréscimo. Em geral, as orações dirigidas a Deus são pedidos de favorecimentos, de bens materiais, de bem-estar, de uma conquista profissional, etc. Sem deixar de falar numa prática ainda mais extravagante que é a de fazer um “negócio” com Deus, uma certa 'promessa': se eu conseguir tal coisa, vou fazer tal tarefa. Meus amigos, quanta pretensão. Se passássemos a vida toda fazendo penitências, nem assim mereceríamos um único favor divino, por menorzinho que seja, Deus nos dá tudo gratuitamente, sem precisar de nada de nós e sem nós merecermos, ele age por plena e inefável benevolência. As nossas orações, portanto, devem ser muito mais para agradecer do que para pedir.

Em segundo lugar, lembremos que a oração modelar para nós deve ser inspirada no exemplo dado pelo próprio Jesus: quando orardes, dizei algo assim: Pai, santificado seja o Teu nome, venha o Teu reino, faça-se a Tua vontade... é o tipo da oração altruísta, a oração que agrada a Deus. De orações egoístas, Deus se distancia, vira o rosto para o outro lado. Quando Jesus perguntou aos dois filhos de Zebedeu: vocês estão dispostos a 'beber o mesmo cálice' que eu beberei e eles confirmaram, Jesus disse: mas isso não garantirá o atendimento ao que estais pedindo, pois não é assim que se conquista um lugar no Reino. E arremata: o lugar é para aqueles a quem foi reservado. (Mc 10, 40)

Esta resposta de Jesus é, a um só tempo, enigmática e esperançosa. Enigmática, porque ele não revelou quem são esses a quem está reservado o melhor lugar. Esperançosa, porque a reserva pode ser para qualquer um deles e qualquer um de nós. Como podemos interpretar esse enigma-esperança? A resposta, a meu ver, está na frase seguinte do evangelho (Mc 10, 45): o Filho do Homem não veio para ser servido, mas pra servir... ou seja, quem seguir o exemplo de Jesus na prestação do serviço aos irmãos, é para estes que o lugar está reservado. Foi isso que Ele deu a entender quando ensinou: quem quiser ser grande, que seja o servo; quem quiser ser o maior, que seja o escravo. Então, o 'lugar reservado' se destina a quem realizar o 'serviço' tal como Ele realizou, isto é, com humildade e sem reserva, dando tudo de si até o fim das suas forças. Esta será a nossa melhor recompensa.

Meus amigos, o recado de Cristo está dado para todos nós. O lugar está reservado para quem for capaz de seguir o exemplo dele no serviço aos irmãos, superando as tendências naturais e sociais associadas ao ganho de prestígio e de honrarias, especialmente quando exercemos profissões que são consideradas relevantes socialmente. Humildade não significa vestir trapos e andar descalço, mas é uma atitude que mora dentro do coração. Tomando emprestado palavras do Papa Francisco aos peregrinos em Roma, vejamos o que ele pensa: “À vista de tantos que lutam por obter o poder e o sucesso, por dar nas vistas, frente a tantos que querem fazer valer os seus méritos, as suas realizações, os discípulos são chamados a fazer o contrário. Por isso adverte-os: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo» (10, 42-43). Com estas palavras, Jesus indica o serviço como estilo da autoridade na comunidade cristã. Quem serve os outros e não goza efetivamente de prestígio, exerce a verdadeira autoridade na Igreja. Jesus convida-nos a mudar a nossa mentalidade e a passar da ambição do poder à alegria de se ocultar e servir; a desarraigar o instinto de domínio sobre os outros e exercer a virtude da humildade.” Todos nós, que acompanhamos pela imprensa as notícias sobre a atuação do Papa, sabemos que essas palavras dele não são apenas discurso mas a sua prática concreta, pois ele assim vivencia no seu cotidiano. Que nós tenhamos a ousadia e a coragem de seguir o seu exemplo de autêntico cristão.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 28º DOMINGO COMUM - 14.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 28º DOMINGO COMUM – A CORDA NA AGULHA – 14.10.2018

Caros Leitores,

Neste domingo, a liturgia nos convida a refletir sobre o tema da riqueza, através do diálogo de Jesus com o jovem rico, que não abriu mão de seus bens. Mas todos conhecemos também o oposto disso, a história do jovem Francisco de Assis, que seguiu literalmente o convite de Jesus, ao ler esta passagem do evangelho, e abandonou realmente tudo o que possuía, deixou a casa paterna com seu conforto, entregou até as roupas que vestia para o pai, largando tudo para seguir a Cristo na total pobreza e na plena fé de que receberia elevado percentual de recompensa nesta vida e ainda a vida eterna no mundo que há de vir. Nos dias atuais, em que se fala muito acerca do grande distanciamento que há entre as classes sociais (algumas em exagerada abundância e outras em grandes necessidades), o tema da riqueza é bastante oportuno para a reflexão. De fato, a questão que se coloca não é a riqueza em si mesma, porque quando ela é fruto do trabalho, deve ser recebida como justa recompensa. A questão é quando esse acúmulo de bens é fruto de atividades pérfidas, realizadas com o desrespeito do bem e da moralidade, porque é esse tipo de riqueza que não se coaduna com a justa recompensa e é esta que causa a perigosa convulsão da violência em todas as suas formas de manifestação – abertas ou veladas.

A primeira leitura, retirada do Livro da Sabedoria (7, 7-11), fala sobre a verdadeira riqueza, que não está no poder terreno nem na posse dos bens materiais, mas na prudência, na sabedoria, junto da qual todo o ouro do mundo é semelhante a um punhado de areia e toda a prata parece com a lama. E diz mais que, cultivando a sabedoria, todos os bens e riquezas materiais chegam como consequência, pois quem age com sabedoria tem em mãos a maior de todas as riquezas. Por outras palavras, a riqueza deve estar acompanhada da sabedoria para ser legítima. Quando a riqueza é amealhada com esperteza, tornando-se ilegítima, então aplica-se aí a metáfora da areia para o ouro e da lama para a prata.

A segunda leitura, da Carta aos Hebreus (4, 12-13), faz uma comparação interessante entre os conceitos de alma e espírito, os quais são usualmente tidos como sinônimos, no nosso idioma, mas etimologicamente pertencem a funções mentais distintas. A alma (do termo latino “anima”, mas que vem do grego “psiché”) se relaciona com o pensamento lógico, o raciocínio, o conhecimento das coisas do mundo. Por outro lado, o espírito (do termo latino “spiritus”, mas que em hebraico se diz “nefesh”) se relaciona com a respiração, o sopro vital, aquilo que nos mantém vivos, relacionando-se com a consciência e a moralidade. Por isso, o escritor sagrado diz que a palavra de Deus é “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até dividir alma e espírito”, isto é, repercute tanto no conhecimento, no raciocínio, quanto na consciência, na responsabilidade. Isso está explicado, com outras palavras, no versículo seguinte, quando diz: “Ela julga os pensamentos e as intenções do coração. ” Podemos ver aqui a seguinte relação com o tema da riqueza, abordado na leitura anterior: quando o acúmulo de bens decorre do uso dos conhecimentos mundanos para obtê-los, mas não está acompanhado de atitudes bem intencionadas, perde-se na ganância e na insensatez, o que não é compatível com a verdadeira sabedoria, e assim vai ocasionar conflitos sociais que se transmudam em violência e infelicidade para todos. E então, adverte o escritor, o avarento se torna réu do julgamento da palavra de Deus, porque “tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas.” Conceitualmente, a palavra de Deus é a suprema sabedoria.

A leitura do evangelho de Marcos (10, 17-27), relata o diálogo de Cristo com um jovem rico de bens materiais, mas que entristeceu-se com a possibilidade de vir a desfazer-se deles. Vemos novamente o tema da riqueza, que se põe no plano do saber interesseiro, e não ultrapassa para o nível das intenções do coração. O diálogo de Cristo com esse jovem é permeado por vários ensinamentos, que o breve conteúdo narrativo condensa. Primeiro, a ideia do Bem. O jovem chamou Jesus de 'bom mestre' e ele disse que somente Deus é bom. Ora, Cristo sendo Deus, por que razão questionaria alguém que o chamasse de 'bom mestre'? O destaque é dado pelo evangelista para significar que o jovem, ao chamar Jesus de 'bom', já estava reconhecendo nele uma pessoa do bem. Mas Jesus quis pô-lo à prova, para saber se ele era também um conhecedor do verdadeiro bem. Pelo que se constata, o jovem tinha demasiado apego à riqueza, visando apenas ao plano da materialidade, por isso não foi capaz de captar a nobreza do convite que lhe foi feito.

O segundo ensinamento é o reforço à lei de Moisés. Jesus fez questão de recitar os mandamentos e dizer que a sua prática conduz à salvação. Por diversas vezes, Jesus afirmou publicamente que não veio modificar a lei mosaica, ao contrário, veio cumpri-la. Porém, o seu cumprimento não devia ser igual ao dos fariseus, que tomavam tudo ao pé da letra e achavam que isso bastava. Aparentemente, o jovem interlocutor também cumpria a lei mosaica sob esse prisma literal, no plano da exterioridade, sem alcançar o patamar das intenções do coração. Tendo percebido isso, Jesus completou: 'Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.' (Mc 10, 21). Com certeza, não era isso o que o jovem pretendia, mas Jesus utilizou o seu diálogo para ensinar os seus discípulos a importância da riqueza bem adquirida e bem administrada.

O terceiro ensinamento do evangelho é sobre a vida de perfeição. Foi nesse ponto que Francisco de Assis se fixou e com ele traçou um plano de vida, que veio a transformar-se no franciscanismo da regra e dos ensinamentos, que ele demonstrou e viveu. Jesus quis ensinar que a riqueza não é, por si mesma, empecilho para a salvação, mas se o seu detentor não estiver disposto a abrir mão dela, então o seu coração está preso na materialidade e não conseguirá alcançar o verdadeiro sentido do uso dos bens com sabedoria. Daí o comentário de Jesus: como é difícil a um rico entrar no reino do céu. Jesus não disse que os ricos estão necessariamente excluídos da salvação, mas sim que a posse dos bens materiais torna mais difícil levar uma vida agradável a Deus. Evidentemente, a causa disso não seria a simples posse dos bens, mas o apego a eles. Nós sabemos que, assim como há pessoas ricas generosas, há pessoas pobres mesquinhas, por isso o ensinamento de Cristo é a pobreza de espírito, que é mais importante do que a simples falta de bens.

Podemos então retirar daqui um quarto ensinamento do evangelho, que é a ideia do desapego. Esse é o grande problema da sociedade contemporânea, aquilo que ocasiona o grande “abismo social” entre pessoas que se apropriam (muitas vezes, de forma ilícita) de grandes fortunas, que ficam depositadas em instituições financeiras de outros países, ocultas para não prestarem contas delas conforme manda a lei, contando com a possibilidade de, ao deixarem seus cargos, poderem usufruir desses bens indignos em territórios estrangeiros, onde não são conhecidos. Quase diariamente, os meios de comunicação trazem informações sobre cidadãos destituídos de consciência, que terminam sendo apanhados em negócios escusos e, em geral, fazem de conta que não é com eles, continuando como se nada estivesse acontecendo. Em outras sociedades, onde ainda pulsa o sentimento da moralidade, esses episódios ganhariam outros contornos. Entre nós, porém, vence a desfaçatez e a desonra. Quando não posam de vítimas de algum inimigo de outra facção.

Por isso, continua sempre atual a metáfora do buraco da agulha para comparar com a dificuldade (ou impossibilidade) de um rico alcançar a salvação. Para superar tal dificuldade ou para viabilizar essa possibilidade, as riquezas materiais devem estar a serviço da fé do seu possuidor. Aquele que valoriza a sua fé não deixará que o poder político e os bens materiais prendam a sua alma e saberá utilizar desses controles sociais para transformá-los em um maior serviço aos irmãos. Quem exerce um cargo relevante na sociedade tem nas mãos uma oportunidade extraordinária de fazer o bem aos outros mais do que quem não está nessa situação. Quem obteve com seu trabalho um acúmulo considerável de bens não pode se considerar culpado porque outras pessoas não possuem tanto, mas deve transformar esses bens em maiores serviços às pessoas necessitadas.

Ecoa no ar a pergunta dos apóstolos: então, quem poderá salvar-se? A resposta pode ser: quem faz uso dos bens materiais em coerência com a verdadeira fé cristã.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 27º DOMINGO COMUM - 07.10.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 27º DOMINGO COMUM – MATRIMÔNIO EM DISCUSSÃO – 07.10.2018

Caros Leitores,

Neste 27º domingo comum, a liturgia comemora o dia da família e enfoca o matrimônio cristão, trazendo para nossa reflexão as leituras do Gênesis e do evangelho de Marcos. O tema traz para o debate a questão do modelo familiar tradicional, composto por homem-mulher-filhos, colocando em discussão os modelos alternativos, que desconhecem a natureza do gênero masculino e feminino. É a duvidosa ideologia do gênero, tão do gosto de muitos políticos e intelectuais autoproclamados progressistas. Outra questão também relacionada com o tema do matrimônio cristão é a grande preocupação do Papa com a situação dos casais de segunda união, isto é, aqueles que são casados pelo rito religioso e divorciados pelo rito civil, tendo contraído segundas núpcias. O papa Francisco até já expediu um documento abrindo conversações sobre o tema, que enfrenta profundas divergências no Vaticano e, em geral, na cúpula da hierarquia eclesiástica no mundo inteiro. Afinal, o matrimônio cristão é mesmo intocável ou é passível de flexibilização, dentro da realidade concreta de cada caso ou situação existencial? Esse é um tema sensível e controverso, que não pode ser ignorado.

Na primeira leitura, retirada do livro do Gênesis (2, 18-24), temos a conhecida narração bíblica da denominação dos animais, feita por Adão, seguida de outra narração também muito enraizada na nossa cultura, que é a da criação da mulher a partir da costela do homem. Naturalmente, são duas narrativas metafóricas, isto é, de sentido figurado pois, embora no passado se aceitasse que fossem descrições de fatos acontecidos, na hermenêutica bíblica contemporânea entende-se como histórias narradas com um conteúdo pedagógico, para ensinamento do povo hebreu. Na verdade, são duas parábolas, que devem ser entendidas dentro da simbologia e do alegorismo.

Nesse sentido alegórico, a parábola diz que Deus chamou Adão e mandou que ele “desse nome” aos animais. Esse “poder” de dar o nome significa, na cultura hebraica, o domínio que o homem devia ter sobre os animais. Para a cultura hebraica, dar o nome significava exercer influência sobre o nominado, quem dá o nome a algo ou a alguém tem autoridade sobre aquilo ou aquele. Ainda hoje, prevalece a regra de que o nome dado aos filhos pelos pais não pode ser modificado, salvo raras e específicas situações. No caso, ao dar nomes aos animais, o personagem Adão simbolizava todos os homens em relação aos animais, ou seja, a superioridade do homem e o poder dado por Deus para que o homem utilizasse os animais para se alimentar e para auxiliar no trabalho de transporte de objetos e no aproveitamento de sua força física. E para dar destaque à posição da mulher nesse contexto, de acordo com a descrição bíblica, Adão não encontrou no meio desses animais “uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 20), requerendo uma ação especial do Criador.

Esse detalhe tem a finalidade pedagógica de ensinar ao povo que a mulher está numa posição diferente dos animais no seu relacionamento com o homem, ou seja, que ela está na mesma hierarquia do homem. Sim, porque nas culturas antigas, era comum a mulher ser considerada uma propriedade do homem, um objeto do qual ele podia dispor como quisesse. O autor bíblico está ensinando que não é assim, mas que a mulher deve receber do homem um tratamento diferente dos animais, porque ela é uma espécie de 'auxiliar' (adjutorium, em latim) para ele. Para explicar isso, o narrador sagrado construiu uma historieta, que a hermenêutica bíblica chama de “legenda”: o sono de Adão e a retirada de sua costela. Observemos que não há verossimilhança nisso, porque se assim fosse, haveria um número diferente das costelas do homem no lado esquerdo em relação ao direito, e não há. O texto bíblico diz que o lugar de onde teria sido retirada a costela foi preenchido com carne (Gn 2, 21). Ora, se nós fôssemos tomar essa narrativa ao pé da letra, como um fato ocorrido, os homens teriam uma costela faltando, o que não é verídico.

Outro detalhe que merece explicação é a afirmação de Adão (Gn 2, 23): “Ela será chamada 'mulher', porque foi tirada do homem'.” Na nossa língua, essa frase não faz sentido, mas na língua hebraica, o autor bíblico faz uma espécie de trocadilho, do seguinte modo. A palavra 'homem' diz-se em hebraico 'ish' e a palavra mulher diz-se 'isha'. Por isso ela foi chamada mulher (isha) porque foi tirada do homem (ish). Apesar disso, historicamente, sabe-se que tanto a sociedade hebraica, e ainda mais a sociedade romana, baseadas no patriarcalismo, sempre colocaram a mulher numa posição social de inferioridade, o que só veio a se modificar nos tempos atuais.

Na leitura do evangelho de Marcos (10, 5), o tema central é o matrimônio e as questões sobre a sua dissolução. Os fariseus perguntaram a Jesus sobre e legitimidade do divórcio que, segundo eles, teria sido permitido por Moisés. Disseram que Moisés havia instituído uma espécie de 'carta de repúdio' que o homem podia fazer para despedir a mulher. Foi quando Cristo os censurou, dizendo que Moisés só havia consentido naquilo por causa da dureza dos corações dos seus ancestrais, mas isso não pode mudar o projeto divino, pois desde o começo da criação, Deus fez homem e mulher (“ossos dos meus ossos, carne da minha carne”, como disse Adão), para que os dois sejam uma só carne, através do matrimônio, isto é, os dois devem formar juntos as duas metades de um mesmo ser. E arremata taxativamente: o que Deus uniu, o homem não separe. (Mc 10, 9)

O texto mosaico referido nessa discussão dos fariseus, na verdade, encontra-se em Deuteronômio (24, 1): “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora”. O livro do Deuteronômio contém inúmeros preceitos que, sob a aparência de norma religiosa, são de fato normas civis gerais, que eram usadas pelos juízes para o julgamento das questões entre os hebreus. No caso específico da condição “por encontrar nela algo que ele reprova”, de acordo com os biblistas, isso tinha relação com a origem familiar da mulher e com a sua situação sócio-religiosa, que talvez fosse ignorada pelo homem, ao contrair matrimônio. Durante o percurso no deserto, o povo hebreu recebeu muitas influências dos povos com os quais tiveram contato, sobretudo moabitas e amonitas, sendo este o principal motivo das frequentes “crises” de idolatria que ocorreram e que deram muito trabalho aos líderes do povo e aos profetas. Por exemplo, na religião desses povos, havia uma função feminina de “prostituta sagrada”, que se fantasiava na ocasião dos cultos e sua identidade era, em geral, desconhecida. Um hebreu poderia casar-se com uma delas sem saber dessa particularidade, vindo a saber somente depois. Portanto, quando Jesus disse que, no início não era assim, pois desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher para serem uma só carne, ele quer dizer que a regra do divórcio fora tolerada por Moisés, aplicando-se casos específicos, mas depois havia sido transformada numa regra geral pelos fariseus.

Pois bem. Conforme aludi antes, um dos graves problemas da pastoral religiosa dos nossos dias é o caso dos casais de 'segunda união matrimonial' entre católicos, para o qual o Papa tem demonstrado uma preocupação intensa e tem enfrentado sérias resistências no meio eclesiástico, em especial por parte dos conservadores. Não se pode partir da premissa de que isso ocorre apenas com pessoas que possam ser chamada de inconsequentes e levianas. Ocorre também com pessoas responsáveis e bem intencionadas. A Igreja Católica não pode ficar adiando o enfrentamento desse problema, pois é grave e progride a todo momento. Cabe à pastoral religiosa oferecer alternativas concretas de solução, não sendo justo apenas reprovar e proibir a participação nos sacramentos. A caridade de Jesus vai muito além disso. Portanto, o grande desafio é buscar uma resposta coerente com o evangelho pois, como lemos hoje, Cristo foi taxativo contra o divórcio, no entanto, o Papa lembra, no documento citado antes, que o Senhor Jesus é um juiz compassivo e por isso, pastoralmente, é necessário analisar com maior benignidade os casos concretos de cada casal envolvido, deixando de lado o rigorismo e o formalismo. Mais importante do que as normas são as pessoas e é imperiosa uma abordagem mais humanística da realidade matrimonial vivenciada, com todas as vicissitudes e contingências da condição humana. Deve-se analisar com seriedade e profundidade o real motivo existencial daquelas pessoas que, pelas mais diversas razões, tiveram uma união matrimonial anterior mal sucedida, para que possam reorganizar suas vidas não somente perante a sociedade civil, mas também perante a comunidade eclesial. Nem a sociedade nem a religião podem admitir atitudes discriminatórias. Aquela, por razões de justiça; esta, por razões de fé, esperança e caridade.

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domingo, 30 de setembro de 2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 26º DOMINGO COMUM - 30.09.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 26º DOMINGO COMUM – TODOS PROFETAS – 30.09.2018

Caros Leitores,

A liturgia deste 26º domingo coloca em pauta um assunto que o Papa Francisco, por diversas vezes, já citou publicamente e causou controvérsias na Cúria Romana: Deus está não apenas na Igreja Católica, mas no meio de todos os que o procuram de coração sincero, independentemente da crença religiosa. Esse é o grande tema teológico que embasa o ecumenismo, sobretudo no esforço de aproximação das grandes religiões monoteístas, que tem sido um dos pontos recorrentes nos discursos do Papa: cristianismo, judaísmo e islamismo. Ninguém possui o monopólio da fé. Essa exclusividade era uma doutrina teológica do passado, dos tempos apologéticos, porém o próprio Cristo reprova isso, conforme vemos na leitura do evangelho de Marcos.

A primeira leitura, retirada do livro dos Números (11, 25-29), narra um episódio ocorrido durante a caminhada pelo deserto, quando os israelitas chegaram ao monte Sinai. Depois de vários meses comendo perdizes, maná e frutos do deserto, o povo estava descontente, com saudade da comida que tinham no Egito, onde comiam carne fresca e legumes e começaram a murmurar contra Moisés. Então, Javeh desceu da nuvem e mandou Moisés separar 70 homens dentre os mais idosos do povo para formarem uma espécie de 'conselho' de anciãos. Moisés fez isso e, diz o livro dos Números, que Javeh “Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram.” (11, 25). Porém, o trecho mais curioso vem logo a seguir: dois anciãos, que não participavam daquele grupo, também receberam o espírito e passaram a profetizar no acampamento (Eldad e Medad). Os invejosos foram logo enredar a Moisés, como se eles estivessem fazendo algo proibido, e Moisés deu-lhes um puxão de orelhas: que é isso? Estão com inveja porque também não profetizam? Josué chegou a pedir a Moisés que ordenasse que eles dois parassem de profetizar, ao que este respondeu: 'Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!' (11,29). Josué era o “lugar tenente” de Moisés e talvez tenha se sentido diminuído porque ele próprio não recebera o dom de profetizar. Essa ciumeira do serviço divino, como se percebe, já existia nos tempos bíblicos remotos. Moisés, inspirado, rejeitou isso: quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta! Nós também podemos exercitar a profecia, bastando estarmos atentos às manifestações do Espírito.

Nesse mesmo sentido, segue a narrativa do evangelho de Marcos (9, 38-43), quando João veio dizer a Jesus: “'Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue'. Jesus disse: 'Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor.” Os discípulos demonstraram aí um certo ciúme do Mestre e talvez achassem que somente a eles, do grupo de seguidores próximos de Jesus, era dado o poder de expulsar demônios. Mas Jesus fá-los ver que o Espírito sopra onde quer e ninguém pode inibir a ação do Espírito em sua liberdade total, ninguém manda no Espírito, ninguém tem o monopólio da profecia. É lamentável que alguns grupos radicais dentro da própria Igreja não consigam perceber esse ensinamento de Cristo. Um fato é notório: toda vez que o Papa recebe a imprensa para uma entrevista coletiva, a Cúria Romana fica em polvorosa, com receio do que “ele vai dizer”, ou seja, não acreditam no dom da profecia que ele tem, não acreditam na manifestação do Espírito através dele.

Ora, meus amigos, quando Jesus repreendeu os discípulos que haviam 'proibido' aquele homem que não era do grupo, para que não expulsasse demônios, era como se Jesus estivesse antevendo os diversos movimentos religiosos futuros, as distorções que iriam fazer da sua doutrina, os diversos 'missionários' que se apresentariam em nome dele, prometendo curas e arrebanhando grupos mais ou menos numerosos de seguidores. Em outras palavras, o que Jesus propunha era uma religião enquanto modo de vida, Ele não mandou que fosse fundada uma 'organização' estruturada com cargos e hierarquias, ou seja, Ele não mandou que se constituíssem 'igrejas'. Estas foram surgindo de forma espontânea, com a reunião de fiéis em torno de um líder. De início, esse líder era um dos apóstolos, depois passou a ser uma pessoa a quem eles delegavam este poder, através da 'imposição das mãos' (ordenação), e assim foram sendo criados os vários 'cargos' internos: diáconos, sacerdotes, bispos, estruturando-se aos poucos uma hierarquia. Obviamente, essa organização é necessária e, ao longo do tempo, a Igreja tem dado demonstração da eficiência do seu modelo administrativo, apesar das inevitáveis vicissitudes, que decorrem da própria historicidade e da limitação dos seres humanos. Observando somente sob o aspecto puramente estrutural e formalista, não se pode negar a importância dessa organização, que vem atravessando séculos. Porém, não é essa a finalidade da Igreja. Isso é o meio, o suporte material, sem dúvida necessário, mas o seu objetivo último é a pregação do evangelho. E não se deve confundir os meios com os fins.

Quando se faz a reflexão sobre a propagação da fé, a questão básica a ser enfrentada é esta: qualquer 'igreja' reproduz o ideal religioso proposto por Cristo? Ou somente uma delas, no caso a Igreja Católica Romana? E as outras religiões não cristãs, mas igualmente monoteístas, tais como o judaísmo e o islamismo, em que posição se enquadram? (Só uma observação necessária: falar em islamismo não deve ser confundido com o radicalismo do autodenominado Estado Islâmico, que pratica atrocidades em nome da religião, isso não representa todo o Islã). E as religiões orientais milenares, tais como o budismo, o bramanismo, taoísmo? O que dizer do espiritismo, do umbandismo, das vivências espiritualistas em geral, não ligadas a uma determinada religião? Pois é, Jesus disse claramente: quem não está contra nós, está a nosso favor. Há muito preconceito de parte a parte, reforçado ao longo dos séculos por lamentáveis acontecimentos, que dificultam as tentativas de reaproximação de todas essas formas de expressão religiosa, no entanto, a profecia de Cristo é que, um dia, haverá um só rebanho e um só pastor. Boa parte do sucesso desse empreendimento depende da forma como cada um de nós vive e pratica a sua fé.

Vemos na segunda leitura, retirada da carta do apóstolo Tiago (o irmão do Senhor) ensinamentos que parecem ser dirigidos para os donos do capital do mundo de hoje (Tg 5, 1-6): “o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso.” Quantas pessoas ficam ricas e vivem luxuosamente como consequência de exploração do serviço dos irmãos, do aproveitamento inescrupuloso do poder social, da sonegação e dos desvios dos bens públicos em benefício próprio, a campanha política em andamento demonstra isso de modo bem claro. Contra esses, o Apóstolo é bastante ríspido: “E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós.” Nesse mesmo sentido, expressou-se o papa Paulo VI , na encíclica Populorum Progressio (1967), quando disse: a terra foi dada a todos, ricos e pobres, não apenas aos ricos. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo o que é supérfluo, enquanto para outros falta até o necessário. O Papa critica tanto o liberalismo sem freio, que conduziu ao imperialismo internacional do dinheiro, isto é, o capitalismo, como também a coletivização integral e a planificação arbitrária, que priva os homens da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana, isto é, o comunismo. Ambos são paradoxalmente equivalentes.

Meus amigos, o desafio que a liturgia nos coloca é o de viver autenticamente a mensagem de Cristo, de forma honesta e objetiva, sem tentar adequá-la ao que é do nosso maior interesse. Se nos deixarmos levar pelos preconceitos, que ao longo do tempo fomos assimilando, corremos o risco de recair sobre nós aquela mesma repreensão que Cristo fez aos discípulos: não lhos proibais, porque quem não está contra nós, está conosco. Isso não quer dizer que agora cada um pode escolher a religião que lhe aprouver, como se todas são iguais, porque nós professamos uma fé e acreditamos nela. Significa, outrossim, que não podemos fazer discriminações de pessoas por motivos religiosos. Mais importante do que as denominações religiosas é a pureza do coração e a retidão da consciência, pois o monopólio da fé não foi dado a ninguém.

Que o Divino Mestre nos ajude a sermos autenticamente fiéis, para que a vivência da nossa religião não seja movida apenas pela tradição ou pelo costume.

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COMENTÁRIO LITÚRGICO - 25º DOMINGO COMUM - 23.09.2018

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 25º DOMINGO COMUM – A JUSTIÇA E A PAZ – 23.09.2018

Caros Leitores:

Na liturgia deste 25º domingo comum, as leituras abordam o tema da paz como fruto da justiça. A ideia está resumida na frase da epístola do apóstolo Tiago: “O fruto da justiça é semeado na paz para aqueles que promovem a paz.” (Tg 3, 18) Estamos, nesses dias, vivenciando o período de campanha eleitoral e os ânimos se acirram, cada qual defendendo seu ponto de vista como o melhor. Lamentavelmente, o mais comum é que as pessoas se atenham apenas ao seu círculo mais próximo e aos seus interesses mais imediatos, abstraindo da visão macro da sociedade, enveredando por discussões inócuas e improdutivas, cujo objetivo parece ser simplesmente vencer uma disputa. Esse tipo de conduta jamais se compatibiliza com o verdadeiro objetivo da política, que é a construção da paz através de ações governamentais justas.

Acerca do tema da política, vale lembrar que, de uma forma simbólica e muito oportuna, Platão colocou como subtítulo de sua conhecida obra “A República” a expressão “sobre a justiça”, pois desde os tempos mais remotos, os homens de bem sempre entenderam que o fruto da justiça é a paz. Na primeira leitura litúrgica, retirada do Livro da Sabedoria, temos uma exposição sobre o tema da justiça, através da análise da estratégia usualmente adotada pelos ímpios de armarem ciladas contra os justos. Outrora, assim como hoje, tal fato sempre ocorreu. O livro da Sabedoria representa a tradição dos sábios do povo de Israel, aqueles ensinamentos consolidados com a prática continuada, que os mais idosos transmitiam para os mais jovens. A presença do justo incomoda o ímpio, porque faz este ver a própria maldade. Mesmo sem pronunciar palavras, o próprio comportamento do justo causa desconforto às pessoas maldosas que, por isso, buscam tramar malefícios contra o justo, armando-lhe ciladas: “Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência.” O justo incomoda o ímpio porque, para este, a paz não interessa, e sim a realização dos seus propósitos escusos. Fazendo um paralelo com a campanha eleitoral, parece que essas atitudes estão sempre presentes, toda vez que entra em cena o jogo de poder da sociedade. Os postulantes dos cargos públicos, assim como seus simpatizantes, via de regra, precupam-se muito mais em denegrir a imagem do oponente, do que em apresentar seus projetos e programas. Enxurradas de acusações mútuas, ajudadas tecnologicamente com a criação dos boatos eletrônicos, cuja origem nunca se sabe, mas muitas pessoas, por irresponsabilidade ou esperteza, se prestam a ser agentes distribuidores de falsas informações, contanto que aquele fato (não importa se verdadeiro) venha a esmaecer a imagem pública do opositor. É o grande circo da disputa pelo poder, que ocorre na sociedade, desde que a história passou a registrar os fatos. O livro da Sabedoria, muitos séculos atrás, já advertia: só a justiça conduz à paz.

Na segunda leitura, o apóstolo Tiago, nessa mesma linha de pensamento, demonstra claramente que a origem da injustiça, dos males sociais, das guerras, da insegurança, da violência que domina a sociedade de hoje, em todos os países, é a equivocada busca pelo poder político e financeiro. Diz o apóstolo: qual a origem das desavenças que há entre vós? É porque buscais primeiros os vossos interesses. Vós matais, invejais, maltratais e mesmo assim não conseguis o que quereis. O vosso problema é porque não pedis. Ou melhor, pedis mal, porque quereis somente aquilo que atende aos vossos interesses. Meus amigos, vemos nessa admoestação do apóstolo Tiago que esses equívocos que sufocam a humanidade atual são, na verdade, uma problemática muito antiga. Quando Platão escreveu uma teoria do Estado, colocando como subtítulo “a justiça”, queria ele dizer que a finalidade do poder político é promover a justiça, pois não era isso o que ele via na Grécia do seu tempo, governada por tiranos, mas entendia que esse deveria ser o objetivo a ser alcançado pelo verdadeiro Estado. Cronologicamente, Platão é bem mais antigo do que o apóstolo Tiago, além do que ambos viveram em localidades muito distantes uma da outra. No entanto, ambos tiveram a mesma intuição em relação à necessidade de se praticar a justiça, a fim de que vivamos numa sociedade pacificada. Apesar do decurso temporal de mais de dois milênios, desde que essas lições foram ensinadas, as pessoas que governam os povos ainda não as aprenderam ou delas desdenham.


No evangelho de Marcos, o evangelista continua a narração do episódio do domingo anterior, quando Jesus ia viajando a pé para Cafarnaum, já a caminho de Jerusalém, onde a sua missão iria se consumar, e ensinava aos discípulos as últimas lições da sua catequese. Depois daquele puxão de orelhas em Pedro, que foi sugerir a Jesus que não falasse assim, porque os discípulos ficavam embaraçados, Jesus prossegue e repete: é necessário ele eu vá a Jerusalém, onde serei torturado e morto, mas depois de três dias, ressuscitarei. Aí, diz o evangelista, eles não entendiam, mas ficavam com vergonha de perguntar e especulavam sobre a situação deles, como ficaria o grupo sem a presença de Jesus, como seria a hierarquia entre eles. Chegando em Cafarnaum, depois de acomodados em casa (o evangelista não diz de quem era a casa), Jesus puxou o assunto: sobre o que vocês conversavam, enquanto estávamos caminhando? Eles ficaram calados e não quiseram responder, com medo do carão, que com certeza viria, pois Jesus sabia muito bem do que eles tinham conversado. Foi quando ele reuniu os doze e repassou a lição: aquele dentre vós que quiser ser o maior, seja o menor; o que quiser ser o primeiro, seja o último. Convenhamos, isso embaralhava ainda mais o entendimento deles. Como é que alguém poderia ser o primeiro, chegando por último? Como poderia ser maior se desvalorizando? Percebendo a confusão na mente deles, Jesus tomou uma criança e colocou no meio deles, para servir de exemplo. Sede como esta criança... Por que Jesus fez comparação com a criança? Ora, naquele tempo, as mulheres e as crianças não tinham vez na sociedade, acentuadamente machista e patriarcalista. Somente os homens adultos tinham direitos, tinham reconhecimento. Ao colocar a criança como exemplo, Jesus estava usando um recurso pedagógico para dizer: o pensamento de vocês está ao contrário. De acordo com a mentalidade dos judeus, uma criança não tinha direito a acolhimento, ela era subjugada ao pai (nem a mãe podia ter qualquer atitude). De acordo com a doutrina romana, que prevalecia na Galiléia naquele tempo, o pai tinha direito de vida e de morte sobre os filhos, sobre a esposa, sobre os servos, sobre os bois e cabritos, todos estavam no mesmo pé de igualdade.

Então, Jesus diz: quem não se tornar igual a uma criança, não terá lugar no Reino do Céu... aquele que acolhe uma criança, acolhe a mim, e quem acolhe a mim, acolhe o Pai que me enviou. Se algum de vós quer ser o primeiro, pois que seja o servo de todos. Ou seja, Jesus estava ensinando que a verdadeira justiça não faz distinção entre grandes e pequenos, ele próprio estava ali se colocando como o menor de todos. Foi o exemplo que ele deu na última ceia, quando passou o avental na cintura e foi lavar os pés de todos. Quando Jesus disse aos discípulos que seria preso, torturado e morto, para depois ressuscitar, ele estava indiretamente ensinando que por mais cruéis que sejam as maldades humanas, elas nunca superarão a justiça, a sua ressurreição seria (e foi) uma prova disso. Fez-me lembrar agora de uma composição de Roberto Carlos, de 1971, na qual ele dizia: “Tanta gente se esqueceu que o amor só traz o bem, que a covardia é surda e só ouve o que convém”, logo em seguida, ele faz um apelo para que Jesus venha ensinar tudo de novo, porque a humanidade ainda não aprendeu. Olhando para o que acontece ao nosso derredor, constata-se que, de fato, tudo que Jesus ensinou ou está sendo esquecido, ou está sendo deturpado a serviço de interesses de grupos de indivíduos sem escrúpulo. Cada vez mais é necessário repetir que a paz é fruto da justiça.

Para nós, cristãos, a leitura desses textos litúrgicos vem lembrar que, ao vivermos a nossa fé através da realização de boas obras, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus, estaremos contribuindo para neutralizar a ganância do ter em demasia, do poder a qualquer custo. E não basta apenas discursar ou conclamar os outros a fazerem, a ação deve começar na vida concreta de cada um. Fazer é muito mais do que falar. Na véspera de iniciar-se a novena do nosso Patriarca São Francisco, a sua imagem e o seu exemplo continuam firmes e eloquentes, ele que foi o gande protagonista da paz. Que ele nos ilumine e nos inspire a fazer como ele fez com o lobo de Gubbio, pacificando a cidade e trazendo tranquilidade aos nossos irmãos.

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