quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

2º DOMINGO DO ADVENTO – BATISMO DA CONVERSÃO – 04.12.2011



Caros Confrades,

A liturgia deste 2º domingo do advento traz como tema o batismo da conversão. Mas antes de comentar diretamente o tema, gostaria de fazer umas observações preliminares.

Em primeiro lugar, ressaltar que o ano litúrgico de 2012, cujo segundo domingo ora celebramos, é classificado com a letra B, ou seja, é o ano litúrgico B. A CNBB, com o intuito de não repetir a cada ano as mesmas leituras nas missas, estabeleceu três modelos: o ano A, o ano B e o ano C. Há dois domingos, terminamos o ano litúrgico de 2011 (em 20.11.2011), que era ano A, no qual as leituras do evangelho dominical são retiradas de Mateus. Agora, iniciamos o ano B, no qual as leituras são retiradas do evangelho de Marcos. No ano C, em 2013, as leituras serão retiradas do evangelho de Lucas, com algumas inserções do evangelho de João. Depois, em 2014, retornará o ano A. Assim, as leituras só se repetem de três em três anos, porque estes três modelos fazem um revezamento.

A segunda observação se refere ao evangelho de Marcos. Conforme a pesquisa histórica, este evangelho foi o primeiro dos quatro evangelhos a ser escrito, por volta do ano 60 depois de Cristo. Portanto, o evangelho de Marcos foi escrito aproximadamente 27 anos após a morte de Cristo. Antes, pensava-se que o mais antigo era o de Mateus, mas os estudos técnicos demonstraram que o de Marcos foi o primeiro escrito. Antes dos evangelhos, havia grande quantidade de textos circulando nas primeiras comunidades cristãs, escritos por cristãos anônimos, a modo de cartas, abordando passagens diversas da vida de Cristo. Alguns destes escritos traziam os milagres, outros falavam dos discursos de JC, outros falavam das polêmicas de JC com os fariseus, outros narravam os sofrimentos de JC... então, os evangelistas Marcos, Mateus e Lucas reuniram estes escritos esparsos e deram uma sequência a eles, acrescentando aquilo que eles próprios sabiam e ouviram, formando assim os textos longos que temos hoje. Por terem utilizado basicamente as mesmas fontes, estes três evangelhos são chamados de sinóticos, ou seja, resumos. O evangelho de João, o último a ser escrito, além de ter-se baseado nas fontes dos primeiros, utilizou tb outras referências, além de ter incluído os primeiros elementos da reflexão teológica primitiva, assunto que não há nos três primeiros.

A terceira observação refere-se à pessoa do evangelista Marcos. Consta que ele era discípulo de Pedro e acompanhava a vida pública de Cristo à distância. Marcos estava presente no Jardim das Oliveiras e presenciou a prisão de JC, no momento da confusão, ele saiu correndo.

Bem, passando à análise do tema, vejamos o significado etimológico do batismo. Esta palavra deriva do verbo grego "baptizein", que significa mergulhar; batismo será assim o substantivo 'mergulho'. Era o que João Batista fazia com as pessoas que o procuravam no rio Jordão. Após as pessoas confessarem seus pecados, ele os mergulhava nas águas do rio, simbolizando com isso que o(a) pecador(a) ao mergulhar na água e retornar, é como se fosse um renascimento, uma nova pessoa. Daí o batismo da conversão. Conversão se diz em grego 'metanóia', que literalmente significa nova idéia, novo pensamento, nova mentalidade, nova compreensão. Quem se converte, passa a pensar e viver de outro modo, assume um novo estilo de vida.

Diz o evangelista que todas as pessoas da Judéia e de Jerusalém (Mc 1,5) iam ao encontro de João, confessavam seus pecados e eram 'batizados', ou seja, mergulhados no rio, para renascerem pela água. Mas João adverte (Mc 1,8) que depois virá um 'Outro' que batizará no Espírito. Isto já estava previsto tb em Isaías (Is 40, 3): preparai no deserto os caminhos do Senhor, endireitai as veredas. João pregava no deserto e as pessoas iam até ele, não era ele que ia à cidade chamar as pessoas.

Um dado interessante é que o batismo de João introduz uma novidade na ritualística do povo hebreu. Eles já tinham os procedimentos de penitência, que incluíam jejum, esmolas, orações, abluções (lavagem das mãos, sobretudo), mas João inventou algo novo: o mergulho. A novidade trazida por João era já o prenúncio das modificações que JC iria fazer na lei antiga, configurando assim a nova lei de Deus, na qual os rituais exteriores não têm valor, quando não são acompanhados da mudança interna. Os fariseus eram mestres nesse tipo de encenação, valorização da aparência, e censuravam JC e seus discípulos porque, por exemplo, não lavavam as mãos antes de comer, faziam curas no sábado, etc. E JC, por diversas vezes, fez ver a eles que o mal não é o que entra pela pessoa, mas o que sai dela; e disse tb: esse povo louva com os lábios, mas seu coração está lá longe.

E todos nós sabemos, porque o evangelho relata noutra passagem, que o próprio JC foi lá no rio Jordão para ser batizado por João, no início de sua atividade pública, deixando João muito embaraçado, mas apesar disso, Ele se submeteu ao mesmo ritual, para oficializar aquilo, ou seja, para dizer que Ele estava de acordo com aquele procedimento, embora Ele não precisasse 'renascer' como os demais batizados. Mas como Ele queria ser igual a nós em tudo, não deixou que a sua condição divina prevalecesse para ser dispensado. (Foi isso que Paulo afirmou naquele trecho já comentado aqui antes, que é traduzido por 'usurpação', tradução com a qual eu não concordo).

Meus amigos, ao falar em batismo, vem logo aquela tradicional polêmica: por que não se faz mais o mergulho? por que só derrama água na cabeça do batizado? essa é uma grande discussão que envolve católicos e não católicos, por causa da modificação feita pela Igreja de Roma no ritual, afrontando diretamente a figura do batismo de João, referendada pelo próprio JC. Efetivamente, João não batizou crianças, somente adultos. Além disso, João batizou apenas no Jordão. Como fazer isso em outras localidades distantes? qual rio devia ser escolhido no Brasil, por exemplo? Com a expansão do cristianismo, a figura original do batismo precisou ser redesenhada, para atender a novas situações fáticas. Abandonou-se, então, a ideia do mergulho direto e foi adotado o modelo simbólico de molhar a cabeça, afinal, no mergulho, esta é a última parte do corpo que entra em contato com a água e a primeira a sair dela.

Além disso, a Igreja passou a batizar tb crianças bem pequenas, inviabilizando o mergulho total, por razões óbvias. E já que se trata de um símbolo, qualquer água natural pode ser utilizada, devendo ser benzida para esta finalidade. Assim, o ritual joanino do baptizein=mergulhar foi totalmente substituído pelo novo formato. Pode-se dizer que houve 'abuso' de autoridade da Igreja nesta mudança? Os protestantes dizem que sim e continuam a utilizar o mergulho mesmo. Eu tenho um cunhado que aderiu à igreja Adventista e ele foi novamente batizado lá, mostrou-me as fotos, há um tanque cheio de água no qual entra o Pastor e, em seguida, entra o fiel, que é literalmente afundado naquele tanque, tal qual o ritual de João Batista. Ao ver as fotos, eu fiquei a pensar comigo mesmo: já que não é o rio Jordão, então pra ser na água comum, o ritual católico é bem mais conveniente para manter o simbolismo do renascimento. Além de evitar acidentes com o ato de mergulhar, conforme às vezes a gente sabe através da imprensa. Além disso, os protestantes não batizam crianças pequenas, só adolescentes e adultos, mas mesmo assim os riscos de acidentes não podem ser ignorados.

Voltando ao tema central, o segundo domingo do advento nos convida à conversão. Quando nós fomos batizados, nós já renascemos em JC para uma nova vida, um novo céu, uma nova terra. Na crisma, nós tb fomos batizados (mergulhados) no Espírito Santo. Então, através das leituras deste domingo, a liturgia nos convida a refletir sobre a nossa vida de cristãos, em constante estado de conversão. Sim, porque a conversão não é uma atitude única, que se faz uma vez e acabou. A conversão é uma tarefa de cada dia e se concretiza de forma progressiva em cada coisa boa que praticamos, em cada ato de caridade que fazemos, em cada soerguida após alguma recaída, em cada vez que damos exemplo aos outros da nossa vida de cristãos inseridos na sociedade, no trabalho, no lazer, na comunidade, na humanidade globalmente considerada. A exortação do profeta Isaías (preparai os caminhos do Senhor) é nosso chamado neste segundo domingo do advento, para reafirmarmos os nossos compromissos cristãos e para alinhar nossos passos na caminhada para o Pai.

1º DOMINGO DO ADVENTO – VIGILATE (Vigiai) - 27.11.2011



Caros Confrades,

Inicia-se, com o domingo de hoje, o ano litúrgico de 2012, com o primeiro domingo do advento. Para um melhor entendimento deste conceito, transcrevo um trecho colhido da internet: "O tempo do Advento formou-se progressivamente a partir do século IV e já era celebrado na Gália e na Espanha. Em Roma, onde surgiu a festa do Natal, passou a ser celebrado somente a partir do século VI, quando a Igreja Romana vislumbrou na festa do Natal o início do mistério pascal e era natural que se preparasse para ela como se preparava para a Páscoa. Nesse período, o tempo do Advento consistia em seis semanas que antecediam a grande festa do Natal. Foi somente com São Gregório Magno (590-604) que esse tempo foi reduzido para quatro domingos, tal como hoje celebramos."

A palavra deriva do verbo latino 'advenire' que significa 'chegar', portanto, no advento celebramos a espera daquele que vai chegar. Na liturgia, o tempo do advento prepara para o natal, assim como o tempo da quaresma prepara para a páscoa, as duas festas centrais da nossa fé católica: a encarnação do Verbo e a nossa redenção pela morte e ressurreição de Cristo.

Neste primeiro domingo do advento, o tema é a vigilância. Vigiai (vigilate) porque não sabeis a hora em que o dono da casa vai chegar. Na primeira leitura, o profeta Isaías (63, 19) anuncia: ah, se descesses dos céus, as montanhas se inclinariam diante de Ti. O cap 63 de Isaías, conforme já foi comentado aqui, faz parte do deutero-Isaías, ou seja, não foi escrito pelo próprio profeta, mas por seus discípulos, já depois do retorno do cativeiro da Babilônia. Então, o povo já havia superado aquele trauma da escravidão e vivia momentos de esperança. Por isso, diz ele no cap 64, 3 Nunca se ouviu dizer nem chegou aos ouvidos de ninguém, jamais olhos viram que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que nele esperam. 4 Vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos.

O povo retoma seu caminho de espera do salvador prometido, já esquecendo daquele libertador temporal, que foi o rei Ciro, o responsável pela libertação deles da Babilônia. Então, agradecem a Javeh pela restituição da sua liberdade, mas continuam na espera do cumprimento da promessa. No cenário litúrgico, nós celebramos neste período o tempo de espera do Salvador, tal como os hebreus do pós-exílio.

O tema do evangelho de Marcos (13,33) complementa esta atmosfera de espera com a exortação da vigilância, aproveitando a parábola de JC sobre o patrão que foi viajar e deixou os empregados vigiando sua casa, recomendando-os para que não abandonassem o serviço, porque ele retornaria a qualquer momento. Essa recomendação de JC através do evangelho de Marcos nos adverte que a espera da chegada do 'que há de vir' não pode ser aquela atitude de displicência, de espera bocejante e sonolenta, mas espera ativa e participante. Visto que a nossa 'espera' é simbólica, porque a chegada tem data certa e prevista, mesmo assim o nosso comportamento deve ser ativo, preparando os caminhos e aplainando as veredas, como diz outro trecho de Isaías.

O tempo do natal é sempre muito explorado comercialmente, é uma das datas mais festejadas pelos lojistas, ávidos por receber o 13º de todos. Perante a fé, no entanto, esses apelos comerciais não podem ofuscar o verdadeiro sentido da preparação para a chegada do natal, meditando sobre o grande mistério da encarnação, do Verbo divino que se encarnou. É interessante lembrar aqui a expressão grega donde se traduz o conceito de encarnação: "logos sarx egéneto" (a palavra em carne se gerou). Tornar-se carne (sarx) é sinônimo de se materializar. Mas não é uma materialização qualquer, como por exemplo, uma árvore, uma pedra, um líquido, mas a materialização na forma de carne quer dizer na forma humana, na forma de todos nós. A palavra de Deus é tão poderosa que se desprende dele em transforma em um ser autônomo, o Verbo, e este cumprindo a promessa se torna um de nós para nos ensinar a ser mais humanos, para nos humanizar, para mostrar que através da nossa humanização plena, nós estaremos conquistando a vida plena com Ele.

Daí o sentido de vigiar sempre, porque esta humanização é uma tarefa permanente, que dura a vida toda. Cada dia da nossa existência deve ser utilizado para conseguir ascender mais um degrau no caminho da humanização plena. No seminário, nos diziam que nós somos chamados à santidade, e para isso nós devíamos realizar determinadas tarefas de orações, práticas virtuosas e repressão dos sentidos. Hoje nós podemos compreender melhor que a santidade se alcança com uma vida sempre mais humanizada. É a lição que nos traz o mistério da encarnação. Se a carne (humanidade) não fosse valiosa, JC não teria se tornado um de nós, teria tomado a forma de um anjo, um ser incorpóreo. Portanto, nós não precisamos renunciar ao corpo para chegar à santidade, o que precisamos é viver a nossa humanidade de forma equilibrada e justa. Quanto mais nós nos humanizamos, quanto mais aprendemos a ser gente de verdade, mais próximos nós chegamos do ideal da santidade. Por isso, a necessidade da vigilância permanente.

Que Maria, o mais eloquente símbolo da espera do Salvador, nos ensine a vigiar.

34º Domingo Comum – Discurso Escatológico – 20.11.2011



Caros Confrades

Neste 34º domingo comum, último domingo do ano litúrgico, a liturgia nos apresenta o discurso escatológico de JC e no-Lo apresenta como rei do universo (Cristo Rei).

Trata-se de uma curiosa designação, neste tempo em que já não há mais reis e rainhas como nos tempos bíblicos, mas somente reis e rainhas de última grandeza: rei da juventude, rei da música, rei do carnaval... o conceito de realeza está totalmente desfigurado. Prevalece aquela idéia romântica do rei vestido com um longo manto, um cetro na mão e uma coroa na cabeça, é assim que a arte sacra traça a figura de Cristo Rei. Não me parece que tenha sido este o conceito que JC quis expressar quando falou aos discípulos que estaria 'sentado no seu trono glorioso'. Mas foi a figura clássica do rei medieval que ficou retratada na visualização de Cristo Rei do Universo.

Mas a msg mais importante do evangelho deste domingo não é exatamente esta. Foi apenas um comentário paralelo que fiz. A sua leitura traz uma descrição bastante pormenorizada feita por JC acerca das 'coisas que haverão de vir', o que os teólogos classificam como realidades escatológicas. O fim do mundo, o fim de cada um de nós, o julgamento supremo, a recompensa, o castigo, são os temas centrais da escatologia teológica.

Esta imagem do Cristo que voltaria glorioso ficou tão forte nas primeiras comunidades cristãs que alguns fiéis nem queriam mais trabalhar nem assumir nenhuma responsabilidade, porque Ele chegaria a qualquer momento, como se fosse em breves dias. São Paulo teve de pegar pesado com esses cristãos imediatistas. Esse tema, aliás, foi por demais explorado ao longo do tempo pelos comentaristas bíblicos, muitas vezes confundindo a dimensão temporal com a dimensão da eternidade, gerando interpretações insustentáveis acerca do 'tempo' que alguém demoraria no purgatório (por exemplo) até conseguir se purificar de todas as culpas: um ano, cinco anos, dez, cem anos?? já tive oportunidade de expor minha idéia acerca disso em uma msg anterior, quando tratei da antropologização do tempo divino. A Igreja oficializou tal idéia criando o conceito das indulgências parciais e plenárias. Lembro que, naquele tempo, havia um dia do ano em que passávamos o dia inteiro entrando e saindo da capela, porque São Francisco tinha recebido uma visão e pediu a Deus que todos os que entrassem naquele templo e rezassem pelos defuntos, salvariam uma alma. Então, a gente entrava, rezava e saía; entrava de novo, rezava e saía... assim o dia todo, porque a cada vez estaríamos salvando uma alma. Como se a nossa contabilidade terrena, temporal tivesse alguma validade nos páramos da eternidade.

JC é bastante didático no seu discurso escatológico e podemos ver que não tem nada com o que escrevi acima. Na verdade, ele descreve a 'receita', se é que podemos assim dizer, que deve cumprir quem quer ser digno de ser chamado seguidor dele: os benditos (ou bem aventurados, como fala no sermão da montanha). E a receita é esta: "Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar'." E os malditos perguntaram: Senhor, quando foi que te vimos assim e não te socorremos? Resposta: todas as vezes que deixastes de fazer isso ao irmão mais pequenino.

Meus amigos, JC está fazendo um pré-julgamento, ou melhor, ele está dizendo claramente sob que critérios nós seremos julgados. Ele não disse: aquele que assistir mais missas, nem aquele que comungar mais vezes, nem aquele que rezar mais pai-nossos de joelhos... Por favor, não me entendam mal, não estou dizendo que isso não vale nada. Estou apenas tentando esclarecer o que JC colocou como paradigma para o julgamento dos cristãos: a caridade, a partilha, a paciência, o serviço, a doação, o amor principalmente para aqueles mais humildes e carentes. É muito fácil 'ver' JC na hóstia consagrada, na figura do Papa, nas imagens religiosas; mas Ele quer que nós o 'vejamos' no irmão e façamos para este irmão o que nós faríamos se o próprio JC estivesse na nossa frente.

Outra coisa. Este 'julgamento' não vai acontecer num determinado dia, num determinado ano, como alguns 'profetas' de antes e de hoje tentam nos fazer crer. Quantas vezes já foram previstas datas para o 'fim do mundo' e nada aconteceu? O ressoar da trombeta vindo do mais alto dos céus não será um fenômeno cósmico e universal, mas uma realidade particular para cada ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. A colocação das ovelhas à sua direita e dos cabritos à sua esquerda, simbolizando os benditos e os malditos respectivamente, a recompensa e o castigo eternos, não é algo que irá ocorrer num dia determinado de um ano determinado para todos os homens ao mesmo tempo, mas é um enfrentamento que cada um de nós deverá fazer, quando passarmos pelo portal que dá acesso à eternidade. Lá, as fileiras já estão formadas e quem for chegando já vai sendo direcionado para a sua devida posição.

Alguém pode perguntar: por que, então, JC usa uma linguagem tão direta, tão concreta para explicar isso? ao meu ver, a resposta é simples: porque ele se dirigia a pessoas de poucos conhecimentos, pessoas simples, numa linguagem de fácil compreensão. Tanto assim que, nos primeiros tempos, isso era interpretado de forma absolutamente literal e os primeiros cristãos pensavam que esse dia seria amanhã, depois de amanhã talvez... com o passar dos anos, a reflexão teológica foi aprendendo a compreender esta lição de um modo mais erudito e menos temporalizado, quanto dá a entender a metáfora à primeira vista.

Neste último domingo do período litúrgico, a leitura do evangelho nos ensina duas lições, que eu considero fundamentais: primeira lição, que nós devemos sempre enxergar JC no irmão, no próximo, no semelhante, quanto mais isso possa nos parecer impossível. Enxergando JC no irmão e fazendo por ele o que faríamos por JC em pessoa estará nos habilitando como cristãos autênticos; segunda lição, que o nosso 'cartaz' diante de JC vai depender da nossa capacidade de percebê-LO nos irmãos e agir gratuitamente, sem almejar recompensa, conforme o próprio JC já nos ensinou noutro discurso, a saber: não saiba a tua mão direita o que faz a tua esquerda, nos lembrando que devemos agir por amor e não em espera de alguma recompensa.

Que o Mestre nos ensine a ser verdadeiras 'ovelhas' e nos favoreça com a mágica de poder transformar cabritos em ovelhas, com o nosso exemplo de um agir verdadeiramente cristão.

33º DOMINGO COMUM – NOSSOS TALENTOS - 13.11.2011



Caros Confrades,

A liturgia deste domingo (33º comum) nos convida a refletir sobre os nossos talentos. Importa, de início, esclarecer que 'talento', na época de JC, era um conceito financeiro, um padrão monetário que correspondia a aproximadamente 35 kg de ouro. Se avaliarmos no mundo atual, corresponderia a uma elevada soma, pois um grama de ouro custa em torno de $50 reais, desse modo, um talento valeria na nossa moeda cerca de $175.000 reais. Portanto, JC vai se aproveitar de um linguajar da economia para relacionar com o anúncio do reino de Deus.

Na primeira leitura, temos a referência à mulher forte (Provérbios 31,10), que trabalha habilmente com o fuso e com os tecidos, que administra a casa e não deixa faltar nada, mas ao mesmo tempo, também atende o pobre e o necessitado. Bela, trabalhadora e caridosa. É a sabedoria antiga elogiando as qualidades da mulher virtuosa, num contexto simbólico da autêntica economia (em grego, oikos-lar e nomos-regra formam o verbo oikonomeô=administrar a casa, comandar a casa). É o que corresponde à designação dos dias atuais da profissão 'do lar' daquela mulher que exerce sua atividade laborativa dentro de casa, administrando o lar, uma profissão em declínio, mas ainda muito comum no nosso sertão. Por outras palavras, o conceito de mulher forte não está ligado à força muscular, mas à competência com que ela gerencia as tarefas domésticas, sob a plena confiança do seu marido. Sob um certo aspecto, ela está pondo pra render os talentos ($$$) da casa, enquanto o marido exerce uma atividade externa para o sustento da família. Com suas mãos hábeis e sua capacidade produtiva, ela multiplica as reservas financeiras adquiridas pelo marido. Podemos dizer, portanto, que a figura da mulher forte tem total relação com a parábola dos talentos, narrada no evangelho de Mateus (25,14). Curiosamente, essas imagens da mulher exemplar, presentes em outras passagens do AT (por ex: Sarah, Débora, Judite, Ester) não foi igualmente reverenciada no NT. Afora a figura ímpar de Maria, as demais citadas sempre exerceram papéis de coadjuvantes (Madalena, Marta e sua irmã Maria). Podemos observar nesse fato um incremento do machismo na comunidade judaica no tempo de JC, ao ponto de não se abrirem espaços para a 'mulher forte' do AT.

No evangelho, temos a conhecida parábola dos talentos. O patrão, antes de viajar, distribuiu com seus empregados certa quantidade de talentos, de acordo com a competência de cada um. Os dois, que ganharam mais, também conseguiram tirar maior proveito do que receberam, enquanto o que recebeu um só o enterrou e apenas o devolveu, fato que desagradou bastante o chefe.
Não poucas vezes, JC faz uso de exemplos ligados ao mundo econômico-financeiro para tirar conclusões relacionadas com a sua doutrina, por ex: os trabalhadores da vinha, o administrador infiel, a moeda de Cesar... mas nesta parábola foi introduzido um conceito novo, até contraditório em relação ao que o cristianismo sempre ensinou: a usura. O que recebeu cinco talentos 'lucrou' outros cinco; o que recebeu três 'lucrou' outros três; ao que devolveu o único talento recebido, o chefe diz: por que não entregaste a um banco, para que eu recebesse os juros? Aos meus ouvidos, soa de uma forma estridente esse linguajar. Com certeza, JC estava fazendo uso de conceitos mais fáceis de serem entendidos pelo povo, pois não se pode concluir que ele estivesse aprovando o depósito de capital a juros bancários.

Pois bem, abstraindo dessa conotação monetarista, temos na parábola dos talentos o estímulo e o reconhecimento daqueles que trabalham e administram com competência os bens recebidos, semelhante à imagem da mulher forte, do livro dos Provérbios. Não quero me referir ao conceito de 'talentos' no sentido intelectual, como muitas vezes nos ensinaram no seminário. Penso que JC estava se referindo mesmo aos bens materiais, que algumas pessoas têm mais do que outras. Todos se lembram que, em outra passagem, quando Judas comentou: por que não vendemos esse perfume e distribuímos o dinheiro com os pobres? JC discordou e disse que 'pobres sempre tereis entre vós' (João 12,8). Entendo que JC admitiu ali que a distribuição dos bens materiais nunca seria feita de modo isonômico.

Pois bem, os talentos ou os recursos materiais, com os quais Deus nos favorece, devem nos ajudar a trilhar com mais serenidade e firmeza o caminho da virtude, não para nos afastar dele. Podemos associar com isso o conceito de 'pobres de espírito' exposto no sermão da montanha, no domingo passado. Atualmente, há um conceito sociológico bem apropriado para essa situação, que é o de responsabilidade social. Ter uma boa condição de vida, materialmente falando, deve nos dar a consciência do dever de contribuir com aqueles que, por diversas conjunturas, não obtiveram tanto quanto nós. Numa forma bem radical, foi o que fez Francisco em relação aos bens de seu pai Pedro Bernardoni. Se nós não temos essa mesma virtude, pelo menos devemos ter a disponibilidade para servir, a oferta financeira para as ações sociais da Paróquia e de entidades que atuam em trabalhos assistencialistas, o apoio aos menos aquinhoados da nossa própria família, a ajuda aos irmãos através das obras de caridade. Não podemos deixar que a ganância e a avidez do lucro nos tornem escravos dos nossos bens materiais, porque assim os estamos enterrando.

E aqui entra a exortação do apóstolo Paulo, na segunda leitura (1 Tessalonisences 5,1): não deixeis que o dia do Senhor vos surpreenda como um ladrão, de noite. Vós sois filhos da luz e do dia, não somos filhos da noite nem das trevas. Quando nos tornamos escravos dos nossos bens, estamos enterrando nossos talentos, então já não somos mais filhos do dia.

Esses fatos nos fazem lembrar de outra advertência de JC noutra passagem, quando o jovem rico não quis se desfazer dos seus bens, e Ele comentou: é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha... Ele sabia o quanto os bens materiais podem servir de empecilho à prática das virtudes cristãs. Mas nós, que tivemos acesso a uma formação humana e intelectual diferenciada, mercê de nossa passagem pelo seminário, formação esta que, aliada ao esforço de cada um, nos fez alcançar condições dignas de vida na sociedade, devemos também ter aprendido a administrar esses talentos, sem jamais os enterrar, mas sempre os colocando à disposição dos irmãos. Vale outra vez recordar a exortação de Paulo aos Tessalonicenses: Portanto, não durmamos, como os outros,mas sejamos vigilantes e sóbrios, para que o dia do Senhor não nos surpreenda.

32º DOMINGO COMUM – FESTA DE TODOS OS SANTOS – NOVAS TÁBUAS DA LEI - 06.11.2011



Caros Confrades,

A liturgia deste domingo (32º comum) comemora o dia de todos os Santos e Santas de Deus, por não ser mais feriado religioso o dia 1 de novembro. E as leituras são muito significativas para nossa reflexão acerca do nosso convite à santidade. Ser cristão é ser convidado à santidade, aliás, Paulo já disse que somos santos (Romanos 1,7) trecho que alguns tradutores substituem a palavra 'santos' por 'cristãos', até de forma desnecessária.

Em geral, quando falamos em santos, nos referimos àqueles e àquelas que tiveram sua vida de santidade considerada como exemplo para todos e por isso foram 'canonizados', ou seja, foram tornados modelos para todos nós. Mas no sentido paulino, santos são todos os cristãos que foram banhados no sangue do cordeiro pelo batismo, ou seja, nós. Santos e pecadores, dentro da nossa ambiguidade de seres humanos. Usando uma terminologia tradicional aristotélico-tomista, santos em potência e pecadores em ato.

Este conceito paulino de 'santos' combina com a leitura do Apocalipse (7,12) quando ele se refere à grande multidão que tinha vindo da tribulação e todos vestiam a veste branca, pois haviam sido lavados e enxaguados no sangue do cordeiro. Tratando-se da revelação (apocalipse), a linguagem metafórica de João significa os cristãos espalhados por todos os cantos do mundo sendo chamados à santidade e para isso, estamos sempre atravessando tribulações. Com efeito, a vida do cristão no mundo cheio de apelos ao materialismo, ao hedonismo, ao orgulho, às vaidades, à cobiça, apelos a que a nossa natureza enfraquecida está sempre tendendo a ceder, está permanentemente cercada de tribulações, pois todos os dias, são muitos os desafios a serem vencidos. De acordo com os comentaristas bíblicos, a imagem descrita por João no Apocalipse se destinava às comunidades cristãs primitivas, que passavam por sérias perseguições religiosas, muitos dos quais haviam morrido em consequência disso e os que sobreviveram encontravam-se grandemente amedrontados e sujeitos ao desânimo, então aquela imagem dos benditos que estavam chegando dos diversos lugares servia para estimular à perseverança na fé dessas comunidades ameaçadas. Mas no sentido transistórico da hermenêutica bíblica, a mesma imagem representa as grandes legiões de seguidores de Cristo, em todas as regiões do mundo, entre os quais podemos inclusive acrescentar aqueles e aquelas que, mesmo não tendo sido batizados, deram em sua vida o testemunho da mensagem cristã. Não podemos negar, por exemplo, que Gandhi e outros líderes das religiões orientais estejam fora dessa multidão referida por João no Apocalipse.

Este conceito está referendado no evangelho de Mateus (5, 1), o conhecido 'sermão da montanha', que é lido nesta solenidade de todos os santos, pelo qual, JC nos dá as novas tábuas da lei, ou seja, as regras da sua lei, a lei do amor e da misericórdia.

Antes, vejamos a semelhança da atitude de Jesus com a de Moisés, ao receber os mandamentos. Moisés subiu ao Sinai e lá recebeu de Javeh as tábuas da lei antiga. JC subiu a um monte e de lá proclamou as suas bemaventuranças. Não foi um monte tão alto como o Sinai, mas tb ele não precisou receber de ninguém as tábuas da lei, porque estas ele já trazia consigo. E ao invés de 10 mandamentos, temos 8 bemaventuranças. E ao invés da linguagem imperativa e proibitiva (não tomar o santo nome em vão, não matar, não jurar falso testemunho...), temos a linguagem exortativa e estimuladora: felizes são os pobres, felizes são os mansos, felizes são os misericordiosos... Em vez de um Javeh terrível e amedrontador, temos um Cristo amoroso e pacífico.

Todas as bemaventuranças começam com a palavra grega 'makárioi', que foi traduzida em latim por 'beati' e em português por 'felizes' ou 'bemaventurados'. Mas esta tradução não alcança o sentido mais original da palavra grega 'makários (singular), makárioi (plural)'. De fato, makários = feliz gramaticalmente falando, ou seja, a tradução está literal. Ocorre, porém, que os gregos diziam que os seus deuses eram 'makárioi', portanto, a felicidade contida na palavra makários não é apenas aquela felicidade comum, terrena, passageira, é a felicidade própria dos deuses, intensa, elevada, duradoura. Daí que o conceito de makárioi no sermão da montanha guarda correlação com o conceito paulino de santos (no texto de Romanos, a palavra grega é 'agíoi'=santos), que nós poderíamos dizer ser o correlato de makárioi dos deuses pagãos para o universo cristão.

Como veem, meus amigos, Paulo nos chama de santos por antecipação, segundo ele, nós somos 'chamados de santos', ou seja, nós somos convocados para a santidade. Portanto, o dia de todos os santos e santas de Deus não se refere apenas àqueles e àquelas que foram alçados às honras dos altares, mas a todos aqueles e aquelas que, com seu exemplo e com o seu seguimento a JC, deram ou estão ainda dando seu testemunho de santos em potencial. E a receita para chegar à santidade plena está dada na lista das bemaventuranças: pobreza, sofrimento, mansidão, misericórdia, promoção da paz, pureza de coração... é este o testemunho que JC espera de nós e este o compromisso que nós assumimos de realizar quando fomos banhados no sangue de Cristo no nosso batismo.

31º DOMINGO COMUM – PEDRA DE TROPEÇO - 30.10.2011



Caros Confrades,

Nas leituras deste domingo (30.10.2011), 31º comum, a liturgia vai buscar no profeta Malaquias uma expressão forte para os casos em que nós não damos exemplo da nossa fé cristã: a pedra de tropeço. Tem um canto penitencial, cuja melodia é muito bonita, talvez vcs conheçam, no qual o segundo verso diz assim: "quem não te aceita, quem te rejeita, pode não crer por ver cristãos que vivem mal..." pois é, quando nós cristãos vivemos mal, isto é, quando não damos exemplo da nossa fé, nós não apenas claudicamos, mas ainda fazemos com que os fracos na fé se tornem ainda mais descrentes. Isso acontece, de uma forma mais pesada e com consequências mais prejudiciais, quando quem dá o mau exemplo é alguém da hierarquia eclesiástica ou alguém que muito frequenta as celebrações religiosas.

Na primeira leitura (Malaquias, 1, 14), o profeta se dirige com veemência aos sacerdotes do seu tempo: vós vos afastastes do cumprimento da lei e fostes, para muitos, pedra de tropeço, por isso sobre vós cairá a maldição. Cada um que é desonesto com o seu irmão viola o pacto dos nossos pais. Provavelmente, o profeta recriminava os sacerdotes idólatras do seu tempo, fato que se vê repetidas vezes nas leituras do Antigo Testamento. Contra eles, se dirigia a ira de Javeh.
No evangelho de Mateus (23, 1), JC se dirige ao povo com a mesma indignação contra os mestres da lei e aos fariseus: façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem. Eles têm autoridade para interpretar a lei, e vcs devem ouvi-los, mas não os imitem, porque colocam pesados fardos nos ombros dos outros, enquanto eles não ajudam nem com a força de um dedo. Fazem de tudo para serem vistos, usam franjas nas roupas, gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e ocupam os primeiros lugares nas sinagogas...

Meus amigos, preocupa-me muito quando vejo cristãos que colocam o terço mariano pendurado no espelho dos veículos, colocam adesivos com mensagens religiosas nos carros, usam medalhas ou crucifixos pendurados no pescoço, que logo chamam a atenção... Desculpem-me, não estou dizendo que isso é incorreto, a minha preocupação é que essa aparência não condiga com a vida prática de quem assim faz. Colocar em exposição o terço e não rezá-lo, expor mensagens de cunho religioso e não vivenciar aquilo, exibir a cruz de JC e não se dispor a praticar a caridade, a tudo isso me parece incidir a exortação de JC aos fariseus: colocam pesados fardos nas costas dos outros, mas eles próprios não ajudam a mover nem com um dedo. É o mesmo que dizer e não praticar. Vale a advertência de JC: ouçam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem.

Esse mau exemplo se torna ainda mais pernicioso quando provém de um sacerdote, de um(a) religioso(a), de um(a) leigo(a) engajado(a). Infelizmente, vez por outra vemos ou ouvimos falar de ações desse tipo. O efeito nocivo se potencializa, porque dessas pessoas a comunidade espera um compromisso ainda maior. É quando se tornam verdadeiras pedras de tropeço, relembrando a expressão do profeta Malaquias.

E JC continua, no evangelho de Mateus (23, 8), a ensinar como deve ser o exemplo da vida do cristão: quanto a vós, não queirais ser chamados de mestres ou guias, não sentem nos primeiros bancos, aquele que quiser ser o maior, deve ser maior no serviço, deve servir mais. Com isso, JC está nos dando o antídoto para qualquer tentação de orgulho ou soberba: o serviço. O maior deve ser aquele que serve mais, aquele que mais se dispõe ao serviço dos irmãos. Foi aquilo que JC fez na última ceia, quando lavou os pés dos discípulos, exercitando o serviço mais humilde que se prestava a um peregrino naquele tempo de longas caminhadas a pé: lavar os pés do visitante. Naturalmente, não somente nesta ocasião que JC deu o exemplo do serviço, mas em todas as vezes que alguém tentava aclamá-lo ou glorificá-lo. Quando praticava um milagre, dizia logo: não diga isso a ninguém. O exemplo da última ceia foi o que Ele quis deixar marcado como o mais simbólico de todos.

Nosso Seráfico Patriarca foi um grande imitador de JC nesse ponto do serviço: ele estava sempre ao serviço dos irmãos. Nunca aceitou honrarias, nem mesmo quis exercer aquela função que, pelas próprias circunstâncias de fundador da comunidade, lhe cabia: o dirigente. O seu compromisso era estar sempre disposto a servir a quantos o procuravam.

Não sei se acontece isso que vou citar com todos vcs, mas comigo acontece com frequência. Quando as pessoas sabem que estudei no seminário, vêm fazer perguntas sobre religião ou pedir opinião sobre determinadas situações de cunho moral. A comunidade espera das pessoas que tiveram esse acesso privilegiado aos ensinamentos religiosos (sacerdotes ou não) uma tomada de posição mais abalizada sobre assuntos pertinentes a esses temas. E tb as pessoas observam mais o nosso comportamento, quando sabem desse nosso passado. Assim, o nosso compromisso comunitário de não sermos pedras de tropeço para os irmãos, assim como o nosso compromisso com o serviço comunitário deve ser ainda mais cuidadoso. Não devemos atrair para nós a ira com que JC falou dos fariseus: façam o que eles dizem, mas não os imitem.

Que Deus nos ajude na fidelidade ao nosso compromisso de cristãos.

30º Domingo Comum - Mandamentos da Lei - 23.10.2011


Caros Confrades

Nas leituras deste domingo (30º comum), o tema das leituras se concentra nos mandamentos da lei: amar a Deus, amar o próximo.

Na primeira leitura, do livro do Êxodo (22, 20), Moisés adverte o povo para (1) não oprimir o estrangeiro, (2) não maltratar as viúvas e os órfãos. No primeiro caso, porque eles tb foram estrangeiros no Egito, ou seja, já passaram por isso e sabem como é; no segundo caso, porque os oprimidos vão recorrer a Javeh e a Sua ira cairá sobre os ofensores e eles morrerão à espada e suas mulheres ficarão tb viúvas e seus filhos, órfãos, isto é, ficarão na mesma situação dos ofendidos. É interessante lembrar que essa é uma característica de Javeh, no AT, o Deus vingativo, carrasco, que não tem piedade dos que lhe são infiéis, dos que não seguem a Lei.

Em outra maneira de ler esse texto do Êxodo, podemos vislumbrar aí o mandamento do amor ao próximo, nas pessoas daqueles mais fragilizados da sociedade, dos mais pobres e excluídos, que são justamente os estrangeiros, as viúvas e os órfãos. Javeh está indiretamente dizendo que o respeito ao próximo, sobretudo aos mais pobres, é parte integrante do cumprimento da sua promessa ao povo. Aquele que pensa que cumpre a Lei mas não acolhe o estrangeiro, a viúva, o órfão, então não está cumprindo a Lei.

No evangelho de Mateus (22, 34), lemos o conhecido diálogo entre JC e os fariseus sobre qual o maior mandamento da Lei. Os fariseus, considerados puros, eram tidos pelos outros e eles mesmos se consideravam os verdadeiros cumpridores da Lei. Só que, no entendimento dos fariseus, a Lei tinha mais de 600 preceitos. Eles haviam detalhado toda a Torah em preceitos dados por Javeh e tinham como objetivo saber de cor todos eles. Então, na tentativa de apanhar JC em algum deslize, foram perguntar a Ele qual era o maior mandamento da Lei. Primeiro, porque queriam saber se JC conhecia todos os seiscentos e tantos preceitos. Segundo, porque dependendo do que JC respondesse, isso poderia ser motivo de alguma acusação contra ele por descumprimento da Lei.

Então, mais uma vez, JC tem uma saída magistral. Ele nem foi discorrer sobre os preceitos da Lei, na verdade, Ele os resumiu em dois mandamentos fundamentais: o primeiro e o maior de todos, amar a Deus sobre todas as coisas; e o segundo é semelhante a este, amar o próximo como a si mesmo. Nestes dois mandamentos, estão resumidos toda a Lei e os Profetas. E os fariseus, outra vez, ficaram sem ter o que responder.

Na sequência deste texto, JC irá dizer ao povo: ouvi tudo o que os fariseus ensinam e cumpram, mas não façam o que eles fazem. Pois eles dizem, mas não fazem, colocam pesos enormes nas costas dos outros, mas nada sobre eles. Louvam-me com os olhos, mas seu coração está longe de mim.

Meus amigos, esse era o grande engodo dos fariseus. Preocupavam-se muito com os preceitos da Lei, mas só pra cobrar isso dos outros, não para praticar. Passavam o tempo a vigiar e acusar aqueles que não cumpriam, mas eles próprios não faziam isso. Nós precisamos nos vigiar pra não fazer igual aos fariseus, preocupando-nos mais com a vida dos outros do que em dar o exemplo de vida cristã. Depois, não adianta ficar só no conhecimento dos preceitos, se não os põe em prática. Quanto maior for a quantidade de normas, mais complicado o seu cumprimento. Por isso, pra facilitar, JC resumiu em dois, fáceis de memorizar e elementares para cumprir. E quem os cumpre, cumpre todo o resto.

Quando eu penso nisso, fico preocupado com a quantidade de normas produzidas pela nossa santa Hierarquia eclesiástica. Hoje mesmo, eu estava lendo na internet uma matéria sobre a beatificação de João Paulo II e as normas pertinentes à celebração da sua festa, que é marcada para o dia 22 de outubro (ontem). Para que um templo religioso seja dedicado a ele (João Paulo), não basta alguém construir e colocar ali uma imagem dele. Será necessário que a CNBB ou o Bispo solicite ao Papa, para que este baixe um Decreto autorizando. E tem outras regras sobre como inserir na celebração da missa a sua memória, etc... pois bem, preocupa-me essa multiplicação de regras burocráticas da nossa Igreja.

Ontem, eu soube de um casal que já namoravam há bastante tempo e resolveram casar, então no espaço de uma semana, prepararam tudo, o casamento foi hoje pela manhã. Então, eu perguntei: mas uma semana não é tempo suficiente, como eles fizeram os proclamas (os conhecidos 'banhos' do casamento)? Daí, me disseram: eles não são católicos, são protestantes, lá não tem isso. Fico pensando se o excesso de regras vigentes na Igreja Católica não vai contra a simplicidade com que JC resumiu todos os mais de 600 preceitos dos fariseus. Será isso realmente necessário? Com todo o respeito às nossas autoridades, mas fica-me parecendo que há uma contradição com o ensinamento de JC.

Hoje eu li tb, numa lista da qual faço parte, a seguinte questão: o Pároco viajou de férias (só isso eu já achei estranho, mas é um direito dele sair de férias) e a comunidade ficou sem pastor. Um grupo de fiéis está conduzindo as celebrações da palavra. A pergunta da pessoa era: pode o leigo fazer homilia numa celebração onde o padre não está presente? E citou lá uns cânones do Direito Canônico sobre isso dizendo que não podia, só se for um diácono. Ora, meus amigos, como ficaria uma celebração da palavra sem a homilia? E o 'sacerdócio leigo' no qual somos inseridos pelo batismo, enquanto povo de Deus, não vale pra nada? Vai-se buscar um cânon pra dizer que o líder comunitário está errado, porque fez uma homilia sem ser diácono? Será essa preocupação verdadeiramente pertinente? E essa pergunta logo neste domingo em que, na leitura de Mateus, JC rebate os fariseus pelo excesso de preceitos legais... nao estaremos repetindo a mesma coisa que JC condenou!!??

Então, meus caros confrades, o maior mandamento da Lei não é um só, são dois. Isso pode ser impossível gramaticalmente falando, mas no ensinamento de JC é assim: o primeiro e maior é amar a Deus; o segundo é semelhante ao primeiro, amar o próximo. Ora, se o segundo é semelhante ao primeiro, então os dois são primeiro, não tem um maior que o outro. Na verdade, não se pode cumprir um só; ou se cumprem os dois, ou não se cumpre nenhum. Esse é desafio que JC coloca para nós.