sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Domingo da Ascensão - 05.06.2011 - a simbologia do número 40


Caríssimos Confrades,

ainda embalado pelo fraternal e primoroso encontro deste dia, no Seminário de Messejana, berço comum a todos nós, agradecido à espetacular acolhida que nos foi proporcionada por Frei Domingos, convido-os a refletir um pouco sobre a festa litúrgica de hoje, Ascensão do Senhor.
No meu entender, a ascensão é o corolário da ressurreição, como se fosse a continuidade desta. JC ressuscitou, mas continuou visitando os apóstolos, prosseguindo na catequese deles, reforçando e aprofundando os seus ensinamentos, para que eles pudessem depois transmitir ao mundo inteiro de forma fiel, servindo-se, para esta tarefa, de quarenta dias terrenos. Falo dias terrenos, por JC ressuscitado, encontra-se na dimensão da eternidade, então nesta condição, não se contam mais os dias nem os anos. Só após essa segunda etapa do aprendizado, ele se foi definitivamente, prometendo voltar.
Permitam-me fazer aqui um paralelo alitúrgico com o espiritismo. Talvez este fato de JC ter permanecido ainda por algum tempo entre os apóstolos, em forma espiritualizada, reforce a doutrina espírita, ao afirmar que o espírito fica 'vagando' por algum tempo, até encontrar-se definitivamente com a luz... para mim, não se trata do mesmo fenômeno, mas enfim, pode-se fazer este paralelo.
Mas voltando ao tema litúrgico, vê-se o cuidado que JC teve na preparação dos apóstolos, que eram sabidamente pessoas de pouca instrução, para continuar a instrui-los após a sua ressurreição, porque Ele precisava sedimentar na mente deles algumas verdades que havia ensinado de modo metafórico, e nesta segunda etapa do treinamento, aquilo que Ele lhes havia dito em linguagem figurada, havia se concretizado, e assim os apóstolos puderam entender melhor o que JC lhes queria dizer. Depois, então, com o Pentecostes, completou-se o ciclo da aprendizagem e iniciou-se a missão.
Verifica-se, na ascensão de JC, a repetição da simbologia do número 40, que acontece diversas vezes na Escritura: os 40 dias do dilúvio, os 40 anos da peregrinação do povo pelo deserto, os 40 dias de Moisés no Sinai quando recebeu as tábuas da lei, Davi reinou por 40 anos, Salomão reinou por 40 anos tb, Elias caminhou por 40 dias e 40 noites após ser alimentado pelo anjo, os 40 dias do jejum de JC no deserto, e na liturgia, temos os 40 dias da quaresma e depois os 40 dias entre a ressurreição e a ascensão. (OBS: lembremo-nos que o dia da ascensão foi a quinta feira passada, dia 2/6, quando se completam os 40 dias, sendo que a celebração neste domingo ocorre só no Brasil, por conta do acordo entre CNBB e governo federal, acerca dos feriados religiosos).
Há diversas interpretações para esta simbologia bíblica dos 40, sendo associada tb à cabala, que era uma seita mística judaica, mas em geral os biblistas entendem 40 como sendo o número que significa o tempo necessário para preparação de algo novo que vai chegar. Evidentemente, não se vai dizer que JC passou 40 dias contados no calendário, essa contagem se faz por motivos práticos, para ajustar aos dias do ano e para manter a simbologia bíblica, porque, conforme já escrevi aqui outras vezes, não se pode interpretar a Bíblia literalmente, como fazem alguns 'evangélicos'.
A narrativa bíblica de que 'uma nuvem o cobriu' e depois 'apareceram dois homens vestidos de branco' são tb simbologias. Mas eu já ouvi um 'crente' afirmar que JC vai voltar no meio de uma nuvem, do mesmo modo como subiu, e vai colocar à Sua direita os que cumpriram o descanso do sábado, ficando à esquerda os que não cumpriram isso... claro que se trata de uma interpretação absolutamente fundamentalista e não deve ser esta a melhor compreensão da mensagem. Por certo, a 'volta de JC para julgar os vivos e os mortos' não acontecerá num evento que se costuma denominar de 'fim do mundo', o grande cataclisma ou o armagedon, mas encontrando-se na dimensão da eternidade (ou seja, do não-tempo), este fim do mundo para Ele já ocorre (na eternidade, tudo é presente, não se usam verbos no passado) e então o 'fim' será para cada um de nós que for chegando ao final de sua permanência na esfera da temporalidade e adentrando na dimensão atemporal. Aqueles quadros medievais, que adornavam antigamente as paredes do seminário, mostrando sepulturas se abrindo e os mortos saindo de lá, são frutos da imaginação dos artistas europeus de antanho, não podem mais servir de parâmetro para o nosso entendimento no mundo atual.
Então, no meu entender, o conceito de juízo final, que tanto assustou os nossos pais e outros antepassados, não será um 'dia' de cataclisma (como diz a antífona: dies irae, dies illae, calamitatis et miseriae, dies magna et amara valde-dia de ira, aquele dia, de calamidade e de miséria, grande e mui amargo dia). Cada um de nós, ao concluir a nossa existência temporal, terá a sua ascensão e chegará ao 'dia eterno' em que JC julga todos, na sua dimensão da eternidade. Para nós, isso acontece num tempo determinado; para JC, simplesmente acontece, e pronto.

6º Domingo da Páscoa - 29.05.2011 - o Parákletos


Caros Confrades,

Na liturgia deste domingo (VI post pascha) temos a continuidade da teologia joanina da trindade:
Lemos no texto latino da vulgata - 14:15 si diligitis me mandata mea servate (se me amais, guardai meus mandamentos)
14:16 et ego rogabo Patrem et alium paracletum dabit vobis ut maneat vobiscum in aeternum (e eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro paráclito para que permaneça convosco eternamente)
14:17 Spiritum veritatis quem mundus non potest accipere quia non videt eum nec scit eum vos autem cognoscitis eum quia apud vos manebit et in vobis erit (o espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber porque não o vê nem sabe a respeito dele, porém vós o conheceis porque permanecerá junto de vós e estará em vós).
Primeiramente, gostaria de chamar a atenção para o significado do vocábulo PARÁKLETOS no grego: é um substantivo derivado do verbo PARAKALEÔ = chamar para junto de si, chamar em sua ajuda, convidar para ir junto. A tradução oficial da CNBB coloca 'defensor' e isso pode transmitir a idéia de um guarda costas, mas não é bem isso. Seria mais ou menos o equivalente ao defensor=advogado, aquele que vc chama para atuar em sua defesa. Na verdade, JC prometeu um parákletos=companheiro, ou seja, alguém que vc pode chamar em sua ajuda e convidar para ficar junto de si eternamente. Pode ser também o tipo do companheiro=consolador ou intercessor, pois este é outro significado possível do verbo parakaleô (consolar).
É neste sentido que JC disse aos apóstolos que não os deixaria órfãos, pois mandaria um "allon parákleton". São Jerônimo traduziu isso por "alium paracletum" (outro paráclito), isto é, JC está se autodenominando um parákletos, porque quando ele for embora definitivamente, o Pai mandará um outro e este outro não irá embora, mas ficará com eles para sempre. E, por outro lado, está afirmando que Ele e o Paráclito são idênticos e assim como o Pai mandou o primeiro paráclito, mandará em seguida o outro. Sinteticamente, aí está a teologia joanina da trindade, o Filho que procede do Pai e o Paráclito que procede do Pai e do Filho.
Merece destaque tb na primeira leitura, de Atos, o florescimento da comunidade cristã de Samaria, aonde foi inicialmente Felipe e depois foram Pedro e João, para infundir-lhes o espírito, pois eles ainda não o tinham recebido, só tinham sido batizados. E este fato confirma também os sacramentos da iniciação cristã: primeiro o batismo, depois a confirmação. Provavelmente, esta comunidade da Samaria, tão viva e dinâmica, ainda seria fruto do diálogo de JC com a Samaritana, relatado em um domingo atrasado, por cujo testemunho muitos da cidade creram nEle. Vou deixar para o nosso colega Bosco comentar os relatos dos 'espíritos maus que saíam dos possessos dando grandes gritos', conforme consta em At 8,7 provavelmente referindo-se a convulsões de pessoas portadoras de patologias mentais, que haviam sido curadas. Estes relatos de curas confirmam a promessa de JC (cf domingo anterior) de que aquele que crê realizará obras ainda maiores.
A propósito da expressão 'cura', tornou-se costumeiro ouvir nas intenções das missas orações por 'cura, conversão e libertação'... que me desculpem os que pensam diferentemente, mas essas expressões de pentecostalismo fundamentalista não me parecem coerentes com os ensinamentos do Concilio Vaticano II. Elas sinalizam para uma oração individualista, preocupada com a própria salvação (salvação da alma, como se dizia antigamente) e que fazem parte de uma teologia arcaica. A teologia atual ensina que a salvação é comunitária, ou seja, cada um se salva ajudando os irmãos a se salvarem. O próprio São Francisco já ensinava que é dando que se recebe. Por isso, penso que certos movimentos ditos 'renovadores', na verdade nada renovam, ao contrário, retrocedem a práticas que a partir do Vaticano II haviam sido deixadas de lado. O individualismo religioso, muito próprio da religião farisaica, já havia sido recusado pelo próprio JC, como é exemplo a parábola do bom samaritano. Penso que a ordem cristã de 'mandata mea servate' (guardai os meus mandamentos) começa pelo amor do próximo, e não pela preocupação consigo mesmo. A primeira cura que cada um deverá buscar será a libertação do próprio egoísmo, o parar de se olhar no espelho, para assim poder enxergar o irmão que lhe estende a mão à sua frente.

5º Domingo da Páscoa - 22.05.2011 - Ecumenismo e Trindade


Caros Confrades,

Reportando-me à liturgia deste domingo (5º post pascham), observamos novamente a leitura do evangelho de João, portanto, trata-se de um texto mais teológico do que histórico.
Eu diria que a leitura aborda dois temas importantes: ecumenismo e trindade.
Na primeira parte da leitura, Jesus diz que na casa do Pai há muitas moradas. Este ensinamento está coerente com a leitura dos Atos, que refere as desavenças entre os cristãos de origem judaica e os cristãos de origem grega, nos primeiros tempos, essa briga interna deu muito trabalho a S. Paulo, que em várias cartas faz referência a ela.
Pois bem, penso que JC quis ensinar que amar a Deus comporta muitas facetas, não há um só modelo ou um só ritual. Faz lembrar outra passagem do evangelho que relata algo mais ou menos assim. Os discípulos disseram a JC que encontraram 'pessoas que não eram dos nossos' expulsando demônios em teu nome e os proibimos. E JC disse: não façam isso, quem não está contra mim, está comigo.
Nos dias atuais, uma exagerada ortodoxia pode ser inconveniente, se considerarmos as diferenças culturais, por exemplo, entre europeus e latino americanos. Os europeus jamais aceitarão a linha teológica da 'libertação', isso já foi tentado mas foi em vão. As consequências que daí decorreram levaram a maior fechamento da doutrina. Há uma insistência teimosa do Vaticano no sentido de ensinar o cristianismo com a visão européia, desconhecendo as realidades concretas vivenciadas em outros países.
Na época de S. Paulo, a questão era só entre judeus e gregos, agora temos diversas matizes culturais em confronto e a doutrina precisa ser 'traduzida' de forma coerente com elas. JC já previa isso: são muitas as moradas, mas o Pai é um só. O sentido de universalidade presente no termo 'katólikos' não significa que todos devem vestir a mesma farda.
O outro ensinamento da leitura deste domingo é um início da revelação da Trindade. Quando Felipe pede: mostra-nos o Pai, JC responde: quem me vê, vê o Pai, eu e o Pai somos um. Os outros evangelistas não trazem este diálogo, o que denota que João teve acesso a outras fontes que os outros não conheceram. E denota tb em João um maior aprofundamento da doutrina teológica da Trindade, que nos outros evangelhos aparece de forma mais simplista. E chama a nossa atenção a afirmação de que 'quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que essas'. Se repararmos as obras realizadas por JC, que são de grande porte, e confrontarmos com essa promessa de que o cristão 'fará ainda maiores',  concluiremos quão diminuta é a nossa fé, porque ainda é muito pouco o que conseguimos realizar.
Mas temos algumas pessoas que se destacam nesse particular. Quero aqui fazer uma homenagem à beata Irmã Dulce, que na sua simplicidade conseguiu na sua vida fazer as grandes obras prometidas por JC àqueles que crêem.

3º Domingo da Páscoa - 08.05.2011 - os discípulos de Emaús

Prezados Confrades,

O evangelho deste domingo relata o conhecido diálogo de Cristo (incógnito) com os discípulos que iam para Emaús.
Sempre que eu leio essa passagem, me recordo do painel que existe na igreja de São Francisco, no convento de Sobral. Os Colegas que moraram lá e os que conhecem o templo devem se recordar. São dois grandes murais: Francisco segurando as colunas da igreja no lado esquerdo e Jesus partindo o pão com os discípulos em Emaús no lado direito.
E tb a frase antológica, traduzida por Jerônimo: Mane nobiscum, Domine, quoniam advesperascit. Fica conosco, Senhor, porque anoiteceu. Conforme o relato bíblico, isso se deu no primeiro dia da semana, isto é, no mesmo dia da ressurreição, à tardinha. E me faz lembrar tb do comentário que fiz no domingo passado sobre o corpo de Cristo ressuscitado. Por que será que os dois discípulos demoraram a reconhecer? É de se supor que ou a aparência de Cristo ressuscitado tinha alguma diferença do corpo físico ou então aqueles discípulos não eram seguidores assíduos de Jesus, por isso não conheciam bem as suas feições. Sou mais tendente a crer na primeira alternativa. O tempo que Jesus caminhou com os dois, os diálogos que tiveram no percurso, nada disso os fez reconhecer. Eles não seriam desatentos a ponto de não reconhecerem, até porque eles haviam esperado três dias por alguma novidade. Deve ser mesmo por causa de alguma diferença na aparência.
Curioso tb é que os dois disseram: pensávamos que ele iria libertar Israel... esse foi o dilema que levou Judas a trair, ele achava que forçando a barra, Jesus iria por fim se enfurecer (como acontecera no templo com os vendedores) e iria fazer alguma mágica pra se livrar dos soldados na hora de ser preso; só que nada disso ocorreu e a decepção de Judas foi sem tamanho.
Outro fato interessante narrado no evangelho é que, quando os dois perceberam que era Jesus, logo ele desapareceu na cara deles, isto é, não saiu correndo nem disparou em alta velocidade, simplesmente evanesceu. Era assim que ocorria tb quando Ele entrava no cenáculo, estando as portas fechadas e depois saía sem que as portas fossem abertas. Essas são algumas das características do corpo-espiritual em que nos tornaremos após a ressurreição.
Por isso, no comentário que escrevi para o Bosco e depois enviei para todos, referi-me a não pensar antropomorficamente. A nossa referência existencial é o corpo-materia, mas para cogitarmos sobre os eventos da ressurreição, devemos fazer um esforço mental para superar isso.
Certa vez, eu vi um adesivo colado no parabrisas de um veículo com os dizeres: onde você passará a eternidade? Aí está um grande contrassenso ao pensar antropomorficamente as coisas da além-vida. Eternidade não passa, eternidade é tudo um momento único. O que passa é o tempo, eternidade é a dimensão do não-tempo. Eu tb já vi em convite de missa de pessoas falecidas dizeres assim: três anos de eternidade... outro contrassenso, eternidade não se mede em anos, eternidade é, simplesmente.
Lembremos a autodefinição de Javé, quando Moisés perguntou quem era ele: eu sou. E pronto. Assim, a eternidade é. Naquelas gravuras antigas que enfeitavam as paredes dos nossos claustros havia inscrições onde diziam que no inferno só há duas palavras: nunca, sempre. Referiam-se ao castigo eterno. Tirando essa apelação tosca, entendo que assim devemos pensar a eternidade: nunca, sempre.
Por isso, a morte e a ressurreição de Cristo foram uma vez só e para sempre, porque para nós, aconteceu na dimensão do tempo, mas para Ele aconteceu na dimensão da eternidade, então é sempre, sempre. Em cada missa, se faz a memória desse acontecimento eterno. Daí porque, segundo penso, não é a quantidade matemática de missas assistidas que torna alguém mais cristão do que outro. Daí porque, em cada missa, acontecem de novo a morte e a ressurreição de Cristo, embora este fato só tenha acontecido historicamente uma única vez. Mas esta única vez foi na dimensão da eternidade, ou seja, na dimensão do sempre, por isso, cada nova celebração temporal, mesmo somando todas, nunca se igualará à missa eterna.
Lembrei-me agora que o Frei Agostinho possuía cadernos, nos quais ele anotava todas as missas que havia celebrado desde que foi ordenado, e tinha vários deles. E ele celebrava, no mínimo, três missas todos os dias; aos domingos, então, eram cinco missas. Às vezes, celebrava com o templo vazio, mas essa era a sua prática. Exatamente ao contrário do que escrevi acima. Mas, que Deus o tenha na sua glória.

2º Domingo da Páscoa - 01.05.2011 - o corpo de Cristo ressuscitado


Caros Confrades,

Gostaria de comentar com vcs hoje alguns trechos da liturgia dominical, cujo evangelho relata o ingresso de JC no salão onde estavam os apóstolos (estando as portas fechadas) e a dúvida de Tomé.
Fico pensando na aparência do corpo de Cristo ressuscitado. Conforme o relato do evangelista, nas primeiras vezes em que JC apareceu, após a ressurreição, eles tiveram dificuldade de identificá-lo. Foi assim com os discípulos que iam para Emaús, foi assim com Pedro e André que estavam pescando, foi assim na primeira vez no cenáculo... depois, eles passaram a identificar sem maiores dificuldades. Seria porque o corpo de Cristo ressuscitado não tinha semelhança com o corpo físico? ou será porque eles ainda estavam em dúvida se JC teria ressuscitado mesmo? Fico pensando que talvez fossem as duas coisas. Tanto assim que JC precisou mostrar-se várias vezes, partiu o pão com eles, comeu peixe frito, mandou Tomé colocar a mão nas feridas... e fez muitos prodígios (diz João no evangelho de hoje) que não estão escritos, mas apenas alguns foram escritos.
Pois bem, o fato é que JC entrava nos locais mesmo estando as portas fechadas e sumia do mesmo modo como aparecia, sem que eles percebessem como. A teologia ensina que a ressurreição de Cristo é o modelo da nossa ressurreição, assim o corpo glorificado de Cristo, o mesmo que ascendeu (ascensão) depois sob a vista deles, será tb o modelo do nosso corpo post mortem, quando tb ressuscitaremos.
Atentem bem: estou falando de corpo. Sim, porque existe uma idéia muito comum de que o corpo vai para o sepulcro e a alma vai para a eternidade. Essa afirmação é equivocada. O que vai para o sepulcro é o corpo=matéria, mas nós temos um substrato corporal que fica aderido ao espírito, de modo que nunca haverá uma separação total entre corpo e alma, nem mesmo após a morte. A ressurreição de Cristo é a prova disso: o corpo glorificado de JC nos antecipa como ficará a nossa forma corporal depois que deixarmos para trás o princípio material pelo qual nos identificamos neste mundo. Daí porque eu não aceito a teoria espirita de que o espírito retorna em outro corpo... o nosso corpo é um só e assim será sempre. Se nós reencarnássemos, teria que ser com o nosso próprio corpo, já que o espírito adere a um corpo permanentemente. Esse pensamento comum dentro do espiritismo é resultado de uma equivocada distinção, que tb era afirmada pela teologia antiga, que separava no homem o corpo e o espírito. Isso foi o resultado do aproveitamento da teoria de Aristóteles dentro do pensamento cristão. Ocorre que Aristóteles era pagão e, como os demais gregos, materialista. O aproveitamento da teoria de Aristóteles na doutrina cristã gerou essa interpretação equivocada acerca da relação corpo-espírito.
Então, a ressurreição de Cristo vem demonstrar para nós que o espírito nunca se separa por completo do corpo. O nosso ser espiritual (corpo+alma) é que se separa do suporte material que precisamos para nos manter e nos comunicar no mundo material. Tal como o corpo glorificado de Cristo era identificável para os apóstolos (não era o espírito de Cristo que aparecia para eles, pois espírito não come nem mostra feridas), assim todos nós seremos sempre identificáveis com a nossa forma humana, seja no mundo material, seja no mundo espiritual.
Tem um outro ponto do evangelho de hoje que eu queria comentar, mas como já escrevi muito, vou apenas mencionar, para reflexão de vcs. Diz o evangelista que: Jesus soprou sobre eles e disse - recebei o Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados, etc.. o restante da frase todos conhecem. Ora, meus amigos, se JC disse: recebei o Espírito Santo naquela ocasião, então porque foi preciso acontecer o Pentecostes? será que JC não repassou para os apóstolos o Espírito Santo por inteiro? e no Pentecostes, o que foi mesmo que aconteceu? isso é só pra todos observarem que não se pode interpretar a leitura bíblica ao pé da letra, mas devemos sempre interpretar sistematicamente.

Domingo da Páscoa - 24.04.2011 - a data da páscoa


Caros Confrades:
Neste domingo, reproduzo um trecho da mensagem de Páscoa dirigida pelo Papa aos peregrinos presentes em Roma nesta data:

Queridos irmãos e irmãs! Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21, 1), onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai. Ele está conosco até ao fim dos tempos. Sigamos as suas pegadas, neste mundo ferido, cantando o aleluia. No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha connosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu.

Eu gostei do trecho onde ele disse: sigamos as suas pegadas neste mundo ferido cantando aleluia. A rigor, isso não é nenhuma novidade, porque tb no tempo de Cristo, o mundo tinha as suas chagas e assim continua em todos os tempos históricos. Mas a ressurreição de Cristo deve ser um perene símbolo da esperança de cicatrização das feridas do mundo e essas nunca deverão ser motivo pra deixarmos de entoar aleluia, pela certeza que Ele nos dá de que para nós a Sua ressurreição é a antecipação da nossa.
Hoje, eu estava lendo um folheto que me foi dado por um aluno (não sei qual a sua crença religiosa, mas com certeza, não é a católica) e nesse folheto, o autor do texto dizia que Cristo não celebrou a Páscoa, apenas convidou os apóstolos para uma refeição, num dia diferente da festa pascal, por isso a celebração da morte de Cristo deve ser feita com uma refeição simples, tal como ele fez com os apóstolos.
Indiretamente, o texto afirma que a celebração da Páscoa cristã é criação da Igreja Católica, porque a páscoa antiga é uma festa pagã. Isso, ao meu ver, tem um certo fundamento de verdade. Cristo não comemorou a Páscoa daquele ano em forma humana, porque a sua morte ocorreu antes dela. Por outro lado, com a sua ressurreição, Cristo reinventou a Páscoa, celebrando-a em forma divina. Isso não está escrito nos evangelhos, porque os apóstolos ainda não tinham despertado para essa associação entre Ressurreição e Páscoa. Esta idéia foi-se consolidando aos poucos nas comunidades eclesiais da base, com o desenvolvimento da reflexão teológica.
A Igreja-hierarquia demorou vários séculos para compreender isso, tanto assim que a definição da celebração da Páscoa só aconteceu no Concílio de Nicéia (325 d.C.), ou seja, foi só no século IV que a Igreja estabeleceu a marcação do domingo da Páscoa conciliando tradições divergentes que ocorriam até então, oficializando tb a relação entre Ressurreição de Cristo e Páscoa. Sob este aspecto, pode-se dizer que a celebração da Páscoa foi uma "invenção" da Igreja, mas a ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana (como dizem as Escrituras) e no meio das comemorações da páscoa pagã é um fato histórico, ou seja, a Igreja não inventou isso.
Seguindo esse mesmo raciocínio, alguém poderá alegar que os judeus tb 'inventaram' a páscoa em 14 de nisã, de acordo com o calendário deles. Afinal, uma data precisava ser definida, foi o que fez o Concilio de Nicéia. A data, porém, é de menor importância. O mais importante é o fato comemorado e este fato, ressalta o Papa na homilia, não é simples especulação, mas verdade histórica confirmada por documentos e testemunhos tanto de cristãos como de não cristãos.
Por isso, meus amigos, felizes somos nós que acreditamos na Ressurreição de Cristo ou na Páscoa da Ressurreição, porque sem ela, nada mais faria sentido, como disse Paulo, pois tudo seria vão.
Renovados votos de Feliz Páscoa a todos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Comentario litúrgico - domingo 15/01/2012 - fala, Senhor

Caros Confrades,

Retornando às nossas casas, após o nosso agradável e fraterno II ENSESE no bucólico Mosteiro da Serra do Estêvão, é tempo de refletir sobre o tema litúrgico deste 2º domingo comum, centrado no chamado ou na vocação. Na homilia da missa do sábado, dia 14, o nosso confrade Frei Wilson destacou alguns pontos importantes deste tema, por isso, sem ser repetitivo, eu gostaria de abordar outros destaques.
De início, quero lembrar aquela melodia do nosso confrade Gregório, que o Frei Higino gostava muito de nos ouvir cantando: "Falai, Senhor, que vossos servos vos ouvem e desejam instruirem-se para melhor conhecer-vos e mais ardentemente amar-vos", homenageando o nosso fradeco falecido. Ele tomou como tema exatamente o mote bíblico de 1 Sm 3, 10, o chamado de Javeh a Samuel. Este era um jovem que nunca havia tido contato com o Senhor e por isso não identificou, de início, o chamado. Quantas vezes, isso tb acontece conosco, que embora não sejamos jovens de idade como o Samuel da leitura, mas não conseguimos ouvir ou identificar o chamado que nos chega da parte de Deus. Este chamado nem sempre é assim tão claro e insistente, como sugere a 1a. leitura, às vezes, ele é sutil e delicado, que é quando o chamado vem através da voz do irmão necessitado, por exemplo. Outrora, nós fomos conduzidos até o Seminário, por termos ouvido um chamado através dos nossos pais, parentes, sacerdotes ou através de acontecimentos marcantes, que nos impulsionaram até lá. O fato de termos saído do seminário não significa que nós renunciamos a seguir o chamado, mas apenas que Deus nos deu oportunidade de seguir este chamado, através de outras atividades, que não as da vida religiosa consagrada.
Esses dois encontros realizados em Quixadá, 2011 e 2012, deixou bem claro este fato. Eu achei muito curioso o depoimento do nosso confrade Frei Joao Batista, que nao participou do encontro anterior, na hora em que o Frei Leão perguntou o que tinha significado o Seminário para a vida dele e ele respondeu simplesmente: TUDO. Se nos lembrarmos bem, foi exatamente essa a impressão que todos deixaram no encontro do ano passado, quando cada um dos participantes teve seu momento de depor para o grupo. Se ele tivesse ouvido os depoimentos dos outros, poderíamos até dizer que ele teria sido sugestionado a dizer isso, mas não, ele falou isso de própria inciativa. Ora, meus amigos, o que significa esse TUDO senão que todos nós continuamos seguindo o chamado, cada um percorrendo o seu próprio caminho? E as nossas esposas, induzidas por nós, também estão participando e colaborando neste seguimento, ou seja, o chamado dirigido a cada um de nós não ficou apenas em nós, mas se estendeu e multiplicou sobre nossas esposas e nossos filhos. Quando a gente se comunica com um colega que há muito tempo não vê e sabe que ele atua, de alguma forma, nas atividades da paróquia, nos grupos de oração, nas tarefas pedagógicas, percebe-se que esse é o seu modo pessoal de seguir e atender ao chamado do Senhor.
Na leitura do evangelho de João (1, 42), vemos a narração do chamado especial de Cristo dirigido a Pedro. Pelo que se deduz da narrativa joanina, logo na primeira vez que Pedro foi apresentado a JC pelo irmão dele, André, JC foi logo dizendo: teu nome é Simão, mas serás chamado Kéfas. Não é de admirar que só o olhar para Pedro já foi suficiente para JC entender que ele era um grande cabeça-dura, como depois ele demonstrou com seus atos. Mas era exatamente esse cabeça-dura que JC queria para ser o chefe (kéfas) da sua ekklesia.
Observem alguns aspectos interessantes da análise do vocábulo KÉFAS. No próprio texto do evangelho (1,42), o evangelista João se preocupa logo em traduzir kéfas. Lembremo-nos que o evangelho de João foi escrito por volta do ano 100 d.C. e nessa época a figura de Pedro já estava consolidada como chefe da Igreja. No texto latino, diz assim: quod interpretatur Petrus - Petrus com letra maiúscula (tradução literal: que se interpreta como Pedro). No texto grego original está escrito: ó hermeneuetai Petros, isto é, igual ao texto latino, Pedro. A palavra kéfas não é grega, mas aramaica, a língua falada por Cristo. Segundo a internet, kéfas em aramaico significaria 'rochedo esburacado'. Por isso, João disse que Kéfas se interpreta como Petros, ele não disse que era sinônimo de pedra. E João fez isso, como escrevi acima, cerca de 30 anos após a morte de Pedro, certamente lembrando a passagem de Mateus (13, 18). Isso significa que se trata de uma reflexão do próprio João, lembrando das palavras de Cristo e ao mesmo tempo vendo como essas palavras tinham se realizado historicamente no desenvolvimento da comunidade cristã.
Apenas para recordar, o evangelho de Mateus foi escrito originalmente em aramaico (a língua falada por Cristo) e só depois traduzido para o grego. Portanto, deduz-se que foi através desta passagem de Mateus (13,18 - tu es Petros e sobre esta Petra edificarei a minha igreja)  que a palavra kéfas foi introduzida no idioma grego e deste, transferida para o latim.
Um outro aspecto tb interessante da palavra kéfas, que por não ser grega nem latina, ela foi simplesmente transliterada nos dois idiomas - quero dizer: tanto em grego como em latim, foi copiada a sua pronúncia do aramaico. Mas por uma feliz coincidência, kéfas contém a primeira parte da palavra grega kefalé, que significa 'cabeça', então o chamado de Pedro foi especial porque JC o colocou, ao mesmo tempo, como fundamento (alicerce) e tb como chefe (cabeça).
Percebemos assim que as leituras de hoje abordam tanto o chamado individual, que JC faz a cada um de nós para segui-lo e dar testemunho dEle, a vocação de todos nós, como tb o chamado específico de Simão para ser o chefe, simbolizando, através da pessoa dele, que ele (Pedro) seria o Seu substituto para continuar a missão, depois que ele voltasse para o Pai. Indiretamente, JC está nos dando o sinal da obediência que a comunidade eclesial deve prestar a Pedro e aos seus sucessores, como se fosse obediência a ele próprio. E é assim que a Igreja de Cristo vem se mantendo firme e forte através dos séculos.
Conta-se (não sei se é verdade) que Napoleão Bonaparte, quando assumiu o trono como imperador da França, no final da Revolução Francesa, chamou o Bispo e disse a ele que tinha como objetivo destruir a Igreja. O Bispo fez um sorriso sarcástico e falou: pode até ser que Vossa Majestade consiga, porque os padres e bispos vêm tentando fazer isso faz anos e nunca conseguiram... e nem conseguirão. Os homens, mesmo os dirigentes eclesiais, passam e a ekklesia de Cristo vai se mantendo e se fortificando.
Aproveitemos para refletir de que modo cada um de nós, nas nossas vidas na familia, no trabalho, no lazer, no estudo, na educação dos filhos, prossegue com fidelidade sendo fiel ao chamado que nos foi dirigido.