domingo, 12 de agosto de 2012

COMENTÁRIO LITÚRGICO - 19º DOMINGO COMUM - O PÃO VIVO - 12.08.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 19º DOMINGO COMUM – O PÃO VIVO – 12.08.2012

Caros Confrades,

A liturgia deste 19º domingo comum nos convida a refletir sobre o pão vivo descido do céu, aquele que é penhor da vida eterna.

O pão vivo do Novo Testamento (Jesus Cristo) está prefigurado naquele pão especial com que o anjo alimentou Elias, no deserto, o qual lhe deu sustança para caminhar durante quarenta dias e quarenta noites. Contudo, embora fosse especial, este pão do deserto não tinha o condão de preservar quem o come para a vida eterna. É curioso também ver, neste contexto, a referência à simbologia dos 40, muito recorrente na Sagrada Escritura. Conforme já tive oportunidade de comentar antes, os quarenta dias e quarenta noites referidos no texto do Livro dos Reis (1Rs 19,4) não significa literalmente 40 dias matematicamente contados, mas é uma descrição simbólica, para significar que, tendo ingerido aquele pão especial, Elias não sentiu mais fome durante toda a travessia do deserto, até chegar ao monte Horeb (Sinai), para onde se dirigia. Sempre que a simbologia do número 40 está presente na Escritura indica que algo extraordinário e grandioso está por acontecer. Assim foi com a miraculosa travessia de Elias pelo deserto.

A região atravessada por Elias forma hoje a grande península do Sinai, pertencente ao Estado de Israel, arrebatado ao Egito naquela que é chamada a 'guerra dos sete dias', ocorrida em 1967. Com a anexação desse território, o Estado de Israel ganhou uma saída para o Mar Mediterrâneo, e portanto, para o Oceano Atlântico, sem ter de circular todo o Mediterrâneo em busca da passagem única do Estreito de Gibraltar. Esses territórios bíblicos, desde sempre, foram objeto de intermináveis contendas e ainda hoje a paz não se fixa por ali. Vejamos que Elias, tendo vivido no século IX antes de Cristo, já não conseguia ter paz ao atravessar aquela região naquele tempo.

É importante salientar que o nome Elias significa “Javeh é meu Deus” e este profeta teve um papel importantíssimo na defesa do monoteísmo hebraico, na época em que o povo hebreu passava por um período de marcante sincretismo religioso. A missão do Profeta, ordenada por Javeh, era trabalhar junto às comunidades, para que abandonassem os deuses pagãos e retornassem ao seu único Deus, Javeh. Ocorre que Elias estava por demais desgastado com a dureza do coração dos hebreus. Passando de aldeia em aldeia anunciando a ordem de Javeh, não notava adesão por parte dos seus coirmãos de fé. Elias entrou numa verdadeira crise existencial. Parecia que Javeh estava passando para ele uma missão impossível. Além da incredulidade do povo, o cansaço físico e a dificuldade de se alimentar, porque ele não era bem recebido por onde andava.

No meio dessa crise, atravessando uma região deserta, padecendo em consequência da fome e da descrença dos hebreus, Elias surtou. Deitou-se no chão na sombra do junípero e disse a Javeh: agora basta, Senhor, podeis tirar a minha vida, eu não tenho forças para cumprir a missão que me destes. Foi quando o anjo lhe trouxe a primeira refeição de pão assado sob as cinzas, que ele comeu, e depois trouxe outra porção e ele comeu de novo. Pronto. Com este alimento, Elias não teve mais fome nem cansaço e pôde terminar sua tarefa, percorrendo toda a região do Sinai.

Nas primeiras linhas, eu escrevi que o pão deu a Elias a sustança necessária para caminhar no deserto. Eu acho curiosa essa palavra 'sustança' criada pelo nosso povo simples, uma corruptela da palavra erudita substância. Feijão é comida que dá sustança, cuscuz é comida que dá sustança, carne é comida que dá sustança... o nosso povo sabe o valor dos alimentos. Tão interessante seria se os nossos pastores soubessem melhor aproveitar o linguajar do nosso povo para transmitir a doutrina cristã nas homilias, em vez de ficarem a repetir slogas e chavões, geralmente de cunho moralista. A observação cuidadosa e diuturna do modo de falar do nosso povo simples é sempre uma escola de vida, que pode ser aproveitada para a evangelização. Foi assim que José de Anchieta e os primeiros Jesuitas conseguiram evangelizar os nossos índios, aprendendo o idioma deles e doutrinando-os em sua própria língua. Quanto esforço isso custou ao jovem religioso, que chegou ao Brasil ainda como diácono e tão bem soube se integrar na cultura dos nossos índios.

Pois bem, no evangelho, Jesus fala em sua cidade natal que Ele é o pão descido dos céus. Pra que ele disse isso... os conhecidos ficaram logo a cochichar entre si: não é Ele o filho de José e Maria? Como ele diz que desceu do céu? É isso mesmo, ninguém consegue ser profeta na sua própria terra, nem Cristo conseguiu isso. Foi difícil pra ele explicar aos conterrâneos que ele é o pão vivo descido do céu e quem comer deste pão não morrerá eternamente. Teve de justificar que somente aqueles a quem o Pai atraiu poderá reconhecê-lo como pão do céu. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai.” (Jo 6, 44) Ou seja, era necessário que os seus conterrâneos conhecessem o Pai através dos ensinamentos de Jesus, para que então pudessem entender a que tipo de pão Ele estava se referindo.

E Jesus aproveitou para dizer que os antepassados deles haviam comido outro pão descido do céu, quando estavam no deserto, todavia não era aquele tipo de pão o que ele trazia, porque o pão do deserto não livrava da morte eterna. Já o pão vivo, que era ele próprio, este recompensa com a vida eterna quem com ele se alimenta. Lembrando-nos dos domingos anteriores, em que comentei aqui outras passagens evangélicas com essa mesma temática do pão, fiz referência a que o pão vivo, que é Cristo, não alimenta apenas o corpo material, mas também a alma espiritual, daí porque Ele produz como resultado a vida eterna. Aquela multidão que buscou Jesus após o milagre da multiplicação dos pães buscava tão somente, outra vez, o pão material e Jesus fê-los ver que o pão que alimenta o corpo não pode estar separado do pão que alimenta o espírito.

Desse modo, o pão vivo, que é Cristo, não é apenas a sua carne por ele entregue para a vida do mundo. É necessário que o pão=carne seja consumido juntamente com o pão=palavra, com a mensagem de sua doutrina. A catequese que se desenvolveu no Brasil ao longo do tempo não foi capaz de demonstrar ao nosso povo a necessidade de unir essas duas dimensões do pão do céu (corpo de Cristo): a palavra e a eucaristia. Sempre foi mais enfatizada a obrigação de comungar, porque com a comunhão, nós nos unimos ao próprio Cristo, Ele ingressa no nosso ser. Sem dúvida, isso é verdade. No entanto, aqui temos apenas a metade do seu ensinamento. Para que este pão eucarístico produza o efeito que Cristo prometeu (“quem come deste pão viverá eternamente”) é necessário unir a comunhão com o cumprimento dos mandamentos de Cristo (“amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”), com a ingestão do pão da palavra, pelo qual o espírito se alimenta e fortalece.

A participação no sacramento da eucaristia, quando não é acompanhada da prática dos ensinamentos de Cristo, equivale àquela advertência de Paulo de que não se deve comer e beber indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo (1Cor 11,27). Tradicionalmente, sempre se ensinou que isso ocorre com quem vai comungar sem ter-se confessado antes. Ao meu ver, come e bebe indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo quem dissocia o pão da eucaristia do pão da palavra, porque o pão vivo, que é Cristo, se completa com essas duas funções. Foi isso que Ele ensinou, nas diversas passagens que lemos nos últimos domingos, em que a temática do pão vem sendo repetida e reforçada. Jesus somente deu o pão da sua carne aos Apóstolos na última ceia, depois de passar três anos instruindo-os com o pão da palavra. Ele afirmou, por várias vezes, que quem comesse da sua carne teria a vida eterna, todavia, ele só demonstrou como seria isso após todo o período de catequese dos Apóstolos, quando eles já haviam absorvido suficiente quantidade dos seus ensinamentos.

Que o Divino Mestre nos ensine a reconhecer a nossa missão, assim como aconteceu com Elias, e nos abasteça para ela com o pão vivo descido do céu.


domingo, 5 de agosto de 2012

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 18º DOMINGO COMUM – O PÃO DO CÉU – 05.08.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 18º DOMINGO COMUM – O PÃO DO CÉU – 05.08.2012

Caros Confrades,

A liturgia deste 18º domingo do tempo comum nos convida a refletir sobre o pão do céu, oferecendo a leitura de Exodus (16, 2) como início desse tema. O maná, que o povo recolhia no deserto todos os dias, era o símbolo do verdadeiro Pão do céu, deixado a nós por Cristo.

Um comportamento característico do povo de Deus em marcha pelo deserto era a infidelidade a Javeh, através da simpatia para com os ídolos dos pagãos. Por causa disso, Javeh os castigava deixando-os com fome. Quando eles foram se queixar a Moisés, dizendo que era melhor ter ficado como escravos no Egito, porque pelo menos lá não faltava comida, Javeh respondeu, através de Moisés, que eles iriam comer carne ao anoitecer e pão ao amanhecer, e assim identificariam que era o Senhor que estava providenciando os alimentos. Diz o texto bíblico que, ao entardecer, um banco de codornas chegou ao acampamento, de modo que eles puderam capturá-las e comer carne em abundância; e ao amanhecer, um denso orvalho foi aos poucos se transformando em grãos sólidos, os quais foram usados para fazer pão. Javeh cumprira sua promessa.

Sabemos que, alguns dias depois, o povo foi novamente se queixar a Moisés, porque estavam enjoados de comer aquilo todos os dias, ou seja, o povo estava sempre insatisfeito, sempre a provocar a ira de Javeh, sempre buscando uma desculpa para justificar as suas infidelidades e o seu descumprimento da lei. Se observarmos bem, nos dias de hoje, essa mesma situação continua a se repetir, os cristãos muitas vezes têm esse mesmo comportamento inconstante e interesseiro, e a misericórdia divina continua a agir sempre perdoando, como foi no passado.

Na leitura do evangelho, retirado de João (6, 24), temos a sequência do milagre da multiplicação dos pães. Após haver sido saciado com o alimento miraculoso, os judeus saíram em massa a procurar por Cristo, até encontrá-Lo do outro lado do mar da Galiléia. Ao ver aquela multidão se aproximando, Jesus demonstrou certa irritação: “estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos” (Jo, 6, 26), parecia que o povo estava mais interessado na comida do que nos ensinamentos de Jesus. Então, ele recordou a todos o fenômeno miraculoso do maná no deserto, cuja descrição era de todos conhecida: “não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu.” (Jo, 6, 32) Jesus faz aí um jogo de palavras para depois concluir que Ele é o verdadeiro Pão do céu, antecipando o que Ele iria fazer na última ceia. “'Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede.” (Jo 6, 35).

Naturalmente, os ouvintes de Jesus não atinaram para o alcance do que Ele estava a anunciar, nem os próprios apóstolos entenderam naquele momento, vindo a compreender somente quando Jesus celebrou a ceia com eles. Os judeus pediram: Senhor, dá-nos sempre deste pão, mas o que eles imaginavam era um pão material, daqueles que se come mastigando e enche o estômago. Na verdade, Jesus falava-lhes do 'pão da palavra', que Ele estava a distribuir através do seu ensinamento. Para ter acesso ao verdadeiro Pão do céu, é necessário antes aceitar o pão da palavra e pô-la em prática na nossa vida. É neste sentido que Paulo dirá depois que aquele que come a carne e bebe o sangue de Cristo indignamente será réu no inferno. Para ter 'direito' de saborear o verdadeiro Pão do céu, é necessário antes degustar o pão da palavra de Deus, alimento para a alma. Buscar o Pão do céu sem ter-se alimentado antes com o pão da palavra equivale a uma aproximação indigna daquele. E alimentar-se com o pão da palavra não requer apenas ler a Bíblia, porque uma simples leitura não surte efeito.

Eu já tive oportunidade de dizer aqui outras vezes que a Bíblia não deve apenas ser lida, mas deve ser estudada e comentada em grupos. Outra coisa importante: cada livro da Bíblia deve ser lido e estudado conforme suas peculiaridades, porque cada um deles foi escrito por um autor diferente, em épocas e locais diferentes, então não se pode ler, por exemplo, o livro dos Reis com a mesma mentalidade que se lê o profeta Jeremias; ou o livro dos Provérbios com o mesmo espírito com que se lê Macabeus. Embora estejam em sequência, no entanto, os livros da Bíblia não são como capítulos de um livro, no qual o assunto de um tem continuidade no outro. Não deve ser assim, mas cada livro deve ser estudado e aprofundado, antes de se passar para o próximo. Algum de vocês poderia perguntar como é possível realizar isso, e eu direi: há duas maneiras. Uma delas é inscrever-se num curso bíblico, seja presencialmente, seja pela internet, há várias ofertas. A segunda maneira é buscando nas livrarias católicas o estudo correspondente. Nas livrarias Vozes, Paulus, Paulinas encontram-se livros sobre cada livro da Bíblia, de modo que cada um pode, com autodidatismo, aprender a ler a Bíblia da forma correta, não como se lê uma revista ou uma obra de literatura.

Na segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Efésios (4, 17), lemos uma mensagem que complementa a reflexão que fizemos antes, acerca do pão do deserto ou o pão do céu do antigo testamento e o verdadeiro Pão do céu, trazido pessoalmente por Cristo. Paulo exorta os Efésios a despojarem-se do homem velho, que se corrompe sob o efeito de paixões enganadoras, e a renovarem o espírito e a mentalidade. Completando, diz ele: “Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.” (Ef 4, 24). O homem velho, referido por Paulo, é aquele que comeu o pão caído do céu no deserto, que alimenta apenas o corpo e com pouco tempo deixa enjoado o paladar, levando a buscar outro alimento. O homem novo é o que se alimenta do pão da palavra e do pão da eucaristia, alimentos que abastecem a alma e o corpo e que nunca deixarão enjôo no paladar e, portanto, nunca trarão a vontade de buscar outro alimento.

Ao comentar isso, eu não estou querendo dizer que é necessário ir à missa todos os dias ou até mesmo ler a Bíblia todos os dias, porque isso seria raciocinar mecanicamente, como fizeram os judeus com o pão dado no deserto. É claro que, se alguém tem tempo disponível e devoção suficiente para ir à missa todos os dias, tanto melhor que o faça. Mas não apenas estes estarão se alimentando adequadamente, porque o verdadeiro Pão do céu (palavra + eucaristia) não deve ser associado a situações temporalizadas. A Igreja manda que se assista à missa aos domingos e dias santificados, mas essa é uma regra administrativa prática. Com efeito, Cristo nunca falou com que frequência o Pão deve ser consumido nem estabeleceu datas e horários para se celebrar a eucaristia. Ele também não disse: tomai e comei todos os dias, ou todas as semanas, ou todos os meses... Ele simplesmente disse: tomai e comei... tomai e bebei... deixando a cada um a tarefa de estabelecer o seu tempo útil e necessário.

Mais uma coisa. Nesses tempos de informatização e de internet, nós não precisamos andar com a Bíblia debaixo do braço, como fazem alguns irmãos separados, pois ela está acessível em qualquer computador a qualquer momento. Quem nunca fez isso, coloque no mecanismo de busca a palavra 'liturgia diária', vão aparecer inúmeras opções para quem quiser fazer a sua leitura diária, ali mesmo na hora em que está trabalhando, lendo e-mails, lendo notícias, etc, a Palavra está ali junto, basta um clique para achá-la. A título de sugestão, eu gosto de seguir o link da CNBB (www.cnbb.org.br – liturgia diária). Não demora que dois ou três minutos para que possamos tomar o nosso alimento espiritual, preparando-nos para a eucaristia.

Que o divino Mestre nos ensine e nos ajude a buscar o verdadeiro Pão trazido diretamente por Ele, a mando do Pai, e nos faça sempre mais integrar esses ensinamentos na nossa vida cotidiana.


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 17º DOMINGO COMUM – A PARTILHA DO PÃO – 29.07.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 17º DOMINGO COMUM – A PARTILHA DO PÃO – 29.07.2012

Caros Confrades,

A liturgia deste 17º domingo comum nos incentiva a fazer a partilha do pão, simbolizando neste todos os dons que alimentam a vida, tanto a vida corporal quanto a vida espiritual.

Na primeira leitura, retirada do Livro dos Reis (2Rs 4,42), o hagiógrafo relata um fato miraculoso operado pelo profeta Eliseu vários séculos antes de Cristo, como que antecipando o futuro milagre que seria realizado pelo Messias. Eliseu recebeu de presente 20 pães, mas não os comeu. Era época de muita fome na região e ele mandou que fossem distribuídos para o povo. Porém o seu assistente ficou preocupado: como vou distribuir tão poucos pães para cem pessoas famintas? Ele, prudentemente, deve ter logo imaginado o tumulto que isso iria ocasionar e as brigas entre as pessoas disputando os pedaços, podendo até ocorrer agressões e ferimentos. Mas o Profeta o tranquilizou: O Senhor disse – comerão e ainda sobrará. E assim foi.

A imagem do pão está sempre presente em diversas passagens bíblicas, seja do antigo seja do novo testamento, porque o pão sempre foi e continua sendo o alimento básico do ser humano. Feito de trigo, de milho, de mandioca, de batata, daquela massa que for mais abundante na região, o pão é um alimento que acompanha o ser humano desde os primórdios da vida em comunidade. Por causa da sua importância cultural, o pão é figura simbólica para significar os diversos dons que acompanham a vida humana, além da simples satisfação da fome física. O saciamento da fome induz ao bem estar, à alegria, à boa convivência, faz elevar o espírito para as realidades sobrenaturais, então o pão é muito mais do que um alimento material, é um verdadeiro mantenedor do ser humano. Foi por esse motivo que Cristo, quando quis deixar um sinal perpétuo da sua presença no meio da humanidade, adotou o símbolo do pão, transformando a si mesmo em pão da vida.

É importante frisar que o pão oferecido por Cristo aos apóstolos, pelo qual Ele também se transformou em pão da vida, era o pão comum, aquele que as pessoas comiam regularmente, o pão básico da vida social. Todos nós conhecemos o texto de São Paulo aos Coríntios (1Cor 11,27), no qual o apóstolo adverte para que as pessoas comam e bebam o corpo e o sangue de Cristo de forma digna, porque nos primeiros tempos do cristianismo, o pão consagrado e transformado no corpo de Cristo era o pão comum, então as pessoas comiam o pão consagrado e bebiam o vinho consagrado em tamanha quantidade que ficavam fartos embriagados, ou seja, a comunhão era verdadeiramente um banquete de pão e vinho. Por causa disso e por outras razões históricas, o pão eucarístico foi transmudado numa pequena partícula, que perde em grande parte o simbolismo original dado por Cristo ao alimento básico do homem para o corpo e para o espírito. Hoje em dia, quando se fala em banquete eucarístico, estamos usando uma pura figura de estilo, enquanto na antiguidade, tratava-se de um verdadeiro banquete, no sentido próprio da palavra.

Pois bem, a cena protagonizada por Eliseu no AT foi revivida por Cristo, nas vésperas da Páscoa dos judeus, quando Ele aplicou a mesma clássica imagem do pão, novamente multiplicado, para saciar a fome daqueles que estavam a ouvi-lo e preparando o espírito dos apóstolos para a ceia derradeira, na qual além de distribuir o pão, Ele próprio se transformaria neste alimento. E usando de notável bom humor, Jesus mesmo já sabendo o que iria fazer, fez um desafio a Felipe: onde iremos arranjar pão pra esse povo todo comer? E Felipe foi na onda: Nem duzentas moedas de prata seriam suficientes para dar um pedaço de pão para cada um. Dá pra se imaginar que duzentas moedas seria uma quantia considerável, talvez até o total que Judas carregava na mochila que lhe servia como caixa forte. Foi quando André acudiu: tem ali um rapaz com cinco pães e dois peixes, mas de que adianta, não dá pra nada... Era a dica que Jesus esperava. Mandou o povo sentar, abençoou os pães e os peixes e os distribuiu para mais de cinco mil pessoas. E todos comeram até ficarem saciados e ainda sobraram doze cestos com os pedaços deixados. O texto não faz referência se os peixes estavam crus, cozidos ou fritos, provavelmente estavam crus. Na nossa cultura, não é o que se chamaria de um apetitoso alimento comer pão com peixe cru, mas certamente essa iguaria era costumeira entre os habitantes das proximidades do lago de Genesaré ou Mar da Galiléia.

Pois bem, nessa simples descrição do evangelista João (Jo 6, 1-15), podemos observar alguns detalhes interessantes. Primeiro, a preocupação de Jesus com a fome daquelas pessoas. As pessoas não foram se queixar para Ele, ao contrário, estavam ali para ouvi-Lo. Mas Jesus sabia que, sem a alimentação devida, a mente não funciona, a concentração não ocorre, o aprendizado é nulo. Então, antes de alimentar o espírito, é necessário alimentar o corpo. Isso significa que a Igreja não pode se descuidar da promoção social dos fiéis, da melhoria das suas condições de vida e de trabalho, ou seja, não compete às autoridades religiosas apenas celebrar missas e oficiar os sacramentos, mas juntamente com isso, há a preocupação com a vida material. E como todos nós sabemos, essa preocupação faz parte integrante da atividade política. Por isso, não há como dissociar política e religião, como alguns católicos insistem em dizer. Política e religião são duas atitudes inseparáveis e complementares. Inexplicavel e até contraditoriamente, o Código de Direito Canônico proíbe os presbíteros de exercerem a política partidária, mas a atividade política geral é inseparável do pastoreio religioso.

Outro detalhe que importa destacar é que o milagre de Jesus foi possibilitado pela presença de um rapaz trazendo cinco pães e dois peixes. Ele poderia ter feito o milagre independentemente disso, podia ter transformado até pedras em pão ou ter feito cair pão das nuvens, mas Ele não quis assim. Isso significa que Deus prefere agir por nosso intermédio, com a nossa colaboração, mesmo para fazer as coisas mais extraordinárias. Muitas vezes, Deus se serve de um coirmão ou coirmã nosso(a) para operar prodígios e, portanto, pode servir-se de nós também. Portanto, nós precisamos estar sempre disponíveis para Deus agir por nosso intermédio, através da nossa fé operante, através do nosso exemplo e do nosso testemunho. Muitas vezes, nós nem percebemos, mas as nossas atitudes estão sendo percebidas por outras pessoas e o nosso bom exemplo pode estar sendo decisivo para que um irmão, momentaneamente fraco na fé, ganhe força e supere um obstáculo na sua vida. Se deixarmos Deus agir por meio de nós, nós também poderemos ser esses agentes transformadores, sem que isso necessariamente cause em nós canseira ou preocupação. Na nossa vida cristã cotidiana, as nossas atitudes normais de cada dia podem se transformar em importantes instrumentos divinos para a realização de obras valiosas na sociedade.

Um terceiro detalhe a observar é a preocupação de Jesus com os pedaços que sobraram, mandou que fossem recolhidos para não se estragarem. Com isso, ele nos ensina a não esbanjar, a não abusar dos dons naturais que possuímos, dos frutos que a terra e a indústria humana produzem. O que sobra na nossa mesa pode estar faltando na mesa do nosso irmão carente. Ou seja, Jesus nos ensina a evitar o consumismo, o esbanjamento, o supérfluo e a saber distribuir aquilo que temos em excesso. Naquela época, Jesus já demonstrava uma preocupação que hoje está na mente de todos os governantes e das pessoas esclarecidas: o cuidado com o ambiente, a proteção da natureza, o zelo pela nossa habitação comum, o nosso planeta. O nosso Messias foi também ecológico.

Que o divino Mestre nos ajude a distribuir e a partilhar, ensinando-nos que fartura não é sinônimo de esbanjamento e desperdício, abrindo o nosso coração para repartir o nosso pão com os mais necessitados.


domingo, 22 de julho de 2012

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 16º DOMINGO COMUM – BONS PASTORES – 22.07.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 16º DOMINGO COMUM – BONS PASTORES – 22.07.2012

Caros Confrades,

A temática das leituras litúrgicas deste 16º domingo comum retomam a figura do pastor – bons pastores e maus pastores. E a memória litúrgica deste dia 22 de julho é dedicada a Maria Madalena, aquela que foi a grande confidente de Cristo e líder de uma laboriosa comunidade, nos primeiros tempos do cristianismo.

Na primeira leitura, o profeta Jeremias (23, 1-6) lamenta pelos maus pastores: “ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho, diz o Senhor”. E complementa: “virão dias em que farei nascer um descendente de Davi, que reinará com sabedoria e fará valer a justiça e a retidão na terra”. As palavras do Profeta, ao mesmo tempo, se dirigem aos sacerdotes e mestres da lei do seu tempo, que em vez de agregar os servos de Javeh, os levavam à desunião, e em seguida, a Jesus Cristo, descendente de Davi, que viria a ser “o pastor” exemplar, que não deixará as ovelhas se perderem. Infelizmente, as palavras do Profeta fazem eco nos dias de hoje, quando vemos maus exemplos de pastores, que levam à desagregação, em vez de promoverem a união do rebanho. As notícias filtradas pela imprensa acerca de fatos e boatos oriundos do Vaticano nos deixam tristes e preocupados sobre a situação da nossa Igreja e nos conclamam a unir forças, cada um dentro das suas possibilidades, visando a uma necessária e inadiável renovação.

No evangelho de Marcos (6, 30-34), lemos a narração das atitudes de Cristo perante a multidão que não largava do seu pé. “Havia tanta gente chegando e saindo, que não tinham tempo nem para comer”, diz o evangelista referindo-se a Cristo e seus discípulos. Eles então se retiram de barco para um lugar deserto, a fim de descansarem um pouco. Ocorre que a multidão os acompanha ao longe, pelas margens do lago de Tiberíades, e observava para onde eles se dirigiam, de modo que chegou ao local rapidamente e assim, ao desembarcar, Jesus e os apóstolos já os encontram aguardando. Ou seja, nada de descanso para Jesus e os discípulos.

Diz o evangelista que o Mestre, vendo-os assim, longe de censurá-los ou de mandá-los embora, ao contrário, teve compaixão deles porque eram como ovelhas sem pastor. Repete-se, portanto, a temática do profeta Jeremias, acerca dos maus pastores. Do mesmo modo como na época do Profeta, Jesus encontra o povo mal pastoreado, isto é, os sacerdotes e mestres da lei não cumprem adequadamente a sua missão e, ainda por cima, não reconhecem em Cristo o autêntico Pastor enviado pelo Pai. Por isso, mesmo estando fisicamente cansados, Jesus e os discípulos se compadecem daquele povo e Jesus passa a ensiná-los muitas coisas. Na sequência desta leitura do evangelho de Marcos, segue-se o episódio da multiplicação dos pães, que não é abordado neste ensejo. Concentremo-nos no modelo do Bom Pastor.

Conforme Jesus demonstrou com seu comportamento, a missão de evangelizar tem prioridade total e não deve ser adiada nem mesmo quando algumas condições não são muito favoráveis. Analisando certas atitudes dos nossos pastores atuais, vemos quantas vezes o comodismo e a intolerância levam a um desserviço do pastoreio. Lembro de um fato, quando eu era seminarista maior, em Messejana, e chegou uma senhora com uma criança enferma para ser batizada, eu fui atendê-la. Expliquei que o Seminário não era sede da Paróquia e que ela deveria dirigir-se à matriz de Messejana. Ela, então, informou que já vinha de lá e o Pároco dissera a ela que havia horários e datas para batizados, não podia ser a qualquer hora. Ela então foi até o Seminário, porque temia que a criança morresse a qualquer momento. Foi quando eu disse a ela que, naquelas circunstâncias, qualquer cristão batizado poderia realizar o batismo 'in extermis', porém vindo a criança a se recuperar, ela deveria informar isso na Paróquia. Nesse momento ela me pediu: Frei, faça isso pelo meu filho. E eu então tomei um pouco de água da torneira e batizei aquele infante, tendo sido esta a única vez que Deus me concedeu a oportunidade de batizar alguém. E eu fiquei pensando em quantos motivos aquela senhora teria para ficar irritada e falando mal da atitude de mau pastor do Pároco local.

O exemplo que Cristo nos deixou foi exatamente o oposto. Mesmo estando cansado e com fome, ele teve compaixão do povo, acolheu-o e passou a ensinar muitas coisas. Façamos uma breve reflexão sobre a expressão de Marcos dizendo que Jesus “teve compaixão” do povo. Ter compaixão não significa ter pena ou ter dó do coitado. O texto latino de São Jerônimo diz que Jesus “misertus est super eos”, isto é, teve misericórdia sobre eles. A diferença entre ter pena e ter misericórdia é que o primeiro indica um comportamento passivo, de lamento, enquanto o segundo leva a uma atitude, a uma ação concreta no sentido de aliviar aquela situação. Uma coisa é ficar lamentando a situação de alguém e nada fazer (ter pena), outra coisa é verificar a carência de alguém e partir para uma efetiva ação em benefício daquela pessoa (ter misericórdia). Compaixão vem do verbo compadecer, isto é, com+padecer, padecer junto, colocar-se na situação do irmão que sofre não para fazer-lhe companhia no sofrimento, mas para retirá-lo daquele estado. Foi isso o que Cristo fez: vendo a multidão igual a um rebanho seu pastor, não ficou apenas lamentando a situação, mas acolheu a todos e passou a ensiná-los. E na sequência do texto, parte não lida neste domingo, tem aquele episódio da multiplicação dos pães. Jesus não apenas distribuiu o pão da palavra, que alimenta o espírito, mas também distribuiu os pães e os peixes, que alimentam o corpo. Essa é a atitude exemplar de Cristo, no sentido de ter misericórdia do povo.

Analisando essa atitude de Cristo, meus amigos, podemos ver o grande equívoco de alguns católicos que afirmam que a Igreja deve fazer apenas ações espirituais, orações, louvores, adorações, como se o ensinamento de Cristo se resumisse a isso. Muitos grupos católicos se põem contra a chamada 'teologia da libertação', que procura integrar a espiritualidade com a corporalidade, mostrando que o ensinamento de Cristo não se limita à docência doutrinária, mas também alcança o plano material da promoção humana, do apoio às legítimas reivindicações dos trabalhadores, o que torna inevitável unir-se às ações políticas da sociedade. Muitos católicos ainda pensam que para viver a sua religião basta ir à missa aos domingos e rezar o terço todos os dias, sem se preocupar com a situação concreta dos irmãos menos favorecidos. Muitos ainda acreditam que a religião não se mistura com a política, atitude essa que é totalmente favorável àqueles que se eternizam no poder, mantendo-se ali à custa da exploração do povo desinformado. Quando o magistério da Igreja, na conferência de Puebla, assumiu oficialmente o compromisso da opção preferencial pelos pobres, estava cumprindo profeticamente a missão integral da salvação da pessoa humana, deixada por Cristo. No entanto, alguns Prelados, Presbíteros e cristãos apegados ao tradicionalismo se encarregaram de deixar de lado este ensinamento, substituindo-o por um espiritualismo vazio e tendencioso, tudo por conta de alguns exageros que (infelizmente) se verificaram por parte de alguns mais exaltados. Nas últimas décadas, essa atitude de solapar a opção pelos pobres vem se verificando nos critérios para a escolha de novos bispos e nas orientações para a formação de seminaristas, fazendo a nossa Igreja percorrer uma perigosa via de retorno, quando já havia tomado o caminho do progresso.

No evangelho deste domingo, Cristo vem nos chamar a atenção de que não basta cantar halleluyas e bater palmas durante as celebrações, pois isso alimenta o espírito, mas é preciso também, com o mesmo zelo, promover ações efetivas no sentido de distribuir os pães e peixes, que alimentam o corpo. Não devemos retornar ao comodismo de outrora, que levou Karl Marx a afirmar que a religião é o ópio do povo. Não podemos esquecer os ensinamentos do Concílio Vaticano II, que seguiu os bons ventos soprados com o aggiornamento de João XXIII, não podemos reviver o período tridentino. Os nossos Pastores precisam urgentemente acordar dessa letargia ilusória do espiritualismo puro. Os graves episódios do chamado “vatileaks” não podem ser tratados como mera intriga da oposição. A nossa Igreja deve abrir um amplo processo de reinvenção da sua estrutura e dos seus procedimentos, sob pena de maior afastamento dos ensinamentos de Cristo e de maiores perdas de seus fiéis. Que o Espírito Santo sopre com mais força, para ser percebido.


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O ENVIO – 15.07.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM – O ENVIO – 15.07.2012

Caros Confrades,

Neste 15º domingo do tempo comum, o tema litúrgico em destaque é o envio dos apóstolos para pregarem o Evangelho a todos os povos. Numa visão hermenêutica trans-histórica, o mandado do envio se direciona, em primeiro plano, aos discípulos preparados pessoalmente por Cristo, mas num segundo plano, este envio se direciona a todos os discípulos de Cristo, em todos os tempos, alcançando-nos também nos dias de hoje.

A temática do envio encontra-se presente também na primeira leitura, retirada do profeta Amós (7, 12). Conforme está registrado no texto bíblico, o sacerdote do templo de Betel, de nome Amasias, mandou Amós ir profetizar em Judá e lá trabalhar para ganhar a vida, advertindo-o a não profetizar ali em Betel, porque neste local estavam localizados a corte do rei e o templo oficial, onde Amasias era o 'profeta' oficial. Em outras palavras, Amasias estava querendo se livrar de Amós, porque este, a mando de Javé, denunciava a tibieza e a exterioridade da religião oficial de Israel, cujos cultos não agradavam a Javé por causa da ausência de devoção e do excesso de formalismo. A resposta de Amós foi desaforada, como o sacerdote não esperava: eu não sou profeta nem filho de profeta, mas o Senhor me chamou quando eu estava pastoreando o rebanho e me mandou profetizar em israel.

Setecentos anos antes de Cristo, a vocação de Amós antecipava o envio que Ele iria transmitir aos discípulos, num contexto bastante similar, em relação às perseguições e às dificuldades inerentes ao cumprimento da sua missão. Jesus disse aos discípulos que eles deviam pregar em todos os lugares, sem levar nenhum dinheiro, nem alforje, nem muda de roupa, nada, devendo receber o seu sustento pelas pessoas da comunidade. E onde não fossem bem recebidos, deviam sacudir a poeira das sandálias contra eles em protesto. E deu a eles o poder de expulsar demônios e curar doenças.

O profeta Amós, como em geral todos os profetas do Antigo Testamento, são personificações antecipadas dos discípulos que Cristo iria preparar para a pregação do seu Evangelho, da mesma forma que os discípulos de Cristo em todas as épocas passaram a ser os profetas do seu tempo. Como resultado do cumprimento desta missão de envio, nós temos hoje a doutrina cristã presente em todos os recantos do mundo e os continuadores desta missão espalhados em todas as camadas da sociedade. Isto é, os profetas dos nossos dias somos nós, seguidores de Cristo e comprometidos com a nossa vocação de enviados.

Talvez o seguidor de Cristo que pode ser apresentado como modelo mais perfeito do cumprimento desta missão seja o nosso Seráfico Patriarca Francisco de Assis, sem dúvida, um grande profeta do seu tempo. Num momento em que a Igreja de Cristo passava por uma grande influência do secularismo e as suas autoridades estavam sucumbindo às ambições do ter e do poder, bem como às seduções dos pecados capitais, o Senhor tocou o coração de Francisco e o enviou para 'reconstruir' a sua Igreja. Enquanto outros reformadores históricos (como, por exemplo, Lutero) entraram em rota de colisão com as autoridades cujos desmandos denunciavam, Francisco, ao contrário, fez todas as suas ações de forma tranquila e obediente às mesmas autoridades, cujo comportamento atípico ele estava ali para denunciar. E o que Francisco fez? Exatamente aquilo que Cristo mandou, quando enviou os seus discípulos: sem preocupações com a aquisição e acúmulo de bens, sem necessidade de provisões de alimentos nem vestimentas, recebendo da própria comunidade o seu sustento, como fruto do seu trabalho. Todos nós nos recordamos que era isso o que estava contido na 'regra de vida' que Francisco deixou como herança para os seus frades. Por isso, podemos dizer que, se houve alguém que cumpriu fielmente o mandado de Cristo na pregação do Evangelho, este foi Francisco de Assis. Deste modo, o nosso compromisso com o engajamento na missão tem uma dupla fonte. De um lado, o envio de Cristo aos seus discípulos, conforme relatado por Marcos no evangelho; de outro lado, o exemplo modelar de Francisco, de cuja herança nós participamos, através da formação que recebemos no tirocínio da vida franciscana. Seguir a Francisco se equipara a seguir a Cristo, só que com maior entusiasmo e alegria, pois juntamente com o envio, temos o exemplo mais efetivo do seu cumprimento.

Na segunda leitura, retirada da carta aos Efésios (1, 3), Paulo elabora um inspirado hino de louvor ao Pai, que em Cristo nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis, sob o seu olhar, no amor. Vemos que Paulo celebra o dom da vocação que envolve todos os cristãos para serem profetas e evangelizadores, continuadores da missão salvadora de Cristo, através do envio que todos recebemos, como tributo do nosso batismo e da nossa adesão pela fé. Por Ele, nós fomos confirmados no Espírito, segundo o projeto do Pai, que assim nos predestinou para colocar a nossa esperança em Cristo e no seu evangelho da salvação.

Conforme a promessa de Cristo, são inerentes ao envio os poderes de expulsar espíritos malignos e curar os doentes. Estes poderes não devem ser interpretados literalmente, pois este linguajar representa o modo de pensar daquele tempo. Quem interpreta estas palavras no sentido fundamentalista é adepto da prática dos rituais de exorcismo, muito característicos de algumas organizações eclesiais não católicas contemporâneas, que até fazem demonstrações teatralizadas disso através da televisão. Dentro da Igreja Católica, temos essa forma interpretativa no entendimento dos carismáticos, que também simpatizam com as práticas exorcistas. No meu modo de entender, o poder de expulsar demônios deve ser entendido como o poder de vencer o mal, em todas as suas formas de manifestações, principalmente aquelas mais presentes na sociedade contemporânea, materializadas na discriminação de pessoas, na exclusão social, na exploração do próximo através das nefastas práticas capitalistas, que tanta indignação causam ás pessoas de boa fé. E o poder de curar doenças pode ser entendido como a aceitação e a promoção das pessoas mais necessitadas física e psicologicamente, levando apoio e auxílio aos irmãos mais frágeis e vulneráveis. Não existe uma receita ou um padrão de comportamento a ser indicado, mas isso será percebido pela sensibilidade de cada um, perante a sua consciência iluminada pela fé. Pelo batismo, esses poderes nos são conferidos, conforme a promessa de Cristo, e compete a cada um de nós encontrar a melhor forma de po-los em prática na nossa vida, com nossas ações e nosso testemunho.

Que o divino Mestre e o nosso Seráfico Patriarca nos ajudem no fiel cumprimento da missão que Cristo reservou e espera de cada um de nós.


domingo, 8 de julho de 2012

COMENTÁRIO LITÚRGICO – 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – SANTO DE CASA – 08.07.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – SANTO DE CASA – 08.07.2012

Caros Confrades:

A liturgia deste 14º domingo do tempo comum traz, em uma de suas leituras, um tema que casa direitinho com o conhecido ditado popular 'santo de casa não obra milagre'. Outro tema que também está em destaque é o da graça divina suficiente para a salvação, conforme o ensinamento de São Paulo.

No evangelho de Marcos (6, 1-6), lemos que Jesus voltou a Nazaré, sua terra, acompanhado dos discípulos e lá se apresentou na sinagoga, no sábado, para fazer a leitura. Embora Marcos não diga qual foi o texto lido, mas tudo leva a crer que é aquele famoso trecho de Isaías falando sobre o futuro Messias (Lc 4, 21): O Espírito do Senhor repousa sobre mim porque me consagrou para ensinar a boa nova aos pobres... e ao terminar, Jesus completou: hoje se cumpriu essa palavra da Escritura, referindo-se a Ele próprio. Foi então que os fariseus e os sacerdotes se 'escandalizaram' e ficaram se questionando: quem deu a Ele essa autoridade? Ele é apenas o filho do carpinteiro, nós conhecemos sua mãe, seus irmãos e irmãs... E Jesus comentou com os discípulos: nenhum profeta é bem recebido na sua terra (Mc 6, 4).

O verbo 'escandalizar' usado nesse contexto nada tem a ver com o sentido atual dessa palavra, mas significa descrença, não aceitação, incredulidade. Os fariseus se escandalizaram com Jesus quer dizer que não o aceitaram como Messias, não reconheceram n'Ele o prometido por Deus através do profeta Isaías. Chegaram até a insinuar que os prodígios que Ele realizava era porque tinha, como se diz na nossa cultura popular, pacto com o demônio, estava possuído por Belzebu. E por causa da sua falta de fé, completa Marcos (6, 5), Jesus não realizou ali nenhum milagre, passando depois a ensinar pelos povoados vizinhos.

Esta passagem do evangelho, que está em Mc 6 e em Lc 4, é uma das poucas vezes em que Jesus se apresentou claramente como o Messias. Mas os fariseus tinham dificuldade em aceitar isso, porque sabiam da sua origem humilde. Os carpinteiros, os artesãos em geral, não tinham tempo para estudar, para se aprofundar nas Escrituras, portanto, não podiam pregar nem ensinar. Daí porque ficaram a se perguntar: quem deu a Ele tanta sabedoria? Com que autoridade Ele vem nos ensinar? Ou seja, os doutores da lei não admitiam que alguém, que não pertencesse ao grupo deles, fosse ler na sinagoga e explicar a palavra de Deus para eles.

Essa atitude de incredulidade já estava prevista pelo profeta Ezequiel, conforme lemos na primeira leitura deste domingo (Ez 2, 3):  nação de rebeldes, que se afastaram de mim. Eles e seus pais se revoltaram contra mim  até ao dia de hoje. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou te enviar … E depois acrescenta o profeta: Quer te escutem, quer não - pois são um bando de rebeldes - ficarão sabendo que houve entre eles um profeta. Foi por isso que Jesus retornou a Nazaré, para que se cumprisse a profecia pois, crendo ou não, estariam sabendo que o Messias passou entre eles. Se nós observarmos, este mesmo fenômeno da rejeição sofrido por Jesus acontece ainda hoje com muitos intelectuais, artistas, cientistas que ganham destaque em outras localidades, até mesmo no exterior, e não têm reconhecimento nas suas regiões de origem. Ou só passam a ter esse reconhecimento depois de terem sido, antes, homenageados em terras estranhas. A humanidade de hoje, sob este prisma, continua a mesma dos tempos de Cristo.

Um fato, que merece destaque ainda que de passagem, é o fato de Jesus ter ido à sinagoga no sábado, como todo judeu cumpridor das suas obrigações. Evidentemente, Jesus não foi à sinagoga apenas nesta ocasião em que se encontrava em sua terra natal, mas fazia isso habitualmente por onde andava. Em respeito à Lei, Jesus respeitava o sábado e cumpria os rituais judaicos.

O segundo tema a ser comentado neste domingo é retirado da carta de Paulo a Coríntios (2Cor 12, 7), quando ele declara que foi espetado na carne por um espinho que é como um anjo de Satanás a esbofeteá-lo. No texto original grego a palavra é 'skóloph tês sarxi'', que significa estaca na carne (faz lembrar as histórias de Drácula isso), e no texto latino, a palavra usada por São Jerônimo é 'stimulus carnis', que nas traduções mais antigas era vertido como aguilhão na carne. Agora, a CNBB preferiu substituir aguilhão por espinho, porém me parece que espinho é algo muito brando para simbolizar a imagem proposta por Paulo. Na nossa cultura, o espinho mais afiado e rígido talvez seja o do mandacaru, que mede alguns centímetros. Mas a palavra 'skóloph' tem um peso muito maior do que simples espinho, simbolizando algo mais forte e poderoso.

Pois bem, Paulo diz que esse 'skóloph' foi enfiado na sua carne para que ele não se ensoberbecesse com a revelação que ele teve, após a sua conversão, quando foi tocado por Jesus e se transformou em discípulo tardio. Esta confissão de Paulo faz lembrar a passagem evangélica das tentações de Jesus, quando ele também se sentiu tentado com a soberba de se apresentar como poderoso, fazendo milagres e atraindo multidões. Sob uma abordagem diferente, Paulo relata ter sentido também essa mesma tentação da soberba de ter sido escolhido por Cristo para a sua sublime missão. Por três vezes, diz Paulo, pedi ao Senhor que me livrasse disso, mas Ele respondeu: basta-te a minha graça (2Cor 12, 9). Então, Paulo reflete acerca da suficiência da graça divina para a nossa salvação, ensinando-nos a não nos deixarmos sucumbir diante das dificuldades da vida, das nossas fraquezas, do desânimo e da falta de compreensão, muitas vezes, daqueles que nos são mais próximos. Diz Paulo que é na fraqueza que a força se manifesta. E arremata: Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte. Isto é: quando as adversidades me atacam, quanto mais elas me perseguem, mais eu conto com a graça divina.

Essa doutrina desenvolvida pela teologia da graça ensina que Deus dá a todos os homens a graça suficiente para a salvação. Porém, Deus não pega cada um pela mão para levá-lo pelo caminho do bem, porque se assim fosse, não haveria mérito nenhum da nossa parte. Deus nos dá a sua graça, mas espera que cada um aceite esta graça e a faça crescer em si através da fé, das ações, da caridade, do testemunho, sempre na confiança de que Deus jamais abandonará ao que tem fé. Essa doutrina contrasta com aquela outra sobre a predestinação, segundo a qual algumas pessoas estão fadadas à condenação, independente do que venham a fazer. De outro lado, outras pessoas estão escolhidas para a salvação, não importa o que fizerem na vida. Essa doutrina, se verdadeira, levaria à conclusão de que Deus seria sumamente injusto e que o livre arbítrio do homem não teria qualquer serventia. Mas a teologia católica não aceita isso. Ao contrário, ensina que todos são destinados à salvação, pois Deus dá a todos a sua graça. Porém, a graça não opera de forma automática, mas vai depender da forma como cada qual corresponde aos dons divinos. Ou seja, a graça divina é suficiente, mas não surtirá efeito sozinha, se não houver a colaboração da pessoa. Portanto, a salvação é um dom de Deus, mas é também uma conquista de cada um através da sua fé e das suas obras de misericórdia. A graça é suficiente mas não anula a liberdade e a vontade, de modo que alguém pode agir em desconformidade com ela. Isso é o que se chama de pecado, é quando nós, com nossas ações desajustadas, não correspondemos à graça e à missão que Deus reservou a cada um de nós.

Que o Senhor nos ajude sempre a descobrir em nós a graça que recebemos e nos dê coragem para agir de acordo com ela, incrementando-a com a nossa fé produtiva.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

COMENTÁRIO LITÚRGICO – SÃO PEDRO E SÃO PAULO – LIGAR E DESLIGAR – 01.07.2012


COMENTÁRIO LITÚRGICO – SÃO PEDRO E SÃO PAULO – LIGAR E DESLIGAR – 01.07.2012

Caros Confrades:

Neste décimo terceiro domingo comum, a liturgia dominical cede o lugar para a festa dos santos Pedro e Paulo, baluartes dos inícios do cristianismo e da igreja primitiva, em razão do acordo com o governo brasileiro sobre os feriados religiosos, que retirou o dia 29 de junho da lista dos feriados. Transfere-se, então, a celebração para o domingo seguinte, no caso, o domingo de hoje.

As leituras desta festa litúrgica evocam as importantes tarefas desempenhadas por Pedro e Paulo, na implantação e propagação do cristianismo e no estabelecimento da comunidade eclesial de Roma, que viria a se tornar depois a sede oficial da Igreja de Cristo. Este fato, contudo, não é aceito de forma unânime, mas é permeado por inúmeras controvérsias históricas e doutrinárias.

Todos os católicos conhecem a passagem do evangelho de Mateus, lida neste domingo, onde ele narra o episódio em que Jesus muda o nome de Simão para Cefas, palavra esta que vem do aramaico Képhas e significa rocha. Esta palavra foi 'traduzida' nos primeiros textos gregos por Petros, um vocábulo que na verdade não existia na língua grega e pode-se dizer que foi criada nessa ocasião. Daí deu origem à palavra latina Petrus. Na célebre passagem de Mt 13, 18-19, Jesus diz que sobre esta pedra será construída a sua ekklesia e dá a Pedro a chave do reino dos céus. Esta é a fonte do dogma denominado 'primado de Pedro', que dá ao Papa a chefia de toda a Igreja universal. Porém, isso é bastante controvertido entre os estudiosos seja católicos ou não católicos.

Nos primeiros séculos da Igreja de Cristo, não havia essa 'chefia' do bispo de Roma, onde Pedro foi o primeiro, sendo que cada comunidade local era chefiada por um apóstolo e depois por um sucessor deste, sem o reconhecimento de uma hierarquia dentre eles. São João evangelista, que foi chefe da igreja de Antioquia e foi o último dos apóstolos a morrer, isso por volta do ano 100 d.C., era uma autoridade reconhecida e não havia essa subordinação ao bispo de Roma, sucessor de Pedro (nessa época, era Santo Evaristo).

Aliás, essa divergência entre os que aceitam e os que não aceitam a primazia de Pedro foi um dos temas que serviu de pretexto para o cisma do Ocidente, ou seja, a divisão entre as Igrejas Católicas Ocidental (de Roma) e Oriental (de Constantinopla), fato ocorrido em 1054. E essa não aceitação do 'primado de Pedro' pelos bispos da Igreja grega se deu pela grande intromissão dos imperadores romanos dentro da Igreja, após o cristianismo ter sido decretado religião oficial do Império Romano, por ato do imperador Teodósio, em 380. Em diversos Concílios que ocorreram nos anos seguintes, essa insatisfação dos Padres Gregos foi levantada, pois estes se consideravam os detentores da tradição cristã mais genuína, não contaminada pelos imperadores romanos, sendo que as discussões nunca levaram a qualquer solução. A partir da coroação de Carlos Magno como imperador do Sacro Império Romano Germânico, no ano 800, ele que era bárbaro e fez muitas imposições religiosas, a insatisfação aumentou ainda mais, por causa dessas interferências consideradas ilegítimas pelos Padres Gregos. E isto foi se agravando até explodir quando o Patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, em 1043, começou a fazer campanha direta contra a doutrina defendida pela Igreja de Roma acerca da natureza do Espírito Santo, tendo sido repreendido por isso e terminou por ser excomungado pelo Papa, o qual foi por sua vez excomungado pelos Bispos da Igreja Bizantina, declarando-se abertamente a cisão ou cisma entre as duas Igrejas, o que prevalece até hoje. Somente no ano de 1965, o Papa Paulo VI, dentro dos ares renovadores e ecumênicos do Concílio Vaticano II, promoveu um encontro com o Patriarca Atenágoras, de Constantinopla, e assim ambos retiraram as excomunhões recíprocas, que haviam perdurado por mais de 900 anos.

O ponto central da questão está no fato de que a Igreja Católica do ocidente reconhecia o Bispo de Roma como Papa e como chefe da Igreja, no entanto, a Igreja Católica do oriente só reconhecia no Bispo de Roma um título honorífico, não uma autoridade universal. Podemos dar o exemplo do que acontece no Brasil com o Bispo de Salvador, na Bahia, que tem o título de Primaz porque foi lá a primeira Diocese instalada no Brasil, mas esta primazia não dá a ele uma autoridade sobre os demais Bispos. Era assim que os Bispos Gregos compreendiam a figura do Papa, como Bispo de Roma. Então, vemos que do ponto de vista histórico, o Cisma do Ocidente representou a oficialização do Bispo de Roma como o chefe universal da Igreja Católica, embora essa doutrina já existisse desde o terceiro século. Mas é oportuno registrar que Santo Agostinho, que viveu no século IV, segundo alguns estudiosos, discordava desse entendimento.

Bem, de uma forma ou de outra, o fundamento bíblico da 'primazia de Pedro' está no evangelho de Mateus, conforme acima referido (Mt 13, 19), o conhecido episódio das chaves dadas por Jesus a ele. Sobre isso, eu faço outras considerações. Segundo o texto latino da tradução de São Jerônimo, lê-se que, após 'dar as chaves' a Pedro, Jesus disse: “quodcumque ligaveris super terram, erit ligatum et in coelis, et quodcumque solveris super terram erit solutum et in coelis. Eu destaquei propositalmente os verbos 'ligaveris' e 'solveris' que são traduzidos, respectivamente, por 'ligardes' e 'desligardes'. Quando ao primeiro (ligaveris=ligardes), a tradução está literal; mas quando ao segundo (solveris=desligardes), ao meu ver, não seria bem esse o sentido. O tradutor português aproveita a morfologia dos verbos ligar-desligar para fazer um trocadilho, mas não é bem este o sentido do verbo 'solvere', que significa 'resolver', e deve ser entendido, ao meu ver, no sentido jurídico romano de 'resolver uma obrigação', ou seja, liquidar um débito, perdoar uma dívida, solucionar uma contenda. Na tradição histórica, os Papas muitas vezes 'abusaram' desse poder de ligare-solvere para introduzir muitas práticas e normas que terminaram por afastar o cristianismo das suas origens. Vou citar apenas dois exemplos, que são reiteradamente alegados pelos nossos 'irmãos separados': primeiro, o batismo das crianças e somente por aspersão no crânio,quando devia ser de pessoas adultas e mergulhando o corpo inteiro, conforme fazia João Batista; segundo, o formato da hóstia como é adotado na Igreja Católica, quando devia ser o pão comum, conforme Jesus fez na ceia derradeira. Eu não desconheço que há inúmeros argumentos e motivos a justificarem essas mudanças, mas seria o caso de perguntar se isso foi realmente necessário (com todo respeito, claro)?

Outra coisa. Com a instituição do direito canônico, a Igreja romana buscou dar uma mais sólida organização para a entidade eclesial, no entanto, isso trouxe como efeito colateral uma excessiva burocracia, que ainda hoje permeia o culto litúrgico e a administração dos sacramentos, deixando-nos em dúvida sobre até que ponto essas inovações das autoridades estão sendo fiéis ao mandato que Jesus confiou a Pedro, com a delegação de 'ligare-solvere'. Será que, ao longo dos tempos históricos, esse mandato conferido a Pedro não teria sido extrapolado com a introdução de ações divergentes, conforme a censura exercida pelos Padres Gregos contra a Igreja de Roma? Até que ponto essas novidades foram realmente fruto da necessidade pastoral ou de um exercício unilateral de autoridade? Lembro-me agora que Montesquieu, quando propôs que o poder do Estado fosse dividido em três (executivo, legislativo e judiciário), argumentou que as experiências históricas demonstraram que, sempre que um só exerce o poder, tende a exercê-lo com arbitrariedade. Não teria isso acontecido também com as autoridades eclesiásticas?

São reflexões que faço não no intuito de contestar ou desmerecer a autoridade do sucessor de Pedro, mas como uma espécie de autocrítica que, enquanto membros da Igreja Católica, nós podemos lançar na intenção de uma melhor compreensão do papel das nossas autoridades hierárquicas. As notícias que são filtradas do Vaticano e apenas em doses homeopáticas chegam à grande imprensa mundial deixam sérias preocupações sobre o poder da burocracia eclesial superando a hegemonia doutrinária e a herança escriturística. Que o Espírito Santo nos ilumine para compreender isso e ilumine ainda mais as nossas autoridades eclesiásticas constituídas.